Quebranto.
50 O Quinto Elemento é o Espírito.
Notas iniciais
Carol.
Não tínhamos mais tempo. A cada segundo de cada dia, aquela panela de pressão que se tornara a Privilège, estava mais perto de explodir. Eu não aguentava mais fingir ser algo que não era, e de uma forma esquisita, eu não tinha mais forças sequer para manter o meu sarcasmo. O meu humor fora pro espaço no exato momento em que eu vira o corpo reanimado de Diana atacando Hugo. De repente, tudo deixou de ter graça. Não era mais divertido ser desagradável, ou esnobe. E realmente, percebi de maneira quase irônica, que eu precisava daquilo. A maldade real e crua de Topázio havia me mudado. Eu jamais seria a mesma Carolina de antes. E eu tinha certeza de que nenhum de meus amigos seria o mesmo depois daquilo, também.
– Quer ajuda? — perguntou Vilma, tocando minha perna. Eu estava sentada na escada para o segundo andar, com a mão esquerda apertando firme a direita. Eu havia me cortado superficialmente com um dos cacos da xícara que Ana jogara contra mim, momentos antes. Ela era criativa, eu tinha que admitir. — Sabe, tem que tirar o pedacinho que ficou aí dentro. Deixa que eu faço. A Tânia ensinou como.
– Tudo bem... — concordei, sem jeito. Eu e Ana também havíamos tido aulas com Tânia, mas Vilma era infinitamente melhor e mais delicada do que nós, nos primeiros socorros. Com destreza, a pequena retirou o caquinho de porcelana de minha pele, e a depositou na minha palma boa. Eu não estava sangrando muito, mas a ferida estava ardendo. — Obrigada. — acrescentei, sem jeito.
– Por nada. — ela sorriu. — Quando vamos fazer alguma coisa? — ela olhou em volta, e sua expressão tornou-se alarmada. — Eu já convenci o Dino a esperar, mas ele é apressado. Precisamos que você nos diga o que fazer pra ajudar a Nanda, a Vicky e os outros. Sei que você e o Jonas estão fingindo. Vamos pegar os caras maus, né? — sei que eu devia ter protegido as crianças, e negado tudo. Mas não havia escapatória. De todo modo, eles sofreriam se falhássemos. E o melhor modo de evitar isso, seria contando com a ajuda de todos.
– Se eu te pedir algo, você promete guardar segredo e esperar o momento certo? — ela concordou. — Ótimo. É o seguinte...
Victoria.
Já não era fácil compreender o tempo. Eu estava extremamente cansada, e faminta. Topázio era cruel em níveis que até então eu desconhecia. Olhar o rosto de Diogo, ferido e esmurrado, era como fincar uma agulha em meu coração. Otto não estava muito melhor, e era triste notar que se dependêssemos das condições em que estávamos vivendo, ninguém ficaria muito diferente, em breve. Na noite anterior, haviam levado Ricardo e Hugo. Nós, ali no escuro, só pudemos aguardar. Esperar pelo futuro. Quando os vimos sendo lançados de volta no cativeiro, suspiramos de alívio, antes de voltar ao silêncio. Mas em minha boca, o sabor era agridoce. Apesar de feliz por vê-los vivos, eu estava triste por não termos a menor expectativa de vida. Não havia nada que pudéssemos fazer, além de morrer. Nos momentos de caos e medo mais profundos, eu podia sentir o ódio de Nora aliando-se ao meu. Juntas, queríamos a vida, a vingança. Éramos um único ser, e nossos pensamentos estavam sintonizados como nunca antes. Como uma parte de mim, ela era tudo o que eu temia ser. E graças à Topázio, cada vez mais meu estado de espírito saía do receio, para a necessidade. Eu estava recebendo a força de Nora de braços abertos. Ali, acorrentada, era ela quem me mantinha firme. Abatido e preocupado, Gabriel estava deplorável. Apanhara de Thaís há poucos instantes, e a unha da inumana o cortara próximo à orelha. O rosto de Diana, era uma imagem vívida em meu subconsciente. Um cartão de visitas do horror que eu presenciara.
