Quebranto.

72 Beijo das Sombras.


Notas iniciais
Depois de muita demora, espero compensar com um capítulo grande e que vai iniciar novos caminhos na história. De certa forma, acho que vocês vão achar bem interessante. Boa leitura!

Carol.

Tentei pelo que parecia ser a milésima vez numa mesma hora, organizar a bagunça na qual havia se convertido meu cabelo. Mirando meu reflexo embaçado e precário no pequeno espelho do banheiro imundo em que me apertava, desejei não ter permitido que Manuela e Cecília saíssem sozinhas. Segundo elas, não haveria mal algum em caminhar um pouco na praia. Para Manu isso inclusive ajudaria nossa amiga a enfrentar seus problemas com as drogas, de modo que não me opus a que respirassem um pouco da maresia que se espalhava por todo o local, corroendo as paredes de madeira com o excesso de sal nas partículas do ar. Decidindo que como não poderia melhorar em nada aquele desastre, melhor seria que eu nem olhasse por tempo demais para mim. Esfregando o pequeno paninho ensopado de água salgada no pescoço, tentei afastar um pouco daquele calor infernal com seu frescor latente. Era o mais próximo que eu chegava de um banho, em mais de três dias. Eca. Tirando um pouco de poeira da testa suada, acabei puxando por sobre a cabeça a mesma blusa surrada e manchada de sangue que eu estava usando ao fugir da pousada. Calcei meus All-Stars de cano longo, e me apoiei contra a pia suja mais uma vez. Respirando fundo pela última vez, tive de agradecer por Irma ter nos deixado alguma comida, uma vez que sozinha com duas pessoas pouco capazes de se defenderem na estrada, eu estava de mãos atadas. Nós três não iríamos muito longe sozinhas. Eu precisava mantê-las seguras, até que Diogo e Sabrina retornassem, depois de ajudarem a matar a tal cientista e os amigos dela. O que para mim, tornava aquilo tudo totalmente cruel. Principalmente se para manter-me viva eu tivesse que secretamente desejar a morte de outra pessoa. Engraçado. Era mesmo irônico que eu estivesse me preocupando com aquelas questões. Esfreguei mais uma vez as mãos no rosto, afagando minhas têmporas e tentando lutar com o aperto no peito e a sensação de isolamento total que me tomava, enquanto tudo o que Jonas me ensinara reverberava meus pensamentos. Se ao menos eu soubesse quanto tempo tínhamos um com o outro... Eu nunca o amara o suficiente, como ele merecia. Será que ele sabia o quanto era importante? Será que alguém mais além de mim sabia? Era difícil não sentir raiva de Victoria, ou de Fernanda. Mais uma vez, a morte de alguém que eu amava estava ligada a ambas.
Só que o tempo era sábio em não deixar nenhum de nós ileso. Eu mudara talvez mais, do que a maioria daqueles que eu conhecera até então. Eu era uma nova Carolina, e somente isso me fazia compreender que não havia sentido em culpar outra pessoa, por uma decisão que fazia parte de Jonas. Ele jamais se recusaria a lutar e salvaria a própria pele com o grupo inteiro sendo atacado. Se eu devia culpar alguém, que fosse Topázio. Ela sim agira de maneira perversa, ceifando tantas vidas quanto tivera vontade, apenas para manter-se em sua obsessão doentia pelo controle. Pelo poder ilusório de reinar sobre cinzas, com o qual ela flertava ensandecidamente. Uma mente perdida, que encontrou o seu fim mais tarde do que devia. Uma mulher doente, vítima de si mesma e dos poderes que recebeu, sem o menor escrúpulo ao usá-lo. Sequei outra de minhas lágrimas por Jonas. Ele não precisava mais delas, não poderia vê-las. Eu quem estava me beneficiando do luto para me permitir momentos de fraqueza, mas outros dependiam da minha dedicação em permanecer viva, para ajudá-los. E eu já conseguira escapar por acaso tantas vezes, que custava muito a acreditar que fosse possível alguém como eu sobreviver por tanto tempo.

