Quebranto.

71 O único jeito.


Notas iniciais
Oi, gente! Não vou nem perder o tempo de vocês, enrolando. Boa leitura!

Victoria.

Tudo o que eu podia sentir, eram as mãos. Mãos ásperas, firmes. Mas gentis. Mãos que me afagavam o rosto, e que lutavam par sacudir meus ombros. Mãos que me mantinham acordada. Mãos que velavam pela minha sobrevivência. Mas, não eram as mãos que eu desejava sentir. Não Diogo. Mas Dimitri. E, ao abrir os olhos e deparar-me com um mundo de sombras turvas e confusas, tudo em que pude agarrar-me foi em seu rosto. Tensa, permiti que ele puxasse-me para que ficasse de pé, enquanto recuperava-me da pancada forte na cabeça. Esfreguei de leve as pontas dos dedos entre meus fios emaranhados, e elas retornaram vermelhas com meu líquido vital. Uma pancada bem mais forte do que eu supunha. Meio dormindo e levemente zonza, pude apenas manter-me num ritmo aceitável, enquanto era levada para a cabine de polícia que tivéramos a sorte de encontrar.

– Conseguiu matar o cachorro? Ou ele só foi embora? — Alarmada, eu não queria ter de lidar com outro animal selvagem tão cedo.

– Essas coisas nunca vão embora. Não são como os urubus, que desistem. Eles continuam indo pra cima, até que os matamos. Mas me livrei dele — explicou-me, sorrindo. — Você caiu muito feio, com a lambada que levou. Achei que inumanos fossem mais coordenados.

– Sou a inumana mais desastrada que você vai conhecer, acredite — ri em resposta, dando-lhe uma tapa de leve em seu braço. O sol começava a se pôr no horizonte. Já iam fazer cerca de três horas, desde que havíamos nos separado dos outros para tentar encontrar alguma arma. Em nosso trajeto a pé, não havíamos encontrado nenhuma ameaça naquela parte deserta de Búzios. Nenhum sobrevivente (que eu julgava quase extintos por ali), nem qualquer outro tipo de ameaça, como zumbis. Apenas seguimos em frente, no automático. Tensa, mantive-me preparada para o que fosse necessário. Pelo menos, até que avistei a tal cabine e minha esperança suplantou a prudência. Um cachorro-do-mato me derrubou, e Dimitri teve que salvar minha vida. Só isso.

Fechando a porta atrás de mim, me virei para observar a investigação de meu parceiro, que vasculhava o lugar. Um cadáver praticamente mumificado estava todo esparramado próximo à única janela do cubículo, que tinha cerca de quatro marcas de tiro cravejadas em sua superfície, exibindo respingos de sangue seco do oficial abatido com um tiro certeiro na têmpora direita. Ao redor, o lugar já parecia ter sido saqueado. Havia gavetas da mesa do oficial assassinado espalhadas por toda a parte, com teias e pó cobrindo a estante repleta de pastas, com uma cafeteira e algumas caixas de pizza que me embrulhava o estômago só de olhar. Imaginei que aquele agente devia ter sido uma das primeiras vítimas do caos urbano. Ele nem poderia imaginar a sorte que tinha por ter sido baleado na cabeça. Ainda arfando e sentindo o latejar constante, como de um bate-estaca na minha cabeça, sentei-me no chão com as costas contra a porta da cabine, apenas fitando o progresso de Dimitri. Distraída, enfiei a mão no bolso da calça jeans escura e extremamente justa que estava vestindo, ignorando a falta de conforto que usá-la me trazia. Eu não podia usar os vestidos que tanto gostava estando na estrada. E podia ser bobo, mas as roupas confortáveis que eu usava na pousada, me fariam muita falta ali. Revirei a chave de barco, cujo chaveiro acolchoado eu já perdera há algum tempo. Raspando minhas unhas nas ranhuras do pequeno objeto, repassei mentalmente o nome do barco que seria em última instância, nossa saída final. Princesa Sônia. Uma homenagem a alguém importante para um dos homens que eu havia matado. Como muitas coisas marcantes, aquilo também havia sido há muito tempo. E lembrar tanto, fazia com que eu sentisse cada vez mais o peso daquela jornada. Não parecia haver um fim para toda a agonia. Nós sequer tínhamos um plano. Um destino certo. Só sabíamos que a vida ali em Búzios, já nos oferecera todas as chances de que podíamos dispor. E, como regrade vida, voltar atrás não era opção.

