Quebranto.

20 Cidade dos Ossos.


Notas iniciais
Bom, quero primeiramente agradecer a todos que estão deixando reviews, acompanhando favoritando e principalmente, me enviando sugestões INCRÍVEIS por MP!!! Quero também aproveitar pra dizer que acabei de abrir seis vagas para as seis primeiras fichas que me forem enviadas por review, pelos leitores. Se vocês tem em mente algum personagem, preencham a ficha e me enviem. Eles entraram na história em breve.

Ficha de Personagem:

Nome(brasileiro):
Idade:
Profissão:
Estado de Origem:
Parentes(se tiver):
Aparência(pode ser foto ou escrito, tanto faz):
História(desenvolva o perfil psicológico e a vida pregressa do seu personagem):

Bem, é isso! Aguardo as fichas!

Agora, boa leitura...

Fernanda.

Toda a briga entre Ana e Carolina, havia me deixado assustada. E também dividida. Eu havia aprendido a gostar de Carol, e havia desenvolvido um apreço especial por ela e seu senso de humor, mesmo que só o visse brevemente, desde que ela chegara ao acampamento. Por outro lado, eu sentia a mesma dor de Ana. Sabia que ela se sentia na obrigação de defender a memória de Victoria, e ver o namorado da amiga com outra, poucos dias após sua morte, devia ter passado de todos os seus limites, até então represados. Nem mesmo a morte de sua irmã rompera a barricada presa em seu interior. Eu a sentia como uma barragem rompida, desaguando contra uma floresta, indefesa. E de fato, era exatamente isso que ela estava fazendo.

O pior de tudo era que eu sabia exatamente a quem minha revolta devia ser direcionada. Luca. Era ele quem mais errara desde o início, permitindo que Carolina mantivesse esperanças, e alimentando-as com a morte de Vicky. Eu sempre fora uma garota religiosa, mas naquele momento sentia vontade de socar a cara de Luca até vê-lo sangrar. Agarrei meu crucifixo com força, quando vi Ricardo separar as duas no refeitório. Rezei ao Senhor para que harmonizasse o grupo, e de alguma forma, Ele ouviu minhas preces. Justo quando achei que a confusão estivesse prestes a se encerrar, já que Eloá e Rafael mudariam de casa com Carolina e Luca, algo muito mais inusitado ocorreu. O som inconfundível de buzinas encheu o ar. O susto que eu levei me fez emitir um palavrão que não me atrevo a repetir aos leitores. Meus cabelos cobriram meus olhos, quando me virei bruscamente na direção do portão. Uma Kombi adentrava nossos limites, e as meninas fecharam os portões antes que algum errante ou animal invadisse o acampamento.

O veículo parou próximo a nós, e todos ficamos em silêncio sem saber o que esperar. Os faróis fortes se apagaram, e um homem saiu da Kombi. Era Diogo quem havia retornado. Além de sua volta ser extremamente improvável, era também impactante. Ele havia sobrevivido sozinho, e retornara com um automóvel maior do que o que levara. E cheio de suprimentos. Diogo estava coberto de fuligem, em um estado deplorável. A regata branca que vestia, parecia mais cinza e vermelha, devido ao sangue e a poeira que acumulara. Com os braços fortes cobertos por uma jaqueta de couro, toda marcada de mordidas, parecia mais um bad boy pós-apocalíptico, do que sobrevivente. Provavelmente havia encontrado alguma loja de artigos esportivos no caminho, pois trajava botas e uma calça propícia para acampamento, e trilhas na mata. As botas tinham um cano longo que lembrava o de coturnos, para impedir possíveis botes de serpentes do mato. Naquele caso, eram úteis contra errantes que estivessem escondidos, ou deitados no chão, como se definitivamente mortos.

— É assim que me recebem de volta? – reclamou Diogo, emburrado. – Talvez fosse melhor eu voltar lá pra fora, com minhas coisas...

