Quebranto.

33 Dores da Alma.


Notas iniciais
Olá,, gente! Devo pedir desculpas pela demora, e dizer que realmente espero que vocês não tenham me abandonado. Estive com algumas tribulações em minha vida pessoal, envolvendo a escola e outras coisas menos agradáveis, e tive minhas postagens atrasadas. Mas não se preocupe, teremos MUITOS capítulos essa semana para compensar o tempo perdido, e prometo que a espera valerá à pena. Bom Quebranto pra vocês, e os aguardo nos comentários!

Boa leitura.

Fernanda.

Quando a cruz formada por dois galhos secos foi fincada no solo, chorei a morte de Madeline. Eu sabia que ela me faria falta de muitas maneiras, mas principalmente com seus conselhos. Mesmo os três sobreviventes do grupo de Saulo, que não haviam conhecido a senhora muito bem, estavam comovidos com seu falecimento. Eles se mantinham em silêncio respeitoso, e mesmo que Clara houvesse quebrado seus votos, em desobediência à Deus, eu apreciei sua ajuda na preparação de um memorial. Pouco depois que Victoria, Diogo e Saulo haviam saído a procura de nossos amigos desgarrados, o fogo do acidente se extinguiu. Sem arriscar fazer uma fogueira, todos ficaram no interior de seus veículos, e eu tive algum tempo para amarrar os galhos recolhidos por Clara, com alguns panos de chão que havíamos trazido para o caso de algum imprevisto. A maioria das caixas com suprimentos e utensílios domésticos estava na van, e como Ricardo decidira permanecer com Hugo na ambulância, não havia ninguém para regular o que eu estava ou não usando. Diana dormia profundamente, assim como as crianças, que haviam se mudado para lá. Eloá também descansava, despertando de instantes em instantes, mantendo-nos seguros com sua presença imponente. Fazia algum tempo desde que ela se calara, a última vez em que eu ouvira sua voz havia sido no enterro de Luca. A morte de Rafael a mudara, retirando-lhe o brilho característico, a chama interior. Ela parecia agora mecânica, e exausta.

Depois de terminada a cruz, eu imaginei uma frase adequada para homenagear uma amiga tão querida. Então, lembrei-me de algo que Madeline me dissera quando eu fora violentada, algo que me tranquilizara antes de dormir, enquanto meu corpo ainda doía. Catando um pedaço de fita de cetim, e uma canetinha piloto preta, rabisquei a frase, e atei-a ao meu objeto artesanal. Estava belo, e triste. Planejava fincá-la no dia seguinte, quando finalmente estivéssemos saindo daquele local, mas a demora de Victoria me inquietava. Da última vez em que havia saído em missão, demorara muito tempo para retornar. Refletindo sobre aquelas questões problemáticas, pensei em Hugo. Eu rezava para que ele não estivesse sentindo muitas dores. Provavelmente, ele ficaria arrasado quando soubesse de Madeline. Tânia havia feito um excelente trabalho com seu ferimento, sua calma e destreza provando-se cada vez mais essenciais ao grupo. Eu mesma teria sofrido muito mais a violência de Arlindo, se não a tivesse ao meu lado. Grande parte da história da enfermeira era desconhecida, porém eu sabia que ela tivera filhos antes daquilo tudo, e que os perdera para a infecção. Ela também era alguém animada, e de palavras leves, quando não sofridas.

