Quebranto.
32 O Fio de Ariadne.
Notas iniciais
Para todos os apressadinhos, mais um capítulo: Boa leitura, e espero que gostem.
OBS: Cenas tensas na última parte. Preparem os lenços de papel.
Victoria.
Eu não podia acreditar que Madeline estava morta. Mesmo que eu pudesse ver, sentir e cheirar o fogo e a fumaça que invadiam o mundo naquela colisão terrível que explodira a Doblô e o caminhão daqueles ladrões de estrada de uma só vez. Ainda tonta pelos efeitos do acidente, senti-me grata por Carol estar viva, embora eu admirasse a sorte dela, por não ter sido atingida pelos disparos. Vi meus amigos se levantando, depois de levar um susto quando Carol empalou um dos bandidos no peito. Ela fora determinada, e fria. Com certeza ainda teríamos algumas surpresas sobre ela.
Só quem vai se surpreender são vocês. Eu sei bem que tipinho ela faz. Se fosse por mim, já tinha resolvido os SEUS problemas com ela. Ah, viu só como foi fácil escapar dessa sem mim? É bom ir se acostumando, já que eu não planejo aparecer tão cedo...
Irritei-me profundamente com o comentário inoportuno de Nora. Aquela presença em minha cabeça, a princípio amiga e defensora, agora estava se tornando uma espécie de parasita indesejado. Era muito injusto que eu fosse obrigada a me confrontar com uma parte de mim mesma todos os dias, sendo privada de qualquer privacidade. Aquilo estava começando a me tirar a paz, e eu me sentia cansada. Com medo de preocupar Diogo e meus amigos, fingia constantemente que estava exatamente como eu sempre fora, mas desde o encontro com a Inumana loba, algo havia se quebrado dentro de mim. Como se eu estivesse sob os efeitos de um intenso quebranto, não conseguia me livrar da sensação de que algo mal pesava em meus ombros. Eu estava ficando cheia de defeitos, e não eram do tipo que se curariam com alguns comprimidos. Era algo em minha alma, que eu teria de resolver cedo ou tarde.
Mas por enquanto, havia coisas bem mais urgentes a serem resolvidas. Tanto a ambulância quanto o Uno haviam saído da estrada, e a van e a camionete jaziam, alvejadas por alguns tiros, embora não fosse possível saber se alguém havia sido atingido. Nervosa, agarrei o braço de Diogo quando ele chegou perto o suficiente de mim. Apalpei seu rosto, e seu corpo em busca de algum ferimento. Ele fez o mesmo comigo, num gesto puramente instintivo. Beijamos-nos com uma força capaz de ferir os lábios, apenas empurrando o meu contra o dele. Depois nos separamos, quando as portas da van que Ricardo dirigira antes do conflito abriram-se. Fernanda tinha os olhos cheios de lágrimas, e apoiava um Hugo extremamente pálido. Meu peito gelou. Ele não. Como numa visão infernal, vi seu braço coberto por uma mancha rubra, que descia em cascata por todo o membro. Ele havia sido atingido por um dos tiros. Diana desceu em seguida, os cabelos Chanel voando ao redor do rosto. O sol começava a se por, e senti a luz diminuindo na estrada, enquanto me aproximava de Ricardo, que havia sentado no asfalto, chorando a perda da mãe, enfim notada. Carol estava ajoelhada ao seu lado, chorando também. Jonas estava de pé atrás dela, a expressão fechada em luto. Eloá e Saulo olhavam em todas as direções, sem parar, em busca de alguma ameaça.
Ao ver o estado de Hugo, Rico chorou mais ainda, lançando-se contra o namorado num desespero dolorido. Senti que estava chorando, embora não sentisse as lágrimas em meu rosto. Meus batimentos estavam acelerados pela emoção, e havia uma espécie de dor que comprimia minha garganta, como se um nó se formasse ali. Diogo tocou meu braço, e apontou a área repleta de vegetação, com a cabeça. Ele queria que investigássemos o lugar. Assenti, deixando meus amigos em sua dor, ciente de que se alguém entre nós poderia fazer algo por Hugo, era Tânia, e ainda teríamos que achá-la. Ao lado de Diogo, descemos o gramado aposto ao lugar de onde Carol viera. Ela teria visto, se alguém tivesse ido para lá. Naqueles momentos de extrema pressão, eu não havia me dado conta, que os corpos dos primeiros bandidos mortos a tiros, não estavam mais na estrada. Levei um susto horrível, quando vi um grupo de quase dez zumbis, cercando a ambulância enquanto nos aproximávamos sem fazer ruído algum. Parecia haver algum timo de comoção dentro do veículo, com pessoas movendo-se caoticamente. Alguém parecia querer descer da ambulância, enquanto outros tentavam impedi-lo.
Ansiosa, pisei em um galho seco, emitindo um som estalado que atraiu a atenção de todos os mortos vivos. Diogo olhou pra mim com um sorriso sarcástico, e revirei os olhos antes de me lançar contra as criaturas. Sem Nora, eu não era tão coordenada, ou letal. Ainda assim, havia aprendido muito nos últimos meses. Com um golpe preciso, acertei um chute no queixo de um zumbi idoso, que caiu de costas, o pescoço já quase que totalmente decomposto, quebrado pelo impacto. Destravei minha arma rapidamente, destinando cada uma das quatro balas restantes, à cabeça de um zumbi. One shot, one kill.
