Quebranto.
67 Não olhe para trás.
Notas iniciais
Hugo.
– Se você não parar de se mexer, vou acabar te machucando! — ralhei com Otto, mantendo seu braço firme em meu aperto enquanto terminava de amarrar a precária atadura improvisada com um pedaço da minha blusa em seu pulso. O corte ali estava horrível, e o sangue pingava entre os meus dedos. Era difícil de acreditar que Otávio houvesse dirigido por tanto tempo, sem desmaiar. — Dante, está tudo bem na estrada?
– Sim, Hugo. Só não entendo porque estamos indo na direção de Cabo Frio. Vamos ficar longe demais dos outros, para podermos ajudá-los — avisou-me apreensivo.
– Eu sei. Só estou colocando distância entre aqueles monstros e nós. Para encontrarmos nossos amigos, vamos precisar estar vivos antes. Não quero voltar para Cabo Frio. Não sobrou nada lá. Encontre um lugar deserto e pare a van. Vamos dormir um pouco. — Dante assentiu, e manteve-se focado na estrada. — Sinto muito pela Lavínia. Alguém tão boa não merecia uma morte tão horrível.
– Não existe uma morte que não seja horrível — rebateu-me. Surpreso, notei uma intensidade em seu olhar que eu não conhecia. Uma força que eu só notara uma vez antes, quando Dante dera o tiro de misericórdia em Diana. Talvez como todos nós, ele também fosse mais forte do que aparentava. — Morte é morte.
– Realmente. Obrigado pela ajuda, Hugo. — Otto estava sorrindo, ainda que de maneira conflituosa. Certamente pensando em Cecília, preocupado ainda que aliviado por estarmos relativamente bem, por hora. Então ele notou Dino, que estava encolhido no último banco da van, abraçando os joelhos. Salvá-lo não havia sido especialmente complicado, uma vez que ele se esgueirara para o interior do veículo antes mesmo de ser notado por nós. Mas a ausência de Vilma certamente o afetaria de muitas formas, e isto me preocupava. Seria bem mais fácil lidar com o menino se a irmã estivesse conosco. — Vamos encontrar todos os outros — prometeu-lhe Otto, sorrindo. Dino esfregou um dos olhos marejados e mirou a janela, desviando o olhar sem corresponder o gesto. Como todos nós, ele estava frustrado.
Não demorou muito até que ambos dormissem. Um de cansaço genuíno, e o outro pela fraqueza que uma perda de sangue intensa tinha o poder de provocar. Comovido e preocupado com Otávio e Dino na mesma medida, preferi não pensar muito sobre como viveríamos sem os outros, e sem qualquer comida ou defesa além de uma van caindo aos pedaços. Velando a noite enquanto ela passava insólita, senti certo alívio quando Dante alcançou uma via congestionada, cheia de carros vazios. Devia haver alguma coisa útil ali, nas dezenas de carcaças que poderiam ser exploradas ao amanhecer. Este fora o caminho que havíamos contornado para entrar em Búzios. Ao menos isto, tínhamos feito do jeito certo. Jamais teríamos sobrevivido à viagem se tivéssemos arriscado o caminho principal. Teríamos sido encurralados, e forçados a abandonar os veículos que mais de uma vez, haviam sido responsáveis pela nossa sobrevivência por ali. Mais importante que todo o resto, poderíamos ter a sorte de que, mesmo em quase dois anos de infecção, ainda não tivessem roubado toda a gasolina disponível. Isso sim seria um achado. Usando os carros que bloqueavam o caminho como uma barreira improvisada, estacionamos a van logo depois de Dante manobrá-la em posição paralela ao congestionamento fantasma. Pensando em Rico pela primeira vez, e já com a adrenalina mais fraca no sangue, só consegui encontrar forças para desejar que ele estivesse bem. Imaginar que ele não teria conseguido sair do ônibus, e Victoria o teria tirado da pousada em segurança. Culpado por ter agido sem pensar, deixando-o para trás, tive um vislumbre do que Otto poderia estar sentindo. Ele estava ajudando o grupo quando fora separado de Cecília. E meu amigo podia ser bonzinho demais para sequer pensar nisso, mas nós havíamos sido a causa para que ele perdesse a pessoa com quem mais se importava. E de fato, eu mal atrevia-me a pensar em como Cecília lidaria com tamanha insegurança após tanto tempo sem estar no mundo exterior. Sem mencionar sua abstinência. Aquela era uma garota frágil, enfermiça e doce, e eu temia que não durasse muito lá fora. Só os deuses poderiam protegê-la, se é que algum havia sobrado para governar aquela zona.