Naquele mar de lodo, Cecília era uma pérola branca. Quase sempre calada, ou tranquila, a jovem parecia-se com qualquer doente que eu já conhecera. Provavelmente, já fora linda antes do sofrimento. Ali, era apenas um reflexo, um vulto. Era quase fácil reconhecer o seu esplendor perdido. Principalmente ao encarar seus olhos leitosos e sombrios, com tantos segredos a serem guardados. Apesar de todas as chagas mentais e físicas que a atingiam, ela ainda guardava um pouco de serenidade. E mesmo calada, ainda era a prisioneira mais tranquila naquele cativeiro fétido e abafado. Com aquela ventilação péssima, nõ era surpreendente que eu estivesse coberta de suor. Mirando Diogo, que deitara-se de bruços devido aos ferimentos em suas costas, arrastei-me para perto dele. Infelizmente, as correntes que me mantinham atada à parede não permitiam uma aproximação total, embora eu tenha conseguido segurar sua mão. Mesmo com os olhos fechados e a respiração entrecortada, ele acariciou-me com seu polegar, tentando apaziguar meu sofrimento. Pobrezinho. Não sei ao certo quando comecei a chorar, mas quando pude ouvir meu próprio choro ecoando no quartinho escuro, tive certeza de que meu estado era de fato deplorável. Troquei um olhar sentido com Otávio, que abraçava os joelhos à um canto. Ele me mirava com olhos marejados de dor e medo. Hugo tinha a cabeça encostada ao ombro de um Ricardo exausto e em suma, derrotado. Gabriel por sua vez fitava a porta por onde vez ou outra nossos algozes passavam, para nos infligirem mais dor. Cecília fitava o teto da boate, como se pudesse ver e ouvir através das paredes. E eu não duvidava de que pudesse. O modo como ela falara com Carolina ainda reverberava em minha mente. Uma inumana sensitiva, além de um escudo. A mais poderosa que eu conhecera, até então. A despeito de sua cegueira, era ela quem melhor enxergava naquele calabouço.
– Vicky... Eu não quero morrer. — murmurou Otto, como se de fato estivesse admitindo pela primeira vez que essa possibilidade realmente existia. — Cansei de ser forte. Eu não aguento mais.
– Seja forte, parceiro. — para minha surpresa, foi Diogo quem o respondeu. — O cara que quase me matou com uma barra de ferro por acidente nunca desistiria. Lembra dele? Então. Uma surra bem dada e umas correntes não podem matá-lo. Certo?
– Eu acho que você tem razão. — Otávio sorriu, ainda que sem entusiasmo.
– Nenhum de nós vai morrer. — Ricardo garantiu, com sua calma e autoridade naturais finalmente retornando. — Vamos encarar tudo isso como uma família. Todos juntos. — ele trocou um olhar profundo com Otávio, e eu soube que tudo que houvera entre elas, fora perdoado naquele simples gesto.
– Sim... Não podemos mais ficar só esperando. Já fazem cinco dias. Alguém tem um plano? — Hugo torcia as mãos, ansioso.
– Eu tenho. — Gabriel disse. — Por que a Vicky não liberta a Nora e damos um jeito de derrubar um deles?
– Isto provocaria mais luto. — objetou Cecília. — Esperemos. A ajuda virá de fora. Já está quase no fim. De um jeito ou de outro.
– Como você pode ter tanta certeza? — Gabriel parecia curioso e um tanto cético, para mim.
– Não há certeza. Não sou uma clarividente. Só sei aquilo que pode ser, de acordo com determinadas decisões. Mas uma única escolha diferente, pode virar a balança. O futuro nunca está gravado em pedra. Sensitivos já existiam bem antes do Apocalipse. E nenhum deles previu o fim do mundo, ao que parece. — Cecília encarou a porta e as escadas. — Agora silêncio. Por favor.
