Quebranto.
40 Topázio.
Notas iniciais
Carol.
É simplesmente um saco quando a sorte decide te sacanear. Não que ela estivesse sendo grande aliada nossa nos últimos tempos, mas me deparar com cinco caras armados nas portas da farmácia não era algo a ser celebrado. Meus batimentos cardíacos dispararam enquanto vasculhei ao redor, tentando achar Jonas. O que diabos tinha havido com ele? A resposta me surpreendeu. Sob a mira de uma das armas, ele permanecia de joelhos cercado por três dos homens que nos haviam descoberto. Compreendendo que nem mesmo ele seria imune à uma bala na cabeça, lamentei por não ter permitido que Diogo viesse junto conosco. Mas naquele exato momento, era tarde demais para pensar nisso. A oportunidade havia passado, e não havia nada que pudesse ser feito, além de tentar com todas as minhas forças sair viva daquele lugar. Assim, quando o líder dos homens aproximou-se de mim com uma daquelas pistolinhas típicas de policiais, forcei meu medo garganta abaixo, e empertiguei-me inteira. Com uma máscara preta sobre o rosto, não dava para identificar nada em seu rosto além dos olhos azuis, num tom tão profundo, que era quase exagerado.
– Olha só rapazeada. A farmácia tá premiada. — observou o cara, rindo enquanto seus olhos de mar vasculhavam o meu corpo. — Podia estar mais limpa, mas você é bem linda.
– Tantos elogios... — resmunguei. — O que você quer com a gente? — fui direto ao ponto, sem me acovardar. Eu não seria uma donzela em perigo. Agora que meu guarda-costas tinha sido domado, usaria a mim mesma para me resguardar. O outros homens riram do modo como me dirigi ao seu líder.
Eu sabia que naquele momento, enquanto o homem me escrutinava lentamente, minha vida estaria numa corda bamba. Ele poderia me aniquilar pela falta de modos, ou responder à minha pergunta. Atrás de mim, Sabrina ficou tensa com a atmosfera que nos envolvia, e senti que ela estva pronta para abrir fogo contra os caras, conenar a mim e Jonas, e sair correndo se pudesse. A maldita tinha um instinto de sobrevivência ainda pior que o meu. Entretanto, apesar do meu medo, eu sabia que para lidar com homens perigosos, eu não poderia demonstrar fraqueza. Ou então, estaria acabada. Se aproximando de mim, o cara tirou a máscara do rosto, revelando um deus grego sob as vestes de um bandido. Seus cabelos negros eram um pouco ondulados, e revoltos de um modo totalmente natural. Sua pele branca tinha pequenas marcas de expressão, mas o ângulo do queixo e as covinhas de sorriso eram o paraíso no Apoclipse. Mesmo impressionada, não vacilei. Ele podia ser tão sádico quanto belo, não seria o primeiro que encontraríamos.
– Olá, moça. Eu sou o Dimitri. — ele apresentou-se, pegando na minha mão. Fiz cara feia com a reverência exagerada que ele me cedeu, e puxei-a de volta. — Estávamos fazendo uma ronda pela cidade, pra conseguir mais suprimentos. Nossa líder pediu que parássemos qualquer sobrevivente que encontrássemos, também.
– Sua líder? Ela não está aqui? — indagou Sabrina, se pronunciando pela primeira vez.
– Nós vivemos em uma boate, próxima daqui. Tomamos o lugar pouco antes de tudo começar a ficar sério, e mantivemos um perímetro seguro até então. Não dá pra evitar os zumbis, mas matamos todos os Inumanos e bichos que aparecem por aqui. Vocês são os primeiros humanos em muito tempo. — contou-me. — Precisam vir com a gente.
– Como assim "precisam"? Não vamos a lugar nenhum! — rebateu Jonas, aborrecido.
– Bem, pelo que parece vocês não têm muita escolha, não é? — debochou um dos homens, rindo abertamente. Os outros, com a exceção de Dimitri, o acompanharam.
