Quebranto.

22 Terra Prometida?


Notas iniciais
Depois do encontro inesperado com Louis e Diana, vamos ver até onde Victoria será levada! O capítulo não segue a ordem de revesamento que eu estava fazendo entre os grupos, mas vai valer à pena! Bjs a todos! Boa leitura!

Victoria.

Já fazia um dia desde que Diana e Louis haviam se juntado a nós. Sem termos mais o que comer, uma vez que a comida desidratada de Jonas não era o suficiente para manter quatro pessoas por um tempo significativo, e sem termos água nem qualquer outro tipo de fonte de hidratação, era possível dizer que estávamos no mínimo, apreensivos. Louis andava de um lado para o outro, enquanto Diana parecia determinada a fitar o horizonte até morrer. Jonas era uma gárgula muda, e eu ainda estava perturbada pelas frequentes alucinações que pareciam me assaltar nos últimos dias. A sensação de não estar sozinha em seu próprio corpo, e de ser observada e analisada o tempo inteiro, era enlouquecedora. Mais ainda, quando a presença que você sentia não era amigável, e parecia zombar do seu desespero, o tempo todo. Nervosa, me senti capaz de abrir as portas daquela prisão a qualquer momento, apenas para escapar do terror do confinamento. A presença dos pombos, e agora de alguns errantes também, era frustrante. Eles nunca se cansavam, e ainda assim aguardavam um ato de desespero de nossa parte, para que pudessem buscar seu cobiçado quinhão. Nossas vidas.

— Tem certeza de que não conseguimos correr desses bichos outra vez? – guinchou Louis, mal-humorado. Ele não era meu colega favorito, mas já estava acostumada com seu jeitão, meio bruto.

— Poderíamos correr, sim. O problema, é que não temos para onde ir. Pelo que nos disseram o carro de vocês ficou sem combustível. O nosso, pifou. Não sei a opinião das garotas, mas eu acredito que não vamos poder transferir a gasolina da van para o carro, sem sermos devorados pelos pombos antes. – objetou Jonas, sensato.

— Ele tem razão. Estamos presos aqui. – conformei-me.

— Não necessariamente. – discordou Diana. – Há sempre os esgotos. Se não me engano, tem uma fossa subterrânea na parte de trás da loja. Quando subi ao segundo andar, pude ver o bueiro por onde os dejetos e a água da chuva descem. Se tivéssemos alguém forte o bastante para remover a tampa de concreto, e outra pessoa rápida o bastante para distrair os zumbis, talvez conseguíssemos descer sem sermos perseguidos.

— Se o problema for força, o Johnny resolve. – garanti. Ele acenou em concordância.

— Eu distraio os bichos. – preparei-me para me opor à vontade de Louis. Afinal, eu era uma Inumana. Era mais rápida que ele. – Nem tente me impedir, Victoria. Não vou deixar uma mulher se arriscar por mim dessa forma. Sendo um monstro, ou não.

Eu não sabia se me sentia lisonjeada pelo cavalheirismo de Louis, ou revoltada pelo seu machismo. Combinamos que eu e Diana sairíamos com Jonas até a parte externa da loja, enquanto Louis distrairia os bichos até que Johnny lhe desse o sinal para retornar. Dessa forma, acabamos deixando o esconderijo naquela mesma tarde, depois de repassar o plano umas mil vezes. Não tinha como dar errado. Ou tinha?

Sem provocar o menor ruído, eu e Jonas retiramos a estante do local. Abrindo a porta de vidro, Louis praticamente flutuou até estar próximo ao portão da loja. Eu saí em seguida, com Diana ao meu lado, segurando meu braço. Juntas, demos a volta na propriedade, medindo até mesmo o volume de nossa respiração. Jonas foi o último a sair, quando nós duas já devíamos estar fora de sua vista. Foi quando Louis gritou, para chamar a atenção dos monstros. Imediatamente, os pássaros levantaram voo e os zumbis começaram a gemer, provocando uma sinfonia vinda diretamente do inferno. Jonas nos alcançou desesperadamente, correndo até o bueiro enorme que Diana vira. Havia uma espécie de alça feita por uma viga de ferro torcida, além do símbolo da prefeitura, que demonstrava que aquela era uma construção de utilidade pública. Com um puxão, Jonas a tirou do lugar e a arrastou para um lado, revelando uma pequena escada de ferro que dava na direção dos esgotos daquele quarteirão, provavelmente. Eu e Diana nos apressamos em descê-la, ela na frente e eu em seguida. O mau cheiro era terrível, mas a adrenalina que acelerava minha pulsação era tão inebriante, que o ignorei. A mochila onde uma arma, uma lanterna, um último saquinho de comida e os brinquedos que eu roubara para Carlos estavam, pesava em minhas costas como o peso morto de um cadáver. Imaginei que Diana também devia estar sentindo o peso de sua própria bolsa, que levava sob o braço direito.

