Notas iniciais
Capítulo dedicado à Danielle Ferreira, Shirley 8D, e Victor Slytherin Potter! Obrigado por favoritarem a fic!

Vamos ver o que o futuro nos revela... rsrsrs...

Ana.

Quando Hugo contou que os gêmeos haviam conseguido explodir uma casa sozinhos, não pude acreditar. Depois, temi que aquele mundo estivesse deixando todos loucos. Eu mesma, não poderia dizer que havia sido quem melhor se saíra desde o começo daquela loucura. Meu descontrole com Carolina mais cedo naquele dia havia sido lamentável. Mesmo assim, eu não me arrependia nem um pouco de ter dado as pancadas que ela merecia ter levado de Victoria, desde o primeiro momento em que se engraçara com Luca. Não era o triângulo amoroso que me irritava. Era a falsidade que eu podia perceber por trás dos olhos de Carolina. Eu sabia que ela não era realmente autêntica, desde o início de sua aproximação para conosco. Apesar da minha opinião sobre ela, tinha tolerado sua companhia em respeito à Victoria e Luca. Otávio também gostava dela, e admito que por muito tempo, eu também. Mas a última traição que ela fora capaz de cometer, enquanto o corpo da nossa amiga ainda estava esfriando, era ousadia demais. Aliando minha revolta à toda a dor de minhas perdas, e a raiva por ter perdido meu futuro, acabei descontando minhas frustrações nela. Não era algo decente, mas também havia sido libertador.

Ainda assim, o último ataque parecia obscuro à minha percepção. Era muito difícil de acreditar que Diogo pudesse ser tão descuidado, a ponto de provocar os insetos com a lanterna, ou de abrir os portões de madrugada, por qualquer motivo que fosse. Além disso, ninguém explicara o que Fernanda, Luca e Carol estavam fazendo do lado de fora, quando a loucura começara. Carolina estava chorando mais do que seria de esperar, e Luca a fitava fixamente. Até demais. Pareciam esconder algo, enquanto Nanda encarava os próprios pés, e torcia as mãos enquanto falava. Calada e observadora me mantive nas sombras, guardando minhas suspeitas para expô-las quando me fosse mais conveniente. Todos podiam me ver como um membro dispensável no grupo, mas eu sabia de tudo, sobre todos. Cedo ou tarde, eu descobriria o que havia acontecido naquela noite. Num mundo devastado, informação e influência eram tão úteis quanto às armas. Eu sabia quem precisaria atacar para descobrir tudo. Nanda era a opção mais viável, e também propícia. Sua religião a impedia de ser cúmplice em mentiras e tramas, e provavelmente ela se sentiria culpada se eu a pressionasse. Seria fácil demais. Depois de algum tempo, vi as crianças indo dormir, e encostei-me à Kombi de Diogo, ao lado de Eloá. Ela me deu um sorriso, e fiquei olhando para as estrelas, faminta.

O som dos carros me tirou de foco, e senti meu coração bater mais rápido quando percebi que era outro grupo, às nossas portas. Cheguei perto de Ricardo, de alguma forma associando sua pessoa, com a proteção que tanto desejávamos. Notei que as pessoas que estavam por ali, não tinham nenhum objetivo de dominação ou ataque, pois ficaram parados em seus veículos, até que nosso líder se aproximou do portão, com todos nós andando junto com ele, como um único organismo. Meu olhar cruzou com o de Carolina, e ela abaixou a cabeça. Eu sabia que havia algo errado com ela, mas não queria pensar em nada que diminuísse a raiva que eu ainda sentia. Então, me concentrei em escutar o que acontecia ao meu redor.

— Quem são vocês? O que querem aqui? – perguntou Ricardo, gritando para os visitantes.

