Quebranto.
85 Não há cura.
Notas iniciais
Hugo.
Eu estava de saco cheio, naquela cama. Ainda assim, havia uma gratidão latente no meu peito, pelo silêncio. Apesar do soro ainda preso ao meu braço, pude virar-me o suficiente para encarar a janela que dava para o exterior do Hospital. Ali, fitando o pátio cheio enquanto a cerimônia de boas-vindas tinha início, suspirei. Aquilo estava mesmoa contecendo. Teríamos uma vida nova, e eu sabia que apesar do meu estado capenga, não podia reclamar pela oportunidade de estar respirando, naquele momento. Havia muito sobre o meu país, que eu não tinha ideia de que fosse possível. A concordância com a criação de uma arma biológica e uma Fortaleza criada apenas para os mais privilegiados, era uma pequema amostra de que eu não entendia nada sobre o Brasil. Não depois de tudo pelo que eu havia passado. As portas de vidro da enfermaria se abriram, e sorri ao ver Tânia caminhando em minha direção. Curioso, ergui as sobrancelhas ao vê-la completamente vestida de azul-bebê. Suas sapatilhas azuis quase não apareciam, ocultas pelas bainhas largas e diáfanas da calça leve que vestia. Uma blusa de mangas compridas também azul, trazia um decote discreto, e ela estava de toca. O cabelo permanecia preso num coque muito firme, e luvas descartáveis protegiam suas mãos.
– Hey, moço — rindo, Tânia pousou a mão sobre minha testa. Eu sempre sentia como se uma mãe fosse a pessoa certa para este tipo de coisa. Sem pensar muito no assunto, admiti que sempre fazia manha quando ela estava por perto, valorizando minha situação. Por pouco não escarneci de mim mesmo, movendo a cabeça distraidamente, para afastar o pensamento. Tânia logo mexeu em meu soro, constatando junto comigo, que ele já esvaziara quase que por completo. Delicada, retirou os equipamentos do meu braço, pressionando uma bola de algodão no lugar de onde a agulha acabara de sair. — Acho que daqui a pouco podemos liberá-lo. Agora, me conte a verdade. Você quer prolongar o momento com Dante e Rico, não é? Tem medo do que precisa fazer?
– Como você consegue estar sempre certa? Não é medo, precisamente. Estou cansado. Queria uma folga deles, e daquilo que deixamos pra trás. Aquela loucura é ruim demais, e mexe com a gente. Agora que estamos seguros, acho que dá pra deixarmos as coisas seguirem seu curso. Sem apressar as atitudes e sentimentos, porque podemos morrer no minuto seguinte — passei as mãos no rosto, respirando fundo. — Vai ser difícil, então prefiro que seja devagar.
– Sabe Hugo, acho que você pode estar certo. Realmente, não devemos apressar atitudes importantes. Mas não pense nem por um segundo, filho, que estamos a salvo. Isso pode matá-lo. Lembre-se do que já vivemos. — Tânia parecia realmente séria, e sua expressão trazia o mesmo cansaço que o meu. Além disso, havia algo mais ali. Desconfiança? Talvez fosse uma reação normal à um novo ambiente. Eu não pensava que aquelas pessoas fossem más, realmente.
– Sempre existirão pessoas ruins, e você sabe. Só o que podemos fazer, é garantir que a existência delas não torne a nossa infeliz. Não podemos mudar nem adivinhar o que vai acontecer, mas podemos tirar o melhor disso. — Peguei as mãos de Tânia entre as minhas. Nos encaramos durante algum tempo. Eu sabia que, com a cerimônia, ela também devia estar pensando em nossos mortos. Em sua família inteira, que eu não havia conhecido. Logo, os sons dos nomes de nossos conhecidos e amigos ecoaram pela Fortaleza, e pudemos ouvi-lo mesmo dali. Nos emocionamos, juntos.
