Quebranto.
19 Quando as pontes ruírem...
Notas iniciais
Capítulo dedicado à LuisSinistro e Sir Moreira!
Victoria.
Pouco depois de tomar meu café da manhã, Jonas me contou que precisaríamos partir logo. Eu não entendi o motivo de sua preocupação, até perceber os zumbis que começavam a notar o casebre onde estávamos. Eu não conhecia o lugar muito bem, mas deviam ser os arredores do centro de Cabo Frio. Estávamos bem próximos da praia das Dunas, pois reconheci os montes de areia ao longe. A favela do Trocado não ficava longe, mas precisaríamos passar pela “zona de risco”, onde se concentrava o maior número de mortos. Aquele era o único caminho que eu conhecia, pelo menos. Mais seguro de si, meu novo colega estava empacotando nossos itens indispensáveis. Seus instintos apurados o faziam deslizar pelo cômodo sem esbarrar em nada apesar de seu corpo grande. Colocou a arma que roubara do corpo de um policial dentro de sua mochila, apanhou alguns saquinhos de comida desidratada, e puxou o zíper. Eu nem queria saber de onde ele teria tirado toda aquela comida ruim. O importante era que, nos últimos dois dias, ela havia me mantido alimentada. E depois de ignorarmos o cheiro e o gosto, não era lá tão ruim. Terminei de beber a latinha de Coca-Cola quente, e a joguei num canto, amassada. Levantei, e coloquei meu braço enfaixado contra a luz que se infiltrava pelas frestas da janela, que havia sido reforçada precariamente com tábuas de madeira. O corte em minha mão estava bem menos dolorido, e parecia ter melhorado significativamente. Já a mordida, ainda latejava o tempo todo, e mesmo os analgésicos que eu havia tomado, pareciam ineficazes em isolar tamanha dor. Considerando que eu devia estar morta, não me atrevi a reclamar nem uma só vez.
Quando finalmente saímos do casebre, me assustei com a ferocidade de Jonas. Com um simples pé de cabra, ele caminhou entre os zumbis, derrubando um atrás do outro com um simples golpe. Os crânios pútridos murchavam e estouravam como melancias podres, e não me atrevo a descrever o nojo que senti quando os cérebros esverdeados pela putrefação espirraram e atingiram meus pés, providencialmente cobertos pelas botas de couro preto que Jonas me trouxera no dia anterior. Em outra época, eu teria considerado meus sapatos perfeitos para o inverno, mas no presente, quando maior o cano da bota, melhor. O couro era um material difícil de rasgar com dentes humanos, e para as mulheres, as botas eram uma proteção elegante e necessária. Seguindo Jonas de perto, não precisei mover um músculo para nos proteger, e logo estava segura dentro da van. Ele entrou logo depois, arfando. Suor escorria do seu pescoço, e ele parecia cansado enquanto se limpava do sangue com uma toalha de rosto, que mantinha no carro. Ele me olhou brevemente, dando a partida no motor, e saímos triunfantes daquele refúgio condenado.
Até que tudo deu errado. Parece brincadeira, mas nada funciona completamente certo, no Apocalipse. Essa é uma regra a ser lembrada. Se algo puder dar errado, como diria a Lei de Murphy, vai dar errado. Então, esteja sempre preparado pra correr muito, e lutar por sua vida. Nós não estávamos. A nosso veículo enguiçou no meio da estrada, enquanto ainda nos preparávamos para tomar o rumo do morro. Parados no meio de uma rua que nenhum de nós conhecia, começamos a nos desesperar. Eu, principalmente. Pensamos em aproveitar o incidente para descansar e dormir um pouco, já que não havia nada a se fazer. Quando acordamos no meio da tarde, havia quatro mordedores cercando. Jonas desceu e os matou, com pouquíssimo esforço. Nosso maior problema era que não conhecíamos nada daquela parte da cidade, e até que encontrássemos algum veículo, teríamos que invadir alguma loja, ou casa. A rua tinha poucas residências ocupadas, a maioria era de veraneio, e estava vazia. De dentro da van, contamos três estabelecimentos comerciais do bairro suburbano. Nossa melhor opção seria uma lan house um pouco mais afastada. Não era o estabelecimento mais perto, mas comparado a um bar e uma igreja, era o que tinha menos chances de estar ocupado por errantes.
— Precisamos ir agora, antes que anoiteça – recomendou Jonas, já se preparando. – Você coloca a mochila com os suprimentos, e eu limpo o caminho.
— Preciso de algo pra me defender. – protestei.
— Eu te protejo. Confia em mim. – minha expressão incrédula o fez sorrir. – Diabos, sei que falei besteira. Mas precisamos trabalhar nisso. Quero mesmo que confie em mim. – ele abriu a mochila dos suprimentos, e me entregou a trinta e oito, do policial. – Tem quatro balas. Não dispare à toa. Já está destravada. – anui com a cabeça, me preparando para sair do carro.
— Se eu cair, não me deixe para trás. – brinquei, tentando descontrair.