Meu estômago pareceu contrair-se com alguns espasmos noturnos. Parecia que pontadas leves se espalhavam pelo meu tórax inteiro. Muito esquisito, lembro-me de haver julgado. Um ronco faminto ecoou nas sombras, e temi que minha fome pudesse acabar acordando alguém. Logo, minha fome se transformou em algo maior, mais urgente. E específico também. Um cheiro forte inundou minhas narinas, e senti uma vontade enorme de comer pêssegos em conserva. Tentando fazer o menor ruído possível, revirei uma das poucas caixas que não estava na mala ou na parte traseira da van, e por sorte encontrei um pote de vidro, cheio de pêssegos amarelos e brilhantes. Sorri cobiçosa, ao ver que a tampa da embalagem era de rosca, e não lacrada. Com apetite voraz, girei o tampo com um estalo único. Os conservantes se remexeram, e meus lábios encheram-se de expectativa. Apanhei um dos frutos entre meu indicador e o polegar, enfiando-o na boca, inteiro e de uma só vez. Depois, devorei outro. E mais outro. E mais outro. No quinto pêssego, eu precisava vomitar. Abrindo a porta traseira do veículo, pulei para a noite gelada daquela primavera incomum. Com náuseas terríveis, julguei que pudesse estar doente, com algum tipo de resfriado letárgico, ou mal resolvido no passado. Acabei vomitando todo o pêssego ao lado de um dos pneus traseiros, fazendo um barulho borbulhante e desagradável, horrorizada quando o cheiro de pêssego invadiu minhas narinas, provocando-me dores piores. Afastei-me, caminhando de costas para longe daquilo. Esbarrei em uma forma humanoide, sem dar-me conta de que eu estivera sozinha por tempo demais, do lado de fora.

Tão assustada quanto eu, Vilma recuou dois passos, nervosa. Ela estava de mãos dadas com seu gêmeo Dino, e parecia incomodada com algo. Só então, vendo-os juntos à luz do luar, notei o quanto estavam diferentes. Haviam esticado muito nos últimos meses, e mesmo sua idade não era tão pequena. Ambos tinham dez anos, mas os últimos meses haviam conferido-lhes uma desenvoltura e aparência de no mínimo, uns doze. E estavam mais maduros, também. Isso podia ser visto nas nuances de seus olhos. No modo como se moviam. Eu só não seria capaz de declarar esta maturidade como algo bom, ou ruim. Porque eu sinceramente, não sabia. Por muitas vezes, havia esforçado-me ao máximo para conservar o pouco de inocência que ainda lhes restava, o pouco de normalidade que eu mesma julgara conhecer. Mas eu fora um fracasso como tutora daqueles dois, e sabia disso. Eu tinha pouquíssima experiência com crianças, até conhecer Tiago e seus jovens irmãos. Meu antigo namorado havia demonstrado o outro lado de se ter irmãos. Eu, que fora a mais nova de sete irmãos, e a única menina, vi-me de repente com dois irmãos mais novos. E agora, perdida no meio da estrada para Búzios, e tremendo de enjoo e dor de estômago, eu temia não ter feito um bom trabalho. Será que Vilma e Dino tinham as habilidades necesserárias, em seus íntimos, para sobreviver àquele cataclisma? Que Deus permitisse que eu nunca precisasse descobrir.

— Vilma, Dino! Vocês me assustaram, meninos! O que vieram fazer aqui fora? — indaguei, tentando manter uma expressão pacífica e impassível no rosto. — Querem alguma coisa?

— Nós ficamos preocupados porque você veio pra cá sozinha. Não queremos que você morra que nem nosso irmão. Ninguém pode sair dos carros. O Ricardo mandou. — cobrou Dino, emburrado. Ele sempre fora mais arisco que a irmã, e ficava cada vez mais parecido com o irmão falecido, com o arrastar dos dias. — E também, a Vilma quer fazer xixi. Não pode ir sozinha.

— Mas é claro que não pode. — concordei. — Por que você não volta pra van, e eu a levo ali no canto, rapidinho? — sugeri, apontando para o capim alto em torno do acostamento onde nossos veículos haviam sido estacionados.

— Minha gêmea não vai pra lugar nenhum sem mim. — rebateu Dino, assim que eu havia terminado de falar. Vilma apenas concordou m um gesto, seus cabelos castanhos escorregando até os cotovelos.

— Tudo bem, então vamos os três. Mas tem que ser rápido, ok? — eles concordaram então os puxei pelos ombros, sorrindo. Eu tinha medo por estar fora sem nenhuma arma (não que eu soubesse atirar, de todo modo), mas acreditava que o melhor seria manter os mais novos tranquilos, e resolver aquele problema de uma vez por todas.

