Notas iniciais
Boa leitura a todoooos!

:3

Victoria.

Quando o dia amanheceu, despertei como se tudo o que me ocorrera desde que deixara o casebre com Jonas, fosse um sonho. Infelizmente não era, e constatei isso o vendo arrumar a bagunça que havíamos feito na lan house onde estávamos escondidos. Levantando-me com certa dificuldade, massageei meu pescoço dolorido. Cheguei perto de uma das janelas da loja, e com cuidado afastei a cortina que a cobria. Espiei a rua lá fora, e vi que os pombos haviam retornado para seus poleiros, remexendo nas próprias penas sujas de sangue, e fitando o horizonte como uma aranha que espera a presa cair em sua teia. Nem por um segundo acreditei que houvessem desistido de nos matar, mas eles haviam se transformado em predadores espertos. Não ficariam presos a vítimas protegidas. Esperariam que precisássemos sair daquele lugar, o que de fato teria de acontecer em breve. Por mais que aquela perspectiva me assustasse.

— Eu preferia ter ficado no casebre. Se soubesse que iríamos estar nessa situação, não teria a trazido até aqui. – desculpou-se Jonas, coçando a nuca.

— Não se sinta culpado. Eu também não esperava que isso fosse acontecer. Foram acasos. Nenhum de nós é mecânico, não poderíamos prever que a van estava em más condições. Acidentes acontecem. – tranquilizei-o. Sorri para a cara irritada que ele estava fazendo. Parecia uma criança que quebrara o vaso preferido da mãe. Muito fofo. Aproximei-me dele, sentindo seus ombros ficarem tensos quando o toquei. Surpreendi-me com aquela reação, e afastei a mão, confusa.

— Desculpe, Victoria. – ele sorriu, por fim. – Faz muito tempo que uma mulher não me toca assim, suavemente. Aliás, faz muito tempo que ninguém me toca. Ficar sozinho por muito tempo deixa a gente meio selvagem. Desacostumei a receber carinho. – confessou, desanimado.

— Sinto muito. – me sentei ao seu lado, ficando em cima do pequeno balcão, onde ele estava apoiado. – Sei que parece estranho alguém que acabou de conhecer agindo com tanta intimidade, não devia ter invadido seu espaço.

— Não, está tudo bem. – naquele ponto, senti meu estômago revirar. Jonas se aproximou de mim, ficando com o corpo de frente para o meu. O cheiro de suor e medo inundava o ar, e foi como se um demônio despertasse em meu interior. Eu estava excitada. Não como ficava quando estava perto de Luca, ou Diogo. O que senti quando Jonas tocou minhas coxas parcialmente cobertas pela minissaia preta, foi desejo de dominá-lo, devorá-lo.

Enlaçando seu corpo com as pernas, devorei seus lábios. Os músculos desenvolvidos de seus braços se tencionavam enquanto ele me apertava cada vez mais. Estava doendo, mas era bom. Agarrando-o pelo pescoço, arranhei sua nuca, e sorri de prazer quando o ouvi arfando de dor e prazer. Aquilo era música para os meus ouvidos. Ele tomou um de meus seios com sua mão calejada, e apertou o bico intumescido, deixando-me temporariamente tonta. Beijei-o com mais força, mordendo o lábio inferior, até sentir o gosto ferroso do sangue, que explodiu na minha boca como o mais cremoso chocolate. Era delicioso. Ele se jogou contra mim, e pude sentir seu sexo me pressionando através do jeans. Senti um aperto em meus cabelos, e Jonas os puxou, deixando meu pescoço à mostra. Senti seu hálito aquecendo minha pele pálida, e então ele deu-me um chupão, roubando meu fôlego. Coloquei minhas mãos sobre sua cabeça, e quando seus olhos me encararam, vi as trevas e a luz convergindo contra mim. Só então, percebi que devia haver algo errado. Era como se algo dentro de mim estivesse beijando-o, e não eu. Algo, que sentia prazer, em provocar e receber dor. Algo inumano, um instinto animal. Bestial. Como se um interruptor estivesse desligando-se, empurrei Jonas levemente. Surpreso, ele se deteve, fitando-me com os olhos baços de êxtase.

— Me desculpe Johnny. Não posso fazer isso. – disse nervosa. E se ele tentasse algo à força?

