Quebranto.

82 A Fortaleza. Parte Dois.


Notas iniciais
Como prometi, a dobradinha. Suponho que todos estejam ansiosos depois do último capítulo. :3 Boa leitura, galera! õ/

Victoria.

Meu pai estava me abraçando. Meu pai! Ali, comigo! Me apertando até os meus braços doerem, depois de anos sem notícias. Deus, ele estava lindo! Tanto quanto antes! Ainda mais charmoso com os cabelos grisalhos, naturais. Ainda mais belo sem toda a austeridade e o fardo das obrigações. Completamente conservado. Desde sua saúde, às suas roupas. E eu vivera o bastante para encontrá-lo de novo! Estava sem ar, qualquer lembrança dos motivos que me levaram até aquele lugar, esquecida no caminho. Pessoas que eu nunca havia visto na vida, observavam-me como se fosse louca. Meus amigos, fitavam meu pai com a mesma curiosidade ambígua. Um elemento totalmente fora de qualquer previsão, que qualquer um pudesse fazer. Faye estava sorrindo, com os olhos marejados. Aquilo lembrou-me de algo muito menos feliz. Se ela estava com meu pai, então dona Eliza estava morta. Mamãe tinha um poder sobre meu pai, além do amor. Era fascinação. Ele jamais a deixaria, enquanto vivesse. Não demorei muito até chegar ao próximo item. Meu irmão. Onde estava Carlos? Eu tinha que vê-lo! Ele precisava estar vivo!

– Pai... Cadê o meu irmão? — funguei, secando o rosto com as costas da mão direita. — Cadê o Carlinhos?

– Meu amor! Você está viva! Seu irmão está lá dentro, seguro. Ele vai adorar encontrar a irmã! Sua mãe... Ah filha, eu queria tanto que ele tivesse vivido o bastante pra te ter de volta — ele também estava chorando. — Ainda lembro de cada palavra sua no dia em que nos falamos. Deus tem sido generoso comigo. Agora que ele te trouxe de volta, tenho tudo que um homem poderia desejar. — Papai abraçou-me outra vez, bem apertado. Ele afastou-se, e olhou ao redor. — Otávio? Carolina? Crianças! É muito bom vê-los em segurança! — Carol e Otto abraçaram papai, rindo e chorando exatamente como eu. — Onde está aquela menina maravilhosa, Ana? E o garoto, Luca? O de cabelos ruivos? — Acho que meu rosto disse-lhe tudo. — Oh, sinto muito... Mas não deixemos a infelicidade dominar nosso encontro. — Papai pegou a mão de Faye, carinhosamente. — Meu bem, onde está Helena?

– Ela ficou no Odisseu, com o resto de nossos amigos. — Faye se referia a nós como seus amigos pela primeira vez. Era bem gentil da parte dela. Acredito que, depois de anos, não tinha direito algum de sentir ciúmes. Ao menos, ela estivera ali para o meu pai, quando eu não pude. Quando mamãe não pôde. Provavelmente, ela havia cuidado do meu irmão, também. E minha gratidão por isso, superava qualquer ciúme que eu pudesse cogitar sentir. Eu jamais poderia pagar pela bondade de tal mulher. Mas estava feliz por ter feito parte do grupo que a resgatara.

– Vou ter tempo de conhecer cada um dos seus amigos, querida. Mas agora, devemos trazê-los para dentro. Aqui fora não é tão seguro quanto já foi. Não podemos ficar expostos por muito tempo.

