Quebranto.
30 Peças Caindo - Dropping Pieces.
Notas iniciais
Ah, votem no Shipper que acham mais bonito para o nosso casal principal, nos reviews: #Ditoria #Viogo ou #Victogo
Boa leitura para todos! Kisses by DroppingPieces!
Victoria.
O ar era algo quase palatável em minha boca. Uma sede rascante parecia abrir caminho em minha garganta, como se eu estivesse sendo obrigada a engolir um fósforo aceso. Reconheci a sensação dos tempos em que eu costumava me medicar com antidepressivos e reguladores de ansiedade com tarjas pretas e uma promessa de vida melhor. As lembranças das últimas horas me acertaram como um enxame de vespas mutantes, e logo percebi que todo o pesadelo de antes, era real. Minha cabeça parecia ter aumentado de tamanho, e aquela mesma sensação de expansão se distribuía pelas demais partes de meu corpo. Minha visão prejudicada pelas drogas que alguém havia injetado em mim se tornou nítida, o suficiente para que eu reconhecesse um homem sentado numa cadeira ao lado de minha cama. O instinto me levou imediatamente à Diogo, mas logo percebi que não se tratava dele. Com os braços cruzados sobre o peito, um enorme curativo na perna direita e o rosto sereno enquanto cochilava, Jonas parecia renovado. Tinham dado-lhe roupas novas. Sua pele também parecia dois tons mais clara do que antes. Afinal, não estava mais coberta por toda a fuligem e lama em que havíamos nos esfregado em nosso passeio pelos esgotos. Já fazia um tempo que não conversávamos, com toda a estória que estava rolando entre nossa chegada ao acampamento, o julgamento de Arlindo e a morte de Luca. Acabei sorrindo considerando que era muito cômico da parte dele fazer uma vigília em meu quarto, e acabar dormindo no processo. Eu devia ser mesmo, muito entediante.
– Oi, Jonas. – chamei, fazendo-o despertar no susto. – Está tudo bem com seu machucado? – ele pareceu considerar minha indagação por alguns segundos, e sorriu.
– Está tudo em perfeito estado, Victoria. Na verdade, o ferimento está quase fechado. Meu metabolismo é incrivelmente mais rápido que o dos humanos. Força, destreza, agilidade e cura são beneficiadas por isso, ao que parece. – ele fez uma cara de sério totalmente mal construída. Acabei sorrindo de novo.
– Exibido. – provoquei. – Como estão todos? – ele sabia de quem eu estava falando.
– Todo mundo está preocupado com você. Pelo que Ricardo disse você surtou total quando Luca faleceu. Parece que você começou a gritar “Não!” a plenos pulmões. – por mais que eu tentasse me lembrar, não conseguia ter certeza se o que eu acabara de ouvir era uma mentira, ou um fato apagado pela minha memória.
– Deus... Não me lembro de nada. – confessei. – E o quê se fez do corpo de Luca? O enterro já foi?
– Não, Ricardo e Tânia só prepararam o corpo para podermos enterrá-lo. Ninguém estava indo fazer nada sem você, também. Todo mundo concordou em esperar os efeitos da sua medicação passar. Parece que é um momento que ninguém está querendo antecipar. O menino era querido. Queria tê-lo conhecido. – desejou Jonas, e em seu olhar, vi que suas palavras eram verdadeiras. Foi maravilhoso saber que uma pessoa bondosa como ele havia me encontrado, e salvo quase um mês inteiro antes. Ele salvara minha vida naquele momento, e depois também, até que pudéssemos voltar ao Trocado. Cada vez mais era difícil lembrar o início de tudo. Pareciam ter se passado dezenas de anos, e não alguns meses. De fato, senti-me como uma anciã, mais do que já me lembrava de ter sentido até então.
– Victoria, você acordou! – comemorou Vilma, entrando no quarto com uma bandeja. Ela colocou o objeto sobre o criado-mudo, e me abraçou. – Sinto muito pelo Luca. Vou sentir saudade dele.
– Eu também, fofinha. – concordei. – E seu irmão?
– Está ajudando a Fernanda a preparar um Memorial. Ela ficou meio quieta quando disseram que Luca tinha morrido, e sem falar com ninguém começou a fazer um negócio nos fundos da Enfermaria. Ela só deixou eu e Dino ajudarmos, e disse que era um Memorial para todos que morreram até hoje. – narrou-me Vilma, os cabelos castanhos caindo-lhe sobre os ombros fartamente. Eram lisos e ondulados de um jeito especialmente belo, e pareciam crescer como grama. Já alcançavam sua cintura, naquela época.
– Tenho certeza de que vai ficar bonito. – declarou Jonas, piscando para Vilma. A menina ficou vermelha e saiu correndo do quarto. Eu sorri.
– Ela gostou de você. – afirmei. Jonas coçou a nuca, e apontou para a bandeja com uma lata de legumes em conserva e alguns biscoitos doces caseiros. Seu olhar se tornou uma ordem implícita, e eu bufei. – Esqueça. Não vou comer nada por um bom tempo. Podemos ir lá fora? O pessoal deve estar esperando.
– Ok, Dona Teimosia. – ralhou Jonas, levantando-se. Era impressionante notar que ele sequer estava mancando. Assustador. O segui através da casa de Madeline, até chegarmos à rua. – O pessoal está se reunindo no meio do acampamento. De lá, vamos carregar o corpo de Luca até o lago. Carolina queria que enterrássemos no terreiro, mas Hugo a convenceu de que a beira do lago seria um lugar mais bonito e tranquilo. Acho que concordo com ele, no fim das contas.
– Eu também... – anui, cansada demais para me importar com o modo como meus cabelos estavam armando ao redor de minha cabeça, ou como minha saia parecia um farrapo, depois de ter sido rasgada durante minha luta com o Luca Inumano. Também me perguntei o motivo de terem me mantido em uma casa, e não na Enfermaria. Logo considerei que Ricardo provavelmente pensara que seria duro demais para mim, despertar em meio aos preparativos do enterro de Luca.
Aproximamo-nos do resto do pessoal, e alguns olhares convergiram sobre mim. Reconheci muito amor e compaixão em meus amigos, e aquilo me acalmou. Eles estavam todos no meio da rua, incluindo o jovem Mozart, que parecia bem mais bonito com a barba feita e os cabelos aparados. Meu coração ficou pequenininho, quando notei a maca improvisada que Ricardo, Saulo e Diogo seguravam. O corpo de Luca estava coberto por um lençol branco, o mar alvo sendo rompido por uma singela rosa vermelha, posicionada por Madeline com todo o cuidado no local onde estaria o coração do meu ex-namorado. Eloá, Julia, Sabrina, Ana, Otávio, Tânia, todos eles estavam prontos para seguir o cortejo alternativo que velaria o caminho do corpo de Luca. Levei um susto quando senti a mão de Carol na minha. Ela parecia tão linda, mesmo na dor. Hugo trazia os olhos vermelhos de chorar, caminhando de braços dados com sua avó quando Fernanda e os gêmeos deixaram o terreiro para nos acompanhar. Diana cantava um hino evangélico, acompanhada pela voz aveludada de Mozart, que tornava a solenidade do momento ainda mais real com sua voz abençoada. Eu jamais fora alguém religiosa. Mas por algum motivo, a sintonia do momento com as palavras entoadas pelos meus dois amigos tocaram minha alma. E eu chorei ainda mais. Os rapazes com o corpo seguiam na frente, enquanto todos pareciam manter uma distância respeitosa do morto. Quando nos aproximamos do lago, notei que Nanda se deteve na descida do barranco. Pelo que eu soubera, aquele era o local onde ela fora violentada por Arlindo. Apesar de preocupada, empurrei aquela crise para o fundo de minha mente. Eloá também pareceu vacilar, mas avançou até nós com uma determinação ferrenha.
