Quebranto.
41 Nos braços da Deusa.
Notas iniciais
Otávio.
– Não interessa Hugo. A resposta é não. — Ricardo estava irredutível. Na verdade, era um alívio para mim perceber que tudo estava bem entre ele e Hugo. No entanto, a recusa de nosso líder em permitir que seu primo se unisse à nós na busca por Carolina e Sabrina, havia acendido uma nova faísca da discórdia entre os dois. Enquanto ambos apresentavam seus argumentos, tentando envolver outros de nós em sua bagunça, todos nos fazíamos de surdos diante da discussão que inundava as ondas sonoras do quiosque, enquanto planejávamos o que fazer.
– É fato que não podemos ir todos de uma vez. — concluiu Victoria. Desde o começo, ela se mostrara novamente repleta de energia, tomando a frente da situação. Nem de longe lembrava a garota insegura e portadora de TOC com quem eu crescera. O upgrade que a gripe do urso lhe dera, transformando-a em Inumana, provava ser cada vez mais benéfico, quando ela não estava totalmente possuída por Nora. Além de seus reflexos, força e agilidade, sua mente também parecia aguçada e preparada para resolver problemas. Em minha mente, eu tentara catalogar as criaturas que havíamos encontrado. Jonas era muito forte, e rápido. Victoria era forte, mas também esperta, além de Nora. Tinha também Lupa, uma mutante loba cruel e desvairada. Quase tão ruim quanto a serpente e o leão que havíamos conhecido numa igreja de fazenda, poucos dias antes. Talvez ainda existissem dezenas de criaturas como minha irmã adotiva por aí, mas pelo que eu podia perceber, cada mutação manifestava-se singularmente, de acordo com as afinidades psíquicas e código genético do próprio Inumano. Só Deus saberia o que mais poderíamos encontrar por aí... — Otávio? — notei que Vicky estava falando comigo, e ergui a cabeça.
– Desculpe, me distraí pensando em bobagens, mas sei do que se trata. Concordo com o plano. Temos que enviar alguns dos nossos mais fortes, e deixar alguém atrás cuidando dos mais vulneráveis. Assim, se for uma armadilha, pode rolar um quebra-pau sem precisarmos nos preocupar com vítimas. — anui, fitando Diogo, Ana, Jonas, Victoria e Gabriel, que haviam se reunido para discutir o plano, enquanto Ricardo e Hugo discutiam sobre qual deles deveria ir com o grupo de resgate.
– Não gosto da ideia de nos separarmos ainda mais. Mas parece que vai ser necessário. — admitiu Gabriel. — Eu quero ir com vocês.
– Nem fodendo. — dispensou Diogo. — Você fica com o Hugo e o Otávio, tomando conta de tudo. Acha que pode fazer isso? — indagou, tirando o garoto da jogada e dando-lhe uma função de uma só vez. Coisa de policial.
– Tu-tudo bem... — gaguejou o rapaz, claramente querendo ajudar da maneira que fosse necessária.
– Ok, galera. Vamos arrumar as armas e alguma comida, pro caso de ficarmos presos em algum lugar, ou precisarmos nos esconder de alguma coisa por muito tempo. — Ana parecia nervosa, mas estava pondo sua mente aguçada para trabalhar. — Tânia e Ricardo são os únicos com conhecimento médico. Se ele vai, então ela precisa ficar aqui. Diana certamente não vai deixar Nanda, e Gabriel pode protegê-las. Otávio cuida das crianças, enquanto Hugo mantém tudo em ordem até voltarmos. Mozart é forte, pode vir conosco. É, isso mesmo. Eu vou junto. Me neguei a ir com Sabrina por discordar dela, e ela foi sequestrada. Se algo acontecer, não vou me perdoar por tê-la abandonado.
– Então parece que temos um plano. — disse Hugo, aproximando-se de nós. — Eu queria poder ajudar, mas acho mesmo que vou ser mais útil aqui. Não é hora de ser infantil. Espero que tudo dê certo.
– Nós também, meu amigo. Se um daqueles caras machucar Carol, acho que vou cometer uma loucura... — começou Jonas, frustrado.
– Melhor não pensar nisso. — cortou Victoria. — Elas estão bem. Vamos arrumar a van. Melhor deixar a camionete e a ambulância aqui.