– Vicky, tem uma pistola no coldre desse policial. Calibre trinta e oito, com três balas. Não tem mais nada aqui, levaram todo o resto. — Apesar de falar comigo, Dimitri ainda estava vasculhando a sala. Então ele pulou num sobressalto, e uma aranha mais ou menos do tamanho de uma bola de tênis, saltou da estante empoeirada. Alerta, ele pulou para o lado no instante em que aracnídeo saltou, desviando em tempo do animal cair entre nós, no centro da cabine. Sem pensar duas vezes, puxei a faca de acampamento em minha cintura, e a arremessei com toda a minha força contra a criatura peluda. O objeto emitiu um silvo metálico, quando sua ponta atravessou a aranha e o chão fino da cabine. — Uau — sussurrou Dimitri, sorrindo.

– Foi instintivo — balbuciei. — Nem mirei nessa coisa. — Ele deu de ombros. Assenti. — Pelo menos estamos vivos. Quer continuar olhando? — Apenas aproximando-se da estante, e tirando de seu interior uma pequena caixa branca com tampa vermelha, de primeiros socorros, Dimitri voltou a olhar em minha direção. Então abriu o recipiente com atenção, depois de espanar todo o pó. — Esparadrapos. Um vidro de álcool. E umas ampolas de Dipirona, com uma seringa. Fora de validade.

– Joga isso fora. Levamos o álcool e as bandagens pra Tânia. — ele me obedeceu. — Pelo menos não vamos voltar de mãos vazias. Já anoiteceu — acrescentei de última hora, observando que mal podia discernir o rosto de meu amigo naquela escuridão.

– Passamos a noite aqui? Acho arriscado demais voltar sem enxergarmos nada — propôs, ainda que de maneira vacilante. Acho que Dimitri temia que eu visse sua sugestão com desconfiança. Ele me conhecia menos do que achava, então.

– Tudo bem. Melhor você ficar perto de mim. Está muito frio, e esse lugar é aterrorizante com esse cadáver nojento, e uma aranha enorme morta por aí. Prefiro saber que você está bem junto de mim — disparei, enojada com a possibilidade de encostar alguma asquerosidade daquelas. — Nojo.

– Ok. Vou tocar você — avisou-me, e senti sua mão sobre meus seios. Revoltada, atingi seu rosto com as costas de minha mão, o estalo que se seguiu reverberando por alguns segundos. — Ai! Droga, Vicky! Tá escuro, merda! Desculpa!

– Palhaço — rebati indiferente. Aproximei-me e toquei em seu ombro. — Viu só? Nem vem que não cola. Melhor calar a boca e ficar bem quieto. Estou exausta e quero dormir.

Dimitri sentou-se ao meu lado, e mesmo na escuridão soube que estava sorrindo. Imbecil. Passei seu braço por cima de meus ombros, obrigando-o a me abraçar enquanto a noite seguia adentro. Num lugar que fedia à morte, mofo e abandono, me senti mais tranquila do que fora possível desde que eu escapara da morte, causando a perda de três de meus amigos. No entanto, Dimitri e eu já estávamos zerados. Ele compreendia minha culpa, e meus motivos. E dele, eu não estava escondendo nada. Na pousada, na boate, em qualquer lugar eu havia buscado formas de me manter afastada dele, de não agregá-lo à minha vida de maneira permanente. Mas ali, quando todos aqueles que mais importavam para mim estavam distantes, e só restávamos nós dois no escuro. Foi quando percebi que estava segura. De repente, eu era a menina de dezesseis anos que se escondia atrás da porta quando o pai de Dimitri ia visitar o meu, levando o filho mais velho. Eu era outra vez a menina rica que só sonhava em ter as melhores férias do mundo, com seu namorado dos sonhos e os melhores amigos. Tanto havia ficado para trás. E, de uma forma estranha, soube que se nunca tivesse sido separada de Diogo, jamais poderia ter esse encontro comigo mesma. Fechei os olhos e encostei a cabeça no peito de Dimitri, sentindo a umidade de sua blusa de mangas compridas, totalmente suada. Ele apertou-me com mais força, e antes que pudesse adormecer, tive uma última visão. Nora na escuridão. E ela estava sorrindo, certa de que apesar de meu luto, eu não precisaria de sua ajuda novamente. Eu a compreendia, e a aceitava como parte de mim, cada vez de forma mais completa. Aquele era o único jeito. Aceitar não só a beleza, mas também o horror e as tristezas daquele novo mundo. Aceitar a brutalidade como parte de um plano maior e soberano, a sobrevivência. Aceitar que o mesmo quebranto que reprimia meus passos era o que me mantinha viva todos os dias. Aceitar que por onde quer que eu fosse ele seria levado comigo. Para sempre...