Apesar de todos os problemas que haviam ocorrido entre nós, e todas as diferenças de filosofia de vida, caráter, ou opiniões, todos compartilhavam do mesmo sentimento. Chorávamos sim, mas não somente por Luca. De um jeito ou de outro, e embora ele nunca pretendesse isso, meu ex-namorado havia tornado-se um símbolo, assim como Rafael. Eram mortes repletas de significado, pois haviam ocorrido em prol do grupo. Ambos haviam ido pelo mesmo homem, e pelo mesmo motivo. Os dois eram signos para a esperança que todos buscávamos preservar. Eram bons soldados, com boas mortes. As poucas flores que puderam ser encontradas nas vegetações ao redor das casas que havíamos isolado, além das violetas e rosas do terreiro, estavam agora sendo depositadas na água do lago pelas pequeninas mãos de Vilma e Dino, que pareciam compenetrados na tarefa. Mozart e Diana entoavam agora o Salmo vinte e três em uníssono, enquanto Saulo descia para a sepultura, e preparava-se para amparar o corpo de Luca, que estava sendo depositado no local pelos esforços conjuntos de Diogo e Ricardo. Com minhas lágrimas secas pelo vento gelado, observei os dois homens que um dia haviam disputado a liderança do grupo, trabalhando juntos para dar a um amigo, o último adeus.
E foi assim que, naquela manhã fria e clara, eu me despedi de Luca. Mesmo que eu o lembrasse para sempre em meu coração, sabia que poderia deixá-lo descansar em paz. Ele morrera pelo que acreditava, e seguindo o próprio desejo. E quanto a mim, poderia finalmente libertar-me de mim mesma. Observei as flores que eram levadas para a parte mais funda do lago. Pequenas ondulações na água as embalavam como uma mãe carinhosa. Contudo, sob a superfície era possível ver a forma esguia dos peixes modificados, que se agitavam famintos. Logo, o salmo lembrado por Diana terminou. Mas eu tinha certeza de que onde quer que eu estivesse, mesmo no Vale da Sombra da Morte, eu não temeria mal algum. Luca estaria comigo.
Otávio.
Quando a música terminou, olhei para Victoria. Ela parecia triste, mas conformada. Não era bem o caso de Carolina, que parecia chorar mais do que eu me lembrava de que ela fosse capaz. Minhas lágrimas, por minha vez, haviam sido deixadas na Enfermaria. Eu não conseguia mais chorar, depois de tudo. Ana estava sendo paciente com nossa amiga, abraçando-a e consolando-a, mas acredito que Sabrina não estivesse muito contente com isso. Poucas pessoas poderiam entender a ligação que havia entre nós cinco, agora quatro. Conhecer alguém profundamente, até os seus maiores defeitos, e amá-lo mesmo assim, é a maior prova de amor e amizade. É quando sabemos que temos amigos verdadeiros. Quando percebemos que todas as pessoas têm defeitos terríveis, mas qualidades maravilhosas. E Carolina, elevava essa filosofia de vida a um novo e totalmente inédito patamar. Ela tinha o dom de me irritar profundamente com sua alienação exagerada e egoísmo cosmopolita típico de patricinhas plastificadas. Ainda assim, eu sabia que por baixo das vestes de viúva negra, havia uma pessoa de coração bom, que seria capaz de me defender tanto quanto eu a defendia. Apesar do egoísmo e do ego. Ricardo se afastou da sepultura, enquanto Diogo começava a jogar a terra sobre a cova funda. Saulo havia pousado o braço sobre o ombro de Julia, e sua irmã apoiava a cabeça contra o seu peito, com ar cansado. O rosto dela parecia ruborizado, até que me dei conta de que ela estivera chorando, também. Os cabelos lisos e castanho-claros estavam amarrados desajeitadamente num rabo de cavalo, e voavam ao redor de sua cabeça com o vento matinal. Ela era baixinha, e de feições delicadas como as de uma princesa medieval. Eu não duvidava nada que meu julgamento estivesse sendo conturbado pela minha visão pessoal sobre ela, inclusive. Embora eu não fosse muito experiente naquele campo, julgava que pudesse estar sentindo algo por Julia que era realmente novo, para mim. A coragem para descobrir se ela sentia o mesmo, é que era um artigo raro.
Ricardo abraçou Hugo pela cintura, enquanto sua mãe parecia conversar com Tânia, que estava um pouco mais afastada de nós. A enfermeira se sentia particularmente culpada pela morte de Luca, embora todos nós houvéssemos garantido-lhe que não poderia ter feito nada. Rico mesmo a tranquilizara lembrando que ele assumira o risco de infectar Luca de propósito, apostando que ele se tornaria um Inumano racional, como Victoria e Jonas. Infelizmente, o pior havia ocorrido, mas Luca fora corajoso o bastante para se matar, antes de ferir Victoria, que ele amava mais do que a si mesmo. Para mim, tudo o que ele fizera de errado até então, havia sido perdoado naquele instante. Era a vez de Tânia de se perdoar, também. Desviei o olhar do lago plácido, quando escutei Eloá pedindo nossa atenção. Ela estava de costas para o lago, e parecia solícita, para dizer o mínimo.
– Oi, gente. – anunciou-se sorrindo. – Sei que todos devem estar pensando: “O que ela está fazendo?”. Bem, antes de qualquer coisa eu gostaria de dizer ao Rafael e ao Luca, onde quer que estejam que sempre, me lembrarei deles. No caso do Rafael, não é novidade para ninguém que éramos namorados. Todos devem imaginar a minha dor, principalmente porque todos já perdemos pessoas que eram importantes. Realmente importantes. Sobre o Luca, só tenho a dizer: obrigada. Obrigada, por me mostrar que o ser humano, ainda vale à pena. Obrigada por, apesar de nossas brigas e de eu tê-lo chamado de covarde, você ter morrido demonstrando ser um dos homens mais corajosos que já conheci. Viveremos por vocês, e pelos outros que já se foram. – então, enxugando uma lágrima de seus olhos, Eloá começou uma salva de palmas em direção ao túmulo de Luca. Todos a seguimos, emocionados.
