Quebranto.

81 Season Quatro - A Fortaleza. Parte Um.


Notas iniciais
Olá, pessoal! Depois deste mês de férias (involuntárias, diga-se de passagem, uma vez que estive numa região completamente disprovida de conexão com a internet), venho desejar um início de ano repleto de amor, realizações e novos desafios para todos! Um pouco (muito) atrasado, eu sei. Principalmente quando não cumpri minha última promessa a vocês, e só estou postando agora. Maaaas, eu voltei. E espero que este retorno seja tão legal pra vocês, quanto foi para mim escrevê-lo. Vocês poderão perceber em breve que eu não consigo ficar muito tempo distante deste universo maluco que acabei criando. Principalmente agora, que ele está tão perto de encerrar suas narrativas (ao menos com este grupo). Boa leitura a todos, e espero que alguém ainda esteja lendo isto aqui! :3

Faye.

Quando a comunidade científica ouviu pela primeira vez sobre a Hipótese de Gaia, muito poucos acreditaram que esta poderia ser de fato, comprovada. Ecologistas e ambientalistas do mundo inteiro buscaram meios para desenvolver uma tese capaz de comprovar que o nosso lar, o mundo no qual nascemos e morremos, é um ser vivo. A homenagem à titã grega que representava a terra não poderia ser um aviso melhor. Afinal, de todos os seres vivos sobre a Terra, aqueles que causaram maior impacto e devastação fomos nós, os humanos. Nossas digitais permeiam cada superfície deste planeta. Nos tempos de crise, busco compreensão imaginando um mundo que nunca vou conhecer. Um mundo sem nós. É fácil então, notar que somos um obstáculo e não um benefício para o planeta em que habitamos. Se todos desaparecêssemos, não importa como, mudanças assustadoras e maravilhosas ocorreriam. Represamos e desviamos metade do maiores rios do mundo, para atender às nossas necessidades. Mais de oitocentos milhões de carros poluíam as ruas, até recentemente. Alteramos mar, a terra e o ar. E o mundo, indefeso, viu-se lutando para conviver com nossas marcas sobre si. Pobre Gaia. Usinas nucleares queimando, aviões caindo, máquinas essenciais à manutenção da vida moderna paralisadas, e criaturas inocentes morrendo ou sofrendo mutação artificial ao redor do mundo. Todos vítimas, todos bombas-relógio deixadas para trás, pela humanidade. Este, tornou-se o nosso legado. Na escola, fomos ensinados que os humanos aprenderam a dominar a natureza. Aprendemos que se éramos a espécie predominante, tínhamos o direito de extrair do mundo, o seu melhor. O que não nos ensinaram, é que a natureza pode continuar sem nós, e restaurar o próprio equilíbrio. Nós, é que não podemos viver sem ela. E hoje, depois dos nossos erros, aquilo que levamos cerca de dez mil anos para impor sobre Gaia, vem sendo tomado de volta. As selvas de pedra, o orgulho da civilização humana, devorado pelo verde e pelo tempo. Retomando o mundo, cidade por cidade, Gaia usou nossa própria engenhosidade contra nós. Transformou nossa força, em fraqueza. País por país, redesenhou a estrutura dos próprios ecossistemas, numa velocidade nunca antes contemplada. Um século por ano. Um passo de cada vez.
Sem nós, a Terra seguiu em frente, eliminando-nos como microrganismos malignos, um câncer indesejado. Apenas a resiliência humana nos manteve vivos por tanto tempo. Se há uma característica admirável na raça humana, talvez seja esta. A perseverança. No povo brasileiro, em especial. Sempre encontramos um meio de sorrir em meio ao medo, e à tragédia. Somos calorosos, de uma forma que não é fácil de explicar, mas pode ser sentida nos nossos gestos. Não que a nacionalidade importe, agora. Mas acredito que após conhecer tantas cidades centrais ao redor do mundo, preciso admitir que nunca fui tão feliz quanto em meu próprio país, ainda que muito pouco dele ainda exista, atualmente. Suspirando, observei de longe enquanto os outros velavam a jovem Ana. Não a conhecia muito bem, mas Otávio era muito ligado à moça. Senti-me extremamente emocionada com a comoção de todos. Eles eram mesmo uma família. À despeito de qualquer dúvida que eu ainda tivesse com relação a todos, aquele amor quase palpável era algo sensibilizador. Sei que Helena e Arantes também estavam surpresos.