Diogo era incomparavelmente melhor do que eu. Sem nem tocar sua arma, ele socava e derrubava um errante, empurrando outro com o ombro ao mesmo tempo. Ele desviava os membros do corpo praticamente antevendo os ataques das criaturas. Outra delas avançou para mim, e deixei de olhar o modo como ele matava os monstros. A mulher de meia idade tinha cabelos loiros e crespos caindo de um lado da cabeça, enquanto o outro exibia um escalpe causado por mordidas. Caminhei de costas, sem tirar os olhos dela, enquanto a criatura rosnava e se agachava, raivosa. Ela tentava se aproximar de mim, cuspindo uma espécie de baba sangrenta nojenta. Abri um sorriso, e busquei a faca atada à minha perna, apenas para lembrar que Carol havia pegado emprestada. Xinguei de raiva, antes de ser surpreendida por outro dos necrófagos, que tinha contornado a ambulância. Era ridículo como eu não esperara por aquilo. A Lei de Murphy, realmente, regia a minha vida. Fui derrubada pelo bicho, caindo de frente na areia. Aquele era um dos bandidos, reanimado. Seu capacete havia saído durante o confronto, e pude reconhecer um garoto, de aproximadamente quinze anos. Gritei a plenos pulmões quando os dentes dele se fecharam contra o meu ombro, arrancando um pedaço da minha jaqueta de couro, e outro de mim. A loira também se aproximava, e quase me vi pedindo ajuda a Nora.
Se você morrer, eu morro. Só queria ver até onde ia sem mim. Mas já que não tivemos uma grande surpresa, com licença...
Oprimida, a senti abrindo caminho em minha mente, com uma dor de cabeça que adormecia meus sentidos. Com o ombro latejando, forcei o errante a sair de cima de mim, com o cotovelo. Ainda assim, senti meus olhos arderem enquanto eu lutava para me manter no controle. O que não seria necessário, já que Diogo logo surgiu, atirando nas duas criaturas com uma expressão que seria capaz de assustar até mesmo os mortos. Ele estava furioso. Ajoelhou-se ao meu lado, e rasgou a própria camisa, revelando um pouco dos músculos definidos, atando o pedaço de pano ao meu braço em seguida. Era óbvio que eu não me transformaria, mas ainda podia morrer de infecção por causa de um ferimento como aqueles. Só agradecia por não ter sido muito grande, como o que me transformara em Inumana, um tempo atrás. Eu ainda tinha a cicatriz no braço, para recordar.
— Malditos... – cuspiu Diogo, analisando o meu ferimento. Eu sorri, e afaguei seu rosto.
— Sou de titânio, lembra? Nada pode me tirar de você, bobão. – ele forçou um sorriso, mas estava preocupado.
— Certo, Mulher-Maravilha. – riu-se. – Vamos ver se estão todos bem.
Batemos nas portas da ambulância, avisando que tudo estava limpo do lado de fora. Logo, Tânia saiu do veículo, acompanhada de Vilma, Dino, Mozart, Clara, Gabriel e Dimas. Pareciam todos intactos, já que a ambulância só havia sido alvejada na parte frontal, e em regiões que não representariam perigo real. Provavelmente, os bandidos queriam preservar o veículo, temendo prejudicar o motor gravemente, ou destruir algum recurso médico de importância. A expressão no rosto da enfermeira era urgente. Os gêmeos tinham as bochechas avermelhadas, e pareciam um pouco irritados. Percebi então, que haviam sido eles quem tinham tentado sair da segurança do furgão, para lutar com os zumbis. Dei uma risada interior, imaginando o quê eles fariam caso conseguissem sair. Com um calafrio, lembrei-me de quando os dois haviam atirado na cabeça do próprio irmão, que havia sido infectado. De repente, não me pareceu mais uma boa ideia testar do que aquelas crianças seriam capazes.
— Está tudo bem, Victoria? Oh, Deus! – Tânia praticamente surtou quando viu meu ferimento. Saiu correndo na direção da ambulância, para buscar um kit de curativo. Clara parecia assustada, abraçada com Dimas. Eu achava aqueles dois bonitinhos juntos, até combinavam. Mas ainda não sabia se confiava em nenhum deles. Nem no garoto, Gabriel.
— Você teve sorte. Podia ter sido mais sério. – comentou Mozart, o mais sereno dentre todos. Eu gostava dele gratuitamente, apreciando o jeito simpático e calmo do jovem. Ele chegava a tornar-se mais bonito do que realmente era devido ao seu jeito agradável. – O que foi essa explosão? Quando Tânia saiu da estrada, perdi totalmente a noção do que estava acontecendo.
— Madeline jogou o carro contra o caminhão dos ladrões. – contei. Tânia havia retornado, e escancarou a boca, chocada. – Não sobrou nada. Tanto o caminhão quanto a Doblô explodiram. Tem motos por toda a parte, ainda. Talvez possamos tirar a gasolina delas. – desviei o assunto, reprimindo a vontade de chorar.
