Quebranto.

34 Saindo das Trevas.


Notas iniciais
Olá pessoal! Mais um capítulo pra vocês! Por favor, não esqueçam de postar comentários à respeito do que estão achando da história, as opiniões e sugestões de todos são muuuuito importantes, e me insentivama escrever mais. Ter tanto trabalho e não saber o que os leitores pensam, às vezes é um pouco frustrante e desanimador. Fazendo minhas as palavras do Nyah, não deixem a fanfic Quebranto morrer! rsrsrs...

*Capítulo dedicado à minha amiga e futura parceira de fanfic, Axl Effy (obrigado por ser tãããão fofa, viu?) XD

Boa leitura!

Hugo.

O mundo estava nublado, e então eu acordei. Tentei identificar o lugar onde eu estava, e nada parecia familiar, ou coeso. Na verdade, estar em uma ambulância quando você só se lembra de sentir uma dor muito forte no pescoço e desmaiar, tem esse poder de nos confundir. Respirei fundo e toquei o curativo atado ao meu corpo, reconfortando-me em sua presença. Se haviam descoberto um meio estabilizar o ferimento, provavelmente eu não morreria por culpa dele. Ainda dormente por causa de algum medicamento vencido que haviam me aplicado, reconheci Rico ao meu lado, sentado próximo à maca onde eu dormira. Ele tinha olheiras terríveis, e mesmo no sono parecia cansado. Escorreguei um pouco quando desci do meu leito, mas firmei o corpo apoiando-me no mesmo. Devagar, aproximei-me dele, e toquei seu ombro. Apertei levemente, pressionando os músculos tensos e bem formados. Meu primo sempre fora muito grande, e forte. Era de se admirar que quisesse algo com alguém tão magrelo quanto eu. Perdido em meus devaneios e lembranças, não notei que ele estava abrindo os olhos. Sorrindo, Ricardo pôs uma das mãos na minha cintura, e abraçou-me. Sua cabeça estava pousada em meu estômago, e não tive escolha a não ser acariciar seus cabelos.

— Você me deixou muito preocupado... Nunca mais faça isso. — ordenou-me, emburrado. É claro que seu rosto estava escondido na minha barriga, mas eu sabia que ele estava lutando pra não chorar. Típico.

— Pode deixar. Da próxima vez que eu for levar um tiro, vou lembrar-me disso. — zombei sarcástico.

— Não brinque com isso. Estou falando sério. — resmungou ele, por sua vez.

— Ok. Imagino que tia Maddie vá ser bem pior, quando souber que acordei... — ri, com o pensamento. Só o silêncio de Rico denunciou que havia algo errado. Ele não falou nada, nem respirou, por quase três minutos. Quando me esforcei para puxar seu rosto para cima, o vi tomado de lágrimas.

— Oh, não... Rico, por favor... — meus olhos começaram a arder. Eu não queria acreditar. Era o pesadelo do dia em que meus pais haviam morrido, retornando com força total. Naquele momento, odiei ainda mais a morte. Era tão injusto que não pudéssemos dizer adeus. E era ainda pior que pessoas ruins ainda vivessem, quando as boas tinham as piores dores possíveis. Dores da alma, profundas e sanguinárias. — Como foi que aconteceu? — ouvi minha voz repetindo meus pensamentos, mas não senti meus lábios se moverem. O choque era demais.

— Ela jogou a doblô contra o caminhão dos motoqueiros. Ela matou todos eles com a explosão, e acabou se matando também. Mas se não fosse por ela, todos estaríamos mortos agora. — a voz de Rico estava um pouco mais calma, mas a dor era algo quase físico. — Eu não consigo aceitar, por mais que entenda. Eu preferia ter morrido, se isso fosse mantê-la viva...

— Titia sabia o que estava fazendo, Rico. Ela era uma mãe para nós dois, e jamais permitiria que algo de ruim nos acontecesse, mesmo contra nossa vontade. É isso o que as mães fazem. Protegem e se sacrificam pelos seus filhinhos... — desabafei, finalmente chorando. Sentei ao lado de Ricardo, sentindo meu ferimento arder com os movimentos excessivos. — E o que nos garante que ela ficaria viva? Eles não pareciam o tipo de gente que poupariam uma senhora, mesmo que inofensiva. Não que titia fosse inofensiva. — acabei sorrindo. — Ela provou exatamente o contrário disso a todos.