– Ainda dói muito? — perguntei, apontando para a perna de Helena, da qual uma atadura mal feita pendia, frouxa.

– Um pouco. Mas isso é bom, não é? Sei que vou ficar bem. Se tivesse atingido alguma artéria, eu já teria batido as botas — ela encolheu os ombros, olhando na direção das pessoas que se acumulavam ao redor do corpo de Ana. — Pobre garota. Ela parecia ser muito corajosa.

– Todos eles são — concordei. — Estão juntos há dois anos, sozinhos. Aprenderam a se virar lá fora, no continente. Tem noção de como as pessoas vão ficar quando virem um grupo tão grande e tão habilidoso?

– Deus sabe que podemos usar a ajuda deles, na Fortaleza. — Helena não parecia totalmente aliviada, contudo. — Acha que nossos amigos conseguiram deter Orlando? Sabemos que ele financiou os mercenários, mas será que ele foi preso, ou vão tentar nos matar quando chegarmos?

– Um monstro de cada vez, querida. Só vamos ter uma resposta quando chegarmos lá. — Ela estava certa, no entanto. Eu temia o mesmo. Por isso, a razão de manter Irma viva. Ela era a única que poderia apontar Orlando como culpado, isso se aceitassem o testemunho dela. — Você ainda está preocupada — observei, curiosa.

– Quando você vai contar a verdade pra Victoria? Você ouviu o mesmo que eu — sussurrando, Helena olhou ao redor, certificando-se de que ninguém estava nos ouvindo.

– Victoria não precisa saber de uma hipótese. Não posso iludi-la, não vou correr esse risco. Não temos como ter certeza de nada — aleguei, em minha defesa. Não me atrevia a pensar nas implicações de Victoria ser realmente quem eu achava que ela era. — Quando chegar a hora certa, e se chegar. É quando vou dizer a verdade.

– Você quem sabe. Mas ela pode muito bem não gostar nada disso. Já pensou nessa possibilidade? — Deus, ela não ia largar o osso?

– Lidarei com ela, caso aconteça alguma coisa — rebati. Aquele assunto devia estar me deixando com a aparência cansada, porque Helena desistiu de suas ideias, ao observar meu estado de espírito.

Foi durante a tarde, com o horizonte tingido de laranja, que o corpo de Ana foi entregue ao mar. Sem mortalhas, nem rituais. Ela deslizou entre as águas, logo ficando para trás enquanto o pequeno barco seguia seu rumo, constante. Ricardo e Arantes revesavam-se na navegação, sobre a qual confesso não saber sequer o básico. Logo, o pôr-do-sol começou a anunciar sua presença e até então, o silêncio do luto mantinha-se imperturbável, no Odisseu. Até que pequenos sons, como o de asas batendo misturadas à espuma das ondas que quebram em pedras, encheu o ar.

– Oh Deusa, é lindo! — Cecília exclamou, apontando para a água atrás de mim. Virei-me para seguir seu olhar, e prendi o fôlego. Era realmente lindo.

Peixes que mais pareciam criaturas vindas de um sonho, nadavam ao lado do nosso barco. Suas escamas eram transparentes, e ao mesmo tempo, apresentavam todas as cores do arco-íris, como se uma camada constante de óleo corporal os mantivessem brilhando sob os sete prismas de cor. Eles batiam as barbatanas como os peixes voadores, e de fato, planavam por bons metros ao lado do barco. Um pequeno chifre na ponta de sua cabeça era mais bonito que ameaçador, feito de osso branco e espiralado. Um ser de sonhos, sim, um milagre instantâneo da natureza corrompida pelo homem. Era difícil observar aquela perfeição, e duvidar da deusa de Cecília. Afinal, Gaia era uma das formas de sua Deusa Mãe. A Mãe Antiga. Contemplar seus filhos no mar, livres da nossa influência, fazia-me crer que a hipótese de Gaia, não era uma hipótese. Mas um teorema. Pois não se tratava de um palpite. Era um fato cada vez mais óbvio.

