Quebranto.

15 O quarto Cavaleiro é a Morte.


Notas iniciais
Ok, galera. Esse vai ser o capítulo que mudará a fic. Muito importante, mostrará o ponto em que a história se encontra com o Prólogo. Conto com o apoio de vocês nas reviews pra manter ela seguindo, e quero convidá-los a entrar na mente de outro personagem, afinal teremos nosso primeiro POV(Point of View), que não pertence à Vicky. Boa leitura a todos, e que suas armas nunca falhem...

Lembro que minhas pernas vacilaram muitas vezes naquela noite. Apavorada, senti-me vítima de um filme de terror, e arrependi-me por nunca ter levado nenhum deles a sério. Se isso fosse possível, eu poderia dizer que Tiago estava pior do que eu. Mas era um páreo duro. Apoiando-nos um no outro, Alcançamos o refeitório onde o pessoal já havia percebido o que estava acontecendo. Consegui ouvir o grito de Nanda, quando um dos cães-do-mato passou a toda velocidade por ela, e começou a se mover circularmente, acuando nosso grupo. Com seu revólver, Ricardo derrubou um dos bichos, enquanto Carolina e Otto estavam de pé no teto de um dos carros, um Picanto verde. Disparos consecutivos eram ouvidos na direção da barricada, enquanto Diogo e Luca disparavam contra os animais sem parar. Eloá, Rafael e Ana estavam próximos de nós, e foram os primeiros com quem tivemos contato ao chegar no local.


– O que foi isso? – Ana estava horrorizada.


– Cães-do-mato. Tem zumbis na barricada também, e temos que ajudar o pessoal que está cercado! Meus irmãos estão lá! – gritou Tiago, nervoso.


Ricardo estava totalmente acuado, protegendo Nanda, Vilma e Dino com o próprio corpo. Três cães o cercavam, ignorando-nos provavelmente por julgarem as crianças nossos alvos mais fáceis. Habilidosamente, Eloá puxou sua faca de caça e correu na direção da barricada para ajudar Luca e Diogo. Rafael entendeu o recado, e pegou uma espingarda caída em meio a restos de vinho e da nossa refeição. Com o primeiro disparo, ele derrubou um dos cães. Os outros automaticamente se voltaram para nós, vindo raivosos em nossa direção. Como estavam de costas para Ricardo, ele teve um ângulo perfeito para matar outro deles, e Tiago atirou no terceiro. Por um momento, julgamos a ameaça controlada, mas então ouvimos o gorgolejar característico dos errantes. Zumbis haviam conseguido se espremer entre as falhas na barricada, e um grupo com cerca de vinte deles, estava caminhando pelo acampamento. Ana foi a primeira a ser atacada, e deu um chute fraco no errante que tentou agarrá-la. Rafael puxou sua faca, e perfurou o olho do morto, derrubando-o. Nanda abriu a porta do carro onde estavam Otto e Carolina, e se escondeu com as crianças. Meus amigos desceram do veículo e se aproximaram de nós. Carolina tinha uma panela na mão, e Otto um pedaço de madeira. Com minha mão ferida, me ative a ficar no meio do grupo, protegida por eles.


– Amiga, não é melhor se esconder com a Nanda? – indagou Carol, nervosa.


– Não, só vou descansar quando eu tiver certeza de que todos estão bem. – insisti. A verdade é que eu estava enciumada, pois também queria fazer parte da defesa do nosso lar. Estupidez, eu sei. Principalmente considerando o perigo iminente. Ainda assim, por motivos que até mesmo eu desconhecia, meu bom-senso estava totalmente prejudicado.


– Seja como for, é melhor eliminarmos esses zumbis. – resolveu Ricardo. – Rafael, preciso que você e o Tiago restaurem a barricada e impeçam a entrada de mais bichos. Enquanto isso, eu e o pessoal limpamos aqui dentro. Ok?


– É melhor Tiago ficar aqui dentro. – me intrometi, nervosa. – Ele foi mordido. Se mudar durante o ataque, pode causar a morte do Rafa. Outra pessoa tem que ir com ele.


– Mordido?! – Rafael destravou a espingarda.


– Calmo aí Anderson Silva! Eu ainda não morri! – resmungou Tiago. – Vou ajudar aqui dentro.


– Eu vou com ele. – Carolina prendeu o cabelo num coque torto. Diante dos olhares de descrença, ela se irritou. – Que foi? Eu consigo droga!


– Toma isso. – Ricardo entregou a arma dele. – Cuidado.