Um homem com um enorme relógio de ouro saiu de um dos carros. Ele usava um blusão preto, e parecia um daqueles mafiosos de um filme americano. Exceto pelo fato de que era um pouco atraente, com um cabelo castanho comprido, que passava um pouco dos seus ombros. Tinha músculos desenvolvidos, embora fosse esguio, e usava calças e sapatos sociais. Muito estiloso. E surreal. Ele estava de braços abertos, em sinal de rendição. Da ambulância, uma mulher corpulenta e negra desceu. Ela era bem grande, em todos os sentidos. Tinha um aspecto intimidador, e sua cara não era das melhores. O cabelo liso e negro como piche estava preso em um coque sóbrio, e ela trajava um jaleco sobre uma blusa em costumes de onça, e uma calça jeans. Exibia muitas joias de ouro, e quando a luz da fogueira ou da lanterna de Diogo batia em seus metais, quase ofuscavam minha visão. Duas garotas desceram do carro de onde o primeiro cara saíra. Uma tinha cabelos loiros e lisos, e um lado da cabeça raspado. A outra tinha uma pele extremamente branca, como uma vampira. Seus cabelos lisos e castanhos desciam em cascatas. O tom era idêntico ao do mafioso. Deviam ser irmãos. De cada um dos outros dois carros, um homem saiu. Um tinha o cabelo bem cacheado, com tom de palha seca, e olhos azuis muito claros. O outro era negro e de cabeça raspada. Tinha uma tatuagem enorme no pescoço, e parecia bem perigoso. Todos nos encaravam, provavelmente nos analisando, tanto quanto eu os observava.

— Esses são Julia, Sabrina, Tânia, Arlindo e Miguel. Eu sou Saulo. Não queremos fazer mal. Por favor, nos deixem entrar. – pediu o “líder” do outro grupo, com uma expressão que denotava um sentimento profundo. Os outros poderiam engoli9r aquilo tudo, mas eu não.

— É claro que vocês poderiam forçar a entrada, se quisessem. – admiti, fitando Saulo nos olhos. Todos se viraram na minha direção, quando me pronunciei. Do outro lado, a garota loira ergueu uma sub-metralhadora com um dos braços, emitindo um sorriso fraco. Me detive analisando suas curvas. Ela era muito bela. Tinha cachos dourados que iam até o busto em um lado da cabeça, e o outro era curto, o que a conferia um charme totalmente encantador. Ela notou que meu olhar se focara em si, e para minha vergonha, me mandou um beijo. Totalmente corada e envergonhada, cheguei mais perto de Ricardo, que agora fitava as armas do outro grupo, desconfiado. Eloá e Diogo já estavam prontos para atirar. Foi Fernanda quem encerrou o conflito. Correndo na direção do portão, o abriu sem mais delongas, diante do choque dos dois grupos.

— Ficou louca? Deixe-os lá fora! – objetou Carolina.

— Sabemos bem que a vida deve ser valorizada. Eles querem a melhor chance de se manter vivos. Tem muita gente aqui que nem quer mais viver. Não vejo nada errado em ajudá-los. – Fernanda falou, friamente. Notei que Carol se calara, empalidecendo. Estranho.

— Tragam seus veículos para dentro. Vamos alojá-los, e alimentá-los. – declarou Hugo, sorrindo. Saulo se aproximou de Ricardo, e apertou sua mão, com um sorriso.

— O que é nosso, é de vocês. Vocês abriram a porta de sua casa para nós. Serei sempre grato. – prometeu a figura. A garota de cabelos compridos parou perto de Hugo, com os olhos cheios de lágrimas.

— Vocês nos salvaram! Nem imaginam o quanto esperei pra dormir numa cama de verdade. Estamos viajando desde que tudo começou. Somos de BH. – contou a menina, nervosa.

— Minas Gerais?! – me surpreendi. Otávio também parecia chocado.

— Sim. Muito obrigado por nos permitirem entrar. – manifestou-se a loira, me dando uma piscadela antes de seguir em frente.

— Otto, ajude-os a carregar as coisas que precisarem para dentro. – pediu Hugo. – Você também, Luca.

— Tudo bem, “primeira-dama”... – alfinetou Luca, claramente incomodado por receber ordens de um membro mais novo do grupo. Hugo ia retrucar alguma coisa, mas se calou diante de um olhar de Ricardo. Eu amava o modo como aqueles dois se comunicavam sem precisar dizer nada. Quase como eu e Otávio.

