Notas iniciais
Para todos aqueles que desejavam que Quebranto retornasse. Para todos aqueles que ainda possuem esperança, e desejam escapar do vazio que assola o mundo. O Quebranto é eterno. Boa leitura, sobreviventes...

Otávio.

Aquela manhã tinha sido tensa. De um jeito bem esquisito, ninguém havia se atrevido a tocar no assunto Dimas outra vez. Enquanto terminávamos de empacotar as últimas coisas e já fechávamos os veículos para a viagem até Búzios, senti certa inquietação vinda de Victoria, que parecia realmente nervosa. Andando de um lado para o outro auxiliando Fernanda ou Tânia, ela estava evitando o meu olhar. E não só o meu. Diogo não estava se esforçando para esconder de ninguém a própria frustração. Toda vez que o coitado se aproximava, minha irmã dava um jeito de sair pela tangente, arrumando algo para fazer rapidamente. Carol, sempre sonsa, parecia toda desconfiada pelos cantos. Quieta, ela sequer havia provocado o pobre Gabriel, que estava caidinho por ela, pelo que parecia. Ou talvez, eu só estivesse ficando enferrujado. Não conseguia mais sacar as coisas como antes, porque ninguém, nem mesmo o mundo, era como antes. Ainda assim, percebi que Jonas estava mais próximo de minha amiga, ao passo em que parecia desconcertado com algo. Distraído, quase deixei a caixa de blusas masculinas em minha mão cair, quando bati no ombro de alguém. Sendo pego totalmente desprevenido, Hugo caiu sentado à minha frente, com uma expressão entre o divertimento e a dor.

- Ok, desculpe se o ofendi... — murmurou. — Da próxima vez pode bater direto, viu? Dói menos que provocar uma queda.

- Ah, Hugo! Foi mal! — esganicei-me, ajudando-o a se erguer do chão. Ele parecia cansado e acabado, e como a maioria de nós, estava francamente começando a feder. — Muito ocupado?

- Não. Isso são só coisas que estavam mal distribuídas. Por exemplo, seria interessante que cada veículo tivesse pelo menos duas lanternas, pro caso de precisarmos sair correndo durante a noite. Não custa nada prevenir. — o rapaz pensava em tudo. Há muito tempo eu já percebera que era ele quem movia os pauzinhos por trás de Ricardo, liderando nosso grupo indiretamente. Apesar disso, estávamos vivos, então considerei que sua gestão devia ser boa. Até porque, antes de resgatarmos Madeline e aquele rapaz da mansão dos Shepard meses atrás, as decisões de Rico não estavam indo muito bem. — Humm, e como você está? — Hugo parecia envergonhado. — Escute, sei que ninguém perguntou ainda, mas eu realmente sei que as mortes de Saulo e Julia mexeram com você. Mais do que com qualquer outro de nós. E eu só estou perguntando isso, porque estou francamente preocupado. Sabe, se você está suportando essa pressão toda.

- Oh, bem... — eu não sabia o que dizer. Como explicar que eu fugira aquele tempo todo de algum tipo de confronto direto sobre aquilo, para não precisar reviver a morte de minha breve namorada, e de seu irmão? O modo como eles haviam morrido um pelo outro, era uma mácula na minha alma. Eu não podia aceitar, nem entender. Tudo era tão estúpido naquele mundo morto... Mas então, o que dizer? — Eu só preferia não falar disso, Hugo. — resolvi ser sincero. Afinal, éramos uma família. E mesmo que eu não ficasse de papo pra cima e pra baixo com Hugo, sabia que ele se importava comigo. — Ainda não consigo lembrar daqueles momentos sem sentir vontade de cortar os pulsos. — satirizei, mas a verdade estava bem próxima disso. Hugo sorriu, e acenou em concordância.

- Vou levar essas coisas, e depois ajudar a depenar o Uno. Vamos tirar tudo dele, os pneus, a gasolina, e tudo o que puder ser útil. Ricardo e Jonas já estão trabalhando. — contou-me Hugo, animado. Pra mim, ele estava bem mais feliz em ter algo em que pensar, do que com o trabalho em si.

