Quebranto.

6 O levante das testemunhas.


Notas iniciais
Bem pessoal, acho que o nome do capítulo deixa meio implícito o que vai rolar. A questão principal é o "como". Espero que gostem dessa parte da história. Qualquer crítica, elogio, insentivo ou sugestão, é só mandar um review. Não mata, e ainda deixa um autor muito feliz! Antes que eu me esqueça: Capítulo dedicado à Thamires F! Obrigado pelo apoio, querida. Boa leitura a todos!

A primeira coisa que senti, foi o asfalto quente queimando minha mão. Abrir os olhos foi a parte mais difícil, pois um corte pouco acima da minha têmpora esquerda estava deixando tudo nublado. Eu sabia que o carro havia capotado, mas levei um bom tempo para perceber que o veículo estava de cabeça para baixo. Carolina e Luca haviam prendido o cinto de segurança, e estavam presos de ponta cabeça aos bancos da frente. Ana e Otávio, por sua vez, estavam amontoados em cima de mim, e nossas tralhas estavam por todo o lado. Aos poucos, a luz que me ofuscava diminuiu, ou meus olhos se acostumaram a ela. Ao longe, vi um ponto prateado que brilhava no asfalto. Era meu Iphone. Despedaçado. Ótimo.

Eu era a única que não tinha bebido ali, e consequentemente, a primeira a acordar e sentir os ferimentos. Além da minha têmpora, meu ombro direito estava latejando, e minhas coxas desnudas tinham hematomas que eu nunca julgara serem viáveis. Jurava que podia ver o mapa do Brasil em um deles. Decidindo que continuar ali dentro seria inútil, me arrastei para fora ignorando a dor em meus joelhos, que queimavam com a temperatura do solo, e eram perfurados por pedacinhos de vidro. Pulando de um pé para o outro, me odiei por estar de camisola numa situação daquelas. O cetim espalhafatoso parecia deslocado e sacal, naquele momento. Olhei ao redor, notando que a estrada estava deserta, exceto pelos vastos quilômetros de pasto e alguns bovinos no horizonte. Aquele era o cenário básico do caminho para a região dos lagos. Pastos, vacas, construções rurais e humildes, mais um grande monte de nada. Eu verifiquei meus amigos, e vi que todos pareciam bem. Otávio estava acordando, assim como Carolina. Minha amiga entrou em pânico tentando se soltar do cinto de segurança, e quando a ajudei, percebi que ela não tinha qualquer ferimento. Respirei aliviada. Ana chorava e segurava o pulso esquerdo, quando Otto a tirou do carro. Só faltava Luca, que soltei do cinto e apoiei quando acordou. Ele também estava bem. Ainda abalados, não conseguimos conversar. Vimos que perto da estrada, dentro de um dos pastos, havia uma mangueira frondosa o suficiente para nos abrigar. Luca me pegou no colo, pois meus pés já estavam quase em carne viva, e me levou até a árvore, enquanto Ana caminhava ao nosso lado com duas mochilas. Carolina colocava cones sinalizadores na estrada, e Otto retirava nossas bolsas com comida para a viagem. Biscoitos, latinhas de Coca-Cola, cerveja e doces que não nos manteriam vivos nem por dois dias.

Antes que eu pudesse perceber, senti minhas lágrimas caindo no meu colo. Eu estava sentada sobre um lençol que havíamos retirado do quarto, e o calor era insuportável. Minha camisola estava em frangalhos, assim como meu humor. Minha cólica menstrual parecia-se com a mão do capeta vasculhando o meu útero, e a sede que eu estava sentindo me deixava doida. Ana gemia enquanto Carolina amarrava uma meia calça em seu pulso. Eu não era especialista, mas sabia que ela estava fazendo errado. Mas era melhor do que deixa-la com dor. Otto parecia arrasado, e bebia cerveja quente como se fosse picolé. Luca não falava nada, e se mantinha afastado com o celular na mão. Ele não parara um minuto desde o acidente. Contudo, todos os aparelhos eletrônicos que não haviam sido destruídos (os celulares dele e de Otávio, além do tablet de Ana) estavam sem sinal.


– Ai, que dor! – resmunguei, quando Carolina começou a passar protetor solar nos meus pés. Não era o mais apropriado, mas como eu estava sem alternativa, era melhor que nada. Apesar de não poder tomar banho, me afastei do grupo com Carol e juntas, trocamos de roupa. Eu rasguei minha camisola em tiras, e troquei meu absorvente. Tentei me limpar, mas parecia impossível. Melhor não comentar a alternativa que encontrei.