Caminhamos até o capim, e adentramos a vegetação alta e seca com certo receio de que ali pudesse haver algum inseto, ou criatura zumbificada. Como nada foi visto, conseguimos encontrar um lugar um pouco mais limpo, e com menos capim. Dino se afastou, mesmo sob os meus protestos, e começou a circundar a mim e sua irmã, enquanto ela se aliviava com uma alegria indescritível. Ainda esperei um pouco, até que ela estivesse pronta, e depois de resolvidos os problemas, conseguimos nos preparar para a volta até o acampamento improvisado. Pegando Vilma pela mão, comecei o curto caminho até a van, contudo, algo não estava bem. Pude ouvir o farfalhar do capim dobrando-se sob o peso de algo à espreita. Meus alarmes internos todos se ativaram, e puxei a menina para o chão. Dino se assustou com nosso movimento brusco, e se agachou também. Eu praguejei mentalmente por ter topado tomar conta daqueles dois sem ninguém capaz de nos defender por perto. Eu não tinha mais o direito de cometer aqueles erros. Não estava mais no Trocado. Orei a Deus que nos deixasse passar ilesos, e abracei Vilma contra o peito. Dino estava ofegante, assim como eu, mas não parecia compartilhar do meu medo. Fato, inclusive, que me alarmou ainda mais.

O primeiro som, lentamente, passou a ser acompanhado de outros. Devagar, pude distinguir estalidos baixos de capim dobrando e rasgando em diferentes direções. Nos três estávamos irrevogavelmente cercados. Eu não podia ver muito alem do verde amarelado que cercava meu rosto, mas a agonia de não saber o que nos aguardava era ainda pior do que não fazer ideia de como sair daquela situação. Para meu horror, eu não tardaria a descobrir exatamente o que nos espreitava. Como se um leque a desabrochar, o capim bem em frente à minha testa abriu-se, revelando um pássaro horrendo. Suas penas negras eram lustrosas e esverdeadas de maneira medonhas. Seus olhos estavam vermelhos como dois rubis amaldiçoados. Sua cabeça despenada e enrugada revelava pequenas pústulas características das infecções virais que eu presenciara. Sem o menor esboço de reação, ele se aproximou de mim até que seu bico encostou o meu nariz. Àquela altura eu estava chorando em silêncio, e Vilma escondia o rosto contra o chão, sem ter onde se esconder. Fechei os olhos com força, e então a criatura se eriçou inteira, arrepiando as penas. O urubu deu um pulo para trás, e abriu o bico num guincho raivoso. Dentro de seu bico, pude reconhecer duas fileiras de dentes finos e afiados, semelhantes aos dos tubarões. Seu ruído soou como um grito na noite, e não pude evitar o grito que escapou dos meus pulmões quando Dino o esmagou com um pedregulho, atirando-se sobre a criatura. O animal debateu-se algumas vezes, mas esmaeceu e morreu por definitivo.

Aliviada, apoiei Vilma, e ergui-me do chão. Nós duas nos aproximamos de Dino, e eu o abracei preocupada. Somente momentos depois eu percebi que ele não compartilhava de nossa alegria. Fitando o chão à nossa frente, as feições do garoto eram frias e raivosas. Minha boca não se deteve ao deparar-se com a cena que nos aguardava o reconhecimento, e caiu flácida, escancarando-se. Diante de mim e daquelas duas crianças, dezenas de aves mutantes sacudiam as asas e guinchavam com seus bicos dentados, assassinas. Como num dos filmes de Hollywood, vi minha vida passando diante dos seus olhos. Curiosamente, senti em minhas lembranças a sombra do que Arlindo me fizera, e percebi que estava pronta para qualquer que fosse o meu destino. E talvez fosse mesmo melhor assim considerando que, mesmo relutantemente, eu temia estar grávida. Ao me preparar para ser devorada, fui surpreendida com o solavanco que Dino me deu, atirando-me ao chão. Ele próprio caiu também, puxando Vilma em seguida. O ar explodiu num rojão de luz vermelha, e uma dos bichos mais próximos incendiou, ao ser atingido pelo tiro de sinalizador. Disparos encheram o ar quando Eloá surgiu entre a vegetação seca. Seu rosto pairou próximo ao meu, e ela sorriu ao constatar que eu não estava ferida. Mais uma vez, ela estava presente no momento mais crítico. Agradeci por tê-la no grupo.