Tânia.

Quando Vicky e Dimitri nos deixaram em busca de novas armas que pudessem facilitar nosso caminho até o porto, mantive-me quieta por algum tempo, acalentando Apolo enquanto Artémis era amamentada por Nanda e Luca era protegido por Ana. Como Penélope à espera de seu Ulisses, fitei-os enquanto iam ao longe, suas silhuetas diminuindo como pequenos traços a riscar o sol brilhante, que provocava carícias em meu rosto a despeito das nuvens negras que insistiam em revolverem-se na abóbada celeste. Acomodando-me na poltrona acolchoada do ônibus, tive que debater-me com o tédio daquele momento. Estava preocupada demais. Com aqueles bebês, que poderiam começar a chorar num rompante. Com Vilma, que estava sempre chorando. E com aqueles de nós que estavam ainda mais distantes, perdidos de nós e talvez até mortos. Só esta possibilidade enervou-me de tal modo, que não pude insistir no pensamento por muito mais tempo. Ricardo estava calado. Ele também mirava a estrada vazia através de sua janela à frente da minha, contemplativo. Nem de perto parecia o homem que eu conhecera, tendo envelhecido décadas em horas. Ana, fechada em si mesma, parecia de volta ao estado catatônico que a consumira durante a temporada sob o jugo de Topázio, com a diferença de que daquela vez, não havia nenhuma influência negativa sobre sua consciência.

– Gente, precisamos agir o quanto antes. Levantando-me, aproximei-me de Ricardo e o fitei de modo impassível. Logo eles estarão de volta, e não podemos nos dar ao luxo de ficarmos parados aqui, por muito mais tempo. Nossa segunda prioridade é conseguir gasolina. E eu preciso ficar de olho em Nanda, com a Ana. Então Ricardo, precisamos de você. Fui direta e grossa. Não podia deixar que ele se deprimisse mais. Você poderia tentar encontrar alguma gasolina e trazer para nós. Não faz muito tempo que Vicky e Dimitri saíram. Ainda dá tempo de pegar um carro e voltar um pouco atrás, para conseguir algo. O que acha?

– Eu acho que você enlouqueceu Tânia. Como vou voltar pelo caminho do qual viemos, sozinho? Não faz sentido resmungou. Eu não sei sequer como fazer uma ligação direta num carro abandonado. E posso encontrar coisas com as quais não vou saber lidar sozinho.

– Eu vou com você ofereceu-se Vilma, para meu espanto.

– Nem por um decreto avisei, e ela voltou a se encolher, resmungando com Luca no colo. Rico. Você é nosso líder. Por favor, faça isso por nós. Ana precisa me ajudar a cuidar dos umbigos dos bebês, e de outras coisas que você conhece bem. A menos que você queira que uma de nós vá em seu lugar, é tudo o que temos. Não adianta tentar nos atrasar por causa do Hugo. Já disse que vamos encontrá-lo. Aproveite e tente procurar por ele, o que me diz? Sei que fisicamente, você também é o mais capacitado aqui. Com meu peso, aguento correr bem pouco, e lutar menos ainda.

– Não precisa se humilhar, Tânia. Se o Rico decide se tornar um inútil completo quando algo dá errado, problema dele. Se quiser, eu dou um jeito nisso ofereceu-se Ana, mirando-o com um misto de raiva e incômodo. Quando eu agi de maneira estúpida, todos me julgaram. Agora eu digo a você que, assim como a Sabrina, se tornou um completo egoísta. Hugo ficaria decepcionado com a pessoa em quem ele confiou para cuidar de nós. Um homem completamente sem personalidade, e sem força de vontade, ou instinto de liderança. Às vezes, pessoas que não desejam tomar decisões as têm impostas a eles, e se saem melhores do que se esperaria. Como a Vicky, ou a Carolina na boate. Mas você, Rico, me provou que não faz parte desse grupo.