— Carol me disse que elas duas haviam conseguido escapar do tiroteio. Carol contou que tentou convencer mamãe a fugir com ela, mas ela não quis. Preferiu nos salvar. — murmurou Ricardo, obviamente sentindo-se culpado.

— Sabe, a Carol pode ser uma faladeira, às vezes. Ela não devia ter te contado as coisas desse modo. Te fez sentir culpado. — ele tentou falar, mas cobri seus lábios com uma de minhas mãos. — Não a defenda, é verdade. Mas o mais importante, é que isso só devia nos fazer sentir mais orgulho dela. Por nos mostrar que cuidar uns dos outros é o que realmente importa. Ela protegeu nossa espécie, poupou muitas vidas. Eu tenho orgulho da tia Madeline. — declarei, decidido. Ricardo sorriu, e colocou a mão em meu rosto, limpando uma lágrima.

— Seu maluquinho, sempre vendo as coisas da melhor maneira possível... — ele me beijou de leve, e não aprofundei o toque por causa da dor no pescoço. — Epa, desculpe por isso. — ele pediu, tocando meu curativo, e verificando seu estado. — Temos que trocar isso aqui, e limpar os pontos.

— Pontos? — repeti boquiaberto. — Deus, obrigado por ter me feito desmaiar rápido. Seria muito pior cair duro por causa da agulha...

— Frouxo... — provocou Rico, fazendo-me revirar os olhos. Ele podia ter medo de ratos, mas a minha fobia com agulhas era besteira. Ótimo. Sentei-me na maca outra vez, de costas para Rico, que começou a retirar meu curativo. Eu estava sem camisa, mas não estava frio ali dentro. As janelas vedadas haviam abafado o ar, mesmo que só estivéssemos ali por poucas horas.

— Aconteceu mais alguma coisa enquanto eu dormia? — perguntei, por reflexo. Um algodão com soro fisiológico passou por cima de meus pontos, e senti pequenas estrelinhas galácticas estourando sobre eles. Mordi a língua pra não xingar minha falecida tia. Não seria nada legal, considerando tudo o que acabara de acontecer.

— Sim, mais problemas. Fomos atacados por urubus nessa madrugada. Faz pouquíssimo tempo que amanheceu, e demos falta de Nanda, Eloá e os gêmeos. Todos estão procurando por eles, e tememos o pior... Ninguém conseguiu sair do carro para ajudá-los. Até amanhecer, ficou tudo coberto por aqueles bichos. Tive medo que eles tentassem estourar os vidros, por isso insisti em ficar aqui com você. Não duvido nada que eles seriam capazes de destruir as janelas da ambulância. — explicou-me Ricardo, já ciente do meu desagrado por ele não ter ajudado nossos amigos. Entendi seus motivos, contudo, e, portanto fiquei quieto.

— Pronto. Novo em folha. — comentou Ricardo, logo depois de limpar meu ferimento, e repor a cobertura do curativo, com gaze limpa e esparadrapos firmes. — Agora podemos ir lá para fora, dizer aos outros que você está bem...

— Quer mesmo ir lá fora? — indaguei malicioso. Ele demorou um pouco a perceber do que se tratava o assunto, mas logo seu olhar anuviou, e ele devorou-me com os olhos, provavelmente considerando a ideia.

— Você está machucado... — ele levantou, mas já parecia vencido. Revirei os olhos mais uma vez, e encostei minhas costas contra seu peito.

— É só tomar cuidado. Não pensei em me pendurar no teto, nem nada parecido. Além disso, eu não sabia que você era do tipo que curtia sado... — provoquei, vendo-o corar como um tomate amassado no Apocalipse Zumbi.

— Você fala dessas coisas tão abertamente... — o SenhorTímido nunca mudava. Parecia o mesmo cara de sempre, o mesmo dentista responsável de antes daquela confusão toda.

— Só com você. — expliquei, rindo. Surpreso, senti uma das mãos de Rico deslizar pelo meu ombro bom, descendo pelo meu braço. Então ele também estava com vontade? — Faz quanto tempo? — indaguei feliz por estar vivo, e por senti-lo comigo. Sei como isso pode parecer frio, com minha tia e a mãe dele tendo acabado de morrer, e tudo. Mas não havia nada que pudéssemos fazer por ela, e nós mesmos poderíamos estar mortos a qualquer momento. Não fazia sentido seguir as mesmas regras de antes, nem mesmo no luto. Tudo o que importava, era fugir, sobreviver, e tentar aproveitar o pouco que ainda existia entre essas duas coisas. E Deus, como eu queria aproveitar...

