Quebranto.

16 No escuro residimos.


Notas iniciais
Ok, pessoal. Mais um capítulo saindo,e espero que todos estejam gostando. Quero dedicar esse em especial, a todos que favoritaram a fic. Muitíssimo obrigado. Vocês me deram novo ânimo para escrever. Valeu mesmo XD!!!

Luca.

Minha cabeça doía como se mil sinos ressoassem em coro, latejando contra meu crânio de maneira contínua e ambiciosa. Tentei me erguer do chão com cheiro de lavanda, e me rosto afundou novamente no carpete de poliéster. O material sintético se espremeu entre meus dedos, enquanto fiz força para focalizar meu agressor. Minha visão embaçada se restabeleceu, e me vi sentado no chão de uma sala de tons sóbrios, e móveis rústicos de veraneio. Otto me fitava com certa piedade no olhar, e senti-me muito mal por ter assustado meu amigos, por causa do que acontecera à Victoria. Lembrar-me dela embrulhou meu estômago, me fazendo sentir subitamente enjoado. Notei que estava no centro do cômodo, e que meu despertar interrompera uma conversa em andamento. Uma mulher idosa estava sentada em uma poltrona com detalhes dourados e florais. Um rapaz com cabelos verdes dividia outra poltrona com Ana e Carolina, enquanto Otávio estava sentado numa cadeira de madeira, de frente para mim. Esfreguei meus olhos pondo meus sentidos em ordem, e ajeitei meu cabelo, que estava para o alto. Respirei fundo, prendendo o bolo que se formava em minha garganta, e encarei meu amigo.

— Custava me tirar do chão? Vacilo... – reclamei, sentando-me ao lado de Ana, que ficou me encarando. – O que foi? Estou bem, galera...

— Seus amigos estavam considerando o estado em que você despertaria. Você sofreu um acesso de fúria, saiu quebrando tudo. Tive que contê-lo. – manifestou-se o gótico, me irritando profundamente.

— Então foi você que me bateu! – ameacei me levantar, mas Otto me puxou de volta.

— Foi um infeliz engano. Eu não sabia com quem estava lidando, e não iria permitir que estranhos ferissem minha tia Madeline. Por sorte, seu amigo me contou que vocês são amigos do Ricardo, antes que eu acertasse mais alguém. – explicou-se o garoto.

— Espera. Madeline não é o nome da mãe dele? – indaguei, fitando bem o rosto da senhora, até somar dois mais dois. – Ah. – percebi, sorrindo.

— Incrível, não é? – riu a senhora, com sua expressão matriarcal. Acabei lembrando minha mãe, perdida em algum lugar. Meu coração doeu um pouco. – Eu estava no hospital, quando tudo começou. Ricardo tinha saído pra atender na favela, e meu sobrinho não conseguiu falar com ele. Acabou indo me buscar sozinho, e me trouxe pra cá. Ele liberou meus dois caseiros, que queriam ver as famílias, e trancou tudo, ficando comigo. Depois, enquanto limpava o lugar, achei o celular do meu filho. Desde então não tive notícias.

— Até hoje. – completou Carolina, fazendo-a sorrir ainda mais.

— Confesso que fiquei surpresa quando me disseram que meu filho estava liderando um grupo de sobreviventes. Considerando seus modos pacíficos e ingênuos, temi que ele já estivesse morto há tempos. Também fui informada de suas perdas e contratempos. E sinto muitíssimo. – afirmou solidária. – Agora eu e meu sobrinho estamos preparando as coisas para irmos com vocês. Com os zumbis forçando as portas, temo que não tenha muito tempo neste esconderijo. Além disso, já estive por tempo demais separada de meu filho. Talvez eu possa aconselhá-lo de modo útil, nesse tempo de horror.

— Em quantos vocês estão? – perguntou o rapaz, para mim. Por sorte, Ana o respondeu primeiro.

— Em dez. A menos de um mês e meio, éramos vinte e cinco. Um dos nossos foi embora, e outra acabou de ser levada pelos mortos. Bem ali no seu jardim. – contou minha amiga, se emocionando. Carolina a abraçou pelos ombros.