Acabei relaxando depois de algum tempo, quando o negro chamado Arlindo, e o Jovem Miguel trouxeram os veículos do outro grupo para dentro. Tânia, a negra grandona, dirigiu a ambulância para dentro, e junto com Fernanda, começou a carregar os itens de primeiros-socorros e remédios saqueados na direção do terreiro. Mais afastados de nós, Ricardo, Hugo, o estranho chamado Saulo e a prima Julia, conversavam sobre como seria a relação entre os grupos. Relutante, Ricardo os permitira se unir a nós, com a condição de que dividissem os recursos sem qualquer tipo de segregação, como estávamos fazendo ao fornecer-lhes abrigo e comida. Surpresos, descobrimos que as pessoas que estavam ali não eram o grupo inteiro. Havia mais quatro pessoas esperando por notícias em Armação de Búzios, que estava definitivamente distante do local onde eles haviam chegado. Como não conheciam o Rio muito bem, haviam dirigido sem parar em busca de um lugar seguro, e perdido a noção de distância do antigo acampamento, até que avistaram o fogo e a fumaça emitida pela casa de Ricardo queimando, da autoestrada. Ao perceberem que estavam muito longe de onde queriam estar, Saulo se mostrou abalado, enquanto Julia chorou, em estado de nervos. Foi só o que pude perceber da conversa, pois logo em seguida Eloá me chamou de longe, pedindo ajuda com uma caixa de madeira cheia de água que nossos novos colegas haviam trazido. Carregando o suprimento, acabei me distraindo do que desejava saber. Carolina sumira no meio da multidão, e sinceramente, não estava pensando mais nela. Mais tarde naquela madrugada, nos encontramos todos sentados em torno da fogueira. Éramos agora dezenove pessoas, e estávamos mais fortes, apesar de tudo. Mas era realmente estranho lidar com pessoas desconhecidas naquele mundo, sem saber se eram mesmo de confiança. A resposta mais provável era que não eram.

— Acreditam que já tivemos quase trinta pessoas? – contou Diogo, enquanto mastigava um pedaço de carne seca.

— Acredito. A gente formava uma caravana com dez veículos, quando deixamos Belo Horizonte. Só restam quatro, e mais uma SUV que ficou no acampamento. Estamos há uma semana vindo de Búzios para cá, por causa dos bichos. Parece que ficou muito mais difícil viajar com animais e zumbis por todo o lado. – falou Miguel, o menino de cabelos loiros.

— Sabrina, o que acha de dar uma volta no perímetro? – pediu Saulo, enquanto comia um pão duro, e bebia uma latinha de Pepsi.

— Tudo bem, chefinho. – mangou a loira, me fitando em seguida. – Mas só se a morena vier comigo...

— Se incomoda? – especulou Saulo, carismático.

— Não, imagine! – me apressei em dizer, tropeçando em Ricardo por tentar levantar mais rápido do que deveria. Otávio se engasgou com o refrigerante, me fazendo fulminá-lo com o olhar. Nervosa e humilhada caminhei na direção de Sabrina, seguindo-a na direção da barricada.

Caminhamos juntas por alguns minutos. Eu sabia que ela estava olhando a todo o momento por cima do ombro, tentando ver se eu continuava acompanhando seus passos. Sem saber se ela me considerava frágil e incapaz de caminhar velozmente, acabei acelerando o passo, para impressioná-la. Ridículo, eu sei, mas queria saber qual era o problema daquela menina abusada, capaz de invadir o espaço pessoal de alguém que conhecera há poucas horas. Além disso, ela percebera que eu havia me interessado, e ao invés de me afastar, parecia gostar do jogo. The L World nunca havia sido o meu forte, mas ela me lembrava de uma das personagens, que tinha problemas com álcool. Não conseguia recordar o nome. Também não importava. Quando ficamos próximas da barricada o suficiente para vermos alguns errantes do lado de fora, ela se aproximou de mim, com uma expressão de incerteza no rosto. Eu achei que ela fosse me beijar, ou algo do tipo, mas ao invés disso, me empurrou contra uma pilha de sucata, ficando com o rosto próximo do meu ouvido. Senti meu coração disparar, certa de que aquela mulher tentaria me matar, enquanto seus amigos se livravam do resto do grupo. Ao invés disso, senti a respiração quente e com cheiro de vinho alcançar minhas narinas. A posição em que Sabrina se mantinha, forçava seus seios a pressionarem meu braço. Era inquietante.

