Quebranto.

31 Season Dois - Novos Rumos.


Notas iniciais
Enfim, o primeiro capítulo da segunda temporada, galera! Espero que gostem, e que faça jus a todo o apoio que recebi das pessoas incríveis que favoritaram, comentaram e me mandaram MP's de incentivo, com conversas maravilhosas sobre a fic, e o Universo Zumbi em geral. É sempre bom receber o apoio de vocês, com as reviews e toda a alegria que me passam por aqui. Boa leitura, espero que curtam, e que sobrevivam os melhores!

Carol.



O sol estava a pino, e o astro rei não parecia estar para brincadeira naquela tarde. Dois dias depois de termos deixado o Trocado para trás, víamos à nossa frente o primeiro sinal de vida amistosa. As horas anteriores estavam marcadas por apreensão e muito silêncio, pelo menos no carro onde eu estava. Jonas cochilava sereno ao meu lado, enquanto Julia olhava pensativa para fora da janela, o queixo apoiado na mão. Saulo, apesar dos olhos cansados e do suor que umidificava seu rosto, permanecia firme ao volante, sempre nos transmitindo calma e confiança. Eu estava realmente enfadada, curiosa para saber o que se passava entre os outros grupos, e louca para ter algum tipo de conforto ou paz muito em breve. Viajar por ruas e vielas onde qualquer coisa que se movesse seria uma ameaça cansava qualquer tipo de esperança que eu estivesse alimentando até ali. Estava grata por termos sobrevivido àquelas terríveis quarenta e oito horas, dentro das quais eu mantivera-me desperta e atormentada. Apenas Saulo havia me feito companhia, tão alerta quanto eu própria. Era incrível como todos podiam julgar-me frágil e fútil, no entanto eu podia afirmar que surpreenderia a todos os meus amigos. E não exatamente de uma forma positiva, já que eles insistiam em manter seus códigos moralistas e hipócritas, quando o mundo já estava na merda há muito tempo...

Nossa caravana havia parado por duas horas na noite anterior, para que os motoristas pudessem dormir. Saulo recusara-se veementemente, e por fim Julia deixou-o desperto, indo encolher-se com seus cobertores. Fazia um frio nem um pouco característico do Rio de Janeiro, visto que segundo o calendário mantido por Mozart em seus cadernos e papéis, estaríamos em setembro, época da primavera. Época inclusive, que parecia mais um prólogo do verão, do que uma estação distinta. Havíamos sido todos acercados por um pequeno grupo de zumbis, que foram eliminados facilmente por Jonas, quando ele desceu do nosso carro. Apenas sete cadáveres reanimados, em um estado de putrefação tão avançado, que já lhes corroia a pele em áreas mais frágeis, incluindo o rosto. Era mesmo difícil identificar eram criaturas masculinas, ou femininas. O Inumano havia caminhado rapidamente entre as criaturas, lacerando-as com golpes certeiros na cabeça, tendo sua força potencializada pelo pé de cabra em sua mão. Logo os monstros foram aniquilados, sob os uivos de incentivo que partiam da ambulância, onde as crianças vibravam como se assistissem a um reality show.

Aqueles gêmeos provocavam-me arrepios. Agiam hora de maneira angelical, ora de modo sádico. E eu nem mesmo gostava muito de crianças. Tensa, havia acompanhado com o olhar cada movimento dos braços firmes de Jonas, que urrava animalescamente a cada golpe executado. Confesso que a expressão em seu olhar era ao mesmo tempo, sensual e provocativa. Ao menos para mim, que tinha um fraco por qualquer homem bonito. Não posso dizer que me sentia realmente atraída por ele, não emocionalmente, mas havia algo em potencial ali... E pensando friamente, com a perda de Luca eu estava definitivamente desprotegida entre meus amigos. Mesmo que a maioria gostasse de mim, todos tinham suas próprias preferências, e eu certamente seria deixada de lado, caso qualquer um deles tivesse de escolher alguém para salvar, e outro para abandonar aos mortos. Eu estava sendo uma cadela? Sim, mas bem, era dessa forma como me viam há muito tempo, não seria uma grande mudança. Além disso, Jonas não precisaria saber que eu estava me aproximando dele por interesse. Ele também sairia ganhando com aquilo tudo, já que eu era assumidamente a mais gostosa entre as mulheres do nosso grupo. E já que eu era a egoísta, traidora e frígida patricinha, faria jus ao nome. Poderia muito bem usar o homem mais forte e apto a sobreviver do nosso grupo como escudo, e descartá-lo caso fosse extremamente necessário. O cara havia conseguido salvar Victoria de uma horda inteira de necrófagos meses antes, certamente seria útil tê-lo ao meu lado, mesmo que não fizesse muito o meu tipo.