Caminhei por mais algum tempo, depois de guardar a caixa que eu estava levando na van. Iríamos nos dividir todos nos três veículos que haviam restado. A van tinha oito lugares, a camionete três e a ambulância mais oito. Não deveríamos ter problemas com espaço, apesar de sermos dezesseis pessoas extremamente cansadas e abatidas. Meu corpo já estava coçando de sujeira, e aquele sol escaldante não ajudava em nada, apesar da brisa cheia de maresia que sempre envolvia aquela região. Não devíamos estar tão longe. Talvez cerca de uma hora e meia, com os veículos. Seria uma viagem rápida, mas nem por isso menos perigosa. Mesmo evitando o centro de Armação de Búzios, talvez não estivéssemos no caminho certo. Ninguém em nosso grupo era um nativo. Todos os moradores de Cabo Frio que conhecíamos haviam morrido. A última havia sido Eloá, e ainda estávamos no caminho que ela indicara, apesar da própria não ter certeza sobre a exatidão dele. Sentei-me na ambulância de portas abertas, sem conseguir evitar de pensar no dia em que aquele mesmo automóvel havia chegado ao Trocado, trazendo Julia. Incomodado com meus próprios pensamentos, levei um susto ao ver Carol ao meu lado. Ela estava simplesmente parada, me olhando. Bufei de irritação, então ela riu, suavizando tudo. Logo, Ana também brotou do chão, aparecendo ao lado dela, e não muito depois, vi Diogo largando algo na van e caminhando para nós.

- Ok. Hora de dizer o que estou prendendo: Que merda tá rolando aqui? — perguntei, intrigado.

- Não faço ideia. — confessou-me Ana. — Diogo me chamou. Disse que queria conversar.

- Ele disse o mesmo para mim. — admitiu Carol. — Mas ao contrário de vocês, eu sei o que ele quer. Esperem só até ouvirem as novas... — ela riu, amarrando o cabelo num coque.

- Oh, céus! A Vicky está grávida? — berrou Ana, horrorizada.

- Não, imbecil! Espere o Diogo chegar! — ralhou Carol, e Ana calou-se, amuada.

Diogo parecia bem e péssimo, ao mesmo tempo. Fisicamente, era óbvio que ele não precisava de qualquer ajuda ou incentivo, mas em seu rosto, uma tristeza profunda espreitava, por baixo da pele. Foi perturbador vê-lo deste modo, principalmente porque para mim, ele era o único de nós que não havia se transformado em Inumano, com uma real chance de sobreviver por muito tempo. Se até mesmo o grande Diogo podia surtar, o que seria do resto? Tenso, estudei sua expressão, e então notei que o pânico que ele trazia, referia-se mais à expectativa de falar conosco, os amigos de Victoria, do que com o problema em si. A verdade, era que Diogo não tinha proximidade com nenhum de nós. E depois da morte de Luca, havíamos todos nos aproximado e meio que bloqueado o fato de que ele e Vicky estavam juntos, e que portanto, ele era meu cunhado postiço. Arrepiei-me com o pensamento, apesar de ser legal. Parando ao meu lado, com um dos braços apoiado na ambulância, Diogo suspirou profundamente, até que Carol se aproximou um pouco mais, provavelmente disposta a quebrar o silêncio.

- Você começa, ou eu? – ela cochichou, as unhas crescidas tamborilando na ambulância enquanto ela escorava o corpo no veículo.

- Eu falo. – disse Diogo, emburrado. Então ele voltou-se para mim e Ana. – Estou preocupado com Victoria. Nora está ficando mais forte de novo. Sei que parece que ela avançou no seu controle ultimamente, mas as coisas não são bem assim. Apesar do sucesso naquela igreja onde estivemos, ontem ela quase assassinou Carol, por ciúmes de Jonas. Além disso, temos o caso do Dimas, no qual ela nem titubeou. – Diogo respirou fundo, e bagunçou os cabelos lisos e compridos com a mão. – Sei que precisamos fazer coisas pra ficarmos vivos. Vocês sabem o que eu já fiz pelo nosso grupo. Não é segredo que matei os amigos de Mozart meses atrás. Mas o modo como fazemos isso, importa. Armando sempre dizia que devíamos ser decentes, mesmo se tivéssemos que agir de maneira brutal. E pra Nora, a brutalidade é banal. Ela não dá a mínima.