— Foi você quem quis ir embora, Diogo. Não o esperávamos de volta. – disparou Ricardo, franco.

— Não sei como você esperava ser recebido, mas o choque superou qualquer simpatia, quando te vi chegando. – confessou Eloá. – O pessoal viu o carro que você levou abandonado e cheio de sangue, há alguns quarteirões daqui. Pensamos que pudesse estar morto.

— Ah, eu fugi. O sangue era de alguns mordedores malditos. Acabei entrando naquele mercadinho de novo, e achei a chave da Kombi no bolso de um daqueles moleques que deixamos pros zumbis. – Luca, Rafael e Eloá, ficaram tensos. Apesar de todos terem descoberto de uma forma ou de outra sobre o ocorrido, aquele era um assunto tabu no Trocado. A habilidade de Diogo em divulgar esse tipo de assunto como algo corriqueiro, sempre irritara a todos. – Ou pelo menos no que restou das roupas e deles, em geral. Bom, mas isso é o menos importante. – “Claro. Profanar mortos era algo super tedioso!”, pensei, imaginando que aquele maluco não existia. Eu orava pra que Deus tivesse piedade da alma daquele homem, quando ele morresse. – O que importa é que achei uma loja de camping, e roubei uns brinquedos bem interessantes. Resolvi voltar, depois que esfriei a cabeça. Sei que vocês precisam de ajuda. Se me aceitarem, planejo me desculpar por ter sumido.

— Se desculpe com Victoria. – a frase chocou a todos. Sua origem, mais ainda. Ao lado de Madeline e Hugo, Dino fitava Diogo com os olhos cheios de lágrimas, furioso. – Você foi embora, e ela teve que se arriscar lá fora. Agora ela tá morta. Se desculpa com ela. – repetiu.

Como é que é? – o rosto de Diogo, estava lívido. Ele se voltou na direção de Luca, que não o olhou nos olhos. Depois, seu olhar perturbado encontrou o meu. Emocionei-me, e confirmei com a cabeça. Uma lágrima escapou do meu olho esquerdo, e a sequei rapidamente. – Maldito. Eu vou acabar com você. – antes que alguém pudesse fazer alguma coisa, Diogo estava derrubando Luca no chão, com a boca sangrando. Ele nem fizera menção de se defender.

— Para! Alguém o ajude! – gritou Carolina, chorando.

— Deixe que eles se resolvam. – agora era Vilma quem estava falando. Meu coração se apertou. O quê estava acontecendo com aquelas crianças?

Isso não está certo. Meninos não são assim que fazemos as coisas! – protestei. – Tiago ficaria muito aborrecido, com tanta violência!

— Nosso irmão tá morto. Você não manda na gente. – rebateu Dino, me desafiando. – E também devia parar de ficar rezando com esse pedaço de ferro. – com o queixo, ele mirou meu crucifixo. – Ele não te salvou da asma, nem salvou a Vicky dos bichos. Ele quer que a gente se dane. – todos ficaram chocados. Até Diogo paralisou. Saindo de perto do grupo, Dino puxou Vilma pela mão e os gêmeos correram na direção de casa. Eu estava boquiaberta, chocada. Senti-me ferida por tamanha blasfêmia contra Deus. Se ainda estávamos vivos, só podia ser por misericórdia Dele. Ou não?

Nervoso, Diogo empurrou Luca contra o chão, e se ergueu. Franziu o cenho quando avistou Madeline e Hugo, que ele ainda não conhecia. Mas nada disse. Em seguida, rumou à Kombi e começou a retirar algumas caixas de papelão, bem grandes e cheias. Cinco, no total. Logo ele estava de volta, e caminhava entre nós com uma urgência insana. Ele agarrou Luca pelo colarinho, e Otávio segurou Ricardo quando este tentou interferir. Arrastado até o veículo, Luca parecia aterrorizado. Foi jogado de encontro à lataria, e sua expressão era de puro medo. Assustada, troquei um olhar com Eloá. Ela puxou o revólver em sua cintura, e o destravou. Rafael também percebeu o movimento, e segurou a espingarda em seu ombro com mais firmeza.