– SOCORRO! — Ouvi o som se propagar como um tiro, uma flecha cortando o vento. Um zumbido indefinido, quase preguiçoso. Uma voz que eu não conhecia, mas que certamente vinha da praia. E, mesmo antes que eu desse-me conta de investigar o que iria fazer, estava descendo as escadas rústicas de madeira, chegando à areia marfim antes mesmo que Cecília e Manuela me avistassem. Elas pareciam mais incomodadas em observar os zumbis que caminhavam atrás de uma garota, em direção ao mar. — Por favor, me ajudem! — A menina tinha a pele curtida de sol, e parecia mesmo ferida com lábios rachados e arranhões espalhados pelo pescoço e busto. Ela não parecia infectada. Os olhos extremamente verdes brilhavam em contraste com sua pele de cobre, suada e quase tão marrom quanto seus cabelos enrolados de chocolate. — Eles vão me matar! Vão me matar! — Ela gritou em total desespero, lágrimas escorrendo pelas suas bochechas que já apresentavam pequenos sinais de insolação. Uma mochila de acampamento gigantesca a fazia parecer uma corcunda, enquanto lutava para continuar correndo na areia fofa, que estava cansando-a ainda mais.

Três zumbis a seguiam, cada um mais decomposto e em pior estado do que outro. Eles pareciam cada vez piores e mais lerdos, muito menos mortais o que haviam sido meses atrás. Em sua maioria, eram corpos com bastante tempo de reanimação. Com os vivos em minoria, não era comum que se avistassem zumbis providos de grande resistência. Nenhuma criatura zumbificada parecia exatamente forte ultimamente, ao contrário dos animais mutantes e dos inumanos, que eram cada vez mais comuns. Para meu alívio, não era um criatura quem perseguia a menina, mas sim um senhor idoso, uma menininha asiática sem um dos braços, e um zumbi cujas entranhas estavam penduradas numa massa negra e disforme, apodrecida apesar de ainda em uso. Corri até a menina rapidamente, agarrando-a pela mochila bege cheia de quinquilharias, e derrubei-a na areia. Ela continuou correndo na direção de Cecília e Manuela, que agora se encolhiam próximas da escada de madeira que levava ao andar superior do quiosque restaurante. Puxando minha faca sem muito jeito (eu estava mais preocupada em ser rápida, do que graciosa), finquei-a contra um dos olhos da menininha, que tentou me agarrar pouco antes de cair inerte. Distraída, levei um susto quando a mão forte do zumbi despedaçado envolveu uma das alças de minha blusa, rasgando-a como se nada fosse. Tensa, chutei suas entranhas expostas, e meu pé direito ficou repleto de gosma pútrida da cor do piche. Ele caiu, e não conseguia se colocar de pé sem rasgar mais ainda a região já prejudicada, o que o manteve no chão por muito tempo. Isso tornou fácil neutralizar o zumbi idoso, que já parecia quase uma múmia, após ser ressecado constantemente pelo sol. Tentando alcançar-me, o zumbi danificado arrastou-se, rompendo o próprio corpo em prol de seu instinto ensandecido. Suas vísceras e parte inferior foram deixadas para trás, sujando a areia com o sangue escuro e fedorento enquanto ele vinha na minha direção.
Enojada, afastei-me sem muita pressa. Ele não conseguia velocidade suficiente para representar algum perigo real e mordaz, sendo inclusive muito difícil não sentir pena de uma criatura presa em tal estado. Muitas vezes, esquecíamos que tais seres já haviam sido pessoas. Que tiveram famílias, amigos. Que um dia, já tiveram medo e choraram também. É difícil de lembrar quando esses monstros querem te comer, de que eles provavelmente não tiveram a menor escolha sobre serem o que são. Olhando ao redor notei uma pedra comum, de tamanho generoso, presa em meio à areia. Puxei-a dali, caminhando de volta até o corpo reanimado que se arrastava pela areia. Tropecei numa das pequenas tocas de caranguejo vazias, que restaram após a limpa de Irma naquele ninho. Nervosa e ao mesmo tempo apiedada, derrubei a pedra contra a cabeça do zumbi, esmagando-o após repetir o movimento com toda minha frustração e dor pela morte de Jonas vibrando em minhas mãos, e através do meu peito. Não percebi que estava gritando até a saliva praticamente pular da minha boca, num som gutural e primitivo. Foi bastante assustador, mesmo pra mim que me sentia mera espectadora daquele momento de fúria. Quase um surto psicótico, eu diria. Era o meu equivalente, pelo menos. Inclusive porque para mim, sempre fora mais fácil correr e evitar aquelas coisas, do que matá-las. Do que olhar para elas e reconhecer o que realmente eram.