Victoria.

Os peixes-voadores eram como pequenas joias do mar. Presentes para nossos olhos, e as criaturas perfeitas para recepcionarem Ana, em seu reino submarino. Não consegui dizer adeus. Não quando vi nos rostos de cada um dos meus amigos, a falta que todos sentiriam dela. Não quando lembrei-me daquele dia de verão, em que todos pensávamos caminhar apenas para o início de nossas vidas como adultos. E não para o fim do mundo. Com certo humor negro, que eu sabia vir excluvisamente dos recantos da minha mente envolvidos por Nora, pensei que talvez o fim do mundo devesse ter sido menos trabalhoso. Apesar dos esforços daquele planeta em nos eliminar, continuávamos vivos. Lutando, arriscando. No meu caso, adaptando-me mesmo ao seu cavalo de Troia, e utilizando-o em meu favor. Debrucei-me sobre a proa do iate, lembrando-me da clássica cena em Titanic, em que Rose e Jack "voam" sobre o mar. Aquilo parecia um sonho nublado, de uma outra vida. Uma memória roubada, de um tempo que talvez ficasse para sempre esquecido. Uma promessa não cumprida. Uma obra incompleta. Mãos firmes apoiaram-se em minha cintura, quando Diogo pousou seu queixo sobre meu ombro. Suspirando, ele cheirou meus cabelos, e observou o mar ao meu lado. Eu nunca entenderia como ele podia parecer sempre tão calmo, ultimamente. Havia progredido muito. Nada como o tempetuoso e agressivo Diogo de antes. Alguém novo, como todos os outros.

– Estamos prontos para deixá-la ir. E você? — Virando-me de frente para si, Diogo manteve meu olhar preso em sua expressão preocupada e atenciosa. — Sei como está se sentindo. Todos nós sabemos. Mas precisamos deixá-la aqui em mar aberto, longe da Fortaleza, para que seu corpo não acabe indo parar na praia da ilha.

– Eu estou pronta, só preciso conversar sobre algo antes — supliquei, mordendo meu lábio inferior com força o bastante para fungar de dor. — Eu dormi com Dimitri. Passamos uma noite juntos, e nos beijamos. Nós também... — Lágrimas quentes e murmurantes forçaram-se através do meu olhar, cobrindo-o com seu trêmulo toque. Sentia-me como um turbilhão de desespero e emoções confusas. Principalmente com relação à situações não concluídas. De alguma forma, precisava abordar uma questão importante, que não tivesse relação com Ana. Mesmo que fosse algo que apenas eu, Tânia, Vilma e a própria Ana sabíamos. Um acontecimento que poderia ter sido queimado para sempre, com o corpo de Dimitri naquela estrada. Eu simplesmente não podia manter a boca fechada. O que apenas confirmava que não importa pelo que eu passasse, algumas coisas jamais mudariam. Meu vício ridículo em suicídio verbal, era uma dessas coisas...

– Eu imaginei. Se é tão importante pra você compartilhar isso, então presumo que deve ter significado alguma coisa. E isso me magoa. Mas por outro lado, Dimitri está morto. Não vou precisar quebrar a cara dele, nem nada do tipo. Apenas saiba que isso não altera o que sinto por você, nem me faz menos satisfeito por estar ao seu lado. A menos que você queira um tempo... Quer? — O quê diabos estava acontecendo ali?! Eu não conseguia juntar as palavras que acabara de ouvir, e Diogo. Ele havia amadurecido muito, nos últimos tempos. Talvez estivesse realmente compreendendo que não podia mais ser egoísta. E isso fazia-me sentir ainda pior por tê-lo traído. Eu pensara apenas em mim, o tempo inteiro. Por sorte, ser alguém horrível não parecia o bastante para que eu o perdesse para sempre. Chocada com minha falta de ética, fiquei ainda mais supresa ao ver um sorriso em seu rosto. — Estou sendo sincero, Vicky. Se Dimitri ainda estivesse vivo, e Ana também, nossa conversa estaria sendo bem diferente agora. Mas sei que você está sofrendo muito. Pelas mortes de ambos. E quer se punir me contando o que aconteceu. Quer sentir dor, que não venha das suas perdas. Então eu lamento, mas não posso te dar isso. Não importa o quão mal eu me sinta, nunca vou te machucar. Fiz uma promessa para Otávio, desde que abandonei Cecília e Carol. Vou provar a todos vocês que eu mudei. Começando por você.