Segurando o choro, lavei as mãos com cerveja, e me encontrei com ela de novo. Estava praticamente me arrastando por conta das dores nos pés, mas com o passar do tempo, todo mundo parecia ficar pior. Otto não dizia uma palavra, e desligara o celular para poupar bateria. O de Luca desligara a pouco pelo mesmo motivo. Ana finalmente dormira depois de tomar dois comprimidos de Paracetamol. Seu pulso parecia inchado e bem machucado. Estava anoitecendo mais rápido do que eu gostaria, e os ombros de Luca estavam vermelhos a ponto de eu prever, sem muita dificuldade, uma insolação. Olhamo-nos, e ele percebeu que não haveria resgate naquele dia. E mais importante ainda: Percebeu que eu precisava dele. Sentando ao meu lado, ele tirou a camisa e se virou de costas, enquanto eu comecei a passar um hidratante em suas marcas. Logo ele ficaria ardido, e sua pele praticamente chupava o produto. Passei uma quantidade maior ainda, e depois me deitei em seu colo.


– Luca. – chamei-o.


– O que foi, Vicky? Sem sono? – Luca fez carícias em meus cabelos, mas falava de modo automático.


– Meu sono não é o que me preocupa. É você. – falei, virando-me para encará-lo. – Sei que está se culpando pelo que aconteceu só que não foi toda sua, a culpa. – eu sabia que devia consolá-lo, mas eu não o isentaria. Eu não era assim. – Todos os outros também beberam, e tecnicamente, a Mãe Natureza e Deus fizeram um sexo gostoso e criaram essa porra de vírus que está acabando com tudo. Não é culpa sua. – falei, decidida.


– Eu sei. Mas era eu quem estava no volante. Não posso aceitar isso. – Luca estava chorando. Eu não suportava vê-lo daquela forma. Acariciei seu rosto, e ele fechou os olhos. – Eu quase te matei. Quase matei todo mundo. Merda olhe os seus pés! Estão horríveis. – ok. Eu sabia que estavam. Mais ainda fiquei irritada quando ele falou.


– E ficar se matando por isso vai tirar a gente daqui? Porque se for, me avisa! Assim a gente já poderia estar na casa de praia do Otto! – falei, sorrindo. Ele fez uma cara de bravo. Não gostou da brincadeira. – Não pense que estou zombando de você. A questão não é essa. Não se pode mudar o que passou. Mas precisamos de você agora. Não deixe sua mente ir pra longe. Nem que seja por mim...


– Tudo bem. Eu prometo que vou tomar conta de você. – ele se abaixou e beijou meus lábios. Os dele tinham gosto de Coca-Cola e Doritos, enquanto os meus tinham gosto de Trident’s de canela. Ficamos daquele jeito por certo tempo, até que comecei a ser vencida pela exaustão.


Nosso acampamento improvisado estava sendo atacado por uma dezena de mosquitos, e ignorá-los era difícil. Por sorte, minha mãe havia posto muitos frascos de repelente spray na minha bolsa. Aquilo parecia afastar os insetos por algum tempo. Eu estava tão cansada, que nem tinha forças para me queixar. O sono me tomou, e não vi mais nada. Mal sabia eu que o dia seguinte seria ainda pior.

Antes mesmo de abrir os olhos, torci para que tudo não passasse de um sonho. Porém, o suor grudado ao meu pescoço anunciava que minha vida nunca mais seria fácil. Se ainda havia um resquício de sorte em meu destino, ele morrera quando a Pousada do Avestruz revelara-se uma cova coletiva. Agora, numa situação daquelas, eu me arrependia por não termos roubado comida, ou esperado a polícia chegar. Mas se de fato alguma autoridade tivesse nos encontrado, duvido que nos permitam sair, simplesmente. Levar-nos-iam para algum hospital, onde, mesmo que ainda não estivéssemos contaminados, ficaríamos. Minha boca estava seca como o deserto do Saara, e estarmos tão próximos daquele asfalto quente me fazia sentir como se estivesse no Mercadão de Madureira, ou seja, num inferno. Notei que Otto estava do meu lado, e tentava mexer no celular outra vez. Ana e Carolina estavam tirando mais coisas do carro, e eu não via Luca em lugar nenhum. Comecei a sentir algumas mordidas de mosquito coçando, e levantei-me, rendida. Minha saia vermelha prendeu em uma árvore enquanto caminhava, e abriu um rasgo que subiu da minha canela, para meu joelho. Praguejei, e oprimi minha raiva enquanto caminhava na direção do pasto, que se estendia até o horizonte. A grama, iluminada pelo sol, assemelhava-se a um mar em verde. Luca não estava longe. Uma goiabeira se erguia orgulhosa contra o céu, e estava repleta de frutos. Ele estava pendurado em um dos galhos mais grossos, jogando várias frutas em uma cesta improvisada feita com sua blusa.