– Oh meu Deus, obrigada — sussurrou a menina, um tanto apática. — Você me salvou. Por que fez isso? Não tenho nada a oferecer, qualquer um me deixaria morrer. — Ela estava afobada, enquanto arregalava os olhos e lutava para se levantar da areia sozinha, apesar de sua enorme mochila. — E quem são elas duas? São suas amigas?

– Olá — cumprimentei, ignorando sua imprecisão de linguajem. — Me chamo Carolina. Mas pode me chamar de Carol. Aquelas duas são sim, minhas amigas. E concordo com você sobre qualquer um ter te deixado pra morrer, se estivesse em meu lugar. Mas eu não sou qualquer um. Nenhuma de nós é. Você é a primeira estranha que vemos desde que algo bem ruim nos aconteceu, e realmente fico feliz que esteja bem. Mas importa-se se eu te revistar?

– Não, fique à vontade. — Tirando a mochila das costas, entregou-me o objeto. Então a garota moveu-se puxando o cinto de couro da roupa, revelando uma lanterna e um facão totalmente mal conservado. Sujo de sangue e surrado. — Eu sou Valéria. Obrigada por salvar minha vida. Não vejo alguém realmente vivo há meses.

– Bem Valéria, agradeça por ter nos encontrado, e não a um grupo de inumanos que vivia por essa região. Eles destruíram nosso antigo esconderijo, e mataram nossos amigos. Também fizeram com que nós três ficássemos sozinhas aqui, no meio do nada. As coisas estão bem perigosas ultimamente — disse Manuela, mirando-a com atenção. A garota pareceu respirar fundo, e então aquiesceu. — Não temos muito, mas podemos ajudá-la.

– É bom achar mais alguém vivo. As redondezas estão totalmente desertas, nos últimos tempos. Quase não se vê movimento algum, além dos zumbis. — Cecília comentou de maneira muito serena, apesar da total ausência de seus dons proféticos. Percebi então que toda aquela paz simplesmente fazia parte dela, apesar de qualquer circunstância. Maldosa, refleti se não era a cegueira que tornava tudo mais fácil, já que ela não precisava de todo modo, encarar as coisas com as quais o resto de nós lidava. Mas eu sabia que isso era só eu sendo uma vadia, então permaneci calada. — Venha conosco para o quiosque. Vemos te dar um pouco de água.

Sem hesitar, a garota morena nos seguiu, suspirando enquanto de modo cansado subia os degraus. Esperei que Manuela e Cecília seguissem em frente para a segurança, e sentindo-me solitária apesar da companhia delas, observei o movimento pacífico do oceano. Todas as minhas esperanças estavam lançadas nele. Quem me dera o vento pudesse levar minha mensagem de medo e esperança, como um náufrago faria ao deixar uma mensagem engarrafada flutuar naquela imensidão azul. Quis tanto não estar naquela situação, naquele momento. Quis fechar os olhos com força, e ser transportada de volta para os meus últimos momentos com Jonas. Eu odiava ser responsável por outros. Mesmo assim, resignei-me e vi-me fechando a porta danificada pelo tempo e pela maresia, atrás de mim. Observando a garota que havíamos resgatado, notei que ela parecia bem mais baixinha sentada sobre as próprias pernas, enquanto apoiava a enorme mochila que arrastava consigo, ao lado do corpo. Ela sorriu quando Manuela lhe entregou uma garrafinha de água mineral cheia pela metade. Os suprimentos deixados por Irma eram o que nos estavam mantendo vivas. E isso eu não esqueceria. O que só aumentava ainda mais o contraste entre aqueles que nos deixaram um modo de sobreviver, e os assassinos frios enviados para matar uma mulher que podia ser tanto culpada, como a única esperança que tínhamos de sair daquela situação. Tensa, não pude compreender como Irma, Herbert, William (sem mencionar Diogo e Sabrina), podiam ser tão contraditórios. Tão capazes de ações opostas. Mas isso não devia ser mais problema meu, desde que eu fora riscada da lista de amizades de ambos, após terem me abandonado. Não abriria mão de um gole dágua no deserto por nenhum dos dois traidores que haviam nos deixado para trás. Então, que ambos se explodissem. Eu teria que encontrar mais o que fazer.