– Você fala demais, Ana. Como se fosse mais indispensável que eu. Posso um líder sem pulso ou sem iniciativa, mas você foi durante muito tempo um fardo. Tudo o que você faz alguém sabe fazer melhor que você. Não é indispensável para nenhuma função. E com certeza não está em posição de me julgar. Não é como se amasse a Sabrina, de todo o modo. Nem chorou desde que se separou dela. Ricardo estava mais irritado do que nunca. Eu nunca o vira tão agressivo. O que aquele mundo fazia com as pessoas? Era como se ele tivesse perdido completamente o prumo. Assustador.

– Chega pedi. Os dois, parem com esse inferno. Esse tipo de tom de voz e ofensas não tem como fazer bem às crianças. Eles são capazes de sentir tudo o que sentimos, e não vou deixar vocês falarem coisas das quais vão se arrepender depois.

– Certo. Eu to saindo. Deseje-me sorte, Tânia. pediu Rico, com o rosto anuviado. Você sabe que está me pedindo muito.

– Estou sim. E sei que você vai voltar rebati, muito mais esperando estar certa, do que com certeza.

Ricardo partiu logo em seguida. Olhando em volta, vi-me sob o escrutínio de Nanda, que parecia preocupada. Eu sabia o que ela estava pensando. Eu exigira demais de Ricardo, que parecia bem mais fragilizado do que seria saudável para ele, naquele mundo. Ainda assim, não podia voltar atrás. Pelo menos ele teria uma missão, um propósito. Uma razão para seguir em frente, apesar de toda a confusão e caos que devia estar nublando suas ideias. Afastando-se do ônibus com ele, Ana deu partida em um pequeno Chevrolet abandonado, que perdera uma porta ao atingir o muro de uma residência. Eu não sabia que ela havia aprendido a roubar veículos com Sabrina, ou Diogo. Mas era o que parecia ser o caso. Ela saiu do carro sucateado, e observou enquanto Rico afastava-se com ele.

– Fui muito dura com ele? Nanda negou, com um gesto.

– Não é isso. Você só está diferente. Mais forte. Como uma líder rindo, ela acarinhou levemente Apolo, que começava a mamar. Assim como eu me sinto diferente. É estranho ver o mundo sem peso, sabe? Sinto-me viva. Consigo respirar bem melhor, agora.

– Ainda não me acostumei com seus olhos novos brinquei, soltando meus cabelos depois do que pareciam anos usando o mesmo coque. Mas que bom ter você comigo, filha.
– Eu sei Tânia. Você é uma mãe pra mim. Assim como a Diana foi. Obrigada por trazer meus filhos ao mundo, e por vingar a morte do Gabriel. Eu não estaria aqui, e nem eles, sem você. Nanda ainda estava deitada sobre o banco reclinado onde havia ficado desde que eu trocara suas roupas. Era o mais próximo que tínhamos de uma cama, e o melhor modo de mantê-la em resguardo. Aproximei-me dela e gentilmente acomodei Luca em seu colo, tomando Apolo no meu. Ana voltou ao interior do ônibus, e Vilma a entregou Artémis.

– O carro que o Ricardo levou estava na reserva. Ele precisa voltar logo comentou apreensiva, apesar de ter brigado com ele.

– Então somos só nós quatro, por enquanto disse Vilma. Mas não se preocupem, protejo vocês. Vilma tirou a faca dela da roupa, e foi sentar-se na pequena escada atrás da porta do ônibus.

Sequei o suor em minha testa, sentindo a base da coluna protestar perante meus movimentos. Acomodei-me em um banco na lateral do ônibus oposta ao local onde Nanda estava deitada. Senti-me mal por ter agido no impulso de enviar Ricardo numa demanda tão complicada sozinho, mas era um mal necessário. Em minha mente senti, no entanto, que minha atitude poderia provocar sua morte. O que me assombraria pra sempre. Mas este era o tipo de decisões que precisávamos tomar. E ainda que aquele pressentimento ruim não me deixasse em paz, se ele fosse o preço para a sobrevivência do grupo, eu poderia lidar com isso. E se aquele era o único jeito, que assim fosse.

Notas finais
Dimi e Vicky, hein? Já posso ouvir os gritos de revolta dos shippers de Viogo. KKK, Don't worry guys... Nada rolou ainda. E Tânia se convertendo numa nova líder? Será? Rico, tadinho, totalmente perdido... Logo sai o próximo! Até lá, gente. Kisses by DroppingPieces!