– Espero que não estejam bichadas. – comentei, sorrindo de leve. – Imaginei que você não conseguiria sentar e esperar. Nenhum de nós consegue.


– Eu tive que te deixar dormir. Você apagou por quase quinze horas. – me contou Luca. Minha boca escancarou-se, mas eu sabia o motivo. Todos os calmantes naturais que eu vinha tomando, estavam acumulando meu sono. Meu corpo estava aproveitando para compensar o pouco que eu dormira, desde a noite com Luca. Minha primeira vez parecia agora estranhamente distante, meio deslocada naquele caos. Metade do Rio de Janeiro estava morto, e nós querendo sair de férias. Além de ser o cúmulo da alienação, senti-me uma irresponsável por deixar minha família.


Pensar em mamãe, Carlos, papai e Silvia, me fazia sentir uma estranha dor no peito. Meus olhos arderam, e eu tive que conter o choro. De uma forma inesperada, eu era quem melhor estava lidando com aquilo tudo. Vez ou outra, eu sentia alguns dos meus impulsos compulsivos lutando para dominar-me. Manter o controle e consolar os outros, era a única forma que eu tinha de não enlouquecer. Luca se soltou da árvore, e veio na minha direção. Seu cabelo cor de cobre reluzia num vermelho profundo. Os olhos, pareciam duas esmeraldas rutilando como faróis. Com a blusa levantada e segurando as frutas, ele exibia seu abdômen malhado. Eu sabia que não era de propósito, e que eu era uma vadia de carteirinha por pensar em algo do tipo naquela situação, mas hey! Eu tinha acabado de ter minha primeira vez. Meus hormônios estavam gritando! O puxei para um beijo, abraçando-o pelo pescoço. Ele correspondeu com mais entusiasmo do que eu esperava, e acabou largando as goiabas no chão, para me abraçar de volta. As frutas caíam enquanto ele girava e me colocava contra a árvore. Suas mãos passeavam pelas minhas coxas, aproveitando-se do rasgo em minha saia. Minha blusa preta de um ombro só revelava a tira direita do meu sutiã. Ele fez menção de colocar a mão sob o tecido, mas o afastei com gentileza.


– Olha Luca, acho melhor a gente ficar em segurança, antes de fazer isso. – se eu soubesse que nunca mais ficaríamos em segurança, faria uma escolha de palavras melhor. – Vamos levar as frutas para o pessoal, vai ajudar a passar o tempo.


Concordando, Luca se abaixou para pegar as goiabas. Colocando um pouco do meu cabelo atrás a orelha, me abaixei ao seu lado para catar os alimentos também. Eu franzi o cenho e me levantei, quando ouvi o mugido alto de um bovino. Era algo dolorido e desesperado, e fez com que Luca se erguesse também. Como num estouro de boiada, vacas corriam por todo o lado no pasto, enquanto um dos animais jazia tombado, com nada menos do que uma figura humana sobre si. Ana, Otávio e Carolina se aproximaram com a confusão, e ao longe eu vi os animais saindo do meu campo de visão. Todos nós nos entreolhamos, tensos por ver um homem com aparência pálida e mórbida devorando um bezerro vivo. Eu não conhecia bem os hábitos do pessoal do litoral, mas tinha certeza que nenhum cidadão era canibal, ou primitivo. Como ninguém se mexia, comecei a andar na direção do cara, feliz por encontrar mais alguém naquele fim de mundo. É claro que eu também estava com medo, mas o instinto social que a humanidade estabelecera por tantos séculos, falou mais alto. Senti um solavanco quando Luca segurou meu braço. Ele parecia aterrorizado.


– Ficou maluca, bitch? – esganiçou-se Otávio, sacudindo os braços. – O cara tá devorando um bezerro vivo, e ao invés de correr pra longe, você caminha na direção dele?


– Qual é Otto! É um homem, caramba. Ele pode ser um maluco, doente, que fugiu! Pode ter gente procurando por ele, ainda mais com essa gripe fodida por aí! – interveio Carol.


– Ele parece doente mesmo. – concordou Ana. – Talvez tenha algum tipo de deficiência, e está perdido da família há muito tempo. Deve ter atacado o bezerro de tanto desespero. – supôs.