Ricardo debruçou-se sobre mim, beijando meu pescoço e massageando uma das minhas coxas. Sua camisa social azul caiu levemente às suas costas, depois dele haver desabotoado-a com precisão e agilidade. Rindo como dois adolescentes, nos beijamos mais uma vez, e afundei minhas mãos em seus cabelos loiros e ao mesmo tempo grisalhos. Ele fazia luzes antes daquilo, e agora todo o cabelo já voltava ao normal, num tom loiro escuro, como o meu. Um dentista e um gótico, como minha amiga Paula gostava de apontar. Ela era simplesmente louca por Ricardo, quase uma fã. Eu torcia para que ela ainda estivesse viva, mas considerando seu bom coração e seu prazer em ajudar os outros, era algo bem difícil. Ela simplesmente não aceitaria enfiar algo na cabeça de alguém, mesmo um zumbi. Era engraçado o modo como todos encaravam matar os errantes hoje em dia. Normalidade e rotina. Mas para a tola e bondosa Paula, algo que seria impossível. Levei um choque mental ao sentir a língua úmida de Ricardo em meu umbigo. Os pensamentos sobre minha amiga se dissiparam, e fui trazido bem rapidinho, para a Terra. Ricardo abriu o zíper de minha calça jeans preta, e a abaixou. Minha sunga boxer preta também foi retirada, e quase surtei quando ele me puxou para fora da maca, e me colocou de costas. Minha tatuagem de pentagrama na nádega esquerda brilhou negra, contra a palidez da minha pele.

Dando uma leve palmada sobre o desenho, Ricardo esfregou-se contra mim. Ele estava sem calças, e eu não me lembrava de ter me excitado assim alguma outra vez, em nosso relacionamento. Ele colocou uma das mãos em meus cabelos loiro-negros/negros/verdes, e puxou de leve. Reclamei, porque de alguma forma eu havia sentido o puxão no meu machucado. Ele beijou o curativo num pedido mudo de desculpas, e finalmente, posicionou-se contra mim, nu. Já havíamos feito aquilo muitas vezes no antigo acampamento, mas sempre parecia ser a primeira. Na noite em que havíamos nos reencontrado, logo após eu ter sido resgatado da mansão dos Shepard, por Luca, Ana, Otto e Carolina. Agora, movendo-me com Rico num ritmo único, tudo parecia bem, mesmo que eu só tivesse aqueles poucos minutos de vida. Não haviam regras, não haviam leis, não havia amanhã. Só o prazer.

E então, alguém abriu a porta de trás da ambulância.

A claridade que atingiu o lugar nos alarmou no mesmo instante. Parada diante da cena que contemplara, Tânia estava pasma. E mesmo sob sua tez escura, era possível identificar o vermelho do embaraço. O pior, não foi por ela ter nos visto. É que, atrás dela, vinham também Carol, Jonas, Diana e Gabriel, o jovenzinho que havíamos resgatado na praia. Todos haviam recebido uma vista privilegiada da bunda de Ricardo, que estava de costas para o exterior. Eu me segurei para não rir, entretido entre a vergonha e a comicidade da cena. Ao parecer dar-se conta do que fizera, Tânia bateu a porta do furgão com toda a força, ansiosa por ocultar-nos depressa. Pude ver ainda a expressão de interesse de Carol, o olhar chocado e revoltado de Diana, a risada de Jonas, e a confusão de Gabriel.

— Por favor, me diz que eles não viram minha bunda. — pediu Ricardo, totalmente transtornado.

— Eles não viram sua bunda. — eu disse, rápido demais.

— Merda, todo mundo viu... — ele coçou a cabeça, envergonhado. Pareceu pensar durante alguns segundos, sem se afastar, contudo. — Quer terminar? — disparou, por fim.

Só lembro-me de ter dado uma risada em resposta. Porque, só depois de quase meia hora, pude lembrar meu primeiro nome...

Fernanda.