— É uma boa ideia. – concordou Saulo, adentrando a área gramada, ao lado do restante de nós. Ainda não havia sinal do Uno, onde Sabrina, Ana, Otto e Julia estavam. Ricardo trazia Hugo no colo, o menino havia desmaiado devido à perda de sangue.
— Tânia, me ajuda, por favor! – implorou Ricardo, chorando como uma criança.
— Leve ele para a ambulância! – ordenou a enfermeira, enquanto limpava meu ferimento com um algodão embebido em álcool. Eu gemi de dor. – Diogo, continue o que eu estava fazendo. Depois de improvisar com o álcool, passe o soro fisiológico que eu trouxe. Sabe fechar um curativo com gaze e esparadrapo? – ele fez que não com a cabeça.
— Eu sei Tânia. Pode deixar. Já cuidei do furúnculo de um dos meus irmãos, uma vez... – ofereceu-se Nanda, e a mulher agradeceu, retirando-se na direção do furgão.
Com as portas abertas, Tânia cortou a blusa de Hugo com uma tesoura, rapidamente. Todos podiam acompanhar o procedimento, e eu estava realmente aflita. Como Ricardo devia estar se sentindo? Perdera a mãe e corria o risco de perder a pessoa que amava, ao mesmo tempo. Eu não desejava isso para ninguém. Diogo terminou de limpar a mordida que eu havia levado, e Nanda começou a fechar o ferimento. Eloá e Saulo começaram uma ronda, fechando um perímetro ao nosso redor. Tânia suturou o ferimento de Hugo, que fora descoberto como um tiro de raspão na curva entre o pescoço e o ombro. Podia ser algo realmente grave, mas após ter sido estancado o sangramento, Tânia percebeu que nenhuma artéria ou veia importante havia sido comprometida. Tratava-se apenas de uma laceração profunda na pele, mas que não alcançara de todo a musculatura, permitindo assim que o corte fosse fechado com pontos improvisados. Hugo desmaiara apenas devido à sua pressão arterial baixa, fator que Ricardo divulgou assim que Tânia começara o curativo. Diana insistiu que um pouco de sal fosse colocado sob a língua do rapaz, e a enfermeira assim o fez. O sono também livrara o rapaz da dor de levar os pontos, e com uma dose de sorte na equação, ele ainda dormia de maneira estável, após ter sido socorrido e amparado da melhor maneira possível. Ele ainda teria muito a enfrentar, quando acordasse e descobrisse a morte da tia que o adotara.
Conforme o tempo passava, e nossos amigos não retornavam, todos iam ficando cada vez mais tensos. Carol havia insinuado que seria melhor seguirmos viagem sem eles, sendo prontamente ignorada por todos. Às vezes o modo como ela tratava as situações coletivas de maneira puramente individual, me deixava profundamente aborrecida. A aproximação dela com Jonas me incomodava um pouco, também. Não que eu tivesse algum direito de sentir ciúmes dele, depois de ter me negado a aceitá-lo como algo mais do que amigo. Mas eu me importava com o homem que me impedira de ser devorada viva. E não desejava que ele fosse usado por aquela que um dia, havia sido minha melhor amiga. Era difícil reconhecer a garota que eu considerara uma irmã, na Carolina de agora. Muito difícil. Ricardo estava sentado ao lado da maca onde Hugo fora deitado, dentro da ambulância. Como nosso líder, todos esperavam que ele se pronunciasse sobre o ocorrido, mas ninguém arriscava exigir dele mais do que podia dar. Com a cabeça entre as mãos, ele chorava em silêncio. Fernanda estava sentada na grama comigo, mas levantou-se e caminhou em direção ao ferido, beijando-lhe a testa. Ela sentou-se ao lado de Ricardo, e conversou com ele por alguns minutos. O homem chorou ainda mais, abraçando a ruiva.
Todos estavam olhando para a garota, que sofrera mais do que a maioria de nós, e resistira tão doce quanto antes. Ninguém duvidava, contudo, de que ela pudesse ser feroz, depois de ver o modo como executara a sentença de Arlindo. Agora, ela retirava seu crucifixo de prata do pescoço, e o segurava entre as mãos, rezando por Madeline, e pela recuperação de Hugo. Um Pai Nosso fervoroso foi ouvido contra o pudor da noite que se aproximava. Delicadamente, Clara se aproximou da jovem católica, e a acompanhou em suas orações. A ex-freira citou uma das passagens da Bíblia, e por fim, Ricardo ganhou forças para deixar a ambulância com as fiéis, fechando a porta atrás de si. No meio da estrada, dezessete pessoas perguntavam onde estariam os quatro amigos perdidos.
— Precisamos procurar por eles. – disse Diogo, quando as opiniões começaram a divergir sobre esperar a noite passar, ou não. – Não faz diferença se é noite ou dia. Mesmo que o sol frite os desgraçados, eles continuam tão ativos quanto no frio. Todos já vimos isso. E quanto aos animais, vamos encontrá-los de qualquer jeito. E quanto mais tempo esperarmos com esse fogo e essa fumaça subindo, mais chance deles virem atrás de nós. Passar a noite aqui só vai diminuir nossas chances de sobreviver.