Meus pés tocaram o chão do esgoto, e me senti agradecida por não ter chovido naquela época. Estava tudo seco, até onde eu podia ver. Apanhei a lanterna e pisquei duas vezes, avisando que Jonas podia chamar Louis. O ouvimos assoviar como o combinado, e esperamos. Demorou um pouco mais do que o esperado, e eu já estava ficando tensa. Logo ouvimos alguém correndo e gritando, e Louis se jogou pelo buraco, caindo estatelado no chão, com um estrondo terrível. Jonas vinha descendo em seguida, puxando a tampa do bueiro para bloquear a passagem novamente. Diana estava chorando e abraçando Louis, e eu me senti muda, no escuro. Então ela ligou sua lanterna, me lembrando da minha. Jonas parecia corado do esforço, mas no geral tudo estava bem. Louis estava reclamando de dor no tornozelo, que devia ter torcido, mas fora isso, o saldo era positivo. Ou quase isso. Ainda faltava saber por onde seguir, se quiséssemos sobreviver naquele lugar fedido e escuro.

— Bem, ignorando o fato de que pode haver ratos ou coisa pior zumbificada aqui embaixo, fomos muito bem. O problema agora é: Para onde vamos? – Johnny percebera o mesmo que eu. Só tinha mais coragem, para ser o estraga-prazeres.

— Vamos manter nossos olhos no teto, iluminando-o conforme caminhamos. – sugeriu Diana. – Em algum momento, vamos achar outra dessas escadas, que os operários devem ter usado durante a construção do lugar. Eu trabalhava como engenheira, antes do mundo virar merda. Sei que esses túneis foram projetados como uma forma de manutenção dos esgotos, então tem várias entradas e saídas, para possibilitar um meio de cuidar de problemas em qualquer ponto da cidade. Vai ser difícil saber onde sairemos, já que não conheço as plantas, mas desde que estejamos muito longe daqui, já vou considerar um progresso. — me surpreendi com a eficiência dela. Agradeci por ter alguém assim no grupo.

— O escuro me deixa inquieto. – reclamou Louis. – Uma de vocês ilumina o teto, e a outra ilumina o caminho. Precisamos ver para onde estamos indo, e se precisaremos nos defender de algo. – todos concordaram, e começamos nosso caminho.

Caminhamos até as pernas doerem, antes de encontrarmos o primeiro errante. Ele trajava retalhos e se parecia com um mendigo, que havia se escondido depois de mordido. Jonas quebrou-lhe o pescoço, largando Louis por um momento. Ele o estava apoiando desde que descêramos para os túneis, e o homem parecia ainda pior do que quando caíra. Estava pálido, e muito calado. Diana buscava desesperadamente por uma escada, e a cada curva em que virávamos e a cada bifurcação que ultrapassávamos decidindo na sorte, eu tinha mais medo de que ela estivesse errada. Temia que andássemos sem destino, até acabarmos no Canal novamente, onde eu sabia que haveria dezenas, quiçá centenas de zumbis nos esperando. Louis ficava cada vez mais mal-humorado, e ela própria parecia se culpar pela demora em acharmos um meio de sair daquele lugar. Pensei em dizer algo que a confortasse, mas não seria verdadeiro. Embora eu achasse melhor estar ali do que presa na loja, também achava mesmo que ela nos guiara para uma Terra Prometida inexistente, como o povo de Moisés devia ter achado, quando ele os libertara do Egito.

