Quebranto.
110 Afasta de mim esse cálice.
Notas iniciais
Hugo.
As minhas mãos estavam tremendo. Não conseguia fechar os olhos sem que aquelas imagens permeassem a minha mente com lembranças vívidas do que acabara de acontecer. Aprisionando o grito que subiu até minha garganta, enfiei o rosto com mais força contra o travesseiro. Quase até sentir o ar faltar. O rosto de Manuela, ainda sem perceber que havia sido morta... As sensações indescritíveis em meu corpo, quando vi aqueles homens contorcendo e quebrando somente porque eu assim desejava. Era como se algo finalmente estivesse acordado dentro de mim. Como se cada espirro dali para frente, pudesse significar destruição. Como o que eu fizera com a porta de ferro, para salvar meus amigos. Como aquilo fora possível? A única explicação que eu encontrava, era a interferência de Faye quando eu estivera próximo da morte, em Búzios. Ou talvez quando eu testemunhara a morte de Valentina, não dava para ter certeza. A verdade brutal era que eu sentia-me sozinho, mesmo sentindo a mão de Dante em minha barriga e sua respiração contra o meu pescoço. Não podia me sentir seguro em seus braços, justamente porque agora o perigo era eu. Um monstro.
— Hugo, não vai ter jeito de te fazer dormir hoje, né? – Senti suas palavras provocarem cócegas na minha pele. Secando meus olhos, virei o rosto na direção dele, aliviado ao ver seu curativo ainda limpo. A ferida não estava reaberta. – Você fez tudo o que podia. Salvou a minha vida, a de todos nós. Diabos, você derrotou os caras maus. Acabou.
— Não, não acabou. Dante pare, e comece pensar. Não tem ninguém do seu antigo grupo vivo. A cada lugar novo em que pisamos, coisas ruins acontecem. Não é só coincidência. É sinal de que estamos nadando contra a maré. O mundo já era e não tem sentido em pensar que não. – Eu não queria conversar de verdade. Mas era melhor do que permanecer mudo e chorando, torturando alguém que se importava comigo.
— Eu nunca pensei que alguém viria nos salvar. Nunca achei que as coisas fossem ser como antes. Desde que tudo começou. Eu sei que pareço um idiota por estar sempre alegre, mas isso é porque descobri que somos nós quem precisamos fazer com que as coisas valham à pena. – Ele me tocou, obrigando meus olhos a encararem os dele. Eu quis virar o rosto, mas ele apertou meu queixo um pouco mais firme. – Você é meu motivo, Hugo. Mas se eu te perdesse, não tiraria a minha própria vida. Porque eu ainda teria os nossos amigos. Entende o que digo?
— Não se preocupe. Não vou me suicidar. Não sou tão corajoso. – Ele não entrou no clima da brincadeira infeliz. Parecia irritado, o que era raro. – Desculpa, já estou perfeitamente bem.
— Então por que a cama está levitando? E não, nunca pensei que eu diria isso. – Dante olhava por sobre o meu ombro, obrigando-me a atestar o que dissera. Estávamos a quase um metro do chão. Respirando fundo, olhei para o teto do quarto, e imaginei que o estava empurrando para longe. Então a cama desceu, e acabei rindo com a coceira indecisa num canto da minha mente. – Suicídio não é coragem. É covardia, ou desespero. E não vou te deixar desesperar. Não comigo aqui.
Os abraços de Dante tinham aquele efeito sobre mim. Esquecendo-me de seu ferimento, o apertei até que o senti gemer levemente. Com um sorriso quebrado de nervoso, beijei seus lábios num pedido de desculpas por feri-lo. Queria sentir seu perfume pelo resto da noite, mas ele precisava descansar. E não dormiria se eu continuasse em nosso quarto, aflito demais para dormir. Beijando de leve o nariz dele, fiz esforço para sair da cama, nada surpreso quando meu pulso foi agarrado com determinação.
