Quebranto.
35 Revólver de Batom.
Notas iniciais
Ana.
Os sons do choro de Dimas foram tão terríveis quanto o uivo de um animal ferido. Cada gemido gutural lançava espasmos e arrepios pelo meu corpo. Involuntariamente, meus olhos buscaram os de Sabrina. Ela também estava apavorada. E emocionada. Continha algumas lágrimas presas em seu olhar, sem ter coragem de fitar o corpo de Clara, que morrera de modo tão estúpido, que era quase difícil acreditar. Num mundo apocalíptico, mesmo ir ao banheiro parecia uma prova de fogo.
Incerta, aproximei-me de Otávio, que já se afastava da cena, desanimado. Ricardo e Hugo tentavam consolar Dimas, que se abraçava à sua amada. Quase uma reprise do que havíamos visto na igrejinha próxima ao nosso acampamento improvisado, quando Julia morrera. Eu sabia o quão doloroso devia ser para meu amigo presenciar aquilo tudo. Aquela viagem estava sendo muito cruel. Nunca antes nossos laços de afeto haviam sido tão testados. Eu era suficientemente esperta para entender que, aqueles de nós que perdessem a cabeça, tinham pouquíssimas chances de viverem o bastante para encontrar um local seguro. E, naquele quesito, Carolina me preocupava muito. Não me entendam mal. Eu sabia o tipo de vadia que ela era. Mas era nossa vadia, minha e dos nossos outros dois amigos. Diante de Luca, eu havia jurado perdoar Carolina por tudo que ela havia feito, assim como Victoria e Otto. Os cinco inseparáveis haviam tornado-se quatro, e não queríamos perder mais nenhum membro. O jeito sonso e agressivo de nossa amiga só faria mal a ela, e aquela situação devia recuar. Ou todos a veriam como um estorvo, e ela seria excluída. O que acarretaria em problemas para mim e para os outros, que acabaríamos indo contra o grupo. Algo nada agradável, nem saudável. Sabrina mesma parecia ter uma implicância com minha amiga. Além disso, ela e Diogo não se bicavam desde a missão de resgate na Secretaria de Obras de Cabo Frio. O modo como Sá havia me salvado e deixado os outros para trás, ainda incomodava o moreno tremendamente. E ele sempre fazia questão de lembrar essa falha. Eu não fazia ideia de como ele não se tornara hostil comigo, também.
A verdade é que, não fosse por Jonas naquela noite, tanto Diogo quanto Otávio estariam mortos agora. E a relação estranha que o Inumano desenvolvera com Victoria, devia tornar a lembrança de ter sido salvo por ele ainda mais dolorosa, para Diogo. Quer dizer, minha amiga e o careca eram muito próximos, como se as mudanças nos corpos de ambos os aproximassem em torno de uma cúpula de compreensão e certeza que nenhum de nós poderia transpor, por mais que fôssemos próximos à Vicky. Talvez nem mesmo ela percebesse isso, mas esse fato incomodava tanto Diogo, que chegava a dar pena. E eu, totalmente acostumada a ler emoções, sabia que em breve, isso viria à superfície, provavelmente testando a relação de minha amiga com sua primeira crise.
E por falar em crises, Sabrina estava me enlouquecendo. Seu jeito autoritário e repleto de atitude me incitava a permanecer calada, permitindo que ela tomasse todas as decisões importantes por mim. Mesmo nas horas mais cruciais. Eu sabia, e podia ver clara como água, minha função naquele grupo esmaecendo e se apagando enquanto o papel que Sabrina desempenhava entre nós só crescia. Eu me anulara de algumas formas, para evitar conflitos. Como eu sempre fazia, aliás. Otávio me alertara uma vez, a muitos meses, antes mesmo de toda a zona com a gripe do urso começar, de que um dia eu me arrependeria de ser alguém omissa por afeto. Era a recorrente história da minha vida. Sempre que me apaixonava, anulava minhas vontades em prol das dos outros. E como Sabrina era, apesar de boa namorada e gentil, extremamente possessiva e narcisista, estava mais do que satisfeita com aquela situação. Mas eu não, e aqueles mais próximos a mim percebiam isso. Eu podia imaginar o quanto Otto devia ter se segurado, para não jogar isso na minha cara. Tanto, que eu finalmente precisava desabafar, e me render. Nem que fosse para tirar o foco da morte de Clara, fazendo-o esquecer da morte de Julia, por tabela.