– Não temos nada para cozinhar. Ainda assim, acho que é melhor comer carne seca desidratada e ração militar, do que tentar caçar algum animal a essa altura -Manuela sorriu. — É mais fácil que nos tornemos a caça, com o sol já se pondo. Sem falar que nenhuma de nós é boa nisso. Mas temos o suficiente pra você se restabelecer, Valéria.

– Sim, e daremos o tempo que for preciso pra que você fique boa, e possa ir embora em paz — observei. Não queremos atrapalhar o seu caminho, mas também não vamos desistir de encontrar nossos amigos. Então o natural é seguirmos caminhos separados.

– Espera! Eu não posso voltar lá pra fora! — gemeu a garota, segurando meu pulso com olhos vidrados. — Por favor, eu ajudo vocês no que for necessário.

– Eu não pediria tamanho sacrifício de uma estranha, e tampouco posso confiar plenamente em você, ou protegê-la. É melhor pra você continuar se escondendo e lidando com as coisas como você se acostumou a fazer. — Eu não estava a fim de lidar com aquilo. Esperava que Valéria não criasse problemas e fosse embora logo. Estava cheia de traições, e não estava indo começar a confiar em tudo e todos, àquela altura do campeonato. Nem mesmo minhas próprias brincadeiras tinham graça, naquela situação.

– Carol, podemos dar uma chance. — Cecília apaziguou, olhando para o local onde a novata continuava sentada, aparentemente sentindo a sua presença ali, apesar de ter perdido seus dons durante sua abstinência. — Valéria viu como você lidou com os zumbis. Ela sabe que você faria o mesmo com alguém que nos traísse. — A ameaça implícita na voz de Cecília era quase cômica. Ela não estava acostumada com aquele tipo de atitude. — Nós salvamos sua vida, e agora você nos deve — acrescentou, mas de maneira educada e sensível. — Por favor, não permita que a gente se arrependa disso, ou vamos matá-la. Tudo bem? — Valéria apenas acenou positivamente, sorrindo. Manuela parecia em dúvida, contudo eu não estava nada satisfeita.