— Você ganhou um upgrade viral, gata. Não vai cair. – volveu Jonas, me dando uma piscadela.
Ignorando as piadinhas dele sobre minha curiosa imunidade à infecção, abri a porta do carona fiquei de pé na rua deserta. Não havia o menor sinal de que alguém um dia estivera naquele lugar, com exceção dos cadáveres caídos ao redor da van. A pistola na minha mão parecia bem mais leve do que eu me lembrava, e eu sabia que não corria mais o risco de deixá-la cair, ou disparar por acaso. Mesmo quando, ao caminhar, notei rachaduras no asfalto e lembrei-me que em outro tempo as evitaria inconscientemente, permaneci inalterada. Não contei os passos, não contei as casas, nem veículos no caminho. Parei de andar com um soluço de surpresa. Meus olhos se encheram de lágrimas, e percebi com enorme satisfação, que estava curada. Meu TOC se fora, assim como a cor dos meus olhos. Jonas continuou andando, e não viu o meu rosto, nem percebeu que eu parara. Com uma alegria deslocada para a situação, me apressei por segui-lo, chegando a ficar ao seu lado. Trocamos um olhar amistoso, e continuamos nosso caminho. Até que foi a vez dele de parar feito um bobo.
— O que houve Jonas? Viu o fantasma da Hebe, por acaso? – indaguei confusa. Aliás, eu estava me sentindo muito assim, nos últimos dias.
— Lembra que os bichos também viram? – fiz que sim, sem compreender seu medo. Então Jonas ergueu a mão direita, e apontou para os fios elétricos acima de nós. Seguindo seu gesto, focalizei os antigos postes de luz, agora relíquias obsoletas. Nos fios que ligavam uns aos outros, no mínimo trinta pombos nos vigiavam.
— Pombos. Não ferra Jonas! – reclamei, sem conseguir acreditar naquilo. Minha voz saiu um pouco mais alta do que eu planejara, e os bichos perceberam.
— Corre! – gritou Jonas, me puxando pelo braço. Quando começamos a correr, as aves zumbificadas se ergueram numa revoada ameaçadora. – Esses desgraçados continuam tão irritantes quanto antes, só que agora eles podem comer a gente!
— Pelo menos eles não aumentaram de tamanho! Você devia ter visto as vespas! – falei, com o fôlego me faltando. – Insetos, cães, pombos! O que mais falta?
— Tem os ratos e as cobras também! Esses eu já encontrei algumas vezes! – Jonas falava comigo sobre o ombro, quando vi um errante saindo de baixo de um carro queimado estacionado de mau jeito na rua. Provavelmente era um perdido, que havia ficado quase inativo, até ouvir nossa barulheira. Ele agarrou a canela de Jonas, mas meu amigo apenas chutou a cabeça do zumbi careca, que o largou pelo impacto. Eu praticamente pulei sobre o cadáver, o coração palpitando de medo.
Chegar à lan house foi apenas a solução da primeira parte do problema. Os pombos eram alvos rápidos e pequenos demais pra que eu conseguisse acertar de longe. Nunca havia aprendido realmente a atirar. O problema era que o bando estava chegando cada vez mais perto. Movida pelo instinto mais bruto de sobrevivência, disparei contra os animais duas vezes, derrubando duas das aves. Meus tiros haviam sido certeiros. Quando me virei na direção de Jonas, ele me encarava com um sorriso, e uma expressão cômica no rosto. Com seu pé de cabra, arrebentou a corrente fina que prendia o portão da loja. Nosso momento breve de empolgação foi quebrado pelo desespero, e entramos no terreno. A entrada da loja era bloqueada por uma porta de correr, então Jonas tomou a arma da minha mão, e disparou contra o pequeno dispositivo metálico que a prendia, puxando a porta para cima em seguida. O acompanhei para o interior, e assim que fechamos a porta de vidro, fui surpreendida por um pombo que bateu de cara na porta, espatifando-se. Havia sangue para todo o lado, e os outros pareciam chocar-se de propósito contra as portas de vidro, tentando quebrá-las ou achar alguma brecha. Eu e Jonas segurávamos as alavancas, lutando contra as pancadas dos bichos. Esperar até que se acalmassem não era uma opção, afinal estavam mortos. Não se cansariam nunca.
— Segura as portas, Victoria! – gritou Jonas, o suor transbordando por seu rosto. – Eu vou ver se consigo arrastar alguma coisa e bloquear as portas. Aguenta aí.
— Tá de sacanagem, né? – exclamei desesperada. Eu sabia que nunca havia suportado tamanho peso sozinha, quem diria suportá-lo para salvar minha vida! Quando Jonas retirou seu peso, me pus de costas para a porta, e escorreguei para o chão, bloqueando-a com meu corpo. – Anda logo, Jonny!