— Tudo bem. Namorado, né? – fiz que sim com a cabeça. – Fui um canalha por me aproveitar de você. Carência é algo mais comum do que parece, no fim do mundo.

— Verdade. – admiti, sorrindo. – Espero que não fique um clima estranho.

— Não se preocupe. Só vou pedir licença, porque preciso terminar o que você começou... Sabe como é, né? – falou se afastando de mim e indo em direção ao pequeno banheiro da loja.

— Nojento! – exclamei, e ele respondeu-me com um sinal de “rock and roll”.

Rindo, me afastei do balcão, indo de encontro à porta da loja. Através do vidro transparente, era possível ter uma visão panorâmica da rua, desde a van de Jonas que ficara abandonada, até o carro enviesado na rua. Justo quando eu estava pensando em como poderíamos sair daquele lugar, outros pareceram ser capturados por ele. Correndo como se não houvesse amanhã, um casal fugia dos pombos zumbificados, tentando de forma desesperada, encontrar um refúgio. Assustada, tentei focalizar os rostos deles, enquanto os via tentando arrombar a porta de uma casa, sem sucesso. Virei o rosto na direção do banheiro, para gritar por Jonas, mas ele já estava vindo. Com gestos de mão, fiz com que se apressasse até estar ao meu lado. Em silêncio, apontei na direção do homem e da mulher, que se aproximavam cada vez mais da lan house. A mulher tinha cabelos grisalhos, cortados rente ao pescoço, e estava usando calças cáqui verdes, e uma blusa vermelha. Demorou um pouco até eu perceber que era Diana, e o homem, Louis. Eles haviam salvo minha vida, e agora, eu salvaria a deles.

— Temos que trazê-los pra cá. – falei. – Vou buscá-los.

— Ficou doida? Aqueles pombos vão devorar a gente! – protestou Jonas.

— Você me salvou de uma horda, não salvou? Não entendo porque agora seria diferente. – ele ficou mudo. – Me ajude a empurrar essa estante. – pedi. Ele começou a tirar o objeto que travava a porta de vidro, e a abri logo depois. Antes que eu saísse da loja, Johnny me entregou a arma.

— Vou ficar aqui a postos. Faça com que eles corram até passar pela porta, e eu fecho. Se um deles cair, ou for mordido, nada de tentar salvar. Combinado? – assenti, e corri na direção da rua, meus cabelos cacheados esvoaçando ao redor da cabeça como uma nuvem loira.

Disparando na direção dos pombos, consegui chamar a atenção da revoada, que já se aproximava deles. O barulho fez com que os bichos mudassem de alvo, se lançando em minha direção. Isso bastou para que os dois conseguissem me avistar, e correr em direção à segurança da loja. Focados em mim, os pássaros mortos ignoravam os dois, voando por cima deles de maneira indiferente. Diana passou por mim, e com um olhar de surpresa me reconheceu, seguindo em frente. Louis passou logo depois, e fiquei por dois segundos observando os pássaros que se aproximavam, até que me lembrei de correr. Senti uma das criaturas passando pelo meu cabelo, e acelerei o passo, me mantendo atrás dos dois. Com alívio, vi o passar pela porta de vidro, e me abaixei quando a barra de ferro de Jonas voou em minha direção. O objeto passou raspando pela minha cabeça, e acertou vários bichos, que se espatifaram como bolhas de sangue e tripas. Praticamente me joguei no chão da lan house, enquanto Diana e Louis ajudavam Jonas a fechar e travar a porta novamente. Ficamos nos olhando por um tempo, e ninguém falou nada. Então Louis fitou meus olhos, e a familiaridade estampou-se. Por um momento, achei que ele estava feliz. Mas então, ele me atacou. Seu rosto estava diferente desde a última vez que havíamos nos visto. Ele parecia abatido pelo mundo medonho no qual estávamos emersos, como se a sobrevivência houvesse cobrado, como preço, sua vitalidade. Ainda assim, tinha um ar predatório, brutal, quando tentou agarrar-me pelo pescoço. Por sorte, Jonas o antecipara com seus reflexos desenvolvidos e com uma banda, o derrubara sobre o chão, estatelado.