Ficando de costas para nós, ela transformou-se na última barreira entre nós e os urubus. Ainda havia muitos, e eu não conseguia entender o motivo de ninguém mais ter descido dos carros. Até que fiquei de joelhos e percebi que os veículos estavam cobertos por aqueles bichos horrorosos. Engoli em seco, enquanto Eloá matava um após o outro, daqueles que avançavam contra nós. Quando o décimo quinto animal caiu, a pistola de minha amiga ficou sem balas. Ela xingou um palavrão, e me puxou pelo braço. Eu por minha vez, agarrei Dino e Vilma, um por cada mão. Sem fôlego e temendo a morte, nós quatro corremos desembalados através do matagal. O capim alto chicoteava meu rosto, minhas mãos, e meus cabelos emaranhavam em meio aos ramos secos. Sem olhar para trás, continuamos correndo até que as aves começaram a se distanciar. No que devia ser uma última tentativa de nos devorar, elas levantaram voo, e sua velocidade cresceu assustadoramente. Caindo sobre nós como uma nuvem de morte, os animais modificados agiam como se pertencessem a um só organismo, um só pensamento. Apesar de imersa naquela quantidade absurda de penas e fedor pútrido, não desacelerei minha corrida. Eu desejava viver, muito mais do que antes. E durante aquela batalha pela vida, mesmo a lembrança de haver pensado em desistir me parecia fútil e ingrata.

Continuei correndo, ouvindo os gritos de Vilma e Eloá enchendo o ar. Elas e Dino também continuavam a correr. O mar de capim parecia não ter fim, e quando minha pele já estava quase dormente de ser castigada por ele, caí de joelhos numa estradinha de barro seco, seguida por meus amigos, que se desequilibraram por completo. Aquele tombo significaria o fim da esperança, não fosse a buzina frenética que se fez ouvir no meio da noite. Faróis altos foram lançados contra os animais, que guincharam dolorosamente e se lançaram contra o céu, fugindo da claridade abrasadora.

— Oh, Deus! Eles ficaram sensíveis à luz! – comemorou Eloá, num tom cansado. Vilma e Dino respiravam lenta e sofregamente, e tive pena daquelas pobres crianças. Eu não fora mordida, então passei a examiná-los com afinco. Olhei para a camionete parada no meio da estrada, e sorri quando Diogo e Victoria pularam para fora do veículo, alarmados.

— O que aconteceu, Nanda? – Vicky estava desesperada. Diogo tinha a testa franzida, mas nos olhava com curiosidade.

— Urubus, Vicky. Dá pra acreditar? – indaguei, com uma risada fraca.

— Não. Não dá. – rebateu Sabrina, saindo do Uno de onde Otto e Ana nos fitavam, preocupados.

— O que houve com Julia e Saulo? – indagou Vilma, atenciosa. Diogo e Victoria se olharam, e imediatamente entendi a resposta. Uma de minhas mãos cobriu a minha boca de espanto, e meus olhos marejaram.

— Depois falaremos sobre isso. – disse Diogo, fazendo carinho na cabeça de Vilma. – Você e seu irmão devem ir para o carro. Vamos voltar pro acampamento agora.

— Eu matei um dos bichos com uma pedra, sabia? – resmungou Dino, indicando sua blusa de mangas compridas cinza, repleta de sangue de urubu. – Se vocês tivessem me deixado aprender a atirar, eu não ia precisar chegar tão perto. Eu preciso aprender! – ele esbravejou, correndo na direção do carro em seguida, os olhos cheios de lágrimas. Fiquei triste e feliz ao mesmo tempo. Saber que algo dentro daquele menino doce ainda era puro a ponto de se sentir assustado, me deu esperanças de que ele ainda pudesse ter uma mente tão sadia quanto seu corpo. Vilma também começou a chorar, e correu para o carro. Os gêmeos sentaram-se no banco de trás do Uno, com Otto. Meu amigo parecia devastado pela morte de Julia. Mesmo assim ele sorriu, quando Vilma o abraçou em conforto. Éramos mesmo uma família.