— Agora você vai me contar como ela morreu. E eu quero detalhes. – exigiu Diogo, sem afrouxar o aperto de Luca.

— Ela Ca... Caiu. – cuspiu Luca, chorando. – Um errante a mordeu, e depois os outros começaram a chegar perto. Eu e Otto estávamos muito longe, e tivemos que deixá-la... Não tem um minuto em que eu não me lembre daquela hora... – confessou.

— E devia mesmo. Um merda como você não devia ter o direito de pensar em outra coisa! Era sua função manter a Victoria segura, e você não fez! – esbravejou Diogo, socando o próprio automóvel, na lataria ao lado da cabeça de Luca. – O que fizeram com o corpo? – indagou, a ninguém em especial.

— Nada. Eles não o acharam. – contou Hugo.

— Não acharam? – repetiu Diogo, confuso. – Ela se transformou?

— Não dá pra saber. Quando a deixamos, ela estava sendo atacada. Entramos na casa dos Shepard, e quando olhamos de novo, a Vicky tinha sumido. – contou Otávio. – Foi incrivelmente rápido. Nem mesmo uma transformação é tão veloz. O corpo simplesmente não estava mais lá.

— Então alguém a levou. – concluiu Diogo, apesar dos olhares de descrença de todos. – Ou então ela fugiu. Pode estar viva.

— Você perdeu a noção? – revoltou-se Eloá. – Ela foi mordida, inferno! Mesmo que tivesse escapado, teria morrido depois! Que diferença faz?

— Faz toda a diferença do mundo. – falei. Diogo me olhou, sorrindo. – Tem alguma coisa que ele não está contando. – acusei.

— É isso aí, ruiva. – confirmou Diogo, atraindo a atenção de todos. – Conheci uma família anteontem. Um cara, uma mulher e uma menininha. A garotinha havia sido mordida.

— Que horror... – lamentou Madeline.

— Há uma semana. – completou Diogo. Todos se entreolharam, assustados. Uma semana, só podia significar que ela havia escapado ao vírus. – Os pais acharam que precisariam matá-la, então deixaram a transformação terminar, pra acabarem com ela depois que voltasse. Coisa de maluco. A garota queimou de febre, e um tempo depois, o coração parou. Por um minuto. Depois voltou a bater, e ela acordou com total consciência, e curada.

— Como quando tomamos uma vacina com um microrganismo vivo? – questionou Hugo, cético.

— Isso. A menina voltou, com um olho branco e outro preto. Ela era imune ao vírus. – contou Diogo.

— E o que aconteceu com eles? – Carolina perguntou baixinho.

— Não sei, seguiram viagem. O pai dela não queria estranhos por perto. Eu também não. Então, cada um seguiu seu rumo. – relatou calmamente.

— Qual o nome da família? – Ana parecia ter percebido algo não dito.

— A garotinha se chamava Lívia. A mãe era Diana. Não lembro o nome do pai. – falou Diogo. Luca, Ana, Otto e Carolina, se olharam, surpresos.

— Conhecemos esses três. – observou Carol. – Eles nos salvaram a vida, uma vez.

— Parece que estão tentando chegar ao litoral paulista, algo assim... – comentou Diogo.

— Espero que consigam. – torci otimista. Ninguém falou mais nada por alguns minutos.

— Então, fui aceito de volta, ou não? – resmungou Diogo, cruzando os braços.

— Você fica com o primeiro turno de vigia. – rebateu Ricardo, batendo em seu ombro, e seguindo em direção à sua casa, depois. Madeline e Hugo o seguiram de perto.

— Perfeito... – murmurou o moreno, rabugento. Todos se dispersaram em seguida.

— Você não vem, Nanda? – me chamou Eloá.