– Hugo, você não vai dormir? — perguntou Dino, sonolento. Ele notara-me desperto, e parecia um sonâmbulo a conversar, embora eu soubesse que estava acordado.
– Vou sim, amigão. Assim que o Dante descansar — indiquei, apontando para Dante que estava cochilando com o banco do motorista inclinado para trás. — Enquanto isso, vou vigiar como vão as coisa lá fora. Pode dormir tranquilo. — Todos mereciam um descanso.
– Ok — ele pestanejou, mas logo rendeu-se. — Boa vigília.
Continuei mirando o horizonte muito depois que todos haviam ido dormir. Suas respirações regulares e rostos serenos ameaçavam minha resistência, mas depois de certo tempo, perdi completamente o sono. De fato, era quase engraçado que no momento em que eu me encontrava mais cansado, não conseguisse mais dormir. Como quando voltava tarde demais pra casa depois de uma balada, e Ricardo dava um ataque por eu não ter avisado onde havia estado. Depois eu acabava ficando acordado a noite inteira, xingando-o mentalmente, odiando que ele não tivesse coragem de dizer os reais motivos para ter tantos ciúmes. De certa forma, durante toda minha vida eu o idolatrara. Sempre tive consciência no entanto, de que meu amor não era fraternal, ainda que devesse ser. Tia Madeline em momento algum se manifestara sobre nós, mesmo quando ficou claro para todos o que realmente se passara. Gostaria mais do que tudo naquele momento, de poder conversar com ela à respeito de minhas dúvidas. Eram tantas. Como agir quando estamos sozinhos, e de maneira estranha nos sentimos mais livres do que nunca? Como agir quando você percebe que é errado idealizar algo tão complexo quanto o amor? Eu me forçara muitas vezes a ignorar os defeitos de Ricardo. Perdoando e alterando cada vez mais minhas próprias convicções, até estar em paz novamente. O que eu não havia percebido, é que quando amar se torna uma escolha, e não algo que é parte de nós, corremos o risco de perder a essência daquilo que nos torna capazes de realmente amar outra pessoa. Eu não havia percebido que estava chorando. Talvez eu estivesse me debatendo em mim mesmo. Porque pela primeira vez eu estava percebendo que minhas mudanças não eram só físicas e mentais. Minha identidade emocional, meu eu-lírico das paixões, começava a amadurecer de acordo com todo o resto. Se tornar alguém capaz de matar, se necessário, é fácil. Difícil é ser capaz de lidar com a parte mais negra de si mesmo.
Eu não podia olhar para trás. Mais do que nunca, devia manter-me focado naquilo que era necessário para seguir em frente. Ainda que fosse libertador (e assustador) dar-me conta de que sentia tanto a falta de Ricardo quanto a de qualquer outro membro de minha família adotiva, não devia ser esta a minha real preocupação. Com os primeiros raios solares já despontando no céu, imaginei que não seria mal descansar um pouco. Eu cobrira os turnos de Otávio e Dante sem perceber, de modo que eles não poderiam ficar irritados. Antes que pudesse processar de fato esta última linha de raciocínio, já estava há muito dormindo...
Otto.