— Você e seus amigos não podem confiar em nós. – ela confidenciou, por fim.

— Sim, eu sei. – rebati. – Vocês não me enganaram nem um pouco. Vão nos matar hoje, ou depois?

— Ninguém vai matar ninguém, boboca. – irritou-se a loira. – Só não esperem ter autonomia para decidir o que fazer com o acampamento. Saulo é pacífico, e bondoso. O problema real é Arlindo. Ele é maluco, foi solto de uma delegacia quando o mundo virou merda. Um estuprador, e assassino. Estou te contando isso, porque sei que ele planeja algo. Você pode vir comigo e seus amigos mais chegados, e podemos nos virar sozinhos!

— E você deixaria Saulo e seus outros amigos para trás? Qual seu problema? Acabamos de nos conhecer! – eu estava pasma. E pálida.

— Eu não me senti atraída por nenhum dos meus amigos. Além disso, não dá pra sobreviver se importando com todo mundo. – agora os lábios dela estavam mais perto. – Vem comigo? – acabei rindo, pois me lembrei de Victoria e Diogo. Ele havia tentado fazer o mesmo, e ela o rejeitara. Minha resposta não poderia ser diferente. Contudo, não me atrevi a comprometer meu intuito com palavras. Beijei Sabrina, e ela correspondeu meu ato, com mais entusiasmo do que eu esperava. Esbaforidas e sorridentes, nos separamos e fitamos a escuridão que se emoldurava na abóbada celeste. Como se o próprio tempo estivesse cansado, vagalumes voavam ao redor dos nossos pés, indo alcançar a lua através da noite, em seguida.

— Onde você estava todo esse tempo? – perguntei, rindo.

— Procurando você. — respondeu Sabrina. Sei bem o que todos estão pensando. Amor à primeira vista, no Apocalipse? Mas é, foi basicamente o que aconteceu. Rápido, sem delongas, sem qualquer tipo de cuidado, ou medo típico do modo de vida da humanidade, antes de tudo mudar. Nosso mundo, não permitia dúvidas. Se só tínhamos o agora, não havia muito que explicar, quando duas pessoas estavam interessadas, e queriam ficar. É claro que tamanho compromisso também poderia ser uma maldição, pois nos atava à outro destino. Mas eu não estava, de modo algum, me importando.

Otávio.

Tive que me controlar para não morrer de rir, quando vi Ana saindo de fininho com Sabrina. É claro que “de fininho”, era muita gentileza para descrever o estrondo que minha amiga fizera ao quase cair em cima da fogueira, enquanto tentava sair de cena. Comendo e me fazendo de surdo, acompanhei a conversava que se desenvolvia à minha frente. Hugo parecia entusiasmado com o novo grupo, e sua inocência parecia tocar Ricardo, que permitira todo esse show para agradá-lo. Diogo também parecia interessado no grupo, embora não do modo positivo. Parecia mais um tubarão avaliando sua presa. Os outros pareciam imparciais, enquanto Luca não disfarçava seu descontentamento. O mais curioso, era que ele não se irritara com a aproximação de estranhos, mas sim com o fato de ter sido Hugo quem incentivara a decisão. Ele parecia implicar severamente com o garoto, talvez pelo golpe que recebera dele quando os dois se conheceram. Sem ter muita certeza sobre nada, me ative a acompanhar as conversas.