Assim como o povo de Moisés, também me arrependi de ter duvidado, quando encontramos a primeira escada. Sem um relógio que funcionasse, não tive noção de quanto tempo havíamos andado, mas com certeza devem ter sido horas, já que Louis parecia exausto, e eu também. As baterias das lanternas estavam fracas, e havíamos desligado a minha, para poupar. Usávamos apenas a de Diana, que se dividia freneticamente entre o teto e o caminho. Ao ver a escada, tivemos uma surpresa ao constatar que um verdadeiro rio de esgoto a separava de nós. Digo um rio, porque a água corria com uma força surpreendente, e exalava um cheiro que misturava água salgada, com esgoto humano, embora este segundo não estivesse tão forte. Fazia meses desde que o vírus devastara a cidade, e os esgotos pareciam se resumir ao caminho pelo qual os rios chegavam ao mar, já que as empresas e lojas que lançavam seus dejetos diariamente estavam fechadas para sempre.

— Vamos ter que atravessar. – anunciou Diana, determinada. Concordei com um aceno, e me virei para fitar Jonas e Louis. O mais velho, estava horrível. Suando frio e com um olhar vidrado, Louis tremia da cabeça aos pés. Jonas o colocou sentado, com as costas contra a parede fria e escura do túnel. Diana se abaixou ao lado dele, chorando. Ela tocou sua testa com uma das mãos, e se afastou abismada.

— Ele está com uma febre horrível. – debulhando-se em lágrimas, ela se aproximou do marido novamente. – Lou, me diz: alguma coisa te mordeu? – diante da pergunta dela, Louis nos fitou, e fechou os olhos pesadamente. Em seguida, puxou a jaqueta jeans que usava, e virou o braço na direção da luz. Sob a auréola fraca da lanterna, vimos a marca de uma bicada em seu ombro. Um dos pombos o havia pegado, e o cheiro de pus que subiu do pequeno ferimento, foi de dar asco. Nitidamente, ele não estava lidando bem com a transformação. – Deus! Não! – chorou Diana, me abraçando e escondendo o rosto em meu pescoço, em seguida.

— Acho que eu estou finalmente morrendo. Achei que fosse sentir essa dor por muito mais tempo. – queixou-se Louis, rindo em delírio. – Hey, vocês dois: cuidem da minha mulher. Parece que não vou dar o azar de voltar como um de vocês, olhos brancos...

— Não Lou, você vai ficar bem! – gemeu Diana. Ela me fitou depois, com certo desprezo. – Você devia ter ido no lugar dele! É mais rápida! Não ia morrer se fosse mordida! Você deixou meu marido morrer! – me assustei com a violência dela, e depois, fiquei irritada.

— Pra começar, o plano foi seu! – me defendi. – E também não te ouvi dizendo nada quando ele se ofereceu pra ir lá fora! Como ele é seu marido, você também poderia ter ido no lugar dele. Além disso, sabemos muito bem que ele não aceitaria que alguém fosse me seu lugar.

— Chega... Não é culpa de ninguém. A gente morre, porque tem que morrer. – finalizou Louis, categórico. – Menos quando é assassinato. Aí é safadeza, mesmo. – acabei rindo com o comentário, assim como Diana. – Saiam desse lugar. Achem o grupo de Victoria. Diana... Não repita meus erros. Não somos uma ilha. Não fique sozinha. Se proteja. Vamos nos rever, um dia...

Esperamos o fim da frase, mas ele não veio. Os olhos de Louis ficaram baços, e logo perderam o foco. Ele se fora. Fitando-nos em expectativa, esperamos durante um minuto, cada um contando mentalmente, e torcendo para que ele retornasse. Não aconteceu. Quando os olhos de Lou se abriram novamente, um estava preto, e outro, vermelho. Com uma velocidade surpreendente para um errante, ele se atirou contra Jonas, que acabou se desequilibrando com o peso. A lanterna caiu da mão de Diana, e rolou para a água, se perdendo. Acendi a minha, e vi Jonas segurando o zumbi pelo pescoço. Diana então apanhou a barra de ferro que nosso amigo levava, e acertou a nuca do marido, fazendo o som de algo se partindo encher o ar. O corpo morto desmontou, estatelando-se no chão, enquanto Jonas arfava, e eu me recuperava do susto. Caída ao lado do marido, nossa amiga chorava copiosamente. Depois de um tempo, ela se levantou sem dizer nada, e começou a puxar o corpo de Louis na direção do esgoto que fluía para o mar. Johnny tentou dizer algo, mas apertei seu joelho, fazendo sinal negativo. Em silêncio, vimos o corpo de Louis ser envolvido pelas águas, e levado para sempre pelo seu véu líquido. Emudecidos pelo acontecimento, aguardamos enquanto Diana se aproximava e colocava sua bolsa sob o braço, nos fitando com uma imparcialidade perturbadora.