- Devo concordar. – anuiu Carol, deslizando a mão livre pelo próprio pescoço. Mesmo que eu desaprovasse o comportamento dela nos últimos dias (quiçá semanas), ela ainda era minha amiga. Senti-me mal por isso. Não queria que aquela Nora insuportável transformasse minha irmã em uma assassina sanguinária.

- Mas então, o que você sugere que façamos, Diogo? Sinceramente, não vejo como podemos ajudar a conter Nora. Ela pode nos matar como a insetos. E além disso, Victoria é a única que pode diretamente interagir com ela. É como se ela nem nos visse, quando surge. Creio que isso tudo é um reflexo da mutação que ela sofreu. Como se todos os desejos, medos e frustrações da Vicky tivessem formado uma dupla personalidade. E nesses casos, pelo que li, o melhor é tentar alcançar Nora, e fazê-la entender que precisa ajudar Victoria, e não corrompe-la. Mas não temos nenhum recurso necessário para tratamento. Deus, não temos nem um livro sobre isso! – irritou-se Ana, provavelmente já maquinando em sua mente uma forma de tentar ajudar nossa amiga.

- Acho que o melhor agora, é agirmos como se nada tivesse acontecido. – sugeri. – Vamos entrar no clima do pessoal, que prefere ignorar a morte do Dimas. Quanto à Vicky, Diogo, o melhor que você pode fazer agora, é continuar apoiando. Fique tranquilo quanto ao Jonas. Sei que o real motivo pra isso tudo, é que você queria saber se ela comentou algo conosco, sobre ele. Eles são amigos. Apenas Nora deseja algo mais. Ela não. Acredite, se ela não te amasse mesmo, não estaria com você. – tranquilizei-o, gostando e ver sua reação diante de minha franqueza. Eu sempre gostara de ser direto. Aquilo era uma das poucas coisas que não havia mudado. Carolina riu quando terminei de falar. Ela também era direta (até demais), e admirava isso nos outros. Trocamos um olhar cúmplice, e eu me levantei. – Acho que podemos considerar essa nossa reunião finalizada. Vou ajudar o Hugo com umas caixas, e depois você pode vir comigo até o Uno, pra ajudar o Rico e o Jonas, Diogo. Eles são péssimos com mecânica. Provavelmente vão destruir as peças importantes ao invés de retirá-las. Você é o único de nós com bagagem nesse assunto.

- Com as porcarias que eles davam pra polícia dirigir no Rio de Janeiro, não me admira que a infecção tenha se espalhado tão rápido. Na minha delegacia mesmo, nos virávamos com o que tínhamos. Todo policial era mecânico, do seu próprio modo. – contou Diogo, falando um pouco sobre sua vida pregressa. Raro momento. – Bem, tá combinado. Vai lá levar as caixas, e te espero no Uno. Vou ver se te ensino algo que preste, pra variar...

E retirando-se em seguida, Diogo foi caminhando em direção ao lado oposto de nosso acampamento improvisado. Ana e Carol olharam-me com curiosidade, certamente tão surpresas com a súbita afinidade entre mim e Diogo, quanto eu. Estaria uma amizade nascendo daquilo? Talvez. Numa realidade como a nossa, ou você vivia bem em comunidade, ou não vivia de modo algum. Ainda com o último pensamento ecoando em meus ouvidos, decidi concentrar-me em tarefas mais amenas, e menos sombrias...

Fernanda.