Sem conseguir me conter, abracei-o mais forte do que me lembrava de haver conseguido, até aquele instante. Em desespero, não sei em que ponto a risada em minha garganta morreu e tornou-se um choro contido. Beijando os meus lábios, Diogo manteve-me por perto, afagando meus cabelos. Ali em seus braços, as coisas pareceram menos perdidas, e um pouco mais sensatas. Eu não podia prever o que aconteceria na Fortaleza, mas sabia que estaríamos prontos. Todos nós.

– Antes de nos despedirmos, eu gostaria de dizer algumas coisas — solicitou Otto, aproximando-se do corpo de Ana, lentamente. Ele pousou uma das mãos sobre as dela, e suspirou, provavelmente tentando reunir o quanto de força pudesse. — Em nome de Ana, eu gostaria de dizer que é uma honra, ter todos vocês aqui, nesse momento. Sinceramente, depois de tudo pelo que passamos, não sei se seria capaz de vivenciar uma dor tão grande, sem amigos. O que nos reuniu, é também a razão da separação de todos os nossos entes queridos. E, por mais que doa saber disso, confesso que existem momentos em que sequer lembro-me da vida que eu tinha antes. — Rindo, Otto passou a mão pelos cabelos negros, que já começavam a cair lisos sobre seu rosto. — Temos uma nova vida, agora. Nos tornamos uma família na adversidade. Nosso laço, independente da relação pessoal mais intensa entre um ou outro, é familiar. Somos uma comunidade, e quando um de nós se vai, é importante ficarmos juntos. Honrar a memória de nosso ente querido, fortalecendo nossa harmonia. Estamos agora, prestes a entrar num novo lugar. Nenhum de nós, além daqueles que já viviam por lá, sabe realmente o que nos espera. Cecília previu que este momento chegaria, e que nesse lugar, nossos laços afetivos serão testados. Então, por mais que seja tentador, devemos lembrar que o que já temos, vem primeiro. Sempre. Só assim, poderemos sobreviver. Pela Ana.

– Pela Ana — disse a maioria, enquanto Ricardo caminhava na direção do corpo envolto num lençol branco. Com o auxílio de Dante, os restos mortais de Ana foram erguidos, e lançados sobre a proa, na direção do oceano sem fim.

Rápidos como centenas de lâminas do mar, os peixes-voadores amontoaram-se sobre o cadáver, devorando-o com precisão cirúrgica. Certa de que em menos de segundos restariam apenas os ossos daquilo que já fora minha amiga, desviei o olhar. Apesar de toda a exuberância e beleza daquele novo mundo, tinha cada vez mais a impressão de que ele não estava sendo desenvolvido para nós. Como se, lentamente, ficasse claro que o nosso tempo, havia passado. Tal conclusão, tornou o gosto já agridoce em minha boca, ainda mais amargo. Mesmo o abraço protetor de Diogo não surtiu o efeito desejado. Nervosa, suspirei quando ouvi a voz de Arantes anunciando algo. Não entendi direito o que ele dizia, até que Nanda apontou para o horizonte. Terra à vista. Finalmente, a Fortaleza.

Carol.