— Lamento. Chamo-me Hugo Campos. Esta é minha tia, Madeline Shepard. – os modos educados do rapaz me surpreenderam. Apertando minha mão, notei que ele realmente estava sofrendo. Após cumprimentar a todos nós, ele se levantou do sofá. – Otávio me falou que vocês precisam de bombinhas de oxigênio. Minha tia não as usa desde que o mundo acabou. Curiosamente, a saúde dela melhorou muito depois disso. Mas sei onde elas estão, vou buscá-las. Também temos alguns itens de limpeza, e pouca comida. Creio que tudo será útil para a viagem.

— Mas como passaremos pelos zumbis? Derrubamos o portão, eles estão por todo lado. – desesperou-se Otávio, nervoso.

— Um plano muito precipitado, se me permitem. – interrompeu Madeline. – Contudo, creio ter a solução para o nosso problema. Tenho um Meriva na garagem, com um galão de combustível. Todos poderão usá-lo para sair daqui entre os mortos. Será uma pena deixar que aqueles monstros profanem minha casa, depois que sairmos, mas é um preço pequeno a se pagar pela sobrevivência. Mas esta noite, descansaremos. Chorem por sua amiga. Consolem uns aos outros. Amanhã, não poderemos nos dar a esse luxo.

Acabei me sentindo melhor depois de um bom prato de sopa. Madeline ainda estava mantendo seu gerador funcionando, e a casa possuía ale de um fogão e geladeira, ar-condicionado. Dormimos todos no mesmo quarto, ignorando a ameaça que a eletricidade era por si só, uma vez que atraía as vespas mutantes. A verdade era que ninguém se importaria de morrer naquela noite, desde que confortáveis estivessem. Madeline dormiu em sua cama de casal com o sobrinho, e nós quatro ficamos com o chão do quarto, que estava forrado com grossos edredons, que levaríamos conosco no dia seguinte. O modo como a mansão dos Shepard permanecera intocada, era ao mesmo tempo surpreendente, e triste. Se não tivéssemos derrubado o maldito portão, todo o acampamento poderia ser transferido para lá, onde talvez tivéssemos um pouco mais de segurança. Tragicamente, havíamos contado tanto com a morte de Madeline, que não consideramos a hipótese do lugar ter resistido aos primeiros ataques. Em uma conversa mais estendida, descobri que Hugo tinha a minha idade, e manterá sozinho sua tia-avó segura. Ele também parecia muito preocupado com Ricardo, se emocionando fácil quando o assunto era o primo.

Sei que parece algo imoral, ou canalha da minha parte, mas quando Carolina segurou minha mão de madrugada, não a afastei. Senti que ela não tinha nenhuma intenção além da de buscar conforto. Afinal, depois do último incidente com Victoria, ela não poderia continuar a fim de mim, poderia? Eu achava que não, então levei seu gesto completamente na amizade, e acabei dormindo segurando suas mãos como já havíamos feito outrora, num barco pesqueiro. Aquela época, no início de tudo, parecia agora distante e quase surreal. Ainda não tínhamos encontrado o grupo do Trocado, nem perdido tantas vidas. Com um gesto involuntário, tateei no escuro, buscando os cachos da minha namorada, até lembrar que nunca mais os veria. Sentindo o buraco que se instaurara no meu peito arder, adormeci abafando o meu choro. Não é que eu não gostasse de expressar sentimentos, só não gostava de ser considerado fraco ou sensível. Era como expor minhas fraquezas às pessoas, e desde o início de tudo, eu só tentara manter todos que amo seguros. E não conseguira garantir a segurança daquela que era a mais importante para mim. Sem saber se estava acordado ou sonhando, imaginei Victoria sozinha no escuro, soluçando e pedindo ajuda. Imaginei a dor que ela devia ter sentido, até finalmente deixar este mundo. Fora um modo de partir muito cruel, doloroso. Ser devorada viva. Aquela que eu prometera proteger com a minha vida. Eu não fora capaz de morrer por ela. Quando vi o sangue brotar de seu antebraço, virei às costas e entrei na casa dos Shepard. Como eu poderia me perdoar?

Eu não sabia, e como o sol não espera para nascer, ele se impôs indiferente, no céu matutino. Todos já haviam descido para o café da manhã, com a exceção de Ana, que ficara presa ao sono como a um colete salva-vidas. Imaginei que aquele poderia ser um modo que ele encontrara de fugir do que acontecera à Victoria, e considerei voltar à dormir. Preferindo enfrentar o vazio que nunca acabaria, desci a escadaria até a sala de estar. O cheiro de ovos encheu minhas narinas me recordando o que era ter fome. Um gigante adormecido se manifestou, exigindo seu quinhão diário. Sentei-me com os outros, sem qualquer entusiasmo, enquanto Carolina me entregava uma xícara de café. Eu não bebia aquele líquido maravilhoso há meses, e me senti levado de volta à civilização.