Nos abraçamos, e choramos por minha tia. Pela sua família. Por cada alma que nos fora tomada, e cada sorriso que nunca mais veríamos. E, por cada segundo que tínhamos naquela terra. Por alguma razão, havíamos sobrevivido. Nós dois. Acho que ninguém esperou por isso, nem mesmo nós. De algum jeito, aquele momento de ternura pareceu mais correto do que eu poderia esperar. Com o Hospital parcialmente desfalcado pela presença dos funcionários na cerimônia, não havia quem pudesse brigar com Tânia por mimar-me. Ela beijou o topo de minha cabeça, e sussurrou algo sobre dar uma olhada nos bebês de Nanda. Confirmei com a cabeça, aconchegando-me ao travesseiro. Com agilidade, Tânia caminhou em direção as portas duplas, de vidro. Foi quando o primeiro homem chegou. Eu diria que ele pertencia aos sentinelas, mas nenhum sentinela usava máscara de ninja. Eu, pelo menos, não vira nenhum. Quis gritar para que Tânia corresse de volta, mas ela percebeu tarde demais. O cara a agarrou, e num golpe violento atirou sua cabeça contra uma das portas, rachando o vidro delicado. Em seguida, a ergue novamente. Pude ver a confusão que a envolvia, e o pânico. Tânia estava apavorada. Joguei-me para fora da cama, e corri em sua direção. O intruso a atirou com força em minha direção, e minha amiga rolou por sobre as portas de vidro, estilhaçando completamente, uma delas. Com sangue brotando através do corte em sua testa, e dos múltiplos cortes e arranhões pelo corpo, Tânia desmaiou assim que aproximei-me dela. Tentei puxá-la para longe daquele homem terrível, mas seu corpo era consideravelmente mais pesado do que o meu. Lágrimas turvavam os meus pensamentos, impedindo que eu agisse melhor do que qualquer outro garoto imbecil, jovem e assustado. Queria gritar com aquela pessoa. Explicar que ele fizera mal à alguém incapaz de ferir outra pessoa. Tânia valia muito mais do que eu. Ela não podia morrer.
Meu coração falhou uma batida, quando mais dois assassinos surgiram. Eles não tinham expressão, não hesitavam. Senti todo o resto de sangue no meu corpo, descer para os pés. Estava chorando, em choque. Por quê estavam fazendo aquilo? Ouvi estrondos em outros cômodos próximos. Tinha mais gente vindo. Inimigos? Reforços? Eu não queria precisar descobrir. Queria acordar, e descobrir que tinha dormido demais e sonhado besteira. Devia saber que não poderia contar com nada além do meu pior pesadelo. Ver uma amiga morrer nos meus braços. Simplesmente inaceitável. Nunca havia sido grande coisa como lutador, mes certamente não morreria como um filhote de gato assustado. Continuei arrastando o corpo inconsciente de Tânia, que respirava com dificuldades, para longe daqueles três loucos. Sem pressa, eles praticamente se arrastavam em minha direção. A risada de um deles era rouca, e quase amistosa. Um lobo, brincando com um cordeiro desgarrado. Antes que a adrenalina em meu sistema diminuísse, empurrei Tânia para baixo de uma das macas (inútil, eu sei), e levantei-me. Um dos homens já estava bem perto. Seus olhos encontraram os meus, e o que vi fez com que tremesse por inteiro. Não era ódio, nem raiva. E eu tivera muito dos dois a vida inteira, apenas por ser como eu era. Aquilo era o vazio completo, a prova de que eu era nada, para aquele sujeito. Ele me mataria rindo. De fato, foi o que começou a fazer, quando deu um soco forte no meu rosto. Minha bochecha ardeu, e logo senti sangue escorrer de um corte na boca. Os outros dois começaram a destruir a enfermaria inteira. Janelas, macas, intrumentos, tudo. O cara chutou a lateral do meu corpo, e despenquei com meu próprio peso, ainda mole por causa dos medicamentos. Tornei-me um alvo fácil, respirando com cada vez mais dificuldade a cada golpe que atingia o meu corpo, de forma aterradora. Olhando para cima, já sentia fragmentos escuros na minha visão. Um dos caras estava desenhando algo na parede, com tinta preta. Não pude ver o que era. O som de passos apressados se aproximaram, e alguém entrou na sala. O homem que me espancava correu com um urro na direção da interrupção, e consegui focalizar quem salvara minha vida logo em seguida.