Não dissemos mais nada. Todos sabiam o que fazer. Carolina e Rafael correram para a barricada, enquanto o restante de nós tentava matar o máximo de zumbis possível. Os tiros na parte da frente haviam cessado, e quase desmaiei quando vi tanto Luca quanto Diogo em perfeito estado. Eles estavam usando equipamento para prática de skate, e quando foram mordidos, o material acolchoado os protegeu. Fiquei surpresa com a força de Otto, que com uma única pancada, quebrou o pescoço de um zumbi. Outro momento marcante do qual me lembro, foi de ter sido pega por um errante pelos cabelos, e salva por Diogo, que decepou a cabeça da mulher morta com seu machado de bombeiro. Como coadjuvante dos acontecimentos, percebi detalhes que passaram despercebidos ao resto das pessoas. Todos estavam compenetrados não em proteger as próprias vidas, mas em proteger aquilo que tínhamos ali. Um tipo corrompido e desvirtuado de família, que ainda assim, era tudo com o que podíamos contar, naqueles dias escuros. Assim, era quase bonito de se ver, de um jeito sádico e pervertido, uns pondo as próprias vidas na linha de tiro, pelos outros. Os menos capazes de se defender (Nanda, eu, Ana e as crianças) éramos protegidos pelos outros, que tinham mais preparo físico e mais sangue frio. Os cães haviam sido uma ameaça inusitada, principalmente porque eu nunca vira aquela espécie passeando livremente pela cidade de Cabo Frio. Provavelmente as mutações causadas pelo vírus zumbi haviam acentuado as características dos predadores, tornando-os mais aptos à caça. Enquanto a praga debilitava e matava os humanos, tornava os animais carnívoros ainda mais mortais. Era como se ele fosse algo consciente, que quisesse devorar o mundo. E estava conseguindo.


– Nem acredito que você deu conta do recado, Carolina. – surpreendeu-se Rafael, quando o último obstáculo da barricada foi colocado no lugar.


– Nem eu mesma acredito Rafa. Mas é bom saber que sirvo para alguma coisa. A partir de hoje, quero aprender a atirar direito. Quero proteger a gente. Isso não vai acontecer de novo. – minha amiga estava irreconhecível. Nem parecia a patricinha fútil e gostosa que não gostava de quebrar as unhas. Acho que o Apocalipse não é lugar para estereótipos, afinal.


– Concordo com a Carol. Todos vão ser treinados para combater os errantes. – declarou Ricardo. – Agora, antes de limparmos tudo, todos estão bem?


– Sim. Graças a Deus não tivemos perdas, dessa vez... – agradeceu Eloá. Então todos nos lembramos do Tiago, e de que ela ainda não sabia sobre ele. O garoto estava sentado à mesa do refeitório, arfando e suspirando de dor.


– Na verdade, El, o Tiago foi mordido... – Ana deu a notícia. O sorriso de Eloá vacilou, e voltou. Em seguida, ele desmoronou de vez.


Todos nos voltamos para o rapaz, que respirava com dificuldades. Ele brincava com a arma em suas mãos, esfregando o cano no rosto, e mordendo os lábios para travar a ardência em seus ossos. Eu saberia um dia a dor que ele estava sentindo, mas naquele momento, nem podia imaginar seu sofrimento. Fernanda saiu do carro ao perceber que tudo estava bem, e se aproximou com Vilma e Dino. Os gêmeos não pareciam perceber muito bem o que estava acontecendo, até que viram o ferimento do irmão. Dino começou a chorar, mas Vilma se aproximou de Tiago e tocou o rosto do irmão com sua mãozinha. Ninguém ousava dar um pio, e mesmo nossa presença naquele lugar, parecia uma invasão de privacidade.


– Se você quiser que a gente se afaste, para que possa se despedir... – ofereceu Ricardo, mas Tiago negou com a cabeça.


– Vou me despedir da minha família. Toda ela. – decidiu-se, tocando o coração de todos com sua declaração. Sua morte tornou-se um símbolo do que poderíamos perder, naquele momento. Ele era o primeiro de nós a nos declarar daquela forma, e isso me marcou profundamente. Apesar de nossas diferenças, acabei chorando sinceramente por seu estado. Era inevitável.


– Ti, você vai deixar a gente? – Vilma tomou a mão do irmão entre as suas. – Mas você tinha prometido que ia cuidar de nós pra sempre.


– E eu vou, Vi. De você e do Dino. Agora vocês têm outros irmãos que vão protegê-los, e eu vou ficar de olho em vocês lá do céu. Lembram o que o papai disse quando o machucaram também? E quando a mamãe morreu? – indagou Tiago, abraçando os irmãos caçulas.


– Não chorem meninos. Eu vou, mas volto. – choramingou Dino, soluçando.


– Isso mesmo. Eu vou fazer igual a ele. Vou embora, mas volto logo pra ficar de o... De olho em vocês... – a voz de Tiago estava embargada. A cena toda era lúgubre, e triste demais. – Prometam que vão obedecer a Fernanda e a Victoria. Elas vão cuidar de vocês. – e então ele olhou para mim e para Nanda, como que pedindo um pacto. Nós duas assentimos, tranquilizando-o. – Também prometam que vão aprender a se defender. Vocês precisam cuidar um do outro, também.