— Não, vou ficar mais um pouco. – respondi, sentindo a brisa noturna massagear meu rosto, agradável. Diogo saiu na direção da barricada, e me sentei sozinha à mesa de madeira do refeitório, que se esticava com sua grandeza.

Observei o vazio negro do céu durante muito tempo, rezando um Pai Nosso repetidamente. Eu precisava que Deus ouvisse minhas preces. Secretamente, clamei por Seu nome, pedindo que enviasse auxílio e orientação à Victoria aonde quer que esteja viva ou morta. Que seu espírito encontrasse um lugar de paz, de amor. Agradeci pelo seu sacrifício, chorando sozinha enquanto comprimia o crucifixo entre os dedos. Devota de Joana D’arc., clamei pela santa francesa, pedindo que me concedesse saúde, de modo que não me tornasse um peso para os outros. Em clamor desesperado, tanto quanto silencioso, rezei ao Arcanjo Miguel, pelas almas de Dino e Vilma. Não podia aceitar que aquele mundo cruel os devorasse. Se fosse minha sina ser uma das poucas representantes do Cristo no Apocalipse, eu honraria o nome santo que ele possuía, e retiraria aquelas crianças das trevas. Somente a fé poderia nos livrar daquele inferno na Terra. Pelo menos, era nisso que eu queria acreditar, naquela época. Fervorosa, encarei o início daquela doença maligna, e de todos aqueles monstros, como o chamado bíblico para o fim. O Juízo Final. Mesmo a morte da minha família, não fora capaz de me desviar do caminho de Deus. Eu só torcia para que ele me levasse daquele horror o mais brevemente possível. Que arrebatasse minha alma e me retirasse do meio de tamanho horror e profanação.

Se era minha intenção orar e meditar, acabei conseguindo o oposto. Nervosa com os últimos acontecimentos acabei questionando a mim mesma, debatendo sobre a Fé Cristã, e confrontando-a com todo o horror que eu vivenciara. Eu não tinha o perfil de uma sobrevivente, sabia disso. Eu não me encaixava naquele mundo, não queria fazer parte dele. Como eu podia estar viva, quando pessoas como Lucíola, Tiago e Armando, estavam mortas? Mesmo Vicky, fora capaz de eliminar um zumbi com as próprias mãos, enquanto eu assistira tudo chorando e gritando, como uma covarde. Infelizmente, eu não parecia a única a sofrer comigo mesma naquela noite. Pelo que pude notar Carolina também devia estar se martirizando pelo que fizera. Sua consciência seria seu maior juiz. Sua fraqueza, em busca de consolo, a atormentaria principalmente porque ela sabia, lá no fundo, que Luca não poderia amá-la, como amara Victoria. Todos sabiam disso. Principalmente ela.

Quando a vi saindo de casa, percebi que minha intuição não falhava. Eu tinha certeza que ela buscaria consolo na noite, como eu mesma fizera. Curiosa por saber o quê ela decidiria fazer, me levantei e corri para trás da Kombi, espiando da janela de vidro enquanto Carol se aproximava do refeitório. Ela parou ao lado da mesa, alisou sua superfície delicadamente, e apanhou uma garrafa de uísque em um dos caixotes de Diogo. Fiz uma expressão de desgosto, ao ver sua alternativa. Eu odiava bebidas alcoólicas, e o que causavam. Meu pai sempre fora o maior motivo para que eu as detestasse. Agora, Carolina virava o líquido, bebendo do gargalo. Escorria uísque caro por sua bochecha, e ela chorava. Parecia arrasada. Minhas pernas estavam meio agachadas, e doeram enquanto eu esperava o que ela faria. Depois de beber metade da garrafa, ela se levantou tonta. Esfregando os olhos e chorando mais ainda, começou a andar na direção da barricada. Mais precisamente, dos portões. Meu coração acelerou na mesma hora. Reconheci o olhar vidrado, perdido. Eu vira aquele olhar quando um dos meus primos havia se suicidado logo após o enterro de minha tia, sua mãe. Aquele fora o maior escândalo da minha família, e o motivo para que eu me tornasse religiosa. Eu achava que, se fosse suficientemente boa, talvez Deus poupasse meu primo e amigo, do inferno. Ele não era mal, só fora fraco.

