Quebranto.

38 Show de Horrores.


Notas iniciais
Bem gente, fim de ano está tenso e provando cada vez mais que é um desafio distribuir o tempo adequadamente quando se tem mil coisas para fazer ao mesmo tempo. Ainda assim, queria dizer que não me esqueci de vocês, e que a fic está começando a pegar ritmo de novo! Neste fim de semana resolvi movimentar a história com novas postagens! õ/ Muito obrigado a todos os fantasminhas camaradas que marcaram a história para acompanhamento. É muito bom saber que vocês estão acompanhando a fanfic! Capítulo dedicado às minhas falantes e dedicadas amigas Mare e AxlEffy. Sem elas com seus comentários hilários e sugestões, alguns de nossos personagens já teriam morrido há muito tempo. Obrigado por deixa-los viverem, meninas!

Fernanda.

Antes de enxergarmos o acampamento, vimos a fumaça que subia aos céus negra, em busca do céu nublado. O tempo mudara bem como o humor do grupo. Todos estavam ansiosos e nervosos, agora que nos aproximávamos de Búzios, após tanto tempo de sofrimento e dedicação. A expectativa de encontrarmos uma base militar segura e operante era boa demais para que nos mantivéssemos sempre longe das ruas principais. Pouco antes da entrada principal que dava no centro, deparamo-nos com este Eldorado que tanto havíamos idealizado. Pena, que ele estava sob ataque. Quando a Estrada Cabo Frio – Búzios finalmente deu lugar à Avenida José Bento Ribeiro Dantas, tudo o que desejávamos era o pouco de paz que nos mantinha vivos todos os dias. Foi assustador ver tudo aquilo cair por terra. Uma enorme placa de identificação havia sido derrubada ao lado da estrada, e o Acampamento Militar de Geriba parecia um resquício de resistência, em meio ao caos e ao fogo. Alguns sobreviventes corriam em meio aos destroços, empalando zumbis com facões e queimando algumas das enormes vespas mutantes que se esgueiravam entre a fumaça, picando aos desavisados. Os gritos femininos, infantis e masculinos enchiam o ar, e tive de me controlar para não soluçar com o pânico. Por um instante, o choque paralisou Ricardo, e logo Diogo e Sabrina também frearam os seus veículos, atrás de nós. Ainda assim, ninguém fez nada. Todos estavam aguardando. Ajudaríamos aquelas pessoas a reerguer o lar que havíamos lutado para alcançar, ou simplesmente não arriscaríamos nossa pele? Antes de uma resposta ser dita, eu já a conhecia.

– Vamos ajudar essa gente? – perguntou Hugo, cansado. Ricardo negou com a cabeça. Suspirei, apertando a mão de Diana.

Uma garota de mais ou menos vinte anos chocou-se contra a janela lateral da van, no lado de Gabriel, logo atrás do banco do motorista. Desesperada, ela clamava por ajuda enquanto uma mulher e um menino pequeno vinham também em nossa direção, caminhando com dificuldade. Notei com pavor que a garganta do menino havia sofrido com uma mordida das vespas, enquanto a mulher e aquela menina que parecia ser sua filha, estavam ambas arranhadas pelos errantes. O primeiro instinto de Gabriel foi o de erguer a mão para o fecho da porta. Detive seu braço. Do lado de fora, aquelas três pessoas que haviam se afastado ao máximo do acampamento ainda clamavam por ajuda. Ricardo buscou o meu olhar, e puxou a sua arma. Avisei a Gabriel para que abrisse a porta. O momento de alívio tornou-se pânico no rosto daquele trio desconhecido, quando Rico acertou cada um deles com um disparo certeiro, na testa. Caindo, os corpos vibraram contra o chão empoeirado, e então o motor roncou novamente. Ansiosa, olhei ao redor enquanto uma horda se formava, reunindo errantes de toda a vizinhança. Aceleramos seguidos de perto pelos outros dois carros. Hugo permaneceu fitando o espaço entre seus pés durante um longo tempo, até que suspirou e fechou os olhos, claramente tentando dormir.

