Quebranto.

109 Vale da Sombra da Morte.


Notas iniciais
Boa leitura! ♥

Carolina.

A areia da praia estava manchada com as marcas do mar. Pequenos rastros de espuma branca beijavam os grãos, achatando-os num desenho contínuo e ondular. Era como contemplar uma época vista apenas em sonho. Até onde meus olhos iam, tudo o que se notava era o sol, algumas nuvens e o cheiro do sal no ar. Quase como se estivéssemos sozinhos, eu, Deus e a natureza. Exceto que havia mais alguém ali. De pé e vestindo uma bermuda cor de creme, como um turista que nunca pisou no calor de uma praia brasileira. Os cabelos ruivos dele voavam com a agressão do ambiente, mas ele estava sorrindo. Sua blusa xadrez em tons de vinho e vermelho aberta, revelando seu tórax esguio. Eu me lembrava de cada marca ali. Podia ver a sua sombra projetando-se sobre a areia fofa. Então tomei consciência de mim, pela primeira vez desde o início daquele sonho. Pois sim, aquilo precisava ser um sonho. Nada mais explicaria Luca ali, me abraçando enquanto aproximava o seu corpo do meu. Fechando os olhos com o seu aperto, senti meus cabelos roçarem no rosto. Estavam compridos novamente, como se eu nunca os tivesse cortado.

— Você continua linda, sabia? – Ele ria, mas sua voz trazia um tom triste. – É como se eu nunca tivesse partido.

— Você está mesmo aqui? Não consigo ver nada. Estou alucinando com as drogas que me injetaram, não estou? – Gemi com a voz embargada, subitamente assustada ao lembrar que Luca estava morto. – Eu morri?

— Depende de você. Se quiser mesmo ver o que existe além, então precisa vir comigo. Tudo ficará bem e você não vai sentir nada. Eu prometo. Você pode finalmente entender tudo o que aconteceu e descansar, Carol. – Luca tirou os fios que ameaçavam ocultar o meu rosto. Seu toque era quente e aconchegante contra a minha bochecha. – Você foi muito corajosa. Nunca imaginei que você descobriria coisas que eu só descobri aqui, em tão pouco tempo.

— Você não teve oportunidade para mudar. Você teria se tornado uma pessoa muito melhor do que eu. – O corrigi, aceitando que de alguma forma totalmente absurda ele estava mesmo ali. – As coisas não acabaram bem. Pegamos a pessoa errada.

— Você tem razão. O responsável por tudo o que aconteceu continua impune. Ele não foi punido esta noite, nem será antes de causar ainda mais sofrimento. Tem certeza de que quer voltar? O que a espera será doloroso. – Seu abraço se tornou um pouco mais firme, como se quisesse me proteger do futuro. Mas ele estava certo. Eu queria mesmo voltar. Só não imaginava como ele conseguira ler meus pensamentos. – É normal aqui. Aprendemos com o tempo, Carolina. Diga à Vicky e ao Otto que eu os amos. Ana pede que fiquem bem, e não desistam.

— Eu vou lembrar disso? – Não queria esquecer. Mesmo que a dor em meu peito tornasse difícil articular as palavras, não queria esquecer daquilo. Da esperança que vê-lo ali depois de tudo, significaria para mim.

— Você chegou perto demais para esquecer. Fique em paz, Carol. Você precisará de toda a sua força... Toda ela. – Então fui ofuscada, como se permanecer de olhos abertos fosse duro demais, cruel demais.

Minha visão entrou em foco quando as lâmpadas brancas pararam de provocar ondas de dor em minhas pálpebras. Levando algum tempo para reconhecer o quarto de hospital, ainda sentia soluços presos na minha garganta. Uma lágrima terminou de escorrer pelo meu rosto, obrigando-me a perceber todo o frio que estava sentindo. Frio. Aquilo era bom. Eu estava viva, mesmo que tremendo. E eu me lembrava de Luca. Do que havia dito, e da praia... Meu Deus. Eu devia estar louca por acreditar naquele sonho. Mas da forma como vi e senti, era real. Mais real do que o gosto amargo na minha boca, e cateter no meu braço. Movi o pescoço, sentindo tudo ainda muito dolorido. Era como me mover do interior de um monte de terra. Meus olhos alcançaram o corpo curvado e cansado de Arantes, e acabei sorrindo por vê-lo ali, tão perto. Estava deitado na poltrona de dois lugares ao lado da minha cama, com metade das pernas para fora. Ainda assim havia adormecido, ainda com alguns arranhões e sangue aparente em sua roupa. Ele estava com os joelhos ralados por baixo da calça preta, porque eu podia ver a carne viva sob os rasgos. Um corte na sua boca denotava um soco. As coisas haviam sido tensas do lado de fora da sala de segurança. A sala... Como eu havia saído de lá? Só me lembrava de Agnes, e de querer matá-la por ter nos feito de idiotas. Principalmente a Abel, cuja imbecilidade fora maior que a média de uma população inteira. Com meus amigos incluídos na pesquisa. Como você namora alguém, sem conhecer um terço do que a pessoa é capaz? Bem, aposto que muita gente se pergunta isso, todos os dias. Quem sou eu para julgar?