– E você acha que ele não vai morder a Vicky, se ela for até lá? – disparou Luca, ainda segurando meu braço.


– É verdade, admito. – eu disse, abraçando Luca. – Se ele me atacar, não vou ter força pra escapar. – todos pareceram aliviados com minha conclusão. – É por isso que você e o Otto devem ir. – pedi, dando um beijo na bochecha dele.


– Nem fodendo! – reclamou Otávio.


– Vamos lá, cara. – chamou Luca, sorrindo. – O cara é velho e parece que vai desmanchar. Nós dois damos conta.


E foi assim. Otávio e Luca se dirigiram até o local onde a grama se tornava vermelha, tamanha era a quantidade de sangue que o pobre animal perdera, antes de morrer. O homem maluco parecia estar coberto pelas entranhas e fluidos do bezerro, e nem se importou com a aproximação dos meninos. Otávio parecia hesitante, mas mesmo assim se aproximou. Meu coração falhou uma batida, quando ele tocou o ombro do sujeito. E foi só o que bastou. Como se estivesse possuído por uma entidade das trevas, o cara se jogou sobre Otávio, que gritou de imediato. Ele segurava os braços do homem, que parecia querer mordê-lo, ou algo do tipo. Antes de me dar conta, meus pés estavam doendo sob o peso do meu corpo, e eu corria desesperada. Ana e Carol vinham logo atrás, as duas chorando. Luca se atirou contra o cara, e o imobilizou com uma chave de pescoço. Eu o vira usar aquele golpe uma única vez, quando um cara passou a mão na minha bunda. O menino desmaiara pouco depois, e eu sabia que logo o cara teria o mesmo destino. Parei a poucos metros do lugar onde a confusão acontecia, e Otto veio correndo ao meu encontro. Eu abracei meu irmão postiço, sentindo-me coberta de sangue de bezerro.


– Luca, o que aconteceu aqui?! – berrou Carol, esbaforida.


– Não sei, merda! Já era pra esse lunático ter desmaiado há uns cinco minutos! – respondeu Luca, com o rosto ficando vermelho. O homem se sacudia todo, grunhindo pra gente. Parecia um bicho.


– Gente, vejam os olhos dele. Tem algo errado. – apontou Ana, com sua mão enfaixada.


Aproximei-me e percebi de quê ela estava falando. Um dos olhos do cara era preto. O outro era vermelho, e parecia literalmente, chorar sangue. Sua pele estava meio amarelada, como a das vítimas da gripe do urso. Seus lábios estavam roxos, como os lábios de um... Morto?


– Otto, segura os braços dele. – pedi, abrindo e fechando minhas mãos, que estavam ficando dormentes de tanto nervoso.


– Tá de sacanagem, né? – Otávio parecia revoltado com meu pedido. Isso porque ele não fazia ideia do que eu estava pensando.


– Segura logo esses braços, inferno! – gritei, dando vazão aos meus sentimentos oprimidos. Eu era de longe, quem menos xingava dentre todos, e a menos gritalhona. Acho que minha reação exagerada fez com que Otto se assustasse, pois ele fez o que eu havia mandado.


Respirei fundo quando me aproximei daquele homem. Ele era careca, e parecia muito velho. Seus dentes estavam podres, e enquanto ele se debatia no aperto de Luca, me senti de frente para um animal enfurecido. Minha expressão era séria, mas mesmo assim senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Tocando o homem sobre o peito, tentei ouvir seu coração. O que eu não ouvi, foi o que mais me chocou. Não havia nada, nenhum batimento. Eu queria checar os sinais vitais também, mas não colocaria minha mão perto da boca, nem das mãos dele. Afastei-me, e todos pareciam esperar uma resposta. Finalmente chorando como uma garotinha abandonada, sacudi a cabeça. Todos entenderam. Num movimento súbito Luca torceu o pescoço do sujeito, que gorgolejou antes de cair inerte. Ele estava morto. Ana e Carol pareciam chocadas, mas choque era pouco para descrever o que havíamos visto e sentido. Saímos de perto de toda aquela morte, e corremos de volta para o acampamento sob a mangueira. Sentada em cima do meu lençol, deixei que Ana tentasse limpar o sangue seco com um lenço umedecido do meu nécessaire. Carol limpava Otto, e Luca estava de pé fitando o local onde o cara tinha aparecido. Ele virou duas latinhas de cerveja quente, de uma só vez. Eu tinha certeza de que o coração do cara estava parado, mas ele não. Então, era compreensível que ele pensasse que havia assassinado uma pessoa, que nunca tinha visto na vida. Mesmo em circunstâncias normais, seria legítima defesa. Mas eu não me atrevia a falar nada naquele momento. Temia desencadear todo o pânico e desespero que Luca estava represando. Eu o conhecia bem demais para invadir seu espaço.


