Notas iniciais
Bem pessoal, as coisas estão esquentando. Este capítulo terá mais zumbis do que já vimos por aqui, introduzindo nossos personagens no verdadeiro Apocalipse Zumbi. Boa leitura a todos, e um sejam bem-vindos a nossos leitores novos!

O som do tiro ainda ecoava na minha mente. Desesperada, fitei os olhos de Otávio, certa de que havia sido ele o alvo daquele homem desesperado. Eu não poderia estar mais enganada. Caído no asfalto, havia um homem totalmente estranho, com aparência encovada e devastada, e um ferimento horroroso no pescoço, como se fosse uma mordida. O tiro que o derrubou surpreendeu a todos. Havia acertado em cheio na testa do intruso. O mais curioso, era que nenhum de nós o percebera se aproximando, e que havíamos sido salvos pelo cara que dirigia.

— Senhor, por favor, nos ajude. – pediu Carolina. – Minha amiga machucou o pulso, e sofremos um acidente grave. Estamos aqui há dois dias, e não sabemos de nada sobre a civilização. Não nos abandone para morrer aqui, eu imploro! – ela estava chorando. Aquilo fez o cara vacilar, e eu pude ver que dentro do carro, a mulher dele apresentava uma expressão comovida.

— Pelo menos agora sei que vocês são normais. Tá todo mundo ficando louco, ultimamente. – falou o homem, guardando a arma na cintura. – Todas as vítimas da gripe do urso que haviam sido mortas, levantaram. Eu não sei como, mas levantaram. As regiões centrais do Rio viraram um inferno. Eu e minha mulher fomos os últimos a passar na Rio-Niterói, quando a infecção chegou na ponte e as autoridades bloquearam os acessos. Pelo que eu soube, a aeronáutica bombardeou a ponte, tentando isolar os monstros.

Se uma palavra podia definir nossa reação, era incredulidade. Sem perceber, eu estava de mãos dadas com Luca, tentando buscar algum conforto. Ana estava se desmanchando em lágrimas, e Carol parecia ter engolido uma espada. Otto era o único que parecia concentrado. Ele caminhou na direção do homem que acabara de ser morto, e ligou seu celular. Iluminando o rosto do cadáver, pudemos ver o mesmo que no cara do pasto. Um olho preto, um olho vermelho. Ele estava em avançado estado de decomposição, o que levantava uma dúvida gritante. Como ele conseguiu se arrastar até o meio do nada, daquele jeito?

— Venham queridos, é melhor que entrem na van. Não podemos ficar parados aqui por muito tempo. – pediu a mulher. – Me chamo Diana. É bom conhecer pessoas normais. – admitiu, aliviada.

— Peguem o necessário, e entrem. Temos que sair logo daqui. – mandou o motorista, e eu não pensei duas vezes.

Corri até a mangueira onde havíamos passado os dois últimos dias, notando com certo desconforto, que estava começando a feder. Dois dias sem banho. Nunca pensei que seria capaz de algo assim, até ser obrigada a tanto. Apanhei minha mochila e uma bolsa com comida, resignada a deixar minhas roupas menos necessárias para traz. Eu não daria conta de carregar tudo, e nem havia espaço para isso. Todos nós deixávamos o supérfluo para trás, e tive certeza de ver Otávio chorando quando largou seu Xbox ao lado da árvore. Carol só levava uma mochila pequena, e carregava também a de Ana, que ainda protegia o pulso com a mão. Caminhamos até a minivan e subimos na traseira. Ficamos relativamente apertados na parte de trás, enquanto um silêncio colossal se instalava. Eu até tentei dizer alguma coisa, mas parecia que um caroço estava entalado na minha garganta. A menininha que parecia ser filha do casal nos olhava com curiosidade e desconfiança. Sorri para ela, e a menina correspondeu. O pai dela viu pelo retrovisor, e sorriu também. Talvez ele tivesse percebido que não planejávamos fazer mal, enfim.

— Como vieram parar aqui? – perguntou o homem.

— Capotamos com o carro, por causa de um caminhão desgovernado. – mentiu Carol. – Qual o seu nome, moço?

— Desculpe a grosseria. Chamo-me Louis. Essa é minha esposa Diana, como já sabem e minha princesinha, a Lívia. – apresentou, e Lívia acenou para nós.

— Eu sou Victoria. Esses são Carolina, Ana, Otávio e Luca. Gostaria de dizer que é um prazer, mas as coisas estão tensas. Ficamos dois dias naquele pasto sem ver vivalma. – contei. – Quando viajamos as coisas já estavam ruins. Agora o senhor nos disse que os mortos estão levantando?