E assim foi feito. Como numa colmeia, todos trabalhamos como células de um único organismo, deixando tudo empacotado para uma fuga rápida no caso de necessidade, e tratando de separar os recursos necessários para a empreitada que nossos amigos fariam em breve. Devo admitir que senti-me um pouco deixado de lado por ficar para trás, mas a verdade é que eu era mesmo ruim em combate, em lutas. Mesmo que pudesse manejar bem um bastão, ou barra de ferro, eu não tinha o preparo necessário para aguentar algo do tipo por muito tempo. É verdade que eu já escapara de situações extremamente perigosas, sim. Mas nunca contando apenas com minhas próprias capacidades. E eu era plenamente consciente disso. Como Hugo havia dito, não era hora de ser infantil. No momento em que estava terminando de colocar algumas facas numa caixa de papelão amassada, peguei-me fitando Fernanda, sentada à um canto com Diana ao seu lado. Ela parecia nervosa, mas mais do que isso. Estava levemente diferente. Um pouco cansada, talvez. Mas não foi isso que chamou a minha atenção. Fitando-a de longe, estava Gabriel, enquanto fingia arrumar roupas em uma pequena pilha. Algo apitou dentro da minha cabeça, e temi que talvez aquele garoto estivesse querendo fazer mal à ela. Mas então, vi a sutil mudança. Quando pensava que ninguém estava olhando, Gabriel sorriu. Um sorriso real, cheio de compaixão, mesmo numa situação como a nossa. E então entendi. Ele gostava mesmo dela. Subitamente senti meu corpo relaxar, até que meu olhar cruzou o de Mozart.
Nosso parrudo silencioso não parecia tão feliz. Na verdade, seu olhar me deu arrepios dos pés à cabeça. Ele fitava Fernanda com repulsa, assim como à Gabriel. Despeito, talvez? Difícil. Parecia nojo, mesmo. Algo extremamente perturbador. Quando pensei que não poderia ficar mais esquisito, Hugo saiu do quiosque em direção aos carros, lá embaixo. Já estava quase amanhecendo, e em breve alguns dos nossos partiriam. Fitando-o intensamente, Mozart o seguiu. Por algum motivo, tive a intuição de não deixá-lo sozinho com Hugo. Então sem fazer-me notar, caminhei entre os outros, fiz carinho da cabeça de Dino quando ele passou por mim, e deixei o quiosque ao adentrar na paz e frescor da madrugada decadente. Olhando para baixo, vi Hugo abrindo a van e debruçando-se dentro do veículo, enquanto Mozart já descia a escada, aproximando-se dele. Devagar para não ser percebido, fui descendo os degraus o mais discretamente possível, mantendo uma distância segura de meu alvo. Quando me aproximei o suficiente para que Mozart não pudesse fugir caso fizesse algo de errado, escondi-me atrás de um enorme cacto que crescera ao lado da escada que ligava o quiosque à areia.
– Olá! — gritou Mozart, assustando Hugo. O garoto sobressaltou-se, e bateu com a cabeça na porta do veículo, antes de se afastar do mesmo com a mão pressionada contra a testa, e xingando baixinho. — Desculpe! Não queria assustar! — Mozart se aproximou de Hugo, e tirou o braço dele da frente do rosto. Uma pequena manchinha roxa havia se formado onde o próprio rapaz e ferira.
– Tudo bem, só estava distraído. Estou pensando nas coisas que aconteceram ultimamente. Talvez devêssemos ter ficado no Trocado, para início de conversa... -lamentou-se Hugo, gentilmente.
– Não, eu estou feliz por estarmos na estrada, sabe? Eu odiava aquele morro. — revelou Mozart, com um ódio gélido na voz.
– Mas por que? — Hugo pareia curioso. — Você ficou pouquíssimo tempo por lá.
– As pessoas daqui acham que eu sou burro, ou inútil. Pensam que eu não sei de nada. Mas sei que Diogo matou meus amigos, há muito tempo, quase um ano atrás. Apenas adolescentes, que deram o azar de cruzar com ele num supermercado. Ele os matou, e foi o responsável pela morte do resto do meu grupo, incluindo minha irmã. É claro que os poucos de nós que sobraram encontraram com a Inumana loba, mas só chegamos à tanto, por culpa dele. Por isso, eu odiava o Trocado. Porque sabia que o assassino do meu grupo, era de lá. — Mozart havia se aproximado cada vez mais de Hugo, e agora o loiro estava praticamente encurralado contra a van. — Mas perdoei tudo, porque precisava sobreviver. Mas ver todo mundo que você conhece morrer, acaba bagunçando nossa cabeça... Vira um padrão, sabe? Você percebe quando as pessoas estão começando a surtar. Nosso grupo tá com os dias contados...
– Sinto que você pense assim. — Hugo o encarou. — Mas vamos ficar bem. Lamento pelas pessoas que perdeu. Mas nós não somos adolescentes desesperados. Pelo menos, não todos nós. — riu-se Hugo, sacudindo a cabeça. — Entendo que tenha ficado traumatizado. Mas espero que não guarde ressentimentos para com Diogo. Ele só fez o necessário para nos manter vivos. Eu nem estava com o grupo quando esses assassinatos ocorreram, mas os compreendo. Nem eu nem Rico vamos tolerar qualquer tentativa de vingança de sua parte. Espero que não esteja considerando isso.