Por fim, acabamos indo dormir depois de um jantar extraordinariamente extravagante para sobreviventes em nossa péssima posição. Valéria tinha algumas maçãs galas em bom estado, e sentir aquele gosto naturalmente adocicado e azedo ao mesmo tempo, era um bálsamo para meu sofrimento gustativo. Frutas orgânicas de verdade. Um presente dos céus. Nós quatro permanecemos juntas e em silêncio, mesmo quando uma sabia que a outra não estava dormindo. Eu tentei consertar minha blusa pela milésima vez, arrumando a alça que o zumbi havia arrebentado, quando notei a primeira anomalia. O ar estava normal, bem como a aparência e textura das coisas. O problema estava na maneira como tudo parecia estar sob uma forma de controle abstrata, que facilmente se dissiparia revelando uma realidade tão ou mais caótica do que aquela onde eu permanecia a interpretar de uma forma diferente, a cada novo olhar. Comecei a exigir mais do ambiente ao redor. As cores usuais não me satisfaziam. E eu não sabia a forma como os outros lidavam com isso, mas se eu pudesse adivinhar, diria que estava completamente drogada. Porque eu não estava atordoada, nem de qualquer forma incapacitada. Estava desperta e sã, vivenciando muito mais cada sensação, cada um dos meus sentidos. Não tinha o menor sintoma de sonho, ou delírio. Julguei-me envenenada como uma vítima do golpe do rim. Como se algo houvesse sido roubado de mim, sem que eu tivesse sequer percebido. Não era como se eu fosse uma assídua leitora de histórias de terror, mas pude finalmente entender a sensação aterrorizante de enfrentar um perigo desconhecido. O que estava, pelo inferno, acontecendo comigo?
Cambaleei tentando alcançar uma das paredes, ansiosa por alguma estabilidade quando minhas pernas tornaram-se geleia sob meu corpo. Com intensidade, um tremor firme e um tanto quanto frio percorreu minha coluna, concentrando-se em meu pescoço arrepiando-me. Eu estava odiando aquilo. Fechei os olhos, e quando os abri novamente, Cecília, Manuela e Valéria haviam desaparecido. Arfando, coloquei a mão sobre minha garganta, sentindo-a coçar como se uma substância estranha irritasse minhas glândulas salivares. Achando dificuldades em respirar num ambiente fechado, empurrei a porta que dava na escada do quiosque, e absorvi o vento oceânico numa tentativa de recuperar a razão. Preocupada, indaguei a qualquer entidade cósmica aonde as malditas daquelas garotas teriam se metido. Como poderiam ter sumido no mundo, tão rapidamente? Eu tinha que estar alucinando. Deus! Àquela altura eu podia jurar que a areia lá embaixo, movia-se na praia da mesma forma que a água do mar, seguindo a maré como se um gigante estivesse se remexendo embaixo da superfície. Tensa, desci correndo enquanto inspirava com dificuldades, sentindo-me tão asmática quanto Nanda. Pensar nela piorou minha situação, quando lembrei que podia estar morta. Tropecei na areia e minhas mãos afundaram entre os grãos, e pude sentir cada minúscula superfície friccionando minhas palmas. De maneira intensa, senti também a minha boca ressecar enquanto eu erguia o olhar para o mar, totalmente absorvida e interessada naquela sensação revoltante e gloriosa. Rindo, joguei-me na areia, esquecendo completamente qualquer ameaça possível. Zumbis, animais, outras pessoas... Nada podia me alcançar.
Meus cabelos estavam cheios de areia. Meus braços estavam arranhados. Todavia eu sentia-me incrível, quase enlevada. Toda aquela onda teria sido um dos momentos mais memoráveis da minha vida, não fosse a pancada forte que levei na cabeça, logo em seguida. Sem respirar por alguns instantes, tudo o que eu via eram pontos negros. A dor radiava através das minhas têmporas, como se agulhas de tricô estivessem atravessando-me centímetro a centímetro. Totalmente estarrecida, senti lágrimas lutando todo o caminho para fora, tomando-me de assalto. Uma segunda pancada atingiu-me numa das pernas, e por reflexo desenvolvido na adversidade, rolei para o lado bem na hora em que uma pá de ferro atingiu a areia. Virando de costas, puxei o ar com força e chutei firmemente o vulto que se aproximava para um novo golpe. Atingida com força no estômago, Manuela caiu na areia com a boca aberta, quase tão sem fôlego quanto eu. Seus cabelos lisos cobriram seu rosto, deixando-a submersa numa nuvem de fios. Apressando-me, avancei e tomei dela a pá, jogando o objeto o mais longe que pude. Ela estava levantando-se novamente, e não consegui entender os motivos para estar tão violenta. Quanto ela virou-se na minha direção, pude ver sob o luar o brilho viscoso do sangue que se concentrava no seu pescoço. Uma mordida. Totalmente apavorada, alcancei seus olhos. Um preto, um branco. Ela se tornara uma inumana louca. O que teria feito com Cecília?

– Eu vou acabar com você. Ninguém vai roubar meus suprimentos. — ela tinha medo no olhar, mas uma ferocidade que me surpreendia e muito. — Vou fazer o que for preciso.