– Tudo bem maninho, a gente promete. – Vilma respondeu pelos dois, enquanto Dino concordava, chorando.


– Então o maninho vai ficar muito feliz, pirralhos. – Tiago bagunçou os cabelos de Dino, e beijou a testa de Vilma. – Vocês fazem um último favor pra mim? – pediu, cansado.


– Claro irmão. – concordou Vilma. Então Tiago pegou sua arma de cima da mesa, e colocou na mão esquerda da garota. Todos nos entreolhamos, imaginando o que ele faria. Depois, Tiago pegou a mão direita de Dino, e a apoiou sobre a de Vilma, colocando o dedo indicador de cada um no gatilho.


– O maninho vai fechar os olhos, e vocês apertam aqui. Isso vai fazer o Ti descansar mais rápido. – os dois concordaram com a cabeça, e todos perceberam o que aconteceria. Ricardo e Nanda correram para impedir as crianças de tamanho trauma, mas Diogo segurou nosso líder, enquanto Luca silenciava Fernanda. Diante dos nossos olhos, Tiago fechou os dele, e apoiou-se na cadeira. Ele deu um último abraço nas crianças, e os dois apontaram o revólver, compartilhando a mira. O tiro que se seguiu acertou o adolescente na têmpora direita, fazendo a cadeira onde ele estava tombar para trás, bem como Vilma e Dino se desequilibrarem.


As duas crianças estavam chorando no chão, e eu aproximei-me, junto de Nanda. Ricardo e Diogo verificavam o corpo ao nosso lado, e com a nossa aproximação, eles nos abraçaram com força. Eloá, Carolina, Ana, Otto, Rafael, Luca, todos estavam chorando. A morte de Tiago provocara a morte da inocência daquelas crianças, e de certo modo isso doía em todos. Eles precisariam de muito apoio naquele momento, e de uma estabilidade que todos sabíamos não poder oferecer. Nosso esconderijo sofria ataque após ataque, e tornava cada vez mais evidente que não era seguro. Em contraponto, não sabíamos para onde ir, ou o que fazer. Era como se a Morte estivesse entre nós. Apática, deixei que Nanda levasse as crianças para um banho. Luca me beijou, mas eu mal registrei seus lábios nos meus. Minha mão ferida estava dormente, e eu temia uma infecção, mas mesmo isso ficou em segundo plano. Eloá e Rafa estavam recebendo a ajuda de Otto para jogar os zumbis para fora da barricada, e Carolina me deu um copo d’água que mal passou pela garganta. Quando sem mais nem menos Diogo desferiu um soco no rosto de Ricardo, eu já estava quase recuperada do choque. Somente depois eu fui entender que Diogo havia culpado Ricardo pelo ataque dos cães, assim como fizera com a morte de Lucíola. Agora ele acrescentava Tiago à lista de vítimas de Rico, o que em minha opinião era absurdo, e só demonstrava o quanto o ego dele era grande. Segundo Ana, que sempre dava um jeito de estar ciente das fofocas, Ricardo dissera basicamente isso à Diogo, que o agredira por não ter nenhum outro argumento relevante. Embolados no chão empoeirado e barrento, os dois pareciam gatos de rua. Luca correu para separá-los, mas ao invés disso acabou chutando as costelas de Diogo, após este dar-lhe um soco no rosto. Otávio teve de segurar Luca, enquanto Rafael tentava separar os dois. Uma mistura de urros raivosos e o choro de Eloá ecoavam pelo ar, e quando me dei conta, até Carolina estava enfiada no meio da confusão. Por fim, Diogo foi contido, mas estava possesso. Com as costas apoiada na camionete de Armando, observei enquanto ele se afastava do grupo, passava pelo local onde o corpo de Tiago estava coberto por um lençol branco, e pegava a chave de um dos veículos em cima da mesa. Luca ainda estava preso por Otto, com um olhar furioso.


– Última chance, loira. Vem comigo. – levei quase três minutos para perceber que Diogo estava falando comigo, na frente de todos.


– Para onde? Ficou maluco? – volvi nervosa. Eu não queria ir com ele, mas também não queria afastá-lo.


- Quase. Não vou ficar vendo um monte de gente morrer porque não sabe votar. Também não quero ficar num lugar onde não sou bem-vindo, nem ver a garota que eu quero, sendo apalpada por outro na minha frente. – disparou nervoso. Ouvi Luca gritar um “Filho da puta!”, e Ricardo ajudando a segurá-lo. – Eu quero ver alguém tentar me impedir de abandonar esse barco antes de afundar. É sua última chance de fazer a coisa certa, e vir comigo. Eu vou te proteger.