Antes que qualquer um de nós pudesse reagir às palavras de nossa nova amiga, vimos a porta ser aberta com uma violência quase exagerada. Determinada, Topázio descia as escadas acompanhada de perto por Thaís, e Mozart. Seus saltos vermelhos refletiam a luz das velas atadas ao corrimão da escada de concreto, e brilhavam como sangue fresco. Já Thaís estava usando chinelos e tinha os cabelos soltos. Se ela se aproximasse o suficiente, eu poderia facilmente permitir que Nora os puxasse, e quebrasse seu pescoço. Infelizmente, ela manteve-se à porta, fechando-a atrás de si enquanto sua dona descia e se aproximava de nós. Ao contrário de mim, ou de Jonas, os olhos de Topázio vibravam com muito mais intensidade. Acredito que ela estivesse naquele instante, mais próxima de se tornar uma inumana selvagem, como o leão ou a loba Lupa, que eu encontrara antes. Ao que parecia, sua sanidade estava por um fio, turvando qualquer sentimento bom ou sensibilidade humana que ela pudesse ter. Ao notar que meu olhar se dirigia a ela, a loira sorriu, e tocou de leve em seus cachos dourados perfeitos. Era óbvio que aquele pequeno tique nervoso me irritava como um mosca zumbindo no ouvido, e a expressão de deboche em seu rosto, parecia um ultraje à nossa situação.
– Eu vim, porque preciso ter uma conversa com Cecília... — ela aproximou-se da pobre garota, e os cabelos castanhos da menina caíram em cascata sobre seus ombros. — Aconselhe-me. Quero saber qual deles vai me causar problemas. Quero saber quem eu devo matar pra garantir minha paz. Dante vai ser um problema? E a tapada da Lavínia?
– Eu não sei, Topázio. A esta altura você devia saber que não tenho todas as respostas. Eu não previ nada sobre Diana. — defendeu-se a sensitiva, um tanto amedrontada. Com pena dela, imaginei quantas vezes ela devia ter passado por aquilo, sem que ninguém a defendesse da violência.
– Sabe, sim. Sei também que você protegeu Diana, e esses idiotas aqui. — Topázio riu, segurando um soluço de prazer. — Não deu muito certo, não é? Agora seja boazinha, cegueta, e me conte tudo o que sabe. Ou quebro seu braço, como fiz com seus dedos no ano passado!
– Eu realmente... Realmente, não sei. — volveu Cecília, impassível. O rosto de Topázio estagnou-se, e uma ruga de ira gravou-se em sua testa. O tapa que se seguiu estalou o ar, jogando a menina no chão. Sangue agora escorria-lhe da boca, e atordoada, ela tateava ao redor em busca de apoio, até que encostou-se à parede.
– Pare! — gritei. — Se afaste dela, sua piranha!
– Me chamou de quê? — Topázio transformou-se diante de meus olhos. Ela correu em minha direção e me chutou antes que eu pudesse sequer assimilar o que estava ocorrendo. Com seu salto, ela feriu meu estômago, forçando. Hugo e Otávio pediam que ela parasse, mas algo pareceu despertar em seu interior sombrio. Era. Assim. Que o motorista dos meus pais. Me. Chamava. — a cada sentença, um chute. Acabei mordendo minha língua e gritando de dor, quando Diogo pediu que ela parasse. Com um olhar malicioso, ela voltou-se na direção dele. — Oh, ainda vivo? Esqueci-me totalmente de você. Thaís, chame Mozart. Diga a ele que vai poder terminar o que começou com esse aqui. Depois, dê uma olhada nas crianças. Carolina está perto demais delas. Quero saber se estão tramando.
– Agora mesmo, Topázio. — com seus cabelos tingidos, Thaís sumiu. Eu não pude dizer nada além de pedir silenciosamente que aquela tortura tivesse um fim. Não suportaria saber que Diogo fora morto, sem que eu tivesse feito nada.
Chega de se lamentar, garotinha. Tá na hora de virar mulher...
Nora. Eu nunca ficara tão feliz com o som de sua voz. Bem, talvez sim. Não era como se ela estivesse tentando livrar minha cara pela primeira vez. O melhor, era que ela não fazia nada daquilo por mim, mas por ela mesma. Então, não era como se eu lhe devesse algo, considerando que se eu morresse, ela também morreria. Juntas, começamos a forçar cada vez mais a corrente que nos mantinha presas nos pulsos. E não era aquela a primeira vez. Na verdade, eu podia sentir a estrutura de ferro bem mais frouxa do que quando havíamos começado. Mas ainda não era o suficiente. Com nosso esforço conjunto, prosseguimos em nossa missão silenciosa. Diante de meus olhos, o terrível interrogatório de Cecília prosseguia, e enquanto Otávio e Ricardo viravam o rosto com pesar, e Hugo pedia que Topázio parasse de agredir a garota, eu sabia que se quiséssemos passar daquele dia, seria melhor que aquelas correntes se partissem. E logo.
