Quebranto.
68 O Despertar.
Notas iniciais
Tânia.
Esfreguei o pano úmido com um pouco mais de força, contra a pele pálida e fria de Nanda. No chão do ônibus, que sacolejava conforme íamos nos afastando da pousada, era desconfortável e difícil manter-me centrada em limpar o corpo debilitado de minha amiga. Ela abrira seus olhos transformados de maneira momentânea, e em seguida retornara ao seu sono profundo, perdida entre a névoa da morte e a neblina da vida. Qual prato da balança pesaria mais rápido? Luz ou trevas? Seu corpo se recuperaria a ponto de que tivesse uma vida comum? Eu não sabia. Mas tinha de tentar tudo em meu poder para garantir que tivesse o despertar menos doloroso possível. Em meio às dores do parto, ela não tomara consciência total da morte de Gabriel, ainda que tivesse presenciado a cena de horror comandada por Topázio. Ela não pudera ver os próprios filhos, tocá-los e acarinhá-los como as mães geralmente faziam ao trazerem ao mundo seus herdeiros. Não, os bebês haviam encontrado carinho e proteção, sim. Mas em nossos braços, e não nos da mãe. Ártemis era embalada por Ana, que sorria ao ronronar uma canção bem baixinho. Vilma tinha Apolo nos braços, adormecido. Ela fazia carinho nele, enquanto continha as próprias lágrimas, pelo irmão gêmeo. Cuidadosa, puxei a saia verde de algodão pelas pernas de Nanda, ajustando-a em sua cintura. O tecido chegava aos joelhos, mas era bonito. Seria melhor que deixá-la nua e enrolada num edredom imundo. Não queria que ela se sentisse tão exposta ao acordar. Dirigindo, Dimitri mantinha-se concentrado na estrada, enquanto Victoria o fazia companhia. Eles pareciam estar conversando. Ricardo estava sentado no fundo do veículo, com o bebê Luca nos braços. Ele também estava estranho desde que perdera Hugo.
Havia sido uma noite intensa, mas sem palavras. Talvez tivéssemos mais distantes do que o recomendável de todos. Victoria ordenara que Dimitri continuasse dirigindo até um lugar seguro, onde não houvéssemos estado até então, de preferência. Ela não queria correr o risco de reencontrar com os perigos dos quais estávamos fugindo. Sem mencionar seu novo objetivo. Chegar ao porto onde poderia encontrar o barco cuja chave ela possuía, há meses. Se de fato um dos veículos atracados no Porto da Barra pertencesse ao motoqueiro cujo corpo Vicky saqueara, teríamos a primeira chance real de deixar para trás o Rio de Janeiro. Apanhei a blusinha branca de botões dourados que eu apanhara nas caixas do último banco (haviam algumas coisas no ônibus preparadas para uma possível fuga, o que só tornava pior que nossos amigos não tivessem nenhum recurso, enquanto tínhamos provisões), e passei pelos dois braços de Nanda, abotoando a roupa até o pescoço. A gola alta branca tornava a aparência da ruivinha mais nobre, acentuando sua beleza, que era invernal e primaveril ao mesmo tempo. Senti um movimento próximo da minha cabeça, e olhei para cima a tempo de encontrar Ricardo, sorrindo. Levantei-me e sequei as mãos (molhadas com a água do mar engarrafada que deixáramos no ônibus) no pano que usava para limpar Nanda. Estendi os braços e apanhei o bebê no colo de meu amigo, enquanto ele levanta a mãe, pegando-a no colo. Rico a acomodou em um dos lugares reclináveis, deixando seu banco com a posição mais reta possível. Ele percebera meu intuito, no fim das contas. Joguei o edredom fedido e imundo pela janela, enquanto continuávamos nossa marcha sem perder o ritmo.
– Acha que os outros estão bem? — indagou-me, mordendo o lábio. Sabia que por outros ele perguntava-me muito mais sobre Hugo. — Não acho que seja bom nos afastarmos.
– Temos que pensar nos bebês — refutei, mirando mais à frente ao sentar-me. — Logo será a hora de amamentá-los. Teremos que estimular os seios de Nanda enquanto ela dorme. Não é bom que as crianças fiquem esperando. Podem chorar demais e atrair algo. Além disso, devemos primeiro estabelecer um lugar seguro, e só então sair em buscas pelos nossos amigos. Estamos todos próximos. Vamos nos achar.