— Só vou tomar um ar, ir até o Hospital... Quero notícias do Dino. – Era verdade, mas eu também queria que Dante dormisse. – Além disso, é como se eu tivesse tomado uma injeção de adrenalina. E você precisa de repouso. Muito. Eu nem deveria ter deitado na mesma cama. Seu braço e seu corpo precisam de uma recuperação decente.
— Meu orgulho está em pior estado que os dois. Nunca fui um grande lutador, e você sabe disso... Mas agora com esses poderes, nunca mais vou conseguir te salvar de nada. – Riu, feito o bobo alegre que ele era. Revirei os olhos, por um segundo esquecendo a aura sombria que me envolvia.
— Não estou com você pelas suas habilidades de luta, cabeludo. – Ri, cruzando os braços. – Além disso, você me salva o tempo inteiro. Mais do que sabe. E é lindo. Não precisa de mais nada.
Mandei um beijo em silêncio e me virei para sair, ouvindo uma reclamação misturada com lamento quando comecei a me afastar. Esfreguei o nariz na manga larga de meu casaco vermelho, sentindo o frio inexplicável persistir em me acompanhar. Entrei no elevador para o andar térreo dos Dormitórios, de braços cruzados e pensamentos distantes. O que Ricardo diria se estivesse ali? Doía bastante que as coisas tivessem ficado tão loucas entre nós. Em retrospectiva, eu sempre havia imaginado que minha vida terminaria com ele. Que teríamos uma casa e uma família, apesar de todo o preconceito. Tia Madeline era a única que realmente entendia, e ela já havia partido há muito mais tempo. Eu era o último da minha família, e nunca me sentira tão perdido. Meu nariz coçou outra vez. Percebi então que tinha sangue na manga do casaco. Sequei o líquido grosso, sentindo uma leve tontura diante da secreção. O silencia era atordoante. Era como se o ar ao meu redor estivesse pressionando meu cérebro. Não era tão fácil ser forte e bem humorado longe de Dante. Apenas com minha sombra e com a realidade de quem eu era e de tudo o que eu temia, a única coisa discernível no escuro era meu cansaço. Até quando? Quem mais eu veria morrer? Preferia não estar mais vivo a beber diariamente daquele cálice de perdas e desilusões. Eu era um covarde, então? Como Dante dissera? Ou estaria desesperado? E esse era o tipo de pensamento que eu sabia que ninguém entenderia. Que seria melhor guardar para mim mesmo. Ou não me atrever a considerar em voz alta.
Do lado de fora era mais fácil respirar. Ainda tinha muita fumaça no ar, mas os incêndios no Memorial e na Escola estavam controlados. Já não se via as cores das labaredas ao longe, nem corpos reanimados vagando em busca de nada. Apenas uma enorme pilha de corpos em chamas no meio do Pátio Central, quando me aproximei mais do Hospital. Eu conhecia aquele cheiro, mas as pessoas ao redor da pira choravam com o choque daqueles que nunca presenciaram tão barbárie. Desviando o olhar das crianças que cobriam os rostos com panos e davam as mãos aos seus parentes que haviam restado, entrei no silêncio da sala de recepção, onde reconheci Nanda dormindo em um dos bancos, ao lado de Otávio.
— Eles não vão embora enquanto o Dino não acordar. – Levei um susto, levando a mão ao peito. No balcão da recepcionista (que havia sido morta durante os ataques), os objetos tremeram. – Calma! Estou levando a Vilma para o dormitório. Ela precisa de um banho de umas horinhas de sono.
— É muito gentil da sua parte, Diogo. A Vicky está melhor? – Ele assentiu, e sorri aliviado. Olhei para Vilma adormecida em seus braços, e meu coração aqueceu. – Bem, vou dar uma olhada nele. Não consigo dormir.
— Eu entendo. – Estava saindo quando Diogo soltou um “hey”. Rindo, olhei na sua direção. – Obrigado por salvar a minha vida, parceiro.
— Achei que já tínhamos passado dessa fase. – Dei de ombros, subindo as escadas para o segundo andar.