Acabei sabendo que Tânia era diretora de uma clínica de reabilitação, onde Julia estava internada quando Saulo havia chegado para resgatá-la. A enfermeira os havia acompanhado, tentando escapar dos zumbis que invadiam a clínica. Desde então, estavam unidos. Havia também um médico e a namorada de Saulo, mas ambos haviam morrido antes de cruzar a fronteira com o Rio. Era um assunto que parecia incomodar o líder do outro grupo, então a pergunta que formulei ficou presa na garganta. No caso de Miguel, a coisa era mais agradável. Ele era um professor de ensino Médio, e lecionava Música na escola onde Sabrina estudava. Os dois já estavam viajando juntos, quando Saulo os encontrara. Em seguida, haviam achado Arlindo em uma pousada na estrada, mas não sabiam nos dar muitos detalhes de sua vida pregressa. Sobre os quatro sobreviventes no acampamento, havia um adolescente chamado Gabriel, um policial aposentado chamado Dimas, uma freira chamada Clara e um vendedor chamado Érico. Sobre esses quatro, pouco foi dito, apenas que eles ainda aguardavam o retorno dos amigos. Ricardo falou que não haveria problema se eles fossem trazidos até nós, por Saulo. Aliviados, os membros do outro grupo se soltaram logo depois. Madeline veio se juntar a nós, e mesmo ela arriscou tomar um pouco de vinho. Ficamos todos conversando a noite toda, bêbados e alegres.

Na manhã seguinte, acordei com o sol queimando meu rosto. Já era bem tarde pelo que parecia, e eu havia desmaiado ao redor da fogueira. Por perto, também vi Luca, Miguel, Rafael, Carolina, Eloá e Julia. O resto devia estar espalhado pelo refeitório, e pelo resto do acampamento. Levantei-me, e fui arrastando até o local em que eu pensara ser possível encontrar mais gente. A rua principal, que ligava as casas umas às outras. Infelizmente, não vislumbrei viv’alma. Acabei tomando o caminho do terreiro, quando escutei uma verdadeira comoção vinda da Associação de Moradores. Gritos de frustração, alegria e ansiedade irrompiam no ar. Entrei no beco que levava à porta do lugar, e o adentrei. Lá, Saulo, Ricardo, Hugo, Ana e Sabrina se agachavam ao redor de um rádio velho e preto. Tentando captar alguma transmissão, Ricardo girava um botão perto do interruptor da máquina, enquanto Saulo segurava o microfone com uma das mãos, rente à boca. Um chiado ensurdecedor tomou conta do cômodo, e então captamos uma respiração. Involuntariamente, meu coração acelerou no peito.

- Câmbio, câmbio. – chamou uma voz masculina, desconhecida. – Estamos enviando um sinal de socorro. Se alguém estiver ouvindo, por favor, responda. Estamos presos na Secretaria Municipal de Obras Fluviais. Ficamos ilhados aqui por zumbis, e os túneis de esgoto abaixo da cidade não são seguros. Temos pouca água, e nenhuma comida. Por favor! Precisamos de ajuda. – todos nos olhamos, apavorados. Ninguém se atreveu a falar, enquanto Saulo olhava para Ricardo, esperando algum tipo de aprovação. Hugo segurou o braço do namorado, e acenou com a cabeça.

— Em quantos vocês estão? – Saulo perguntou, fazendo voz de mal.

— Três! Somos duas garotas e um homem! – uma mulher respondeu, com certo desespero na voz. Senti que algo devia ter-lhe acontecido.

— Certo. E tem alguém ferido? Há quanto tempo estão presos? – avançou Saulo, reunindo o máximo de informações sobre os estranhos.

— Ninguém se feriu. – a mulher garantiu, com urgência. – Estamos aqui desde o meio-dia, pelo que parece. Não faz muito tempo. Por favor, nos ajudem. – me surpreendi com o horário avançado. Eu dormira mais do que havia imaginado. Já se passava do meio dia!

— Vamos enviar um grupo de resgate. Sabemos onde a SMOF fica. Meus amigos devem estar por aí amanhã à tarde. Mantenham-se vivos, e não façam nada estúpido. Segurem a fome. Vai dar tudo certo. Quando eles os encontrarem, como os reconhecerão? – desta vez foi Ricardo quem falou, se lembrando de perguntar as características físicas dos sobreviventes ilhados.

— Somos uma jovem loira, uma mulher de cabelos curtos, e um careca musculoso. – a voz que respondeu me deixou de pernas bambas. Ricardo me fitou com espanto. – E como saberemos quem vocês são? – só podia ser Victoria! Ela estava com um timbre diferente, mais grosso, mas era inconfundível. Mas mesmo assim, não tinha como ter certeza.