Ela correu na minha direção, mas estava desajeitada pelo peso que carregava. Não pude ver sentido em suas palavras, mas tive a nítida certeza de que ela não podia me reconhecer mais. Não era a garota dócil e despreparada que eu conhecia. Sua pá passou a milímetros do meu rosto, e pude sentir o vento que ela provocou quando me joguei para trás, evitando-a. Caindo sentada, levantei e comecei a correr na direção oposta, indo para o outro lado da praia. Não era muito seguro ali, mas a adrenalina aliada ao pavor em meu organismo me induzia ao caminhar de uma lesma. Manuela não parecia muito melhor. Seu rosto suado gotejava, mas ela arrastava a pá como se soubesse que me mataria com facilidade. Por Deus, eu conseguira matar Lívia e seus animais asquerosos, e certamente Manuela com uma pá não seria problema. Entretanto, eu também não podia ser considerada grande ameaça. Não no estado em que me encontrava. Com tantos pensamentos tempestuosos me assombrando, não notei que havia parado de me movimentar, tentando respirar melhor. Manuela utilizou bem essa vantagem, agarrando-me pelo cabelo curto e me puxando com uma força surpreendente para o chão. Assustada, emiti um grito alto, do qual logo me arrependi com medo de atrair mortos-vivos. Chutando minhas costelas, ela conseguiu que eu me arrastasse até a beira da praia. Tive vontade de esmagá-la contra o chão por aquilo. Mas ela fora minha amiga um dia. Ou quase. Merecia uma morte rápida. Mantendo uma distância segura de Manuela, tirei minha faca do bolso de trás. Estava virando para tentar atingi-la, quando ela pisou forte no meu pé. Senti uma das unhas rachando dentro do tênis, e gritei mais de raiva que de dor. Com minhas unhas, ataquei o rosto de Manuela, agarrando-a. Ela mordeu minha mão, me fazendo-me tirar os polegares de seus olhos. Lamentei por meio segundo a dor ao redor das marcas que seus dentes haviam deixado, e ela deu uma joelhada em minha virilha.
Não pude acreditar que eu estava praticamente sendo morta pela pessoa mais inútil que eu havia conhecido em todo o Apocalipse Zumbi. Depois da falecida Lavínia, é claro. Desnorteada, senti as mãos de Manuela fechando-se ao redor da minha garganta. Querer gritar de horror e sentir sua voz presa, é uma das experiências mais desagradáveis da vida. Definitivamente, eu odiava brigas. Nunca me saía bem nelas. Já havia apanhado de tanta gente ao me envolver numa luta, que me perguntei o motivo para continuar tentando. Bem, talvez fossem as lutas que não desistissem de mim, para ser mais exata. Arrastando-me pelo pescoço, Manuela me obrigou a entrar no mar. Ela queria me afogar. Quase três minutos sem respirar fizeram com que eu me sentisse especialmente predisposta a colaborar em qualquer iniciativa para terminar com aquele sofrimento. De certo modo, se aquele fosse meu fim, pelo menos eu poderia dizer que morri com estilo. A ironia seria realmente, minha filosofia de existência. Na vida e na morte. Senti os olhos arderem quando a água salgada fustigou minha visão, e meu corpo vergastado foi totalmente envolvido pelo manto gelado do oceano. Minha boca foi preenchida por todo o sal, e só não engoli aquilo tudo, pois que estava ocupada demais me debatendo. No entanto, algo havia mudado. Eu não estava mais mole, nem sentia o meu corpo de modo diferente do habitual. E então percebi o que poderia estar ocorrendo.
Recuperando a rigidez de meus músculos, tirei com facilidade as mãos de Manuela do meu pescoço, e voltei à superfície praticamente bradando ao respirar normalmente, outra vez. Ainda totalmente dispersa, notei que Manuela caíra de joelhos na água rasa, e estava se preparando para vir atrás de mim e terminar seu serviço. Mas seus olhos estavam normais, e agora que eu podia ver melhor, percebi a nítida camada de líquido esquisito que cobria seu rosto. Algo como excesso de suor, mas com pequenos grãos de uma poeira amarelada que eu nunca vira antes. Percebendo que aquele era o problema de Manuela, segurei seus ombros e impedi que me ferisse acertando-lhe uma cabeçada precisa. Minha cabeça reverberou, mas ela ficou pior. Mergulhei seu rosto na água, como se estivesse afogando a pobre coitada. Sua mão sem o dedo mindinho parou de me beliscar, e apoiou-se em mim. Puxei-a de volta. Ela estava totalmente titubeante, ainda incapaz de se expressar de maneira coerente. Apenas começou a chorar e me abraçou.

