Quebranto.

8 O Peso do Mundo.


Notas iniciais
Bem gente, capítulo com ação, conflitos e gente nova. Espero que gostem, e fico muito feliz com o pessoal que começou a acompanhar agora. Caso queiram comentar, eu adoraria saber a opinião de vocês. Sei que dá preguiça, mas não precisa ser muita coisa. Beijos, e boa leitura!

Já era a sétima vez que assistíamos ao mesmo vídeo. Após termos escapado por pouco da morte certa, Luca remou o pequeno barquinho de pesca até nos aproximarmos de um barco maior, que obviamente, estava desabitado. Subimos com certa dificuldade, perdendo uma mochila com roupas na tentativa. Agora restavam apenas três bolsas. Uma com comida e tralhas, uma com roupas do Otto que também teriam de servir para o Luca, e outra com as minhas roupas, que teriam de servir para Ana e Carol. Por sorte, no interior da embarcação, havia um frigorífico desativado, onde o cheiro de peixe podre era insuportável, mas encontramos também garrafas de cerveja e alguns enlatados como milho, ervilha e alcaparras. Havia também um pacote de pão de forma, que acabamos comendo em desespero. Sentados na cabine do capitão, ligamos o tablete de Ana e constatamos que havia rede disponível, a da prefeitura. Tremendo de emoção, nos conectamos a internet depois de dias fora da realidade. O que vimos, era ainda pior.

No vídeo que passávamos e repetíamos sem parar, as pessoas corriam e gritavam numa sala de cinema em São Paulo. Pisoteando umas as outras, tentavam fugir de qualquer maneira de um bando de doentes que atacavam qualquer um em que pudessem tocar. O facebook fervilhava com relatos e depoimentos bizarros, e muito pouca gente parecia estar viva para conectar-se. Com mais de meio milhão de acessos em apenas três dias, um blog sensacionalista fervilhava na rede. Um garoto (provavelmente um geek qualquer) se autodenominava “O Profeta”, e postava até três vezes ao dia, regras sobre como deveríamos agir, para sobreviver àquela loucura. Ele se declarava como o único capaz de nos guiar no Apocalipse, postando desde a forma correta de matar as criaturas, à possível causa da infecção. Segundo ele, a “gripe do urso” era na verdade um vírus híbrido, que assume o comando depois que o corpo de seu hospedeiro morre, “reativando” os pontos mais primitivos do cérebro. A fome, a raiva, e o sentimento territorial. Segundo ele, essas três características tornam os mortos, um tipo de criatura eternamente faminta, com desejos de assassinato e dominação sobre os vivos. O que, é claro, era tudo de que precisávamos.

Roendo as unhas, vi Ana tentar entrar em contato com qualquer membro de sua família, mas ninguém estava online. Carol também tentou, e depois Luca. Otto já sabia o destino de sua mãe, e eu o da minha. Não havia nada mais a procurar. Ainda segundo o Profeta, a única forma de matar os zumbis, seria danificar permanentemente o cérebro, o que explicava o fato de Luca ter conseguido matar o monstro no pasto, no dia anterior. Monstro não, errante. Eu teria que me acostumar ao modo como estavam chamando aquelas coisas na internet. Muitos nerds no mundo todo estavam dando uma de deuses, dizendo que sabiam que aquilo aconteceria. Estavam agora em casas reforçadas ou em ilhas desertas, enquanto nós lutávamos para sobreviver. Outros líderes, religiosos, refugiavam-se em mansões com o dinheiro dos fiéis, enquanto eles morriam do lado de fora. Atreviam-se ainda, a dizer que aquele era o Apocalipse de João, e que os servos de Cristo deveriam enfrentar de bom grado a vontade dos céus. Revoltada, li um manifesto de um pastor dizendo o quanto aquele momento era esperado pelo seu povo. O levante das testemunhas, e a volta do Messias. Bem, onde ele estava agora? Devorando as pessoas? Bufei, e me levantei. Não aguentava mais aquele cheiro de peixe, e aquela cabine úmida. Ficar isolada em um barco no meio do Canal, com dezenas de monstros no porto, não era o que se podia chamar de férias. Pisei firme enquanto me movia através do deque, observando à costa acinzentada. Lá, vários errantes ainda abanavam os braços, como se quisessem nadar até o barco. Segurando o choro, desci novamente. Todos me encararam quando entrei na cabine, e Ana desligou o tablet, preservando a bateria.

— Alguma mudança? – indagou Carol, nervosa.

- Alguns deles foram embora. Mas ainda tem muitos esperando. Seus gritos e nosso espetáculo aquático foi um show meio difícil de esquecer. Sabem que estamos aqui, de algum modo. – falei, pela primeira vez sentindo raiva. Se Carolina tivesse calado a boca, poderíamos ter fugido por terra, e invadido alguma loja ou restaurante, um lugar fácil de deixar depois.