– Pra dizer a verdade, eu não estou... Não teria chances contra Diogo e a Victoria. E além disso, ela é a única além de você, por quem eu tenho alguma simpatia... — Mozart colocou uma das mãos sobre o ombro de Hugo. — É nesse ponto que eu queria chegar, aliás... Eu tenho pensado muito sobre você. E, o modo como Ricardo te trata, cara! Isso não é certo. Então, como eu te disse antes, meu maior talento é escapar, sobreviver. Eu estaria disposto a levar você comigo, em troca de algo bem simples...
– E seria? — Hugo tinha uma sobrancelha arqueada, e estava lutando para conter a mesma expressão que eu trazia em meu rosto. Total incredulidade.
– Você. Comigo. — respondeu Mozart. — Minha cabeça ferve só de pensar em você...
Foi tudo muito rápido. Num segundo, Hugo dominava a situação, com um sarcasmo velado. Noutro, Mozart havia imobilizado o seu braço, e o jogara contra a van, prendendo-o enquanto pressionava seu corpo com o dele. Não sei o que deu em mim, para demorar tanto, mas quando percebi que estava assistindo àquele absurdo parado, saí de trás do cacto e me aproximei rapidamente. Mozart me viu e se afastou de Hugo, com um sorriso disfarçado no rosto. Pálido, Hugo imediatamente se recompôs, ocultando o que ocorrera provavelmente por medo de represálias contra Ricardo. Eu decidi que fingiria ignorância, pelo menos na frente de Mozart. Ele não parecia alguém que ainda poderia ser pressionado demais. O cara estava ficando louco. Além descobrir que ele era bissexual, ou gay, nunca pensei que ele fosse do tipo que poderia surpreender dessa forma. Negativa, ou positivamente. Os piores inimigos, ou amigos, podem estar nos lugares em que menos focamos nosso olhar. Aqueles que subestimamos são a arma mais poderosa a ser usada contra nós. Eu tinha certeza que Hugo descobrira isso. Assim como eu, por tabela.
– Está tudo bem por aqui? Interrompo algo? Sinto muito, só desci porque Victoria queria uma blusa que deixou na van... — eu murmurei, fazendo-me de desentendido. Mozart sorriu ainda mais, aliviado. Bobinho.
– Está tudo bem, né não Hugo? — meu amigo assentiu. — Eu já vou indo, só vim perguntar se ele queria ajuda com algo. Já que estou liberado, vou ver como Diana está... Até já.
Mozart se afastou, deixando-nos a sós. Quando me virei para a frente outra vez, Hugo correu na minha direção e me abraçou. De novo. Considerando o que tinha acabado de rolar, o mantive perto. Quando percebi que ele estava chorando, me senti pior ainda por não ter impedido aquele bastardo antes. Mas tudo o que Mozart dissera, havia sido tão surpreendente para mim, quanto para Hugo provavelmente. Ele pegar a ambos com a guarda baixa. Assim como Arlindo havia feito com Fernanda, ainda que num grau bem menos grave. Mesmo assim, não pude deixar de admitir que Hugo fora violentado. Eu não sei como teria reagido, se aquilo fosse comigo. Provavelmente ficaria em choque. Mas ele era forte, e quando afastou-se de mim, eu sabia que já estava em uns oitenta por cento de melhora.
– Otto, me desculpe, eu... — ele começou, esfregando os olhos.
– Hey Hugo, tá tudo bem. Eu vi tudo. Sei o que rolou, e quem o Mozart realmente é. Não se preocupe, ele não vai te fazer mal. Vamos dar um jeito nisso. Só fingi que não sei de nada, pra ele não ficar desconfiado. É bem mais fácil pegar o filho da mãe se estiver se sentindo seguro. Mas tente evitar ficar sozinho, pelo menos por enquanto. Por sorte, ele está indo com os outros. Vamos ter um tempinho de relaxar e decidir o que fazemos, sim? — conversei, tentando acalmá-lo. Hugo concordou, sorrindo de leve. — Isso aí, bem melhor! — parabenizei, rindo também. Nem parecia que meu amigo havia sofrido tanto. Então ele olhou por cima do meu ombro, e sua expressão misturou surpresa e confusão. Do parapeito do quiosque, Ricardo nos observava com uma expressão ilegível. Mozart estava ao seu lado, e provavelmente havia sido ele quem o contara que eu e Hugo estávamos conversando sozinhos. Revirei os olhos. Ciúmes, round dois. Aquilo não podia ser pior.
Exceto pelo sorriso que Mozart me deu, antes de voltar para perto de meus amigos, como um lobo em pele de cordeiro.
Carol.