– Olha, não somos estupradores nem nada. — defendeu-se Dimitri. — Vocês vêm com a gente, e depois se não gostarem do nosso lugar podem ir embora. Como garantia, vou deixar um de vocês solto. Hei Alexandre, solta o cara!
– Só depois que a gente estiver no ônibus, Dimitri. Ele é Inumano. Não fez nada, nem parece um maluco, mas não vou arriscar. — discordou o outro, ainda com sua espingarda em riste.
– Já chega disso. Nós estamos indo embora! — esbravejou Sabrina, puxando a arma de sua cintura e partindo pra cima de Dimitri.
Só que ele foi mais rápido. Com um movimento rápido, ele deu um passo para o lado, deixando que a loira encontrasse o nada ao invés dele. Sabrina desequilibrou-se e caiu estatelada no chão, de um jeito totalmente estranho. Os homens riram outra vez, e revoltado Jonas tentou se libertar dos canalhas que o continham. O tal Alexandre o chutou nas costas, e meu pretenso guardião caiu de bruços no asfalto sujo de garoa e poeira. Num gesto que eu jamais admitiria como meu, avancei contra Dimitri, apertando minha pequena faca nas mãos. Entretido com o que acontecia à Jonas, ele mal olhou para mim. Quando cortei seu braço, seus reflexos falaram mais alto, e ele agarrou meu pulso com força, obrigando-me a soltar o objeto. Girando meu corpo como numa dança mortal, ele envolveu seu braço ferido ao redor de meu pescoço, prendendo com força. Senti seu hálito na minha nuca, enquanto subitamente seus capangas pareceram perceber que eu o havia feito sangrar. Tirando as bolsas com suprimentos de mim, bem como minhas facas, Dimitri deixou-me totalmente indefesa, inútil. Seu aperto ao redor do meu pescoço aumentou, mas ele não parecia ter a intenção de verdadeiramente me matar. Não estava apertando. Estava firme, mas contido.
– Fica calma, meu bem. Já falei que a gente é de boa. Se eu quisesse te matar, ou pegar você e a loira à força, era só matar o grandão. Estamos na paz, e nossa chefa pediu pra levarmos gente nova pra ela. É só isso. — sussurrando em meu ouvido, Dimitri tinha um tom de voz calmo, apesar do sangue que escorria em seu ombro. Aliviada, notei que ele não estava exatamente indo me matar. Dirigindo-se à Jonas, seu tom de voz se tornou mais alto. — As garotas vêm com a gente. Volta pro teu grupo e avisa a eles que estamos na Privilège, aqui perto. Nos encontrem lá, pra conhecerem nosso abrigo. Vamos esperar por vocês.
Praticamente me arrastando, Dimitri levou-me até um enorme ônibus de turismo parado ao lado da doblô. Sabrina foi erguida por dois dos caras com máscaras de pano, que a ajudaram a andar com uma delicadeza que me surpreendeu. Talvez não fossem mesmo assassinos. Mas eram burros. Que ideia era essa de chamar qualquer um que encontrassem para conhecer o abrigo deles? Poderíamos ser todos psicopatas bem armados, prontos a matá-los. Ou eles confiavam ingenuamente nas pessoas, ou não tinham motivos para temer a ninguém. E, se minha segunda hipótese era a correta, então talvez estivéssemos todos numa tremenda enrascada.
Victoria.
À noite, enquanto nos aquecíamos em conjunto, notei uma estranha mudança na temparatura. A escuridão caíra com a fluidez de um véu de seda, envolvendo a todos não só com a ausência de luz, mas com uma estranha inquietação climática, uma vez que ventos fortes assolavam a praia o as muitas barracas vazias que a circundavam. Era inclusive numa dessas construções simples em que nos refugiávamos. Tomá-las fora fácil, sem ter alguém com quem competir por elas. E para mim, tal oportunidade de descanso tinha sentido duplo, pois me permitia raciocinar a respeito de mim mesma. Há certo tempo Nora não vinha à tona. Com a esperança renovada, eu esperava tê-la enfraquecido o suficiente para mantê-la à margem de minha mente. Era revoltante considerar que, dentro de mim, outra criatura completamente diferente se revolvia, tentando roubar minha autonomia. Meus amigos, meu namorado, minha vida. Ainda sem ter coragem de me referir à Nora em voz alta, por medo de acordá-la, apenas deitei a cabeça no ombro de Otávio, enquanto ambos tentávamos dormir, um pouco mais afastados da fogueira que os outros.