— Eu sei que parece loucura. Mas isso é porque vocês não viram as cidades pegando fogo. Tinha polícia, ambulância e tanque por todo o lado, no Centro. A Presidente Vargas virou pó, o Teatro Municipal foi derrubado, e parece que até o Hemorio, que estava tentando achar uma cura, foi para o espaço. – contou Louis.

— Foi terrível, gente... – declarou Diana, abalada. – Eu pensei que não conseguiríamos escapar. O Ministério de Saúde e o Governo Federal estão transmitindo o mesmo comunicado desde o início da infecção. Eles dizem que o vírus reativa parte do cérebro humano mesmo depois da morte, mantendo apenas o instinto da fome. Por isso, mandaram a gente sair das regiões mais populosas, e vir para locais mais afastados. Estamos tentando fugir desde então. Há algumas horas entramos numa região sem sinal de telefone. Não consigo falar com nenhuma amiga, há horas.

— Também não conseguimos falar com ninguém. Por isso ficamos largados ao léu. – disse Otto, ainda em estado de choque. – Se no meio do nada achamos dois daqueles bichos, imaginem numa cidade... – declarou.

— É por isso que quando chegarmos a Cabo Frio, você descerá do carro. – disse Louis, sério. – Não posso arriscar a vida da minha família, tendo que tomar conta de vocês também, garotos.

— Mas, querido... – Diana bem que tentou.

— ESTÁ DECIDIDO! – berrou Louis, destravando a arma para quem quisesse ouvir. Lívia cobriu os ouvidos com as mãozinhas, e eu me senti arrepiar inteira. Odiava armas.

— Tá certo! A gente vai descer! Não queremos problemas com ninguém, e também não queremos que vocês fiquem em perigo. – decidiu Luca, por todos nós. Carolina o olhou como se quisesse discordar, mas não se atreveu a falar nada. Parecia que tínhamos nosso líder, também.

A escuridão da noite parecia um véu escorrendo no horizonte, enquanto a minivan seguia em direção à Cabo Frio. Assustada, pensava vislumbrar em meio às centenas de quilômetros de pasto, figuras silenciosas arrastando-se nas trevas. Eu me arrepiava o tempo todo, pensando no momento em que deixaria a segurança daquele veículo. Queria desabafar com meus amigos, mas temia acordar a pequena Lívia, que dormira em meu colo, com seus lindos cabelos lisos e ruivos. Suas pequenas sardas a faziam parecer uma bonequinha de porcelana. Louis a viu em meus braços, e sua expressão parecia demonstrar um conflito de ideias. Tal ambiguidade, também se passava no meu coração. Ao mesmo tempo em que estava feliz por estar viva, temia o momento em que estaria em perigo de novo. Além do mais, estava louca de preocupação com o destino da minha família. Fitei o rostinho de Lívia com emoção, e aos poucos ele pareceu se transformar no de Carlos. Suspirando, chorei alto demais, e todos me notaram. Eu ainda acarinhava os cabelos da menina, e estava desligada do que acontecia ao redor. Até que ouvi os suspiros. No volante, Louis estava chorando. Diana virou-se, e pegou na minha mão, também às lágrimas. Ana estava com a cabeça afundada no ombro de Otto, e ambos choravam. Carolina abraçava as pernas e chorava em silêncio, enquanto Luca tinha os olhos marejados, e seu olhar não se afastava de mim. Pareciam duas pedras preciosas que vertiam água. No aperto de mão que compartilhei com Diana, senti a presença de minha mãe. Ela também parecia notar minha carência ao olhar para sua filha, pois logo fazia carinho em meus cabelos. Quase que instantaneamente, cochilei.

Acordei vinte minutos depois, quando a minivan parou. Diana abriu a porta do carona, e saiu. Louis foi atrás dela. Todos nos olhamos, e Lívia despertou. Ao longe, observei o casal conversando de modo muito enérgico. Eles gesticulavam, e Diana parecia irritada. Apanhamos nossas coisas, e saímos do veículo também. Quando me levantei, Lívia me abraçou aos prantos. Beijei sua bochecha, e em silêncio, sai. Ela não veio atrás de mim. Caminhamos devagar até percebermos onde estávamos. Era o Canal do Itajuru, que geralmente fica localizado no centro de Cabo Frio. Mas o lugar estava irreconhecível. As barraquinhas de artesanato haviam sido destruídas, e havia escombros por toda a parte. As boates, lojas, restaurantes, estavam todos fechados e desertos. Eu rezava para que as pessoas tivessem ido para o interior, deixando o centro abandonado. De qualquer forma, iríamos descobrir. Demos uma última olhada na direção do casal, e começamos a nos afastar, quando ouvi Diana chamar o meu nome.

— Sim? – respondi, sorrindo.