– Eles estavam infectados... Não podíamos fazer nada pelos que estavam no acampamento. Talvez alguns até sobrevivam... – Rico pousou a mão no ombro de Hugo, que desvencilhou-se. Encolhi-me, sabendo que aqueles dois discordavam em muito no modo de proceder. Pelo que eu notara, a morte de Madeline mexera com os limites de Ricardo. Ele ficara mais consciente do perigo, mais cauteloso também. Talvez, cauteloso até demais. Parecia quase tão modificado, quanto eu própria o fora, pelo que Arlindo me fizera.

– Que Deus os proteja. E a nós também. – gemeu Diana, aflita. Gabriel concordou, mudo.

Eu não tenho certeza do quanto nos afastamos do caminho inicial. Ninguém tinha certeza sobre o que fazer. Nossa última esperança, fora — da maneira mais brutal possível — aniquilada. Nosso único impulso (ou melhor, de Ricardo), foi ir para o mais longe possível da confusão, da selvageria que envolvia o grupo de sobreviventes que não conhecíamos. Tantas pessoas, tantas vidas perdidas. Talvez, saber que poderíamos ter feito a diferença positivamente, fosse mais difícil do que imaginar que poderíamos ter morrido caso tentássemos ajudar. Mas para Hugo, a situação estava sendo visivelmente angustiante. Claramente, ele estava próximo de uma ruptura. E de uma forma impressionante, não poderia estar reagindo de modo mais diferente que eu. Sabia que não era cristão o que havíamos feito. Mas fora o necessário para manter a todos seguros. Não teria problemas em conviver com isso. Nenhum de nós havia causado a falha de segurança que prejudicara o acampamento militar, nem havíamos matado ninguém. Bem, Ricardo havia. Talvez um dos três membros daquela família infectada se transformasse num Inumano. Mas, e se fossem Inumanos psicóticos, e não superdotados? Eram muitos riscos, e dessa forma, Ricardo decidira carregar consigo três mortes, ao invés de arriscar o grupo. Ironicamente, o mesmo que Diogo fizera, tempos atrás. Fitando a vegetação que passava através do vidro, notei o quão abandonada aquela estrada já parecia. O verde começava a invadir o asfalto, sem podadores que o controlassem há mais de um ano. Veículos e mais veículos jaziam abandonados, e resisti à tentação de sugerir uma parada para investigação, ao notar o clima na van. Atrás de nós, a doblô e a ambulância seguiam, de maneira uniforme e coesa.

Cerca de quase uma hora depois, contornamos a região urbana na qual havíamos adentrado, até que nosso caminho cruzou com uma estradinha de areia e terra batidas. Seguimos a mesma até encontrarmos uma praia escondida, passando pela pousada da Praia da Tartaruga. Ricardo pareceu decidir-se por seguir em frente ao volante, e antes que alguém pudesse protestar, estávamos na praia de mesmo nome, surpreendentemente pacífica e livre de criaturas. Quiosques abandonados, bem mais elaborados que os de Peró, enfeitavam a costa com suas silhuetas castigadas pela maresia. O local parecia um poço de felicidade em meio ao caos inimaginável. O silêncio e a tranquilidade de sua totalidade faziam com que todos suspeitassem daquela calmaria exacerbada. A areia limpa revolvia e voava por todas as direções, enquanto os veículos estacionavam desajeitadamente no projeto de estacionamento, agora totalmente tomado por vegetação rasteira, xerófila, e montes de areia levados pelo vento. Quando a van finalmente parou, eu podia sentir o sal na língua, e lembro de ter desejado ardentemente poder temperar alguma comida de verdade com o mesmo. Nem que fosse preciso regar água salgada, eu daria tudo por um bife suculento. Eu precisava lembrar do gosto de carne bovina, e tinha plena certeza de que não era só por mim. Era um dos meus desejos de grávida. O pensamento, óbvio, me fez ficar enjoada. O que não contribuiu em nada para que eu aceitasse aquele clima mais facilmente.

– Por que nos trouxe para cá? – sussurrou Hugo, encarando Ricardo com um olhar penoso.

– Agora eu me lembro de quando éramos crianças. Essa era a praia favorita de mamãe, quando vínhamos à Búzios. – recordou Ricardo, apertando o volante com força. Ele suspirou e fitou o exterior por alguns instantes mais. Enquanto os outros paravam próximos a nós, vi que meu amigo parecia finalmente estar pesando as consequências de suas atitudes. Rico tinha os olhos marejados, e os lábios rígidos, cerrados num aperto de ferro. Hugo fez menção de tocá-lo, mas nosso líder afastou-se rapidamente, deixando o loiro sem jeito. Bufando, ele então retirou-se do carro, deixando um Ricardo que olhava impassível para a praia, e o resto de nós estupefatos no banco de trás.