Com alguns botões de sua roupa arrebentados, Valentina apontava uma arma para os invasores. Dois sentinelas estavam ao seu lado, mas haviam sido desarmados. Então, encontrei a arma de ambos, nas mãos nos ninjas. O que ocorreu em seguida, foi rápido. Valentina atirou contra os criminosos, mas não parecia ter a perícia necessária. Sua fúria tornou-se medo, quando os homens ao seu lado receberam disparos certeiros na cabeça. Ela rendeu-se, erguendo os braços. O ninja que me atacara ordenou aos outros que abaixassem as armas. Ele riu.
– Acho que ele não vai reclamar depois de hoje. Não depois dessa aqui... — tranquilo e no total controle de si mesmo, aquele cara enterrou uma faca no peito de Valentina, no exato ponto em que deveria estar seu coração. Os olhos da secretária espantaram-se por um momento. Ela agarrou o pescoço do seu algoz, como se ambos compartilhassem um abraço sombrio. O brilho do seu olhar saiu de foco, e a vida deixou o seu corpo. — Se isso não vai enviar a nossa mensagem, não sei mais o que vai.
– Atira essa vagabunda pela janela — insistiu outro dos bandidos. — Faz ela se esmagar toda no chão do pátio! Quero ver a cara do Conselheiro quando perceber que a puta dele virou presunto!
Prendi a respiração quando atiraram Valentina contra uma das janelas amplas, de vidro. O som do material se partindo seguiu-se rapidamente do estalo provocado pelo seu corpo, ao atingir o chão. Controlei a vontade de vomitar, e espremi o rosto contra o chão. Alguém gritou lá embaixo, e os assassinos saíram correndo. Nenhum deles nos verificou. Acho que não importava mais. Alguém mais importante era um alvo mais valioso, ao que parecia. Só pude pensar nos bebês. O que teria acontecido na maternidade? Deus, eu sentia tanta dor no peito... Mas achava que minha capacidade para tolerá-la era muito superior, depois de tantas vezes em que a morte estivera suspirando na minha nuca. Alcancei Tânia um pouco depois, quando tive forças para me mexer, com a certeza de que eles não voltariam. Havia pulsação, e ela respirava sozinha. Ainda estava desmaiada, mas quis acreditar que ficaria bem. Eu precisava muito acreditar nisso. Apoiando os braços numa das macas que não havia sido jogada de lado, consegui ficar de pé. Só então, a pintura na parede ficou clara.
NÃO HÁ CURA. MORRA, KEIKO.
Quis morrer ao ler aquelas palavras. O ataque era pessoal, então. Alguém ainda queria Faye morta. Alguém ainda queria destruir qualquer estudo sobre a cura para os transgênicos, mutações e zumbis. E nós, eu e meus amigos, estávamos no caminho. Éramos nada além de um sinal, de intrusos. Éramos os responsáveis pelo recomeço daquele pesadelo. Como se o terror e a morte nos seguissem aonde quer que fôssemos. Um tormento sem fim. Quebranto infinito. Suspirei, reagindo aos poucos diante daquela nova descoberta. Não era o momento certo para pensar. Eu tinha de agir. Verificar os bebês. Ainda poderia haver assassinos naquele lugar. A crueldade dispensada ao corpo de Valentina necessitava de uma frieza anormal. Esse tipo de gente não hesitaria diante da oportunidade de machucar bebês. Eu já vira seres tão ruins antes. Sabia do que estava falando. Alcancei a porta de vidro destruída, e pude ver o sangue de Tânia em meio aos cacos minúsculos. O líquido grosso e vermelho desprendia dos corpos dos sentinelas mortos, também. Um deles, um pouco mais velho que Ricardo, tinha os olhos vidrados em minha direção. Sofri ao fechá-los. Era difícil lidar com os mortos. O cheiro de ferro e sal enchiam minhas narinas e provocava-me repulsa. Quando já estava ganhando o corredor, lembrei-me. Valentina retornaria. Não feriram a cabeça dela. Aquilo de alguma forma, tornou tudo muito pior. Estava fora de mim quando virei no corredor. Senti os braços dele antes de me dar conta de que havia caído.