Quando o chuveiro foi aberto e a água inundou o meu corpo, indo negra para o ralo em direção aos esgotos, mal pude acreditar. Localizado no banheiro feminino da boate, havia sido totalmente construído e improvisado pelos meninos que haviam me sequestrado. Eu não entendia ainda quão forte era a relação entre aqueles caras, mas eles respeitavam Dimitri, de alguma forma. Já eu, não sabia o que pensar sobre ele. Quer dizer, além de ser totalmente gato e incrivelmente desafiador, ele não era particularmente gentil, ou engraçado. Era até bem chato, um instigador nato. Um filho da mãe de marca maior. E que estava me deixando curiosa, devo admitir. É claro que diante de tudo o que eu havia descoberto, ele era apenas a cereja do bolo. Topázio era incrível. Não só era capaz de afastar os monstros com um lance super estranho de feromônios no ar, como também era linda. Deus, eu estava com tanta inveja! Mesmo com um olho negro e outro branco, ela parecia um anjo. Enquanto havíamos procurado por roupas para mim e Sabrina, ela nos contara um pouco de sua história. Fora algo bem fora de série, como tudo que parecia envolver minha vida, ultimamente.
Acontece que não só Topázio, mas todas aquelas garotas incrivelmente lindas na boate, eram prostitutas antes do fim do mundo. Era, inclusive, exatamente esta a explicação para as vadias serem tão incrivelmente gostosas. Haviam sido contratadas para acompanhar um grupo de empresários ricos para uma noite na Privilège, quando a merda estourou. Um desses empresários, era o Dimitri. Durante o início da infecção em Búzios, ele estava na boate com Topázio. Todos haviam fugido, e no meio da confusão, ela acabou sendo mordida por um dos zumbis. Desesperada, Topázio acabou se escondendo em um dos túneis de serviço embaixo da boate, enquanto Dimitri havia ligado para seus amigos, e pedido ajuda para manter a boate como um lugar seguro. Eles haviam feito o possível, e seu grupo inicialmente com mais de trinta pessoas, tinha agora dez. Quase o mesmo que havia rolado no Trocado. Contudo, eles tinham Topázio. Quando ela voltou dos túneis, não morta, mas modificada, tudo cessou. As ondas de ataques pararam, e todos finalmente encontraram paz no inferno. Desde então, Topázio passou a servir como uma espécie de líder do grupo, tomando as decisões com Dimitri para o bem comum. Com sua crença de que existe algum tipo de Deusa pagã, ou bruxaria, deu consolo aos sobreviventes. Eles tinham um lar.
Entendam, o que acontece quando se passa meses somente fugindo, se escondendo e temendo dormir demais e acordar sendo devorada, é que você passa a ficar muito desesperada. Assim como eu estava. Então, ainda que Topázio fosse totalmente gagá, eu teria aceitado fazer parte daquele grupo, para ficar longe dos bichos. O dom dela, por si só, já era algo pelo qual valia à pena lutar. Então, nem liguei muito para os detalhes de sua história, principalmente quando me disseram que Paulino havia feito um chuveiro. Pouco depois de me secar e vestir as sandálias vermelhas altas e o vestido preto que Topázio me dera de seu próprio armário, me senti muito melhor do que em muito tempo. Fitando-me no espelho, quase chorei de emoção por não ver nenhuma crosta de sujeira, ou mancha de fuligem e fumaça. Eu parecia linda de novo. De verdade. Meus cabelos, apesar de tortos, estavam bem limpos. Tocando as pontas dos fios acabadas pelo tempo e pelas pontas duplas, fitei o espelho manchado novamente, por alguns instantes. Era bom parecer comigo mesma de novo. Distraindo-me, arfei ao notar os olhos modificados de Topázio, cintilando como faróis yin-yang, sobre meu ombro. Ela sorriu quando seu olhar cruzou o meu, e sorri de volta. Ela irradiava calor e bondade. Coisa totalmente esquisita no Apocalipse, mas ainda assim, bem vinda.
– Me desculpe, querida. Não quis assustá-la. Só quis conferir se estava tudo bem, e se você precisava de alguma ajuda para se aprontar. Sabrina também está pronta, e pelo que posso ver, vocês duas são bem independentes. O que acha de vir conhecer as meninas, agora? — de braços cruzados e encostada na soleira da porta, Topázio brilhava. Seu vestido branco extremamente justo contrastava com os traços marcantes e os lábios rubros de sangue. Os cabelos loiros, quase platinados, jaziam incólumes, em cachos de Marilyn Monroe perfeitos.
– Oh, tudo bem. Mas antes... Bem, queria agradecer por ter sido tão bem recebida aqui. — cuspi, um pouco tímida. Fazia muito tempo desde que eu agradecera à alguém sinceramente. — Significa muito, encontrar um lugar livre de monstros hoje em dia.