–Sim, realmente — concordou, e parecia envergonhado por duvidar de nossa capacidade. — E esse sono dela? É como se o corpo tivesse produzido um tipo de coma, para se recuperar. Assustador. Tenho medo que ela desperte como algo maligno. Não quero encontrar outra Lívia. Ou Topázio.
– Ela vai ficar bem. Acredito nisso com todas as forças. Preciso acreditar nisso. — Era simples, na verdade. Se ela fosse algo ruim surgindo, teríamos que matá-la. Mas minha amiga podia estar viva e bem se restaurando. E eu só permitiria que alguém a tocasse, quando eu tivesse certeza de com o quê estaríamos lidando. — Fique tranquilo Rico. As coisas vão terminar bem. Hugo voltará pra nós.
– Não sei ao certo se isso é possível, Tânia — admitiu. — Tudo o que sei é que eu não consigo mais ser o mesmo depois disso tudo. Não sou um bom líder, nunca fui. Diogo tinha razão. Veja só o que eu causei.
– Nenhum de nós é culpado. Somos sobreviventes. Aqueles que se foram, se foram pelo bem de todos. E nenhum outro líder teria impedido Topázio e os outros loucos de tentarem nos matar. Aquela era a natureza deles. — Pela primeira vez, Ricardo estava me entendendo. — Nossa natureza é seguir em frente. Se adaptar, escapar e fugir. E se isso é ser covarde, que seja. Ao menos, continuaremos vivos indo para longe.
– É muito bom que você pense assim, Tânia. Sua opinião é uma das que mais importa pra mim. — Rico estava sorrindo, e aproximou-se de mim, pousando sua mão em meu ombro. Eu nunca passara muito tempo com ele, mas podia perceber que desde que nos conheceramos, ele mudara muito pouco. Pequenos traços começavam a marcar seus olhos. Rugas de sorriso. Outra raridade, nesse mundo. Além disso, sua beleza permanecia a mesma de sempre. Quase aterradora. Era quase palpável o seu desejo de nos manter unidos, apesar da insegurança que sentia sobre si mesmo. O eterno paradoxo humano. Tentar transmitir paz e segurança quando tudo o que temos é agonia e desespero. Ainda sim, era bom conhecer Ricardo melhor. Eu nunca notara esta nuance dele.
Olhei para o rosto tranquilo de Fernanda, e soube que Ricardo também estava mirando-a. Era linda, mas sua face tranquila era como o terror que habita nos mares abissais, onde a luz do sol é nula. Ali, batalhas e violência de toda ordem ocorrem, e nem por isso sentimos ondulações ou vibrações na superfície. Que a alma de minha amiga não fosse um peixe abissal, uma espécie violenta, rara e pouco apreciada. Ser que ao ser trazido à superfícia, nos chocaria com seu horror e depravação. Pois ela merecia muito mais. À começar por uma segunda chance. O que era irônico. Que Nanda tivesse de se tornar inumana, para que pela primeira vez tivesse a chance de ter uma vida verdadeiramente humana, cheia de esperança e perspectivas diferentes. Eu queria poder garantir que ela não sofresse mais. Contudo, esse tipo de garantia ia além de tudo o que eu poderia oferecer a ela. Ia além do que eu podia esperar para mim mesma. Impossível não sofrer, não ter medo, não chorar. E isto era uma verdade desde os tempos mitológicos. Era parte da história humana na Terra. E de fato, era algo que parecia destinado a nos acompanhar enquanto espécie, mesmo depois que eu e todos os que amo há muito já não estivéssemos entre os vivos. A capacidade imbatível de suportar os sofrimento, de aceitá-lo. Terminando de limpar o crucifixo de Nanda na minha roupa, o prendi em seu pescoço novamente. Meus olhos ardiam de sono e cansaço, e com um gesto Ricardo apanhou de volta o bebê em meu colo. Precisei de muito pouco para adormecer, depois que me recostei à cadeira, ao lado de minha doce Bela Adormecida.
Victoria.