Bolhas e espuma do mar. Então, Ana havia partido. Nada além de retalhos da sua mortalha, que boiavam dispersos sob uma fina camada de água cristalina, perdendo-se definitivamente no azul oceânico, em seguida. Sentindo a mão que apertava meu peito fechar-se um pouco mais, suspirei para conter as lágrimas. Olhando para os meus próprios pés, tentei administrar o bolo em minha garganta. O grito e o lamento, presos pela minha própria agonia. Eu não lembrava-me do momento exato em que decidira parar de chorar. Eu simplesmente fazia o que fosse necessário para jamais precisar sentir novamente, algo tão devastador quanto fora perder Luca, quanto fora continuar vivendo enquanto cada vez mais entes queridos ai redor iam ficando para trás, perdido nos ecos de um mundo morto. Surpresa, tive um sobressalto quando o banco alcochoado afundou-se, ao meu lado. Arantes sentou-se totalmente confortável, os membros caídos ao lado do corpo, soltos como longas patas de uma aranha preguiçosa. Havia algo de cômico em sua postura, mas nem mesmo o tom amistoso dos seus gestos permitia que eu esquecesse sua reação violenta ao vingar a morte do filho. Requintes de crueldade que eu não seria capaz de colocar em prática nem mesmo contra as piores pessoas. Embora fosse capaz de idealizá-los tão bem quanto ele, admito.

– Desculpe a pergunta, mas o quão próxima você era, da menina que faleceu? — seu tom de voz não tinha resquício algum de desafio, ou zombaria. Uma pergunta comum, embora dolorosa.

– Éramos muito próximas desde antes, sabe? Talvez nem sempre nossa reação tenha sido das melhores, mas acho que é como quando perdemos aquela prima chata, mas que estava sempre junto nos momentos difíceis. Fica um vazio, no peito... E além disso, Ana não é a única amiga que perdi. É apenas, talvez a primeira em muito tempo cuja morte eu me permiti realmente sentir. Meu namorado se foi antes dela, e logo em seguida tivemos que fugir por nossas vidas. Eu nem vi o seu corpo... — Deus, eu definitivamente estava tagarelando. À despeito disso, Arantes parecia paciente, observando e apreendendo cada palavra que eu emitia com a atenção de um aluno aplicado, na escola.

– O luto que não sentimos, tem o poder de nos deixar loucos, se deixarmos. Você não me conhece bem, e teve o azar de ver o meu pior lado. De verdade. Sinto muito pela péssima impressão que posso ter causado, filha, mas garanto que não estava em meu melhor — sorrindo, ele cruzou os braços sobre o peito, pensativo. — Perder um filho não é fácil. Principalmente quando ele é tirado de você, com tanto pela frente. Ele seria uma vantagem incrível nessa guerra.

– Guerra? — aquela palavra soou estranha aos meus ouvidos. Apesar de sempre ter simplificado aquela situação como um cabo de guerra entre mortos e vivos, jamais havia encarado tudo aquilo como uma batalha, de fato. Parecia realmente sem sentido, talvez até ridículo pensar desse modo. Mas a seriedade com que Arantes colocara sua frase, fizera-me pensar. Se estávamos de fato em guerra, quem era o inimigo?

– É Gaia — ele sorriu. — Ela é a Mãe Natureza, a Terra. Cansou de nós, ao que parece. Posso ser militar, mas não sou burro. Os Conselheiros da Fortaleza geralmente costumam subestimar aqueles de nós considerados "força bruta", mas tenho experiência, filha. Sei quando estão tentando me matar em várias frentes. E acredite, o ataques de cada criatura nessa merda de mundo parece sincronizado desde que coloquei meus pés no continente.

– Ok, Arantes. Você é mesmo louco. E não me chame de filha. Você não tem idade pra ser meu pai. Só quase. — Ri, enquanto observava sua expressão alarmada. Ele acabou cedendo, também. Juntos, deixamos que nossos risos morressem enquanto observavamos o mar. Ricardo havia assumido o posto como capitão de nosso "navio pirata". Hugo estava sentado bem próximo, com Manuela ao lado. Não entendi bem qual era a daqueles dois, mas desde que ele despertada da sangria de Faye, permanecia grudado à garota. Além de mudo, em estado de choque por algum motivo. Inusitado.

Dante parecia menos feliz. Aposto que ele esperava que Hugo fosse correndo pra cama dele, assim que soubesse que o Ricardo continuava tão complexado e doido quanto era antes de se tornar o dentista bonzinho e o líder cheio de razão que nós havíamos conhecido no Trocado. Manuela no entanto, era uma variável de resultado especialmente agradável, depois de haver provado sua lealdade, enfrentando os mercenários por Hugo. Tânia e as crianças não estavam à vista. Talvez estivessem nas cabines, com os bebês, assim como Nanda. Cecília consolava Otávio, e Victoria parecia entretida com Diogo, observando a ilha que se aproximava cada vez mais.