Cinco minutos depois, em muda contemplação, nos viramos em passeata na direção do refeitório. No meio do caminho, Diogo amparou Victoria quando ela se desequilibrou subindo o barranco. Eles trocaram olhares rápidos, mas logo ela se soltou do toque dele, apoiando-se em Hugo. Enruguei a testa pensando que poderia haver um problema ali, mas logo me distraí quando Julia se aproximou sorrindo. Sem dizermos nada um ao outro, caminhamos lado a lado, seguindo o grupo. Fazia muito tempo desde que todos haviam se reunido pela última vez. Com dezoito pessoas no grupo atual, éramos uma família um tanto barulhenta ao redor da mesa de madeira improvisada. Alguns se espalhavam pelas cadeiras de praia ao redor do fogo, ou estavam sentados em toalhas de mesa sobre o chão, como no caso dos gêmeos, Mozart e Fernanda. Carolina e Maddie começaram a servir a comida mecanicamente, mas havia um clima inconcluso no ar. Todos podiam senti-lo devido ao silêncio que se abatera entre o som do mastigar, e as brincadeiras que Dino e Vilma faziam com Hugo, que havia se unido a eles em algum tipo estúpido de recreação. Meu olhar cruzou com o de Ana, que estava de mãos dadas com Sabrina. Ela parecia querer me dizer algo, mas teríamos tempo para isso depois. Busquei por Ricardo, e o encontrei pedindo socorro com os olhos. Eu não gostava do modo como ele me colocava sempre como uma espécie de conselheiro ou porta-voz, mas acredito que em uma monarquia, vizir ou arauto seriam mesmo os melhores cargos para mim. E, fazendo de conta que Rico fosse o rei, aquele seria um bom momento para anunciá-lo. Revirei os olhos de tédio, e pigarreei o mais forte que pude. Todos ignoraram. Inspirei fundo, e pus mais força ainda no pigarro, e então fui notado. Todos pararam o que estavam fazendo, incluindo Diogo, que parecia ter uma animada e exaltada conversa com Mozart e Jonas. Corei com as atenções indesejadas, e respirei rapidamente.
– Humm, ok. Desculpem atrapalhar a refeição. Mas acontece que o Ricardo queria fazer um pronunciamento, e não estava conseguindo ninguém cara de pau o suficiente para se fazer notar, que nem eu. Então, é isso: Ele quer falar. Manda ver, tigrão... – brinquei, trazendo Rico para os holofotes. Ele riu desconfortável, e depois buscou o olhar de Hugo, que também parecia surpreso. Então ele sorriu vagamente, e se virou para mim.
– Otto sabe mesmo como anunciar os outros. – riu Ricardo. – E como captar frases com o olhar. Vou me lembrar disso em sua presença, viu? – outro sorriso. – Bem, pessoal, ontem tive uma conversa muito produtiva com Saulo, na qual outras pessoas estavam presentes. Acredito que estavam, além de mim e ele, é claro, Fernanda, Julia e Hugo. Então vocês três já sabem do que vou falar. Bem, acontece que Saulo deseja buscar os amigos que deixou para trás em uma praia próxima do acampamento. E como somos um único grupo a partir de hoje, devemos ajudá-lo, e a seus amigos. – ah sim, então tudo fazia sentido. O almoço era mesmo a hora ideal para falar algo assim. À noite, seria bem mais difícil com o fator álcool envolvido. – Porém, temos também opções envolvendo isso. Hugo sugeriu que ficarmos aqui por muito mais tempo, seria perigoso e instável. Saulo concordou com ele, e sugeriu que formássemos uma caravana. Em seguida, resgataríamos seus amigos, e depois tentaríamos chegar à Búzios, onde provavelmente há um centro de refugiados. Pode parecer uma alternativa difícil e cruel, mas também há desvantagens em se estar num lugar tão exposto, e longe de fontes de alimentos. Estamos em uma situação precária, e não há nenhuma perspectiva de melhora. Viajando, podemos todos morrer, ou encontrar algo melhor. Mas para darmos um passo de tamanha importância, a maioria de nós deve concordar. Por isso, quero perguntar a vocês: O que vamos fazer? Quem vai seguir a ideia de viajar? Quem quiser partir, pode levantar a mão.
Levou algum tempo até eu perceber que aquilo já era uma votação. Aos poucos, fui inserindo-me na realidade atual. Todo o grupo que viera com Saulo já estava com a mão levantada. Mesmo Julia, apesar de sua expressão facial deixar claro que ela não gostara nada daquilo. Incerto sobre o que fazer, eu pesei as possibilidades em minha cabeça. Ficar significava uma “segurança” territorial e acomodada de que nada poderia nos causar dano se estivéssemos atrás das barricadas. O problema era que as barricadas eram as mesmas desde que tudo havia começado, mas as criaturas e dificuldades que precisaríamos enfrentar, não. A cada dia, mutações mais grotescas se revelavam a nós, e sobreviver se tornava uma tarefa muito mais difícil, e dependente de cada vez mais fatores. Em minha opinião, era um milagre que eu estivesse vivo até aquele minuto, mas resolvi que não deixaria o medo de me expor, dominar a convicção que eu tinha sobre a coisa certa a fazer. Ergui minha mão com espanto, e notei que Diogo e Mozart haviam erguido as deles. Depois, foi a vez de Victoria e Ana. Hugo também ergueu a mão, assim como Madeline, Jonas e as crianças. Eloá, Carol e Diana concordaram em seguida. Ricardo sorriu. Era uma decisão unânime. Sabíamos o que fazer depois.
– Vamos começar os preparativos para a viagem. Apesar de amarmos o Trocado, parece que os dias dele como nosso refúgio, acabaram. – declarou Rico, seus olhos vasculhando as expressões de todos. – Planejaremos tudo com calma, e com determinação. Vamos precisar de um pouco de treinamento, antes de seguir viagem.
Depois do almoço, nos dividimos em grupos menores e começamos a organizar nossos objetos coletivos e pertences pessoais. Mirando em sacos de areia e cimento, Diogo tentava ensinar às crianças, e à Ana, como arremessar facas. Tânia, Madeline e Diana treinavam com Eloá maneiras de aperfeiçoar ou aprender a atirar. Eu acabei me unindo ao grupo de empacotamento e seleção, que cuidava de separar o que seria necessário para a jornada, do que teríamos que deixar para trás. Isso me garantiu alguns dias no Depósito, na companhia de Julia, e ocasionalmente Fernanda e Mozart. Todos pareciam focados em fazer com que tudo ocorresse bem, apesar do medo evidente que espreitava sob o nosso forçado entusiasmo. Apesar da insistência de Victoria para que eu pedisse aulas de defesa pessoal à Diogo e Jonas, me neguei veementemente. Eu não me virara muito mal até aquele ponto, e também não acreditava que pudesse ficar muito melhor. O que mais me preocupava, era não ter certeza sobre uma direção a seguir, ou objetivo a traçar. Eu odiava profundamente não estar a pá de tudo, ou não ser capaz de imaginar os acontecimentos ao meu redor, tendo até mesmo possibilidade de prevê-los. Era sempre inquietante, não saber.