— Seremos aqueles que estiverem vestidos de preto, e armados. Vamos nos ver em breve. – antes que pudéssemos fazer alguma coisa, Saulo já tinha desligado o rádio. – O que foi? — nos perguntou, ingênuo.

— Liga de novo! – cuspi.

Mas já era tarde demais. Sem ter como confirmar se era ou não Victoria na outra linha, eu e Ricardo decidimos nos ater ao mais provável. E o mais provável, era que uma garota com a voz parecida com a de Vicky, havia falado conosco. Juntos, saímos todos da Associação, e nos dirigimos ao refeitório, onde a maior parte do grupo estava reunida. Todos pararam de comer ou conversar quando chegamos, pois perceberam em nossos rostos que havia algo errado.

— Quem morreu? – indagou Diogo, com seu humor negro.

— Ninguém. Ainda. – respondeu Hugo, fazendo-o erguer uma das sobrancelhas. – Recebemos um chamado de socorro pelo rádio que o grupo de Saulo trouxe.

— Eu perguntei ao Ricardo se podia ligar o rádio, já que vocês haviam matado o ninho de vespas que tinha aqui perto, e ele concordou. Eu estava tentando falar com Dimas e o pessoal, e acabei captando esse outro grupo. Eles estão bem perto, e precisam de ajuda. – discorreu Saulo, enquanto vi as expressões de meus amigos, e do grupo dele, mudando.

— E, deixe-me adivinhar? O mini-Hulk, e o Ricardão querem resgatar os fracos e oprimidos? – parodiou Diogo, com um ar teatral. – Tudo bem. Estou dentro. – anuiu, em seguida. – Estava louco pra correr risco de morte, mesmo. – satirizou.

— Nada está decidido ainda. Quero a opinião de todos. – disse Ricardo, paciente.

— Será mesmo? – ironizou Luca. – Parece que você fica muito satisfeito com a opinião do Hugo. Mesmo que coloque as nossas vidas em risco.

— Ignorando as provocações, alguém tem uma objeção plausível? – indagou Hugo, fazendo Ana rir, e Luca corar de raiva. Ninguém se manifestou contra a ideia, mas também não se ofereceu para ir. – Bem pessoal, agora é a hora em que decidimos quem vai... – esperou Hugo, rindo. – Eu mesmo posso ir com Diogo, se ninguém está a fim.

— Não precisa. Nós duas vamos. – falou Sabrina, apontando para ela e Ana. “Já estavam assim?” pensei, rindo.

— Eu também vou. – declarei, decidi, sem ter certeza se aquilo era o certo.

— Acho que vou junto pra olhar essas crianças... – brincou Saulo, humorado. Julia e Miguel também se levantaram, pedindo pra ir junto. Todos concordaram.

Depois do almoço, nos preparamos para seguir viagem. Diogo seria nosso condutor, pois era quem melhor conhecia o lugar. O plano era ir margeando o centro, sem nos arriscarmos muito na zona vermelha, até chegarmos à SMOF, que não ficava muito próxima do centro. Mesmo assim, provavelmente estaria cercada de monstros, e seria um desafio escapar com vida. Nosso número, cerca de sete pessoas, era o suficiente para agir com discrição, e eficiência. Isto é, se todos conseguissem se comportar como o esperado. Coisa que era meio difícil, naqueles dias. A despedida de todos foi rápida, e silenciosa. Ninguém queria prolongar qualquer dor, proveniente da expectativa de um retorno. Quando a ambulância do grupo de Saulo deixou o Trocado, senti um peso ser solto sobre meus ombros. Como se nada mais importasse, segurei minha barra de ferro rente ao corpo, aguardando o que aquele mundo devastado, me reservava...

Notas finais
Bom pessoal, espero que estejam gostando da história! Saber o que vocês estão pensando, é o que me deixa mais feliz. Muito obrigado a todos que estão acompanhando! See ya!

Kisses by DroppingPieces...

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