Carol.
Não pude evitar de ouvir o que Thaís dissera à Mozart. A expressão de ferocidade e júbilo em seu rosto tornavam aquele ato ainda mais desprezível e nojento. Ele jamais teria chances com Diogo em seu estado perfeito. Como todo covarde, Mozart fingira e se escondera até o momento mais oportuno. Sempre desejara o nosso mal. Mas se dependesse de mim, aquilo acabaria naquele mesmo dia. Nem que minha vida fosse necessária como preço. Eu levaria pelo menos um deles comigo. No bar, Dimitri jogava conversa fora com Dante, Manuela e Lavínia. Os outros dois pareciam inclusive, mais viçosos e belos do que antes, com olheiras menores desde que a influência de Topázio começara a ser revogada. Ainda assim, eu não me arriscara a envolvê-los num plano de traição à inumana, com medo de que se tornassem vítimas no meio do fogo cruzado. Com meu olhar, alertei Dimitri de que nosso plano teria início. Como primeira fase, ele trancaria tanto Lavínia quanto Dante na sala do gerador, para protegê-los. Eu só precisaria avisar Vilma para que a menina cumprisse sua parte, e depois com Jonas, eu cuidaria do resto. Parecia fácil, por enquanto. Mas eu sabia que na prática, a coisa iria pegar fogo.
Poucos minutos depois, eu me encontrava nos camarotes, observando a boate lá embaixo. Thaís saíra caminhando apressada da sala de tortura, acompanhada de perto por um Mozart exultante. Ele arrastava Diogo por uma corda presa ao pescoço, o sangue seco ainda marcando as costas do namorado de Victoria. Sua camiseta que um dia fora branca, estava cinza e manchada em várias partes. Ele parecia sujo, e extremamente cansado. Ao meu lado, Vilma apertou minha mão direita, por cima do machucado que Ana provocara. Na esquerda, senti a mão de Dino. Notei pela primeira vez que apesar de vivermos juntos desde o início, eu nunca fora muito próxima daquelas crianças. Talvez por ter matado Daniela, uma menina de seis anos de idade que fora mordida pela própria avó zumbificada, eu tivesse endurecido meu coração aos pequenos. Eu temia perdê-los e ser morta pelo sentimentalismo. Mas com onze anos, os gêmeos não eram mais tão ingênuos. E sem dúvida, eram capazes de se protegerem. Tiago, o irmão falecido deles, ficaria orgulhoso.
– Chegou a hora pessoal. Eu vou precisar descer. Tudo certo? — eles concordaram. Para minha surpresa, Vilma me abraçou. Olhei ao redor, sem jeito, e encontrei os olhares de Tânia e Nanda. Elas sorriam, emocionadas.
– Eu sabia. — rindo Fernanda colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Espero que saiba o que está fazendo.
– Eu também. — concordei, rindo.
– Cuidado, minha filha. — alertou-me Tânia. Assenti.
Determinada, caminhei até o local onde Ana estav presa, com Sabrina. Apesar de ainda debilitada, a loira tinha uma aparência melhor que a do dia anterior. Elas duas, inclusive, haviam escutado minha conversa com os gêmeos. Finalmente, pareciam encabuladas por terem me interpretado tão mal. Eu não as culpava. Afinal, como alguém tão perfeita como eu poderia decepcionar como atriz? Brincadeiras à parte, eu não podia descrever o meu alívio por estar dizendo a verdade a todos. Felizmente, eu conseguira roubar a chave das algemas delas de Alexandre. Minha intenção inicial era libertar Nanda por causa do bebê, mas eu não conseguira as chaves da corrente dela. Ao invés disso, eu tinha as de Ana e Sabrina na mão, e resolvi que elas poderiam muito bem ajudar, naquela coisa de salvar nossas vidas e por um fim naqueles loucos.
– Toma. — joguei as chaves no colo de Ana. — Depois que os gêmeos entrarem em ação, se soltem e desçam. Vai estar uma loucura lá embaixo, então tenham cuidado pra não levarem um tiro ou coisa assim. Depois, tentem achar um meio de proteger a Nanda e o bebê. Não duvido nada que Topázio vai tentar usar eles de reféns.