– Já faz um tempo que não conversamos. — ele observou. Concordei, sorrindo para ele com toda a minha sinceridade. Eu tinha tanta saudade da nossa antiga vida. — Sei o que está pensando, Vicky. Eu prefiro não pensar no que passou.
– Nem na Julia? — indaguei, com o coração partido. Otto custava muito a se abrir com alguém, quando tinha algum tipo de interesse amoroso. Julia derrubara tal barreira. Apenas para ser assassinada por um cruel Inumano, com característica leoninas. Um triste fim, para alguém tão bondosa. — Sabe Otto, você vai conseguir seguir em frente. Vai encontrar alguém. Sabe por que? — ele acenou negativamente. — Porque você merece. E qualquer garota teria sorte em ter você.
– Acredita que quando éramos pequenos eu gostava de você? — a revelação de Otto me surpreendeu totalmente. Estanquei, fitando-o com meu sorriso congelado no rosto.
– Isso é sério? — indaguei. Ele confirmou. Tensa, acabei deixando uma risada fraca escapar. — Eu também gostava de você. Mas achei que nunca teria chances. As meninas viviam te cercando no fundamental. — não fazia mal nenhum confessar. Nenhum de nós tinha problemas em ser honesto com o outro. E mesmo que Otávio sempre houvesse sido um "rato de internet" e nerd, era lindo à sua maneira. — E também, o modo como nossos pais nos criaram me travava muito. Eu não conseguia te ver como aos outros meninos.
– Digo o mesmo. — ele riu. — E sobre as meninas no fundamental, a maioria pensava que eu era gay. — tive que me unir à sua risada. — E parece que não eram as únicas. Sabe da última? Ricardo está com ciúmes do Hugo. Comigo.
– Não... — acho que ri tão alto, que Diogo levantou a cabeça de uma conversa amigável com Tânia, e sorriu na minha direção, indagativo. Fiz um gesto de mão para apaziguá-lo, e voltei-me na direção de Otto. Àquela altura, estávamos deitados lado a lado sobre uma manta puída. Me senti, por alguns momentos, uma garota normal outra vez. — Ele só está perturbado. Vai melhorar. Vamos ficar bem quando Carol e os outros voltarem.
De maneira inconsciente, eu e Otávio permitimos que nosso olhar mirasse na mesma direção. De pé, próximos à area onde no passado devia estar a cozinha do quiosque, Hugo e Ricardo montavam um alvo improvisado. Brincando com as facas, Dino e Vilma tentavam atingir os pedaços de pano colorido pregados à parede. Dino parecia impaciente para mostrar-se capaz, e acabou errando a maior parte de seus disparos. Rindo, todos pararam para compartilhar aquele pequeno momento em grupo. Diana era a única que parecia levemente incomodada com aquele tipo de brincadeira. Atenta aos gestos dos gêmeos, Fernanda parecia alegre por ter algo em que pensar, além de nossos problemas. Curiosa, notei quando minha amiga pareceu sentir um leve desconforto, e de maneira incomum, sua mão foi até o próprio ventre, afagando a barriga. Um calafrio formou-se em minha espinha, logo sendo banido por um arremesso espetacular de Vilma, que partiu em dois um dos pedaços de pano atados como alvo. O baque do impacto foi tão alto, que nos assustou a todos.
– Uau! Melhor a gente parar antes que vocês dois derrubem a parede do quiosque toda. — recomendou Ricardo, trocando um olhar afetuoso com Hugo. Sabia que era questão de tempo até os dois estarem bem. Mesmo sem qualquer acordo verbal de paz, aquele olhar dizia muito. E como eu havia aprendido a ler olhares, no último ano! Um avanço vertiginoso.