A mão no meu braço foi uma surpresa. O sentinela era forte e de traços orientais. Com um golpe preciso, ele empurrou-me contra a parede. Sem fôlego, mordi a língua com o impacto. A dor lancinante veio acompanhada de um fluxo de sangue que eu não estava esperando. Cuspi, e o chão claro ficou salpicado de vermelho. Senti o repuxar familiar, a coceira gostosa que vinha com cada vez mais facilidade. O homem foi afastado de mim por uma força invisível. Seu corpo se ergueu num ângulo impossível, sendo lançado contra a parede oposta do corredor. Mais sentinelas subiram, e na minha confusão, não consegui controlar meus impulsos. Derrubei dois deles nas escadas pelas quais eu subira, fazendo com que a arma de outro grudasse no teto, sem saber como. Então uma queimação forte na base da coluna chocou-me, e minhas pernas cederam. Choque elétrico. Ofegante, virei com a barriga para cima, a tempo de ver Nanda ali. Ela estava claramente assustada, olhando para todos os lados. Mas havia me atacado. Eu não entendi o motivo.
— Mas que merda tá rolando aqui? – Ela exigiu saber, olhando para seus colegas.
— Obrigado por controlar a situação, Fernanda. Eu ordenei que Hugo fosse detido para averiguações. – Allan surgiu no corredor, saindo do quarto de Victoria. Seu rosto estava duro, numa máscara de frieza e as mandíbulas pareciam prestes a quebrar, retesadas ao máximo.
— O que eu fiz? – Cuspi, recuperando minha voz. Estava falando de forma simplória, com o machucado na língua. Mas não me importei.
— É o que pretendemos descobrir. Prendam-no. – Allan olhou para Nanda, e sua expressão se abrandou numa tristeza sem fim. – É melhor você vir comigo.
Faye.
Toda aquela situação era extremamente frustrante. Depois de finalmente conseguir encaixar meu relato do que ocorrera com Cecília numa linha de fatos claros e inquestionáveis, havia uma única chance de tudo o que eu dissera cair por terra. Bastava que Dino despertasse, e tudo o que me era precioso seria roubado. Tanto progresso, e ainda tanto por fazer... Não podia arriscar o comprometimento de minhas pesquisas. Não se eu planejava provar o meu valor para a Matriz. Incomodada com todo aquele teatro de amiga preocupada, e enervada pela presença constante de acompanhantes no quarto do garoto, tive de procurar um pretexto para não deixar o Hospital. O que não era difícil, considerando meu treinamento médico.
— Toda a ajuda é bem vinda, doutora Keiko. Ainda mais de uma Conselheira. – Felipe era fácil de manipular, porque parecia implorar pela bondade das pessoas. Gente assim era útil se bem utilizada. Talvez eu o indicasse para substituir João Pedro, agora que o desgraçado havia sido eliminado de uma vez por todas.
— Vou examinar os pacientes na ordem em que foram atendidos. Assim teremos uma forma simples de garantir que nenhum deles fique por tempo demais sem receber alguma atenção. Você pode focar nos casos mais urgentes, como o do Dino. Não se preocupe. Tudo ficará bem se permanecermos unidos. – Sorrindo, apertei as mãos de Felipe nas minhas, se senti seu alívio.
— Obrigado, Faye. Você está sempre pensando no melhor para nós. Enfrentou tanta coisa indo praticamente sozinha pro continente. Se quiser saber minha opinião, acho que devia ser nossa próxima presidente, só por ter trazido o grupo da Tânia até nós. – Sorrindo, abaixei o olhar, cuidando para não demonstrar o quão engraçado aquilo parecia. Não havia considerado uma posição de poder, mas o pensamento não era mesmo tão ruim.