Depois daquele pequeno incidente, eu tentara dormir por alguns minutos, mas pesadelos com Luca tentando estrangular Victoria com um olho branco e outro preto, assombravam meus momentos de descanso. Frustrada e aborrecida pelo mau-humor característico dos privados de sono, eu ainda assim forçara alguns sorrisos para Jonas, que parecia sempre refeito e pronto para matar alguns monstros se necessário. Sua disposição e resistência chegavam a me irritar um pouco, devo confessar. Alcançamos a praia do Peró após desviarmos rapidamente de uma pequena galeria comercial conhecida como Rua dos Biquínis (por vender itens de banho de praia e souvenires da região), que estava menos infestada do que esperávamos, já que a maioria das pessoas devia ter tentado alcançar o centro da cidade, deixando aquela área relativamente segura e livre de infectados. Alguns minutos depois, fomos levados até uma estradinha de terra, ladeada por uma vegetação vasta e alta, capaz de ocultar um humano adulto, em seus emaranhados. Plantas xerófilas e capim seco também se espalhavam adiante, levando minha visão a diversas dunas de areia branca que começavam a anunciar a praia em si. Nossa caravana ficou um pouco mais lenta por causa do solo acidentado e esburacado, logo se aproximando de um antigo estacionamento improvisado, numa área plana de areia artificialmente batida, situada pouco antes de uma série de quiosques lacrados. Não havia sinal dos comerciantes que antes, passavam seus dias sob o sol escaldante, atendendo à população e turistas que visitavam a bela praia diariamente.

— Nosso acampamento fica mais pra dentro da praia, em um dos quiosques maiores. Dormimos dentro da cabana de madeira, e barramos um pouco da areia ao redor. Nosso maior trunfo era a ausência de qualquer pessoa por aqui, mas estávamos bem mais vulneráveis do que no Trocado. Nossos amigos que ficaram para trás foram deixados à própria sorte, e me sinto culpado por não ter voltado antes. Eles podem estar mortos agora... Já faz tanto tempo... — lamentou-se Saulo, claramente tenso. Nosso veículo liderava a caravana, e todos os outros estacionaram atrás, aguardando uma orientação dele.

— Você não tem culpa, irmão. Ficamos pela primeira vez seguros, desde que saímos de casa. Eles concordaram em esperar aqui. Na verdade, os quatro tinham medo de voltar à estrada. Se algo lhes aconteceu, não é culpa sua. Você respeitou a decisão deles, afinal. Deixamos muitos suprimentos para que não precisassem sair, devem estar bem. Vamos buscá-los, e depois partir para o Centro de Refugiados em Búzios e então vamos ficar em paz, finalmente. — Julia pegou a mão de Saulo entre as suas. Ela parecia serena, e determinada. Invejei sua energia, já que minha enxaqueca só me permitia pensar em uma cama macia. Com muitos travesseiros confortáveis e limpos, é claro. Daria um membro por tal descanso.

— Vamos descer, e verificar a área da praia — ofereceu-se Jonas. — Temos que ter certeza de que é seguro sair.

— Certo. Vamos lá. — Saulo abriu a porta do motorista, descendo do veículo junto com Jonas, que bateu a porta enviando ondas de dor pela minha cabeça já dolorida. Bufei com a dor.

— Está tudo bem, Carol? — indagou Julia, sorrindo.

— Tudo péssimo, Julia. Minha cabeça está estourando. Juro que se alguém der um grito, cuspo meu cérebro fora... — resmunguei, e ela acenou em resposta, numa compreensão muda.