Quando me dei conta do que estava fazendo, dois dias depois da votação que Ricardo propusera, gemi alto e xinguei metade dos palavrões existentes, embora fosse tarde demais. Eu havia grampeado minha própria mão, ao invés de um saco plástico com granola desidratada. O pequeno grampo de cobre afundava-se em minha mão, debochando de minha dor lancinante. Era possível sentir as pequenas garras do objeto encurvadas sob a minha carne, com uma pressão de tirar o fôlego. Com lágrimas de dor embaçando minha visão, mordi o lábio inferior e retirei o pequeno metal da pele castigada, liberando uma diminuta torrente de sangue, que já se espalhava discreta, porém fartamente ao redor do ferimento. No meu pequeno momento de dor e agonia, não notei a presença ao redor, na sala dos mantimentos. Com uma delicadeza e um toque surpreendentemente reconfortante, Julia envolveu minhas mãos nas suas, e com um pequeno lenço azul apertou o local do sangramento. Em silêncio, nos fitamos por alguns momentos. Ela sorriu e limpou uma lágrima da minha bochecha. Senti minhas pernas estremecerem por alguns instantes, e as extremidades de meus dedos dormentes. Eu sabia que nada disso devia-se ao meu sangramento recente, mas sim à forma como eu podia sentir o hálito quente e vibrante de Julia contra minha pele. Não é possível transmitir a forma como me senti naqueles poucos segundos. Eu só queria que eles nunca passassem.
– Você chora como uma menina. – ela parecia genuinamente divertida, com minha situação. – É sempre tão dramático assim?
– Acho que você vai perceber que ainda não viu nada, Julia... – antes que eu desistisse, ou ela se arrependesse, a beijei. Foi algo estúpido e simples, apenas encostei meus lábios nos dela. Eu não sabia se teria forças para ir além. Mas ela tinha.
Envolvendo seus dedos nos cabelos exageradamente crescidos da minha nuca, Julia puxou-me cada vez mais contra ela, aprofundando nosso beijo. Sua língua tocou a minha, e de repente era fácil esquecer o latejar pulsante em minha mão direita. Julia ofegou por alguns momentos, e nos separamos para respirar. Ela abriu os olhos brevemente, e sorriu. Suas bochechas estavam rosadas, e ela parecia uma fada perdida de Arcádia, ou Avalon. Sua estatura pequena, as feições astutas e o corpo sinuoso e esguio comprovavam que, ao menos em aparência, ela facilmente poderia ser confundida com um ser feérico, ou élfico. É claro que no fim, poderia ser apenas a minha mente extremante nerd atuando. A mão de Julia que prendia o lenço ao meu machucado subiu pelo meu antebraço, e o afagou com o dedão. Sua outra mão escorregou para o local em meu peito que ficava acima do coração. Minha blusa de mangas compridas azul estava desbotada e pálida contra a imponência de seu toque. Senti-me como se fosse capaz de verdadeiramente, agir guiado pelos meus impulsos, pela primeira vez. Um suspiro alto de surpresa encheu o ar, acompanhado do som de uma cesta cheia de roupas caindo no chão. Parcialmente nos afastamos, para notar a chegada de Nanda e Dino, que a auxiliava no transporte das roupas que deixaríamos para trás.
– Por favor, me perdoem. Eu não queria interromper. – a garota ruborizou, segurando o crucifixo. – Dino, acho que podemos terminar depois, não?
– Tudo bem, Nanda. Pode dizer que quer deixar esses dois se pegando sozinhos. Eu entendo essas coisas... – resmungou o garoto, preparando-se para segui-la para fora.
– Não precisam sair. – tranquilizou Julia, sorrindo. – Estamos indo trabalhar também. Quanto mais tempo adiarmos essa viagem, pior. E menos chances meus amigos tem de estarem vivos, também.
Como se nada tivesse acontecido, Julia se afastou de mim e passou por Nanda, indo mexer nos objetos eletrônicos que, apesar de terem sido abandonados por causa dos insetos mutantes, ainda poderiam ser úteis numa emergência. Com certeza eu devia estar com uma expressão perplexa, porque quando ela me olhou por cima dos ombros de Fernanda e Dino, sorriu maldosamente, sacudindo a cabeça como se risse do meu nervosismo. A verdade era que eu não sabia bem o quê estava rolando, mas eu temia que pudesse descobrir mais sobre mim mesmo estando com ela, do que eu seria capaz sozinho. Eu também tinha certeza de que não era o melhor namorado que ela poderia ter descoberto, já que todos os homens do grupo eram melhores que eu em mais de uma coisa. Apesar de saber de tantas coisas, e imaginar tantas outras sobre tudo e todos, era prazeroso saber que pela primeira vez, eu poderia preocupar-me comigo mesmo, em primeiro lugar. E que também havia alguém disposta a me dar uma chance, disposta a ficar comigo por quem eu era. Mesmo não sabendo se aquilo iria durar, ou ter alguma chance de ficar sério, eu estava gostando. Mas não sabia como contar sobre aquilo para as garotas... Essa sim seria a pior parte...
Victoria/Nora.
A noite estava mais clara do que de costume. Nuvens de chuva carregadas rugiam no horizonte, com suas bocas murmurando e gorgolejando ameaças ininteligíveis a nós, meros humanos. Elas vinham, e manchavam o céu noturno vermelho, com suas presenças acinzentadas e pesadas, nublando a abóbada celestial estrelada. Olhando ao redor, senti meus pés afundarem na areia úmida de uma praia. E eu estava nua. Arfando e assustada, tentava correr e clamar por ajuda, mas o som dos trovões tornava-se cada vez mais alto, obstruindo as vias sonoras. Fitando pela primeira vez o solo ao meu redor, prendi a respiração de horror, ao ver o corpo de Diogo no chão, degolado. Suas roupas haviam sido rasgadas e maltratadas, e metade de seu rosto parecia passada a ferro. Não muito distante, era possível reconhecer o corpo magro e belo de Carolina, seus cabelos negros espalhando-se em torno de seu corpo, um tapete de beleza e morte. Reconheci também Dino e Vilma, os dois jovens e gentis gêmeos, que se amavam mais do que tudo, e que sempre haviam me considerado uma espécie de madrinha, de exemplo. Agora, estavam os dois deitados sobre a areia que começava a absorver as primeiras gotas daquela chuva diabólica. Suas mãos mantinham-se unidas, apesar das marcas de tiro em seus abdomens e a quantidade terrível de sangue. Sem forças para continuar tentando fugir, ajoelhei-me naquele lugar vil e obscuro. O próprio ar pareceu suspender seus ruídos silenciosos, quando mais uma vez, trovões ribombaram. As nuvens e o tempo caótico pareciam rir de mim, e aos poucos pude conhecer seu cruel intento. Pesadas e macabramente quentes, gotas grossas do mais autêntico sangue pingavam sobre o meu corpo. Ergui meus braços diante do horror, e gritei a plenos pulmões. Minha respiração entrecortada segurou o grito, quando reconheci uma silhueta bela e pálida em meio ao mar vermelho. Era Luca, e ele parecia mais belo do que nunca, vestindo um smoking branco, de casamento.