— Eu não poderia. Não sou tão boa em agir de forma pré-concebida, sabe? Sou real demais, acho que acabaria fazendo papel de tola. Silvia era melhor do que ninguém nisso, porque fazia todos se sentirem seguros mesmo nos momentos mais difíceis. – Felipe concordou. A opinião geral sobre Silvia era positiva, o que fazia sentido. Ela era mesmo honesta. E não faria mal algum se tivesse permanecido viva. Também não era difícil lidar com sua personalidade naturalmente ética e subserviente.
Passei as horas seguintes examinando e medicando os pacientes. Como o número de enfermeiras havia sido drasticamente reduzido nas últimas horas, eu mesma tive de aplicar-lhes injeções com as dosagens corretas, e limpar alguns curativos nada agradáveis. Por mais de uma vez resisti ao impulso de usar dosagens letais para livrar-nos do peso morto. Pessoas que demandariam muito mais cuidados do que compensariam com praticidade depois, em serviços ou habilidades para a comunidade. Apenas o fato de já termos diminuído consideravelmente a população conteve minha mão. Também havia casos mais interessantes, como o de um homem que parecia alucinar desde que fora mordido por um dos zumbis. Por sorte tudo o que ele conseguira com a experiência haviam sido hematomas realmente terríveis. A mordida não conseguira atravessar o tecido extremamente grosso de seu uniforme de zelador. Mas seu trauma o tornava um candidato extremamente dispensável para minha pesquisa. Ninguém sentiria falta de um maluco. Era um dos poucos que não recebera visita alguma. E como Rhuan costumava dizer, “se não há testemunha, não há crime”.
— O senhor vai ficar ótimo em pouquíssimo tempo, só precisa descansar um pouco. – Recomendei, observando enquanto o homem fungava e encarava o teto de forma vidrada. – Não se preocupe, sei que é assustador quando nos deparamos com as criaturas. Pessoas que conhecemos desde o início, transformadas em monstros.
— Eles não são monstros. Não são. Eu vi, nos olhos da Eleanor. Ela queria que eu me unisse à ela. Mas eu não pude. Não tive coragem. – Controlando o reflexo de emitir um esgar de desprezo acompanhado de uma risada diante de tanta maluquice, senti uma tontura estranha. Como se o chão ficasse estranhamente mole sob os meus pés.
— Não se preocupe, prometo que tudo fará mais sentido depois de umas boas horas de sono. – Garanti, afastando-me da enfermaria depressa. Passei por outros pacientes no corredor depressa, entrando no banheiro feminino. Olhando para o enorme espelho à minha frente, removi as luvas cirúrgicas e toquei o líquido espesso que descia pelo meu nariz. Sangue. – Eu não entendo... O GN deveria ignorar qualquer sintoma do GM... O sangramento deve ser algum tipo de repercussão biológica da pressão desenvolvida pelas sinapses cerebrais sobrecarregadas. Quase como um excesso de energia, que acaba ecoando no próprio corpo... Como se a estrutura humana não fosse capaz de suportar o novo estágio do cérebro forçado a expandir suas capacidades...
Aquilo me apavorou. Poderia significar muito mais coisas. Uma rejeição do organismo, ou um recurso natural de minha nova confecção biológica? Lavando o rosto enquanto tentava acalmar meus nervos, considerei que deveria ter aguardado mais antes de injetar em mim mesma aquela variante. Mas aquilo não podia estar certo. Não quando Hugo parecia ter reagido tão bem a substância, que permanecera dormente em seu corpo já há tanto tempo. Não. Eu precisava garantir que teria Cecília como fonte de material genético. Não era admissível que atrapalhassem minhas investigações, naquela altura do campeonato. Eu precisava tomar medidas drásticas, e as tomaria o mais depressa possível. O que não foi difícil, pois no pingar das horas, Felipe finalmente convenceu Diogo e Vilma a saírem. Certa de que meu tempo com Dino seria curto, caminhei de forma decidida até o seu quarto, sentindo os dedos tremerem e o rio na barriga aumentar com o medo de ser pega. Abrindo a porta, tudo o que encontrei foi o corpo magro e jovem, que respirava lentamente. Havia ainda um pequeno tubo na boca do menino, ajudando-o a absorver oxigênio necessário para sua recuperação. Foi o que removi primeiro. Com um gesto, o aparelho respiratório foi desconectado do alimentador, e apagou sem utilidade. O menino ainda respirava, mas sua valentia estava fadada ao fracasso. Estiquei uma das mãos na sua direção, e o que senti foi maravilhoso.