– Por que está ajudando alguém que queria te matar? — perguntou-me Ana, claramente arrependida. Eu já a perdoara. Mas como eu era má, resolvi me fazer de difícil.
– Se eu fosse me vingar de todos que já quiseram me matar, não viveria em um grupo. — com uma piscadela, comecei a me afastar delas, ouvindo a risada de Sabrina às minhas costas. Era óbvio que todos os nossos amigos já haviam sentido raiva de mim por pelo menos uma vez. O mais legal naquilo tudo, era que eu não dava a mínima. Quem ia salvar os traseiros moralistas deles, afinal? Euzinha. Ah, e como eu estava amando aquilo!
Desci as escadas com pressa, passando direto por Thaís, que se dirigia para os camarotes. Eu ia adorar estar presente quando ela recebesse sua surpresa, mas não podia esquecer de Diogo. Desesperada, notei que havia perdido Mozart de vista. Não o achava em parte alguma naquela maldita boate. Tensa, cheguei a entrar na cozinha atrás dele, notando que Dimitri havia sumido também. Ele já devia ter trancado a galera iludida na sala do gerador. Isso significava que Alexandre e Marcílio perceberiam tudo a qualquer instante. Olhando ao redor, dei um pulo de susto quando Jonas me segurou pelos ombros, chegando de repente. Gritando um palavrão que prefiro não repetir, notei em seu rosto uma surpresa grata por me encontrar.
– O que está rolando? Todo mundo sumiu. — ele parecia mais perdido que surdo em concerto musical.
– Aconteceu que o Mozart vai matar Diogo, e eu preciso ajudá-lo. — disse, já me virando na direção da saída. Me detive de súbito, e puxei uma faca de carne jogada sobre o balcão de alumínio.
– Eu vou com você. — Jonas fez menção de me seguir, mas o detive com um gesto.
– Você é super-forte. Vai começar uma confusão louca aqui. Aproveite pra arrebentar as correntes do pessoal. Eu vou me livrar daquele gordo desgraçado, pode deixar. — nos olhamos por algum tempo, e percebi que eu ficaria arrasada se algo acontecesse a ele. Correndo em sua direção, o beijei fervorosamente, mas de modo rápido. — Agora chega de romance. Diogo deve estar apanhando feito um cachorro agora.
– Acredita que já desejei isso? — Jonas riu, fazendo alusão à sua rivalidade com o moreno, por causa de Victoria. Belisquei seu antebraço, mas não detive meu riso. Parecia que eu estava mesmo influenciando o bom moço do grupo a admitir seus sentimentos menos nobres. E aquilo era bem divertido.
Com os músculos tensos, caminhei apressada na direção da saída, quase tropeçando ao deparar-me com Alexandre, que parecia confuso ao procurar pelos outros. Ele sorriu levemente ao me ver, e aproximou-se de mim. Sutilmente, enfiei a faca de cozinha no cós da calça jeans e a cobri com minha camisa de mangas compridas cinza. Ela era dois números maiores que o meu, fato que provavelmente ocultaria todas as minhas curvas e uma faca enorme enfiada no meu traseiro. Disfarçando, alisei meus cabelos curtos ao me aproximar dele. Apesar de belo e forte, Alexandre me parecia repulsivo. Totalmente compatível com Thaís, eu devia admitir. Ambos eram igualmente loucos e maldosos.
– Hey morena, viu aqueles malucos? Todos sumiram. — ele parecia mais curioso do que intrigado, pelo tom de voz.
– Acho que Dimitri levou todo mundo pra jogar cartas na casa ao lado. Talvez ainda estejam lá. — querendo me livrar logo dele, menti descaradamente. — Ah, a Thaís tá te procurando. Parece que ela precisa de ajuda no camarote, porque uma das prisioneiras se soltou e a agrediu. Acho melhor você ir logo, senão ela vai matar a coitada.
– Mas a Topázio pode achar ruim. Ela não tava pegando a chocolate? — ele estava pasmo.