– Não fique se achando, Vilma! Você só é melhor com facas! Eu atiro muito bem! — defendeu-se Dino, emburrado. Vilma estava tirando uma com a cara dele.
– Claro, senhor Atirador. O problema, é que ninguém deixou a gente ter uma arma, então você não tem como saber se é ou não bom com tiro. Argumento inválido. — o olhar debochado de Vilma lembrou em muito meu irmão de criação Otávio, por alguns instantes. Olhei pra ele, e nós dois sorrimos. Ela falara exatamente como Otto, por um breve momento.
– Vilma, vai se ferrar! Não enche o saco! — Dino saiu do quiosque batendo o pé, enquanto Vilma adotou uma expressão culpada, sob o olhar de censura que Hugo a lançou.
– Seja legal com seu irmão, Vilma. Ele só ficou chateado por ir mal com as facas. — pediu Nanda, falando alto. — Peça desculpas a ele, depois.
– Ok, Nanda. — concordou a garota. — Vou atrás dele, agora.
– Espera. — me intrometi, sorrindo. — Deixa que eu vou, Vilma. Vocês podem acabar brigando de novo. Volto logo. — rapidamente, segui Dino até a pequena varanda que dividia o quiosque do restante da praia, mas então ele já estava descendo as escadas para perto dos carros. Isso me deixou preocupada. — Hey, Dino! Vem aqui! — chamei alto, tentando levá-lo para os outros. Ninguém podia ficar sozinho nos últimos tempos. Estar ali embaixo era uma péssiam escolha. — Garoto, onde você se meteu? É perigoso aqui fora...
E então, vi os faróis da doblô, que estacionava vagarosamente na areia batida.
Hugo.
Enquanto Vilma mirava com a faca na direção dos nossos alvos de pano, olhei para Ricardo. Ele parecia quase tão concentrado quanto ela. E estava admirado. Seus olhos brilhavam como se ele fosse o próprio pai da garota. Acho que, na verdade, todos nos sentíamos daquela forma em relação aos gêmeos. Os amávamos mesmo sem ter qualquer parentesco com eles. Aquelas crianças haviam passado por muita coisa conosco, e estavam crescendo com o tempo. Não só em aparência e idade. Estavam se tornando maduros, com tudo o que haviam presenciado. Vilma segurava o cabo da faca de caça da forma correta, e sem tremer, ao contrário de Dino. Quando o alvo foi partido em dois, Rico sorriu como se Madeline nunca tivesse morrido. E senti um aperto no coração. Finalmente eu entendia o motivo de toda a sua preocupação. Eu não suportaria ver algo de ruim ocorrendo àquelas crianças. E mesmo antes de ter conversado com Ricardo, eu sabia que o perdoaria. Pois podia entendê-lo. Totalmente. Vilma e Dino se alfinetaram, e reprimi a garota com o olhar. Dino era louco para por as mãos numa arma. Ela só estava fazendo-o ter ainda mais vontade. Victoria foi atrás do menino, e voltei-me para o rosto de Ricardo. Ele estava me olhando com um pouco de receio. Logo, todos perceberam algo entre nós, e retornaram às suas próprias conversas. Vilma saiu de fininho, me fazendo sorrir com sua discrição.
– Hugo, podemos conversar? — assenti, e ele sorriu. Parecia o mesmo de antes, para meu alívio. Mas eu não ia deixar barato. Sem demonstrar qualquer emoção, continuei fitando-o com uma distância emocional saudável.
– Estava imaginando quando você me procuraria. Esta melhor? — ele assentiu, incerto. — Eu te entendo, Ricardo. Só fiquei surpreso por você não ter, digamos, surtado desse jeito antes. Tia Madeline morreu há alguns dias, e você reagiu tão bem que me assustou. Agora, tudo veio à tona, e você não está lidando bem com o fato.