Era como brincar com um elástico invisível. Como sentir parte do meu eu, sendo arrastada até o corpo de Dino, correndo no seu sangue. Tomei consciência de cada traço do seu organismo. De cara ferida e cada dor que ele planejava curar. E foi fácil encontrar seu coração, seus pulmões... Seu cérebro. Fechei a mão e senti o calor do o sangue escorrer pelos meus lábios antes mesmo do seu gosto. Minha cabeça doeu profundamente, mas eu senti que havia acabado. Aquela criança nunca mais abriria os olhos. Ninguém ficaria em meu caminho.
— O que está fazendo aqui? – Tânia parecia assustada, virei antes de limpar o sangue do rosto, e notei o susto em seu olhar. – Faye? Dino! O que você fez com ele? – Seu rosto prendera-se ao aparelho desligado, e ela correu para verificá-lo. – Sua assassina! Então... João Pedro estava certo?
— Sim. – Admiti. – Não me dá prazer algum matar outra pessoa. – Não era exatamente verdade. – Mas me entenda, Tânia. O que tento atingir é maior que qualquer um de nós. Você não deve contar a ninguém. Junte-se a mim. – Queria avaliar suas reações. Eu sabia antes de falar que uma pessoa honrada como aquela mulher nunca ficaria ao meu lado. – Lembre-se que eu salvei o Hugo. Que o tornei mais forte. Podemos fazer o mesmo por toda a Fortaleza.
— Você o tornou alguém incapaz de reconhecer a si mesmo. O pobre menino teme o que se tornou. Você interferiu no destino de milhões de pessoas, tirou os meus filhos de mim, se o que João Pedro dizia era mesmo verdade. Então cada família destruída, cada morte e cada menta que se perdeu, tudo pesa nos seus ombros. Como consegue seguir em frente? – Ela mantinha uma mão protetora sobre Dino. Os lábios do menino já haviam perdido a cor, felizmente. – Acabou de matar uma criança. Como pode me pedir que fique ao seu lado?
— Eu simplesmente não me importo. – Expliquei. Direcionando minhas unhas para o corpo pesado da mulher, a joguei contra a parede. Ergui seus pés do chão, elevando-a enquanto começava a penetrar sua pele. A sentir o fluxo do seu sangue. – Eu mataria o mundo antigo inteiro, se novas gerações pudessem atingir o máximo do potencial humano. Veja o que sou capaz de fazer! Não estou mais brincando de Deus. Eu sou Deus. E deuses não sentem remorso. Deuses não possuem fraquezas. Você poderia ser uma deusa entre insetos, mas a grandeza seleciona apenas os fortes entre nós.
— Você não é nada diferente de outros loucos que já conheci antes. Não tenho medo de você. Porque nesse mundo, ainda mais do que no anterior, a loucura é o último passo antes da queda. E sei que não vai demorar muito, e descobrirão exatamente quem você é. Uma desequilibrada. Uma mulher mesquinha e totalmente doente. Você tem razão, Faye Keiko. Você não é mesmo humana, é um demônio. – Aquilo me irritou profundamente. Como aquela maldita ousava? Não tive paciência para esmagar seu coração, então quebrei seu pescoço.