Sob os raios de sol, vi alguns dos outros descendo do veículo também. Victoria e Diogo davam as mãos do lado de fora, ao junto de Ricardo, Eloá e Sabrina. Os membros mais fortes e capazes de nosso grupo, ou como assim se julgavam. Havia um acordo não dito sobre quem era capaz entre nós, ou não. Aquilo me deixava furiosa, porque eu poderia muito bem lidar com aquela realidade obscena tão bem quanto todos. Só era esperta demais para não me arriscar como uma heroína cinematográfica, portanto era subestimada pelos outros. Atenta, fitei-os enquanto desapareciam sobre a inclinação que dividia a duna do estacionamento. Chiando como uma cobra, estalei a língua e abri a porta. Ouvi Julia tentando se opor, mas com um gesto, dispensei seus comentários. Pisando firme, senti meus All-Stars de cano longo afundando na areia. O vermelho forte ficou sujo pela areia branca, só que a sensação do sol queimando minhas coxas expostas pelos shorts jeans curtos, compensava meus transtornos com a caminhada.

O grupo de busca seguia um pouco mais afastado de mim, e vi Ana tentando sair do Uno, sendo impedida por Madeline. Agradeci, já que eu não estava com vontade de compartilhar nada naquele momento. Quando finalmente vi a praia, suspirei saudosa. A brisa recheada de maresia trazia o cheiro de sal à minhas narinas, provocando uma nostalgia gostosa. Corri na direção da água, pronta para tirar os sapatos e dar um mergulho. Não havia reparado no grito de Victoria, até que senti mãos firmes me agarrando pelos ombros, e jogando ao chão com violência. Meus braços afundaram na areia molhada, arranhando-se de maneira ardida, extremamente desconfortável. Gemi de dor, enquanto o peso do zumbi impedia que eu erguesse o corpo completamente. Ele tentou me morder, mas bloqueei seus avanços com minhas mãos ao redor de seu pescoço. Um estampido ecoou na manhã fria, e o corpo definitivamente morto do errante caiu ao meu lado. Ele parecia um homem de meia idade, com cabelos ralos e loiros, e a expressão maltratada pelo sol, além de ressequida pelo sal. De olhos arregalados e coração descompassado, vi todos se movendo em câmera lenta, enquanto o barulho do tiro dado por Diogo atraía mais zumbis que haviam se desgarrado das hordas, e perambulado até a praia atrás de sobreviventes incautos. Um cadáver reanimado ergueu-se inteiro da areia, coberto pelos grãos como se houvesse sido polvilhado. Jonas furou-lhe um dos olhos com o pé de cabra, se aproximando de mim com urgência.

— Você está bem? — ele insistiu, sacudindo-me pelos ombros. Ele tinha uma das mãos em meu rosto, e outra segurando meu braço. — Responde Carol!

— Estou sim, obrigada — ri de volta, olhando ao redor. Saulo quebrou o pescoço de um zumbi, enquanto Eloá disparava contra uma mulher reanimada, sem um dos braços.

Logo a beira da praia estava limpa, e não se podia ver nada no horizonte. Ao notarem que nada nos ameaçava, todos começaram a me olhar com reprovação escancarada. Ricardo parecia querer meu baço no café da manhã, enquanto Victoria parecia se recuperar do susto do ataque. Preferi ficar quieta, apenas para não entrar em algum conflito desnecessário. Divisei o quiosque protegido pelos amigos de Saulo, e notei o modo como ele parecia sombrio, fitando o necrófago que me atacara.

— Esse era o Érico. — ele falou, por fim. Um de seus amigos, então. Suspirei, compadecendo-me dele, mas então vi três pessoas saindo do quiosque que eu observava.

— Estão todos bem? Ninguém infectado? — gritou Ricardo, acenando com os braços.

— Olha pra cara deles, Rico. Parecem infectados? — debochei, ironizando.

— Melhor você ficar quieta, Carol. Vamos conversar depois. — ele respondeu-me, seco. Revirei os olhos em resposta, recebendo um olhar raivoso de Vicky. Então estavam todos contra mim? Ótimo.