— Precisamos falar com você. – ela disse. Louis confirmou com um gesto. – Se quiser, pode ficar com a gente. Vimos como a Lívia se apegou a você. Não poderíamos proteger a todos, mas aceitaríamos proteger você. – eu não sei descrever minha reação. Na verdade, não senti nada além de alívio e tentação. Sei que parece horrível ler isso, mas eu realmente pensei em seguir com eles. Eu estava com muito medo, e o instinto de preservação parecia despertar meu lado inumano.

— Sinto muito, Diana. Agradeço pelo que fizeram por nós. Mas não posso deixar meus amigos. Eles são minha família. Também quero protege-los. – afirmei.

— Eu entendo. Sinto muito por sugerir isso. – ela falou, olhando para meus amigos. Eles pareciam felizes por eu ter recusado. Mas Luca trazia um semblante fechado. Com certeza, ele preferia que eu tivesse ficado em segurança.

Sempre imaginei que aquela seria a última vez em que eu veria aquela família. Em meus sonhos mais antigos, eu sonhava que eles haviam encontrado um lugar seguro, longe daquela infecção toda. Quando imaginava Carlos, indubitavelmente me lembrava de Lívia. Eu lamentaria muito por isso no futuro. Quando os encontrasse novamente. Começamos a caminhar na cidade fantasma. No amanhecer, o cheiro de mar invadia o local trazido pelo Canal. Cabo Frio parecia mais cinza do que eu me recordava, e infinitamente mais vazia. Otávio ligou o celular, e percebi que todos ficaram instantaneamente esperançosos. Poucos minutos depois, o celular dele começou a tocar, e ficamos parados. Ao atender, ele pareceu entrar em um estado de transe. Meu amigo começou a chorar, e eu não aguentei vê-lo daquela forma. Tomei o celular de sua mão, e atendi. O que me surpreendeu, foi que não era tia Martha. Era meu pai.

— Pai?! – gritei, e todos trocaram olhares de espanto.

— Filha! Graças a Deus! Eu sabia que Otto tomaria conta de você! – a voz de meu pai parecia cansada e desesperada. – Onde você está!?

— Em Cabo Frio, papai! Tá tudo deserto aqui! A gente está morrendo de medo! Cadê a mamãe, tia Martha, Carlos? – indaguei, me sentindo tremer toda.

— Princesa, eu sei que é horrível, mas Martha não conseguiu. Eu mandei seguranças particulares buscarem ela e seu tio, mas o carro-forte onde eles estavam se chocou com um ônibus. Ninguém sobreviveu. Eu tive que contar ao Otto... – disse papai. – Mas sua mãe e Carlos estão bem. Silvia passou mal, coitadinha... Teve um infarto, e... – ele estava chorando. Eu mesma não demorei muito a chorar. – Tentem ficar aí. Vou mandar uma equipe busca-los. Ache um lugar seguro, meu amor. –pediu.

— Fica tranquilo, papai. Luca vai me proteger. – eu disse, fechando os olhos. Se havia um momento pra contar tudo, seria aquele.

— Luca Fontes? O ruivo delinquente do Bloco C? O que ele tem a ver com te proteger? – meu pai falou tão alto, que parecia que o celular estava em viva-voz.

— Estamos namorando, papai. É a última coisa que importa nesse momento, mas eu tinha que te contar. – ouvi um bipe do aparelho, anunciando o fim da bateria. – Estamos no Canal, pai. O celular via descarregar. Vamos tentar entrar em contato quando conseguirmos recarregar. Adeus...

— Adeus, filha. Mantenha seus amigos seguros, mas pense sempre em você, antes. Não se sacrifique por ninguém. Ninguém, ouviu? – não respondi. A bateria acabou antes. De todo modo, eu não teria uma resposta.

Abracei Otto como se o mundo fosse acabar. E de fato, ele estava acabando. Ele tremia enquanto chorava, e logo todos nós compartilhávamos o abraço. Ninguém se importou com o cheiro, ou a sujeira. E todos haviam entendido o que estava acontecendo. Sem muito que acrescentar, continuamos caminhando. A cada passo, o peso das mochilas aumentava, e meus pés feridos pareciam gritar em protesto. Luca tomou minhas bagagens, e continuou caminhando à frente do grupo, decidido. Carolina e Ana estavam de braços dados, enquanto Otto parecia fechado. Eu não sabia o que esperar dele quando ficava daquele jeito. Meu irmão postiço era muito transparente, e debochado. Quando ficava calado e deprimido, era uma bomba-relógio. Dava medo. Ele era como um louco em tratamento, capaz de surtar a qualquer hora. Ninguém falava nada quando ele estava recluso. E era assim que ele preferia.