— Dino tem razão. Ricardo já havia dito isso antes, e não demos bola. Todos precisaram aprender a se defender. – reconheceu Victoria, nervosa. – Agora, vocês duas não querem ir embora? – ela sorriu, oferecendo-me sua mão. Diogo fez o mesmo com Eloá, que para nosso espanto, fez um gesto negativo diante da oferta.

Acho que não vou poder voltar com vocês, pessoal. – e retirando seus longos cabelos negros de cima do ombro esquerdo, ela nos revelou a laceração provocada pela bicada de uma das aves zumbificadas. Um grosso filete de sangue escorria sobre sua pele morena e bronzeada, e apesar da infecção que se espalhava sob sua pele, nossa amiga parecia tranquila, em paz.

E eu não podia crer que, enquanto minhas lágrimas desciam sobre o rosto, ganhando as formas do meu sofrimento, eu podia contemplar os últimos momentos de Eloá...

Victoria.

Antes de Eloá retirar os cabelos de cima da ferida, ninguém suspeitava que ela pudesse ter sido mordida. Ela não estava chorando, nem parecia sentir dor. O que não atenuava em nada a nossa perda. Sem saber o que dizer ou fazer, sentei-me na terra ao seu lado. Diogo olhou para o outro lado, os olhos marejando, e fez um gesto para que Ana e Otto saíssem do carro. Meus amigos já desceram do veículo chorando. Otto parecia ter envelhecido cem anos, desde a última luta na capela. Sabrina também se emocionou, mas manteve sua expressão distante, indo abraçar Ana. Otávio chegou perto de Eloá, e a abraçou apertado, chorando. Nossa amiga tão valente o abraçou de volta, lentamente, enxugou duas lágrimas teimosas que escaparam de seus olhos. Os gêmeos estavam encolhidos no Uno, observando o desenrolar dos fatos.

— Hey, sinto muito pela Julia... – sussurrou Eloá, carinhosa. – Eu também não queria ter de ir embora agora. Só não se entregue à tristeza, como eu fiz. Vale à pena viver... – ela olhou para Nanda, em seguida. – E você, não se sinta culpada, querida. Tanto eu quanto Rafael, morremos porque acreditamos estar fazendo o correto. Eu salvaria a você e as crianças quantas vezes fosse possível. E sei que faria o mesmo por mim.

— Eu não queria que fosse assim... – Otávio estava inconsolável, soluçando. – Talvez fosse melhor nunca termos saído do acampamento.

- Nem eu, mas sei que existe algo esperando por mim, depois. Você não crê no mesmo? – tranquilizou-o Eloá, olhando para Fernanda, que sorria fracamente, entre lágrimas.

— Você quer ir até o final? – indagou Diogo, num tom de voz tão baixo, que foi difícil identificar.

— Sim. Não quero me suicidar. Vou morrer lutando. Quem sabe não viro Inumana? – fraca Eloá começou a suar lentamente, sua pele brilhando. Abracei-a, deitando-a no meu colo.

— Fique calma, querida. Nós vamos descobrir juntas. – garanti-lhe. Diogo montou guardar próximo a nós, deixando-nos com a garota.

O tempo que se passou, foi difícil para nós, principalmente depois de termos lidado com as mortes de Saulo e Julia. Nossa amiga ficou cada vez mais pálida, até que era difícil identificar sua antiga cor amendoada, e radiante. Seus cabelos perderam a vida e o brilho, e seus olhos clarearam lentamente, de maneira perturbadora. Otto conseguiu conter suas lágrimas, ajoelhado ao meu lado enquanto Eloá morria. Fernanda também estava sentada no chão, enquanto Ana nos observava de pé. Sabrina estava conversando com Diogo a um canto, e por sua expressão, não estava muito feliz. Com certeza ele devia estar criticando-a por se afastar do grupo toda vez que surgiam problemas. Atitude que eu, inclusive, também considerava covarde. Só não achava que o momento era propício para discutir esse assunto. Em meus braços, senti Eloá cada vez mais pesada, mais rígida. Logo, ela sacudiu-se pela primeira vez. Numa onde de espasmos descontrolados, ela começou a tremer e a engasgar com o próprio sangue. Inclinei sua cabeça e ela cuspiu o líquido vermelho e viscoso na terra. Olhei para Otto e vi refletida em seu rosto a minha angústia. Eloá não se tornaria Inumana. Ela morreria ali, na terra úmida e esquecida.