Arantes havia acordado com a mudança no ambiente provocada pelo som alto da minha respiração cansada. Ele era militar mesmo antes de trabalhar para a Keiko Enterprises na Fortaleza, então era capaz de reagir de forma imediata a qualquer movimento. Percebi que seu olhar era assustado e desconfiado. Então notei a algema em minha mão, junto a um dos braços de ferro da cama. Fazia sentido. Se eu tivesse escolhido ir com Luca, então aquilo seria mais do que necessário.

— E eu pensando que você tivesse vindo pra me ver. – Irônica, tentei reprimir a pontada em meus pulmões, quando tentei rir. Não sabia por que era tão ruim em toda a parte do meu corpo. Era como a pior ressaca da minha vida. – Mas acho que foi quem eles escolheram para evitar que eu me transformasse, apenas.

— Não seja idiota. É claro que estou aqui pra te ver. Os outros também estariam, mas estão ocupados ajudando no hospital, ou velando alguém. Sinceramente, nunca achei que fosse viver um dia como ontem. – Arantes ergueu-se, estalando as articulações do pescoço e espreguiçando os ombros. – Fiquei preocupado com você, Carol. Todos nós ficamos. A dosagem do que te deram... Você foi muito forte.

— Eu acho que veneno não funciona em mim. Isso quer dizer alguma coisa, definitivamente. – Daquela vez ele riu, mas aproximou-se. Eu sabia que havia algo estranho entre nós, mas ele sempre fora tão circunspecto. Eu jamais sentira uma atração da parte dele, como costumava sentir com os outros caras.

— Por que se tem em tão baixa conta? Desde que a conheci, todos falam como se você fosse uma ex-criminosa ou algo do tipo. Que tipo de coisas você fez? – Ele estava do meu lado, apertando um botão que fez minha cama erguer lentamente até eu estar sentada. Agradeci mentalmente.

— Está mais para o que eu não fazia. Que era ser útil. Eu só reclamava e tentava tirar a todos do sério. Não era muito empática, ou altruísta. Tudo mudou na boate. – Narrei, lembrando-me de Topázio, de Thaís, de Alexandre... De Gabriel.

— Privilège. Eu lembro que a Victoria falou algo a respeito. Mas Carol, há anos você já compensou pelos seus erros. Isso parece mais o tipo de rótulo que serve de base para um personagem. Que você assumiu. – Ele nunca demonstrara tanto interesse sobre mim antes. Aquilo era muito estranho. Principalmente porque Arantes estava muito sério para alguém que havia acabado de perceber um amigo se salvando da morte.

— Você não está errado. Mas também não está certo. Meu senso de humor é único e particular, nem todos entendem. A megera faz parte disso, acho. Mas por que o interesse? Minha quase morte te fez perceber que me quer na sua vida? Pra ser a senhora Arantes? – Provoquei pronta para vê-lo recusar. Mas ele permanecia calado, ali. Como um imbecil. Imbecil. Essa palavra estava em alta comigo.

— E se for? Seria uma ideia assim tão terrível? Sei que sou velho e... – Agarrei a mão dele, sorrindo. Não podia acreditar que em minha loucura, eu não havia percebido que todos são inseguros, no fundo. De certa forma, imaginar um assassino capacitado e frio como aquele homem, tentando esconder seus sentimentos por medo... Fez-me querer abraçá-lo. O que seria complicado, considerando a algema em meu pulso.

— Pode tirar essa coisa do meu pulso e vir me beijar? Recuso-me a ouvir uma declaração dessas em cárcere. Está Bela e a Fera demais para o meu gosto. — Sacudi a algema como se fosse uma bijuteria e ela tilintou.

— Às ordens, senhorita. – Ele riu, destravando a tranca. Então inclinei o corpo em sua direção, envolvendo seu pescoço com um braço e levando minha boca à dele, ignorando o vazio em meu estômago e a náusea que me tomou após o movimento brusco. O beijo de Arantes foi sôfrego e duro, e senti o saber salgado do sangue e da poeira em seus lábios. Sua língua estava mais úmida que a minha, mas não era possessiva. Ele estava travado. – Você precisa repousar.