– Não estou mesmo Hugo. Me afastar do túmulo dela, tornou tudo definitivo, sabe? Até então, era só imaginar que em breve ela voltaria. E tem a Carol. Por algum motivo, tenho ódio dela por ter permitido que minha mãe se sacrificasse por nós. Ela era a única que poderia tê-la impedido. Por isso tenho dificuldades em ser gentil, ou ao menos agradável com ela. Mas nenhum de vocês têm culpa. E eu não devia ter desprezado seus conselhos como fiz antes. Desculpe-me. — ele cuspiu as palavras todas numa única sentença, aparentemente lutando para manter o tom de voz baixo. Se alguém estava ouvindo nossa conversa, não deixou transparecer.
– Só queria te pedir perdão. Tudo bem entre a gente?
– Talvez. — respondi. Meu sorriso leve o fez perceber que havia se safado. Ele sorriu. — Mas te juro, Ricardo, se falar comigo daquele jeito outra vez, quebro a sua cara.
Ricardo riu e me puxou contra ele rapidamente. Tropecei, sem esperar o gesto, e quase caí em cima dele, literalmente. Nossos lábios se tocaram ternamente, e sorri em meio ao beijo. Foi suave, e rápido. Quando nos afastamos, percebi que todos estavam olhando em nossa direção. Nanda estava sorrindo, e nossos olhares se tocaram. Ela era tão querida. Mais uma pessoa que eu não suportaria perder. Agora eu entendia porquê Victoria havia arriscado a própria vida, meses atrás, para salvá-la da asma. Amor e amizade. Diferente das expectativas que um mundo devastado nos trazia, era aquilo que mantinha nosso grupo unido. Nada poderia nos colocar uns contra os outros. Ou poderia? Quando ouvi o grito de Victoria, meus pensamentos plácidos pareceram distantes demais e meu entusiasmo, desapareceu.
Victoria.
Jonas estava ferido. Com o lábio inferior rachado, parecia entorpecido pela própria raiva. Ele bateu a porta da doblô com força, e se aproximou de mim, cambaleante. Dino trocou um olhar alarmado comigo, e correu para chamar aos outros. Quando meu amigo não aguentou andar e caiu de joelhos na minha frente, dei um grito que assustou mesmo a mim. E então percebi que Dino não precisaria se dar ao trabalho. Pude ouvir a movimentação no quiosque mesmo à distância. O som de passos na escada de madeira agredida pela maresia, que rangia na noite, chegou aos meus ouvidos logo depois. Corri na direção de Jonas, ajudando-o a se estabilizar. O apoiei no meu colo, sentando no chão ao seu lado. Ele não parecia tão mal, mas estava tonto. O corte em sua boca e uma mancha roxa em sua testa sugeriam que alguém havia o derrubado, ou batido sua cabeça contra uma parede. O mais aterrorizante, contudo, era que nem Carol nem Sabrina estavam com ele! Que diabos havia acontecido com minhas amigas? Ouvi o esgar dolorido de Ana, logo que me viu abaixada ao lado de Jonas. Elas não podiam ter morrido, Deus! Não...
– Jonas! O que aconteceu? — esganiçou-se Ana, desesperada. — Onde está Sabrina? Por favor, não me diz que ela...
– Elas estão bem. Eu acho. — esbaforiu-se Jonas. — Não sei se ainda vão estar bem por muito tempo. Uns caras armados nos encontraram. Levaram elas até a líder deles, numa boate aqui perto. Disseram que queriam que fôssemos até lá. Por isso me deixaram sair ileso.
– Temos que resgatá-las. Agora. — declarou Ana, nervosa.
– Calma, não podemos agir precipitadamente. — interferiu Ricardo, aproximando-se com Hugo ao seu lado. — Detalhe mais Jonas. Qualquer coisa pode ajudar.
– Eles só disseram que não eram assassinos nem estupradores. E que elas ficariam bem. Pediram para conhecermos o gurpo deles, e decidir se aceitamos ficar com eles ou não. Eu achei tudo muito forçado, muito estranho. Eles eram bons demais. Então tentei quebrar a cara deles e fugir com as meninas. Acabaram me rendendo, e as garotas lutaram. Foram levadas à força. — contou Jonas.