– Hugo! HUGO! Responde! — Dante estava batendo no meu rosto. Senti vontade de socá-lo, mas não estava sentindo nada, de todo modo. — Graças a Deus! Cadê a Tânia?
– Nos aponte a direção certa, querido. — Victoria também estava lá, ela parecia mortificada. Ao nosso redor, sentinelas moviam-se depressa, verificando os quartos e enfermarias do hospital. Ergui o braço menos debilitado na direção por onde eu viera, e logo alguns homens seguiram por ela. — Ricardo está com Fernanda, verificando os bebês. Estão todos bem, lá fora. Meu pai conseguiu lidar com Valentina antes que ela infectasse alguém. Não se preocupe. Concentre-se em si mesmo, agora.
Eu queria apenas gritar. Não suportava mais ser a vítima. Esse estigma dilacerava minha mente, ao pensar que todos ao meu redor morriam. Sempre havia alguém para ir de encontro ao abate, em meu lugar. E isso era simplesmente humilhante. Aliás, humilhação era o que definia aquela situação. Eu fora incapaz de ajudar qualquer pessoa. Assistira enquanto Tânia era gravemente ferida, e enquanto Valentina era massacrada como um animal. Aquilo não era certo, não era justo. A noite não poderia ser pior. Como um fundo musical fúnubre que se inicia, pudemos ouvir o som de uma forte chuva, que abraçava a Fortaleza com suas lágrimas. Enchendo até mesmo o ar, de lamento. Sabia que estava sendo levado para algum lugar, mas só quando senti minhas costas tocando algo muito macio. Era um quarto de recuperação. Mas Dante havia me deitado no sofá de visitas. A maca e as janelas do cômodo haviam sido destruídos.
– Logo as equipes de zeladores vão deixar o hospital nos eixos de novo. Mas deve servir por enquanto. Sinto muito por ter te deixado sozinho. Eu não queria. Estava com esse maldito sentimento, esse tipo de intuição de que deveria ver você. Eu devia ter estado aqui. — Seus olhos eram intensos, e estavam cravados nos meus. Senti-me desconfortável por, durante todo o tempo, querer saber o que estava acontecendo em outros lugares. Dante estava ali, e eu podia sentir seu desespero. Eu devia mais do que merecia, a ele. Sorri, pensando que ele era bondoso demais, e que eu jamais seria bom o suficiente para ele. — O que foi? As pancadas mexeram com os seus miolos?
– Antes fosse. — Pela primeira vez, toquei sua mão. Afagando-o, a puxei sobre meu peito, mantendo-a ali, junto a mim. — Só estava considerando se você era mesmo real. Eu não mereço que você esteja aqui.
– Não quero saber de nada disso — ele deu de ombros, deixando claro que eu faria melhor em desistir. — Só estou preocupado com Tânia. Mas nada vai fazer com que eu deixe você aqui, sozinho. Victoria prometeu avisar, se algo acontecesse.
Aquiesci. Não adiantava insistir em algo que seria doloroso demais para ele. Eu entendia o quão desorientador podia ser, ver quem você ama em situações de risco. Tinha vivido isso com Ricardo, desde o Trocado. Depois, na boate. E por fim, enquanto estávamos afastados. Não saber, estar distante. Isso é o que mais dói. A porta de meu quarto danificado rangeu, e Rico surgiu como se invocado pela força do meu pensamento. Ao lado dele, vinha Faye, extremamente comovida. Suas bochechas estavam vermelhas, e os olhos inchados. Ela correu em minha direção, e abraçou-me delicadamente. Seus gestos eram carregados de leveza e uma classe incomuns. Ela era uma dama. Uma nobre. Mas naquele instante, chorava como qualquer amiga. Alisei seus cabelos, tentando consolá-la.