- Não vou fazer isso. Desculpe. – a expressão de dor no rosto de Diogo, me cortou o coração. Mas ela não era a única coisa que estava lá. Havia também desejo, e ciúmes.


– Então você prefere morrer. – ele esfregou os cabelos, e socou a camionete. Eu estava tão encolhida contra o veículo, que praticamente sentia os átomos do meu corpo se fundindo ao metal. – Se não posso te levar comigo, vou levar algo pra me lembrar de você. – sem pestanejar por nem um segundo, ele me beijou.


Não posso dizer que foi um beijo ruim, mas foi diferente. Possessivo, dominador. Quase selvagem. Assim como Diogo era. Procurando por mim mesma, encontrei forças para afastá-lo, de leve. Não serei hipócrita a ponto de dizer que não correspondi ao beijo, e talvez fosse exatamente por terem percebido isso, que ninguém o separou de mim. Sem dizer mais nada, ele se afastou de mim, e abriu a porta do nosso gol branco. Ele jogou as armas que tinha apanhado na rua dentro do veículo, e ligou o motor. Apertou a buzina, e Eloá correu para abrir o pequeno portãozinho de madeira que permitia a saída dos carros. Levantando poeira, Diogo atropelou alguns zumbis e desceu o morro, sem a menor hesitação. Com meus lábios inchados pela força dele, toquei-os com as pontas de meus dedos. Minha mão feria repuxou, e Ricardo deixou que Luca fosse solto. Ao contrário do que imaginei, ele não veio para perto de mim, mas partiu na direção da casa que dividíamos. Sem entender nada, meu olhar encontrou o de Otávio. Ele estava tão pasmo quanto eu, e acabei me obrigando a correr atrás de Luca. O portão estava escancarado, assim como a porta do interior. Subi direto para o nosso quarto, para encontra-lo sentado sobre a cama, com a cabeça entre as mãos.


– Você o beijou. – acusou Luca, como se não tivesse visto que o ocorrido fora exatamente o oposto. Ele havia me beijado.


– Você não estava lá? É claro que viu que não fiz nada! – respirei fundo, tentando me acalmar. – Não nego que correspondi, fui pega de surpresa. Mas não significou nada. Eu amo você, Luca. Só você. – garanti.


– Desculpa Victoria. Fiquei estressado com o lance do Tiago, e a briga com o Diogo. – contou Luca. – As coisas estão muito difíceis.


– E vão ficar ainda mais. Temos dois homens a menos. Mas eu sei que se ficarmos juntos, podemos consertar as coisas. Temos que nos acostumar a isso. Não sabemos quem será o próximo. Ater-nos a problemas tão pequenos, pode significar que nunca mais teremos a chance de nos redimir. Lembra o que você me disse quando briguei com a Carol? Isso vale entre a gente também. Um beijo pode desmoronar tudo que construímos? – desabafando, notei que no fundo, eu tinha muito medo da morte, e medo de partir deste mundo, com os laços que me prendem a ele estilhaçados.


– Tem razão. Perdão, Vicky. Eu fui um idiota. – Luca me abraçou, carinhoso. – Banho em dupla?


– Com certeza. – concordei, rindo da brincadeira particular que havíamos criado. Com a água acabando, Ricardo tinha sugerido que tomássemos banhos em duplas. É claro que, considerando a personalidade de Rico, ele nunca diria isso com intuito erótico, mas entre nós, a coisa tinha tomado proporções exatamente sexuais.


Depois do banho, Luca limpou meu corte com uma toalha limpa, e passou álcool. A dor foi intensa, mas eu estava muito cansada para senti-la. Luca tinha hematomas pelo corpo, adquiridos durante a luta com os cães. Passei uma pomada para os músculos que o último grupo de busca havia trazido, e nos abraçamos para dormir, de pijamas. Agora que nosso sangue esfriara, e nossas feridas haviam sido limpas, pareciam doer ainda mais. Antes de pegar no sono, tive um flash do momento em que Tiago deixou este mundo. Eu não sabia por que, mas de todas as mortes que eu já presenciara, aquela ficaria na minha mente por muito tempo. Mas não foi nem de longe, a mais cruel que eu vi.

Durante a madrugada, sentir alguém te tocando pode ser algo assustador. Basta estar realmente cansado, num sono de ferro, e não esperar por qualquer tipo de aproximação. Isso é o que basta para garantir um susto indescritível. Foi basicamente o que me aconteceu. Sentindo alguém me cutucando, despertei de meu sono quase que de modo doloroso. Num acesso de pânico, soquei o invasor sem pensar duas vezes. Minha mão ferida acertou o rosto de alguém, e no escuro, ouvi Luca despertando ao meu lado.