O tempo entre nossa despedida de Eloá e a chegada ao acampamento, pareceu muito maior do que quando eu percorrera a distância a pé, fugindo das aves zumbificadas. Victoria e Diogo seguiam em silêncio, e julguei que seria melhor não quebrá-lo. Envolvi meu crucifixo na mão direita, e rezei fervorosamente. Agradeci por minha vida, e pela dos gêmeos. E implorei para que, em toda a glória do Altíssimo, Ele pudesse receber Eloá e Rafael em seus prados verdejantes, finalmente unidos e a salvo. Era a minha única esperança. Minha fé era tudo o que eu tinha naquele mar de tristeza e morte. Era também minha única arma. Eu não sabia lutar, não sabia atirar, não sabia dirigir, e nem manipular as pessoas. Mesmo minha vida até aquele ponto, contrariava todas as expectativas do mundo atual. Mas como uma serva de Deus, eu sabia que tinha um papel a desempenhar, contudo. Eu ainda não podia enxergar meu propósito, mas sabia que não teria sobrevivido por tanto tempo, se não houvesse um motivo.

Sonolenta depois de ter virado a última noite, acabei fechando os olhos por alguns instantes. Quando acordei, já estávamos estacionando a camionete ao lado da ambulância. O Uno parou ao lado da van, e logo as crianças desceram do veículo, sendo abraçadas por Diana. Ana, Sabrina e Otávio também desceram e foram cumprimentados por todos. Aos poucos, notei que o pessoal percebia a ausência de Saulo e Julia. Quando eu desci da camionete seguida de Victoria e Diogo, todos entenderão. Eles jamais voltariam. Ninguém perguntou nada, ninguém esboçou reação. Em cada rosto, uma dor solitária se estampou, e enquanto alguns começavam a chorar, os outros simplesmente conformavam-se com mais aquelas perdas. Tânia se aproximou de mim em seguida, abraçando-me contra seu corpo rechonchudo e acolhedor. Ela também abraçou Victoria, e beijou a testa de Diogo. Depois, caminho até o corpo de Eloá, e o verificou. Todos se aproximaram do veículo, velando a amiga perdida. Tive um pequeno sobressalto ao notar Carolina ao meu lado. Ela sorriu para mim, mas o gesto não chegou aos olhos. Imaginei o que devia estar se passando em sua cabeça.

— O, que coisa horrível... — ela comentou. — Ela saiu do carro pra salvar a Nanda. Mais um sacrifício, em apenas dois dias. — certo, então ela estava querendo me culpar pela morte de Eloá. Eu sabia que alguém reagiria desse modo, mas não me deixaria ser provocada. — Ela era uma pessoa incrível, vamos sentir falta dela... — me surpreendi com a falsidade de Carolina. Ela não estava realmente lamentando a morte de Eloá. Estava me alfinetando!

— Você quer me dizer alguma coisa, Carol? — desafiei-a, minha voz mais séria do que de costume. Todos os olhares convergiram sobre mim. Percebi então que todos haviam percebido as intenções de Carolina, mas haviam ignorado. Ninguém esperava que eu fosse reagir. Mas eu estava em frangalhos, e não admitiria que alguém subestimasse meu amor por Eloá. Eu e Diogo havíamos sido os primeiros a conhecê-la, dentre todos ali. Somente Ricardo a conhecia há mais tempo.

— Eu? Dizer algo a você? Claro que não, Nanda! — reagiu Carol, com uma falsa surpresa. — Só é interessante o quanto você tem sorte! Deve ser alguma habilidade especial. Primeiro Rafael chega ao momento certo. E agora, Eloá. Sabia que às vezes eu te acho uma sortuda?

— Ah, sim. Obrigada. — rebati. — Sabia que às vezes eu te acho uma piranha?

Sem esperar resposta, disparei na direção oposta. Ouvir a risada de Otávio ecoando no ar, me fez sentir um pouco melhor. Ainda sem parar de andar, passei voando por Ricardo e Hugo, que saíam da ambulância com um ar de quem tem algo a esconder. Hugo tinha um curativo novo no pescoço, e estava sem camisa, com a calça jeans preta caindo por cima dos All-Stars amarelos. Ricardo usava uma blusa social azul-escura, muito bonita, juntamente com uma calça cinza e coturnos pretos. E estava armado. Os dois passaram direto por mim, indo para o bolinho de gente que havia se formado, enquanto eu me enfurnava na van de suprimentos, emburrada, chateada, e já arrependida por ter xingado Carolina na frente de todo mundo. Quer dizer, tirando Ana, ninguém tinha tido coragem de fazer o mesmo. E quando ela tentara o suicídio, eu havia feito o possível para salvar sua vida. Ela também havia lutado contra Arlindo quando ele tomara o controle do grupo, e havíamos passado por tanta coisa juntas... Mas ela estava diferente desde que Luca havia morrido. Talvez estivesse insegura sem ele, ou com medo de não sobreviver à viagem para Búzios. Eu não podia julgá-la. Estávamos a três dias parados na estrada, e havíamos perdido nada menos que quatro pessoas neste curto espaço de tempo. O que mais faltava acontecer? Eu só não podia entender o modo como Carol agia. Eu sempre tivera a impressão de que ela manipulava as pessoas, mas só depois daquela breve troca de farpas, eu havia percebido que ela podia ser realmente má. Havia algo ali, que poderia se tornar um problema ainda maior no futuro. Ou não. Talvez, como todos nós, ela só estivesse pirando com a viagem, e tudo ficaria bem quando encontrássemos o acampamento militar de Búzios. Ou ao menos, era assim que eu esperava.