— Aqui! Achei! – Jonas agarrou uma estante e começou a arrastá-la na minha direção. Era uma prateleira com diversos jogos de vídeo game, e miniaturas de brinquedos japoneses. Figurinhas, cards de Yugi-oh, Pokémon, Magic. Chaveiros do Mario, Naruto, Bleach. Figuras de Ação dos X-Men, e dos Simpsons. Tudo rolou pelo chão, amontoando-se como marcas de um passado distantes. Pisoteando os brinquedos, Jonas conseguiu empurrar a prateleira contra a porta. Nosso maior medo se mostrou infundado quando as aves não conseguiram derrubar a estante. Cansada, esfreguei meu peito. Minha garganta clamava por água, e fiquei feliz por ter levado a mochila comigo.
Eu e Jonas dividimos uma garrafa de água, e eu nem me preocupei em verificar o lugar por inteiro. Deitei no chão repleto de brinquedos e enfeites, respirando fundo. Aquele simples ato involuntário, foi capaz de me dar prazer. Por ter escapado. Mais uma vez. Minha mão esbarrou em algo pontiagudo, e distingui um boneco do Wolverine. Meu irmão, Carlos, amava os X-Men. Lembrando-me dele, senti nostalgia por um momento. Convenci a mim mesma de que os veria de novo, e que a partir daquele dia, consideraria isso como algo já realizado. Encontrei guardando o bonequinho na mochila, bem como todo e qualquer membro ou inimigo dos X-Men que pude encontrar. Se o mundo havia acabado, não havia problema em roubar. Além disso, eu tinha certeza de que o dono anterior daqueles brinquedos era um nerd de quarenta anos, que devia ter morrido sentado no sofá da mãe, com quem ainda morava.
— Essa mulher aqui é dos X-Men? – indaguei, sacudindo uma peituda de cabelos castanhos. Jonas me fitava como se eu fosse louca. Acabou sorrindo.
— Ela é sim. Chama-se Lince Negra. Ela atravessa paredes. – contou-me Jonas, deitando-se ao meu lado. Toda a loja tinha paredes acinzentadas, e havia um carpete preto no chão. Um pequeno balcão se estendia na extremidade oposta do único cômodo, com uma porta atrás de si que devia levar a um banheiro ou escritório. Uma escada em metal caracol do outro lado levava ao segundo andar.
— Baita poder útil, seria esse. – observei, imaginando que não precisaríamos ter passado tanto sufoco, se fôssemos mutantes. Acabei rindo quando percebi que de fato, éramos. – Quem inventou os mutantes teria vergonha de nós. Não era pra termos super-poderes?
— Em terra de cego, quem tem um olho é rei. – citou Jonas, com uma voz teatral. – Nosso poder, é não ter morrido. Isso já é alguma coisa. – objetou.
— Verdade. – me distrai por alguns instantes, até que percebi que estávamos em um lugar infestado de computadores. – Será que conseguimos entrar na internet? – sonhei.
— Mesmo que em algum lugar as usinas elétricas tenham se mantido funcionando, assim que ligarmos esse monte de computadores, vamos mandar um sinal direto pras antenas das nossas amiguinhas. Aí as coisas vão ficar um pouco mais complicadas. – respondeu-me Jonas, desanimado.
— Eu queria saber o quê nos tornou diferente dos outros... – comecei, mudando de assunto. – Hoje percebi que voltar da mordida, me curou de um pequeno distúrbio mental. Eu tinha TOC. – falei, feliz por poder me referir ao meu antigo problema no passado.
— Sério? – Jonas ficou em silêncio. Depois de alguns minutos, começou a rir. – Eu era esquizofrênico. – disparou. Chocada, não senti meus lábios se abrindo até que de fato, eles estavam abertos. – Acho que as doenças mentais, de alguma forma, nos tornam mais propícios a voltar. É uma ideia estúpida, mas é uma ideia. É claro que eu não quero ver mais ninguém sendo mordido, pra poder testar!
— Com certeza. – ri. – Até porque, não somos cientistas. – ficamos em silêncio por algum tempo, e depois Jonas verificou o lugar. Estava vazio.
O dia havia sido totalmente diferente do que eu havia imaginado. Além de não termos chegado ao Trocado, estávamos perdidos e sem qualquer plano que pudesse nos ajudar a voltar para o lugar desejado. Precisávamos de um veículo novo, e também de um lugar de onde pudéssemos retirar alguma comida. Sem mencionar os pombos e possíveis errantes que haveria nas ruas, no dia seguinte. Resumindo a questão, eu estava mais uma vez lascada. Totalmente ferrada. Aquilo já estava virando um hábito, então sinceramente, nem me incomodei muito. Quando usei o assento de uma das cadeiras de computador como travesseiro, a única coisa que martelava em minha mente, era que naquele momento, todas as pontes estavam começando a ruir. Eu estava mais distante do meu antigo grupo, do que estivera desde a queda na mansão Shepard. Também não sabia aonde nossa busca poderia nos levar, nem quanto tempo demoraria até que eu conseguisse chegar ao Trocado. E se, quando eu enfim os encontrasse, a maioria dos meus amigos estivesse morta? E se tudo houvesse sido destruído? Eu só podia contar com a esperança, e mesmo ela, estava me desapontando. Eu sempre ouvira que ela era a última a morrer. Não que era imortal.
Notas finais
Dropping.
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