Conversamos com o trio de sobreviventes, e eles contaram-nos que o tal de Érico, havia enlouquecido. Surtado, ele tentara sair das dunas a pé, e alcançar a cidade. Seus motivos eram ocultos aos outros. Ele não havia nem passado da praia. Fora mordido no tornozelo pelo zumbi sob a areia, que o derrubara. Sem arma de fogo para que pudessem livrá-lo daquele estado, haviam simplesmente aguardado que Saulo regressasse. Estavam vivos Dimas, Gabriel e Clara, uma ex-freira. Ex, porque ela e Dimas haviam se envolvido durante o Apocalipse. Seus cabelos rentes ao couro cabeludo revelavam uma beleza singular, de traços ao mesmo tempo felinos e africanos. Ela era muito bonita. Gabriel era um garoto, mais jovem do que eu, Victoria, Ana e Otto. Ele tinha apenas dezesseis anos. Era bonitinho, com cabelos negros caindo sobre os olhos, embora parecesse frio e indiferente. Dimas era um pouco mais amigável. Tinha olhos castanhos muito claros, e uma expressão amistosa, quase gentil demais para alguém que havia passado semanas, isolado em uma cabana. Desconfiei de cara, já que aquele grupo tinha trazido com eles alguém como Arlindo, por exemplo.

No dia seguinte, depois de terem retirado alguns engradados com garrafas de água mineral de dentro do quiosque, além de algumas garrafas de destilados e cerveja, seguimos em direção a Búzios, fugindo da praia que começava a reunir mais zumbis, aos poucos. A lentidão deles, e a ausência de animais modificados, haviam sido trunfos providenciais, em nossa situação. Otávio e Julia haviam decidido seguir o restante da viagem juntos, e para meu prazer, a garota sem sal havia saído da Doblô, e Madeline assumira seu lugar. A senhora era uma companhia muito mais agradável, além de bem mais silenciosa. Saulo havia ficado enciumado a princípio, mas aceitara a ideia de que sua irmã e Otto estavam transando. Até porque, não havia muito que se pudesse fazer para evitar tal coisa.

— Foi uma baita maluquice sair do carro daquele jeito, lá atrás. — começou Jonas, quando eu começava a achar que aquele assunto estava superado. Sabiamente, os demais passageiros do automóvel ficaram quietos, fingindo que não estavam ali.

— Eu só queria esticar as pernas — objetei. — Não é como se eu fosse fazer muita falta, caso acontecesse alguma coisa. Todos parecem fazer questão de me tratar como uma inútil, por aqui...

— Não diga isso. Você faria falta pra mim — disparou Jonas, no que Maddie olhou-me, surpresa. Interiormente, sorri com satisfação. Adorava ter meu ego inflado pelos homens.

— Você é um doce, Jonas. Não se preocupe comigo, ando tendo esses pensamentos mórbidos, porque não consigo dormir. — aleguei o que não deixava de ser a mais ridícula verdade.

Com o prosseguimento da viagem, em dado momento a van que levava Rico, Hugo, Diana e Fernanda, parou à frente. Nosso veículo era o último na fila da caravana, e não consegui distinguir o motivo para aquela parada tão repentina. O plano prévio que havíamos feito consistia em resgatar os amigos de Saulo (que agora ocupavam a ambulância e o Uno), e depois só pararmos quando a gasolina acabasse, ou chegássemos a Búzios. Não era uma viagem muito longa. A cidade ficava próxima de Cabo Frio, mas uma questão nova impedia que utilizássemos os caminhos usuais para o local. Os mortos vivos. Com eles na equação, mesmo jornadas curtas tornavam-se cansativas, e perigosas. E em nosso caso particularmente, longas também.