– Eu sei meu anjo, eu sei. Para alguns de nós, isso significa tudo. — com uma ênfase estranha, Topázio me deixou em dúvida. Eu podia jurar que aquilo fora uma ameaça velada, indicando pra mim que o grupo dela a considerava absoluta, o tudo em si. Mas quem disse que me importei? Eu estava limpa e segura. E pretendia continuar assim. — Venha, deixe-me te apresentar às garotas.
Juntas, caminhamos para fora do banheiro, e encontrei todo o grupo reunido ao redor de uma enorme mesa, formada pela união de outras quatro menores. Com garrafas de cerveja e taças com drinks que eu pensei nunca mais ver outra vez espalhados sobre o local, tive um surto de alegria. Era como estar de volta à festa de formatura. Nada me aconteceria ali dentro, finalmente. Relaxando totalmente, baixei a guarda e deixei-me envolver pela primeira coisa boa que havia me acontecido nos últimos tempos. Talvez a Carol intragável, covarde e desconfiada que me mantivera viva até então, pudesse dar lugar à Carol divertida de antes. Talvez. Uma troca de olhares com Sabrina, que parecia rir de algo que Dimitri dissera, reforçou totalmente este pensamento. Assim como eu, ela também parecia aliviada. Em paz. Eu só esperava que isso pudesse durar, e que meus amigos também pudessem fazer parte daquela alegria. Havíamos encontrado a luz no fim do túnel. Ou pelo menos, uma lanterna.
– Bem pessoal, creio que todos já sabem que estas são Carolina e Sabrina. A Deusa encarregou-se de nos revelar mais duas irmãs, e de salvá-las das garras das criaturas da escuridão. Portanto, gostaria que todos erguessem os copos em homenagem à elas. Às meninas! — com sua taça de vinho tinto erguida, Topázio propôs o brinde e bebeu um gole, seguida por um coro de "às meninas", quando todos também beberam dos seus copos. — Obrigada a todos. Agora, vou apresentar-nos à elas. O meu nome e o dos rapazes nossas colegas já sabem, portanto, vou pular para as meninas. Esta é Thaís. — apontando para a garota com californianas que me encarara e nos deixara entrar, Topázio sorriu. — Thaís é uma cantora amadora, e stripper. Ou era. Essas são Manuela e Mirla. Nossas gêmeas. — as duas nos fitaram. Eram muito bonitas também. Ambas com peles pálidas e cabelos lisos extremamente negros. Tinham uma franja curta sobre a testa, e os cabelos sem a menor falha. Uma, Manuela, tinha olhos verdes. Já Mirla, os tinha pretos. — As duas formam um time. Uma cabelereira, uma maquiadora. — e prostitutas, como Dimitri havia me dito. Mas preferi não completar a frase em voz alta. — E por último, Lavínia. Lavínia era professora do ensino fundamental antes dessa confusão, talvez seja a mais sensível e inteligente entre nós. — reconheceu Topázio, bem humorada. Lavínia era bonita, mas diferente. Tinha os cabelos ondulados nas pontas, pintados de vermelho escuro. Não ruivos reais como os de Nanda. Vermelhos. Seus olhos eram azuis pálidos, e tinha um rosto quase infantil. Senti certa simpatia por ela. — Agora que vocês conhecem todos nós, podem falar um pouco sobre vocês mesmas. — ofereceu-nos Topázio, e Sabrina sorriu.
– Bem, meu nome é Sabrina, mas vocês já sabem... — ela riu nervosa. — Eu era atendente de telemarketing antes disso tudo. É, provavelmente vocês já devem ter me xingado no telefone. — todos riram. — Eu sou lésbica, e tenho uma namorada chamada Ana, com o resto do nosso grupo. — os homens se entreolharam, surpresos. — É isso, o resto podemos descobrir juntos.
– Ora, Sabrina, esqueceu de mencionar seu senso de direção impecável. É só os bichos aparecerem, que ela já está longe! — escarneci, ao que todos riram. Sabrina fitou-me incrédula, provavelmente irritada por eu tê-la tachado de covarde na frente de todo mundo. Mas se isso me fizesse ser mais aceita, eu não estava nem aí para ela. — Eu tinha acabado de me formar quando tudo isso começou. Não tive a chance de ser nada além de estudante. — admiti. — E também tenho amigos e alguém importante com o resto do nosso grupo. Os garotos o conheceram.
– O inumano careca? Sério? — riu-se Dimitri, fitando-me como um idiota.
– Sim. — rebati, seca.
– Ele parece velho. — ele franziu o nariz. — Não sei não, parece que ele é um tipo de pedófilo ou coisa e tal... Se não acabou de fazer dezoito?
– O quê?! — engasguei. Eu ainda não tinha feito dezoito, e também já havia perdido a conta dos meses. — Isso não é da sua conta!