Acordei com as batidas insistentes numa das janelas da van. Sonolento, levantei do banco no qual estava (desconfortavelmente) deitado, e esfreguei os olhos. O simples movimento repuxou o corte horrível e úmido em meu pulso, e náuseas sacudiram meu estômago, indo direto pra minha cabeça já tonta. Eu me sentia uma merda. Acabado em vários níveis de significado da palavra. Preocupado com o que teria acontecido com Cecília, com Victoria, com Ana, Carolina... Todos. Surpreendentemente, eu temia por todos, e ao mesmo tempo estava aliviado por mim mesmo. A queda no jardim da pousada provocara o corte, causado ao chocar-me com um dos banquinhos espalhados pelo local. O sangue quente impedira-me de sentir com plenitude as chagas de meu gesto heróico servindo como isca, mas agora eu as sentia com toda a elegância possível. E era de dar orgulho. Uma puta dor de lascar. Ignorando o gosto horrível de nada em minha boca, dei um pulo de susto ao deparar-me com o zumbi que esfregava o rosto na janela da van, desesperado por um pedaço de Hugo, que dormira encolhido no banco abaixo. Sorri de leve, percebendo que no mínimo, ele devia ter ficado a noite toda vigiando a gente, e esquecera de nos chamar. Típico. Considerando que Hugo também era um dos meus melhores amigos e tudo de estranho que já rolara entre a gente, imaginei que era bom estar ali com ele. Uma pessoa a quem eu podia confiar minha vida por inteiro, e sem pensar duas vezes. Dante também era uma pessoa do bem, o que tornaria mais fácil cuidar de Dino. E quem sabe, talvez pudéssemos em breve ter notícias de todos os outros.
– Hugo não chamou a gente... — murmurou Dante, espreguiçando-se. — Vou cuidar dessa coisa. Você não pode forçar sua mão. Por que não leva o Dino pra vasculhar uns carros, enquanto eu fico aqui e tomo conta do forte?
– Por mim tudo bem. — Dino já dormira por tempo demais, de todo modo. — Acorda, moleque! Hora do batente!
Ao contrário do que eu esperava, Dino acabou rindo ao ser desperto. Dante desceu do veículo e empurrou o cadáver reanimado que nos molestava contra o chão, findando sua semi-existência com um golpe certeiro no olho. Não que o monstro houvesse resistido bravamente, ou qualquer outra coisa. Era um corpo mais podre e líquido, que um inimigo assutador. Contemplei a janela suja de sangue pútrido, contra a qual ele batera a cabeça repetidas vezes, até que eu acordasse. Nem rachara o vidro, tamanha a sua força. Ou a ausência dela. Juntos, Dino e eu seguimos para o exterior, e senti minhas articulações grunhirem em protesto diante do esforço. Era como uma festa de arromba que acabava mal. A ressaca das ressacas. Todo doído, apertei os olhos tentando afastar a saliência do sol, que infiltrava-se de maneira agressiva e pouco respeitosa contra minha já fraca disposição. Sem falar ou esboçar qualquer tipo de reação diante de todos aqueles carros abandonados, Dino parecia bem mais atento do que eu àquilo tudo, pronto para reconhecer algum item de utilidade que eu certamente deixaria passar. Bufando, passei de leve o dedo sobre a superfície manchada e agora um tanto fedida da atadura improvisada por Hugo, na noite anterior. Aquilo nem de perto se parecia com algo que Tânia ou Ricardo fariam, mas meu amigo ao menos tentara. No entanto, se eu não quisesse fazer um cosplay de Capitão Gancho permanente em breve, deveria achar um meio de limpar aquela porcaria, e conter aquele sangramento.
Encostando a testa contra os vidros dos carros para ver melhor, quase ri ao comparar-me com o zumbi que me acordara. Ele também estava procurando comida, coitado. Admirado com meu próprio bom humor magnânimo, esfreguei uma janela empoeirada. Eu odiava aquela sujeira na minha mão machucada, mas não era nenhuma Victoria. Então suportei, e até tive sorte depois do décimo primeiro veículo. Era o primeiro com gasolina. Pedi que Dino avisasse aos outros, enquanto tentava abrir a porta do motorista. Se aquela droga de alarme antifurto ainda estivesse ativa, teríamos mais uma horda nas mãos antes que eu pudesse espirrar e limpar o nariz. Por sorte, algum espertinho já havia passado por ali antes, e a porta estava aberta. Arrombada seria mais específico, porque por dentro, não havia absolutamente nada além de uma mochila vazia. Reprimindo um palavrão pela minha decepção, apenas apanhei a tralha e segui em frente, passando uma das alças pelo ombro direito. Minha mão não incomodava tanto, ainda que eu pudesse senti-la pulsar como um segundo coração. Suor fazia minha blusa já imunda grudar nas minhas costas, enquanto meus cabelos crescidos demais (eu estava parecendo irmão da Carolina, quase com o cabelo maior que o dela) pingavam suor e grudavam na minha testa. Um inferno, resumindo. Eu odiava aquele tempo quente de rachar.