Remexi meu corpo no banco traseiro, quando ouvi o barulho de uma porta batendo. Curiosa, coloquei a cabeça para fora da janela, e vi Ricardo de pé do lado de fora da van, falando com nada menos que três motoqueiros, que haviam obrigado nossos amigos a pararem. Imediatamente comecei a achar aquela situação esquisita. Segundo Julia me dissera no Trocado, alguns dias antes, era comum encontrar bandidos e mercenários na estrada, o que só tornava as coisas mais difíceis ainda. O homem que falava com Rico tinha um rosto comum, uma barba por fazer negra, e marcas de expressão que o deixavam com aspecto bruto. Não dava para ver seus cabelos sob o capacete. Ele gesticulou com violência na direção da van, e Ricardo puxou a arma que levava da cintura. Tudo aconteceu rápido demais. Xingando um palavrão, alarmei todos que estavam próximos a mim, e que haviam perdido a cena. Um dos motoqueiros provocou um estrondo com seu motor, e acelerou na direção do fim da caravana. Logo depois, outro. Os dois pararam atrás do nosso carro, cercando a todos. Ricardo e o homem ainda trocavam insultos, ambos segurando pistolas ponto quarenta, prontos a atirar. Madeline fechou os olhos no banco da frente, e Saulo olhou para Jonas pelo retrovisor. Talvez os outros tivessem pensado o mesmo que eles, pois segundos depois, a porta do carona da camionete se abriu, e Victoria atirou contra um dos homens, acertando um deles na garganta.

Agonizando, o homem caiu de sua moto, enquanto o pandemônio se instaurava. Diogo saltou do veículo onde estava, enquanto eu me esforçava para identificar o que estava acontecendo. Haviam mais motos do que eu esperava cercando nosso grupo, e quando um deles tentou passar ao lado dos carros, foi derrubado violentamente por Jonas, que abriu a porta do banco de trás, acertando um deles em cheio. Logo, uma mulher com o rosto coberto pelo capacete começou a atirar contra os carros, e fui obrigada a me abaixar entre os bancos. Apenas ouvindo os estampidos, vi Jonas pular para fora da Doblô, indo atirar contra nossos adversários. Sua mira era precisa, devido ao vírus Inumano, e fazia estragos certeiros naquelas pessoas. Eu só desejava saber os motivos para aquela loucura toda.

— Eles querem roubar a comida! — alguém gritou.

— Acertei um deles! — a voz de Victoria ecoou. Madeline me olhava com terror, também abaixada. — Cuidado Eloá! Não! — Deus, o que teria acontecido? Eu não podia ficar parada!

Com dificuldade, chorei ao ser atingida por estilhaços da janela, que havia sido alvejada por um dos membros daquela gangue de ladrões. Ergui a cabeça, e vi que haviam corpos caídos ao redor do carro, mas ninguém próximo a mim naquele instante. O conflito se concentrava mais à frente, onde uma troca de tiros acalorada obrigava todos a se esconderem enquanto alguns de nós tentávamos contornar a situação. Fitando Maddie nos olhos, indiquei o volante a ela, com a cabeça. Ela anuiu, e se jogou de uma vez só contra ele. Agachada, posicionou-se sobre o banco do motorista, e ligou o veículo. Ao lado da estradinha de asfalto que ocupávamos, havia apenas grama e capim. O terreno parecia-se muito com aquele no qual eu havia sofrido meu primeiro acidente, com Luca ao volante, no início de tudo.

— Pronta? — perguntei, quando mais um tiro estalou no ar próximo à minha janela.

— Vamos lá! — concordou Madeline, acelerando a doblô.

Ela jogou o carro para fora da estrada, manobrando velozmente. Contornou a zona de conflito sob uma saraivada de tiros do adversário, e pude vislumbrar toda a questão. Havia um caminhão de porte médio parado no meio da estrada, bloqueando o acesso. Com um grupo de homens atirando de dentro dele, e outro cercando nosso grupo com motos, tinham o controle da situação. Nenhum dos nossos conseguiria sair sem ser alvejado àquela altura, enquanto Saulo, Ricardo, Diogo, Victoria e Eloá lutavam para contornar a situação. Mas estávamos em menor número, e as balas dos nossos amigos não eram infinitas. Somente uma alternativa veio à minha mente. Havíamos sido ignoradas pelos bandidos assim que o carro se ocultou sob o capim. Ao menos eu e Madeline poderíamos escapar, e o instinto de sobrevivência abria caminho por minha garganta, junto com meu egoísmo e auto preservação característicos. Houve um tempo, em que eu havia tentado me matar. Agora, eu mataria para continuar viva.