— Vem repousar comigo. Espera. Não. Desculpa. – Contive-me, fazendo-o rir. – Estou meio alucinada com essas drogas. Nem acredito que esqueci os outros.

— Bem, isso justifica a megera. – Abri a boca para responder, mas percebi que era brincadeira. – Não tenho notícias boas. Manuela está morta. Helena também. Dino foi baleado e está em estado grave. Cecília está desaparecida há horas. Ninguém encontrou o seu corpo. Apenas cinco dos Nove estão vivos, e mais de cinquenta pessoas foram pegas no fogo cruzado com os assassinos do João Pedro.

— A Agnes morreu? – Perguntei, sentindo vontade de vomitar. Arantes acenou positivamente. – Ótimo. Pega aquele balde ali. Não olha pra mim.

Enquanto vomitava, tentei processar o que havia acontecido. Dino. Então o sofrimento que Luca me prometera já estava acontecendo. Mas ele havia dito outra coisa que eu não me recordara até então. O verdadeiro culpado daquilo tudo não havia sido punido. Não antes de causar ainda mais sofrimento. Então ele ainda estava solto. Ou eu teria imaginado aquilo tudo? Era Cecília quem tinha o dom da profecia, não eu. Devia estar ficando louca. As coisas tinham que voltar à ordem agora, elas precisavam.

— Lembre-se de agradecer ao Hugo por ter salvado sua vida, mocinha. – Arantes murmurou, enquanto alisava meus cabelos e os impedia de encostarem-se à minha boca nojenta, com gosto de vômito. – Deus sabe o quanto eu já fiz isso.

— O Hugo? – Arantes sorriu antes de contar a história mais louca que eu tinha ouvido em anos.

De repente acreditar numa experiência espiritual de quase morte não era mais tão complicado assim.

Otto.

Era como se Deus quisesse me punir. Ou a Deusa, que eu preferia considerar quando se tratava de Cecília. A Mãe Antiga, Gaia, Deméter, Hécate. Qualquer nome ao qual ela respondesse me serviria naquela hora. Eu precisava ter a minha namorada de volta. Precisava saber se a criança que ela estava esperando estaria segura. Nosso filho. A única razão para que eu continuasse acreditando que valia à pena acordar de manhã. Devia tê-la escutado antes. Ela sabia que algo ruim iria acontecer. Fui tão egoísta... Acreditar que todo o que havia acontecido no continente tinha ficado para trás era mais fácil. Como não me culpar por aquilo? Olhei para o relógio na parede do Hospital. As coisas estavam mais silenciosas agora. Já era quase hora do almoço, mas ninguém do Refeitório trabalharia hoje. Nem em parte alguma da Fortaleza. O Hospital estava mais vazio. Aos poucos quem não precisava não devia estar ali, foi encaminhado ao seu dormitório. Mas eu não conseguia me mexer. Precisava que Dino sobrevivesse. O plano de Victoria tinha que dar certo.

— Ele vai se salvar, Otto. Vamos descobrir o que Francine fez com a Cecília. – Nanda ainda estava inchada e chorosa, com a cabeça encostada em meu ombro. – Tânia disse que ele está começando a se curar. O corpo não rejeitou o vírus.

— Só precisamos reza para que ele seja um inumano do tipo você, e não do tipo “canibais que tentaram nos matar”. – Resmunguei. – Tô cansado de perder amigos, Nanda. Sei que todos nós estamos. Mas a Helena... A Manuela, também. Não pensei que elas fossem morrer. – Era difícil esquecer a cena da morte de Manuela. Era difícil imaginar Elena morta. – Se eu perder a Cecília eu não sei o que vou fazer!

Escondi o rosto contra o pescoço de Nanda. Chorar em público não me incomodava naquela situação, mas gostei de me sentir protegido com ela. Afastei-me secando as lágrimas que haviam restado, respirando fundo pra controlar minha vontade de gritar e destruir cada coisa ao meu alcance, até trazerem a mulher que eu amava de volta. Levantei antes de notar as pernas, quando Tânia se aproximou. Ela estava sorrindo, mas claramente era apenas para me manter calmo. Era a expressão “Tânia enfermeira”, não “Tânia amiga”. Sentia que ela também estava se controlando para não desabar. Seus olhos estavam fundos, e ela parecia ter emagrecido pelo menos uns dois quilos nas últimas horas, tamanha sua palidez.

— É a Carolina. Ela acordou. Está a salvo. Vai ficar em observação algum tempo, mas ficará bem. Victoria vai ser liberada essa tarde. A mutação dela é impressionante. Com certeza devemos esperar o melhor para o Dino também. Felipe está com ele, examinando. – Ela estava animada, ou o mais perto disso que poderia ficar.