Minha mente ainda dispersou-se por alguns instantes, e então me recordei da noite passada. Minha vontade incontrolável de comer pêssego. Parecera algo natural a princípio, mas agora pensando no modo como eu passara mal logo em seguida, aquilo não parecia estar certo. Sem mencionar que, no momento em que estávamos deixando o Trocado, eu sentira uma ânsia de vômito sem precedentes. E, por mais banal que isso possa ser em épocas de forte pressão e estresse, eu não havia menstruado desde então, e mesmo antes do ataque de Arlindo eu já estava atrasada. Se eu pudesse negar todos os sinais, ficaria muito mais confortável. Mas eu sabia, lá no fundo, que minha vida estava prestes a sofrer uma reviravolta. Uma mulher simplesmente sabe o que se passa no próprio corpo, e eu daria tudo para estar errada. Torturada pelos meus próprios medos chorei em silêncio, com a testa apoiada na janela. Ouvi a porta da van sendo aberta, mas não me mexi. Então vi Diana sentando-se ao meu lado, na companhia de Tânia. As duas estavam sorridentes, porém cautelosas. Perguntei-me o que estariam fazendo ali, e me dei por vencida, direcionando-lhes minha atenção.

— Oi, meninas. Vieram defender a Carol? — perguntei, desanimada.

— Oh, por quê? — indagou Diana, com uma expressão exageradamente chocada. — Na verdade, viemos prestar apoio a você. Não estamos interessadas em falar sobre a Carol.

— Por mais que eu não tenha nada contra ela, a prefiro onde está. Distante. — completou Tânia, categórica. — Mas, e você? Algum motivo para ter estourado tão facilmente?

-Meninas, eu preciso contar algo a vocês. — me rendi. E então despejei toda a história. Cada momento de dor, enjoo, vômito e vontade excessiva de ir ao banheiro. Tudo.

— Bem... O que pensar sobre isso? — Diana também estava confusa, e fitava-me com um olhar de profunda preocupação.

— Precisamos dar um jeito de conseguir um teste de gravidez de farmácia, quando passarmos por uma cidade. Até lá, é melhor que ninguém fique sabendo sobre isso. Queremos evitar burburinhos e pânico que a expectativa de um nenê traria. — explicou-me Tânia, atenta. Eu, por minha vez, apenas concordava, toscamente. — Não devemos demorar muito mais neste lugar, então fique tranquila. Ainda é muito cedo pra confirmarmos se é mesmo uma gravidez. Pode ser apenas um mal estar, ou resfriado.

— Mas se você quiser, também pode abortar. — surpreendeu-nos Sabrina, que acabara de chegar ao local. — É, gente, eu ouvi. Mas fiquem tranquilas. O segredo da ruivinha está a salvo comigo. Palavra de escoteira. — riu-se Sabrina, e senti certa aspereza em sua voz. — Um filho do Arlindo... Garota, você é muito azarada. Preciso discordar da Carol. De todo modo, eu me voluntario pra conseguir uns remédios com efeito abortivo pra você. Minha irmã mais velha abortou algumas vezes, quando eu era mais nova. Ainda lembro-me dos nomes. Qualquer coisa é melhor que ter um filho do monstro. Vai que a maldade passa pra criança?

— Sabrina, agradecemos pelo seu entusiasmo, mas não fale assim com a Fernanda. Nenhuma criança nasce marcada para o mal. Não a assuste. Certamente, se ela estiver grávida, terá um lindo bebê. — cortou-a Diana, irritada.