– Otto, vem cá ver isso! — gritou Dino, chamando-me com um gesto. Seu olhar estava animado demais para ser algo trivial, no mínimo, ele encontrara uma arma. Na melhor das hipóteses, comida.
– O que foi, achou comida? — perguntei, sentindo o estômago vibrar em expectativa.
– Melhor. Facas. Olha só — apontou-me, limpando o vidro de um fox branco, quase marrom de sujeira. — Vou tentar pegar. Ok? — Concordei com um gesto, dando uma batidinha em seu ombro. Não era mal encontrar facas, mas aquelas eram facas de churrasco, simples. Se eu tivesse encontrado o churrasco, estaria bem mais feliz. Para não desanimar o menino com minha própria fome, preferi me afastar e continuar procurando algo que prestasse.
Talvez os ferimentos, o sono mal dormido e minha fome com sede (melhor que dupla sertaneja) mas algo me impediu de ouvir o intruso se aproximando. Antes que eu me desse conta do que estava acontecendo, algo atingiu-me no flanco, e acabei caindo de mal jeito. Justamente em cima da porra da mão machucada. Eu queria matar o desgraçado que estava me proporcionando aquele manancial de dores, mas me contive ao notar os cabelos castanhos avermelhados, e sem dúvidas, vivo. Uma garota com olhos grandes demais estava me observando, um tanto surpresa ao notar-me vivo. Quis socar a cara dela. Um zumbi vasculhando carros? Francamente. Onde aquela criatura estava nos últimos dois anos? Ela parecia assustada, talvez aguardando meus movimentos. Azar o dela, eu estava na mesma. Não ia ser o primeiro a entregar o jogo. Mantive-me encarando, na defensiva. Até que notei seu aspecto com mais calma. O suéter verde-musgo que usava parecia dois números maiores que seu corpo magricela, e um colar com um coração de ouro como pingente praticamente brilhava em contraste com a cor mais escura de sua roupa. Da cintura para baixo ela se encolhia num jeans cinza desbotado, e em sapatos militares de aparência horrível. Não era uma garota feia, ainda que seus olhos gigantescos me lembrassem uma visão horripilante de Coraline.
– É assim que você se apresenta quando conhece alguém? — desafiei, rindo. — Quanto mais forte é a pancada maior é o respeito? Estou honrado então.
– Não enche. Esse lugar aqui é meu. Quem você pensa que é? — respondeu-me, erguendo-se. Olhei atentamente e não consegui encontrar uma arma ou faca em meio às suas vestes. Se ela pretendia defender um território com as mãos, então eu certamente não saberia dizer como ainda estava viva. — Cheguei hoje e vi sua van estacionada. Não podem ficar aqui. Vão atrair mais deles e estragar tudo. Pensei que estivessem todos dormindo, então te confundi com um dos monstros. Agradeça por não ter morrido.
– E você ia me matar como? Com seu olhar assustador? — refleti, emburrado. — Olha, sem querer ofender, mas não se mata um zumbi agarrando ele. E bem, pra começar qualquer um deveria saber que zumbis não secam o suor da testa nem vasculham carros. — Ela parecia envergonhada enquanto dobrava e repuxava as mangas do enorme suéter. — Meu nome é Otávio. Qual o seu?
– Eu sou Helena — sorriu, simpática. Ela olhou ao redor e então aproximou-se lentamente. — Fiquei meio sem ação quando te vi, geralmente não tem nada por aqui. Saio de manhã, junto algumas coisas dos carros e volto pra loja. É assim que temos sobrevivido nos últimos meses.
– Temos? Você tem um grupo? — aquilo estava estranho. Mais gente em Búzios que nenhum de nós havia encontrado durante todo aquele tempo.
– Somos uma expedição. E sim, você tem razão. Nenhum de nós tem muita experiência em campo com essas coisas — seu olhar tornou-se sombrio. — Muitos de nós já se foram devido a isso. Seria ótimo encontrar pessoas daqui que pudessem nos ajudar. E, bem, parece que você e seus amigos não são psicóticos nem nada. Parece.