Os dedos de Dimitri estavam rígidos enquanto ele apertava o volante, mirando o trânsito. Seu rosto bonito estava tenso e extremamente fechado, como se uma espécie de máscara mortuária houvesse sido esculpida em seu semblante. Ele não dissera uma só palavra desde que os outros haviam se separado de nós. E apenas acenara quando eu recomendara que ele continuasse indo para longe, quando nos aproximamos da Praia da Tartaruga, e depois da boate. Pedi que ele seguisse em frente, e nada além do ronco no motor veio como resposta. Agora, estávamos além de qualquer lugar onde já tínhamos pisado, e eu precisava considerar se isso era algo bom ou ruim. Eu não sabia. Talvez a dúvida fosse o mais inquietante naquilo tudo. Principalmente porque eu sabia o que havia acontecido. Sabia que a culpa daquilo tudo, era absolutamente minha. Diogo, Otávio, Cecília e Dimitri também sabiam. Eu fora avisada sobre o perigo iminente, e preferi deixar Nanda em segurança, à fugir com todos. Sentei-me no primeiro banco atrás do motorista, no assento mais próximo do corredor. Podia sentir as olheiras afundando sob meus olhos, e o olhar ansioso de Dimitri em minha direção, através do retrovisor. O encarei de volta e seu olhar desviou, como se não suportasse me encarar. Eu não pude acreditar, por um momento. Era a última coisa que eu esperaria dele. Mas então refleti que de fato, eu não o conhecia tão bem quanto pensava, e que também não tinha o direito de exigir nada dele. Nada mesmo. Ele era muito mais amigo de meu pai, do que meu, de todo modo. E também era difícil saber o que ele estaria pensando a meu respeito.
– Sei o que está fazendo — ele comentou. — E sim, estou pensando se devo te culpar por tudo isso.
– Eu me culpo — admiti. — As mortes de Lavínia, Jonas e Gabriel estão na minha conta. Eu fiz isso. E não sei se estou aceitando muito bem.
– Todos os meus amigos, com quem convivi, se foram. Só restam Manuela e Dante, e nem sei se eles ainda estão vivos. Provável que não. É estranho ser o último de um grupo. É como se eu não tivesse mesmo ninguém no mundo — riu sozinho, antes de morder com força o lábio inferior. Ele sempre fazia aquilo quando nervoso. — E eu percebi, como num maldito passe de mágica, que realmente não tenho.
– Nós somos...
– Uma família? Tá, sei. Mas então porque continuamos indo em frente, com os outros ficando cada vez mais distantes de nós? — Dimitri estava me encarando com uma seriedade maior do que eu já o vira sustentar. E aquilo me enraiveceu. Ele não dissera nada quando eu o recomendara que fosse em frente, pela primeira vez. Eu também era falha, e estava morrendo de medo. Ele poderia ter dito algo. Tensa, fitei-o incrédula, e esfreguei uma das mãos no rosto, tentando espantar minha própria frustração. Eu não podia acreditar que justamente Dimitri estava atirando as coisas na minha cara daquele jeito.
– Você está sendo cruel — balbuciei, e olhei ao redor. Tânia estava nos observando, mas parecia entretida com Rico. Dimitri fingia que nada estava ocorrendo. Volvi o olhar para ele. — Pare o ônibus.
– Não era pra ir em frente? — indagou, em falso choque. Fervi de ódio. — Ok, entendi. Desculpa. — ele bufou e começou a encostar o veículo. — Sabe, eu estou exausto. Metade do que eu disse foi só o desconto da minha frustração em cima de você.
– Eu sei. Mas não deixa de ser verdade. — Levantei-me enquanto continuava olhando-o nos olhos. — Você está certo. Estamos longe o suficiente pra tentar achar um lugar e começar a procurar pelos outros. Mas temos bebês conosco. As coisas deixaram de ser tão simples. Além disso, quando te contei do que Cecília me dissera... Aliás, quando você ouviu minha conversa com Diogo nos jardins, não se opôs ao plano. Todo mundo que sabia da previsão dela concordou. Então, somos culpados solidários. Cúmplices em três mortes. Frustrado ou não, você vai ter que conviver com isso. Assim como eu. Vou ver Nanda e os bebês. — E deixando-o para trás com o rosto mais pálido que antes, caminhei triunfante (na medida do possível, considerando meu estado) até Ana, e sentei ao seu lado.
– Ártemis é um anjo. Todos eles são — ela comentou, sorrindo. — É engraçado que uma católica nomeie seus filhos com o nome de deuses gregos, bem mais antigos. Não é?
– Ana, acho que Nanda não pensou nisso enquanto estava parindo. — Tive que concordar, no entanto. Era engraçado mesmo. — Talvez seja o significado do nome. O deus do sol e a deusa da lua, noite e dia. Além disso, todos achavam que seriam apenas dois bebês. A homenagem ao Luca também foi legal.