– Se levaram elas à força, então não são nossos amigos. — Hugo parecia implacável. Diogo sorriu, fitando-o.
– Concordo com a abelha rainha, pela primeira vez. Vamos encher os desgraçados de tiro. — incentivou.
– Gente, sério. Por mais que eu queira salvar as garotas, temos que ficar calmos. — sugeri, desesperada para evitar qualquer morte desnecessária. Fitei Diogo com determinação, para desanimá-lo do delírio de agredir um grupo em seu próprio esconderijo. — Eles certamente conhecem essa área melhor do que nós, e possuem um acampamento, coisa que não temos há muito tempo. Não é uma hora de agirmos impulsivamente.
– Concordo plenamente. — apoiou-me Diana. De braços dados com ela, Tânia assentiu, unindo sua opinião à concordância.
– O que sugere, Vicky? — indagou-me Ricardo. Ana não parecia ter gostado, mas ela entenderia depois.
– Temos que fingir uma aproximação amigável. Tentar resgatar as garotas, depois tomar esse tal grupo. Obrigá-los a nos deixarem partir, caso causem problemas. Ou a nos deixarem ficar, caso gostemos do acampamento. — declarei, erguendo uma sobrancelha.
– Pode funcionar. — concordou Mozart, para surpresa de todos. Ninguém esperava que ele desse sua opinião. Quase nunca falava. — A questão é: E se eles forem uns psicopatas, e já tiverem acabado com a raça da Carol e da Sabrina quando chegarmos lá? Pra quê nos arriscarmos?
– Ele nunca fala, e quando fala, não sai nada que se aproveite. — bufou Diogo, dispensando o garoto.
– Entendemos seu ponto, Mozart. — apaziguou Otto. À esta altura, todos já estavam agrupados perto dos veículos. Menos Fernanda e Vilma, que ainda nos fitavam da escada que levava ao quiosque. — Mas precisamos tentar. Elas são nossas amigas.
– E o que faremos agora? — indagou Hugo, querendo um plano imediato.
– Vamos nos preparar. Temos que encontrar novos amigos. — riu-se Diogo, destravando a própria arma com um estalo. Ele me deixou nervosa por estar tão animado. E pensar que aquele monte de atitude tinha medo de criaturinhas minúsculas como aranhas. Ok, elas eram mortais se contaminadas, mas as naturais que encontramos na poeira de casa, não.
– Eu só espero que elas fiquem bem...
As palavras de Ana, ecoaram minhas próprias orações.
Carol.
Quando nos aproximamos da tal boate, não acreditei no que vi. A fachada do lugar estava praticamente intocada. E pasmem, tinha energia elétrica no local. Eu não conseguia compreender o motivo daquela linda construção não ter sido destruída até o pó pelos bichos e criaturas ao redor. Pelo que eu pudera notar, toda aquela coisa horrorosa de corpos e zumbis pendurados em fios e postes, havia sido só para assustar forasteiros como nós. Conforme nos aproximávamos da boate, mais limpa e comum a cidade ficava, e quando nos deparamos com uma barricada feita com carros e entulho (semelhante à que tínhamos no Trocado), percebemos a diferença de tratamento dado à região. Ao redor da Privilège, cerca de um quarteirão aproximadamente, tudo estava muito bem conservado. O ônibus de turismo onde estávamos passou lentamente por um portão de madeira improvisado, aberto por um rapaz de máscara como os outros. Lentamente, o veículo desceu a rua até parar em frente ao esconderijo de Dimitri e seu bando. O lugar estava limpo como se nunca tivesse visto o fim do mundo. Nem mesmo uma pequena loja, que ficava ao lado da entrada, parecia ter sido afetada. Seu interior, bem como a vitrine, estavam vazios. Mas sem danos. Quando estacionamos, percebi que devia levantar-me. Parado ao lado do assento que eu tomara, Dimitri me fitava com um olhar divertido. Mais à frente, todos os outros caras começaram a tirar suas máscaras e capuzes. O tal Alexandre era bem comum, mas com uma cicatriz que cobria sua bochecha esquerda. Os olhos pretos acentuavam a tatuagem de um tribal que ele fizera na parte de trás da cabeça, sobre a careca. Outro deles era loiro, com os cabelos até os ombros. Era ele quem estava dirigindo, e bem bonito por sinal. Tinha a pele muito bronzeada. Um surfista. Ao lado dele, um cara negro se revelou. Também era belo, e tinha olhos profundamente verdes. Seus cabelos estavam amarrados em dreads muito bem posicionados, e conservados. O último dos estranhos era mais velho, com uma expressão forte e um rosto rígido, apesar de belo. Tinha cabelos curtos pretos, cortados em estilo militar, e olhos azuis. Era o mais musculoso dentre todos os outros.