— Rafael, eu estou pronta! – gemeu nossa amiga, e então o mundo desvaneceu. Olhando fixamente para a noite sem estrelas, a vida de mais uma amiga, terminou. Com o coração colorido, beijei sua testa, enquanto Fernanda fechava os seus olhos. Otávio se levantou do chão, e saiu em disparada na direção do carro, sem querer presenciar o que aconteceria a seguir. Puxei meu revólver, e liberei a trava de segurança do armamento. Encostei o cano da arma na testa de Eloá, logo depois de pousar sua cabeça no chão. Fitando sua expressão serena, não tive coragem de puxar o gatilho. Fernanda encurvou o corpo, ocultando o rosto entre as mãos.

— Eu faço. – ofereceu-se Sabrina, preparando a própria arma.

— Não. Ela era nossa amiga desde o início. – refutou Diogo. – Eu vou fazer. Victoria, vá e me espere no carro. Tire a Nanda daqui.

Obedecendo-o depressa, ergui Fernanda pelos ombros, e com a ajuda de Ana, sentei nossa amiga fragilizada na camionete, no assento extra entre o carona e o motorista. Ana e eu nos entreolhamos por um breve momento, e nos abraçamos. Ela então seguiu de volta para o carro, sem olhar para trás. Mesmo de longe, fiquei olhando enquanto Diogo puxava sua faca de caça do coldre amarrado à perna. Sabrina estava de braços cruzados ao seu lado, os cabelos loiros caídos numa mecha única do lado esquerdo de sua cabeça, a região raspada um pouco maior do que antes. O golpe de Diogo foi preciso contra a têmpora de Eloá, e eu sequer vi sinal de sangue. Seu corpo deu um solavanco com a pancada, e não mais se mexeu. Diferente de Saulo e Julia, ela não retornaria. Descansaria em paz.

Pegando-a no colo, Diogo a levou até a traseira da camionete, e finalmente tive de desviar o olhar para não enxergar o ferimento à faca em sua cabeça. Entrei na camionete e sentei-me ao lado de Nanda, apertando a mão da ruiva numa cumplicidade muda. Diogo sentou-se ao volante em seguida, batendo a porta do automóvel com violência excessiva. Com tristeza, notei que ele e Nanda conheciam Eloá bem antes de mim, e que aquela devia ser a maneira que meu namorado estava encontrando para expressar sua raiva. Eu não iria me opor. Sabrina buzinou no veículo de trás, dando sinal para que pudéssemos seguir em frente. Com menos entusiasmo e alívio do que seria esperado, tomamos a estradinha de barro em direção ao acampamento provisório, na beira da estrada.

E, com os primeiros raios da alvorada afastando a noite escura, percebi que nem mesmo Nora, tinha algo a dizer. Naquele momento, mesmo o silêncio parecia não ser respeitoso o bastante.

Notas finais
Ok... Vocês devem estar querendo me matar neste momento, certo? Se sim, me desculpem, mas posso garantir que não é fácil para o autor dizer adeus à um personagem. Todos possuem uma função na estória(que depois de tantos capítulos já pode ser considerada uma "história"), e são tão importantes quanto sua ausência nela. Em breve, tudo fará sentido. Ou não. Afinal, qual é o sentido da morte? Uau, filosofando nas Notas Finais... Melhor eu ir escrevendo o outro capítulo, antes que não saia mais daqui... Hehehe!

*Obrigado a quem estiver lendo. É, mesmo você leitorzinho fantasma. Valeu por acompanhar... XD

Kisses by DroppingPieces.