— Eu já pedi desculpa. – contrapôs. Fitei-a com minha típica expressão de deboche. Depois sorri. Todo mundo percebeu, e se entreolharam. Eles morriam de medo, de quando eu ficava assim.

— Ah, é? Bem, pelo visto seria mais sensato você nadar até a costa, e ir lá pedir desculpas pros zumbis, por ter perturbado o sono deles! Afinal, foram eles que ficaram ofendidos. Tão ofendidos, que estão esperando até agora pra foder com a gente! Aliás, porque não vamos todos? Podemos deitar no asfalto, e esperar o self-service! – berrei descontrolada. Carolina me olhava com os olhos arregalados, enquanto os outros pareciam apreensivos.

— Amor, não acha que está exagerando um pouc... – fulminei Luca com tamanha fúria, que ele se calou. Possessa, me joguei em um sofá mofado distante dos outros. Meus cachos furiosos se armavam ao redor da minha cabeça, como um ninho dourado de passarinhos. Fechei os olhos tentando dormir, não adiantou.

Como se minha apatia inicial diante de tudo aquilo houvesse finalmente se cansado, comecei a ser acometida por pesadelos vívidos, nos quais eu estava jogada sobre um gramado, com dezenas de zumbis mordendo meus braços e pernas. Eu podia ver meus amigos em uma área iluminada não muito distante, mas nenhum deles se atreveu a me socorrer, nem mesmo Luca. Ele me fitava com olhar assombrado, mas Carol o puxava para o interior de uma casa. Meu grito de dor foi abafado pelo meu próprio despertar, quando senti a mão de Ana na minha testa. Minha amiga segurava um copo d’água, e me deu um comprimido na boca. Um dos meus calmantes florais. Claramente, eu estava assustando todo mundo. Eles tinham medo que eu desse um ataque e surtasse a qualquer hora. De fato, eu não havia notado, mas meu TOC estava se manifestando inconscientemente. Era ele, afinal, que havia me inserido num estado de espírito sombrio e desesperado. Ao invés de ansiosa, fiquei irritada. Algo plenamente compreensível, numa situação daquelas. Depois de passar alguns minutos solitários, decidi que era hora de sair daquela fossa. Levantei-me e fiquei zonza. Meu peso parecia ter dobrado nas últimas horas. Arrastei-me até estar próxima de Otávio, que tentava comer um pedaço de pão duro. De costas para mim, meu irmão adotado não me viu chegar. Ana cochilava com a cabeça em seu colo. Nenhum dos meus amigos sabia que eu estava acordada, e eles estavam muito calados. Parada onde eu estava pude observar que Luca e Carolina haviam adormecido lado a lado. Analisei a cena lembrando-me de uma época em que meu namorado nem tinha conhecimento da minha existência. Longe disso, ele namorava Carol, a menina mais linda do colégio (que, por coincidência, também não sabia que eu existia). Ambos se tornaram meus amigos depois do fim da relação entre eles. Teria eu impedido a felicidade dos dois? Vendo-os daquela forma, senti-me traída e magoada. Eu sabia que poderia ser considerado algo infantil de minha parte, mas não pude evitar. O ciúme não era um sentimento que eu valorizasse, mas experimentá-lo era amargo como fel.

Três dias haviam se passado desde o último acontecimento. Neste meio tempo, fiz o possível para evitar falar com Luca. Ele sabia que havia algo errado, mas não ousava me indagar o motivo. Diante de meus olhos, vi minha beleza natural e urbana dar lugar a olheiras e devastação. Meus remédios haviam acabado à doze horas. Eu contava sem parar, e não falava com ninguém. Uma opressão terrível em meu peito parecia ameaçar me estourar de dentro para fora. Em minha mente distorcida, associava toda minha infelicidade e a tragédia daquilo tudo, com Carolina. Hostil com minha melhor amiga, eu a fitava com ódio praticamente de minuto em minuto. No instante seguinte, eu me sentia péssima, e me mantinha reclusa. Foram as piores setenta e duas horas da minha vida. Mecanicamente, eu acenava negativa ou positivamente às perguntas e sugestões de meus amigos. Eu me sentia incapaz de falar. A comida estava acabando, e eu ficava feliz em ceder minha parte, mesmo com protestos, que eu prontamente ignorava.