— Eu concordo com ele. – admitiu Ricardo, cansado. – Não vou permitir que a morte da minha mãe seja em vão. Ninguém aqui é ingênuo. Todos sabem que eu não estou no meu estado perfeito. Sugiro que sigam o que Diogo disser por enquanto. Ele e Victoria assumem até eu me sentir melhor. Não consigo pensar em nada além de Hugo, agora... – afastando-se de nós, nosso líder mirou a lua crescente com seus olhos claros. Agradeci pela luz do satélite natural, que permitia que divisássemos os rostos um do outro. A luz do fogo próximo, também permitia certa orientação.
Depois de acertados os detalhes finais, ficou decidiu que eu, Saulo e Diogo iríamos atrás dos perdidos. No comando até que retornássemos Eloá e Jonas fariam o possível para manter todos seguros. Pegamos a camionete na estrada, enquanto Diana tirava a van de perto do fogo, manobrando-a para perto da ambulância. Seguimos o rastro que Diogo havia percebido entre a vegetação amassada, dirigindo o mais lentamente possível, em meio às plantas cada vez mais densas e altas. Um muro verde dividia o acostamento, que se tornava um gramado simples até chegar ao asfalto da estrada. Então, realmente não sabíamos o que poderíamos encontrar depois de cruzada a fronteira. Eu não queria deixar os outros sozinhos por muito tempo, mesmo que Jonas estivesse de olho neles. Tinha medo de que uma horda os encontrasse, o que não seria impossível.
Diogo continuou dirigindo por mais cinco minutos, até que a camionete saiu do emaranhado verde e encontrou uma espécie de trilha feita à mão pelos antigos moradores da região. O caminho seguia reto até um portal de madeira esculpida com boas-vindas entalhadas e pintadas de branco entre o marrom escuro. A placa dizia: Rancho Boa Estrada, o que era uma ironia colossal, considerando pelo que havíamos passado naquele lugar. A porteira da propriedade privada havia sido arrombada, o que só podia significar que nossos amigos haviam tomado aquele caminho. Pousei a mão esquerda na coxa de Diogo, num pedido mudo para que ele tivesse atenção. Saulo parecia nervoso ao meu lado, tenso provavelmente pela ausência da irmã. A camionete continuou seguindo, adentrando o rancho com muita cautela. Ao longe, era possível ver um pequeno laguinho entre dois montes de pasto, agora muito crescidos, já que os bovinos que os mantinham rentes ao solo, estavam mortos. Ao longe, era possível divisar uma propriedade grande, com telhas de barro vermelho, e paredes pintadas de um amarelo forte. Ao lado, um pouco mais distante da entrada, porém, havia uma capela de tamanho médio, pintada de azul claro. Uma imagem de Maria em tamanho real estava emoldurada sobre os portões de madeira reforçada, da pequena igreja. Uma escadaria de concreto enegrecido pelo tempo e pelo musgo levava ao interior do lugar. Vi um pouco de luz saindo de uma das janelas, e apontei o local silenciosamente. Diogo imediatamente virou o carro na direção que eu indiquei, e estacionamos em frente.
Descemos da camionete, preparando nossas armas para qualquer eventualidade. Saulo forçou a porta principal da igreja, que não cedeu. Então contornamos o lugar, até encontrarmos uma entrada menor, pelos fundos. Esta segunda porta era muito mais frágil, de madeira simples, e Diogo a arrombou com facilidade. Temi que o barulho nos causasse problemas, mas não parecia que alguém ali dentro havia percebido nossa presença. A lanterna que eu trouxera, escorregava em minha mão suada, enquanto eu apoiava a mão da arma sobre ela. Juntos, nós três entramos, e encontramos o que devia ser uma espécie de cozinha da igreja. Se nossos amigos não estivessem ali, eu não imaginava onde poderiam estar, já que não havia nada além daquele rancho no meio do fim de mundo em que estávamos parados.
— Se Sabrina assumiu o volante depois que Eloá saiu do carro, provavelmente eles estão aqui. – afirmou Saulo. – Ela é muito boa em escapar de situações difíceis, e em se esconder. Ela fez o mesmo com Ana, quando fomos resgatar você da Secretaria Municipal, em Cabo Frio. – contou-me Saulo, tranquilo.
— Você quer dizer que ela é boa em fugir e deixar os outros pra trás, você quer dizer... – rebateu Diogo, emburrado. – Sabrina é uma covarde, isso sim. Vou dizer isso a ela, quando encontrar a criatura. Obrigar a gente a entrar num lugar desses, escuro e cheio de aranhas... – reclamou.
— Você está com medo de que tenha alguma aranha aqui dentro? – indaguei, segurando-me para não rir. – Você tem aracnofobia! – eu disse, depois. – Ia cair duro, se visse o tamanho da aranha que eu, Jonas e Diana vimos nos esgotos. Coisa de filme de terror... – comentei.
— E nossa vida é o que, se não exatamente isso? – sussurrou ele de volta, quando saímos da cozinha e encontramos a área de transição entre a parte de trás da igreja, e o púlpito. As velas ali estavam acesas, e a luz nos alcançava precariamente, através das cortinas. Havia dois confessionários próximos, sem nada mais que fosse digno de nota.