Eu não me cansava de ficar surpresa com Diana. Aquela era uma mulher que nascera para as tarefas domésticas, apesar de ter tido uma carreira de respeito antes do fim do mundo. Mesmo assim, suas habilidades para improvisar eram de se admirar. Sabendo do meu estado atual deplorável, ela vinha sendo um conforto sem igual nos meus momentos de desespero. Agora, enquanto eu arfava de calor e gemia agoniada sob os efeitos do sol, ela passava um pano úmido e meu pescoço, retirando a sujeira e refrescando-me ao mesmo tempo. Passou protetor solar na minha pele salpicada de sardas expostas, deixando-me admiravelmente apresentável. Afastadas do resto do pessoal, no fitamos por alguns momentos, dando um olá silencioso para Tânia, que seguia em direção à ambulância. Pouco antes, eu notara uma pequena reunião se formando ali perto. Otávio, Ana, Carolina e Diogo. Não precisava ir longe para deduzir que falavam sobre o incidente de Nora, o que era compreensível, mas para mim, demais no momento. Minha cabeça já estava cheia de besteiras para ter de aturar o humor oscilante e totalmente vulgar de Carol de perto. Eu ainda não estava falando com ela desde que insinuara que eu havia sobrevivido por todo o tempo em que nos conhecíamos, porque outros morreram em meu lugar. Eu ficara extremamente chateada, principalmente porque eu pensava o mesmo. Eu estava apoiando minha cintura contra a traseira da camionete, enquanto Diana lia uma pequena Bíblia, sentada em seu interior. Tão focadas estávamos em nossos próprios pensamentos, que não notamos a chegada de Gabriel. Levei um susto quando ele se materializou diante de mim, seu vigor juvenil e bobo, fez com que eu me sentisse quase uma velha, apesar de ser só um pouco mais velha que ele. Diana sorriu levemente ao notar sua presença. Eu podia prever que ela tinha algo a ver com aquilo. Mas, nossa! Eu não estava interessada naquele bobo alegre, nem nada do tipo! Só achava que Carol era uma péssima influência sobre ele, e odiava o modo como ela sabia usufruir do poder que exercia sobre os homens em geral. Era aquele tipo de artifício que delegara às mulheres o título de pérfidas e manipuladoras através dos séculos. Mas talvez eu só estivesse com inveja. Apesar de toda a luxúria que Carol exalava, ela ainda estava incólume, enquanto eu fora marcada com o filho de um monstro. Meus olhos estavam cheios de lágrimas quando Gabriel tocou meu braço. Sobressaltei-me, e ele afastou-se, um pouco sem jeito.

- Desculpa chegar assim, Nanda. Está tudo bem? – ele perguntou, de uma forma tão íntima, que me incomodou profundamente.

- Não me chame de Nanda. – rebati, insípida. Eu não conseguia entender como ele tinha o poder de me deixar na defensiva. Era frustrante.

- Mas... Todo mundo te chama de Nanda! – ele riu, um pouco chocado. Mas pra mim, ele percebera o quanto havia me afetado, e estava curtindo com a minha cara. Ridículo. – Sou assim tão desprezível?

- Quer a verdade? – resmunguei. – Não, você não é desprezível. Mas não é meu amigo, e eu não te conheço direito. Portanto, você não tem o mesmo direito que “todo mundo”. – fiz questão de gesticular com os dedos, pra dar ênfase no todo mundo. – Só fique longe de mim, e se poupe de um grande aborrecimento. – finalizei, sem fôlego ou paciência para ir mais devagar.

- Sabe, você precisa baixar a guarda. – seu tom de voz estava mais baixo, mais pensativo, mas não magoado. Ele havia entendido. – Não faz bem nenhum afastar as pessoas. E como poderei conhece-la se você nunca me deixar chegar perto? – inquiriu-me, aflito. – Só... Pense sobre isso. Espero estar vivo, pra poder te atender quando você decidir conversar de verdade comigo. – a piada dele saiu fraca, e deslocada. Porque não havia motivo algum para rir. Eu sabia que todos nós poderíamos morrer rapidamente, e a qualquer momento. Entretanto, ative-me a concordar com a cabeça, enquanto ele se afastava de mim, indo conversar com alguém que realmente o quisesse por perto. Troquei um olhar com Diana, e vi divertimento e reprovação em seus olhos. Ignorei-a. Meu caso era bem mais complexo do que amor jovem. Eu não podia me envolver com alguém, grávida de outro. Simples assim.