— Não estou profetizando nada. — defendeu-se Sabrina, erguendo os braços em rendição. — Mas porque não fazer nada quando podemos nos prevenir? Além do mais, um bebê só nos atrapalharia agora. Seria uma sentença de morte. Melhor evitar tudo isso. — ela continuou, até me olhar novamente. — E aí, vai querer os remédios?

— Sim. — respondi, antes que mudasse de ideia. A loira sorriu, e seus cabelos cortados choveram-lhe sobre o rosto, enquanto ela retirava-se da van.

— Não gosto dessa menina! — exclamou Diana. — E você não devia ter aceitado aquela proposta, Nanda! É um pecado mortal!

— A Sabrina pode ser um pouco... Incisiva, às vezes. Mas geralmente só quer ajudar. — apaziguou Tânia. — De todo modo, não há mal algum em trazer uns remédios. Fernanda pode nem estar grávida, inclusive. O melhor a fazer é voltarmos para nossos afazeres, e deixar isso quieto.

— Posso te fazer uma pergunta, Tânia? — indaguei, sem entusiasmo.

— Claro querida. — rebateu a enfermeira, ansiosa por me tranquilizar.

— Quando vocês chegaram ao Trocado, me lembro de alguém ter dito que haviam vindo de Búzios. E é lá onde queremos chegar. Vocês não teriam encontrado algum abrigo militar, ou centro de refugiados, se ele existisse? A coisa não estava muito ruim? — de fato, aquelas dúvidas eram algo martelando em minha mente. Apesar de ninguém mais parecer incomodado, eu tinha minhas reservas. Afinal, por que todos haviam fugido de Minas, para começar?

— Entenda querida: Nós não conhecíamos o Rio. O único membro do grupo que já havia viajado para a Região dos Lagos era Saulo, e mesmo ele não conhecia a cidade de Búzios inteira. Tem muitas praias, e apesar de pequena, tem muitos lugares onde um grupo poderia se manter, escondido. A parte que vimos, estava ruim, e é exatamente ela que estamos tentando evitar pegando a estrada onde nos encontramos. Estamos fugindo do centro, indo para os arredores. Chegamos ao Rio na esperança de escapar da loucura na qual Minas se transformou. O que vimos aqui, contudo, é mais do que esperávamos. Em Belo Horizonte, existiam muitos grupos de refugiados, disputando os suprimentos da cidade, matando uns aos outros enquanto os mortos devoravam o resto. Acredite, estamos melhor onde estamos. — narrou-me a mulher, docemente. — Eu perdi meus três filhos, e meu marido, nas primeiras vinte e quatro horas de infecção. Mas só um deles, foi morto por zumbis. A humanidade pode ser tão ruim quanto os seres que fazem parte do nosso mundo, agora. Como Arlindo nos mostrou, podem ser até piores...

Ela afagou minha perna, e pensativa, retirou-se da van. Diana tinha os olhos marejados diante do relato, e ainda me encarou por alguns segundos, apática. Logo, seguiu Tânia. Depois daquela conversa, que só me deixou ainda mais apreensiva e estática do que antes, acabei ajudando com algumas tarefas, e arrumando os pertences de todos com o grupo de limpeza, para que pudéssemos ir embora daquele lugar. Os gêmeos ajudaram-me a consertar o memorial de Madeline, e depois que Eloá foi enterrada ao seu lado, começamos a fazer também um para ela. Os túmulos de Julia e Saulo haviam ficado na capela onde haviam morrido, e para todos, ouvir a história sobre os Inumanos noivos encontrados no lugar, foi estarrecedor. Mesmo assim, os gêmeos e eu construímos duas cruzes de galhos secos, e as fincamos ao lado das de Maddie e El. Contra o sol vespertino, os dizeres escritos por mim numa fita de cetim azul, brilhavam.

"Estou com minha alma tranquila."

A frase, embora melancólica e pouco expressiva para a maioria das pessoas que a vissem, transmitia a mim uma série de significados e momentos, preservados para sempre em meu coração. Porque de fato, Madeline estaria em paz. Mesmo diante do mal no mundo, ela sempre se mantivera plácida como um lago intocado. Era uma mulher sábia, maternal, e extremamente corajosa. E aquilo era tudo o que restaria. Tudo o que valeria à pena lembrar. Começando a preparar nossa partida, Ricardo pediu a ajuda de Mozart e Diogo, para que retirassem a gasolina das motos que não haviam explodido no confronto com os bandidos. Os corpos dos mortos também foram revistados, e alguns capacetes, armas, cassetetes socos ingleses se uniram ao nosso arsenal. Com um pouco de nojo, também vi Diogo roubar a jaqueta de couro preto que um dos motoqueiros utilizava, com detalhes acolchoados nos cotovelos e costas. Vestia bem em seu corpo musculoso, mas ainda assim era meio absurdo vê-lo vestindo as roupas de um zumbi.