– Sim. Justamente o bebê que lembra ele — ela reconheceu. — Foi pro pouco. Quase morremos ontem — assenti. Era verdade, fora uma das ocasiões em que eu mais estivera assustada na vida. — Espero que Sabrina esteja bem.
– Ela está. Você a salvou, lembra? Ela pode aguentar até nos encontrarmos de novo. — Eu queria tranquilizá-la, mas pensava mais em Diogo ao dizer tudo aquilo. De certo modo, contudo, eles eram mesmo parecidos. O que era um consolo. Ambos podiam estar bem.
Nos revesamos um pouco para embalar os bebês, que haviam adormecido desde o nascimento. Por algum tipo de milagre, eram todos saudáveis e fortes, enormes para os padrões de recém-nascidos normais. Rico brincou que a alimentação de Nanda fora o mais saudável possível durante a gravidez, ainda que de maneira forçada. E talvez isso fosse algo que os tornasse mais resistentes, considerando que muitos dos produtos industrializados e prejudiciais não existiam mais. Depois de algum tempo, Tânia despertou de seu cochilo e preparou Apolo para ser amamentado. Àquela altura eram Ana e Vilma quem dormiam, abraçadas num dos bancos. Dimitri também fingia estar apagado, mas na verdade apenas mantinha os olhos fechados. Ele estava desconfortável com os bebês. Enquanto o pequenino se alimentava, Nanda não parecia abalada. Ela permanecia de olhos fechados, como se nada estivesse tocando-a. Inquietante, mas segundo meus amigos, algo natural depois dos traumas físicos que e emocionais que ela sofrera. Melancólica, pensei na ausência de Gabriel e quis me matar de culpa. Ele saberia como administrar aquela situação. Eles eram tão lindos juntos... O tipo de união que só vemos uma vez na vida. Talvez Fernanda nunca esquecesse dele, mesmo em uma idade avançada. Se ela vivevesse até lá. O que não era garantido à nenhum de nós, dadas as circunstâncias.
E por mencionar circunstâncias, eu era a rainha delas. Permitira que me carregassem por toda a parte, quando talvez eu pudesse ter impedido grande parte de tudo o que ocorreu, se tivesse ido até o porto mais próximo assim que encontrei aquela maldita chave de barco. Talvez nem sequer tivéssemos encontrado Topázio. Nunca teríamos conhecidos Cecília, ou Dimitri. Todos que viviam na Privilège talvez ainda estivessem sob o jugo daquela insana. Mas ainda assim, estaríamos vivos. É verdade que ainda naquele momento, não havia certeza alguma de que houvesse algo próximo o bastante para significar segurança, mas mesmo assim era melhor que permanecermos atracados ali. Pelo menos, talvez fosse possível chegar à outro estado. Isso contando que não fossemos mortos antes. Segundo Ricardo, ele sabia pilotar alguns modelos marítimos, assim como Dimitri. Carolina e Otávio também entendiam um pouco de barcos, mas gostavam muito mais de andar neles. Luca sabia como velejar, como guiar aqueles veículos muito bem. Um de seus tios era dono de uma empresa pesqueira, e sabia muito sobre esse ramo.
As horas arrastavam-se como se o tempo tivesse preguiça de caminhar, e não era possível ver sinal algum de vida naquele quarteirão abandonado até mesmo pelos mortos. Nenhum animal sobrenatural, nenhuma criatura enlouquecida. Nada. Apenas o asfalto queimando, e o calor que começava a incomodar dentro do ônibus. Abrimos as janelas antes que começássemos a assar, e percebi algo que realmente me tirou o fôlego. No céu, longínquo como um pequeno peixe negro num oceano escuro, era possível divisar os contornos de um avião. Ele estava tão alto no céu, que era complicado descrever seu modelo, embora lembrasse um monomotor. Colocando a cabeça para fora da janela, dei uma espécie de grito de desespero, apontando em sua direção. Todos correram para olhar, intrigados. Dimitri desceu do ônibus, surgindo à minha frente com os cabelos bagunçados enquanto mirava o céu. Seus olhos eram tão azuis que quase ofuscavam, percebi. E estavam cheios de tristeza, e desânimo. Muito depois que o avião já partira, e que os bebês já haviam se alimentado, eu ainda estava olhando através da janela. Tânia estava terminando de abotoar a blusa de Nanda de volta, quando notou meu olhar desolado e sorriu, um poço de esperança. Ela sabia, considerei, que todos estávamos por um fio. Ana, Rico e Vilma haviam conseguido tornar os bebês, seu novo foco para escapar daquela situação com alguma sanidade. Juntos, formavam uma equipe para cuidar das crianças. Eu não era boa nem em segurar bebês, então mantive uma distância segura embora estivesse apaixonada pelos três. Sorrindo sozinha, notei uma ironia quase cômica. Três amigos perdidos, em troca da vida de trigêmeos. Um detalhe que parecia-me místico, quase espectral diante do que eu soubera por Cecília, antes do nascimento deles. Nem mesmo ela previra que a morte de Nanda seria momentânea. Imaginei como ela estaria, sem Otto. Esperava que Diogo estivesse cuidando dela, impedindo que sofresse muito com sua abstinência. Manuela também precisaria de ajuda. Embora tivesse recuperado suas forças, ainda não era apta a lidar com a hostilidade das criaturas com que estávamos acostumados. Eu nem queria pensar nela terminando como Lavínia. Pobre Lavínia. Seus gritos eram como uma presença acusadora na minha cabeça, gritando e gritando...