Uma onda de alívio deixou meu corpo, quando o corpo de Tânia caiu no chão. Foi como se eu a tivesse erguido com meus próprios braços, embora o cansaço não fosse físico. Minha testa estava suada, então a toquei delicadamente, sentindo o calor que emanava da enxaqueca que começava a fluir. Tirei o sangue do rosto, deixando-o na mão. Então corri até o banheiro mais próximo, antes que alguém chegasse ao quarto de Dino. Lavei as mãos com cuidado, encarando a mim mesma no espelho. Aquela pobre mulher era uma cientista que vira o próprio trabalho sair do controle e destruir a humanidade. Um peso que ela carregava como uma cruz. Fora acusada injustamente e encontrara amigos quando pensou que morreria rapidamente num ambiente hostil. Agora seus amigos morriam à sua frente. Como ela seguiria em frente? Então funcionou. As lágrimas de um sentimento que não era meu vieram, e soltei meus cabelos para fins de ofício. Sabia que seria impactante fazer uma visita médica e encontrar enfermeira e paciente, ambos sem vida. Quem poderia matá-los, afinal? Sem ao menos ter tocado nos corpos?
Só uma pessoa era capaz disso, na Fortaleza.
— O que estava fazendo no corredor, Hugo? – Allan perguntou pela terceira vez, desde que Fernanda havia desarmado Hugo. – Você não sentiu nada diferente, quando entrou no Hospital?
— Hugo, ninguém está dizendo que você faria isso de propósito. – Fernanda tentava conciliar a situação, mas ela estava bastante abalada. Estávamos na sala de João Pedro, agora. Chorando com Victoria em meus braços, me mantive a parte daquele confronto, como a pobre figura que encontrara os cadáveres. – Mas seus dons estão fora de controle. Se você nem ao menos percebeu o que estava acontecendo...
— Eu não matei a Tânia! Nem o Dino! Pelo amor de Deus, estão ouvindo a si mesmos? Eu nunca faria algo assim! – O menino estava gritando. – Não senti dor nenhuma, não senti o peso de nada. Vocês não podem me acusar de fazer algo apenas porque eu estava no mesmo prédio.
— Você quebrou o pescoço de dezenas de homens como se eles fossem de papel, rapaz. Destruiu um bunker. Acho que eu posso te acusar do que eu quiser! Você não sabe do que é capaz, e nós também não. É perigoso para todos, inclusive para si mesmo. Não posso permitir que isso se repita. Não até termos certeza de que você não fez isso. – Allan olhou para Arantes, que permanecera em silêncio desde que havia sido convocado às pressas, após o ocorrido. – Leve-o para a cela mais alta da Cadeia. Deixe-o lá até conseguirmos que Felipe termine de examinar os corpos.
— Pai... – Vicky levantou o rosto, olhando para Allan. – Hugo nunca faria nada contra um de nós. Eu sei. Tem que haver outra explicação.
— Por causa dele nunca mais vamos ouvir a voz da Tânia. Nem o riso do Dino. E eu nunca vou saber o que aconteceu com a Cecília. – Otávio permanecera calado ao lado de Carolina. Ela o fitava com certa surpresa ao ouvir o que dizia. – Não sei se estou sendo injusto, mas não ligo. Levem-no daqui.
— Otto! Nós somos amigos! Por favor, gente! – Hugo parecia totalmente perdido, mas então seu olhar tocou o meu. – Você! Você fez isso comigo! Por que ninguém está interrogando a Faye? Se ela foi capaz de me transformar num monstro, então talvez o João Pedro não fosse tão louco assim! Essa mulher violou o meu corpo, me contaminou quando poderia ter me deixado morrer! Ela é uma criminosa!
— Não tente transferir a culpa aqui, garoto. – Allan me defendia com uma ferocidade quase excitante. Talvez ele merecesse uma recompensa, depois. – Ela salvou sua vida. Como eu disse, ninguém aqui te acusou de nada. Só estamos prevenindo outros acidentes. Mas se você for responsável pelo que aconteceu naquele corredor, precisa pagar por isso.
— Vou garantir que você seja tratado com justiça, Hugo. Não fique com medo. – Carolina adiantou-se quando Victoria disse a frase, pegando o menino pelo braço. – Carol, leve ele com Arantes, sim?