Ainda atrás das cortinas, nós três começamos a ouvir um tipo de conversa. A voz alta de uma mulher ecoava pela igreja, mas não era possível dizer exatamente o quê ela estava falando. Parecia repetir o alfabeto, sem parar. A expressão no rosto de Saulo agravou-se, e tive certeza de que ele pensava o mesmo que eu. Tínhamos encontrado uma maluca, provavelmente alguém tão ruim quanto Lupa. Respirei fundo, ciente de que deveria evitar ao máximo precisar da ajuda de Nora. Eu não estava nem um pouco animada para entrar em outra briga, considerando que meu ombro ainda ardia por causa da mordida quem um motoqueiro zumbificado me dera. Diogo ergueu três dedos, e começou uma contagem regressiva muda. Quando sua mão fechou-se totalmente, irrompemos na direção dos sons, mirando em qualquer ameaça que pudéssemos encontrar. O que vimos nos espantou mais do que o esperado.
Uma mulher, de cabelos brancos e longos, andava de um lado a outro do púlpito, balbuciando o alfabeto em seu vestido de noiva. Sim, ela estava vestida de noiva, e quando nos encarou, trazia consigo um olho branco, e outro preto. Mais uma Inumana. Seu vestido de noiva estava manchado de vermelho em algumas partes, e havia sangue saindo de seu olho branco. Ela havia surtado. Ao ver-nos, ela começou a repetir o alfabeto ainda mais alto, e com uma fúria estarrecedora. Deduzi que seus cabelos haviam tornado-se brancos por causa da mutação, já que seus traços eram todos jovens e conservados. Mesmo raivosa, ela não nos atacou. Continuou caminhando de um lado a outro, seu tom de voz apenas mais elevado. Seu vestido branco esvoaçava a cada volta dada, e nada parecia capaz de impedi-la de conservar-se assim. Então, tomei um susto ao ter meu tornozelo agarrado por uma mão cadavérica. Com um esgar de surpresa, vi ninguém menos que o padre daquela capela, quase que totalmente devorado. Seu rosto era quase esquelético, e ele sequer podia se levantar, embora ainda desejasse devorar-me. Controlei a ânsia de vômito, e pisei em seu rosto com toda a força que pude reunir. A carne podre cedeu sob os meus pés, afundando o crânio apodrecido e encerrando a agonia daquela pobre alma. Minha bota esquerda ficou completamente melecada de sangue, e o impacto causou uma dor reverberante em meus ossos, que chegou ao meu ombro como um beliscão em minha ferida.
— Socorro... A gente tá aqui... – chamou uma voz distante, provavelmente alarmada pelo barulho na igreja. Era a voz de Otto. Sem pensar duas vezes, segui o som de seu chamado, apenas para perceber que ele não estava em parte alguma. – Aqui... Rápido. Atrás do altar... – correndo, ultrapassei as cortinas novamente, me aproximando dos confessionários. Batidas fracas vindas de dentro deles, denunciaram a localização de Otávio. Logo, as meninas começaram a gritar também. Abri a porta de um dos biombos, e ele caiu de joelhos à minha frente. Sabrina também estava com ele, esbaforida e com um hematoma no rosto.
Saulo correu para o outro confessionário, e Julia o abraçou apertado, após veio Ana, que se apoiou em Diogo. Todos eles pareciam terem sido vítimas de agressões físicas, apresentando marcas arroxeadas e vermelhas no rosto, nos braços, ou nos pescoços. Otto tinha inclusive os lábios cortados. Abracei-o com força, beijando seu rosto. Ele me apertou de volta, indo depois beijar Julia com calor e afeto. Os dois abraçaram-se, enquanto Sabrina buscava os lábios de Ana. As duas deram as mãos e se viraram para nos encarar, aflitas. Havia um pânico ali, que eu não conseguia compreender. Não sabia inclusive, como eles haviam sido capturados.
— Temos que sair daqui o mais rápido possível! – pediu Ana, nervosa. – Agora!
— Por quê? O que aconteceu? Onde está o Uno? – perguntou Saulo, confuso. Ele estava próximo de Julia e Otto, protetor.
— O carro onde estávamos está atrás da casa grande do rancho. Escondemos-nos lá, mas quando finalmente decidimos passar a noite e voltar pra estrada amanhã de manhã, a criatura que vive aqui nos sequestrou um por um, e trouxe pra cá! Foi horrível! Parecia que todos morreriam nessa igreja! – chorou Julia, angustiada.
— Não entendo. A noiva não fez nada com a gente, quando chegamos. Ela só ficou lá, repetindo o alfabeto, sem parar. Parece num transe eterno, coitada. – afirmei, estranhando a situação. Otávio agarrou o meu braço, com um olhar vidrado e ferido.
— Não é a noiva que representa perigo! – ele gritou. – É o noivo!