Fosse o que fosse, aquilo estava começando a ficar fora de controle...

Otávio.

Pelo quinto dos infernos, eu ainda estava com as canelas tremendo quando chegamos à Praia da Tartaruga. Eu nunca tinha visto algo como o inferno em que aquele acampamento militar havia se tornado. De uma forma bem estranha, peguei-me refletindo sobre talvez, e só talvez, nosso pequeno atraso ter sido algo proposital, do destino. Se tivéssemos chegado ao nosso destino dias mais cedo, talvez também estivéssemos todos mortos agora, naquele mundaréu de fogo e fumaça. A parte ruim, é que muitos de nós haviam precisado morrer para que chegássemos ali, mas se uma inteligência superior realmente existisse, talvez soubesse o tempo que cada um de nós necessitava, para ficar ali e expiar nossos pecados. Ou, se tudo fosse apenas uma roleta russa cósmica, devíamos mesmo nos considerar sortudos, por ainda não termos virado adubo. Eu sinceramente não me julgava apto a escolher nem por uma alternativa, nem por outra. Não com minhas pernas tremendo de medo e os nervos de meus braços repuxando com a lembrança das pessoas correndo em desespero atrás dos nossos carros. Um show de horrores, como eu disse. Quando Sabrina finalmente estacionou a doblô perto da camionete de Diogo, saí em disparado brindo a porta do banco de trás e rumando em direção ao monte de mato mais próximo. Colocando para fora a pouca comida que eu conseguira engolir nos últimos dois dias, me senti febril e nada bem.

– Hey, tá tudo bem? – era Hugo, que envergava uma cara de poucos amigos, até me ver. Então cobri minha boca com uma das mãos, dispensando sua preocupação.

– Não, estou bem. – tranquilizei-o. – Só acho que engoli um pouco de fumaça, lá atrás. Mentira pura. Mas eu não admitiria que tinha menos estômago para essas coisas que a Fernanda, por exemplo. Eu mesmo jamais conseguiria matar alguém como ela fizera com Arlindo.

– Posso ajudar? – ofereceu-se Tânia, já se aproximando com uma caixinha de primeiros socorros. Ela notou meu olhar confuso, e sorriu. – Mozart bateu com a testa na parede da ambulância, enquanto fugíamos. Coitado, sangrou muito. Já limpei tudo. Precisa de um antiácido, Otto?

– Não, Tânia, sem problemas. Guarde pra alguém que precise mais. – dispensei. Eu sabia o inferno que era achar remédios. Onde tinham os malditos, tinham dezenas de zumbis por perto. Melhor não arriscar.

– Tudo bem. Cuidem-se meninos. – ela saiu de perto, deixando a mim e Hugo sozinhos, observando os movimentos do resto do grupo, que começavam a esticar as pernas. Victoria e Diogo estavam se afastando do resto de nós, com expressões sérias. Curioso, anotei mentalmente que deveria procurar minha irmã depois. Ana parecia dar um sermão em Sabrina sobre algo que ela dissera antes, e como eu já havia ouvido tudo aquilo no carro, ignorei totalmente. Mas o modo como Hugo parecia perdido, realmente me incomodou. O que estava rolando? Não percebi que havia dito isso alto, até que ele virou a cabeça na minha direção.

– Ricardo está perturbado com a morte de Maddie. A ficha dele caiu tarde demais, e agora, ele parece bem paranoico. – cuspiu Hugo. – Nem me deixou opinar sobre o que precisávamos fazer. Agora me diga, Otto, com sinceridade. Sem a mim pra aconselhá-lo, acha que estamos indo por um bom caminho? Não quero me valorizar nem nada, mas Rico às vezes age ou com o coração demais, ou com frieza em excesso. Ele não pondera, não de verdade. Mesmo que pareça sensato.

– Eu devo concordar. Há muito tempo atrás, lembro de ter votado no Diogo para nosso líder. Mas isso pareceu bobeira quando as coisas começaram a dar certo. O mais engraçado, foi que tudo se encaminhou exatamente quando você chegou até nós. E agora, percebo que você dois são nossos líderes, como uma dupla. Sem um, o outro só faz merda. – admiti. Eu não queria me meter no relacionamento de ninguém, mas se era sobre o grupo, então que ouvissem minha opinião. Eu jamais me colocaria num cargo de autoridade, mas quem o quisesse deveria agir de acordo com a posição. Sem Arlindos. Sem loucos como o Dimas.