- Essa foi uma cena chocante. Sério, Nanda, nunca pensei que veria você falando com alguém daquele jeito. Cheguei até mesmo a me surpreender em algumas partes. Foi como pendurar uma placa em néon, declarando seu amor pelo fofinho do Gabriel. – riu-se Carol, parada bem ao meu lado, com seu ar divertido. Enchi o pulmão de ar para manda-la ao quinto dos infernos, quando ela ergueu as mãos ao lado da cabeça. – Calma, eu vim em paz. Na verdade, cansei de esperar que você me peça desculpas. Vim eu mesma fazer isso. Então, lá vai: Sinto muito por ter sido uma vadia com você. Minha EQM (experiência de quase morte) de ontem, me fez repensar algumas coisas. Então, queria falar com você sobre sua gravidez. – e foi simples assim, que ela deixou claro que sabia de tudo. Meu coração apertou no peito, e Diana tirou os olhos de sua Bíblia, estupefata.

- Isso não pode sair daqui, Carol. – advertiu, com profunda autoridade em sua voz.

- Olá, Diana! Nem te vi aí. É que não noto os coadjuvantes. Bem, meu assunto é com a Nanda, mas não tenho problema algum com você. Pode ficar tranquila. Se eu quisesse contar a alguém sobre o filho de Arlindo, já teria feito. E com certeza, não viria até aqui com uma oferta de paz. Posso ser muitas coisas, mas não sou falsa. – ela voltou-se para mim. – A questão, é que eu soube de sua conversa com a Sabrina. A coloquei contra a parede, e ela teve que me confirmar tudo. Você quer mesmo abortar? Eu acho que não devia. – e pela segunda vez, vi a aboca de Diana escancarar-se. A última pessoa que ela provavelmente esperava que concordasse consigo, era Carolina. Eu mesma, ainda estava tonta demais para processar aquilo. – Se é mesmo sua vontade conseguir os tais remédios, pode contar comigo. Mas é importante que você saiba. Esse tipo de coisa vai contra sua própria religião, se ela é importante pra você. Além disso, uma agressão dessas pode te matar também, e não temos muitos hospitais disponíveis hoje em dia. Mas como eu disse, é você quem sabe. Só cuide-se, sim?

- Carol, eu nem sei o que dizer... – tipo: “Há menos de um segundo eu te odiava, e agora acho que poderia te dar um abraço?”, acho que isso não expressaria bem meus sentimentos. Mas eu estava surpresa. Será que havia salvação pra pessoa mais controversa que eu conhecia? – Obrigada. Por enquanto, vamos manter os remédios. – notei a amargura na expressão de Diana, mas eu não voltaria atrás por hora. – Foi muito legal da sua parte vir conversar comigo. De verdade. Desculpas aceitas. – não totalmente, mas enfim. Éramos uma família, não éramos?

- Ótimo. Preparem-se pra viagem. Ricardo disse que estamos saindo em dez minutos. – só então notei a mochila em seus ombros. O alívio que me percorreu era real. Finalmente deixaríamos para trás todas aquelas tumbas de amigos queridos.