Como se aguardasse uma deixa, um homem monstruoso surgiu, saindo das sombras como um predador noturno. Vestindo um smoking preto, ele também trazia um olho branco, e outro negro. Parecia mais um cruzamento entre leão e ser humano, com sangue escorrendo por sua barba, e garras terríveis saindo de seus dedos das mãos. Os sapatos ausentes revelavam a presença de pés peludos e animalescos. A visão era assustadora. Seus caninos levemente afiados abriram-se num sorriso, e ele arranhou a parede com suas unhas, chocando-me ao mostrar o concreto curvando-se ante sua força. Senti Nora se atiçando em minha mente, enviando espasmos de perigo por todo meu corpo. Aquele não era um inimigo para enfrentarmos. Mas do qual, deveríamos fugir com todas as forças. Eu só queria ter tido tempo de dizer isso a todos. Saulo atirou contra o Inumano, e o que aconteceu depois, eu nunca serei capaz de esquecer. Com um salto cruelmente felino, a criatura enfiou as garras na garganta de meu amigo, inundando o chão sob a penumbra, com o sangue profuso. Julia gritou, eu gritei, e Ana chorou. Diogo tentou atirar contra o homem, mas foi surpreendido pela noiva, que, tirada de seu transe pelo estampido do revólver, revelava-se um perigo menor, mas também presente. Ela agarrou Diogo por trás, e Sabrina correu para ajudá-lo, os três rasgando uma das cortinas ao caírem sobre ela. O pano longo desvaneceu-se sobre as velas do altar, e começou a pegar fogo.
Em meio ao caos e o desespero, não fui rápida o bastante para impedir que o horror se alastrasse. Num estado de fúria, Julia atingiu Otto no rosto, impedindo-o de segurá-la. Então, arremessou-se contra o noivo infernal, enfiando um pequeno canivete que levava consigo, em suas costas. O homem, que havia se entretido lambendo o sangue de Saulo de suas mãos, virou-se para Julia, golpeando-lhe com as costas da mão, no rosto. Com três cortes profundos em uma de suas bochechas, ela foi lançada contra a parede, caindo de rosto no chão de ardósia, inerte. Otto gritou, e pegou a arma de Saulo, que havia sido derrubada. Começou a descarregá-la desajeitadamente contra o Inumano, caminhando alguns passos para trás com cada recuo que o revólver dava. Ana, em choque, estava encolhida em um canto, chorando sem parar. Ela havia aceitado a morte, e desistido de enfrentar a dor da perda, e do sofrimento. Agradecendo por ainda não ter sida notada pelo monstro que agora caminhava na direção de Otto, que não conseguira acertá-lo sequer uma vez, vi-me obrigada a fazer o que menos desejava, pelo bem de todos. Pedi ajuda a Nora. Implorei que, por tudo que fosse mais sagrado, ela me ajudasse mais uma vez. Mas ela não me respondeu. Uma risada borbulhando em meu estômago, denunciou seu descaso para com meus amigos. Ameaçando entrar em pânico, atirei contra a perna do noivo Inumano, que se preparava para perfurar Otávio com suas garras. Ele gritou de dor, e correu em minha direção. Meus reflexos foram menos rápidos que o meu medo, e fui arremessada, com cortina e tudo, na direção do púlpito. A segunda cortina que ocultava os confessionários desprendeu-se e enrolou-se sobre mim, enquanto eu rolava sobre os apetrechos cerimoniais da Santa Ceia. O Inumano riu alto, e continuou avançando para mim, glorioso.
— Eu sabia que esses quatro atrairiam outros. Já fazia algum tempo que eu não comia... Aquele padre quase não tinha carne, e já havia sido transformado em zumbi, também. O gosto de vocês quando estão frescos, é muito melhor. – disse a criatura, gargalhando. – Meu casamento foi arruinado pelos mortos! Mas eu e minha noiva, apesar de infectados, sobrevivemos! Quando os mortos se levantaram no dia seguinte, e foram andando pro centro, saímos do nosso esconderijo no confessionário. Então, já estávamos diferentes. Eu fiquei mais forte, mais poderoso! Ela, muito mais bonita. E especial. Quem minha mulher morde, morre na hora. O veneno dela é pior que o das serpentes... Haháhá! – desgrenhada e apavorada, me livrei da cortina de camurça que impedia meus movimentos. Ele estava motivo perto, agora. Com uma mão, segurou meu braço esquerdo, e me ergueu, violentamente. O ferimento em meu ombro repuxou, e eu gritei de dor. Ele agarrou meus cabelos, e me forçou a ficar de frente para o seu rosto. – Você tem olhos como os meus... Mas é muito fraca, frágil. Mas é bonita. Vai ver, posso ter duas esposas... – ele lambeu o sangue seco que saíra de minha ferida na testa, provocada quando eu havia batido o rosto no asfalto, após a explosão do carro de Madeline. – Sinto muito, mas o seu gosto é bom demais... – ele preparou-se para me morder na garganta, quando um tiro tomou sua atenção.