Diferente do que eu imaginava, não precisamos voltar para o Odisseu. Obivamente, só havia um porto na ilha, então papai poderia encontrá-lo facilmente. Ele prometeu que seus homens levariam meus amigos em segurança, e confiei nele. Afinal, ele era um dos Nove! Os Nove Conselheiros da Fortaleza, cada um responsável por uma parte importante daquela comunidade, haviam sido escolhidos há muito tempo, no primeiro ano de infecção. A Fortaleza nada mais era, do que uma solução de emergência encontrada pela Farmacêutica Keiko para proteger os seus acionistas mais valiosos, e suas famílias. Uma saída covarde e egoísta, para convencer pessoas podres de ricas, de que poderiam assinar contratos capazes de destruir a humanidade, sabendo que teriam um refúgio seguro, caso algo desse errado. Bem, felizmente as coisas não haviam funcionado da maneira certa para eles, também. A maior parte havia morrido antes que uma equipe de extração tivesse a chance de salvá-los. O Governo descobriu sobre a ilha, e exigiu vagas para o Presidente e a maior parte do alto escalão de Brasília. O que também não funcionou bem. No fim, a Fortaleza tornou-se um santuário para qualquer um que tivesse conhecimento de sua existência, e sorte o bastante para encontrá-la. Depois de um tempo, segundo papai, as pessoas simplesmente pararam de aparecer. Vez ou outra, criminosos tentavam invadir, e não conviver. Então, o esquadrão dos Sentinelas foi criado, para combater em nome da segurança, assim como o Conselho de Defesa.

Enquanto éramos brindados com seus relatos sobre as origens daquele lugar, avistamos o interior daquele refúgio tão aguardado. Um lugar de aparência árida, mas com uma gama de possibilidades muito mais felizes do que qualquer coisa que poderíamos encontrar em Búzios. As pessoas pareciam realmente limpas, e apesar da simplicidade em tudo o que ali havia, pareciam um povo própero, apesar do isolamento. É claro que considerando o estado deplorável de nossas roupas e o cheiro nada agradável que devíamos estar exalando, atraímos todos os olhares no centro da Fortaleza. Bem na minha frente, vi um prédio enorme, de dimensões cilíndricas, e revestido de vidro azulado e metal reforçado inoxidável. Haviam outras estruturas tão interessantes quanto, mas aquela torre lembrava muito o espírito da civilização. O orgulho das metrópoles. Também havia um prédio largo, com letras garrafais formando as palavras "ESCOLA & REFEITÓRIO". Este era retangular, mais uma casa excepcionalmente grande, do que uma estrutura administrativa, ou educacional. Dois outros prédios erguiam-se acima do meu campo de visão, mas estes, eu não podia ver com precisão de onde estávamos. Seguindo em frente numa linha reta, estávamos cada vez mais perto da torre de vidro.

– Aquele é o Diretório, onde são realizadas as reuniões do Conselho, são discutidas decisões de governo com a comunidade, e realizamos os julgamentos — papai parecia ter grande conhecimento de causa. Sorri, admirando o fato de que ele conseguira agarrar-se a um pouco de civilização naquele caos, e estava lutando para mantê-la.

– Parece que vocês tem uma utopia democrática, por aqui... Nem parece que acabaram de sair de uma guerra civil — pontuou Carol, com seu tom ácido característico. Meu pai a fitou, curioso. — Isso mesmo, tio. O Arantes e a Faye nos contaram tudo. Nada mais justo, já que estávamos achando que teríamos que chegar atirando no tal de Orlando.

– Vocês não conseguiriam chegar nem perto de Orlando, se ele tivesse tomado a Fortaleza. Como viram, ninguém passa pelos sentinelas — refutou, como se fosse uma situação tão óbvio, que deveríamos ter vergonha por planejar uma ofensiva.

– Não teríamos entrado pela porta da frente, se Orlando ainda comandasse o Diretório — contrapôs Faye, rindo. — Usaríamos os túneis de saneamento e drenagem do rio.

– Engenhoso, querida — papai reconheceu. — Bom, acredito que estamos todos felizes por não termos chegado a tal ponto. O que aconteceu aqui foi um episódio infeliz, que costuma ocorrer com governantes, vez ou outra. A sensação errônea de estar acima de qualquer um. Infelizmente, Orlando foi o primeiro de nós condenado a morte. Aqueles que se aliaram à sua causa, foram banidos de nossa ilha. Estão sendo levados nesse exato momento, para o continente. Devem estar à caminho de Espírito Santo, agora.