– Victoria! O que houve? – ele perguntou nervoso.


– Tem alguém no quarto! Acende a luz. – e Luca a acendeu. Para minha surpresa, Carol estava sentada no chão, segurando o nariz com as duas mãos. Um pouco de sangue sujava seu queixo, e ela parecia furiosa.


– Xegundo xoco, hein badia! Bocê qué acaba cumigu... – gemeu ela, enquanto tentava estancar o sangramento.


– Amiga! Desculpa! Eu me assustei, caramba! – corri para socorrê-la, sentando-a na cama. – Luca, pega gelo! Vai. – ele desceu as escadas, enquanto eu limpava o rosto de Carolina com minha blusa. – Sei que agora você não deve estar mais querendo falar, mas o que te fez vir aqui tão tarde?


– Xua chorte é que eu preciso fala! A Fênanda tá paxando mal. Crije di asssma... – resmungou Carol, tapando o nariz com o indicador e o dedo polegar.


– Crise de asma? Como assim?! – o pânico começou a me inflamar. Luca entrou no quarto com uma bolsa térmica, e entregou para Carol. Otto entrou logo depois, também preocupado. – Ah, graças a Deus alguém que consegue falar! – Carol me mostrou o dedo médio. – Por favor, Otávio, me explica isso da Fernanda!


– Ela ficou muito emocionada com a morte do Tiago, e teve uma crise nervosa. Parece que eles estavam tendo um caso, em segredo. Ela não tá conseguindo respirar, e o Ricardo não pode fazer nada sem uma bombinha de oxigênio... – meu amigo estava arrasado. Ele estava prevendo a morte de Fernanda. Mas, por Deus, nem que eu tivesse que dar a minha vida, ela viveria.


– E como conseguimos uma bombinha dessas? – exigi. – Com certeza você e a Ana já devem ter perguntado a ele!


– Sim, perguntamos... Ele disse que a mãe dele estava usando, também. Parece que na casa dele, tem uma porrada. É claro que o problema é chegar até lá, sem sermos comidos. Ninguém está com coragem para sair. Não depois do último ataque. – confessou Otto. – Mas vamos fazer o que for possível. Se você topar, eu topo. – ele prometeu, me dando uma piscadela.


– Nem pensar! A Victoria não vai lá fora! – revoltou-se Luca, estúpido. – Me admiro, por ver você sugerindo isso a ela! Ela tá com a mão fodida, toda machucada por causa da Lucíola, e você quer ela lá fora? Nem pensar! – Otto ergueu uma sobrancelha, quase debochando abertamente de Luca.


– Eu conheço minha irmã. Se ela não for, vai ficar maluca. Se você for esperto, e escute bem, se for esperto vai nos ajudar, e não atrapalhar. Carol ainda apertava a bolsa térmica contra o nariz, mas concordou com Otávio, fitando Luca com uma expressão de ironia.


– Merda! Tudo bem, nós vamos buscar essas bombinhas. Vamos falar com o Ricardo. – ajudei Carolina a se levantar, e saímos de casa.


Mesmo dormindo, Fernanda estava inquieta. Durante o sono induzido pelo cansaço mais bruto, se debatia e ofegava, com dificuldades para sugar o ar. Era lastimável. Ricardo nos recebeu com uma expressão sombria, e pouquíssimo entusiasmo. Não era para menos. Desde sua liderança, as coisas não estavam sendo fáceis. Sem muito sucesso, Vilma e Dino estavam esfregando um emplastro de ervas retiradas do jardim de Jeanette no peito de Nanda. Emocionada, senti minha visão se embaçar aos poucos com minhas lágrimas. Ana também estava lá, ajudando Rico a cuidar de tudo, e segurando um maço de eucaliptos em brasa perto de nossa amiga. Nada parecia dar certo.

– Rico você precisa nos ensinar como chegamos à sua casa. – falei, meio fora de mim. – A Fernanda não pode continuar desse jeito.


– É muito arriscado, Victoria. Posse perder todos vocês, ao invés de só... – ele não conseguiu terminar a frase. Carolina o fez por ele.


– Ao invés de perder só ela? É, faz sentido. – concordou ainda meio fanha. – O problema, é que se você deixar a garota morrer havendo alguma chance de a salvarmos, vai nos perder do mesmo jeito. Eu pelo menos achei que você era mais sensato e coração do que o Diogo. Prove. Se não, e eu falo por todos quando digo, vamos embora daqui. – eu estava boquiaberta com a atitude de Carolina. De fato, ela havia voltado. Todos nos postamos diante de Ricardo, aguardando. Ele bufou, ficou vermelho, depois branco demais, e assentiu.