A fraqueza de Carolina era a mesma. Provavelmente, estava desistindo de tudo. Mesmo sabendo que aquele era um direito dela, não poderia permitir que consumasse seu intento. Além de ser enviada para o inferno, ela seria morta pelo álcool. Não por uma decisão covarde, e tomada exclusivamente pelo seu desespero. Se ela quisesse se matar de cabeça limpa, que fosse. Mas não bêbada, e não na minha frente. Sabendo que não poderia segurá-la sozinha, e que Diogo estava longe, corri na direção de casa o mais rápido que pude, sem alarmá-la, com medo de que ela acabasse correndo ainda mais rápido, para a morte.

Luca.

Quando a voz de Fernanda me tirou o sono, percebi que algo muito errado havia acontecido. Levantando da cama apenas de pijama, corri para a varanda. Eu havia trocado de casa com Rafael. Agora, morávamos somente eu e Carolina. Não que eu estivesse achando algo péssimo, mas não era o que eu queria realmente. Como fora uma decisão da maioria, eu respeitava. Mas ainda estava perturbado com a reação de Ana e Otávio. Temia que nunca mais voltassem a falar comigo, ou que todos passassem a me ver apenas como um maldito canalha. A verdade era que eu só precisava sentir algo. Qualquer coisa. Mesmo o sexo, sem sentimento. Eu precisava ter certeza de que estava vivo, de que não havia sido morto junto com Victoria, naquele gramado. E eu sabia que Carolina estava passando pelo mesmo, e quando nos vimos sozinhos após o cerimonial, não resistimos. Foi algo sujo, algo fraco, covarde. Mas era o melhor que tínhamos naquele momento. Não me preocupava com julgamentos. Nenhum de nós era santo. Principalmente no Apocalipse. Eu só torcia para que a convivência no camping não fosse prejudicada. Do lado de fora, encontrei Fernanda com o rosto lívido. Seus cabelos estavam eriçados, voando para todos os lados com a brisa. Ela não pareceu se importar.

— O que houve Nanda? – além de curioso, fiquei preocupado.

— Rápido! Precisamos correr! É a Carol! Acho que ela vai fazer uma besteira! – esbaforiu-se minha amiga, correndo na direção dos portões. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Uma besteira, só poderia significar suicídio, naquele caso. E eu não suportaria perder mais ninguém. Principalmente por minha causa.

Corri a todo vapor atrás de Nanda, rezando para que ainda houvesse tempo. Meus pés se feriam ao pisar em pedregulhos, ou pedaços de vidro, mas nem registrei a dor enquanto soltava pequenos palavrões. Quando finalmente chegamos aos portões, eles já estavam abertos. Senti uma palpitação terrível, ao imaginar o quê encontraria do lado de fora. Na extremidade esquerda da barricada, avistei Diogo com um revólver e uma lanterna. Ele percebeu que eu e Nanda estávamos tentando chegar ao portão escancarado, e veio correndo na nossa direção. Ultrapassei os limites do portão sem olhar para trás, adentrando na zona de perigo. Mais prudente Fernanda se deteve atrás de um deles, chorando. Ela sabia que não poderia ajudar muito, e agradeci por ter alguém a menos com quem me preocupar. Mais à frente, avistei Carolina sentada no meio do asfalto, no ponto que o morro se tornava íngreme, e onde apenas os zumbis mais fortes conseguiam chegar. O problema era que todos sabiam que não havia apenas zumbis por ali.

— Carol, sai daí! Que merda! – gritei, atiçando dois errantes que estavam deitados na calçada de uma casa próximo. Senti um calafrio ao vê-los de levantando, desconjuntados.