– É por isso que não estou vendo algumas pessoas. Pensei que fossem vítimas do conflito. Ao menos, estão vivos — comentou Faye, aparentemente feliz por aqueles que a queriam morta, ainda estarem vivos. Ninguém era tão bom. Mesmo assim, aquela forçadinha de barra não era maior que todo o bem que de fato, ela fizera pra nós. Cecília podia enxergar agora, graças à vacina dela.

– Descobrimos que Luma e Breno estavam espionando para Orlando. Sinto muito. — Meu pai parecia menos afetado do que sua voz sugeria. Talvez não estivesse realmente triste por aqueles traidores. — Mas eu tinha avisado sobre as más intenções deles. Jamais gostei desses estagiários. — Aí estava. Allan Frittoli não era um homem capaz de enganar-se com facilidade. — Com a queda de Orlando, os Nove remanescentes votaram e elegemos Silvia como a nova presidente. O Conselho da Justiça foi entregue à assistente dela, Martha Oasis. O Conselho da Ciência também ficou vago com o banimento dos fantoches de Orlando. Resolvemos entregá-lo a você, Faye. És agora, uma de nós.

Apesar de confusa com o excesso de informação, acompanhei as palavras de meu pai com entusiasmo. Estava amando a estrutura sólida daquele lugar. O tipo de coisa que eu jamais sonhei encontrar outra vez. Entramos na torre de vidro, ou Diretório, e encontramos uma recepção totalmente metalizada onde a garota de vermelho estava esperando ao lado de um rapaz de cabelos castanhos avermelhados, e muito mais músculos do que eu me lembrava. Sorri de maneira involuntária. Matias estava muito mais bonito do que eu recordava, e senti bem a tensão de Carolina ao vê-lo parado ali, observando-nos. Aos poucos, seu olhar preencheu-se de compreensão e entendimento. Suavemente, ele sorriu, e suas bochechas ficaram vermelhas como pimentões. Ao menos sua essência não parecia diferente.

– Carol? Você está... Muito suja! — zombou, rindo do olhar fulminante que minha amiga armou.

– Você não disse feia. Devo supor que isso quer dizer algo? — Carol era muitas coisas, mas boba, não era uma delas.

– Deve, sim. Você jamais ficaria feia. Nem com essa cicatriz na bochecha. Te deixa sexy. — Todos nós estávamos olhando de um para o outro. Otávio estava controlando-se para não gargalhar. Belisquei seu braço.

– Virar o "Profeta" te deixou confiante. Pra começar a descrever... — Carol cruzou os braços, fitando-o.

– Realmente. Talvez por isso minha ilha tenha sido tomada. Eu e minha irmã escapamos, mas foi por pouco. Não foi uma boa ideia começar aquelas transmissões, pelo que parece — confessou, o olhar pesado. Ele ganhara bons músculos nos últimos anos, e parecia bem mais bonito do que antes. Não estava usando seus óculos, também. Ainda assim, parecia exatamente o menino bondoso e sensível que sofria com as perseguições do colégio. Havia fragilidade em seus gestos, apesar da segurança artificial em seu olhar.

– Você salvou nossas vidas — lembrei-me, pontuando minha frase com um sorriso. — Ana usou o tablet dela para acompanhar suas postagens no blog. Nós sobrevivemos ao começo de tudo, por sua causa.

– Fico feliz em ouvir isso. Ana ficou no Odisseu com seus amigos? — Senti meu peito gelar com a pergunta. Neguei, com um gesto. Diogo abraçou-me pela cintura, e senti o olhar do meu pai atento, sobre o movimento. Pela sua expressão, vi de cara que ele não simpatizara nada com meu namorado.