– Ah, Hugo! É tudo tão terrível! E tudo culpa minha. Me perdoe. A pobre Valentina... — debulhando-se em lágrimas, ela não parecia em condições de compreender bem qualquer explicação que eu pudesse dar. Faye não era culpada. Ela não tinha controle sobre a crueldade de assassinos, muito menos o domínio sobre quem vive ou morre. Era besteira chorar por isso, mas permiti. Ela precisava daquele momento.
Ricardo aproximou-se, e beijou minha testa. Ele pareceu nervoso, como se tivesse dúvidas sobre tentar ou não algo mais. Agradeci por não ter tentado. Apavorado e completamente vulnerável, agarraria-me a ele. A única coisa comum e completamente imutável em minha vida. Minha decisão sempre mais fácil. O caminho seguro, sem atalhos. Sem surpresas. Boas ou ruins. Se ele me beijasse ali, na frente de Dante, sabia que teria tomado a decisão por mim. Eu não seria capaz de resistir. Então, para o bem ou para o mal, as coisas estavam estabelecidas da maneira certa entre nós. O controle ainda era meu. E ao observá-lo ali, numa situação tão crítica, tive a certeza de que não poderia escolhê-lo. Tampouco poderia deixar de amá-lo. Mas, a cada momento, se tornava mais fácil compreender até que ponto esse amor era bastante. E quando deveria deixá-lo.
Victoria.
– Não temos nenhuma pista sobre o que aconteceu? — indaguei, completamente desesperada. Papai respirou fundo, e negou com um gesto.
– Jamais pensei que ainda houvessem partidários de Orlando na ilha. Preciso garantir que ninguém além dos departamentos de Saúde e Defesa, saibam sobre as mensagens pintadas pelos criminosos. Se souberem que os ataques estão ligados às pesquisas de Faye, as pessoas ficarão nervosas outra vez, e Renée vai transformar minha vida num inferno, tentando aplicar as novas leis que ele sugeriu, depois da rebelião. — Vendo a pergunta óbvia em meu olhar, papai sorriu. — Algumas leis que permitiriam o porte de armas para todos os cidadãos, e não só os sentinelas. É claro que o vetamos. Seria um passo para a anarquia.
– Lá fora, todos nós possuímos armas, e nunca brigamos entre nós. Mas entendo seu raciocínio. Um grupo, ou melhor, uma comunidade como a Fortaleza, é impossível de inspecionar o tempo todo. É claro que não podemos deixar as pessoas se armarem. — Mordi o lábio inferior, mortificada. — Mas ao mesmo tempo, deixamos todos à mercê desse grupo... Não sei o que pensar.
– Infelizmente, o cargo de Secretária da Defesa está vago. Vou nomeá-la na próxima reunião. Assim, você terá voz ativa nesse assunto, e a incubência de me ajudar a solucioná-lo. — Papai pôs a mão sobre meu ombro. — Sinto muito pelo ataque aos seus amigos. Tenho certeza de que a população ficará extremamente abalada. Vocês são muito importantes para nós, um símbolo de esperança. — Ele parecia inseguro. — Então, espero que Tânia e Hugo fiquem bem logo. Assim... Eles poderiam falar com as pessoas. Garantir que estão bem para levantar o moral, o que me diz?
– Eles não são uma empresa, papai. — Por muitas razões, a forma como meu pai referiu-se aos meus amigos, encheu-me de raiva. Agora eu me lembrava do motivo para cada uma das nossas brigas. — Eles vão dar uma entrevista para a Francine, ou sei lá o quê, se quiserem. E só. Não vou obrigá-los a nada "só para levantar o moral". Espero que o senhor se lembre que o mundo mudou. Incluindo eu.