— Tá maluco, chapa? – indignou-se Johnny, prendendo Louis com o pé em seu pescoço.

— Não! Deixe ele em paz! – esganiçou-se Diana, puxando um revólver de sua cintura. Ela destravou a arma, e eu xinguei mentalmente. Era possível que todo o mundo ainda vivo tivesse uma arma? Bem, provavelmente era esse o motivo para que alguém ainda estivesse vivo. Nervosa, não sei descrever muito bem o que fiz em seguida. Mas em um momento, eu estava acuada num canto. Noutro, eu havia pulado sobre Jonas e Louis, me atirando contra Diana e a derrubando no chão. Um tiro se fez ouvir, abrindo um buraco no teto rebaixado de gesso. Caídas no chão, foi fácil tomar a arma da mão de Diana e a jogar longe. Imobilizei a mulher descontrolada, enquanto Jonas segurava Louis, que tentava se livrar dele e me atacar novamente. Somente quando os dois estavam sob controle, percebi que Lívia não estava em parte alguma. Um péssimo sinal.

— É bom vê-los de novo. – falei, sem fôlego. – Pensei que salvar suas vidas seria uma forma de agradecer. Mas parece que não.

— Não pense que nos engana, monstro. – cuspiu Louis. – Vocês Inumanos, não são dignos de confiança!

— Então é assim que vocês chamam quem sobrevive ao vírus? – surpreendeu-se Jonas, com um sorriso.

— É como o Profeta chama. Vimos o blog dele há uma semana e alguns dias atrás, quando estávamos escondidos num escritório de advocacia, perto do centro. – contou Diana. – Ele desativou o blog, depois de postar sobre vocês. As torres de transmissão da ilha dele poderiam atrair os insetos, e ele não queria arriscar. Pelo visto, deveríamos ter feito o mesmo. Um tipo de mosca gigante invadiu o lugar, atraídas pela eletricidade, e tivemos que fugir. Lívia foi mordida... – Diana não conseguiu terminar. Começou a chorar convulsivamente. Mesmo assim, não me atrevi a soltá-la.

— Só que ela não morreu. Algumas horas depois, nossa filha voltou. Como vocês. Um olho branco, outro preto. Ficamos tão felizes, que nem notamos que não era mais ela. – contou Louis, me deixando totalmente confusa.

— Como assim? Ela ficou diferente? No comportamento? – abismou-se Louis.

— Sim. Nossa filha era uma garotinha meiga e totalmente normal. E então, se tornou uma criatura em sentimentos, totalmente fria. Ela tentou nos matar! – Diana estava fora de si, entre o choque e a revolta. – Foi por causa dela que ficamos largados nessa rua. Lívia ficou mais forte e rápida quando voltou, mas perdeu sua humanidade. Quando uma horda nos atacou em uma escola aqui perto, ela sumiu e trancou a mim e meu marido com os bichos. Conseguimos escapar e alcançá-la, mas ela estava longe, tentando fugir. Um cachorro a pegou. Foi horrível...

— Mas ela não era nossa filha. Falei pra Diana que não devia se sentir culpada. Ela nos deixou pra morrer, e riu! – Louis estava furioso. – Então, não espere que tenhamos algum tipo de gratidão, Victoria! Pelo que vi, seus amigos morreram, e nada me diz que não foi você quem os matou.

— Eles não estão mortos. – me defendi. – Nos perdemos do grupo. Fui mordida, e eles acharam que eu morreria, então me deixaram para trás. Não sabem que estou viva. Por acaso, a Lívia tinha alguma doença mental, antes de se transformar? – me peguei perguntando, pegando os dois de surpresa.

— O quê? Não! Nossa filha era perfeita! – reclamou Diana. Troquei um olhar com Jonas. Pelo que parecia, pessoas normais e imunes ao vírus, se mordidas demonstravam um distúrbio mental com a transformação. Aqueles que já os possuíam, e eram imunes, acabavam se curando com a ativação do “vírus do urso”, se é que ainda o chamavam assim ao redor do mundo. Eu duvidava.