– O que vamos fazer? – Ana fez a pergunta que todos temiam. Ninguém sabia qual de nós poderia responder. Já era noite, e alguns urubus estavam se alimentando do bezerro e do homem morto. Algo nada bonito.


– Eu não sei. – Luca foi o primeiro a responder, como esperado. Ele parecia incapaz de liderar alguém naquela hora, era o mais abalado de todos nós.


– Eu sei. – era mentira, eu não sabia droga nenhuma. Mas mesmo assim, eles precisavam de mim. Todos me olharam, com um brilho que só podia ser esperança. Se havia algo que me faria falta, seria aquele tipo de olhar. – Vamos sair daqui. É óbvio que tem algo muito sério acontecendo, e nós não sabemos de nada. Precisamos ir até uma cidade próxima, e conseguir sinal para o celular do Otávio. Ficar aqui não nos ajudou, porque não deve ter ninguém viajando pra cá, nem saindo. Precisamos saber o motivo.


– Então, pegamos as coisas, e caminhamos até uma cidade? – Carolina parecia cética. – Sabe, podemos estar a quilômetros de um lugar habitado. Concordo que é melhor agir do que ficar aqui morrendo aos poucos, e que precisamos de comida e água, só que não vamos aguentar caminhar pela estrada. É um forno durante o dia, e pode ter mais gente maluca como esse cara ali. – Carolina falava, e suas pulseiras tilintavam em seu pulso. Eram tantas, que se tornava difícil contar. Minha amiga estava mesmo abalada.


– Carol, a questão é que não podemos ficar aqui. Sinto que o que vimos hoje tem algo a ver com tudo que está acontecendo nas últimas semanas. – afirmei. Luca, Ana e Otto, pareciam esfinges. Como se estivessem com medo de falar. – Além do mais, eu tenho certeza que... – não terminei de falar.


Um som muito característico se fez ouvir, sob o breu da noite. Um som que significava muitas coisas ao mesmo tempo. Esperança. Alegria. E também, medo. Uma minivan se aproximava do ponto onde o carro do Luca havia capotado. Embalados pelo medo de passarmos despercebidos, todos corremos ao mesmo tempo para a estrada. Fiquei um pouco atrás, por causa dos meus pés, mas o sorriso de Luca enquanto apertava minha mão, era consolador. Os faróis acesos do veículo se aproximavam ao longe. Sorrindo, me senti como em um daqueles filmes de terror, nos quais a protagonista encontra o aguardado socorro, no fim. Como eu estava errada.

A minivan derrapou e parou a centímetros de nós. No volante, um homem belo de meia idade parecia perplexo. Ao seu lado, uma mulher que parecia um pouco mais velha, com cabelos estilo Chanel e um colar de pérolas enorme. Ambos pareciam assustados, e até indecisos. Era como se considerassem passar ou não por cima de nós. Imediatamente, nossas expressões mudaram do alívio, para a apreensão. Na parte de trás do veículo, reconheci uma menina pequena, que parecia ter uns oito anos. O cara na direção pareceu falar alguma coisa com ela, e depois abriu a porta. Eu já estava pronta para ir até ele, quando reconheci o brilho metálico em sua mão.


– Parados! Todos vocês! Se alguém chegar perto da minha família, eu atiro! – os olhos do homem estavam esbugalhados, como o de alguém no limite. Como os olhos de um desesperado. – Não sei se vocês monstros estão entendendo, mas eu vou mandar bala!


Eu, de fato, não estava mesmo entendendo nada. O que havíamos perdido, em tão pouco tempo? Eu não entendia o medo daquele homem, nem o motivo do seu ódio. Mas ver a salvação tão perto e não poder tocá-la, era uma tortura pior do que o abandono. O que houve em seguida aconteceu muito rápido. Otto se moveu na direção da minivan, erguendo um braço. Eu ia mandá-lo ficar quieto, quando um estampido encheu o ar. Minha visão parecia tingida de vermelho, enquanto eu imaginava quem seria a vítima daquele tiro...

Notas finais
Beem, alguém curioso pra saber o que vai rolar? Mandem reviews e eu posto até hoje a noite. Espero que tenham gostado, e desculpem qualquer erro. Muito obrigado a todos!
DroppingPieces.