– Tudo bem. Espero que dê tudo certo. Vou tentar mantê-la viva até voltarem. – e então ele nos explicou os detalhes do caminho. A casa dos Shepard não ficava muito distante da favela, mas teríamos que passar pelo centro, ou pela periferia do Trocado, o que seria bem mais rápido, mas mais arriscado. O perigo não estava em questão, apenas o tempo. Iríamos os cinco, já que Eloá e Rafael precisavam manter o acampamento seguro. Como Carolina e Luca eram mais do que capazes, não viram problemas em deixar Ana e Otto irem junto. Ninguém tentou me impedir, é claro. Não adiantaria nada, da mesma forma. Hoje, quando penso naquele dia, percebo que talvez Luca tivesse razão. Eu não serviria para nada com aquela mão. Mas ninguém colocaria isso na minha cabeça, naquele momento.


Saímos naquela manhã, pouco depois de nos despedirmos de todos. Nossos amigos do acampamento haviam sido reduzidos a seis pessoas. Nem parecia o mesmo lugar que nos protegera do horror meses antes. Eu quase não sentia mais falta dos telefonemas, da internet. Estava por incrível que parecesse me acostumando, com o fim. Pegamos o carro verde do acampamento, pois era aquele que estava em melhores condições. O caminho próximo à subida do morro estava tomado pelos mortos. No volante, Luca mantinha uma velocidade razoável, ignorando os zumbis que tentavam de algum modo nos alcançar. Eram muitos sim, mas menos do que o mar humano que eu imaginara. Não o suficiente para tornar impossível o avanço do carro, mas o bastante para causar pânico. Nervosa, eu mexia na minha tala presa à mão como louca, ajustando o inalterável. Os vidros negros tornavam improvável que alguém pudesse nos ver do lado de fora, mas nós podíamos ver bem o exterior. Quando nosso carro passou por um gol branco, idêntico ao que Diogo roubara, meu coração falhou uma batida. As lágrimas foram instantâneas, e o soluço, incontrolável. O veículo estava aberto, com a janela do motorista quebrada e sangue espalhado pelo capô, e pelos arredores.


– Pode ser outro carro, Vicky... – acalmou-me Otto, delicado. Ana também estava emocionada, e Carolina parecia abalada, no banco da frente.


– Pois por mim, pode muito bem ser o Diogo, que vai ser bem-feito. Ninguém mandou ele ir embora. – manifestou-se Luca, me deixando furiosa.


– Não seja cruel. Se não puder dizer algo bom, não diga nada. – rebati, na defensiva. Ele não disse mais nada, mas ficou chateado. Óbvio. – Porque não nos conta como foi quando vocês saíram? – mudei de assunto, tentando me forçar a esqueci o que acabara de ver. – Ninguém queria falar, mas todos perceberam que vocês ficaram estranhos quando voltaram. E para mim, você me escondeu alguma coisa. Essa frieza não é você, Luca. Pode ir abrindo a boca.


– Não aconteceu nada. Sério. – acrescentou diante do meu olhar de reprovação. – Ok, mas me deixe ir do início. Saímos do acampamento, e começamos a vasculhar o morro, as redondezas. Achamos uma vendinha, um tipo de supermercado, só que menor. Arriscamos o dia claro, e entramos para pegar suprimentos. Tudo o que levamos, tiramos de lá. Estaria tudo bem, se um trio de sobreviventes não tivessem nos encontrado. – me surpreendi totalmente nessa parte da história. Mais sobreviventes? – Eles estavam fugindo de uma horda, e atirando feito uns loucos. Acabaram entrando no mercado, e trazendo a horda para perto. Demoramos, porque ficamos um dia inteiro presos com eles, lá. As coisas estavam ficando cada vez mais feias, e como sabíamos que podia haver animais, além de zumbis, fizemos uma coisa terrível...


– Vocês mataram os três sobreviventes, e fugiram. – Ana não estava perguntando.


– Isso... – Luca estava com os olhos marejados. – Eles nem sabiam que os bichos também viravam... Eram mais novos que a Fernanda. Dois de catorze, e um de treze anos. Ninguém queria matá-los, então o Diogo fez. Isso o deixou revoltado. No caminho de volta, combinamos de ninguém contar nada, mas ele insistiu que o que tivemos que fazer, era culpa do Ricardo, por ser um mau administrador, um mau líder. – subitamente, compreendi melhor a fúria de Diogo. Não era totalmente infundada, afinal. Ele era mais complexo do que qualquer pessoa que eu conhecera até então. Não demonstrava os sentimentos, mas se consumia por eles. O pior era que eu me sentia culpada por não ter ido embora com ele. Quem sabe se eu estivesse por perto, ele não teria sofrido aquele acidente, e provavelmente morrido? Lembro-me de naquela época, ter me convencido de que era melhor não saber. Alcançamos as ruas de um bairro bem mais arborizado, com menos errantes, e uma beleza digna de cinema. Diversas casas de veraneio se empoleiravam digníssimas, atrás de suas cercas brancas de artesanato manual. Suas telhas de barro vermelho davam um toque típico e imponente para as construções. Ao longe, quase no fim do segundo quarteirão de veraneio, uma construção se erguia isolada das outras, no topo de uma pequena colina. Era muito bonita, bem como antiga. Todas as luzes estavam acesas. Só podia ser a mansão dos Shepard.