Atrás dele Diogo, Sabrina e Ana haviam se aproveitado da distração que eu causara. Não pude ver Otávio, mas julguei que ele estivesse ajudando Julia naquele momento. Com os rostos corados e suados, Ana e Sabrina seguravam a noiva Inumana pelos braços. A mulher se debatia e gritava, dos seus lábios escorrendo um líquido verde e viscoso, que eu só pude deduzir que fosse peçonha. Diogo tinha um dos braços próximo demais da boca dela, o outro braço erguido após ter atirado para o alto. Meu coração disparou. Eu não podia perdê-lo. Se eu devia morrer para não ter de ver aquilo, que assim fosse. Só não esperava que Diogo quisesse usar aquela mulher como refém, porque Inumanos corrompidos não tinham sentimentos. Luca fora a prova disso. O Inumano felino simplesmente deixaria que sua noiva fosse morta, e se deleitaria com minha carne. Ele não se importaria, e eu sabia disso porque dentro de mim, havia alguém como ele. E talvez, somente ela pudesse impedir que Diogo fosse morto.
— NORA! – gritou Diogo. – Estou falando com você! Se você não ajudar a Victoria, vocês duas vão morrer! E eu também! Vou deixar essa vadia me morder, e vamos todos ficar por aqui até o inferno gelar! Ouviu? É sua última chance.
Ele tem bons argumentos...
Aliviada, sorri enquanto Nora vinha à superfície de minha mente. Meus amigos seriam salvos, e Diogo também. Eu não me importava com o que aconteceria a mim mesma. O que acontecera à Julia e Saulo havia sido demais para assimilar. Seria bom fugir da dor por alguns momentos, até que Nora me libertasse. Só desejei naquele instante, que de alguma forma tudo ficasse bem, e que nada parecido estivesse ocorrendo no acostamento, onde nossos amigos nos esperavam.
— Diogo, mata a piranha. – pediu Nora, enfadada. Ela olhou nos olhos do Inumano, que parecia confuso com a mudança de atitude que o meu corpo apresentara. – É, sou outra pessoa. Agora, é uma estória longa demais para explicar, e você não vai viver tanto. – um tiro ecoou quando Diogo estourou os miolos da Inumana. Regozijei-me no interior de Nora. – Vamos fazer o seguinte. Você me larga, e eu te mato rápido. Você continua me segurando desse jeito, e eu te esquartejo antes de você deixar de sentir dor.
— Você está blefando, cadela! Vou acabar com você, e comer seu cu morto! – bradou o noivo. – Você vai ser minha noiva zumbi!
— Vou mesmo? – Nora não foi rápida, nem apressada. Com uma torção que eu julgava humanamente impossível de meu braço, ela desvencilhou-se do aperto do Inumano, derrubando-o contra o chão encerado em seguida, com uma banda. Ele caiu de costas, e ela jogou-se sobre o monstro, prendendo as pernas ao redor da cintura dele. O noivo tentou acertá-la com suas garras, mas ela prendeu-o pelos pulsos, e deslocou-os aplicando uma pressão terrível nas juntas das mãos do adversário, com sua força sobre-humana. O homem gritou, e suas mãos caíram moles e inúteis, presas aos pulsos apenas pela pele, e músculos. Ela tirou da coxa a faca que eu havia pego de volta com Carol, e fincou num dos pulsos do felino, prendendo-o ao chão. – Me joguem suas facas! – gritou para os outros. Ana permanecia estática, mas Diogo e Sabrina obedeceram, com máscaras de ódio dirigidas ao ser que assassinara dois de seus amigos. Desde que havíamos deixado o Trocado, todos haviam recebido ao menos uma faca de caça, com a qual poderiam manter-se seguros em situações extremas. Apenas Carol havia recusado o objeto, apenas para usar o meu todo o tempo.
Apanhando a faca de Sabrina, Nora prendeu o outro pulso do Inumano ao chão. O ser urrava e gritava de dor, rosnando e mostrando os dentes para mim. Através dos olhos de Nora, vi seu rosto. Ele era loiro, com cabelos lisos e ondulados. Havia sido um homem bonito e muito apaixonado, algum dia. Aquele vírus destruíra tudo, e de repente, vi-me chorando por aquela criatura, que permanecia apenas como uma sombra do que já fora. Devia ser muito triste, ser reduzido à selvageria por uma doença que não era possível controlar. Pessoas que estavam se casando, haviam tido seus sonhos interrompidos e transformados em um pesadelo que somente naquele dia, teria um fim. Então, agindo de uma forma como nunca havia conseguido antes, pude usar o truque de Nora contra ela. A determinação da compaixão e da necessidade de matar aquele Inumano de forma misericordiosa deu-me forças para que daquela vez, eu possuísse o corpo de minha segunda personalidade. Dominando a vontade homicida dela com minha clemência, senti-me mais forte do que nunca havia julgado possível. Acessei meus dons Inumanos, através da presença dela, encontrando um modo de usar meus poderes sem ceder à sua vontade. Com minha força ampliada, enfiei a faca de Diogo através da têmpora do Inumano, que deu um breve rugido, antes de deixar o mundo dos vivos. E também dos mortos. Levantando-me, vi a confusão nos olhos de meus amigos.