Para comer, também nos dividimos em turnos. Com Hugo ferido e alguns reparos a serem feitos no motor da van (que fora alvejada por alguns tiros na estrada), Ricardo decidiu que ainda ficaríamos naquele lugar por mais uma noite. Assim que o sol se pusesse, todos entrariam nos veículos e lá permaneceriam. Devíamos fazer o possível para evitar o retorno dos urubus do dia anterior. Apesar disto, no final da tarde vi-me sentada numa cadeira de praia aberta ao lado da camionete. Encostado nela, Gabriel conversava com Jonas, entusiasmado. O jovenzinho estava feliz por encontrar novos amigos, e mesmo sendo apenas um ano mais velha que ele (eu tinha dezesseis, ele quinze), podia ver a distância mental entre nós dois. Ele era muito entusiasmado, e pouco empolgante. Mas Jonas, com sua simpatia inigualável, fazia o possível para deixar o menino à vontade.

— E então, Gabriel, o que fazia antes dessa loucura? Como conheceu Saulo e seus amigos? — curioso Jonas tentava conhecer o menino, poupando-me de ter que perguntar eu mesma sobre suas origens.

— Ah, eu sou de BH também. Na verdade, foi minha mãe quem conheceu Saulo primeiro. Ela estava no mesmo shopping que ele e Julia, quando o surto começou. Os dois encontraram Clara com mais duas amigas freiras, Dimas, e Arlindo por lá, assim como minha mãe, Érica. Eles conseguiram escapar do shopping, e minha mãe convenceu todos a irem me buscar em casa. Eu estava sozinho, e acabei me escondendo com a família de Tânia, enquanto tentávamos entender o que estava rolando. No caminho pra lá, as amigas de Clara morreram, e eles encontraram Miguel e Sabrina, que estavam fugindo de um supermercado. Quando chegaram à minha rua, não foi difícil encontrá-los. Mas o filho mais novo de Tânia, o Celsinho de dez anos, foi mordido e acabou ficando pra trás. Sobraram ainda o Vinícius e a Marina, e também o marido dela, o Francisco. Eles eram meus vizinhos desde que eu me lembro, sabe? Nenhum deles sobreviveu ao nosso primeiro encontro com bandidos. Iguais àqueles de moto. Desde então, tem sido só nós, até que chegamos aqui e tivemos de nos separar. E agora, com Saulo, Miguel e Julia mortos, as coisas ficaram bem estranhas. Eu já desconfiava que Arlindo fosse mau, mas não tanto. Fico feliz que todos estejam bem. Principalmente você, Fernanda. — o rapaz olhou em minha direção, sorrindo. Acabei retribuindo o seu gesto, considerando que ele realmente estava se esforçando para agradar. E era bem fofo, também. Mas de um jeito "animal de estimação", e não namorado.

— Uau, cara! Que história! E eu que pensei que havia me ferrado no começo de tudo! — Jonas pensou por algum tempo. — Se bem que, eu fui mordido, né? Então tecnicamente, me ferrei mais sim. Podia ser um zumbi agora... — e não teve jeito, acabei rindo. Logo, os dois também estavam, e o clima ao redor descontraiu um pouco. Carolina passou por nós, acompanhada de Victoria e Otávio, e olhou-me como se quisesse pedir desculpas, mas ficou quieta. Fingi ignorá-la, embora estivesse chateada com nossa briga.

— Hey, essa morena é bem bonitinha... — reconheceu Gabriel, para minha irritação. Ele não tirava os olhos de Carolina, coisa que já me dava nos nervos, apesar de eu não ter nada contra beleza. O problema era que, não tínhamos maquiagem, nem tratamentos capilares, muito dificilmente esmaltes e escova de dente. Mas Carol era a única que não parecia precisar disso o tempo todo. Coisa que sinceramente, me frustrava ao extremo. — Será que tenho alguma chance se for pra cima? Me disseram que o namorado dela morreu...