— Prontos para se molhar? – indagou, virando-se na direção do rio negro à nossa frente. Pelo que parecia, o luto estava sendo abreviado. Por minha vez, não tive vontade de aborrecer Diana com pêsames vazios, ou sentimentos dolorosos. Comecei a segui-la para dentro da água, sentindo o cheiro de mar envolver minhas narinas. A temperatura devia estar em torno de uns quinze graus, pois comecei a tremer assim que fui que a água chegou à minha cintura.

— Essa água é limpa? – perguntou Jonas, olhando para a correnteza que nos envolvia, praticamente salivando.

— Está limpa, sim. – confirmou Diana. O rosto de Jonas se iluminou, e ela sorriu. – E salgada, também. – me controlei para não rir, enquanto forçamos nossos corpos até o outro lado.

Apoiando meus pés, Jonas me empurrou para cima, e eu puxei Diana pelos braços, em seguida. Depois, nós duas apoiamos Jonas, que logo estava ao nosso lado. A escada não estava muito distante, mas minha lanterna estava ficando fraca, e nós não havíamos percebido que seria necessário caminhar um pouco mais, por um corredor úmido. Muitas teias de aranha se acumulavam ao nosso redor, e como eu pude perceber, Diana tinha fobia ao bicho, pois paralisou, fitando o túnel. Jonas me olhou em questionamento, e apontei para as teias. Compreendendo o que estava rolando, ele tomou a iniciativa. Foi o que bastou para que o seguíssemos. Eu já podia antever a luz do sol que se infiltrava pela saída, mas então algo que não estava em meu script aconteceu. Ouvimos o som gotejante de pinças se batendo, e nos viramos na direção do som. Esgueirando-se pelo buraco do túnel onde estávamos, uma aranha em tamanho gigante se preparava para investir contra nós. Seus oito olhos vermelhos brilhavam em meio às sombras, e o grito de horror que Diana emitiu fez doerem meus ouvidos. Agindo rápido, Jonas tomou a dianteira, e subiu pela escada de ferro, empurrando a tampa de concreto. O bicho se aproximava, cheirando à carniça e se espremendo pelo túnel com suas patas peludas e asquerosas. Segurei a vontade de vomitar, e apanhei a arma de Jonas na mochila. Só tinha uma bala, a última. Rezando para que não tivesse estragado nossa única forma de defesa com a água, disparei. Meu único tiro atingiu um dos olhos da criatura, que guinchou e se embolou, esfregando as patas contra o exoesqueleto danificado. Olhei na direção dos outros, e vi que as pernas de Diana já alcançavam a superfície. Corri para alcançá-los, e a aranha percebeu que perderia suas presas. Correu em nossa direção, mas por sorte escapei a tempo. Quando a luz do sol o atingiu, o aracnídeo esganiçou-se e correu para as profundezas dos túneis. Jonas puxou a tampa de volta para o seu lugar, encerrando o horror o que lá havia. Sentados e exaustos ao redor do túnel, ficamos espantados com nossa própria sorte. Apesar da morte brutal de Louis, havíamos conseguido escapar. Era mais do que eu poderia pedir, considerando que pouco menos de um dia antes, estávamos presos e sem qualquer expectativa de vida. O plano de Diana dera certo. Imagino o quanto ela devia se culpar pela morte do marido.

— Conseguimos. – arfei. Nós três nos olhamos, e então Diana começou a chorar. Se aproximando, ela deitou a cabeça em meu colo, e a mantive em meu abraço.