– Tudo o que ocorrer, será necessário. – ele me disse, e então ofeguei, quando olhei para mim mesma novamente, e estava vestida de noiva, com sangue pingando das bordas de meu vestido. – Vamos poder ficar juntos, então... – eu só queria poder recusar seu pedido a plenos pulmões, mas não tinha a destreza necessária para tanto, naquele momento.
Apenas gritei sentindo o sangue quente sufocar meu corpo como uma lupa sobre uma formiga, num dia ensolarado. Então, meus gritos ficaram distantes e meu mundo foi abalado por uma sensação gelada na boca do estômago. Eu estava acordada.
Deitada sobre a cama de Diogo eu suspirei de alívio, ao notar que nada daquilo era real. Ainda assim, eu sentia a presença mental de Luca como uma ponte que havia ruído, mas não havia sido devidamente interditada. Conscientemente, eu sabia que devia deixá-lo ir, e confortar-me com a paz que ele finalmente havia alcançado. Mas interiormente era difícil aceitar que ele estava mesmo morto, e quando eu estava dormindo, totalmente imersa no buraco negro que era minha mente dividida, as mais terríveis emoções tinham liberdade para por as garras de fora, e me pegar. Chiando ao colocar os pés descalços sobre o chão enregelado da madrugada, fui arrastando-me pelo quarto até alcançar um espelho de corpo todo, depois de acender um abajur no caminho. O objeto estava posicionado ao lado do guarda-roupa dos antigos donos, e me senti arrasada quando finalmente enxerguei o meu rosto. Os olhos estranhos me deixavam parecida com um monstro, e percebi que há muito tempo não me sentia tão feia. Meus cachos naturalmente exagerados e sem ordem, haviam murchado tristemente, numa massa indefinida dourada e triste. Olheiras seculares traçavam linhas de expressão sobre minhas bochechas, e eu estremeci de pavor, ignorando a mim mesma. A camisola cor de rosa em algodão simples, lembrou-me de meu antigo quarto no Leblon, e do dia em que eu me vestira lentamente para o meu último dia de aula. Havia sido tudo tão automático, tão triste. Agora, cada dia trazia a emoção de ainda estar viva, e era mais do que eu poderia esperar.
Obrigando-me a voltar para as cobertas, lembrei-me com ternura de Diogo. Ele praticamente me implorara para dormir na cama, depois do jantar. Explicando-o que não seria capaz de tratá-lo da devida maneira, ou de superar completamente a morte de Luca, havia me oferecido para dormir no sofá. Num gesto fofo, porém machista, ele se negou a me tirar do quarto, e lá estava eu. Sozinha por escolha (estúpida, admito), feia, assustada e triste. Bufei de desconforto ao pensar no modo como Diogo fazia eu me sentir. Era óbvio que eu estava apaixonada por ele, e que ele me amava, mas ainda assim, eu me sentia suja toda vez que pensava no modo como ele me tocava, ou como me fazia sentir. Era difícil não comparar com Luca, e o fato dele estar morto agora, só fazia tudo ainda pior e sacal.
Se você não fosse tão moralista, veria que tudo isso é um monte de bobagem. Não tem nada de errado em gostar de alguém, e em se sentir excitada e atraída por essa pessoa. Luca morreu, abotoou o paletó de madeira, pegou carona no expresso da meia-noite, partiu dessa pra melhor! Você precisa viver a sua vida, docinho. Sem falar que me negar o prazer de saber como o Diogo é, é simplesmente maldade!
Era possível imaginar o meu próprio rosto dizendo aquelas coisas obscenas e atrevidas. Sem sombra de dúvida, Nora continha todo o meu pior em sua personalidade. Até toda a libido que eu vinha reprimindo a minha vida inteira, parecia ganhar forma através dela. Apesar de toda a força e capacidade de luta que ela havia demonstrado, mostrando-me facetas minhas que eu nunca imaginara, eu considerava o meu “dom” Inumano, o pior de todos. Jonas podia agir quase como um tanque de guerra humano, e aquela Lupa horrorosa podia controlar cães! Eu havia recebido um vale-presente recheado com uma gêmea má insuportável, e uma dose extra de amor próprio e autoconfiança. No último caso, a dose extra ultrapassava muito a dose inicial. Nora extravasava limites que eu julgava saudáveis, e em alguns momentos eu temia perder a minha essência, sucumbindo aos seus desejos decididamente mais primitivos. Os últimos dias, com todo o estresse sobre Arlindo e Luca, haviam abafado a agonia de saber que existia alguém dentro de mim, que não compartilhava dos mesmos desejos e opiniões que eu. Em momentos de extrema fragilidade e medo, era possível sentir a supressão que a presença daquela outra mulher em mim causava, ocultando e protegendo-me de mim mesma. Ainda assim, eu não conseguia sentir-me exatamente grata por aquilo. Envolvida no conforto dos lençóis de Diogo, senti meus pés cada vez mais frios, com a súbita baixa de temperatura. Esfregando meu corpo contra o colchão, peguei-me desejando que mais uma vez, eu estivesse sozinha no mundo, por minha própria conta. Era bom ser capaz de me esconder na minha concha de ostra, e esperar que Nora solucionasse meus problemas, mas todo ser humano deveria ser capaz de cuidar de si mesmo. Das realizações e frustrações.
Só que eu não era mais uma humana.
Quando despertei novamente, algumas horas depois, eu estava de pé diante do espelho. Mas aquela não era mais eu. Nora estava no comando. Com os batimentos cardíacos acelerados, percebi que estava presa em um estado catatônico, incapaz de reagir apesar de presenciar tudo o que ela faria com o meu corpo. A questão mais problemática era: O quê ela faria?
– Ora, vou fazer o que queríamos ter feito há muito tempo... – sussurrou Nora, alisando o próprio rosto no espelho. O viço de minha pele parecia agora muito melhor, e mesmo a cor dos meus cabelos parecia mais viva. Era como se, enquanto minha verdadeira identidade estava fraca e abatida, meu duplo se tornava cada vez mais belo e forte, absorvendo a minha psique original. Algo extremamente assustador, e interessante ao mesmo tempo.
Com uma audácia que nem em meus mais terríveis sonhos eu ousaria possuir, Nora despiu-me sem qualquer pudor, indo delicada e sinuosamente apanhar um frasco de perfume no criado mudo. Eu sabia que qualquer incentivo seria desnecessário para Diogo, já que ele desejava isso mais que qualquer coisa, mas ainda assim gostei da sensação do odor fresco e doce contra minha pele. Nora era muito mais sedutora do que eu. Com um pensamento rancoroso e divertido, imaginei que ela sim seria capaz de rivalizar com Carolina, mesmo que minha amiga estivesse em sua melhor forma. Talvez meu próprio desejo e vaidade estivessem conferindo forças a ela, porque Nora se apressou e abriu a porta do quarto em seguida. Caminhando cautelosamente sobre o chão de azulejos cor de creme, divisamos o corpo forte de Diogo deitado no tapete ao lado do sofá. Ele caíra da mobília durante o sono, e agora jazia enrolado com uma manta e dois travesseiros de tamanho inadequado. Apesar disso tudo, descansava tranquilo, com uma respiração regular e pacífica. Sem querer anunciar nosso intento, Nora se aproximou, e tocou o peito de Diogo com um dos pés.