— Ninguém vai tocar no Hugo, Vicky. Vamos? – Hugo assentiu, totalmente sem chão. Suas acusações fizeram o ódio arder na minha garganta. Queria matá-lo... Talvez o fizesse uma visita mais tarde. – Eu vou ficar de guarda na cela dele, até sabermos de mais alguma coisa. Espero que você tenha a dignidade de pedir desculpas se estiver errado, Otto. Todos vocês, na verdade.
Carolina olhou para mim por tempo demais antes de sair. Maldito Hugo. Certamente ela estava considerando alguma possibilidade a meu respeito. Queria me vingar, separar os membros daquele ingrato do corpo, e ao mesmo tempo estava chocada com aquelas emoções. Eu não era emotiva. Minha maior qualidade era ser sensata, sempre fria e calculista. O que o GN estava fazendo comigo? Alegando que precisava deixar aquele lugar e esquecer os horrores que eu havia visto, beijei Allan no rosto e saí do escritório. Com passadas firmes e apressadas, desci as escadas até o térreo. Felipe estava conversando com uma sonolenta Vilma e um Diogo confuso. Dante também estava ali, assim como Carlos. Vilma agarrou o jaleco de Felipe e começou a chorar, então Carlos adiantou-se e a abraçou. Diogo atingiu o balcão da recepção com um soco que ecoou pelo local, virando os rostos ao redor em sua direção. Beatriz observava a cena às lágrimas, com uma mão em frente aos lábios. Recusando-me a testemunhar aquele aspecto vulgar da fraqueza humana, ganhei o exterior com um enfado quase insuportável. Minha cabeça parecia que iria explodir. Não conseguia organizar meus pensamentos, deixar o estado de fúria no qual eu entrara.
— Isso que você fez vai ser um problema. – A voz dele era irritante, especialmente porque antecipava o desejo que eu tinha de vê-lo. — Desde que matei a minha irmã para começar isso tudo com o João Pedro, você tem insistido para sermos cuidadosos. Agora matou duas pessoas em pleno Hospital?
— Você faz perguntas demais, Matias. Não pode ser uma companhia silenciosa? – Continuei andando, enquanto o garoto insistente mantinha-se ao meu lado. Ele sorria de modo irônico, e eu odiava ironias.
— Bem, suponho que uma mulher acima do bem e do mal não tenha que responder à ninguém mesmo. Diz aí, nunca pensou em ser atriz, na vida anterior? Você poderia ter um Oscar agora e o mundo seria exatamente como antes. – Bufei. Onde ele queria chegar?
— Não sou a única atriz aqui. Você interpretou o irmão de luto com maestria. Fez com que Victoria e seus antigos colegas sentissem pena de você. Só falhou em seduzir Carolina. Arantes chegou primeiro. Talvez eu devesse ter escolhido ele, em seu lugar. – Aquilo tirou o sorriso do rosto jovial. Matias ficou vermelho.
— Aquele imbecil tá comendo a Carolina? – Não entendia sua surpresa. A reação simplória das pessoas medíocres era irritante. – Devia ter dado um jeito de matar o desgraçado durante o confronto.
— Não me importa o que você deveria ter feito. Se quiser mesmo ser transformado pelo GN, vai ter que fazer muito mais, ainda. Temos um caminho longo a percorrer, e pouco tempo até meu prazo final. – Já estávamos descendo a rampa até o laboratório. Finalmente.
— E por onde começamos? – Ele já sabia muito bem o que eu pediria.
— Pelos instintos animais que ainda me restam. – Sorri, espelhando seu entusiasmo. – Seu desempenho terá que ser muito bom, para que eu perdoe seus fracassos, menino inútil.
— Vou dar o meu melhor, ó deusa. – Ele estava zombando, mas em breve falaria sério. — Vou compensar o tempo em que esperei você voltar. É uma promessa, ó soberana...
Porque eu era mesmo uma deusa, e estava apenas começando. Ah, sim. E logo todos naquela Fortaleza saberiam disso. E nunca mais conseguiriam esquecer do meu nome...
Trilha do Capítulo: Cálice.
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