E pontualmente, dez minutos depois eu espremia-me na van, ao lado de Diana, Gabriel e Carol, enquanto Hugo e Ricardo dividiam a parte dianteira, coordenando nosso destino. Segundo Rico e Hugo, eles poderiam encontrar o caminho para Armação de Búzios, se pudessem lembrar de quando iam para lá nas férias, quando crianças. Desse modo, o veículo onde eu estava liderou o caminho, com nossos amigos bem próximos. Rezei à Maria para que não encontrássemos mais bandidos durante nosso caminho. Ela não me desapontou. A viagem foi relativamente tranquila. Depois de um pequeno período de confusão no caminho totalmente alternativo que estávamos fazendo, Ricardo situou-se ao lembrar da Estrada Velha de Búzios, a qual passou a contornar, tendo de aproximar-se um pouco mais das vias principais. Dessa forma, acabamos por ver um ou outro errante nas beiradas do trajeto, ocasionalmente. Por Deus, não havíamos encontrado nenhuma grande horda capaz de nos bloquear, mas com aquele caminho mais básico, era um novo risco. Por algum motivo, a gravidez recente estava me deixando com um sono intenso, principalmente no período da tarde, e nem me importei de deitar a cabeça no ombro oferecido por Gabriel, aconchegando-me a ele como se nunca o tivesse desprezado antes. Quando abri os olhos novamente, já estava anoitecendo, e Ricardo permanecia firmemente, ao volante. Diana havia adormecido, bem como Gabriel, que me apertava de uma modo totalmente invasivo. Afastei-me de seu abraço discretamente, recebendo um olhar humorado de Carolina, que preferi ignorar. Meu corpo estava dolorido e lento, por causa do banco e da posição na qual eu adormecera. Mas uma coisa era certa. Eu estava louca para ir ao banheiro.

- Quando é a próxima parada? – perguntei, rindo. Não era brincadeira, mas supus que eles haviam parado em outros momentos.

- Não vamos parar até chegar à Búzios. Chega de paradas. – determinou Ricardo, sem esforço algum. Hugo trocou um olhar intenso comigo. Ele estava realmente irritado.

- Eu preciso ir ao banheiro... Acabei dormindo e perdi a última parada. Será que não pode ser rapidinho, Rico? Só o tempo de eu abaixar as calças! – prometi, brincando. Ricardo nem se abalou.

- O problema, Nanda, é ninguém parou desde que estamos na estrada. Já estamos quase em Búzios, mas eu pelo menos estou louco para ir ao banheiro também. – declarou Hugo, descontente. – Ricardo se recusou a fazer uma parada, e nenhum dos outros pode desobedecer, porque não sabem o caminho. Então ele basicamente está obrigando todo mundo a seguir a gente, enquanto ele dirige sem parar e ignora nossas necessidades fisiológicas. – ok. Hugo sacudiu os cabelos loiros, recheados de tons desbotados, fulminando o parceiro com o olhar. Eu estava no meio de uma batalha sangrenta.

- Da última vez que paramos, perdemos seis pessoas. Só vamos parar em Búzios. – teimou Ricardo, fingindo que nem estava vendo Hugo. O rosto do mais novo ficou tão vermelho quanto uma maçã argentina. Carolina começou a lixar as unhas, indiferente. Ela escolhera a hora perfeita para ser silenciosa.

- É, concordo. O problema, é que você não sabe como os outros estão, querido. Temos crianças com a gente, sabia? Inferno, você nem quis parar pra checar a merda da pousada! – ok, eu estava apagada nessa parte.

- Que pousada? – indaguei, quebrando a explosão de Hugo pela metade. Ele suavizou ao fitar-me.

- Pousada Arambaré, ou algo do tipo. Um lugar pelo qual passamos, e que estava em ótimas condições. Devia ter comida lá dentro! Estamos bem próximos do centro de Búzios agora, não custava parar. Uns zumbis tentaram atacar a caravana assim que você dormiu, mas desviamos deles e tudo ficou bem. Depois, não vimos mais nada. O que mostra quanta maluquice é privar as pessoas dessa forma! Pelo amor de Deus, Rico! – guinchou Hugo, subitamente voltando sua atenção para o outro ao volante, conforme ia falando.

Levei um susto quando Ricardo pisou no freio com violência, derrapando uns bons metros até parar totalmente. Tanto a ambulância quanto a camionete tiveram que desviar de nós, para não causarmos um engavetamento involuntário. Hugo ficou branco de susto, Carolina bateu a testa na janela, e Gabriel caiu por cima de mim, que por minha vez cai em cima de Diana. Ambos despertaram no susto. Ainda emburrado, Ricardo abriu a porta do motorista, e saiu do veículo, afastando-se a passos largos da van, enquanto o exterior ficava cada vez mais escuro. Olhei para Hugo, e o observamos um pouco. Nosso líder esfregou as mãos no rosto, e bufou, andando em círculos até Victoria e Diogo se aproximarem dele. Provavelmente perguntaram-no se tudo estava bem, o que ele simplesmente dispensou com um gesto. Então, vi o rosto de Hugo mudar. Ele passou de irritado, à possesso.