Jonas ficou me olhando, sem dizer nada. Eu podia ver que ele estava aliviado. Olhei ao redor, e percebi que nós três havíamos saído no gramado de uma construção maior. O sol ia alto, denunciando que estávamos no fim da manhã, talvez ao meio-dia. Mirei com dificuldades um letreiro diante do bueiro de onde tínhamos escapado. Lia-se: Secretaria Municipal de Obras Fluviais. Estava explicado o motivo para haver uma entrada até os túneis bem ali, em frente. Juntos, nos erguemos e apoiei Diana enquanto olhávamos o ambiente ao redor. Às nossas costas, um grupo grande de zumbis empurrava o forte e grande portão de ferro, que jazia inabalável diante da força dos mortos. Jonas segurou sua barra de ferro, e deu repetidas pancadas no trinco da porta. Depois de algum tempo o cadeado fino cedeu, e entramos na recepção da antiga secretaria. Enquanto caminhávamos, eu e Diana trocamos olhares de surpresa ao constatar que não havia ninguém ocupando aquele lugar. Provavelmente, nenhum grupo de sobreviventes quisera se arriscar a chegar até ali pela superfície, afinal o lugar estava cercado por zumbis, que haviam se aproximado ao perceber que nós estávamos ali. Quase choramos ao ver um galão de água mineral de cabeça para baixo, pela metade. A água devia estar velha, mas ainda serviria para matar a sede. Uma fina camada de poeira cobria todo o lugar, como um daqueles depósitos antigos, ou construções abandonadas esquecidas por décadas. É claro que faziam apenas meses, mas fora o suficiente para conferir ao lugar seu atual aspecto. De total abandono.

Caminhando em uma distância segura um do outro, nós três encontramos a mesa das recepcionistas, e dois banheiros no térreo. No segundo andar, havia três escritórios, e um refeitório para os operários. Toda a comida do lugar estava podre, mofada ou com fungos. Lamentei por não termos encontrado aquele lugar antes, mas acabamos encontrando alguns engradados com latinhas de refrigerante, e suco de caixinha. Sentamos no chão do refeitório, e bebemos alguns sucos. Jonas foi explorar o terceiro andar, e fiquei em silêncio com Diana, respirando fundo e agradecendo por estarmos vivas. Quando meu amigo voltou, nos disse que não havia nada no andar de cima, além de uma escada para o terraço e duas salas de contabilidade e administração. Procuramos um lugar para dormir, e percebemos que no térreo, havia uma porta que levava a um porão. Descemos, e encontramos todo tipo de material para operários dos túneis. Capacetes com lanternas, cordas, martelos, sacos de concreto, areia, pedras, cintos com vários bolsos e recipientes para acessórios como pregos, fivelas e sinalizadores fosforescentes. Sorrimos, e pegamos tudo o que poderia ser útil. Com uma expressão de prazer, Diana encontrou uma máquina de lançar pregos, que mais parecia uma arma. Colocou-a na mochila, e juntamos todos os pregos que pudemos encontrar. Prendemos os cintos com bolsos na cintura, e guardamos outros para quando encontrássemos o pessoal. Depois, subiríamos de volta para os escritórios, quando tropecei em algo grande, preto e empoeirado. Totalmente curiosa. Imaginei o que poderia ser. Nunca tinha visto nada parecido.

— Até que enfim, um pouco de sorte! – exultou Jonas, gargalhando. – Diana fitou o trambolho negro, e também sorriu. – Eu estava ficando revoltada, precisava saber o que estava acontecendo!

— O que diabos é isso? – indaguei, com as mãos na cintura. – Quase quebrei o pé nessa coisa!

— É um rádio. Nem acredito que conseguimos achá-lo. – surpreendeu-se Diana, agachando-se ao lado do aparelho. – Provavelmente os operários iriam instalar essa coisa em um dos pontos de construção, para o caso de precisarem pedir materiais, ou ajuda. Pelo que parece, não tiveram tempo... – deduziu.

— E tem como ligar esse troço? – perguntei totalmente leiga no assunto.

— Até tem. Só vou precisar de um tempinho. – explicou Jonas. – E claro, pode ser que a gente acabe atraindo aqueles insetos pra cá, mas acho que vale o risco, se encontrarmos alguém.

— É isso que me assusta. – falei. – Que acabemos não encontrando ninguém. Não deve ter muita gente com rádios ligados lá fora. O grupo do Trocado não tem um. Ninguém deve estar querendo se fazer notar por aqueles insetos...

— Precisamos tentar. – pediu Diana, apertando minha mão. – Precisamos dar uma chance à esperança. Talvez ela nos surpreenda.

— Certo. Só me ajudem a arrastar isso daqui... – Jonas puxou o rádio para o térreo, e Diana o ajudou a carregá-lo, enquanto eu os seguia de perto. Seria totalmente inútil atrapalhá-los, afinal eu não entendia nada de Eletrônica, ou Telecomunicações. Saí de perto, e voltei para o refeitório, apanhando uma latinha de Sprite.