– Vicky. — Dimitri tocou meu braço. Olhei em sua direção, dispersa. — Você está divagando. Já te chamei três vezes.
– Desculpa — ele riu em resposta. Um sorriso verdadeiro, consolador. Dimi estava de volta. — Por tudo. — acrescentei mais significado à minha frase, imprimindo diversas outras questões pelas quais eu poderia me desculpar. Eu parecia estar sempre fazendo aquilo, de certo modo. Sempre pedindo perdão pelos diversos erros estúpidos que já havia cometido.
– Eu, é quem peço desculpa. Todos nós já estamos com muita merda na cabeça pra ainda ficarmos atirando as coisas na cara um do outro. Lamento que Diogo esteja longe, sei como ele é importante pra você. Também sei que você se culpa, e peço desculpa por ter fortalecido isso na sua cabeça. Não é o que eu realmente acho — sentou-se ao meu lado, e passou um dos braços por cima do meu ombro. — Estamos bem? — sorri. É claro que estávamos. Acenei, e ele riu ainda mais. — Meus pêsames por Jonas, também. Ele salvou sua vida uma vez, não é?
– E não só uma — concordei. — Ele permitiu que eu me tornasse inumana. Ou eu teria sido devorada como Lavínia. Ele me tirou do meio de uma horda como a que matou ela. Eu fui considerada morta pelo meu grupo, durante algum tempo. Foi parecido com o que estamos vivendo agora, na verdade. No fim, acabei encontrando os outros por acaso.
– Viu só? Ainda há esperança. Sempre há esperança — ele disse, e percebi que seu olhar se tornara mais terno, ainda que de maneira crescente, introspectivo. Ele estava refletindo sobre os próprios sentimentos. E aquela proximidade era perigosa, eu não queria que ele tivesse ideias erradas sobre mim. Ergui-me e passei uma das mãos em seus cabelos castanhos escuros, beijando seu rosto de leve.
Eu estava decidida a explorar um pouco do exterior, quando um movimento inquieto foi captado pelo canto da minha visão periférica. Virei-me de uma só vez na direção de Nanda, enquanto um de seus braços começava a se mover na direção do rosto. As conversas paralelas e aos sussurros cessaram imediatamente, no ônibus. Todos os olhares se voltaram para ela. Fernanda esfregou os próprios olhos, e se levantou. Por alguns momentos, ela piscou incerta. A tarde começava a se insinuar pela janela, e a claridade facilitava a nossa visão. Seus olhos, agora um preto e outro branco, nos encaravam com imparcialidade, quase espanto. Então, algo mudou. Emoção tomou seu rosto, corando-o. Até que ela reconheceu os bebês nos colos de Ana, Rico e Vilma, e começou a chorar. Ela ergueu as mãos na direção dos filhos, e nossos amigos se aproximaram. Todos estávamos embargados pelo momento. Nanda beijou o topo da cabeça das crianças, mas não tomou-os do colo dos outros. Ao invés disso, ela jogou o próprio corpo para trás lentamente, recostando-se. Então, começou a chorar francamente.
– Gabriel... — murmurou. — Conseguimos. — seu olhar alcançou o meu, e um sorriso iluminado invadiu-a. — Vicky, você fez isso, não é? Me transformou?