– Esse careca aí é o Alexandre, que você já conheceu. — apresentou Dimitri. — O loiro com cara de bicha é o Dante. Meu parceiro de dreads é o Marcílio, e o nosso mecânico é o Paulino. — com um gesto, Dimitri fez os outros abrirem as portas do ônibus, e todos fomos para o exterior. Emburrada, Sabrina não estava dando à mínima para aquilo tudo. Ela era a pessoa mais desconfiada que eu já conhecera. — Hey, Thaís! Abre a porta! — gritou Dimitri, em frente à boate. Fiquei alerta por ele estar falando tão alto, mas considerando o silêncio daquela noite estrelada, e a paz daquele quarteirão tranquilo, percebi que estava exagerando.
Em poucos segundos, a total ausência de qualquer zumbi, animal mutante ou Inumano, me transmitiu o maior alívio que eu já sentira na vida, até então. Uma garota veio para a luz, e tinha em suas característica as definições de beleza em espécie. Com sua pele morena, desfilou até o lado de fora, segurando em suas mãos nada menos que uma sub-metralhadora. Eu nunca havia visto uma de perto, mas conhecia o modelo dos jogos de ação de Otávio. Era uma arma militar. E aquela garota não parecia estar em dúvidas sobre como usá-la. Nos fitou, à mim e Sabrina, de cima à baixo. Com um sorrisinho fraco na direção dos rapazes que nos acompanhavam, volto para o interior da boate, deixando a passagem livre para nós. Dimitri a seguiu, puxando-me educadamente por um braço, enquanto o tal Alexandre trazia Sabrina, atrás de mim. Adentramos o local, e então meus olhos se deliciaram com o que viram, e meu corpo com o que sentiu. Levemente mais fresco que o exterior, notei maravilhada o funcionamento dos ventiladores do local, que sopravam uma brisa fresca ao nosso redor, deliciosa por sua raridade. Tudo parecia em perfeito estado. Os camarotes, a pista de dança, o palco, o bar, e as instalações que eu não podia ver. Tudo parecia normal, apenas adaptado para comportar moradores fixos. Nos andares superiores, o lugar parecia ainda mais chique, com detalhes em madeira e uma arquitetura realmente sofisticada, ainda que simples. Minha boca certamente se abriu, porque Dimitri sorriu. Sabrina ainda estava impassível, mas não escondia a própria admiração.
– Removemos as cadeiras e mesas dos andares de cima, pra abrir espaço. Colocamos colchões e travesseiros, para podermos dormir. Lá é bem confortável. Estamos bem aqui, queria que você entendessem que podem ficar a salvo. Com seus amigos, também. Todos são bem-vindos. — disse Dimitri, sorrindo. Ele era tão incrivelmente lindo, que me enjoava. Eu não conseguia fitá-lo por mais que três segundos. Era desconcertante. Principalmente porque quem costumava deixar os outros incomodados com a aparência, era eu.
– Mas, vocês nem protegem a área direito. Como podem estar seguros? Como esse lugar pode estar tão protegido, e tão exposto ao mesmo tempo? Não consigo entender. — admiti, revoltada com tamanha sorte. No Trocado, havíamos sido atacados várias vezes, e estávamos no alto de um maldito morro. Aqui, no meio de um centro urbano, não havia nada. Como isso podia ser possível?