Se você leu o início desta história, então sabe o que aconteceu. Ao chegarmos ao local, encontramos a casa cercada por zumbis. A urgência de nossa missão nos impeliu a agir por impulso. Derrubamos os portões, e corremos com nossas mochilas na direção da casa. Antes de alcançá-la, eu caí. Um momento de desespero, outro de confusão, um último de medo. E pronto. Eu fora mordida. Fitando a segurança da mansão, senti o veneno percorrer o meu corpo. Uma profusão de olhos vermelhos e negros avultou-se sobre mim, e então o mundo escureceu. Como se levada pelo cavaleiro da Morte, fui erguida em seus braços para a saudação final. Um último olhar para o mundo distinguiu suas formas humanas, enquanto afastava alguns errantes de meu corpo, e me erguia nos braços. Levando-me para longe do terreno do Shepard, o meu salvador misterioso me levou até uma van, e fechou as portas quando lá me depositou. Ela era muito forte, e rápido. Mais do que um humano normal seria capaz. Em menos de cinco minutos, deixara para trás uma multidão de mortos, e nos pusera em segurança. Quando o motor chacoalhou o automóvel, desisti de lutar contra a dor que emanava dos ferimentos em meu braço. E então dormi, o sono dos mortos...



Otávio.

Era quase doloroso demais, para acreditar. Minha irmã, a garotinha loira de cabelos bagunçados que eu vira crescer, havia sido levada pelos mortos. Mais do que nunca, me senti um maldito inútil por não saber lutar como Luca, nem correr como a Carol. Até mesmo Ana sabia falar, convencer as pessoas. Eu não era nada. Era um maldito zero à esquerda. Usando as chaves do Ricardo, Carolina tinha conseguido abrir a porta, e agora que estávamos dentro da casa, poderíamos salvar Fernanda. Mas a um preço muito alto. Minhas pernas ainda estavam bambas pela corrida, e meu coração estava a mil por hora. Ana estava encolhida num canto, chorando. Luca parecia em choque. Estava parado como um louco, fitando o vazio. Não falava, não chorava. Nada. Carol era a única que parecia conservar algum tipo de juízo. Arrastando dois criados-mudos do corredor de entrada, os colocou contra a grossa porta de madeira. Havia muitos errantes no jardim, mas por algum motivo, haviam se dispersado. Provavelmente estavam um pouco mais saciados, agora que Victoria havia sido entregue aos seus dentes. De onde estávamos não tínhamos qualquer meio de ver o lado de fora, então Luca correu para o olho mágico, da porta. Algo que ele viu o deixou possesso, pois ele começou a socar a madeira, fora de si.


– O que houve Lu? – disse Ana, baixinho.


– O corpo dela, Ana! O corpo dela não está lá! – gritou Luca. – Esses malditos a levaram. Levaram! – e ali estavam elas. As lágrimas que eu estivera esperando. Cruéis como os mais vis carrascos.


– Ela pode ter se transformado. – supôs Carolina. – É melhor acharmos as bombinhas da Fernanda, e sairmos daqui. – ela se aproximou de Luca, e tocou seu ombro. – Victoria ia querer que levássemos as... – Luca a agarrou pelo pescoço tão rápido, que eu me assustei. Colocou-a contra a parede, prendendo o corpo de Carol com o seu. Sua fúria era aterradora.


– Não... Fale dela desse jeito. Não pense que agora que ela morreu você vai ter tudo o que quer. Mesmo que você esteja feliz, meu amor por ela nunca vai mudar. – disparou ferino. Carolina estava chorando, de dor e mágoa. Mesmo eu sabia que ela só estava tentando nos manter vivos.


– Não fale assim comigo, Luca. – implorou. As lágrimas escorriam pelo seu rosto, desgastadas pela dor em seu pescoço. – Eu amava a Vicky. Só não quero ver mais nenhum de nós morrer.


– Tá certo. Perdoe-me, Carolina. Perdi o controle... – Luca se sentou no chão, ao lado de Ana, e desatou a chorar. Troquei um olhar aflito com Carol, e me aproximei dela. Saímos do corredor, e adentramos a cozinha da casa.