– É ela mesmo, a Ana. Corre lá, que a Thaís tá quebrando a garota. Eu nem me arrisco a me meter. — ele passou voando por mim, com medo de desagradar a mulher ridícula e louca que eles chamavam de líder. Finalmente desimpedida, corri para salvar Diogo, rezando pra que não fosse tarde demais. Ok, não rezei coisa nenhuma. Mas vocês entenderam.
O cenário que encontrei era bem diferente daquilo que eu esperava. Com um arrepio de excitação na espinha, quase dei um pulo de alegria ao ver Diogo atracado com Mozart, no chão. Ao lado deles, uma faca de caça e um revólver meio enferrujado estavam jogados, provas de que mesmo amarrado, Diogo conseguira desarmar aquele doido. Me sentindo vingada por vê-lo ali, com o rosto vermelho enquanto Diogo pressionava as pernas em seu entorno, imaginei que ele devia estar se arrependendo por ter feito questão de cuidar sozinho do ex-policial.
– Uma ajudinha? — perguntei, para ninguém em específico. Foi divertido notar que ambos ficaram apreensivos ao me verem, porque afinal, eu poderia estar do lado de qualquer um deles. Rápida, puxei a faca que eu trouxera comigo. Mozart riu em seu enforcamento. Diogo apertou ainda mais, decidido a terminar o que começara, mesmo que eu o matasse. Sua expressão de surpresa foi divertida, quando passei a faca entre suas mãos, libertando-o. Ele riu levemente, e liberou o músico, que começou a engasgar.
– Agora sim vai ficar bom. — ele ergueu a mão na minha direção, e o ajudei a se erguer. — Mandou bem, garota. Até eu caí na sua.
– Disponha. Agora, eu preciso fazer algo urgente. — andei na direção de Mozart, pedindo sangue frio para terminar o que eu começara. Lembrei-me então do modo como Nanda havia se livrado de Arlindo. Um gesto de puro ódio e desespero. E eu estava cheia dos dois. Com um movimento firme, finquei a faca nas costas do grandalhão. Senti o objeto fincar em um osso, pois eu mirara a base de sua coluna. Com um baque profundo, ele desmoronou gritando de dor. As pernas estavam flácidas e imóveis. Minha faca ficara presa em sua coluna. Nem com meu esforço máximo, pude removê-la. Então só a torci dentro dele. Olhando ao redor, deparei-me com Diogo erguendo uma sobrancelha. Ele estava abismado comigo? Logo ele? Acabei rindo da ironia.
– Eu termino? Esse filho da puta me deve alguns chutes e socos. Pena que você liberou ele de sentir qualquer coisa da cintura pra baixo. — repreendeu-me. Fria, mirei o inseto que choramingava no chão.
– À vontade. Tenha em mente que ele estuprou Sabrina enquanto vocês estavam presos. Isso pode te dar uma inspiração a mais. — disse à Diogo. — Quando terminar, me siga. Vamos precisar de ajuda lá dentro. — então dirigi-me à Mozart, que só gemia àquela altura. — Sinto pelo seu azar. Foi cair justamente nas mãos dos inimigos mais imorais que alguém pode ter. Eu, e Diogo. Lembra dos gritos de Sabrina? Espero ouvir muito mais de você. Até nunca mais, otário.
Sem olhar pra trás, voltei correndo pra boate. Então, dois gritos simultâneos cortaram a noite. Mas não era com o grito de Mozart que eu me preocupara. Mas com a incógnita que se erguera no interior da boate. Depois daquilo, foi questão de tempo até que o primeiro estampido atravessasse a vidraça da frente, que desmoronou no exato instante em que eu passava por ela. Coberta de caquinhos de vidro, joguei-me no chão. Furei minhas mãos em alguns deles, mas a adrenalina parecia bloquear qualquer dor mais aguçada. Passos puderam ser ouvidos, vindo na minha direção. Eu só esperava que não fosse Alexandre. Ele era o único que já sabia da minha traição, e me mataria sem hesitar. Se um dos meus amigos me confundisse com um inimigo, eu também estaria ferrada. Mas não havia nada que eu pudesse fazer além de esperar. Pelo menos, aquilo estava acontecendo. Terminaria naquela noite. Eu só esperava viver o bastante para testemunhar aquela conclusão tão esperada...
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