– Obrigado, isso significa muito. – Hugo sorriu, e antes que eu pudesse raciocinar ele havia me abraçado. O mais estranho, é que não parecia o tipo de abraço com o cunho pervertido que vocês devem estar imaginando. Era pura e simples amizade. E mesmo que eu não costumasse abraçar outros caras por aí, retribuí o gesto. Hugo não mudaria minha opção sexual por ser gentil. E, caramba, não existiam nem leis! Pra quê preconceito?

Mas acho que Ricardo não gostou muito. Eu já suspeitava que ele tivesse cisma comigo, mas o olhar que lançou foi puro gelo. Hugo também pareceu notar a expressão do nosso líder, porque se afastou sorrindo e caminhou em direção à ambulância. Suspirando mentalmente, torci para que, mesmo que sem intenção, eu não tivesse declarado guerra à Ricardo. A última coisa de que eu precisava era de mais problemas.

Victoria.

Eu estava cansada. Cansada da viagem, de fugir, de Nora, dos monstros, e agora, e mortes. Cansada. Realmente, essa palavra era quase um mantra para mim, nos últimos meses. Há quase um ano eu saíra de casa para passar férias, e agora o mundo que eu havia deixado para trás, não existia mais. Meu namorado morrera, eu me tornara uma espécie de mutante, e agora tentava sobreviver com um grupo cada vez mais frágil e desajustado. Mas isso, todos vocês já sabem. Minha história já foi recapitulada diversas vezes, e a cada momento em que me lembro do que passei, pareço ter algo a mais de ruim para acrescentar. E isso cansa. É neste ponto em que voltamos. Quando Diogo me afastou gentilmente do resto do grupo, minha emoção predominante era o cansaço. Mais mental que físico, embora eu tenha dormido quase que a viagem de carro inteira.

– Tá tudo ok contigo, Vicky? – indagou-me, perscrutando meu rosto. O olhar de Diogo pesava sobre mim, principalmente depois da cena que Nora armara. Ela era simplesmente terrível. Uma vadia de marca maior.

– Estou ótima Diogo. – rebati. – Um dia de cada vez, né? – ele assentiu, e pareceu relaxar.

– Eu tava preocupado contigo. – silêncio. – Só queria que você soubesse que, bem, eu não ligo pro que Nora disse. Mesmo que uma parte de você se sinta atraída por Jonas, eu sei que é a mim que você prefere. Se não, podia estar com ele né? Ele é que nem um cachorro correndo atrás de ti. – eu tive que rir, revoltada. – Enfim, quero que você saiba que está tudo bem. De verdade. Ninguém controla os pensamentos, né? Eu mesmo já reparei na bunda da Carol, uma ou duas vezes...

– Cretino! – gritei, rindo, e comecei a socar seus braços de leve, enquanto ele desviava e ria, da própria piada. Embora eu achasse francamente que não era piada alguma. Diogo riu alto e segurou minhas duas mãos, puxando-me para ele com força, quase me desequilibrando. Meu sorriso engasgou, e fitei seus olhos profundamente, subitamente hipnotizada. – O que foi?

– Só tô te olhando... – ele riu. – Esses olhos são muito sinistros... – então passou a mão delicadamente sobre meu rosto. – Mas em você de verdade, eles ficam bem bonitos. Totalmente diferentes de quando é a....

– Shiiii! – guinchei, não querendo invocar o nome do demônio. – Cala a boca, ela tá bem quieta agora! Quero que continue assim!

– Ok, tá certo. – ele riu. – Vou ficar bem calado, então... – ele fechou meus lábios com os dele, e senti seu gosto inundar minha boca. Sua essência se unindo à minha num abraço que ia além do plano físico. Uma união de almas, que tirou-me de chão. Como Diogo me fazia bem! Era como encontrar uma ilha, no meu do mar revolto. Minha própria bola de basquete, em minha versão particular de “Náufrago”. – Ok. Temos que falar sobre o Ricardo. – ele disse, interrompendo nosso momento romântico com sua seriedade típica.