As portas de vidro da estranha recepção abriram-se, e uma mulher negra de cabeça raspada veio caminhando em nossa direção, também vestida com um terninho vermelho, como Valentina. Atrás dela, cerca de mais seis pessoas vinham, e não foi difícil deduzir quem eram. Os Nove Conselheiros. Ou ao menos, parte deles. Meu pai e Faye completavam o grupo, então apenas setes pararam ali, à nossa frente. Sentinelas, cerca de cinco homens armados com uniformes idênticos ao dos vigias do muro, escoltavam seus superiores. A presidente Silvia, de aparência amistosa e serena, sorriu para Faye e Arantes, ao vê-los. Atrás dela, as três mulheres de vermelho e os três homens de ternos escuros, também sorriram. Naquele momento, fiquei realmente impressionada com tamanha organização. E confesso, quis muito que meus amigos e eu pudéssemos fazer parte de tudo aquilo.

– Olá, novatos — a presidente ainda estava sorrindo, e sua voz grave era tão maternal, que lembrava minha própria mãe. Gostei dela. — Agradeço em nome dos Nove, pelos serviços prestados à Fortaleza. Segundo as informações dos Sentinelas, seus amigos estão cruzando os portões neste exato momento. Incluindo a prisioneira que eles trazem, uma mercenária assassina, pelo que ouvi dizer.

– Ela tentou nos matar, sim. Mas considere-a uma testemunha, pois o que sabe é muito mais importante do que os crimes que cometeu — pediu Faye, em tom baixo e suplicante.

– Pode ter certeza, Conselheira. Faremos isso — um homem, muito bonito, respondeu. Ele tinha olhos verdes, e barba por fazer. Seu corpo era musculoso o bastante apenas para ser interessante, mas sem excesso algum. Sua aparência era a de um empresário do velho mundo, intocado pelos efeitos devastadores do GM, sobre a sociedade.

– Renée. Que bom encontrá-lo tão bem conservado. Podia jurar que você ia acabar deixando o Orlando te convencer a participar da festinha — a provocação de Arantes não passou despercebida. Todos os Conselheiros pareceram desconfortáveis. Mas não o próprio Renée. Ele sorriu, como se já esperasse por aquilo.

– Sabe Arantes, ter uma opinião neutra não significa que sou contra a cura. E mesmo que fosse, jamais conspiraria nem mataria para conseguir o que quero. Nenhum de nós aqui. Os traidores de verdade, foram banidos. Nossa guerra civil acabou. Temos que nos esforçar para esquecer o passado, e seguir em frente. É este o objetivo de todos os vivos, hoje em dia. Não é mesmo, senhora presidente?

– É claro — concordou Silvia, embora eu tivesse a impressão de que ela estava mais sendo coagida a concordar, do que de fato tinha vontade. — Retornando ao tópico inicial, precisamos deixar claros os termos para a convivência da Fortaleza — voltando-se em nossa direção, Silvia mirou nosso pequeno grupo. — Quem é o líder, entre vocês? — Olhei imediatamente para Ricardo. Disfarçando, ele moveu a cabeça num gesto negativo, e olhou para o meu pai. Compreendi. Levantei a mão, e Silvia sorriu.

– Eu devia imaginar, Allan. Sua filha tem muito de você, exceto os cabelos — deu-nos outro sorriso, e entendi a genialidade de Rico. Tratariam nosso grupo com mais respeito, se enxergassem-no como uma extensão do Conselheiro de Defesa. Esperto. — Victoria, não é? — Assenti. — Ótimo. Tenho algumas regras para esclarecer. Aqui na Fortaleza, apenas os Sentinelas e o secretariado do Conselho de Defesa, tem a permissão para portar armas de fogo. A única exceção é a Conselheira de Justiça, e no caso, a presidente. Regra número dois: Todos fazem as refeições juntos, nos períodos estabelecidos pelo Conselheiro da Fazenda, senhor Tássio. Ele lidera o refeitório, então é bom que obedeçam seus horários, se não quiserem ficar com fome. Renée é nosso Conselheiro de Logística, e vai designar os quartos e as roupas necessárias para cada um de vocês. Podem pedir a ele qualquer ajuda necessária. Por fim, depois que todos estiverem limpos e com a barriga cheia, vamos apresentá-los à comunidade, e vocês poderão gravar o nome dos seus mortos em nosso Memorial. É um ritual de boas-vindas, após o qual cada um será encaminhado para uma função compatível com seus talentos e experiência. Fui clara?