— Luca? O que está fazendo aqui? – me perguntou, como uma tremenda idiota.

— Vamos voltar pra casa! Perdeu a noção? Olha aonde você nos meteu! – gritei ainda mais, tirando-a de uma espécie de torpor. Ela pareceu notar pela primeira vez onde estava e saindo do choque. Bufei, percebendo que ela morreria, sem sequer perceber o quê estava fazendo. – Você não devia estar aqui! Vá pra dentro! – desesperou-se.

— Nós dois vamos! – a corrigi. Carol gritou quando um zumbi a puxou pelo braço, me pegando de surpresa. Estiquei o braço e lancei todo o meu peso num soco, que o derrubou. Ele já estava se levantando, quando começamos a correr. Foi só então que eu percebi que não estava carregando arma nenhuma.

Todos os errantes que haviam conseguido subir o morro estavam notoriamente mais conservados do que os demais. Por isso, eram também mais rápidos. Seus olhos negros e vermelhos faiscavam de fome, enquanto tentavam nos alcançar. Continuamos correndo, até que Diogo passou por nós. Furioso, ele atirou contra um dos errantes. O zumbi caiu morto, estatelado no meio do asfalto. Como que assustado pelo barulho, um enxame de vespas se ergueu de uma árvore próxima, como um único organismo inquieto. Em seguida, voltaram à sua posição inicial, em meio aos galhos, como um manto vivo que retorna à inércia. O zumbido foi terrível, e num gesto reflexo, Diogo jogou a lanterna sobre os bichos, buscando ter alguma ideia do que era aquilo. Bastou a luz tocar nos bichos, e a fúria se lançou contra a noite. Vindo em nossa direção, os insetos se uniam aos zumbis em um poderoso ataque. Carolina despertara um gigante adormecido, e agora sua vida não era mais a única em perigo. Passando direto pelo portão, Diogo puxou Fernanda consigo, sem que ela pudesse fechá-lo. Como os insetos se moviam muito rápido, não me arrisquei a ficar para trás, nem Carol.

Chamando por socorro, vi nosso lar ser invadido por monstros. Cheguei até o refeitório no momento em que o pessoal começava a acordar com os barulhos. Segurando uma tocha improvisada, Ricardo veio correndo na nossa direção, a arma em riste. Atirou contra alguns dos insetos, e por sorte a quantidade de criaturas era menor do que antes. Fernanda havia se jogado dentro da Kombi de Diogo, usando sua estratégia de fuga usual. Carolina, por sua vez, estava longe de nós, correndo na direção da casa de Ana e Otto. Ela era muito veloz, sendo titular da equipe de atletismo da nossa escola por anos. Logo Eloá e Rafael também estavam do lado de fora, enquanto os outros pareciam ter permanecido escondidos. Vi Carol sendo empurrada para dentro de casa por Rafael, enquanto um dos insetos passava a poucos centímetros do meu rosto. Seu ferrão passara a milímetros da minha bochecha. Ricardo e Diogo continuavam atirando, e me vi perdido no meio do fogo cruzado, enquanto o inferno explodia. Alguns zumbis também haviam entrado no lugar, e se concentravam no refeitório. Desviando-me dos bichos, me enfiei embaixo da mesa do refeitório, esperando ser ignorado pelas vespas mutantes. Parecia que elas gostavam de fazer suas colônias em lugares mais altos, como os morros, e estávamos disputando território com aquele bando.