– Ai, droga. De novo com esse assunto da liderança? Cê ainda tá apegado nisso, Digo? – reclamei, pondo a mão na cintura e batendo o pé no chão.

– Não é nada disso, garota! – ele resmungou, e sorri vitoriosa. O assunto ainda o incomodava. – Só tô dizendo que ele não tá bem? Viu o show eu deu com o Hugo na frente de todo mundo? Tô avisando, cedo ou tarde ele vai pirar. Aqueles dois pareciam que iam cair na porrada. – eu tinha que concordar. Também estava preocupada com meu amigo.

– Vamos ficar de olho no Rico. E na Nora também. – decidi. Ele concordou com um aceno, e amparou meu abraço quando passei os braços em volta de seu pescoço. – Vamos fazer as coisas funcionarem, você vai ver. Só precisamos pensar num problema de cada vez.

E em nosso abraço, não havia dor quando fitamos a noite que se aproximava.

Carol.

Eu estava mais do que nervosa com toda a demonstração de faniquito que Ricardo dera no meio do caminho para a Praia da Tartaruga. Se nem o cara que devia nos proteger dava conta da coisa, então aquele grupo tava mais do que fodido. É claro que, quando me refiro ao grupo, não me incluo na parada. Para sobreviver, sou claramente capaz de fazer qualquer coisa, e o modo como Rico parecia confuso, e Hugo parecia incapaz de controla-lo só me fez considerar ainda mais a hipótese de agarra Jonas. Não que isso fosse difícil. Ele era um cara incrível, um ótimo amigo. Se forçar algo com ele fosse tudo o que eu precisava para me manter, então eu faria exatamente isso, sem medo do amanhã. Além disso, haviam outros com quem eu me importava, ainda que minimamente, se comparados ao meu instinto de preservação. Victoria, Otto, Ana, Nanda. Eu também queria vê-los seguros. E para mim, a solução parecia cada vez mais clara. Se Rico continuasse fora da casinha, seria fácil destronar a Drag Queen, e colocar o Diogo no lugar. Lembrando-me de ficar atenta à isso, acabei levando um susto quando vi meu caminho até a camionete (era lá onde a bolsa com minhas roupas estava) ser bloqueado pelo borrão loiro de Sabrina pisando firme, enquanto Ana a seguia de perto.

– Qual o seu problema? – chiou minha amiga, um pouco mais bonita do que o habitual. Sua pele de ébano parecia mais brilhante e viçosa, e os cabelos naturalmente cacheados pareciam finalmente renovados e livre de qualquer química que anteriormente ela utilizava para mantê-los lisos. – Eu já disse que é melhor esperarmos o momento certo, antes de fazermos isso! Ela não vai morrer! – Ana estava realmente irritada. Perceber isso finalmente acendeu meu interesse pela conversa.

– Não se trata de morrer, Ana. Eu fiz uma promessa. E além do mais, gerar um filho daquele monstro é castigo pior que a morte! – esbravejou Sabrina, forçando o tom de voz baixo, para que ninguém descobrisse sobre a gravidez de Nanda. Para a sorte delas, eu já havia descoberto. Senão, teriam que explicar isso à ruiva. Não estavam sendo nada discretas. – Não parece que estamos indo a lugar algum por enquanto. Podemos muito bem tentar encontrar um abortivo no centro, e voltar rápido. Estamos muito perto. – continuou a loira, seu corte de cabelo quase irreconhecível, com os cabelos dourados crescendo profusamente onde antes seu couro cabeludo era raspado.

– Será que seu ódio por um homem que já morreu é tão grande, que você quer eliminar qualquer resquício dele da Terra sem pensar nas consequências? Já pensou que podemos encontrar um daqueles Inumanos horrorosos, e não voltar? Ou pior, uma horda de mortos-vivos, uma matilha de cães do inferno! Quer mais algum motivo pra esperarmos ter um lugar para onde fugir se der merda?

– Independentemente de onde a gente vá, sempre haverá esse risco. – rebati, intrometendo-me no assunto. – Relaxem, a própria Fernanda já me contou tudo. E se você quiser ir, pode contar comigo, Sabrina, eu ajudo.

– Você? – duvidou Ana. – Querendo sair de perto dos homens fortes que possam protege-la?

– E quem disse que eu vou sozinha? – debochei, admirando a ingenuidade dela. – Se eu for, é claro que Jonas vai comigo.