Os olhos verdes e ardentes abriram-se em questão de segundos. A reação inicial de perigo fez com que Diogo se afastasse alguns centímetros do lugar onde estava arrastando-se de costas. Em seguida, ele pareceu identificar nossa presença, com seus olhos vermelhos e rosto amassado pelo sono. Seus cabelos castanho-escuros e grossos formavam montinhos em sua cabeça, espetando-se em várias direções. Por alguns instantes ele apreciou a vista, e fiquei feliz e envaidecida ao notar a cobiça e a luxúria em seus olhos. Então, seu olhar tocou o de Nora, e sua expressão ficou séria. E depois, irritada.
– O que pensa que está fazendo com Victoria? – ele exigiu saber, levantando-se e sentando no sofá rapidamente. – Ela sabe que você deixou-a nua e veio me ver? – era fácil perceber que ele estava gostando cada vez menos de Nora. Eu podia prever um problema ali.
– Victoria está aqui, com a gente. E está realmente gostando de te ver assim. – declarou Nora, o que não deixava de ser verdade. – Você disse que esperava um sexo selvagem. Vim te dar isso, se você ainda quiser. – havia uma frieza na minha própria voz, que nunca havia imaginado sentir antes. Pela primeira vez desde o dia em que fora salva por Nora, senti medo dela. Agora eu entendia meus amigos. O quê eles temiam que me acontecesse...
– Acredite, eu quero muito. Mas não com você. – Diogo estava desafiando-a, de fato. Ele não parecia nada contente com aquela situação. – Não te conheço, e não sei em que canto vazio e escuro da mente da Vicky você se esconde. Mas não gosto nada de quem tira a liberdade dos outros. Ela é dona desse corpo, não você. Você é uma mutação, veio depois. É uma parte dela, da qual eu gosto muito pouco. E é por isso que vai sair e deixá-la vir até aqui. Tenho certeza de que ela não planejou estar nua e sozinha comigo esta madrugada...
– Tem certeza? Eu posso...
– Vou contar até três, e espero que a deixe vir. – rebateu Diogo, impassível. – Um. Dois...
– Tudo bem, eu vou! – chiou Nora, irritada. – Mas lembra disso, bonitão: A Victoria é quem vai escolher se eu ou ela ficaremos no comando. Vai chegar um dia, em que ela via me pedir pra ajudar, e eu vou ficar olhando. E depois que esse dia chegar, talvez ela nunca mais tenha forças pra te olhar de novo, e esse corpo vai ser todo meu... Até já. Espero ter dado meu recado.
Como se vinte pesos de ginástica houvessem sido retirados do meu corpo ao mesmo tempo, caí de joelhos entre as pernas de Diogo, apoiando em seus jeans para não cair de cabeça na mesinha de centro. Ele me amparou pelos ombros, tocando minha testa suada com sua mão fria. As últimas palavras de Nora ainda ecoavam na minha mente, enquanto que a presença dela parecia enfraquecida pelo último esforço, indo para um lugar remoto em minha mente conturbada. Eu sequer podia senti-la, do lugar para onde fora. O que era um alívio, considerando que eu estava morrendo de medo de mim mesma. Ou da pior parte de mim. As ameaças que ela fizera, dirigidas contra mim mesma, impediam que eu confiasse por completo naquela estranha chamada Nora. Eu temia agora o que ela poderia fazer, e a facilidade com que se voltaria contra qualquer um que a contrariasse. Sem notar quão patética eu poderia estar sendo, comecei a chorar e agarrei-me a Diogo, puxando-o contra mim pelo pescoço. Ele sussurrava palavras de incentivo para que eu me acalmasse, e alisava meus cabelos novamente opacos, com uma ternura que eu nunca imaginara. De fato, primeiras impressões não podem ser vereditos. As pessoas mudam diariamente, e é uma escolha nossa tentar realmente conhecê-las e surpreender-nos com o que cada um tem de melhor, ou permanecer fechados em nossos próprios conceitos de condutas adequadas, ignorando toda bondade ao redor. Pensar fora da caixa, era a única maneira de se conhecer alguém, no meu mundo. Eu jamais teria me apaixonado por Diogo, um homem completamente “errado”, se não fosse assim.
Notei que ele havia aspirado o cheiro em meu pescoço, e como no Pecado Original, tomei ciência da minha nudez com uma expressão de vergonha. Cobri-me precariamente, e acabei constrangendo Diogo ao mesmo tempo. Ele obrigou-se a olhar para o alto, as bochechas rubras de apreensão. Imaginei que Diogo pudesse estar inseguro quanto à minha participação naquilo tudo. Mas, súbita como uma serpente, a compreensão abateu qualquer resistência de minha parte. Luca estava morto. Há muito tempo, eu me sentia atraída por Diogo. Dias atrás, eu descobrira que o amava. Não havia nada tão importante quanto aquilo em uma época tão sombria quanto a que estávamos vivendo. Eu não seria uma falsa moralista. Não depois de tudo que havia feito para permanecer viva.
De pé, diante do homem que eu desejara por tanto tempo, tomei o rosto dele entre minhas mãos. Com um olhar chocado e perceptivo, Diogo olhou na minha direção, a vergonha totalmente superada. Seu olhar ardeu em meus seios como uma presença, uma entidade. Tímida e devassa toquei um de seus antebraços, e pousei-o sobre minha cintura, empurrando-o contra o sofá com a outra mão. Sentei-me sobre Diogo, que havia emudecido numa nuvem de luxúria capaz de paralisar e eletrificar o ar ao nosso redor. Ele inclinou-se para frente levemente, e retirou o blusão azul claro que vestia. Depois, puxei a camiseta branca que marcava seus músculos, revelando a pele morena e brilhante de seu tórax. Suas mãos pousaram sobre minhas coxas, com um aperto entre doloroso e quente. Tremendo em meu próprio intento, abri o zíper de sua calça, e puxei o cinto de couro marrom que ele usava. Diogo suspirou, e apertando um de meus seios, girou nossos corpos até que eu estivesse sobre o sofá, e ele de pé. Então, de uma vez só, ele ficou nu. Jogando para longe a calça e a sunga, ele logo estava sobre mim novamente. A consciência sobre o que eu realmente faria me atingiu, e senti uma sensação fria na boca do estômago, como se estivesse bebendo a água da Antártida inteira. Com um sorriso de admiração e confiança, Diogo afastou meus demônios, e inclinou-se para beijar meu umbigo, fazendo uma suave massagem com seu sopro, sobre minha barriga. Senti meus pelos arrepiarem-se enquanto ele beijava-me até o interior de minha cocha, preparando-se para me presentear com um prazer que eu nunca julgara ser possível...