– Isso foi horrível — guinchou. Pensei que você era um bandido, não estava te vendo! Deus! Eu quase te matei alucinando!

– Não se preocupe. Fomos drogadas. — Antes que ela me fitasse com ar de dúvida, sua expressão tornou-se séria. — Sim, foi a Valéria. Aquela miserável. Nem sei se esse é mesmo o nome dela...

– Cecília — lembrou. — Carol, a Cecília tava morta no meu delírio. Temos que achá-la.

– No meu delírio vocês sumiram, e depois, você era uma inumana. — Esbaforida, já estava caminhando para as escadas, quando um sobressalto masculino chamou minha atenção. — Vai lá em cima! Vou ver o que é isso! Se encontrar a Valéria, mate a desgraçada! — Manuela fez uma cara do tipo nem ferrando que vou tentar matar alguém sozinha, mas correu como eu tinha ordenado.

Eu estava rezando para que não fossem zumbis devorando um sobrevivente que de fato, pudesse ser alguém confiável. Não aguentava mais problemas numa única noite. Quando me aproximei da origem do som, no entanto, tive uma surpresa agridoce. Ninguém menos que Ricardo estava dobrado sobre o próprio estômago, com um ferimento na boca, enquanto o carro que provavelmente devia ser o dele afastava-se, com Valéria ao volante. Ele ficou surpreso quando me viu, observando obstupefato. Sem mensurar minhas ações, Abaixei próximo dele e o abracei com força. Ele riu e retribuiu o gesto. Afastando-me em seguida, percebi que ele parecia cansado, ainda que feliz.

– Ouvi um grito e resolvi estacionar aqui pra verificar. Estou sozinho desde cedo, sabe. Acabei encontrando essa garota cheia de bolsas, e ela me bateu do nada — contou-me, constrangido. — Perdi meu carro. Sinto muito. O que houve com vocês?

– Manu, Cecília e eu fomos abandonadas por Sabrina e Diogo. Eles dois se juntaram a um bando de mercenários, e nos deixaram suprimentos. Suprimentos, que a garota que você viu roubou. — Rico estava pensativo, mas totalmente consciente das minhas explicações. — Ela nos drogou com alguma coisa. Eu e Manuela quase nos matamos.

– Onde as outras estão? — ele indagou, enquanto caminhava comigo de volta para o quiosque. — Lá em cima? — Confirmei com um aceno, aliviada por ter alguém responsável a quem eu pudesse passar o fardo.

Quando chegamos, encontramos uma Cecília encolhida e totalmente alheia ao mundo. Era como vê-la novamente no porão de Topázio. Engoli em seco, quando me aproximei cuidadosamente e acariciei seus ombros. Ela não me impediu. Seu rosto, contudo, estava molhado da mesma forma que o de Manuela estivera antes. Já sabendo o que fazer daquela vez, simplesmente joguei um copo de água em seu rosto e limpei a substância com um pano. De volta a si, Cecília apenas sorriu para mim e pousou a cabeça no meu ombro. Ao sentir a aproximação de Ricardo, o abraçou e chorou um pouco. Mas como sempre, eu precisava assumir o papel de chata da situação. Pigarreei, e enquanto Manu se aproximava de nós para ouvir o que eu diria Cecília e Ricardo já estavam concentrados nas minhas ações.

– Cecília, você sabe o que aconteceu aqui? Valéria nos drogou. O que você viu em seu delírio? — Fui direto ao ponto porque estava exausta demais para pensar nas palavras adequadas.

– Na verdade, eu sei bem o que aconteceu. Eu não fui sempre cega, sabe? Minha alucinação foi mais como uma memória do tempo em que eu podia enxergar. É estranho, mas não pude me assustar porque não posso ver vocês no presente. Não havia lembrança do seu rosto, ou do rosto de Manuela, que pudesse justificar algum tipo de alucinação. Valéria usou o Beijo das Sombras em nós.

– Que porra é essa? — disparei, buscando algo em Ricardo. Ele também não sabia.