– Suas dúvidas são compreensíveis. — uma voz alta, imponente e doce ao mesmo tempo, fez-se ouvir. — Mas não se preocupe minha querida, tudo isso faz parte dos planos da Deusa, para todos nós... — então o som alto de saltos batendo no piso chegaram aos meus ouvidos. Virei-me na direção de sua origem, e contemplei uma linda mulher descendo as escadas para o segundo andar. Ela tinha os cabelos curtos e loiros, extremamente claros, ao estilo Marilyn Monroe. Seu vestido comprido era totalmente branco, com scarpins tão vermelhos quanto o batom que cobria-lhe os lábios. Sua boca realçava-se na pele pálida. — Sejam bem-vindas, garotas. — atrás dela, outras mulheres desciam as escadas. Eram todas lindas, e estavam realmente produzidas, até maqueadas. Fiquei revoltada. Todas equiparavam-se à mim! Uma ou duas, até superavam a minha beleza! E não pensem que repetirei isso outra vez. Era frustrante.
– Qual o seu nome? — perguntou Sabrina, observando nossa anfitriã. Só então, olhei nos olhos dela. Um preto, um branco. Aquela mulher era uma Inumana.
– Ah, meu nome é Topázio. E não, não é de batismo. Mas podem me chamar assim. Fico feliz que a Grande Mãe tenha trazido vocês até nós. Sinto que teremos uma ótima experiência juntas. Podemos ajudar uns aos outros, não é mesmo? — ela indagou, sorrindo para Sabrina com o magnetismo capaz de atrair um satélite da órbita para a Terra. — Pedi aos meus rapazes que trouxessem qualquer sobrevivente que encontrassem. Todos merecem a proteção da Deusa, como nós. Desde que vivamos em paz, a humanidade prosperará novamente. — eu não estava entendendo mais nada. Por sorte, Sabrina também não. Então, ela que falasse.
– O que quer dizer com esse lance de Deusa? E que papo de proteção é esse? — indagou Sabrina, curiosa e irritada ao mesmo tempo. Ela não parecia gostar de religiosos.
– Oh, sou uma sacerdotisa, minha querida. A Deusa Mãe escolheu-me, para honrar seu nome e representá-la nestes tempos difíceis. Fui infectada por este vírus maligno, e sobrevivi para retornar ainda mais forte. E desde então, tenho reunido aqui meus protegidos. Nenhum mal os tocará, contanto que me protejam e sigam os desígnios da Deusa. — explicou Topázio, com uma paciência admirável. Mas algo naquele papo não parecia bater. Como assim desígnios da deusa?
– Explique melhor. — exigi, sem rodeios. Ela sorriu.
– Gostei de você. — ela voltou-se para Dimitri, e sorriu. Então, mirou Sabrina. — Nenhuma criatura infectada pelo vírus que assolou nosso mundo, tolera minha presença. Os zumbis e animais me ignoram completamente, e se afastam do meu cheiro. Toda esta área está protegida pela minha mutação. Desde que eu viva, todos também viverão. Apenas os outros Inumanos representam ameaça, mas tenho meus amigos para guardarem minha segurança. Entende?
– Você afasta os monstros só por respirar?! — Sabrina estava pasma. Assim como eu. Perto daquela mulher, Jonas e Victoria eram totalmente inúteis. Ela era incrível! Nem fodendo iria embora, se aquilo fosse verdade.
– Sim, é isso mesmo, minha querida. Mas falaremos mais sobre isso em outro momento. Vocês agora devem tomar um banho, e descansar. Minhas meninas cuidarão de vocês. O tempo de desespero acabou. Vocês encontraram a paz. — sob o olhar caloroso de Topázio, eu e Sabrina nos entreolhamos, totalmente surpresas e chocadas.
Porque se tudo aquilo fosse exatamente o que parecia, e Topázio fosse um repelente para monstros vivo, então não poderíamos ser mais afortunadas...
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