– Não com meu próprio sangue. Mas sim, fui eu — admiti, e ela acenou em concordância, sacudindo a cabeça com uma falsa incredulidade.
– Então... Eu morri? — ela indagou, incerta. Trazia um sorriso torto no rosto.
– Por pouco mais de um minuto. Então Victoria a infectou e fez exercícios de ressuscitação. Você voltou para nós. — Tânia estava alegre. Ninguém conseguia acreditar que Nanda estava mesmo falando. Ela se tornara uma inumana do bem! Era quase infantil da minha parte ficar toda alegre por isso? Era. Mas eu não estava nem aí.
– Cecília não falhou, então — ela comentou, sorrindo. Então gemeu, encolhendo-se num arrepio. — Deus, meus braços estão doendo tanto! Assim como minha garganta, que está arranhando. E está bem frio, também...
– Você gritou bastante. — Ricardo contou-lhe, enquanto se sentava com Apolo no colo. — E deve estar cansada, com o corpo ainda adaptando-se ao vírus. Tente não se esforçar muito. Tem um lençol dobrado numa das caixas ali do fundo. Quer que eu pegue pra você?
– Tudo bem. — Rico entregou o bebê para Tânia, e foi apanhar o tecido. Quando voltou, cobriu Nanda como uma pequena criança, aconchegando-a. Depois deu-lhe um abraço, que ela correspondeu com o entusiasmo dos convalescentes. — Muito obrigada, gente.
Ela estava pálida e zonza, isso era evidente. Mas ainda era mais clara a sua mudança. O que começava com os olhos, podia ser comprovado na cor de seu cabelo. Como se houvesse sido amplificado, o ruivo era ainda mais chamativo, mais quente. Seu corpo ainda era magro e delicado, mas os músculos pareciam extremamente ativos e estimulados. Eu entendia sua dor física. Sabia por esperiência própria que ela ainda sofreria por alguns dias, como quando tomamos uma vacina particularmente pesada para o organismo. Olhando ao redor, Nanda pareceu notar pela primeira vez onde estávamos. E mais precisamente, que não estávamos todos ali. A ausência de tantas pessoas encheu sua expressão de confusão, e em seguida, de um horror quase assustador. Ergui as mãos para acalmá-la.
– Respira fundo — recomendei-lhe, fazendo careta. — Jonas e Lavínia não conseguiram — aguardei até que ela acenasse, indicando que eu podia prosseguir. — Os outros acabaram se separando de nós, no desespero para fugir de uma horda que invadiu a pousada. Topázio e o bando dela foram mortos, no processo. E então, acabamos vindo para cá, longe dos locais onde já estivemos, e onde vamos poder ficar em segurança até irmos novamente atrás dos outros. Ok? Prometo que vou te inteirar dos detalhes. Agora você devia descansar.
– Devia mesmo. — Tânia segurou uma das mãos de Nanda. — Vamos ter tempo pra tudo... — sua expressão se tornou confusa. — Suas mãos estão muito quentes. É quase desconfortável tocá-las.
–Eu sei. Meus braços estão me matando. — Tânia e eu trocamos um olhar, e só no que eu pude pensar, era na mutação de Nanda. O que ela seria capaz de fazer? Haveria um momento para descobrir, e realmente não era aquele. — Estou com fome, e vocês?
Antes que qualquer um de nós respondesse, eu já sabia a resposta. Ninguém comera desde o início do ataque, o que já fora há quase dois dias. Evidentemente agora que Nanda estava de fato, fora de perigo, todos havíamos relaxado um pouco mais. Minutos depois, Vilma estava ao lado dela embaixo do lençol, enquanto Tânia distribuia maçãs para todos. Comi a minha sem pensar duas vezes, apenas aliviada por ter conseguido vencer as exepctativas e mantido Nanda viva pela segunda vez. Não era só pela bondade e amizade que eu nutria por ela. Mas sim, por tudo que aquela garota representava. Ela era o verdadeiro centro daquilo. O que motivava a todos nós. A ideia de perdê-la era dolorosa em níveis demais para serem descritos. Mas para nosso bem moral, ela estava ali. E agora que não era apenas uma menina frágil e crédula, mas também uma inumana de dons não revelados, permaneceria assim por muito mais tempo. Ciente de que mais um recomeço se extendia à nossa frente, encarei o sol da tarde. Tudo começava e se renovava no despertar. E em breve, seria a hora de tomar as rédeas da situação novamente.
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