– Desculpa, só fiquei curioso... Nervosinha. — ele riu, e seus colegas o acompanharam. As meninas reviraram os olhos ou fingiam não escutar. Topázio olhava a situação com um pouco de piedade no olhar. Mas não parecia dirigida a mim, e sim à Dimitri. Sinal que ele é quem devia estar sendo ridículo.
– Cresça. — então o ignorei e sorri para Topázio, como se nada houvesse ocorrido. — Então, meu namorado foi morto por um lunático pouco tempo atrás, e o rapaz que mencionei só está sendo importante e me ajudando a superar. — Dimitri suprimiu uma risadinha de deboche. Morido o lábio para não mandá-lo à merda. — Agora eu e meus amigos estávamos tentando encontrar um lugar seguro... Tentamos o refúgio militar, mas tudo estava acabado por lá quando chegamos. Tanta gente morta... — desabafei, e lágrimas de desespero e alívio vieram aos meus olhos. — Nem acredito que estou mesmo aqui. É um sonho. — contei à minha anfitriã, emocionada. Ao nosso redor, as meninas pareciam compadecidas de nossa situação, emocionadas.
– Há muito tempo para sonhar. — disse Topázio, calorosa. — Agora, precisamos ajudar os seus amigos, que você mencionou. Pode me dizer onde eles estão? — indagou Topázio, os olhos cintilando em bondade. Bondade demais. E se fosse tudo uma estratégia para me enganar, e para que então ela pudesse capturar meus amigos? Fitei Sabrina em busca de auxílio, e ela parecia tão em dúvida quanto eu.
– Acreditem. Não vamos fazer mal aos seus amigos. — disse a garota chamada Lavínia, com uma tranquilidade quase desconcertante. Não sei ao certo o motivo real, mas confiei nela de cara. E eu odiava bons samaritanos, ou pessoas forçadamente caridosas. Ainda assim, não pude evitar. Eu já estava falando.
– Estamos na Praia da Tartaruga, aqui perto. Não será difícil nos encontrar por lá. — garanti.
– Ótimo. Dimitri? — chamou Topázio, sorrindo.
– Estou indo. Vou levar Paulino, Alexandre e Marcílio comigo. — respondeu meu novo rival, todo sorrisos.
– Eu vou junto. — disse Thaís, a garota com luzes no cabelo.
E assim foi. Pouco depois quatro membros do grupo da boate se retiravam, enquanto Topázio oferecia-me uma refeição como eu não comia há séculos. Tinha até mesmo uma salada de legumes e verduras perfeitamente bem conservados entre os alimentos. Eu sequer me lembrava o gosto de uma batata, portanto foi mais que bem-vindo o prato que recebi. Sabrina estava comendo um pedaço de carne cozida, e parecia realmente exausta. Talvez ela estivesse muito mais cansada do que aparentava, e só naquele momento estivesse baixando a guarda realmente. Não havíamos dormido há muito mais de vinte e quatro horas, e aquilo parecia finalmente estar batendo à nossa porta. Sorrindo para Topázio, percebi que pela primeira vez em muito tempo, eu poderia dormir em paz. Pelo menos eu estaria segura, pelo tempo que aquilo durasse.
Otávio.
Quando os mais capazes e fortes entre nós saíram da praia, todos que restaram entre nós reuniram-se ao lado da ambulância de Tânia. Gabriel e Nanda me surpreenderam, ao darem as mãos enquanto nossos amigos afastavam-se na van de Ricardo. Hugo parecia preocupado, e provavelmente aliviado por estar afastando-se de Mozart. Eu também estava. Não fazia ideia de que aquele cara aparentemente silencioso e pacífico era um sociopata, ou coisa do tipo. Eu só esperava que ele não fizesse nada contra meus amigos, e me arrependi por não ter dito nada. Mas tudo o que nosso grupo menos necessitava naquela hora, era de outro banho de sangue como o que Arlindo promovera antes. Eu não queria que ninguém entrasse em conflito pouco antes de ir em busca de Carol e Sabrina. De olhos fechados e abraçando a si mesma, Diana fazia uma oração silenciosa ao seu Deus. Tânia amparava Dino e Vilma gentilmente, enquanto fitava o horizonte. Eu, por minha vez, estava contente por não ter de lidar com nada tão urgente por algum tempo, ainda que ele fosse pouco. Só podia torcer para que logo todos estivessem de volta, e nada de mal os atingisse no caminho. Isso, por si só, já seria uma grande vitória.
– Acha que isso pode dar certo? — preocupada, Diana mirava Gabriel e Fernanda, que estava na beira da praia àquela altura. Juntos, observavam o mar lado a lado, até que Gabriel apontou para algo, e logo os dois puseram-se a rir. Sacudindo a cabeça, Nanda parecia incrédula. Então o jovem rapaz correu na direção do mar e agachou-se, retornando para perto da ruiva com uma pedra curiosa em suas mãos. Sorri com a gentileza e beleza daquele momento. Ainda que tudo desse errado, a humanidade sempre teria o amor. Só não entendia como Diana não via o mesmo que eu. Fosse como fosse, eu já tinha minha resposta à ela.