– Como água cristalina — sorri. — Acho que não há nenhuma dúvida sobre os protocolos — o pessoal concordou, embora eu tivesse certeza de que Carolina perguntaria detalhes por horas, se lhe fosse permitido.

– Perfeito. Por favor Renée, guie nossos amigos para os Alojamentos, e... — Silvia interrompeu-se, quando Faye deu um passo à frente.

– Não será necessário, Silvia! Eu mesma faço isso, estou louca para voltar pra minha sala, no Laboratório. Levo Victoria e os outros, com prazer — rindo ela segurou a mão de papai, enquanto olhava para sua superior. A presidente da Fortaleza sorriu, concordando com um aceno.

– Acredito que o Conselheiro de Defesa queira passar na Escola, e reunir seus filhos, então? — papai concordou como uma criança a quem um doce é oferecido. — Ótimo. Tenho certeza que a Conselheira Helga não vê grandes danos à educação de Carlos, se ele for liberado por hoje. Estou correta?

– Mais ou menos, Silvia — rebateu a mais velha entre os Nove. Uma senhora extremamente rechonchuda, com duas tranças loiras descendo sobre o peito largo. Uma viking acima do peso, eu poderia dizer. Quase consegui imaginá-la usando um chapéu com cornos e roupas de couro artesanais. — Mas o menino merece ver a irmã, claro. Está liberado um sorriso tímido pontuou sua frase final.

Papai e eu deixamos os outros, enquanto Faye os levava em direção ao restante do grupo, que nos aguardava em frente aos Alojamentos. Fomos na direção oposta, e despedi-me brevemente de Diogo, com um beijo suave. Tive certeza de que ambos (Diogo e meu pai) estavam incomodados com o fato de que eu não os havia formalmente apresentado. Entretanto, fiquei contente por ver que ambos estavam respeitando o meu tempo. Diogo só não era tão sutil quanto eu poderia desejar, querendo deixar claro para o meu pai que ele era exatamente quem Allan pensava que fosse. E isso me deixaria irritada, se eu não estivesse até o pescoço com a história de Dimitri. Diogo tinha todo o direito de ficar inseguro, então. Melhor que eu continuasse bem quieta. Acabamos virando numa bifurcação da pequena rua que cortava o pátio central, no centro da Fortaleza. Perfeitamente pavimentada, ela guiava a cada uma das contruções funcionais do local. Estávamos agora, passando em frente ao laboratório de Faye. Era o prédio mais modesto e menor, entre todos. Contudo, tinha formato triangular como o de uma pirâmide feita de puro concreto, com apenas pequenas lâmpadas que podiam ser vistas, parecendo minúsuclos espelhos, mesmo quando apagadas. Devia ser um prédio/monumento lindo, à noite. Já a escola, ficava junto com o refeitório, então era enorme. Bem maior de perto, do que eu supunha ao vê-la de longe. Paramos em frente ao prédio, e pude ver ao longe algo como um pequeno coliseu, perto do muro.

– Aquela lá é a ágora. Onde nos reunimos em cerimônias especiais, como a de boas-vindas, e as de sepultamento dos mortos. Também é onde os condenados à morte são executados. Em todos esses anos, nunca havíamos usado esse lugar para tal fim. Até Orlando — meu pai respirou fundo, encarando o portão da escola. Os dois sentinelas que guardavam o local, pareceram determinados em ignorar nossa presença. Sequer nos olhavam. — Não vai me apresentar seu namorado? Ele parece um pouco... mais velho. Confesso que me incomoda não ter o direito de cobrar nada, mas quero que saiba que continuo aqui, por você. Mesmo com toda a bagunça que nossa vida se tornou, e o fato de ambos pensarmos que o outro estava morto. Sou seu pai, querida. E qualquer pessoa que tenha cuidado de você bem o bastante para que nos encontrássemos outra vez, é digno da minha consideração.