– Uma flor. Ela brotou numa das praias que Alexandre vasculhou para Topázio, com alguns dos homens que vocês não conheceram. Ela já os havia matado quando vocês chegaram à boate, e isso foi bem no início. Foi quando essa planta nova surgiu, que na verdade parece um tipo novo de violetas. De todo modo, o Beijo das Sombras causa alucinações, e quando descobriram isso por engano, usaram em mim também. — Cecília parecia tranquila, mesmo que eu soubesse o quão dolorido era para ela, falar em seu passado de escravidão. — O que o grupo da boate tentou com o Beijo, foi criar um anestésico. Mas parece que Valéria também descobriu os efeitos dessa planta, e que demos azar por encontrar ela. Se você não tivesse gritado Carol, agora estaríamos todas presas aqui sem comida.

– Tecnicamente, estamos mesmo presos — articulou Rico, envergonhado. — Essa Valéria me roubou.

– Espera. — Manuela pensava alto. — Se essa flor é uma droga e Cecília a tomou, então pode recuperar o acesso ao que pode fazer como inumana. Seus poderes.

– Sim, meu escudo está começando a voltar. Sinto a adrenalina acelerando minha produção de hormônios, o que é bom para nós. — Rindo, ela ajeitou-se na cadeira onde estava sentada. — Mas o resto não funciona assim. Os lampejos nublados que tenho são raros e muito mais uma intuição de qualquer outra coisa. Agora, estou começando a ver as cores de vocês, um pouco melhor. Mas prefiro não arriscar por hora.

– Nós entendemos. Descanse. — recomendei, e apertei o ombro dela. Amanhã conversamos. Todos concordaram. — Rico, precisamos chegar até o seu grupo. Amanhã mesmo partiremos. Alguma notícia importante?

– Os bebês de Nanda estão bem, e ela também. Tornou-se uma inumana. — Cecília sorriu. Até mesmo me senti verdadeiramente feliz, mesmo cansada. São trigêmeos. — ele comentou, rindo. — Todas nós emitimos algum som de êxtase ao mesmo tempo. Era algo impagável. Vão adorar conhecê-los. Mas agora fiquem tranquilas, descansem. Vou vigiar o resto dessa noite. Parece que vai chover um bocado.

Depois de algumas horas de pânico e total loucura, era de se esperar que eu estivesse com sono. E estava mesmo. Ainda assim, não pude dormir. Não pensando em quão ansiosa eu estava, para encontrar os outros. Eu precisava estar descansada quando fosse ter uma conversa com Victoria. Ela odiaria saber que Diogo surtou, mas eu não a pouparia de nenhum detalhe. Nunca havia funcionado com ela, essa estratégia. Para Vicky, o melhor era sempre a verdade mais terrível do modo, a uma mentira inofensiva. Talvez fosse isso que tivesse nos aproximado de cara. Porque enquanto ela amava ouvir a verdade, eu amava dizê-la a todo mundo, com meu jeito franco em excesso e mesquinho demais. Ao menos, eu podia dormir tranquila no fim da noite. Calada e observando a chuva que começava a cair lentamente pela janela, observei Manuela, que por sua vez não tirava os olhos de Ricardo. Oh, droga. Eu conhecia aquele tipo de história, e não estava realmente preparada para seguir em frente com coisas tão estúpidas, quanto ciúme ao redor. E, eu não sabia o que teria de aguentar naquilo tudo, mas achava que qualquer coisa seria melhor do que meu jeito ridículo de tomar conta de outras pessoas. Quanto mais cedo encontrássemos o grupo de Vicky, mais rápido eu poderia ouvir o plano dela, recuperar minha paz individual para não ter que dar o exemplo, e encontrar meus outros amigos perdidos. Só de pensar era algo estarrecedor, mas ao mesmo tempo, reconfortante e assombroso. Assim como o Beijo das Sombras, do jeito que Valéria nos ensinou. E eu era esperta, havia enganado Topázio. Certamente aprenderia rápido o bastante para me manter firme naquela bagunça. Se eu não enlouquecesse antes, é claro...

Notas finais
Uoooool! E aí, o que acharam desse encontro inusitado? Espero que tenham gostado. Obrigadão à Lari pela nova Recomendação! Eu amei! Outro agradecimento especial à TayTay, que me mandou uma MP muuutcho fofa, pedindo capítulo novo! Mil beijos, gente!