– Não só pode, como dará. — garanti, sorrindo. — Depois de tudo o que Fernanda viveu, ela merece um pouco de paz. Ela encontrou isso nesse garoto. Não sei se vai durar, porque ela é muito mais madura que ele, mas é promissor. Ao menos ao meu ver. Pelo menos ele a ajudará a passar pela gravidez...
– Eu concordo. Espera! O quê? — Diana, sorriu, e pequenas rugas formaram-se ao redor de seus olhos. Ela estava realmente surpresa com minha dedução, e sua reação confirmara tudo. — Esperto, Otto. Nada escapa a você? — Aquela mulher já perdera sua filha, e seu marido. Sua doce criança havia sido transformada em uma pequena e psicótica Inumana, antes mesmo que ela se unisse ao nosso grupo. Mas eu conhecera a família dela, no início de tudo. Sequer imaginei que pudesse vê-los de novo, quem diria estar ali com Diana, tantos meses depois. — Sabe em que mês estamos? — ela indagou-me, distraída. E acabou distraindo-me também — Já é quase Natal. Não tenho noção sobre o dia correto, mas já faz mais de um ano que este inferno começou. Portanto, deve faltar pouco agora.
– Eu não faço ideia... Parei de contar o tempo. Mas, pra dizer a verdade, geralmente é Ana quem saca tudo, junto comigo. Mas ultimamente ela anda se anulando um pouco, pela Sabrina. Não sei onde isso vai parar... — admiti, surpreso por estar desabafando com Diana. Um papo sobre o tempo havia de repente englobado coisas muito mais sérias. Minha postura com relação a ele, inclusive, era a mais comum entre todos nós. Ninguém queria lembrar do tempo que passara, das vidas que haviam sido perdidas, nem dos sacrifícios que havíamos sido obrigados a fazer.
– Eu entendo. Mas acredito que Ana só precise ter o seu próprio tempo. Logo, ela perceberá onde precisa melhorar. E em nome de Jesus, não será tarde demais. — ela concordou. Fitando-me por mais alguns instantes, assumiu uma expressão feliz de novo. — Para mim, contar é como vivenciar e comemorar cada minuto em que estou viva. Mas sabe, pode ser algo muito nostálgico. Até nocivo. Meu marido, minha Lívia, nossos amigos. Deus! Como sinto alta de Madeline. Sei que Tânia também, embora ela não fale. Mas acho que devo continuar contando. Vivendo por ela, e por todos que perdi. Durante muito tempo eu quis desistir Otto. Não mais. — com um sorriso tímido, Diana revelou-me sua força materna. Algo que vibrava dentro dela, pouco aparente e menos imponente do que o instinto de sobrevivência entre outros dos nossos. Mas eu deixaria minha vida em suas mão, sem pensar duas vezes. Principalmente depois de vislumbrar a luz que ela trazia consigo.
– Não mais. — concordei, e juntos, observamos o céu limpo e sem qualquer nuvem, um verdadeiro painel em turquesa celeste. Uma tela totalmente coberta pelos pigmentos que coloriam os alicerces da criação. Naqueles momentos de pura beleza e fascínio, era quase impossível duvidar da existência de Deus, ou de alguma outra divindade. Quase.
Vilma.
Tânia sempre achava que eu e meu irmão precisávamos de cuidados. Aliás, todo mundo vivia fazendo tudo por nós, e tratando a gente como se tivessem medo de que um monstro nos pegasse a qualquer momento. Mas ninguém era tão bom em se esconder quanto Dino. Até eu que tenho o mesmo tamanho e quase o mesmo peso que ele, precisei de ajuda para me manter oculta, por diversas vezes. Mas fazíamos isso a tanto tempo, que passou a fazer parte de nós. Naquela hora, enquanto víamos todos indo embora e só os mais fracos ficando pra trás, sabíamos que finalmente poderíamos ajudar o grupo de verdade. Enquanto Dino comia com Tânia, eu brincava com minha porção de arroz. Eu não gostava nada de ser obrigada a fazer alguma coisa. Já tinha quase doze anos! Fingi que estava satisfeita para não ser incomodada, e logo me afastei, deixando meu irmão em seus apuros, com nossa babá. Que chatice.