– Sei que estão todos gozando por encontrar um lugar seguro, mas não tô no clima. Você vai me dizer o que tá rolando, ou vou ter que esperar e me surpreender com o show, assim como os outros? — eu podia jurar diante de qualquer entidade, que nunca planejava soar tão desbocada. Mas as palavras fluíam através de mim, e isso desde sempre. A expressão alarmada de Arantes deixava claro o seu choque, mas achei fofo o modo como ficou vermelho antes de me responder.

– Deus, Carol. Ouvi os outros comentarem sobre seu vocabulário, mas você faz as coisas mais absurdas soarem de modo natural. Onde você foi criada, afinal? — ele sacudiu a cabeça, bufando. — Bem, como todos sabem, Faye fugiu para o continente devido à uma espécie de Guerra Civil que se instalou na Fortaleza. Conflito que foi formentado pelo nosso Conselheiro da Ciência, Orlando. Ele era o chefe da equipe de Faye, antes de tudo. Ajudou no desenvolvimento do GM, o vírus que originou a gripe do urso — aos poucos, os outros foram aproximando-se, conforme o relato de Arantes tornava-se interessante. Mesmo Faye e Helena resolveram ouvir mais. — Orlando acreditava que toda e qualquer experiência envolvendo o GM devia ser interrompida imediatamente. Ele dizia que qualquer esperança de uma cura havia sido erradicada com a destruição da sociedade. Não tínhamos como nos comunicar com os Centros para Controle de Doenças ao redor do mundo, e o que Faye estava fazendo poderia apenas piorar as coisas.

– Ele tem bons argumentos — admiti. — E imagino que muita gente nessa sua Fortaleza concordou comigo.

– De fato, eles concordaram. Orlando era nosso Presidente, quando saímos de lá. Ele conseguiu colocar na cabeça da comunidade que Faye queria apenas brincar de Deus. Viram-na como uma cientista louca, ou algo do tipo. Teriam incendiado seu laboratório com meu filho e Helena dentro, se não tivéssemos escapado, com a ajuda de amigos. — Arantes secou o suor que se acumulava em sua testa, e sorriu de leve para Faye, amigável. — O Conselheiro da Defesa, é o namorado de Faye. Por sorte, ninguém sabia desta relação, muito menos que ele estava reunindo partidários da causa da vacina, que resolveram combater Orlando. Essas pessoas nos ajudaram a escapar, e prometeram avisar assim que tudo estivesse em ordem, para que retornássemos. No entanto, Orlando descobriu de alguma forma os nossos planos, e enviou seus mercenários que desejavam um lugar na Fortaleza. Sob perseguição, acabamos tendo de abandonar o Odisseu, e não soubemos se e como a situação se resolveu.

– O que nos deixa com um tremendo problema na mão — cortei, resolvendo que já estávamos longe demais para não sermos diretos. — Vocês esperam que tudo tenha se resolvido quando chegarmos lá, mas não podem garantir coisa nenhuma. É bem capaz de chegarmos no meio de uma guerra civil, e morrermos antes que eu sequer consiga tomar um banho nessa droga de Fortaleza.

– Faye já havia nos alertado sobre isso, lembra? — Otto manifestou-se, mas seu tom dirigido a mim era cheio de afeto. Pela primeira vez, não senti crítica nem repreensão em sua voz. Nem nos olhares dos meus amigos. Eles não me viam mais como uma inconsequente que falava demais. E isso, de uma forma especial, me acalentou. — Ela me disse desde o início que corríamos risco. E preferimos a incerteza, a ter de continuar em Búzios.

– Sua namorada é uma vidente. Será que ela não poderia, sei lá, de repente "ver" alguma coisa? — provoquei, aborrecida. Imediatamente me arrependi. Não conseguia mesmo controlar minha boca.