– Filha! Sinto muito! Só estou pensando no melhor para todos. — Meu pai parecia mais velho, exausto. Senti-me culpada por falar com ele daquele jeito. — Compreendo. Desculpe por usar seus amigos como apoio estratégico.
– Perdoado — sorri, alisando de leve meus cabelos. Eles estavam menos desastrosos desde que havia tomado um banho decente, mas ainda assim, indomáveis. Como o medo no meu coração. — Silvia já se pronunciou sobre isso?
– Ela pediu o relatório completo. É claro que sou obrigado a incluir as pinturas nisso. Os sentinelas já estão terminando de apagar as últimas letras, mas a presidente precisa saber. E, mesmo que ela não faça nada à respeito, jamais poderá dizer que não foi avisada. — Não conhecia a presidente bem o bastante para julgar seu caráter, mas confesso que senti-me sortuda por ter papai por perto, e principalmente por ele confiar em sua superior. Significava que pelo menos no quesito caráter, ela devia ter seus méritos.
Apoiei a cabeça entre as mãos, tocando a mesa circular com a testa. Carolina estava muito calada desde o ocorrido, e fiquei grata quando Diogo entrou no recinto, acompanhado de Fernanda. Os dois pareciam nervosos, um tanto sem fôlego. Perguntei-me o que teria ocorrido. A julgar pela relativa tranquilidade de ambos, não devia ser tão ruim quanto a morte de Valentina. Diogo apertou meu ombro com uma das mãos, e Nanda sentou-se ao lado de Carol. Meu pai observou-nos por alguns instantes, e logo saiu para o corredor, deixando-nos na sala comum das enfermeiras. Diogo acabou tomando o lugar dele, abraçando-me com gentileza.
– Vamos ficar bem. Não surte, por favor. — Diogo murmurou, contra o meu cabelo. Nanda sorriu, e Carolina revirou os olhos.
– Alguém precisa contar ao Matias porque assassinaram a irmã dele. — Carol estava olhando para mim, com firmeza.
– Eu sei. Precisa ser eu? — Sua expressão tornou-se cínica. — Ok, ok. Tem que ser eu, tá certo.
– Estou mais preocupada com a Tânia. — Fernanda parecia realmente aborrecida. — Meus filhos foram atacados, sabiam? As enfermeiras todas trancaram a maternidade, e se esconderam lá. Não conseguiram entrar por causa disso, mas tentaram. Iam matar meus bebês, Vicky. Não vou descansar até descobrir quem fez isso com as pessoas que amo. — Nanda tentou conter a própria respiração, apoiando as mãos sobre a mesa. Suas unhas negras estavam em plena forma, provocando vincos na resina branca, revelando a madeira por baixo.
– Respira, pelo amor de Deus! Se você me der um choque sem querer, juro que te dou um soco! — reclamou Carol, bufando. No entanto, ela envolveu Nanda pelos ombros, puxando-a para si. — Eles não vão sair dessa impunes. E Tânia vai ficar bem.
Senti meu coração se encher de ternura e esperança, ao ver que apesar de toda a carapaça de medo e orgulho, Carol amava de verdade a todos nós. Ela estava ali por completo, inteira. E mais do que nunca, eu teria de contar com ela. Com todos os meus amigos. Como se o vazio deixado por aquele dia se fizesse mais evidente, notei o anoitecer. Os sons que vinham de fora indicavam a movimentação constante dos residentes da Fortaleza. E, entre eles, haveriam três assassinos. Mais perigoso do que eles, seria o mandante. Alguém numa posição de poder, já que se julgava fora de alcance o bastante para ordenar um ataque como aquele. Alguém tão frio, e tão disposto a tomar atitudes diretas para atingir aqueles que se punham em seu caminho, devia ser temido. Afinal, eu não tinha como saber quando ocorreria o próximo ataque. Tampouco podia arriscar dizer quem seria a próxima vítima.
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