Até que ele tocou meu ponto mais íntimo, com a língua. Perdendo as forças como em uma torrente incontrolável, senti Diogo beijar até os recantos mais profundos do meu ser, enviando vibrações de prazer que com certeza, alcançaram até minha alma. Os maiores momentos que imaginei ter com ele sequer chegavam perto do que eu estava recebendo. Quando achava que não podia mais aguentar aquela sensação inebriante e estarrecedora, senti os lábios de Diogo em meu pescoço, suas mãos firmes e fortes passeando pelo meu corpo como de um polvo estivesse me abraçando. De uma só vez, ele possuiu-me por inteira, penetrando-me com suave dedicação. Arfei de prazer e envolvi sua cintura com minhas pernas, meus cabelos caindo e esvoaçando contra o rosto molhado de suor, colado a mim. Senti Nora regozijar-se em meu interior, e devido ao sabor do momento, não pude evitar que ela arranhasse as costas do meu amante como uma felina predadora. Os músculos definidos de Diogo retesavam-se ante à dor de minhas carícias, mas ele não estava indo reclamar, exatamente. Aumento a velocidade até um ritmo capaz de tirar o meu fôlego, senti a represa de meus mais profundos sentimentos e desejos esquecidos romper-se num momento único e anestesiador. Eu tivera algo que muitas garotas e mulheres jamais haviam experimentado mesmo antes do fim do mundo, e ainda assim não tinha noção do quanto era sortuda. Totalmente à mercê de Diogo, senti seus movimentos e toques como suaves sensações e intimidade, enquanto aos poucos meus próprios sentidos normalizavam-se. Com um esgar mudo, Diogo apertou-se ainda mais contra mim e soltou seu peso sobre o meu corpo, enfim gemendo em alto e bom som. Estava acabado, mas eu jamais iria esquecer aquele momento.
Horas depois, senti o sol arder em minhas costas, invadindo a sala sombria através da janela. Diogo estava dormindo, ainda deitado sob mim, e nossos corpos emaranhavam-se sob os lençóis. Esfreguei minha mão espalmada sobre seu peito, sentindo os pelos lisos e suaves acariciando minha pele. Ele acordou com o toque, e sorriu de um jeito sacana que sempre me deixava possessa. Ignorei-o, e saí de cima dele, indo deitar ao seu lado, de costas para a janela. Diogo abraçou-me por trás, bloqueando o sol com o próprio corpo, involuntariamente adivinhando meu intento. Fechei os olhos por mais algum tempo, ciente de que, independente do quanto fosse difícil viver dali para frente, teríamos uma ao outro. Mesmo que Nora se tornasse um problema, que criaturas ainda mais terríveis espreitassem nas sombras, ou que aguardassem por nós pessoas ainda piores do que Arlindo, eu não temeria.
Afinal, se não pudermos simplesmente sobreviver, sempre poderemos matar uns desgraçados...
Fernanda.
Quando o Memorial ficou pronto, foi difícil não chorar. Ao meu lado, senti que Ricardo estava realmente despedindo-se do terreiro de Jeanette definitivamente. Sua pequena horta medicinal, com temperos, verduras e violetas, estava completamente enfeitada com várias lápides de madeira entalhadas e fincadas ali por mim, Dino e Vilma. E em cada uma delas, um objeto pessoal de nossos amigos que haviam perecido, estava pendurado. Ainda havia outras coisas, menos visíveis. Fitas coloridas se espalhavam pelas paredes do local, e Diana havia provado-se muito gentil, ao ajudar-me a escrever versos de canções, e passagens bíblicas que eu julgara reconfortantes e renovadoras nas paredes. Era a última vez que eu veria aquele lugar, pude concluir. Seria também a primeira vez que eu deixaria a segurança do Trocado, desde que os zumbis haviam começado a caminhar. Eu não tinha muita experiência em sobreviver na estrada, minha própria vida devia-se ao fato de Diogo ter me encontrado no lugar e na hora certa, nos primeiros dias de loucura. Agora, assim como os outros eu seria posta à prova, mais ainda pelo fato de ainda não ter absorvido tudo o que me acontecera ultimamente. Em poucos dias, eu havia passado e feito coisas que eu nunca imaginara em meus dias mais simples. Deus sabia que eu nunca havia sido uma garota muito ambiciosa e de grandes objetivos. Meu maior sonho sempre fora encontrar um marido rico, de alguma profissão respeitosa. Em seguida, nos casaríamos quando eu terminasse minha faculdade, e teríamos o primeiro filho. Eu escolheria ficar em casa com as crianças, apesar de ser uma mulher inteligente e capaz, e ele me amaria para sempre, valorizando todos os dias, o amor que eu sentia por ele.
Eu já crescer o suficiente para saber eu tudo era uma grande ilusão, mas ainda assim, era gostoso crer que, em algum universo paralelo, aquela realidade poderia realmente ter se concretizado. Ao invés disso, eu tinha agora uma longa jornada a enfrentar, sem qualquer garantia de sobrevivência, ou esperança de um fim para todo aquele horror. Havíamos chego a um ponto em que a ciência, apesar de explicar o que estava acontecendo, não conferia qualquer alívio ou certeza aos nossos planos. Mesmo que fôssemos capazes de acreditar que tudo se originara da gripe do urso, não tínhamos provas capazes de negar que tudo o que estava acontecendo, não passava apenas do Juízo Final, ou de algum fruto de magia negra, ou guerra biológica. Desejando viver para ver dias melhores, suspirei ao sentir a mão amiga de Diana em meus ombros. Ela ajoelhou-se ao meu lado, perto da lápide feita para Tiago. Havia sido uma das que recebera mais fitas coloridas, de Dino e Vilma. Toquei a madeira de pouca qualidade com uma das mãos, e me ergui, preparando-me para deixar aquele lugar. Ana também estava ali perto, preparando-se para deixar o santuário que durante tanto tempo nos servira de lar, em direção ao desconhecido. Todos haviam ido visitar e despedirem-se dos mortos, naqueles últimos dias. Chorando, Carolina depositava um celular diante da lápide feita para Luca, sob o olhar emocionado de Otávio, que assistia a tudo com Julia. Victoria também estava ali, toda vestida de preto, com suas botas de couro características. Ela estava pondo uma flor no túmulo de Lucíola, e outra no da pequena Daniela. Aqueles de nós que não conheciam os mortos, e que haviam chegado por último, simplesmente deixavam seus respeitos numa oração muda. Mas tenho certeza de que, onde quer que nossos amigos estivessem, se sentiriam muito gratos.
Caminhei ao redor da horta pro mais algum tempo, namorando as paredes e rezando comigo mesma. Por algum motivo, lembrei-me de uma jovem santa, que morrera acreditando estar cumprindo os desígnios de Deus. Joanna D’arc. Ela acreditara, até o último instante, que seria capaz de cumprir sua missão na Terra, respaldada apenas em sua fé, e contra todos os preconceitos do mundo em sua época. Queimada como bruxa pela ferrenha Inquisição, havia encontrado nas chamas a recompensa pelos seus dias de servidora do Cristo, tornando-se uma das maiores mártires da história do mundo. Seu exemplo de vida, da jovem de dezenove anos que enfrentara a todos para ter o direito de lutar pela França na Guerra dos Cem Anos, ouvindo as vozes dos mais ilustres seres divinos, que a revelaram fatos que se cumpriram muitos anos depois de sua morte. Todos os seus feitos permaneceram vivos para sempre depois de sua morte, e um dia ainda seriam lembrados, num mundo menos triste. Reforçando minha própria alegria em seu exemplo, compreendi naquele momento algo que me escapara até então. Uma paz acolhedora e sincera inundou o meu espírito, enchendo minhas concepções de serenidade, e aceitação. Arlindo havia sido a minha fogueira. Eu seria como a Donzela d’Orleans. Seria forte, honesta, e lutaria para resguardar os últimos resquícios do povo de Cristo. Eu tinha meu propósito, minha tarefa. Também tinha minha fé. Só julgava que precisaria ainda de certa quantidade de destreza e ferocidade. Mas para alguém que aprendera a sofrer e ferir das maneiras mais difíceis, aquilo seria muito simples.