– Infelizmente, não posso ligar e desligar meus dons. Principalmente depois que voltei a ser humana. Algo em meu cérebro destravou-se com o GM, e agora essa câmara fechou-se novamente. Tudo o que posso esperar é que a Deusa decida abri-la para mim, quando for necessário. — Simples e delicada, ela apenas usou palavras bonitas para dizer que agora que não era mais cega, não via mais porcaria nenhuma. Irônico, e um porre.

– A mesma Deusa que parece bem contente em nos matar a todos. Considerando que isso tudo é verdade, claro. — Diogo riu, sem vontade. Ele estave desanimado, mas desconfiei que tivesse algo a ver com Victoria, e não conosco.

– Que absurdo. A deusa jamais destruiria seus filhos. Ela é a Mãe de Todos! — Cecília parecia ultrajada. — Como podem ter chegado a tal conclusão?

– Ok. Embora eu acredite que religião é só ciência que não podemos explicar, assim como os dons inumanos e a magia, acho melhor não iniciarmos uma discução teológica agora — sugeriu Faye, sábia. — Temos que focar na urgência da Fortaleza. Ricardo avisou que estamos a menos de meia hora da costa.

– É bem simples, gente. Vamos rezar pra que tudo esteja bem, e nos preparar para o caso de não estar. — Victoria pronunciou-se, e o silêncio diante de suas palavras foi instantâneo. Eu é quem havia começado aquela conversa, e com uma frase, Vicky havia roubado toda a atenção dos nossos amigos para si. Esse era o dom inumano da minha amiga, conclui.

Não é surpresa nenhuma dizer que fizemos exatamente o que Victoria sugeriu. Nos preparamos, colocamos os mais vulneráveis nas cabines, e esperamos até que a costa da ilha artificial estivesse nítida. Bem distante do que seria uma praia, o pequeno porto de madeira e concreto da Fortaleza erguia-se sobre um solo pedregoso, negro como piche. Rochas maiores espalhavam-se em pequenos agrupamentos, como cascalhos gigantescos. Era tudo muito bonito, e exótico, mas perigoso para embarcações. Deviam haver rochas bem grandes próximas ao porto, e talvez por isso ele estivesse sustentado para bem além, no mar. Uma vez próximos o bastante, Ricardo e Arantes desceram a âncora e atracaram no local estéril. A paz e a quietude somavam-se com a bruma natural que subia do mar, como uma névoa grossa através das pedras e da quietude. O som das ondas quebrando nas rochas, rugia e formava uma sinfonia relaxante, ainda que nenhum de nós descrevesse a si mesmo como alguém tranquilo, naquele momento. Eu, Vicky, Nanda, Diogo, Arantes, Otto e Ricardo. Tudo o que nossa onfesiva podia oferecer. Um grande risco à um refúgio criado pelas pessoas mais ricas do Brasil, para protegerem-se do fim do mundo. Sem dúvida. Faye vinha junto, acanhada ao lado de Arantes, seu protetor. Quando finalmente deixamos o barco, o solo rangeu sob o nosso peso, incomodado com o desafio pouco usual à sua resistência. Caminhamos por cerca de cinco minutos, até que a bruma insuportável impediu que qualquer um de nós distinguisse um palmo à frente do rosto. A umidade pungente no ar pesado estava dando-me calafrios. Perguntei-me por quanto tempo Arantes continuaria guiando-nos por aquele labirinto invisível, até que a luz de laternas brilho no alto, revelando bem mais do que eu esperava.

Um muro gigantesco erguia-se bem sobre nossas cabeças, com um número dois enorme, pintado em tinta amarela, em escala industrial. Não lembrava nada que eu já tivesse visto, afinal, eu nunca fora operária, muito menos entusiasta das classes trabalhistas. Já os outros, pareciam maravilhados diante de algo tão grande e principalmente, funcional. Haviam homens no topo, mirando-nos com armas e laternas semelhantes a projetores teatrais. Abaixo dos postos de vigia, havia um portão de metal que conectava-se com reentrâncias na estrutura do próprio muro. Um chiado incômodo encheu o ar, como o barulho que microfones costumam fazer durante testes. De baixo, enxergávamos muito pouco além das silhuetas minúsculas de homens armados e silenciosos. Até que a figura esbelta de uma jovem, totalmente vestida de vermelho, surgiu no topo. Seus cabelos negros em corte chanel emolduravam um rosto branco e pálido mesmo à distância. Uma figura icônica, principalmente no meio daqueles marmanjos todos. "Girl power" na Fortaleza. Um ponto a favor daquela espelunca, pelo menos.