Ricardo percebeu que eu estava indefeso, e depois de estourar um bicho, jogou uma picareta de alpinismo na minha direção. A arma caiu a poucos metros da mesa, e me estiquei para pegá-la. Virei o corpo para voltar ao meu esconderijo, e um zumbi me encontrara. De longe, joguei a picareta contra sua têmpora, acertando em cheio. A arma ficou presa ao seu crânio, e demorei tanto para removê-la, que não vi o bicho às minhas costas. A mulher morta se jogou sobre mim como uma bigorna de aço. Como ela montara em minhas costas, não pude mirar com a picareta, e acabei largando-a. Bloqueei a boca do zumbi, segurando-a pelo pescoço para que não me mordesse. Cai para frente, e senti câimbra no braço. Quase desistindo de segurá-la, tamanha era a dor que sentia, aceitei meu fim. Só que ele não veio. Senti o sangue espirrar nas minhas costas, quando com uma única pancada, Otávio despedaçou a cabeça da mulher. Ele surgira do nada, e segurava uma barra de ferro ensanguentada. Sorri, num agradecimento mudo. Seu sorriso de resposta foi levíssimo, e ele já corria para matar outro errante. Os insetos estavam focados em atacar Ricardo e Rafael, já que eles seguravam lanternas acesas para atraí-los. Enquanto isso, Eloá e Diogo já fechavam os portões. Um grito foi ouvido ao longe, mas a adrenalina não me deixou notá-lo com mais detalhes. Quando o último inseto caiu, e o último zumbi foi derrubado, me deixei cair sentado à mesa, exausto. Eloá estava coberta de sangue e gosma, assim como Diogo, Rafael e Ricardo. Otávio era quem estava em melhores condições, pois sua barra de ferro era longa, e matava em uma distância um pouco maior, e também mais segura. Antes que pudéssemos registrar a vitória, um som ensurdecedor encheu a noite. A casa de Ricardo, onde Madeline, Hugo, Vilma e Dino estavam escondidos, havia sido enviada pelos ares, numa explosão. Em estado de choque, o dentista ficou fitando o fogo, enquanto meus ouvidos tentavam se recuperar do estrondo. Diogo e Otto estavam mais perto das casas, e foram derrubados pelo impacto. Começamos a pensar o pior, quando o jogo virou.

Hugo apoiava Madeline, enquanto Dino e Vilma os seguiam de perto, cobertos de fuligem da fumaça. Eles chegaram perto de nós, enquanto Ana e Carolina deixavam a casa onde estavam, e Fernanda saía da Kombi.

— Estão todos bem? – inquiriu Ricardo, nervoso. Todos confirmaram. – Ninguém mordido? – outra confirmação. – Ótimo. Agora posso saber o que aconteceu?! – me entreolhei com Carolina. Desesperada, ela fitou Diogo e Fernanda.

— Foi mal. Eu cochilei. – mentiu Diogo, surpreendendo a todos. Principalmente a mim. – Quando dei por mim, vi um errante se arrastando por cima da barricada, e liguei a lanterna pra ver melhor. Acabei acertando na árvore dos bichos, e eles ficaram malucos. A minha sorte, foi que os ruivos e a gostosinha ali estavam acordados também. Desacostumei a vigiar. Mais um erro do nosso líder. Não devia ter me deixado vigiando. – disparou Diogo, irônico.

— Você devia ter tomado mais cuidado, imbecil! – gritou Eloá, dando um soco no ombro de Diogo, que revirou os olhos.

— Não interessa de quem foi a culpa. O importante é que estamos todos bem. – aliviou Fernanda, tentando apagar o assunto.

— Mas por quanto tempo? – desanimou-se Ana. – Com tanto barulho, aposto que logo uma horda vai vir pra cá. É melhor prepararmos tudo para fugir o quanto antes. E ninguém vai dizer quem abriu os portões?

— Espera aí galera! Ainda quero saber como vocês conseguiram explodir a casa! – manifestou-se Otto, apontando na direção de Hugo. O gótico sorriu. Suspirei aliviado, agradecido por terem cortado Ana. Ela já estava com raiva de Carolina, e sua esperteza vingativa podia revelar o que havia acontecido de verdade, em dois tempos.