— Precisamos ir embora daqui. – ele murmurou, assim que me aproximei. Perguntei-me se ele me percebera chegando, ou se não se importava com quem estivesse ouvindo, falando a esmo. Duas hipóteses prováveis.
— Eu concordo. – anui, amarrando meus cabelos num rabo de cavalo mal feito. – Não sei o que fazer com a Sabrina, Otto... Ela simplesmente não percebe o quanto me irrita tratando-me como um homem trataria uma namorada mimada e estúpida.
— Há, eu sempre achei a Sabrina um pouco machona demais, mesmo. Sabe, acho que ela usa toda essa personalidade, pra se proteger do mundo. O problema, é que ela acaba tendendo a querer controlar tudo e todos, pra que ninguém possa feri-la. Triste te dizer isso, mas ela ainda vai te dar dor de cabeça... – meu amigo respondeu visivelmente cansado. Era fácil notar seu esforço em me dar atenção, mesmo destroçado por dentro. Eu acabei por amá-lo ainda mais.
— Eu sei, mas é difícil admitir que mesmo sabendo de todos esses defeitos, ainda amo aquela chata... – falei queixosa. Ele sorriu.
— Então, aproveita Ana. Aproveita que tu não sabes até quando vai durar... – sem dizer mais nada, Otávio caminhou em direção ao Uno, entrando no veículo sem olhar para trás. Fiquei parada observando-o, e mesmo sabendo que suas palavras não tinham sido maldosas nem cruéis de propósito, uma sensação agourenta aqueceu meu peito. Porque ele dissera simplesmente a verdade. E aquilo sim, significava muito...
Hugo.
— Nem fodendo eu fico mais um dia perto de vocês! – gritou Dimas, as veias e tendões em seu pescoço brilhando vermelhas. – Em poucos dias na companhia de gente que nem vocês, eu vi mais morte e desgraça do que em meses com Saulo, e na praia! Vocês dão azar! Minha Clara está morta, e nenhum de vocês dá à mínima! — Dimas não estava falando com alguém em específico, mas estava xingando todo o acampamento. Todos nós.
— Que isso, cara! Deixa de bobeira. – pediu Gabriel. – Eles foram muito legais com a gente. Estão cuidando de nós, e trataram a Clara com todo carinho...
— Ela morreu por nada! – berrou o homem, transtornado.
— Ela foi mordida por uma cobra venenosa, irmão! Te garanto que o bicho não escolheu quem ia picar. Ela deve ter pisado na serpente sem querer, ou algo do tipo. Mesmo antes dos zumbis esse tipo de acidente já acontecia na roça. – alertou-o Jonas, sensato. Fernanda, Diogo, Victoria e Rico apenas observavam tudo, estupefatos. Sabrina estava abaixada ao lado do corpo, despedindo-se da amiga. Eu, ao contrário, estava prestando atenção em Otto e Ana, conversando um pouco afastados de nós. Pouco tempo depois meu amigo se afastou, indo em direção a um dos carros. Curioso, imaginei que ele devia estar muito mal com todo o lance de Julia e Saulo. Mais do que qualquer outro de nós. Para ele, a garota significava a esperança de normalidade naquele turbilhão.
Inconformado, Dimas recusou-se a ouvir qualquer um de nós. Contrariando os pedidos de Ricardo para que ele procurasse Tânia, o homem teimoso rumou até o uno, trancando-se lá em desespero. Através da janela do veículo, o vi colocar a cabeça entre as mãos, contendo o transtorno que o abatia com aquele gesto claro de desilusão e desespero. Sentimentos já habituais em nossos dias. Desanimado, peguei-me subitamente desejando que aquilo tudo acabasse. Que de alguma forma, os mortos parassem de voltar à vida, e os animais deixassem de sofrer mutações escabrosas. A ardência no ferimento em meu pescoço lembrou-me o quanto eu estava cansado. E triste. Sem me atrever a encarar Ricardo, posto que ele perceberia facilmente todos estes sentimentos em mim, me afastei daquela cena digna de cinema, e tentei não fitar o corpo de Clara no processo. Tantas mortes... Qual o sentido? Parecia haver uma força maior do que nós, brincando com nossos destinos em suas mãos esqueléticas. Lançando aos céus os tons púrpuras e escuros que julgava apropriados para acompanhar nossa viagem. As saudades de nosso antigo refúgio eram inevitáveis, e naquele lugar sem nome, no meio de lugar algum, senti medo real da morte pela primeira vez. Não medo de morrer, mas de deixar este mundo sem realizar algo grandioso, ou importante. Medo de simplesmente deixar de existir, de maneira tão fútil quanto Clara, que só queria ir ao banheiro.