Carol me abraçou assim que ficamos a sós. Ela chorou durante um minuto inteiro, e então se soltou. Eu também estava chorando. Victoria não era uma amiga para mim, mas sim uma irmã. Tinha plena ciência de que minha ficha ainda não havia caído completamente. Quando caísse, eu iria junto. Em silêncio, eu e Carolina começamos a revirar o cômodo, dando o tempo de que Ana e Luca precisavam para voltar à ativa. Não havia nada relacionado à farmácia naquela parte da casa, como era esperado, mas havia um armário cheio com comida em bom estado, e a energia elétrica ainda estava funcionando devido a um gerador no sótão, que podia ser acessado por uma porta ao lado da despensa. Ouvimos o som de coisas quebrando, e corremos de volta ao corredor. Ana ainda estava no mesmo lugar, mas Luca havia sumido. Passamos pela outra porta, que dava na sala. Luca estava destruindo tudo, num acesso de fúria assustador.


– Malditos! MALDITOS! Malditos... – e repetindo este mantra, ele socava e batia em tudo que estivesse ao alcance de suas mãos. Eu temia que de algum modo ele causasse nossa morte.


– Temos que fazer alguma coisa! – declarei o óbvio, olhando para Carol.


– Boa sorte, eu não chego mais perto! – volveu, segurando o pescoço com as duas mãos.


Nenhum de nós precisou fazer nada. Na escuridão da sala, cujos interruptores ficavam sabe-se lá Deus onde, uma pá acertou nosso amigo em cheio nas costas. Desmontando como uma boneca de trapos, Luca desmaiou com um gemido seco. Ana ouviu o barulho e se aproximou, parando ao meu lado, na soleira da porta. De repente as luzes se acenderam, e percebemos que não estávamos sozinhos na casa.


– Quem são vocês? – o garoto exigiu saber. Sua aparência era incomum. Calçando coturnos de couro negro, ele trajava um jeans escuro e uma blusa cinza. Um casaco com capuz de moletom preto cobria o tecido mais claro, com diversas caveiras enfeitando seus fios. Seus cabelos negros e lisos tinham reflexos verdes, provavelmente feitos pro ele mesmo. Os olhos eram de um tom desconhecido por mim até então. Um azul claro e acinzentado, um lilás exótico. Ele tinha um corpo esguio, e não aparentava ter mais de vinte anos.


– Sobreviventes, como você. Viemos até aqui buscar ajuda para uma amiga. Acabamos perdendo outra no seu jardim. Por isso nosso amigo ficou assim, transtornado. Peço desculpas pelo nervosismo. – manifestei-me, morrendo de medo.


– Conhecem algum dentista chamado Ricardo? – indagou o menino.


– Sim! Foi ele quem nos mandou aqui. É o dono da casa. – disparou Carol, dando ênfase no “dono”.


– Então se sentem. Vamos ter muito que conversar. – pediu o garoto, ainda segurando uma pá de coveiro nas mãos. – Tem alguém que vai adorar saber disso. Pode descer, tia! – ele gritou.


Com passos lentos e quase rítmicos, uma senhora muito simpática surgiu à nossa frente. Ela tinha olhos azuis idênticos aos de Ricardo, e que lembravam muito os do menino gótico que nos atacara. Seus cabelos brancos enfeitavam a cabeça como cachos de nuvens. Sua pele enrugada era alva como a neve, e o modo como se vestia não podia ser mais elegante. Um terninho salmão, com um broche em ouro maciço. Seu pescoço era enfeitado por uma fileira única de pérolas verdadeiras. Nem parecia pertencer àquele mundo. Eu e as meninas nos olhamos, cientes de que havíamos encontrado mais do que fôramos buscar. A família de Ricardo ali, viva. Agora teríamos que mantê-la segura para ele. Mas como?


– Então vocês têm notícias do meu filho? Pensei que ele pudesse estar morto, a essa hora. – notando o estado de todos, ela acrescentou: — Dia difícil?


– A senhora nem faz ideia. – rebateu Carolina, arrasada. Nenhum de nós sabia como reagir diante de tanta confusão, mas era necessário seguir em frente. Com certeza Victoria saberia o que fazer se estivesse ali. Mas não estava, e quanto antes a gente se desse conta disso, mais cedo poderíamos escapar daquela casa, com a família de Rico e as bombinhas. Eu só esperava estar vivo, para contar a história.

Notas finais
Ok, como vocês devem ter imaginado desde o Prólogo, alguém salvou a Vicky. Mas... Quem? Haha, vou deixar a pulga atrás de suas orelhas, e pedir que comentem muito, ou o próximo capítulo pode demorar um pouco mais. A partir de agora, conheceremos a fundo todos os personagens, uma vez que cada capítulo, será descrito por um ou mais deles. Obrigado pelo apoio incondicional daqueles que favoritaram a fic. Mesmo que sejam silenciosos, eu amo vocês,galera! Até o próximo, e bom Quebranto para todos...

Beijos de Dropping!