Consciente de que conviver comigo devia estar se tornando um inferno para os outros, eu passava a maior parte do dia observando os errantes na costa. Sádico, eu sei. Mas saber que eles não podiam me tocar trazia-me certo conforto. Luca sempre aparecia ao meu lado, apenas para ser ignorado com minha saída. Provavelmente considerando-me louca por tamanho estardalhaço, ele não me seguia. Ou talvez só estivesse chateado demais para isso. Outra que também estava muito calada era Ana. Às vezes nós duas dormíamos juntas, enquanto Carol, Otto e Luca ficavam conversando sob a luz de uma lamparina a querosene encontrada na cabine. Eles tentavam decidir o que fazer, enquanto nós sofríamos.

— Acha que vamos viver até ficar velhinhas? – indagou Ana, no escuro. O coração dela batia bem rápido, como num daqueles momentos de pânico.

— Espero que sim, querida. Realmente espero. – afirmei, segurando sua mão. Não me lembro de ter feito outra coisa naquela noite. Devo ter adormecido.

Na manhã seguinte, fomos despertados com o som de tiros. Corremos para o deque do navio, tropeçando sobre os pés. Sendo a última a alcançar a proa, observei de longe uma movimentação intensa no centro de Cabo Frio. Uma camionete, com dois homens na traseira, estava provocando um estardalhaço na cidade. O veículo acelerava em meio à uma horda de errantes, enquanto os homens atrás iam atirando com empenho. Observando melhor, notei que eles estavam distraindo os zumbis, pois mais adiante uma garota invadia um mercadinho. Ela carregava uma faca de caça na mão, e com o sol e a distância, era tudo que eu podia discernir em sua aparência, além dos longos cabelos castanhos. Assustei-me com os gritos de Carolina, que começou a pedir socorro desesperadamente. Otto e Ana também acenavam, enquanto Luca enchia um balde com solvente. Incendiando o objeto, uma fumaça negra se ergueu, e acabei rompendo meu silêncio diário para gritar a plenos pulmões por ajuda. Sabíamos que seria difícil que alguém se arriscasse por nós, mas tínhamos de tentar. Errantes vinham correndo por toda a parte, e ainda ignoravam a menina no supermercado. A movimentação era intensa, e tive que segurar com força para não cair quando dois coquetéis molotov explodiram em um forte impacto, que conseguimos sentir mesmo de tão longe. O fogo parecia dificultar a ação dos zumbis, e logo pude ver a garota sair correndo do mercado. Gritei outra vez, e ela se deteve para ouvir. Ao contrário do que imaginei, ela correu na direção do cais, e largou as bolsas de alimentos no chão. Gesticulou em nossa direção, e seus lábios se moveram numa palavra clara: “Venham!”, ela pedia. Olhamo-nos uma única vez, e partimos para a ação. Otto correu para dentro da cabine, e voltou com nossas mochilas. Luca desenrolou uma escada que levava até o barquinho de pesca. Carolina descia com Ana, enquanto eu ajudava Otto com as bolsas.

No barco, Luca remava freneticamente. Apanhando o segundo remo, Otto o ajudava, apressando tudo ao máximo. A garota tinha sumido do cais, e estava jogando as bolsas na traseira da camionete, enquanto dois homens lhe davam cobertura. Um terceiro permanecia no carro, que começava a ser assediado por alguns errantes. Apavorada, Carolina começou a chorar achando que não conseguiríamos. Controlei meu impulso de dar-lhe uma tapa, e me apoiei no barco, que estava dando solavancos devido à velocidade. Tremendo, tentei ao máximo controlar minha ansiedade, que começava a me deixar fora do ar. Ana remexia em sua bolsa, cobrindo-a com uma capa a prova d’água. Ninguém entendeu nada até ela mostrar o que tinha visto. Os solavancos, não eram o barco tentando virar por causa da velocidade. Eram os zumbis que haviam se atirado na água atrás de nós, tentando virar o barco. Gritando de terror, tomei o remo da mão de Otto e comecei a bater em uma cabeça cadavérica que tentava forçar sua subida no barquinho. A profundidade do Canal era grande, mas com tanto tempo se chuvas e sem o esgoto da cidade, o nível da água havia baixado, e além disso os cadáveres estavam boiando. Era um pesadelo molhado.

— Temos que nadar! Temos que nadar! – repetia Ana, abismada.

— Vamos juntos. – decidiu Luca. – Eles não vão conseguir nos seguir, é o único jeito! Vicky, sei que está chateada comigo, mas precisa confiar em mim. – ele disse, se virando em minha direção. Senti vontade de beijá-lo, mas apenas acenei em concordância.Coloquei uma das nossas mochilas nas costas, e antes que ele mandasse, pulei na água.