— Nora não mudou de ideia. Eu só a obriguei a sair. – contei, recebendo o sorriso mais lindo que Diogo já me dera até então. Corri para abraçá-lo, e senti as mãos de Ana e Sabrina em minhas costas, também. – Onde está Otto? – indaguei, alarmada. Eu deduzira que ele estivera em segurança, zelando por uma Julia agonizante, mas e se ele estivesse morto. Os olhos de Ana encheram-se de lágrimas doloridas, e comecei a tremer. – Fala Ana! Cadê ele!
— Está com a Julia. Ele não deixa ninguém chegar perto. – desabafou minha amiga, quase me matando de susto. Eu realmente pensara que ele havia sido morto por aquela noiva horrorosa. Corri na direção dos confessionários, e deparei-me com o corpo de Saulo, os olhos abertos fitando o teto, perdidos. Otávio estava encolhido ao lado de uma das cabines, para onde havia arrastado Julia consigo. Sangue espalhava-se ao redor deles, e ela já estava morta, pálida como cera.
— Ela não aguentou... – gemeu Otto, chorando. – Sangrou demais... Começou a tremer, e o coração dela disparou tanto... E depois não tinha nada. Ela morreu! – meu amigo gritou, e senti o mundo tremer abaixo de meus pés. Corri para ampará-lo.
— Ela teve uma parada cardíaca. Não havia nada que você pudesse fazer. – falei, esfregando a mão sobre os seus ombros. – Lembre-se dela sorrindo, bonita. Não podemos ajudá-la. – olhei para cima, e vi que Diogo lutava para não demonstrar suas próprias lágrimas. Eu sabia que ele estava imaginando o que faria se fosse eu no lugar de Julia, e com certeza podia entender o sentimento de Otto. Todos nós podíamos. Sabrina e Ana se abraçavam, desoladas. – Temos que cuidar dela, amigo... Ela disse muitas vezes que não queria virar uma daquelas coisas...
— Não! Não! – gritou Otto, afastando-me e apertando Julia contra si. Senti pânico por vê-lo daquela forma, até porque ela poderia se reanimar a qualquer momento, e mordê-lo. E, por mais que eu gostasse dela quando viva, não deixaria que sua morte provocasse a do meu irmão de criação, também.
— Se você não se afastar dela, vou te tirar a força! Se quiser morrer, enfia uma bala na cabeça! Mas agora você vai sair de perto dessa morta, pra eu poder garantir que ela continue assim! – esbravejei, estourando-me. Eu já perdera pessoas demais por um dia. – Sai daí, agora! – puxei Otávio de cima dela, usando a força de Nora. Foi como tirar um ursinho de pelúcia de cima de outro. Meu amigo caiu sentado, a alguns centímetros, pasmo com minha reação. Mas ele pareceu ser trazido de volta à realidade, pelo menos. Aproximei-me de Julia, e fitei-a por alguns segundos. Quando eu estava pronta para esfaqueá-la na têmpora, seu corpo reanimado abriu os olhos. Lamentei por não ter sido rápida o bastante para realizar seu desejo, mas corrigi o erro empalando-a com precisão. Diogo atirou em Saulo, que havia se sentado, com a garganta dilacerada.
Arrastamos os corpos até o altar da igreja, onde o fogo já ganhava proporções maiores. As mesinhas, as cadeiras, as imagens de santos, o vinho da Santa Ceia, e até mesmo a enorme cruz de madeira que se erguia atrás Du púlpito haviam servido de combustível para a enorme fogueira que se erguia sobre a capela, que por si só era de madeira. O lugar inteiro queimaria, incinerando os corpos de nossos amigos, dando-lhes ao menos, o melhor funeral que poderíamos conseguir num mundo como aquele. A cada encontro com uma criatura, eu odiava cada vez mais os Inumanos. E, mesmo que eu soubesse que nem todos nós éramos cruéis sociopatas sádicos, sabia que em breve, meus amigos passariam a desconfiar até mesmo de mim e de Jonas. Era apenas um palpite meu, que eu torcia para que estivesse errado. Ainda assim, esforcei-me ao levantar, apenas com meu braço esquerdo, um dos enormes bancos de madeira da igreja. Posicionei-o sobre o fogo, ao lado dos corpos de Saulo e Julia, para garantir que eles seriam atingidos pelas chamas. Em silêncio, deixamos aquele lugar que eu desejava esquecer o mais rápido possível.
Cerca de vinte minutos depois, quando já havíamos recuperado o Uno, que levava Ana, Sabrina e Otto, eu e Diogo paramos a camionete em frente à capela, que já era totalmente envolvida por chamas vívidas e fluorescentes. O dourado abrasador enviava ondas de calor contra o ar noturno, e julguei que talvez fosse possível que uma queimada se iniciasse em breve, se as chamas atingissem o capim seco que cercava o rancho. Seria o melhor, imaginei. Ao menos, todo aquele lugar teria um fim, assim como a família a qual pertencia, que fora exterminada durante um dos dias mais felizes de suas vidas. Sem certeza do que encontraríamos quando voltássemos para os outros, ou como contaríamos que dois dos nossos estavam mortos, aceleramos de volta. Àquela altura eu não sabia, mas as coisas também não estavam fáceis para os outros...
Notas finais
Muito obrigado a todos que favoritaram a fic! Esse capítulo é dedicado a vocês!
Kisses by DroppingPieces!
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