– Penso o mesmo sobre a Faye. Como isso começou? — curiosa, não me contive. Papai sorriu.

– Faye era amiga minha e de sua mãe, mesmo antes da crise. Ela nos enviou o helicóptero que tirou-me da empresa, e sua mãe e irmão de casa. Ela nos levou até sua casa, e ficamos presos durante um bom tempo em São Paulo, com um grupo de sobreviventes. Silvia e Renée faziam parte dele. Nós somos os únicos que conseguiram chegar aqui, mesmo com todo o dinheiro e recursos que tínhamos. Faye salvou minha vida, quando sua mãe foi infectada. Ela se tornou uma transgênica, como você. Só que perdeu a razão. Ela atacou seu irmão, e tive que atirar... — ele estava chorando. — Ela morreu na floresta da Fortaleza, perto do Armazém e das plantações. Orlando já era o líder daqui, e estava nos esperando. Faye e Helena cremaram o corpo de Eliza no laboratório, a meu pedido. Elas me entregaram as cinzas, depois. Com a sua mãe, uma grande parte do meu coração também foi lançada ao mar. Já tinha perdido você, e tudo pareceu ainda pior. Não fosse por Faye, as coisas teriam sido ainda piores para Carlos. Seu irmão é um jovem incrível, Vicky. Mas continua sendo acima de tudo, uma criança que perdeu tudo. Vai ser bom ter a irmã por perto.

– Você não faz ideia de como estou ansiosa por isso, pai — confessei, e apesar de consciente do nó em minha garganta, não pude acreditar que estava mesmo chorando. Ouvir como um ente querido morreu, quando durante anos você se conformou em não saber, pode ser devastador. Apesar deste turbilhão de pesar e perplexidade por tudo o que estava havendo, permaneci de pé. Acredito que meus amigos deviam estar passando pelo mesmo, então eu não tinha o direito de ser mole. Não antes de abraçar Carlos bem apertado.

Ele deixou a escola pouco depois que meu pai explicou aos sentinelas o motivo de sua visita. Ansiosa, afastei-me o bastante para que Carlos não fosse totalmente pego de surpresa. Além disso, queria muito vê-lo de longe, antes. Tudo de que me lembrava, era do menino branquinho, de cabelos pretos e olhos castanhos. Lindo. Meu irmão, tão parecido com o papai. Tão bonzinho, obediente. Totalmente incompatível com o mundo que tínhamos agora. Isso me fez imaginar o quanto ele devia ter mudado, por dentro. Um grupo de três senhoras vestidas em trajes cinzentos passou por mim, e elas não pareceram tímidas ao analizarem-me francamente. Uma delas sorriu, enquanto as outras simplesmente desviaram sua atenção, seguindo em frente depois de franzirem o nariz, inquietas. Eu devia estar mesmo fedendo. Um sentinela saiu de dentro da Escola, e cumprimentou meu pai com um aperto de mão. Os outros dois afastaram-se um passo, quando meu irmão saiu de dentro do local. Sem fôlego, não contive meu pranto. Aquilo não era comum, não era algo com que todos pudessem contar. Ter minha família de volta era o tipo de presente que eu não estava esperando. Mesmo. Carlos estava muito mais alto do que eu me lembrava. Percebi então que ele tinha a idade exata dos gêmeos, e certamente não poderia ser tão pequeno quanto eu me lembrava, agora que já tinha treze anos. Ele não havia mudado muito, além disso. Seus braços estavam mais compridos, mas ainda tão esguios quanto eu lembrava. Seus cabelos ainda eram grandes e lisos como um véu negro, mas ele raspara a cabeça, dos dois lados. Papai demorou poquíssimo tempo para esclarecê-lo, e então sua expressão confusa deu lugar a um olhar chocado e descrente. Ele cruzou os braços de forma defensiva, erguendo o queixo de modo ameaçador. Então meu pai virou-se em minha direção, e comecei a caminhar lentamente. Foi quando Carlinhos me notou. Ele continuou estático, enquanto a distância entre nós ia decaindo, até que eu estava bem na sua frente, sorrindo.