O pior de todo aquele momento, foi que eu gostei do mergulho. Sem encanamento que funcionasse no barco, estávamos sem tomar banho há três dias, e prefiro nem comentar o que tivemos que fazer para ir ao banheiro. Sentindo o frio enregelar meu corpo, sorri num momento de desvairo. Com braçadas rítmicas e continuadas, via a costa se aproximando. Meus amigos estavam atrás de mim, e temi por eles. Eu sempre fui a melhor nadadora, e naquele momento, lembrei-me que Otto odiava nadar. Fiquei nervosa por ele acabei esquecendo-me de me mexer, engolindo água. O susto me fez parar e afundar, com o pânico me tomando. Uma mão flácida e enrugada agarrou o meu pé, e tentou morder o meu All-Star. Os dentes podres não atravessaram a borracha da ponta, mas senti como se meus dedos tivessem sido esmagados por um rolo compressor. Tentar gritar embaixo d’água só me fez engolir mais água ainda, e comecei a perceber que estava me afogando. O aperto no meu pé continuava forte, e quando comecei a vislumbrar o rosto do meu assassino, senti uma mão puxar-me para fora, agarrando minha mochila. Minha garganta doeu quando o ar invadiu meus pulmões parcialmente afogados. O sal me fazia querer vomitar o vazio em meu estômago. Ao invés disso, cuspi uma quantidade enorme de água no ombro de Luca, que nadava carregando o meu peso e o dele. Para meu alívio, Otto já estava subindo no pequenino porto do Canal. Ana estava de pé em cima do local, e Carolina chorava de medo. Perceber que era medo por mim, me fez sentir culpada por toda a raiva que vinha sentindo. Mas haveria tempo para perdões e conversas. Precisávamos sair dali de verdade.

Pisar em terra firme me fez sentir melhor, mas ser agarrada por um errante vestido como gari, não. Luca deu um soco e derrubou o monstro, me puxando pela mão em seguida. Eu ainda arfava e tinha o nariz escorrendo. Era tanto muco, que senti nojo de mim mesma. A garota morena que eu havia visto estava atirando em dois errantes caídos, e enquanto os homens xingavam para que fôssemos depressa, a vi ajudando Otto e Carol a subir na traseira da camionete. Um zumbi agarrou-a pelos cabelos, e tentou mordê-la por trás. Num gesto selvagem, a garota rasgou os próprios fios com sua faca de caça, ficando com metade da cabeça quase careca. Ela correu na minha direção, e me amparou junto com Luca. Chegamos na camionete, e um dos homens veio na nossa direção.

— Alguém foi mordido?! – gritou, com seu rosto quente e suado bem perto do meu. Ele era bonito, com cabelos negros com um corte de estilo militar, e olhos negros como as sombras. Era muito grande e forte, como um daqueles generais de exército dos filmes. O único elemento que diferia, era seu rosto jovem, como o do Superman. Uma espingarda pendia de uma correia de couro atravessada em seu peito, e tive consciência de cada centímetro de pele que tocava meu braço. Mesmo de maneira inexplicável, me senti atraída por aquele homem, que transbordava virilidade.

— Não. Estamos limpos. – eu disse, tossindo em seguida. O cara se aproximou de nós, e me pegou no colo, fazendo com que Luca fechasse a cara na hora. Ele me levou até o banco do carona e me deitou com certo cuidado, o que me surpreendeu. Empurrou um errante para longe de Luca, e subiu na traseira da camionete com ele. Ao meu lado, um homem um pouco mais velho sentou-se ao volante, e sorriu-me com seu rosto barbudo.

— Me chamo Armando. Logo ficaremos a salvo. – ele me prometeu.

— Sou Victoria. Para onde estamos indo? – indaguei nervosa.

— Para o nosso esconderijo. Vai entender melhor quando estivermos lá. Agora descanse. Você bebeu muita água salgada. – recomendou, arrancando com som agudo.

Ainda com dor de garganta, inclinei o rosto e vi meus amigos pelo retrovisor. Luca, Carol, Otto e Ana estavam bem, para meu alívio. A menina parecia se apresentar a eles, enquanto os dois homens que haviam arriscado a própria vida por nós, observavam. O fortão se chamava Diogo. O outro, franzino e loiro, era Ulisses. A morena de cabelos castanhos se chamava Eloá. Era um grupo interessante, e pareciam ter sofrido muita coisa desde o início daquela epidemia. Curiosa, imaginei como seria o esconderijo de que falavam. Aconcheguei-me ao banco no qual estava sentada, e fechei os olhos. Eu quase podia sentir as questões não resolvidas entre mim e Luca, ganharem força. Mas naquele momento, sentia-me cansada com se o peso do mundo estivesse sobre os meus ombros.

Notas finais
Ok... Alguém curioso aí? Acompanhem! Comentem! Recomendem!(?) E quem sabe eu posto mais alguns capítulos essa semana... Rs, até logo!
Dropping.