— Foram as crianças. – contou. Todos ficaram chocados, outra vez. – Um monte de insetos entrou na casa. Estávamos com as janelas abertas. Apaguei todas as luzes, e me escondi no guarda-roupa com tia Madeline. Vilma correu para a cozinha no escuro, e ligou o gás. Sem energia elétrica ativa, os bichos deixam de ser agressivos. Então, Dino pegou fósforos no quarto do Ricardo, e esperamos o cheiro lotar tudo. Quando ficou forte o bastante, corremos para fora, e Dino jogou um palito aceso lá dentro. E puff! Tudo foi pelos ares!

— Vocês podiam ter morrido! – ralhou Ricardo, agarrando Hugo pelo braço. O mais novo revirou os olhos, afagando rosto do outro.

– Eu não ia colocar a vida da sua mãe em risco. Vocês estavam lutando aqui fora. Nós lá dentro. – respondeu o garoto. Sorri com a frase. Havia gostado de como ela soara.

Depois, passamos a noite arrumando tudo. Não fazia sentido tentar combater as chamas na casa dos gêmeos. O que fizemos, foi isolar o fogo com baldes de água do lago jogados contra as paredes e o chão ao redor do fogo, para que ele não se espalhasse. Diogo e Rafael começaram a arrastar os zumbis para fora, enquanto Otávio e Carolina recolhiam os insetos mortos, sem trocar uma palavra. Ela me olhava vez ou outra, mas eu fingia que não percebia, tentando deixar claro que não poderia tratá-la como nada além de uma amiga. Fernanda convenceu Dino e Vilma a dormirem em seu quarto com ela, e Madeline tratava de organizar uma refeição para todos. Ricardo e Hugo tinham ido até a enfermaria buscar curativos, e deviam voltar logo. Sentado em um caixote de madeira, suspirei tentando mover meu braço normalmente. Mas a dor no nervo vitimado pela câimbra persistia, e um inchaço começava a se apresentar em meu pulso. Acho que devia tê-lo deslocado com a força com que bati na cabeça do mordedor. Eloá e Ana estavam por perto, fitando o vazio sem dizer nada. Eu achava que a noite não poderia ficar mais louca. Mas ela ficou.

Quando três veículos pretos e uma ambulância subiram o morro que dava acesso direto ao nosso acampamento, levei um susto. Depois agradeci por ter mais gente nova. Em seguida, levei outro susto. Quem seriam aqueles estranhos? O que fariam conosco? O que teríamos que fazer com eles? Como uma colmeia, nos movemos em conjunto, e quando Ricardo chegou, o cercamos como um enxame à sua rainha. Diogo, Eloá e Rafael engatilharam suas armas, enquanto Madeline discretamente se retirava na direção da casa onde Fernanda estava com as crianças. Ricardo cruzou os braços, e aguardou que os veículos estacionassem do lado de fora da barricada. Otávio segurava sua barra de ferro rente ao peito, enquanto Carolina apanhara duas facas de caça da mesa. Ana estreitava os olhos, curiosa. Eu ainda tinha minha picareta de alpinista nas mãos, mas não tinha certeza se adiantaria de algo contra esses estranhos. Eu não sabia nem se precisaria me defender deles, mas não queria descobrir. Com um sentimento estranho, me senti como se estivesse lutando para proteger uma cidade de ossos, como se estivéssemos colecionando ataques e mortes. Eu não queria mais viver em constante pressão. Ninguém morrera naquela noite, mas até quando? Como Ana dissera, não tínhamos como saber quando outro de nós morreria. E independente do que acontecesse, eu não queria alimentar aquele mar de ossos, com os meus.

Notas finais
Okaaaay, acho que vocês ficaram com um pouquinho mais de ódio da Carol, néah? KKKK!! Recebi algumas MP's pedindo a morte dela e do Luca, e reviews também! Mas gente, tudo pode acontecer, e talvez ainda haja um motivo para que estejam vivos! Já falei demais, agora vou indo! See ya!

Kisses by DroppingPieces!