— Escutem... Sei que pode parecer difícil confiar, mas porque nos daríamos ao trabalho de salvá-los, se quiséssemos matá-los, ou coisa do tipo? – defendeu-se Jonas. – Não somos assassinos. Diferente da filha de vocês, nós já éramos doentes antes de sermos mordidos. De alguma forma, o vírus curou nossas mentes. Vocês precisam entender que não queremos fazer o mal, apenas ajudá-los. Abrimos nosso esconderijo, quando poderíamos ter dado vocês aos pombos. Não me façam lamentar por não ter feito exatamente isso. Victoria me obrigou a recebê-los. Mas ela não vai ter forças pra me impedir de expulsá-los daqui, se for preciso. – não me atrevi a dizer nada. Pra ser franca, eu estava de acordo com tudo o que Johnny expusera.

— Certo. Vamos ficar. Mas pedir que confiemos, já é demais. Vamos ajudá-los, e protegê-los, até seguirmos nosso próprio caminho. – determinou-se Louis. – Pode me soltar agora?

Imediatamente larguei Diana, enquanto Jonas soltava Louis, que esfregava o pescoço com expressão emburrada. Nós quatro nos olhamos por um breve momento, e então sentamos em um semicírculo no meio da loja. Abrindo uma bolsa feminina de couro que trazia consigo, Diana me mostrou algumas barrinhas de cereais, que dividimos juntamente com uma garrafa de água mineral, tentando improvisar uma refeição. Se desculpando pelo tratamento que ela e o marido haviam nos dispensado, me contou sobre o que acontecera desde que havíamos nos separado. Ela e sua família ficaram presos em Cabo Frio pelos infectados, e junto com outro grupo de sobreviventes, se esconderam durante alguns meses, em um acampamento na beira da Praia das Conchas. Haviam estado ocultos aos zumbis, pelo afastamento dos centros urbanos, mas então uma matilha de cães os encontrara, e por pouco haviam conseguido fugir. Aproximando-se do centro, haviam encontrado um homem que havia deixado seu grupo. Por algum motivo, me senti esquisita quando mencionaram esse sujeito, e mais ainda ao descobrir que ele era Diogo. Admirada com a coincidência, agradeci aos céus por ele ainda estar vivo.

Depois de algumas horas, quando a madrugada já ia alta e minha situação continuava na mesma, acabei ficando sozinha no escuro, fitando a rua abandonada, através da janela. Levemente, pude notar meu reflexo através do vidro. Meu rosto não estava de todo ruim, afinal havia me acostumado com a ausência total de maquiagem. Mas meu cabelo era o que mais me irritava. Revolto e embaraçado, me fazia gemer por não ter um espelho. Tudo bem que eu havia morrido e ressuscitado há menos de uma semana, mas ainda assim, o mínimo de beleza não seria esperar muito, ou seria? De todo o modo, Jonas não parecia ter do que se queixar quando me beijara mais cedo. Totalmente culpada pelo que acontecera me senti ao mesmo tempo, subitamente exultante. Algo em meu interior parecia arder de prazer pelo que eu fizera. Como algo que se revolvia em minha mente, uma presença maternal, e predadora. Todos dormiam ao meu redor e me senti tomada por uma súbita empatia por Diana. Aquela mulher perdera sua filha, e provavelmente tudo pelo que lutara até então. Peguei-me pensando no quê a fazia continuar, lutar pela vida. Como seguir em frente, quando tudo o que mais prezamos é tirado de nós? Ela vira sua filha morrer, escapar da morte, e se tornar parte dela em seguida. Fria. Anormal. Inumana. Vira sua garotinha ser devorada por um cão, e tentava se convencer de que ela não era a mesma com quem vivera desde que seu bebê nascera. Envergonhada por minha própria sorte, senti-me invadida por um sentimento de desilusão esmagador. Afinal, naquele mundo devastado, todos perdiam algo, o tempo inteiro. Cercado de duelos internos e embates pela sobrevivência, cada canto do planeta era recheado com sonhos despedaçados e incertezas. Como um eterno quebranto. Não éramos todos inumanos?

Fitando-me no espelho em que a janela se tornara, tive a certeza de que meu reflexo sorria para mim, desafiador. O problema era que eu não estava sorrindo. Então, o quê havia de errado comigo?

Notas finais
Uoool! Será que a Vicky tá ficando doida? KKK, vamos ver no próximo capítulo! Tive um surto de inspiração, e vou postar TRÊS de uma vez! :B

Bjs do Dropping!