– Pois é, de vez em quando eu até acho que não somos mesmo — brinquei, descontraindo o assunto. — Ajuda com o quê, exatamente? E que história de loja é essa? Expedição? Me ilumine com a sua sabedoria.
– Desculpe, fui rápido demais. — ela olhou por cima do meu ombro, e sorriu. — Olá, vocês. — Dino, Dante e Hugo estava se aproximando. Seus rostos, curiosos como o meu. — Agora eu realmente espero que não sejam psicopatas.
– Não somos. — garantiu Dante, tranquilo. — Só queremos saber exatamente quem é você.
– Sou uma imunologista e bióloga, assistente de uma cientista. Estamos aqui no continente há quase dois meses. Infelizmente, o lugar onde nossa equipe estava escondida, trabalhando numa cura, não é mais seguro. A minha chefe foi acusada de algo que não fez, e fomos obrigados a fugir para cá. Não sem antes roubarmos toda a Pesquisa Keiko do laboratório da Fortaleza, e apagarmos os nossos dados da base. Keiko é nossa maior chance de conseguir uma cura para tudo isso. E isso a torna perigosa. Mesmo assim, esperamos encontrar aqui em Búzios o espécime ideal para testarmos a primeira vacina. Não temos como saber que efeitos ela terá no corpo de um humano não infectado, por isso buscamos o inumano perfeito para nosso projeto. Mas as coisas...
– Não saíram como planejado? — indagou Hugo, sem transparecer qualquer tipo de emoção em sua voz.
– Exatamente. A vida aqui é muito difícil. Dois agentes federais vieram conosco para nos proteger. Eles acreditaram em mim, e em Faye. Mas eles foram mortos por um grupo de inumanos canibais, e depois disso, ficamos perdidos... — ela estava chorando. — Eles eram os meus pais.
– Sinto muito — lamentei, trocando um olhar intenso com meus amigos. — Talvez goste de saber que esses inumanos estão mortos. Nós, e nossos amigos os matamos.
– Me sinto um pouco melhor. — ela riu, amarga. — Mas na verdade, nada disso adianta, porque não conseguimos capturar nenhum deles para testar a vacina. Além disso, nosso grupo já diminuiu muito, e tememos que em breve possamos ter de nos entregar à Fortaleza. As amostras que trouxemos não vão durar muito se não forem mantidas em acondicionamento adequado. Faye não quer arriscar que sua pesquisa seja perdida pra sempre, mesmo que ela morra. Por isso precisamos de vocês. Podem nos ajudar?
– Temos amigos perdidos de nós. Eles se perderam durante um ataque, numa pousada próxima daqui. Três deles foram mortos neste ataque. Seu grupo de canibais foi o responsável. Entre esses amigos, temos duas inumanas. Talvez elas possam ajudar. Se nos ajudarem a encontrá-los, ajudamos vocês. O que me diz? — fitei-a com urgência. Era uma oportunidade única.
– Não sei se o Sargento Arantes vai concordar. Ele é o líder de segurança da nossa expedição. Mas tenho certeza que vocês são o mais próximo que já chegamos de nativos dispostos a cooperar. Faye vai querer a ajuda de vocês. Vou fazer o possível para que isso dê certo. — Estendeu-me a mão. — É uma promessa.
– Então, Helena, temos um acordo — sorri, e apertei sua mão. Olhei para trás e meus amigos pareciam concordar com a atitude. Menos mal. Na verdade, por mais que aquela história toda de vacina e cura estivesse me intrigando, eu não dava a mínima. Estava preocupado em reaver as pessoas com quem me importava. Era como se aquele mundo, fosse tudo o que conhecíamos agora. Não nos importávamos mais de viver nele. Desde que tivéssemos pelo quê lutar. Ainda assim, se Helena estivesse certa e essa doutora fosse mesmo tão genial quanto ela dizia ser, então estávamos envolvidos em algo muito maior do que nossos próprios desejos.
E, no caso de aquela cientista ser mais uma Topázio, eu estaria pronto.
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