— Obrigado Tânia. O que seria de nós e desse lugar, sem você? – Sorri, realmente feliz por tê-la por perto. – Você salvou muitas vidas hoje. Todas essas pessoas devem um agradecimento a você.

— Ninguém me deve nada. Achei um propósito para continuar de pé, Otávio. Estar aqui faz tanto por mim quanto eu faço por eles. É a única coisa que me motiva a continuar sem os meus meninos. Esse trabalho. Nossa família. – Ela tocou o meu rosto, e ouvi Nanda soluçar, aflita. Nenhum de nós conseguia fingir os sentimentos com a Tânia. – Cecília vai ser encontrada. Mas preciso que você seja forte para encarar a outra possibilidade. Nós todos precisamos de você.

— Eu não admitiria ouvir isso de ninguém, Tânia. Mas é você. Então eu entendo. Sei que você realmente se importa. – Pousei minha mão sobre a dela, apertando de leve. Obrigado. Preciso sair e caminhar, se não se importa.

Os deixei ali, subindo as escadas até o andar dos quartos individuais. Servi um copo d’água do bebedouro preso à parede e fui caminhando entre os corredores do Hospital. Havia muito mais gente importante para mim ali do que eu poderia desejar. Olhei por uma pequena fresta da porta do quarto de Carolina. Ela estava abraçada a Arantes, de olhos fechados enquanto ele acariciava seus cabelos, os dois deitados naquela cama minúscula. Sorri comigo mesmo, seguindo em frente até o quarto de Victoria. Ela estava sentada em sua cama, já aparentando uma melhora significativa. Carlos sentara-se ao seu lado, e apertava a mão dela enquanto tio Allan parecia dizer alguma coisa. Eles pareciam tão entrosados e felizes, que não quis interromper com o meu desânimo e preocupação. Bastava saber que estavam bem.

O último quarto era o de Dino, e ele só havia sido transferido para lá após Felipe ter averiguado que seu corpo não estava se deteriorando por causa da infecção pelo GM. Ao contrário. A única pessoa que poderia me ajudar tinha agora cinquenta por cento de chances de sobreviver. O que era bem mais do que tinha antes. Hesitei antes de entrar. Diogo apoiava o rosto nas mãos e cochilava na poltrona de visitas. Deitada com a cabeça em seu colo, Vilma dormia também. Dali mesmo na porta, eu observei o menino que dormia. As feições e constituição de Dino já eram bem diferentes daquelas que eu conhecera anos atrás. Ele já tinha quase a minha altura. Seria bonito, assim como sua irmã. Simplesmente a ideia de vê-lo partir seria devastadora, com ou sem o paradeiro de Cecília a descobrir. Saltei de susto com um toque em meu ombro, empurrando o intruso num reflexo. Uma exclamação de dor deixou Felipe, enquanto ele massageava seu braço atingido.

— Desculpa aí, doutor! Estava distraído. – Afirmei nervoso. Não queria tê-lo ferido. Felipe pareceu dispensar minhas preocupações, sorrindo.

— Eu ia perguntar se não ia entrar. Dino pode ouvi-lo, mesmo que não responda. – Ele olhava para o seu paciente. – Sabe, eu nunca teria conseguido fazer o meu trabalho se não fosse por vocês. Pela Tânia, mais precisamente. Mas no caso dele, foi tudo a infecção por GM. Esse menino não duraria tanto tempo de outra forma. Isso me faz perguntar se as coisas poderiam ter sido diferentes. Sem precisarmos viver este pesadelo.

— Minha namorada sempre achou que poderiam. Ela era psíquica mesmo antes da grande infecção. Ela foi contaminada nas primeiras semanas, e ficou presa por mais de um ano, num porão. Mas nunca perdeu a esperança. Ela achava que um dia, a Mãe Natureza encontraria o equilíbrio novamente e combateria a praga. E então todos nós poderíamos viver em paz outra vez. – Contei me lembrando da forma como tudo parecia suportável, com ela. Talvez a Julia tivesse gostado da Cecília, se a tivesse conhecido. Quem não gostaria?

— Ela parece ser uma moça fantástica. O que aconteceu a ela? – Felipe sorria, interessado.

— Está desaparecida desde os ataques. Era secretária da Francine e provavelmente foi morta por ela. – Disparei, aflito. Sem medir as palavras. – Dino é o único que pode me ajudar.

— Vamos rezar pelo melhor, então. – Felipe parecia definitivamente arrependido por ter feito sua pergunta. Ele tocou meu braço, e pude senti a autenticidade de sua compaixão.

— Sim, vamos rezar...

Notas finais
O próximo é o último do volume quatro, gente!