— Comam, e depois sairemos daqui. – decidiu-se Madeline. – Luca, eu espero que esteja se sentindo um pouco melhor.

— Na medida do possível. – admiti. – Meu único desejo agora é chegar a tempo de salvar Fernanda. Fazer o sacrifício da Vicky valer à pena.

— Algumas pessoas passam a vida tentando deixar um legado que seja lembrado. Se conseguirmos salvar essa garota, a memória da sua namorada viverá através dela. – falou Hugo, delicadamente. – Espero que esta ideia ajude um pouco.

— Ajuda sim. – respondi, sorrindo pra ele. Trocamos um sorriso rápido, e Ana chegou à cozinha, acabada. Sua olheiras estavam piores do que nunca, e seu rosto era a imagem do cansaço.

Comemos bem rápido, e começamos a guardar as coisas. Para meu espanto, Hugo nos trouxe uma bolsa com muitos remédios e materiais para primeiros-socorros. Segurando uma bombinha da oxigênio entre as mãos, pensei que não valia a vida de ninguém, até que me lembrei de Nanda. Além do pé-de-cabra que ele usara para me bater, também havia uma espingarda antiga, e uma caixinha de balas perto das bolsas que levaríamos embora. Madeline contou-me que pertenciam ao pai de Ricardo, que utilizava a arma como um objeto decorativo. Ela nem sabia se as balas estavam boas, então eu conferi. A maioria estava estragada, mas algumas ainda serviam. Lamentei pela aquisição de armas não ser algo tão banal no Brasil, e acabei carregando o instrumento bélico. Cada um apanhou uma bolsa, e então rumamos à garagem da mansão, que podia ser acessada por um corredor ligado à cozinha, bem próximo do corredor por onde havíamos entrado. Ainda havia errantes batendo e arranhando a grossa porta de madeira polida. O trinco da porta parecia inabalado, mas um olhar mais atento revelava que ele começava a entortar. As janelas de vidro, mesmo com grades de ferro, estavam trincadas após terem sido atingidas repetidas vezes pelos cadáveres. Sem olhar para trás, fui o último a descer as escadas para o andar inferior, fechando a porta atrás de mim. Minha visão ficou turva por um momento, e então alguém à frente no grupo, acendeu a luz. O que vi me deixou aliviado. Nenhum zumbi conseguira entrar naquela parte da casa, e havia algumas coisas que poderiam ser utilizadas. Algumas bicicletas estavam jogadas a um canto, junto com seus equipamentos de segurança. Pedi que Madeline os vestisse, assim como Ana e Carolina, que recusou. Hugo ficou com os equipamentos dela, e me ajudou a colocar tudo que estávamos levando na mala do carro. Carolina assumiu o volante, e me sentei no carona com a caixa de balas no colo. Preparei a arma para realizar um disparo contra zumbis que pudessem obstruir o caminho. Atrás, o resto do pessoal se protegia, fechando todos os vidros e encolhendo-se uns aos outros. Carol ligou o carro, e deu a partida. Madeline Apertou um controle remoto, e aceleramos enquanto o portão da garagem se erguia, e o veículo fazia uma pequena subida para o exterior. Assim que se tornou possível, uma torrente de mortos nos cercou. Batendo nos vidros e esfregando os rostos podres nos veículos, nos assustavam e irritavam. Carolina acelerou impressionantemente, atropelando dezenas de criaturas que iam se pondo em seu caminho. Cheguei a abrir meu vidro e atirar em dois deles, que haviam se agarrado ao carro. Ao chegarmos ao portão, passamos pelo carro verde que havíamos destruído, e por mais que eu quisesse evitar peguei-me buscando o corpo de Victoria entre os escombros do jardim. Não encontrei nada. Saímos dos limites da mansão, tomando o caminho de volta para o Morro do Trocado, com um membro da família a menos...

Notas finais
Okay... No próximo capítulo veremos um outro lado da história... Como sou muito bonzinho, vou postar ele agora mesmo, junto com esse :B Boa leitura a todos!

Dropping.