– Vicky? Você está tão diferente... Andou malhando? — Balbuciando, Carlos parecia indeciso. — Você é transgênica... Legal!

– De onde eu venho, chamamos isso de inumana, moleque rindo, ajoelhei-me à sua frente, e o puxei para mim, abraçando-o apertado. Senti Carlos ofegar, e soltei meu aperto, um pouco culpada por feri-lo. Como se ele fosse feito de açúcar, e estivesse chovendo.

– Ai. Isso doeu mesmo. Você não era forte. Ainda tem aquelas manias malucas? — Carlos parecia querer certificar-se de que eu era realmente sua irmã, então resolvi entrar no jogo.

– Eu não tenho mais TOC, desde que fui mordida por um zumbi. Parte da mutação que o meu organismo sofreu, me deixou mais forte. Eu tinha uma segunda personalidade, também. Mas a Nora está sob controle, desde que eu aprendi a aceitá-la. — Meu pai estava atento à nossa conversa, torcendo por uma conclusão favorável.

– Uau. Você está mais bonita assim do que antes. Mais bonita que a Lince Negra, dos X-Men! Nunca imaginei que isso seria possível. Você ficar bonita... Incrível rindo, Carlos correu antes que eu pudesse agarrá-lo. Meu pai ficou olhando, sorrindo enquanto eu perseguia meu irmão através da Fortaleza. Não conhecia bem o lugar, mas parecia bem limpo. Algumas pessoas caminhavam com trajes semelhantes, de acordo com sua função. Aquilo deixou-me curiosa. Ninguém reparou muito em mim, no entanto. Estavam todos dirigindo-se para o Memorial, onde ocorreria a cerimônia de boas-vindas a mim e meus amigos.

– Te peguei, garotinho! — abracei Carlos, e caí de joelhos, desequilibrada. Ele apertou meu pescoço com força, rindo e ofegando ao mesmo tempo.

– Eu me rendo! Eu me rendooooo!

Soltei Carlos, que estava arfando, devido às cócegas. Meu pai estava bem perto, e ajudou-me a levantar. Rindo como uma criança boba, o abracei e puxei Carlos conosco. Entre os dois, senti-me realmente protegida e encontrei sentido real para ter sobrevivido por tanto tempo. Eu sabia naquele segundo, que não importava mais o futuro. Nem que caminhos a vida reservaria para nós. Jamais deixaria a minha família outra vez. Não agora, que eu os havia recuperado. Papai beijou meu cabelo, e quebrou nosso laço de afeto, respirando fundo. Haviam lágrimas não derramadas em seus olhos, e seu rosto estava cansado.

– Eliza ficaria maravilhada se pudesse vê-los. Prometo que vou cuidar dos dois, por ela. Até de você, filha, mesmo que não tenha precisado de mim todos esses anos. — Papai fungou um pouco, e franziu o nariz. — Bom, melhor mesmo você ir tomar um banho. E depois, vai me apresentar aquele rapaz, apropriadamente.

Estava tão feliz, num sentido tão amplo, que sequer importei-me em ser tratada como uma criança. Como eu queria ver a mamãe, também... Mas eu já estava recebendo mais do que qualquer um dos meus amigos, não devia ser gananciosa. Principalmente depois do vazio deixado pela perda de Ana, alguém que eu nunca imaginei perder, de uma forma tão fútil. Precisava ir depressa até o grupo também, e ver como estavam. Ao que parecia, eu era a nova líder agora, e seria responsável por todos enquanto estivéssemos ali na Fortaleza. Um lugar que mantivera minha família a salvo, não devia ser tão ruim. Seria engraçado apresentar o Carlos aos gêmeos. Talvez eles se tornassem amigos.

– Carlinhos, quer ir ver meus amigos, comigo? Eles devem estar se preparando para as boas-vindas sugeri, sorrindo.

– Claro, Vicky! Vamos lá! — Carlos puxou minha mão, e evidentemente mais habituado do que eu, guiou-me rapidamente até os Alojamentos.