– Atenção, intrusos. Identifiquem-se, ou deixem a ilha. Nossos sentinelas estão autorizados a atirar assim que esta mensagem for finalizada. Não repetirei meu aviso. Identifiquem-se, ou deixem a ilha. Já. — A mulher entregou seu megafone para um dos sentinelas, e ficou esperando, os olhos atentos. Arantes deu um passou à frente, e o som de uma dezena de armas destravando-se, ecoou em meio ao silêncio da bruma pantanosa.

– Sou o Sargento Arantes! Vim devolver Faye Keiko à segurança, assim como sua assistente, Helena! Pedimos asilo para nossos amigos, que salvaram-nos de muitos perigos. Não temos intenções criminosas, Valentina. — Algo mudou naquele mesmo instante. Armas foram recolhidas, e mais lanternas acesas. Faye, que dera um passo à frente, acenou.

– Perdoe-me, Arantes. Não o reconheci nessa bruma horrorosa. Estão todos bem? — o tom da garota tornou-se cuidadoso, afetuoso. — Como está Helena?

– Estão todos bem, com exceção de Ruan. Meu filho foi morto por mercenários contratados à mando de Orlando. — Arantes continuava impassível, apesar de sua dor pessoal. — Essas pessoas nos salvaram, eu repito. Merecem uma retribuição à altura.

– O Conselheiro da Defesa se pronunciará sobre isso — rebateu a jovem, lentamente. — Ele já está a caminho, com um destacamento em sua direção. Aguardem até que ele chegue até vocês. — A garota sumiu entre os muros, desaparecendo de vista.

– Valentina Cortes, a secretária encantadora do Conselheiro de Defesa — apresentou-nos Arantes, sorrindo. Ele estava claramente aliviado. — É bom estar em casa. Principalmente agora, que devem ter dado um fim em Orlando.

– Como pode ter tanta certeza, seu doido? — insisti, nervosa.

– Ah, eu tenho. Acreditem, Valentina não estaria viva, se Orlando tivesse vencido. Ele odiava essa jovem bela e espinhosa como uma rosa. — Alívio. Uma sensação maravilhosa, para variar. Com uma risadinha, Victoria relaxou a postura e passou um braço por cima do ombro de Nanda, puxando-a contra si. Diogo e Otávio respiraram fundo, no momento em que os portões enormes deslizaram para os lados, abrindo passagem para seis homens que vinham em nossa direção como uma procissão regular, e decidida.

– Allan! — Faye gritou, quando um homem de terno surgiu entre cinco sentinelas uniformizados. A garota correu mais rápido que velocista, agarrando o pescoço do cara. Eles se beijaram, e os sentinelas entreolharam-se, curiosos. Em seguida, abaixaram as armas, satisfeitos. Mas não era para Faye que eu estava olhando. Porque, apesar do tempo, eu jamais esqueceria um rosto tão querido. Antes mesmo que Vicky pudesse reagir, eu estava com o coração pulsando no peito.

– Pai? — todos voltaram-se em sua direção, incluindo Allan Frittoli, o homem que me vira crescer e que ajudara minha família várias vezes, em épocas de crise. O pai da minha melhor amiga, que eu chamava de tio. O padrinho de Otávio, e uma das pessoas que eu jamais imaginava encontrar outra vez, com vida.

Notas finais
Vou nem dizer nada aqui. A segunda parte será uma dobradinha. Vai vir em instantes. Como vocês me mimaram a fic inteira, quero um review em cada capítulo, hein! Senão capítulos duplos não se repetirão. u.ú #AutorEvil. Estou louco pra matar a saudade dos meus fantasminhas e morcegos. Beijooooos! Kisses by DroppingPieces!