Aquela noite ficaria clara logo, logo. Deixando o veículo logo depois de mim, ele bateu a porta do carona com tanta força, que silenciou algo que Tânia estava dizendo. Apenas o estalo do impacto foi ouvido, noite adentro. Arrepiei-me de medo, enquanto Carolina mordia o próprio lábio para não rir ou dizer algo extremamente desagradável, como sempre fazia. Diana e Gabriel ainda pareciam confusos, olhando ao redor. Indiquei o exterior com a cabeça, e Carol abriu uma das portas, esperando-me enquanto saía do veículo. Diana ainda estava me olhando, quando disse-lhe rapidamente que ficasse ali, se não quisesse ir ao banheiro nem nada do tipo. Gabriel voltou a dormir, depois disso.

- Um grosso! Tremendamente ignorante! É isso que você é! Mandão autoritário! – esbravejou Hugo, cutucando o peito de Ricardo com seu indicador. Victoria parecia tensa, e olhava desesperada de um para o outro, tentando solucionar aquela loucura. Diogo apenas olhava, parado ao seu lado, com um sorrisinho estúpido no rosto. Não pude acreditar que ele estava se divertindo. Na plateia, todos haviam saído de seus respectivos veículos, para apreciar o show.

- E você achou que íamos descer do carro e fazer o quê? Nos hospedar naquele hotel bonito? Acorda, Hugo! Minha mãe foi morta! Perdemos mais gente nos últimos quatro dias, do que em meses! Não vou arriscar a vida de ninguém sem necessidade! Se você não consegue entender isso, então precisa entender da maneira mais simples: Eu mando, e você obedece! É assim que ficamos vivos! – rebateu Ricardo, segurando a mão de Hugo. Vi meu amigo ficar verde com as últimas palavras de Rico, e engoli em seco, horrorizada.

- Você manda. Eu obedeço. Sério? SÉRIO? – o grito me deu um susto tão grande, que achei que fosse cuspir o embrião que se formava em meu útero. – Eu ajudei esse grupo tanto quanto você, desde que cheguei. Te ajudei a tomar cada maldita decisão até agora, e de repente você decide ser um ditador porque não quer que ninguém morra? Vai se foder, Ricardo! – Hugo o empurrou quando Rico tentou se aproximar. – Você ia mesmo deixar todo mundo mijar nas calças e passar mal de fome, desde que estivessem vivos? E se tivesse algumas coisa útil naquela maldita pousada? Eu não queria morar lá, só queria procurar comida! Você deve gostar de comer salsicha e pêssego enlatados durante uma semana, mas eu não, merda!

- Eu também quis parar. Só que ia acabar me perdendo, já que o nosso Rei Ricardo não deu qualquer sinal de que pararia... – manifestou-se Sabrina, levando um beliscão de Ana, em seguida. – Ai! Desculpa!

- Você sabe que só vamos conseguir sair dessa, se ficarmos juntos. Se decidirmos juntos. Não vai adiantar tentar ser algo que eu sei que você não é. Ricardo, não é esse o caminho. Você me contou daquele seu amigo, o Armando... O que ele te disse quando morreu? – cobrou Hugo, aparentemente mais calmo.

- As pessoas mudam. E Armando está morto. – sem mais, Ricardo voltou a caminhar na direção da van, e sentou-se ao volante. Sua expressão era indecifrável, determinada, e dura. Ele não ligou o veículo, mas estava pronto para partir. Hugo me fitou nos olhos, e tive certeza de que se eu queria ir mesmo ao banheiro, devia ser bem rápida.

Nós não paramos outra vez, até que vimos toda a fumaça, e os gritos de pavor encheram o ar....

Notas finais
Sugestões? Comentários? Apelos? Protestos? Quero ouvir a opinião de vocês, caros leitores. As coisas só estão começando a esquentar...

Kisses by DroppingPieces!