O sol estava no meio do seu caminho, anunciando a tarde quando chegamos às portas dos Alojamentos. O lugar era enorme, e cheio de pequenas janelas de vidro, com mais de cinco andares. Maior do que qualquer outro dos prédios cercados pelos muros, que por si só, eram como gigantescos colossos de pedra, abraçando o lugar. A ilha era menor do que eu pensara, mas nem por um milímetro menos grandiosa. Imaginei o dinheiro investido pelo poderosos do país, num lugar à prova de desastres como aquele. Estava explicado para onde metade do dinheiro roubado tinha sido direcionado. Isso se a metade fosse tanto. Cinco ou seis Fortalezas poderiam ser erguidas, com o dinheiro desperdiçado pela corrupção da política brasileira. Ao menos ali, havia a mão da Keiko Entreprises, e de homens como o meu pai. Os dois sentinelas de guarda deram um passo para o lado, permitindo nosso acesso ao Alojamento, quando atravessamos a porta automática de vidro blindado. A garota que trabalhava para o meu pai, Valentina, estava encostada no balcão de uma pequena recepção. A irmã de Matias sorriu levemente, apenas o suficiente para ser educada. Seu rosto estava grave.

– O que houve, Valentina? Algum problema? Nossa prisioneira atacou algum sentinela? — Não tinha ideia do que Irma era capaz. Eu não conhecia a mulher. De todo modo, Valentina dispensou minha suposição, com um gesto de mãos.

– É um dos seus, Victoria. Ele teve um pequeno problema, e foi levado para a Enfermaria. — Ela passou a mão pelo rosto, secando um suor inexistente. — O menino que foi envenenado, ainda não peguei o nome...

– O Hugo. Ele ainda não está bem. Obrigada por cuidar dele ela sorriu, aproximando-se alguns passos.

– Disponha. Vocês também protegeram os nossos. Obrigada por manter a Helena segura. Nunca me perdoaria se algo acontecesse com ela. Não depois de termos brigado pouco antes de ela aceitar partir com Faye. — Valentina estava sendo sincera. Provavelmente já percebera que tratar bem a filha do chefe, era um bom negócio. Ou estivesse apenas sendo amigável.

– Imagine. Ela é uma de nós, agora sorri, pegando na mão dela, afagando de leve. — Protegemos os nossos, e vamos proteger esse lugar também.

– Eu sei. Vocês parecem bem durões. Todo mundo está louco pra saber as atribuições de pessoas tão capacitadas. Alguns estão com medo de vocês, também. Nós da Defesa, garantimos que todos são legais. Avise ao seu grupo, que eu não quero estar enganada. — A voz dela era firme, mas não havia uma ameaça real em seu tom brincalhão. Apenas não simpatizei com seus modos controladores. — A ruiva está com os bebês dela, na Enfermaria também. Os pequeninos estão sendo hidratados e alimentados, assim como ela, que os teve há tão pouco tempo. Vamos garantir que estejam todos bem.

– Uau, vocês são bons nisso de prover necessidades. Nem sei como agradecer...

– Tenho certeza de que você encontrará um modo de retribuir nossa hospitalidade. Não se preocupe. Não funcionamos tão bem sem ajuda. — Valentina beijou a bochecha do meu irmão, piscou para mim, e saiu andando. O som de seus saltos ecoando no chão encerado, lembrou-me vagamente de Topázio e sua elegância natural. Por algum motivo, não me animei nem um pouco diante disso.

Notas finais
Hummmm... Dúvidas e mais dúvidas... O que será que a Fortaleza esconde? Nem de longe terminei de apresentá-la completamente, mas sinto que este ambiente particularmente desafiador para um autor como eu (imperativo), será como uma sacola cheia de gatos brigões. Não literalmente, é claro. Mas posso prometer que não roçamos nem a superfície desta geleira, que só vai ficar ainda mais intrigante... Deixem seus reviews, e sugestões/impressões. Vou amar! Beijos, e até o próximo! Kisses by DroppingPieces!