Pensar em mim mesmo como um peso, foi inevitável. Apoiei-me na van de suprimentos, enquanto Nanda passava ao meu lado acompanhada por um Gabriel abalado, indo juntar algumas coisas que havíamos utilizado para improvisar uma refeição. Sem pedir opinião alguma, Ricardo decretara o fim do acampamento na beira da estrada. Falando com ninguém em particular, ele ordenara que todos colaborassem para que pudéssemos sair dali o quanto antes. Falara de uma maneira autoritária e fria, como nunca antes eu presenciara. Em poucos minutos, todos estavam focados em ajudar na partida, mas meu ferimento me impedia de carregar algum peso, ou me abaixar muitas vezes. Tânia quase surtara ao ver-me com uma caixa de roupas nos braços, pedindo no mesmo instante que Ricardo a tomasse de mim. Ele próprio também me repreendeu, pois já havia pedido que eu deixasse os outros trabalharem, o que eu fingi não ter ouvido. Acabamos eu, Victoria e os gêmeos, sentados no meio do acampamento que se desmontava ao redor. Forramos uma toalha xadrez na grama seca, e improvisamos um local de descanso. O ombro de minha amiga ainda doía muito, por causa da mordida de zumbi que ela levara, e que abrira uns hematomas terríveis na região afetada. Por isso, Tânia também a barrara, com o aval de Diogo. Silenciosos, nós quatro acompanhamos o restante de sol que o fim de tarde nos oferecia, sentindo aos poucos, e grau por grau, a temperatura cair em parafuso. Estava ficando cada vez mais frio.
Vicky leu a estória de Bela Adormecida para Vilma, que era apaixonada pelos contos dos Irmãos Grimm. Dino fingira estar chateado com aquela infantilidade toda, mas depois que a maldição da bruxa foi lançada, acabou prestando atenção à narrativa como qualquer garoto normal. Tive que rir da situação. Ainda mexido com aquelas mortes, acabei refletindo sobre coisas inúteis, e coisas sérias. Pensei no que meus pais diriam sobre eu e Ricardo estarmos juntos, caso estivessem vivos. Pensei em como seria bom ler um livro que não fosse roubado de alguma loja de conveniência destruída, ou assistir um filme com uma bacia de pipoca. Ah, e obviamente, um banho também seria bom. Fazer sexo no meio do nada, sem nenhum chuveiro disponível para se limpar depois, não é nada higiênico, nem maneiro. Anotem aí.
Depois de quase uma hora, o movimento no acampamento se dispersou. Todos estavam prontos para partir, mas um silêncio opressor se instaurara. Ninguém estava animado, ou exigindo sair daquele lugar terrível imediatamente. Com Vilma dormindo com a cabeça deitada em meu colo, e Dino apoiado em Victoria, nos viramos na direção de Diogo, que fazia cara feia por algum motivo. Ele passou direto por nós, indo em direção ao Uno. Pouco depois, Sabrina também passou correndo, acompanhada de perto por Jonas. Eu estava com uma frase interrogativa pronta na boca, quando Ricardo me fez engoli-la, sentando-se ao meu lado na grama. Victoria sorriu carinhosamente para ele, e Rico acariciou os cabelos avermelhados da linda menina em meu colo, antes de se virar para nós, ansioso.
— Dimas não quer sair. – ele disse, sem mais nem menos. – Pelo menos não com a gente. – explicou depois. Em seus olhos, vi mais cansaço e dor do que gostaria. Como eu adoraria poder retirar aquele fardo de liderança de cima dele. Nenhum dos outros sofria tanta pressão para agir e pensar corretamente o tempo todo. Todos queriam respostas de Ricardo. Queriam conforto, e preocupavam-se muito pouco com o que ele sentia. Isso me deixava imensamente irritado com nossos amigos, às vezes. Mas Rico os amava, e eu também. Isso acabava compensando, no final.