— Temos que detê-los — decidiu-se Maddie, antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Ela era louca?

— Eles são muitos! Nós duas não temos armas! O que vamos fazer? — refutei, desesperada.

— Vou jogar o carro contra aquele caminhão. Vou matar esses homens. Meu filho está lá, e não vou enterrar mais ninguém que eu amo! — esbravejou Madeline, sua expressão ferrenha sendo substituída por algo doce, quando me olhou com ternura em seguida. — Não pediria que fizesse esse sacrifício comigo, filha. Saia do carro, e deite no gramado. Quando tudo estiver calmo, peça ajuda.

— Tem certeza? — indaguei, sabendo que nada a demoveria daquela ideia. Não quando se tratava de Ricardo em vias de levar um tiro. Mesmo assim, eu estava chorando. Aquela mulher velha e bondosa, já vivera mais que qualquer um de nós, e estava determinada a morrer de forma honrosa, mas a morte era na verdade apenas algo estúpido e frio. Senti raiva por me emocionar, mas sabia que seria inevitável. Eu aprendera a amar aquela mulher.

Com um pedaço da alma a menos, saí do carro e me joguei sobre o gramado, sentindo o impacto contra meus seios. Uma cortina de fumaça densa subiu, quando Madeline acelerou o veículo, e lançou-o na direção do conflito. O mundo ficou parado por um segundo. Então um estrondo estremeceu o solo embaixo de mim, e ameaçou estourar meus tímpanos. Muitas pessoas gritaram quando uma explosão subiu aos céus, violenta. Minhas lágrimas escorriam pelo meu rosto, enquanto cinzas voavam por toda a parte. Levantei-me torpemente, seguindo aos tropeços na direção da batida. Não havia nada que lembrasse uma Doblô no emaranhado de ferragens e fogo que ganhava a estrada com seu calor e pujança. Haviam pessoas caídas por toda a parte, e reconheci meus amigos entre elas. Com alívio, percebi que estavam todos bem. Corri na direção de Victoria, e a ajudei a se levantar. Havia um corte em sua testa, mas ela parecia lúcida.

— O que foi isso? — indagou confusa.

— Madeline — volvi, categórica. Ela abriu os lábios numa expressão perplexa, e puxei a faca atada à sua coxa, ao notar que um motoqueiro caído próximo de onde estávamos ainda se mexia. De uma vez só, empalei o objeto contra o moribundo. O homem rugiu quando a faca perfurou seu coração através do osso, e senti o impacto machucar os músculos de minha mão, embora estivesse satisfeita.

Todos começaram a se levantar quando os efeitos do impacto passaram, mas notei que a morte de Madeline ainda não fora realmente percebida. O fogo agora bloqueava toda a estrada, embora a ameaça dos bandidos estivesse claramente liquidada. Meu coração acelerou ao perceber que um dos carros não estava mais lá, nem a ambulância. Alguém entre nosso grupo havia pensado que deveríamos nos separar quando eu e Madeline tiramos nosso carro da estrada primeiro, e haviam seguido o exemplo. Agora, estávamos todos mais vulneráveis. Victoria ajudou Eloá e Ricardo a se erguerem, enquanto Jonas apoiava Diogo, com o corpo coberto de sujeira e fuligem. Havia cinzas em meus cabelos, e uma dúvida perturbadora. Onde estariam todos?

Aquela viagem não estava saindo nem um pouco como o planejado, e estávamos apenas começando...

Notas finais
'1Alguém arrisca algum palpite? O que vai acontecer agora? O que acharam do capítulo? Mais alguém triste pela Maddie? #LUTO. Espero que tenham gostado do capítulo, semana que vem tem mais! Beijos a todos, e peço que comentem, porque AMO saber o que estão achando. Até a próxima, e obrigado a todos que estão lendo! Kisses by DroppingPieces! Obs: A parte sobre postar uma vez por semana, é brincadeirinha, viu? Até domingo sai o próximo capítulo, hehehe...