– Com pode responder por ele? – desafiou-me Ana, a sabe-tudo.

– Espere e verá. Vai ser mais rápido que puxar o gatilho de um revólver. – brinquei, com uma piscadela. – Agora, Sabrina, o que tem em mente?

– Quando estávamos vindo pra cá, e nos desviamos por causa do lance com a base militar, vi uma placa no caminho indicando o centro da cidade. Lá, vai ser fácil acharmos uma farmácia, pegar alguns remédios com efeitos abortivos e voltar. Assim a Nanda vai poder se livrar do bebê que não quer, e eu fico em paz sabendo que o mundo estará livre do Arlindo pra sempre. O que acha? – a loira inquiriu, fitando-me intensamente. Sorri. Ela era má. Finalmente pude ver. Nem eu me referia daquela forma à uma criança.

– Cruel, engenhoso e genial. – disse, rindo. Ana balançou a cabeça, inconformada. – Sabe, você não precisa ir se não quiser. – sugeri. Ana fitou Sabrina nos olhos, e a loira surpreendentemente sacudiu os ombros, como se não fizesse falta.

– Ótimo, então eu não vou. – vociferou Ana. – Boa sorte com sua tentativa de assassinato.

Sem uma melhor maneira de se posicionar contra a nossa intenção e a de Nanda, Ana caminhou sem olhar para trás, na direção do restante de nós, que se uniam no centro do círculo formado pelos nossos veículos. Ao se aproximar deles, notei que Jonas passou por ela e olhou na minha direção, com um sorriso que inundou seus olhos. Ri de volta, surpresa com meu próprio entusiasmo. De um jeito esquisito, eu havia gostado de fazê-lo sorrir daquela forma. Era quase a mesma sensação de quando Luca sorria pra mim... Afastando aquelas insanidades da cabeça, montei meu melhor olhar de donzela em perigo, e quando Jonas chegou perto o suficiente, o surpreendi com um selinho. Ele arregalou os olhos e me abraçou apertado, girando-me. Por cima de seu ombro, pisquei para Sabrina e ela abafou um sorriso. Parecia que uma boa parceria estava se formando.

– O que houve, Carol? – indagou-me Jonas, preocupado.

– Eu e Sabrina precisamos ir até uma cidade. Não posso te dizer o motivo real, mas é algo muito importante, para a Nanda. – contei, até então sincera. – Estamos indo amanhã de manhã, não queremos demorar nem incomodar ninguém. Mesmo que tenhamos que ir sozinhas. – minha falsa determinação convenceu até mesmo a mim. Se ele fizesse o mesmo que Sabrina e abanasse os ombros, juro que cavaria um buraco no chão com minha faca e me enterraria, de vergonha.

– É claro que você não vai pra cidade sozinha. Se isso é mesmo importante, vou com você. Nem pensar que vou correr o risco de me perder de você. – garantiu Jonas, fitando-me seriamente. – Prometo não atrapalhar, sou bom nos ambientes urbanos. Sobrevivi um bom tempo sozinho, antes de achar a Vicky. Vou dar conta de ajudar vocês. E nem precisam me dizer o que estão buscando. Beleza?

Sorrindo como uma leoa que brinca com sua presa, o abracei apertado. Jonas era realmente, meu. Me manteria segura. E eu o faria feliz, de todas as maneiras que eu pudesse. Uma fusão de negócios mais que bem sucedida. Se o mundo não tivesse acabado, eu certamente me daria muito bem no ramo administrativo. Em seus braços, notei o olhar admirado de Sabrina. Talvez pela primeira vez, ela havia percebido do que sou capaz. O que era ótimo, pois eu não hesitaria em eliminá-la caso me causasse problemas com seu caráter desviado. Não que o meu não fosse, mas eu não era totalmente fria e violenta. E Sabrina era, e eu provaria isso, mesmo que por hora, a mantivesse como parceira. De fato, seriam momentos intensos no centro de Búzios.

Aquela missão de busca era apenas o início de algo muito maior...

Notas finais
Carol sempre surpreendendo com sua personalidade dúbia. Alguém arrisca adivinhar o que vai acontecer? Alguém afim de me matar por parar na melhor parte de novo? Comentem pequenos espectros, e logo eu posto mais um capítulo! ^^ Kisses by DroppingPieces!