Ao longe, eu podia ouvir o som dos motores sendo ligados pelo pessoal, que se preparava para finalmente deixar o Trocado. As casas haviam sido lacradas, e o Depósito esvaziado. Todos os remédios e utensílios da Enfermaria estavam agora na traseira da ambulância, incluindo duas macas hospitalares. Toda a comida estava numa van verde escura que havia sido restaurada e conservada para o caso de que uma fuga se mostrasse necessária. Agora seria usada para nossa viagem mais perigosa, e talvez a última de muitos de nós. Com um aperto de emoção no peito, vi Eloá agachada sobre os próprios joelhos perto de um grupo de lápides fincadas bem juntas umas das outras. Eram as lápides de Ulisses, Armando e Rafael. Os três eram amigos, e pescadores de Cabo Frio, que trabalhavam no Canal antes de tudo ir pelos ares. Assim como Eloá, que os conhecia desde muito nova. Agora, ela depositava diante de seus túmulos simbólicos uma foto com os quatro, em uma festa de fim de ano. Foi difícil continuar olhando, e acabei caminhando na direção da saída, sem notar para onde de fato estava indo. Achei o túmulo de Kamila e sua família, notando que alguém tivera o cuidado de deixar uma flor em cada túmulo. Com um suspiro de compaixão, reconheci Madeline, levantando-se vagarosamente da terra, com uma pequena sacola descartável vazia, que antes devia ter estado cheia de flores, que ela distribuíra pelo local.
Saímos na direção do céu ensolarado poucos minutos depois, e Ricardo lacrou o terreiro para sempre. Reunimo-nos ao redor dos veículos que seriam usados na nossa jornada em busca da Terra Prometida. Eu só torcia para não ser o Moisés ali. A minivan, a ambulância, uma camionete e dois carros de passeio (um novo uno amarelo e um Doblô preto), estavam prontos e carregados para a viagem. Nosso líder se postou ao lado de Diogo, Saulo, Tânia e Sabrina, que seriam os primeiros motoristas do grupo. Cada um recebeu a chave de seu respectivo veículo, e cada um de nós foi instruído por Hugo a se dirigir para o grupo onde seríamos mais adequados. Ele era nosso membro mais indicado para avaliar a logística da situação, embora seu conhecimento em Geologia não fosse especificamente indicado para tal tarefa. Ele era o melhor em avaliar eventuais problemas, e todos se sentiam confortáveis em acatar suas decisões.
– Certo pessoal, chegou a hora. Quero desejar sorte para nós, e esperar que os amigos de Saulo estejam todos bem quando chegarmos à praia onde fica o quiosque onde estão acampando. Essa será nossa primeira parada, caso as coisas estejam bem por lá. Se houver qualquer problema, vamos continuar dirigindo e fugindo na direção da autoestrada, e só quando não houver perigo ou a gasolina acabar, pararemos. Do contrário, vamos fazer uma pausa para pegar o pessoal, e nos prepararmos para seguir em frente. Daí em diante nosso objetivo é Búzios. Vamos investigar os boatos desse campo militar, e resolver para onde ir a partir de então. – declarou-se Ricardo, com a chave da minivan na mão. – Agora, vamos ver como Hugo nos separou, para a viagem. – o namorado de Ricardo tomou à dianteira, e sorriu para nós com um nervosismo quase fofo. Ele tinha uma prancheta nas mãos, e parecia tenso.
– Ér, oi galera. Mais alguém aí com medo de viajar? Eu estou... – murmurou, divertindo a todos. – Bom, na minivan, vamos Ricardo, Diana, Fernanda e eu. No Uno, Eloá vai dirigindo com Sabrina, Ana e Madeline. Na Doblô, vão Saulo, Julia, Jonas e Carol. Na camionete, Diogo e Victoria. E na ambulância, Tânia, os gêmeos, Otto e Mozart. É isso aí galera. Vai dar tudo certo. Vamos torcer! – sem mais, Hugo nos deixou prontos para seguir em frente. Carol parecia insatisfeita com seu grupo, mas seguiu Jonas e Julia até o carro onde o irmão da garota a esperava. Todos se surpreenderam quanto Otto e a menina se beijaram antes de irem ambos aos seus assentos, mas eu que já sabia sobre eles, fiquei feliz. Todos tomaram seus lugares, e pareciam ansiosos para de alguma forma recomeçar.
E eu sabia que, embora pudéssemos estar a milhares de quilômetros de distância em breve, com novas pessoas, novos desejos ou novos sorrisos, as peças caindo naquele momento nunca deixariam o meu coração. Era sempre preciso destruir o velho, para surgir o novo, e cada amanhecer trazia dicas dos dias que viriam. Passando entre os primeiros cadáveres reanimados que eu via em algum tempo, acompanhei o Trocado ficando cada vez menor, enquanto aquela parte de nossas vidas ficava para trás. O sol mudou levemente de direção, e me ofuscou por alguns minutos. Ricardo sorriu para mim através do vidro do retrovisor, uma de suas mãos na coxa de Hugo. Ao meu lado, Diana, sorria com seu jeito doce, e apertava minha mão. Minha visão focalizou alguns pássaros voando ao longe, alguns urubus zumbificados que provavelmente estariam buscando alimento. Mas eles estavam longe demais para nos perceber, e pousaram em no topo de um prédio a centenas de metros de distância. A língua amargou com a visão de animais tão desagradáveis, e senti um bolo na boca de meu estômago. Minhas têmporas arderam em seguida, e uma acidez incontrolável me dominou. Senti o vômito na minha garganta antes que pudesse falar, e Diana gritou que Ricardo parasse. Coloquei a cabeça para fora e vomitei por alguns segundos, enquanto alguns zumbis se aproximavam de nosso veículo lentamente, virando a esquina em que estávamos. O enjoo perdurou por alguns momentos, mas ninguém falou nada. Deduzi que tudo se devia ao tempo em que eu não andara de carro, mas Diana me olhava de maneira esquisita e perturbadora. Ela trocou olhares com Hugo, pensando que eu não havia notado. Eu só não podia imaginar no quê estavam pensando.
Como uma peregrina, senti-me pronta para desbravar aquele mundo hostil, com a ajuda de Deus. Mas se eu soubesse o que teria de enfrentar logo em seguida, teria clamado com muito mais afinco, por ele...
Notas finais
Kisses by Dropping Pieces!
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