Levei um susto quando ouvi Jonas bradando em alto e bom som, numa felicidade quase irritante. Acabei me entusiasmando, imaginando que talvez eles tivessem encontrado comida, ou coisa do tipo. Quando cheguei ao térreo, porém, os encontrei debruçados sobre o rádio, que exibia uma luzinha verde e outra amarela. Ele havia sido conectado a alguns cabos vindos da mesa de recepção, e eu não queria nem saber o que eles haviam feito para conseguir que o troço funcionasse. Mas ele estava ligado, e mesmo achando que só ouviríamos estática, me aproximei e parei ao lado de Diana. Ela regulava a frequência do sinal de transmissão, enquanto Jonas segurava um microfone ligado ao resto do aparelho por um fio, junto à boca.

— Câmbio, câmbio. – chamou. Fiz uma cara de deboche pra ele, e Johnny riu em resposta. – Estamos enviando um sinal de socorro. Se alguém estiver ouvindo, por favor, responda. Estamos presos na Secretaria Municipal de Obras Fluviais. Ficamos ilhados aqui por zumbis, e os túneis de esgoto abaixo da cidade não são seguros. Temos pouca água, e nenhuma comida. Por favor! Precisamos de ajuda. — o silêncio se fez ouvir. Com uma expressão de “eu avisei”, comecei a me afastar da recepção, quando um ruído alto me fez cobrir os ouvidos. Volvi o corpo a tempo de identificar o som de uma respiração humana. Diana já estava chorando, e Jonas parecia ter visto o próprio Coelho de Páscoa.

— Em quantos vocês estão? – perguntou uma voz masculina, desconfiada.

— Três! Somos duas garotas e um homem! – respondeu Diana, cedo demais. Eu ia aconselhá-la a mentir, para nossa própria proteção.

— Certo. E tem alguém ferido? Há quanto tempo estão presos? – prossegui o homem, com seu interrogatório.

— Ninguém se feriu. – garantiu Diana, tomando o microfone de Jonas. Ele a olhou, com uma expressão humorada. Senti-me renovada pelo modo como ela lutava pela vida. – Estamos aqui desde o meio-dia, pelo que parece. Não faz muito tempo. Por favor, nos ajudem.

— Vamos enviar um grupo de resgate. Sabemos onde a SMOF fica. Meus amigos devem estar por aí amanhã à tarde. Mantenham-se vivos, e não façam nada estúpido. Segurem a fome. Vai dar tudo certo. Quando eles os encontrarem, como os reconhecerão? – lembrou-se o nome.

— Somos uma jovem loira, uma mulher de cabelos curtos, e um careca musculoso. – respondi, enquanto Diana segurava o microfone diante de meus lábios. – E como saberemos quem vocês são?

— Seremos aqueles que estiverem vestidos de preto, e armados. Vamos nos ver em breve. – encerrando a transmissão, a voz eletrônica nos deixou sem fala.

— Será que virão mesmo? – indagou Diana, nervosa.

— Não sei. O que está me deixando mais curiosa é saber se foi boa ideia entrar em contato com eles. Podemos nos arrepender de ter encontrado esses estranhos... – imaginei sombria. Jonas e Diana se olharam, e seus rostos se tornaram mais sérios. Todos dividiram as mesmas incertezas e medos. Mas nossa expectativa não estava tão alta, considerando tudo o que nos acontecera. Há dias, tudo estava dando errado. Era um grande feito, estarmos vivos até aquele momento. Exausta, não me lembro de quando peguei no sono. Mas tive certeza de que, quando ouvi meus pensamentos no escuro da noite, algo mais estava junto a mim, aconselhando. Como uma segunda voz em minha mente, senti-me como se uma mascote particularmente hostil se sacudisse em meu interior, dormindo junto comigo. Algo totalmente assustador. Tanto quanto nossa Terra Prometida, que havia custado um amigo, um encontro com mais uma criatura nascida do Apocalipse, e a incerteza de termos nosso futuro na mão de estranhos... Apenas mais um dia, no paraíso...

Notas finais
Okay... Imagino que vocês devem estar ansiosos para saber o que vai acontecer! Como amanhã e quinta não tenho aula, talvez tenhamos mais alguns capítulos essa semana! Até mais!

See ya!:3