— Mas como assim? – eriçou-se Victoria. – Ele quer seguir viagem sozinho?!
— Está histérico. – confirmou Ricardo. – Disse que ficar com a gente dá azar, e deve dar mesmo. Está exigindo o Uno e uma caixa com enlatados, e quer uma arma também... – Ricardo esfregou o rosto com uma das mãos, falando baixo para não acordar nenhum dos gêmeos. – Eu acho até que podemos deixá-lo, mas ficaríamos muito apertados com um veículo a menos. Sabrina está conversando com ele, pra tentar contornar a situação. Jonas está tentando controlar Diogo. Ele ficou furioso.
— Ah, inferno! – resmungou Victoria, levantando-se rapidamente. – Vou tentar acalmá-lo. E você, tome conte do Dino, Rico. Precisa descansar. Hugo também sabe disso, e qualquer um pode perceber que você não está bem. – nossa amiga piscou seu olho branco para mim, e tive que sorrir de volta. Ela parecia ter lido meus pensamentos. O que só me fez gostar dela ainda mais. Ela retirou-se apressada, tropeçando em seus próprios pés por causa do salto de sua bota de couro. Ri, pensando que Vicky devia ser a única Inumana capaz de ser desajeitada.
— Então... Está tudo bem? – Ricardo sorriu torto enquanto tentava captar a verdade em meus olhos. Ele saberia se minha resposta fosse condizente com o que meu coração dizia.
— Não sei se algum dia vou estar totalmente bem. – admiti num tom fraco. – Percebeu como todos reagiram hoje? – senti um bolo se formar em meu peito, e fechei os olhos brevemente. – A morte está se tornando parte do nosso cotidiano, Rico. Nem mesmo as crianças se espantaram. A cada um de nós que se vai eu sinto o pedaço da gente morrendo também. Será que vale à pena viver num mundo assim? – só então percebi que estava chorando. Quando minha voz falhou na última frase. Ricardo continuou me olhando por algum tempo, e então me beijou.
Levei um susto, pois eu sabia que sendo o líder do grupo, ele não gostava de demonstrações de afeto exageradas na frente de nossos amigos. Apesar de nenhum deles ter feito qualquer comentário depreciativo (nem mesmo Mozart e Diana, que eram evangélicos, ou Nanda que era católica), ou ter se mostrado incomodado conosco. Mas esse era o Ricardo tímido e reservado com o qual eu crescera e me apaixonara, de modo que eu já aceitara aquela situação naturalmente. Seu gesto de aproximação e mais do que afeto, na frente de todos, foi surpreendente e estarrecedor, ainda que bem-vindo. O abracei e Vilma se remexeu em meu colo. Então recuei, sorrindo. Ele ria, também, segurando Dino com um de seus braços.
— Uma vez, antes de tudo isso começar, você me disse que viver é um presente, e que eu devia parar de me reprimir por causa do que as pessoas pensavam sobre nós. – lembrou Rico.
— É verdade, eu disse. Mas o que tem isso a ver? – indaguei num súbito ataque de idiotice.
— Não é óbvio? Desculpe, pensei que estava sendo claro... – brincou, aproximando-se de mim com um sorriso malicioso. – Momentos como aqueles na ambulância me dão a resposta para a sua pergunta. É claro que vale à pena viver. Pelo menos pra mim. Apesar de tudo que passamos você está aqui. – e foi assim, que descobri que Ricardo também podia falar sinceramente sobre sentimentos. Ele sempre fora tão tímido quando amor era o assunto, e a bem da verdade eu nunca esperara tamanha sensibilidade de sua parte. O abracei levemente, e anui com um gesto de cabeça.
— É verdade. Desculpe por ser idiota. – relaxei, sorrindo. Ele preparou-se para dizer algo, mas então um grito e um estampido foram seguidos do som de um motor ligando e pneus arrancando. O que diabos estaria acontecendo?
Deus, de novo não, por favor.
Notas finais
Kisses by DroppingPieces!
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