Alcancei a camionete de Diogo enquanto ninguém estava olhando. Eu sabia que Victoria tinha guardado alguma arma no porta-luvas, só não tinha certeza de era uma faca, ou revólver. Mas com certeza seria melhor do que nada. Eu só precisava dar um jeito de esconder tudo para que Tânia não falasse nada com Fernanda. Dino já havia sido muito grosso com Nanda por ela tentar nos educar, e eu não queria que eles brigassem outra vez caso ela mandasse a gente entregar nossas futuras armas. Meu coração acelerou cada vez mais enquanto eu chegava perto da porta do motorista. Aproveitei que ninguém estava olhando, e abri, quase caindo por cima do banco. Abri o porta-luvas correndo e minha unha do dedo indicador quebrou ao meio. Reclamei de dor, mas então vi o que a Vicky tinha guardado. Três facas de acampamento. Elas eram grandonas, e eu já tinha visto Diana usando uma parecida com aquelas para cortar comida, quando tínhamos algo assim tão sólido. Alegre com meu troféu, estava quase saindo livre daquela, quando Hugo me pegou no flagra. Ele parecia estar rindo, mas eu fiquei muito chateada. Agora, qualquer chance de eu ter uma faca de verdade tinha sido esfarelada.
– Posso saber pra onde a moça vai com essas facas? — sacudi a cabeça negativamente, tentando me livrar daquela. Ele riu, o chato. — Isso é perigoso, Vilma. Sabe que não é brinquedo, certo? — fiz que sim, concordando. Era óbvio que aquilo não era brinquedo. Era uma arma. Era proteção.
– Eu sei que não é brinquedo. Com isso aqui, posso matar monstros. E pessoas também. — disse, irritada por já saber que ele ia me mandar devolver a arma.
– Ok. Não conte a ninguém que deixei você ficar com elas. Pode dar uma ao seu irmão também, embora eu desconfie que a praia dele não é essa. — então eu ri. Dino era uma porcaria mexendo com facas, mesmo. — Me escute bem, Vilma. Você sabe o que pode fazer com isso. Quero que você se defenda o máximo que puder, mas sempre procure evitar usar isso. Não é algo que crianças devam fazer. Mas acho que já é a hora de você poder se defender, caso precise. E como Rico não está aqui, sou eu quem mando. Se alguém reclamar, pode pedir pra conversar comigo. Sei que Tiago deixou vocês com a Nanda, mas ela vai ter que entender. Certo? — eu tava morrendo de susto com a escolha de Hugo. Mas não ia dizer não. Era tão legal ter duas facas iguais às dos outros. Rindo, abracei ele porque não sabia como agradecer. Mas acho que funcionou. A partir daquele momento, eu tinha que ser mais forte. Eu não era mais só uma criança.
Eu mesma havia atirado contra a cabeça de meu irmão, junto com Dino. A gente tinha visto mais criaturas e zumbis do que qualquer criança devia ver na vida. Digo, ver mesmo, bem de perto. Quase tinha morrido mais de uma vez, e por algum motivo ainda estava viva. Mesmo sentindo tanto medo, eu fazia o possível para ser forte. Tinha saudades de casa, da vovó, e quase nem lembrava mais o rosto do meu pai. Às vezes eu prendia o choro até quase me sufocar durante a noite, e então, quando aquilo parecia quase insuportável, a tristeza virava dor. Dor de verdade. Um repuxo no peito, esquisito. E que me dava uma dor de cabeça muito chata, também. Mas ajudava. A dor me deixava irritada, com raiva, mas sem pensar no medo e na tristeza. Pelo menos, Dino era mais feliz que eu. Eu não dizia nada para ele, e idiota como era, ele também agia normalmente. Só pensava em armas e matar bichos, como um garoto ridículo faria ao ir parar dentro do vídeo game. E se pro meu irmão ficar bem eu tivesse que fingir todos os dias, e guardar o medo e o rancor que eu sentia de todos os nossos amigos, tudo bem. Eu não era muito importante mesmo. Ninguém tinha que se preocupar comigo. Desde o início eu só rastejara naquela bagunça, com medo e escondida. Não queria ser um peso.
Andando abraçada com as facas na direção de Dino e Tânia, sorri para meu gêmeo quando ele viu as armas na minha mão, e também riu. Tânia olhou para Hugo, que deve ter dito que estava tudo bem, pois ela murmurou alguma coisa em concordância, mas não fez mais do que isso. Quando as facas prenderam uma em cada lado na minha cintura, em alças de minha calça jeans reservadas pro cinto, me senti bem mais calma. Dino reclamou por só ter recebido uma, mas não arranjou confusão. Sentando ao lado dele na areia, olhando pro mar, passei o braço nos ombros do meu irmão, e deitei a cabeça em seu ombro. Dino sempre achava que era ele quem me defendia. Mas eu é quem tinha saído primeiro da barriga da minha mãe, o Tiago havia dito. Eu era a mais velha. Apertei ele mais um pouco, e então escutei o som de algo quebrando quando Tânia jogou um copo na direção de um homem que se aproximava. Mas, não era um homem. E ao lado dele, outros se agrupavam. Zumbis.
Seria muito bom que minha faca estivesse afiada.
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