— Olhem, tem uma moça sozinha ali. – mostrou Carol. De fato, uma figura feminina estava de pé, de costas para nós. Ela tinha cabelos vermelhos até a cintura, e vestia roupas claramente eróticas. Uma garota de programa. Mas havia algo estranho no modo como ela estava de pé. Ombros caídos, e pés tortos.

Antes que eu pudesse avisar do óbvio, Carolina já estava na metade do caminho até a “mulher”. Otávio gritou: “Volta aqui, vadia!”, e Carolina virou-se para nós, confusa. O grito de Otto tirou o zumbi de seu torpor, e um travesti zumbificado agarrou Carolina, derrubando-a de cara no chão. Ela começou a gritar em desespero, enquanto o andarilho não a largava por nada. Ele tentou mordê-la, mas os dentes podres não atravessaram o couro da jaqueta. Mesmo assim provocaram uma dor excruciante, fazendo-a gritar esganiçada. Luca abaixou-se ao meu lado, tirando da mochila um macaco que havia em seu carro. Ele correu na direção do zumbi, e logo Otto estava lá também. Ana segurou no meu braço, com sua mão machucada, e ficamos esperando.

Luca puxou o travesti pelos cabelos, mas a peruca se soltou em sua mão, desequilibrando o meu namorado. Ele caiu e logo o zumbi havia mudado de alvo. O macaco estava distante demais para que Luca pegasse, e ele empregava toda a sua força para deter o zumbi. Otávio surgiu do nada, macaco em riste, e acertou o travesti. Ele caiu de lado, mas ainda emitia o gorgolejar característico daquelas criaturas horríveis. Meu amigo arfava e rugia de ódio, enquanto golpeava o corpo já morto, diversas vezes. A imagem da massa de carne na qual o rosto do zumbi se transformara, nunca mais sairia da minha cabeça. Carol se sentou no chão, chorando em desespero. Havia sangue em sua boca, pois ela mordera o lábio inferior. Eu e Ana corremos até ela, amparando-a. Otávio deu a mão para Luca, e ele levantou-se. Nossas mochilas estavam espalhadas por toda a parte. Juntamos tudo, e continuamos andando.

— Temos que achar um lugar pra nos esconder. – afirmou Ana. Ela era a mais calada desde que o inferno começara. Estava traumatizada, obviamente.

— Concordo querida. – eu disse. – Amor, a gente tem que invadir algum lugar. – sugeri.

— Com toda a certeza. – concordou Luca, com uma expressão de puro pavor. – Até porque, seremos obrigados a isso.

Na margem do Canal, uma verdadeira horda se arrastava pelo centro da cidade litorânea. O ar puro e com cheiro de mar foi invadido pelo cheiro podre de morte. Gritando, Carolina começou a correr num desespero surreal. Sua voz pareceu acender algo nas criaturas, que não haviam nos notado completamente. Eles começaram a andar bem mais rápido, vindo em nossa direção. Antes que alguém precisasse dizer mais alguma coisa, eu estava correndo sobre meus pés queimados. Ana ficara um pouco para trás, mas puxei-a pelo braço. Continuamos correndo até ver um barco próximo da baía, e no olhar de Luca percebi o plano. Ele correu na direção do barquinho de pesca, e pulou. Errou por pouco. Debruçando-se, ele conseguiu subir. Desamarrou a corda do cais, e começou a remar na nossa direção. Àquela altura, os monstros estavam perigosamente perto. Otávio goleou dois com o macaco, e Ana empurrou outro na água. O defunto afundou direto, sumindo de vista. Carolina só sabia gritar, então dei uma bofetada em seu rosto. Antes que ela pudesse reagir, eu pulei no barco que se aproximava, caindo numa altura de dois metros. Meus joelhos anteriormente feridos doeram mais ainda, enquanto eu me virava para ver o resto do pessoal. Ana não demorou muito para pular também, e em seguida Carolina. Carol estava tão desesperada, que caiu direto na água. Enquanto ela se debatia e Luca afastava zumbis de Otávio com o remo, Ana e eu erguíamos a mão para puxá-la. Otávio acertou o barquinho, mas machucou o tornozelo. Carolina subiu no barco, sua maquiagem de dias escorrendo como barro em sua cara.

— Desculpem o pânico... – ela murmurou, enquanto juntos, observávamos a multidão de mortos sobre a beira do Canal. Eles pareciam nos acusar e instigar. Como se não estivessem mortos, mas sim furiosos. Como impiedosos inquisidores, capazes de nos provocar todo tipo de ruptura...

Notas finais
Beeem, o negócio tá tenso! Ansiosos pelo próximo capítulo? Deixem um comentário! Não dói, e ainda me deixa super feliz! Não seja um leitor fantasma, pleaseee! Rsrsrs...
Nos próximos capítulos teremos personagens novos, e muito mais ação. Estão preparados?
Dropping.