— Acho melhor você ficar longe, irmãozinho. — interrompeu Jonas, de cara amarrada. Eu não estava acreditando nos meus ouvidos. — Eu já tô de olho. E pensando bem, não seria justo entre nós dois, né? Até porque, eu conheço a garota há mais tempo, e sei que você também se ligou em outra...

— De boa! — Gabriel levantou as mãos, desistindo na mesma hora. Mas ele não parecia ofendido ou irritado. Estava mesmo de bem com aquilo. – É, eu também curti outra garota, sim. Ela é mais cabeça, pelo que percebi. Vamos deixar isso entre nós, ok? — Jonas concordou com um gesto, e o cheiro de testosterona já começou a me enjoar. Aqueles dois de segredinhos e conversas sobre garotas estavam me irritando. Provavelmente fiz cara feia, porque eles mudaram de assunto.

Pouco depois, Carolina retornou sozinha, trazendo uma cesta cheia de frutas nos braços. Ao passar por Jonas, ela piscou pra ele, deixando-o com cara de idiota ao meu lado. Meu sangue ferveu com aquele domínio óbvio, e me preparei para o debate. Eu ia dizer umas poucas e boas para aquela magricela arrogante e metida à linda, quando um grito de cortar o coração se fez ouvir. Já estava quase na hora do pôr do sol, e todos tememos que fosse um ataque prévio de um bando de aves, ou de uma horda de zumbis. Ao invés disso, estavam todos em desespero, buscando a origem daquele som terrível. De armas em punho, Victoria, Ricardo e Diogo passaram por mim, enquanto eu segurava no braço forte de Jonas, nervosa. Ele próprio varreu o capim ao redor do nosso camping improvisado, com seus sentidos apurados. Logo, ele pareceu ouvir algo, e apontou numa direção, decidido.

— É por ali. Pessoal! — completou, gritando. — Por ali! Venham! — ele correu para a origem do problema, deixando a mim e Gabriel para trás. Nós dois nos entreolhamos, e corremos atrás dele também. Queríamos saber o que havia de tão grave naquilo tudo.

Enquanto corríamos através do acampamento, todos percebiam a comoção. O caminho que Jonas fez seguia uma trilha mal feita através do capim que nos cercava. Diogo e Sabrina haviam arrancado um pouco do mato para que pudéssemos “ir ao banheiro”. Só Deus sabe o quanto é esquisito falar nesse assunto. Resumindo, estávamos seguindo a trilha, quando Jonas parou mais à frente. Ele colocou um braço protetoramente à frente de Victoria, enquanto eu era ultrapassada por Gabriel, Ricardo e Diogo. O suspiro de surpresa que escapou de Vicky me denunciou que algo nada bom estava rolando. Logo, percebi a origem do problema. Deitada sobre o capim seco, Clara jazia morta, o corpo estendido quase que em posição de cruz. Ricardo examinou-a rapidamente, e não foram encontrados quaisquer vestígios de mordida de zumbi, ou animal mutante. Ao invés disso, duas pequenas perfurações revelaram-nos a origem de seu óbito. Uma mordida de serpente. Se mutante ou não, não soubemos, pois não a encontramos. Tratava-se apenas de uma fatalidade, que poderia ter atingido a qualquer um de nós. Até mesmo a mim e às crianças, na noite anterior. Com um calafrio, agradeci mais uma vez por estar viva, e peguei-me pensando em Dimas. Ele ainda não havia se aproximado de Clara, mas já devia ter dado falta de sua namorada. Seria horrível ver mais um casal partido. Sabrina atirou contra a cabeça da ex-freira morta, e desviei o olhar. Ao menos, agora era certo que Ricardo não permitiria que permanecêssemos ali. De fato, eu podia sentir-nos saindo das trevas, daquela noite sem fim...

Notas finais
Okay... Alguém aí está ansioso pra ver o que vem por aí? Comentem (se quiserem favoritar e recomendar também, ia ser massa, kkk), e logo, logo saem outros capítulos da nossa estória. Espero que estejam curtindo. É impressão minha, ou o fã clube da Carol anda crescendo? (sarcasmo mode: on). Preciso dividir com vocês que recebi duas MP's de leitores que não deixam reviews, mas disseram que querem muito vê-la morta, kkk... E você, concorda? Vamos abrir uma enquete, galera! Quem deve ser o "próximo" a morrer na fic? Será que os palpites estarão certos? :B

Kisses by DroppingPieces!