Quebranto.

86 A Fortaleza em chamas.


Notas iniciais
...

Manuela.

O ar era frio, mas ao menos puro o suficiente para que eu não precisasse tragá-lo com esforço. Havia uma inquietude crescente naquela noite pálida, sem estrelas e com nuvens carregadas bailando na abóbada do nosso nada agradável mundo de isolamento e insegurança. Hugo poderia estar morto, naquele instante. Essa simples ideia demandava enorme esforço, para que eu pudesse assimilá-la com perfeição. Tânia ainda estava viva, mas em estado crítico. Ninguém sabia com precisão os danos provocados pelas pancadas em sua cabeça. Os médicos não dispunham mais de muitos dos aparelhos com os quais o Hospital fora equipado, antes de ser ocupado nos primeiros anos de epidemia. Não havia como repor as peças danificadas que já haviam sido trocadas por mais de três vezes, em alguns aparelhos. De modo que era impossível realizar uma ressonância magnética, ou qualquer tipo de ultrassom para determinar o quão grave era a situação de nossa amiga. Mesmo sozinha na pequena área à seu aberto, onde uma mesa de mármore negro com quatro cadeiras artesanais estava posicionada, senti-me sendo observada. Não tinha forças para encarar Hugo naquele instante. Vê-lo ferido mais uma vez. Tudo isso só me fez desejar ainda mais nunca tê-lo magoado, nunca ter permitido que a carência e um lapso de luxúria me aproximasse de Ricardo. Mas o passado estava escrito, o que não tornava nada mais fácil conviver com as coisas que eu havia feito.

– Você não devia pensar tão alto. Quase posso ouvir a culpa e o medo saltando pelas suas orelhas. — Com uma risada agridoce, Rico sentou-se à mesa, enquanto apertei a grade de ferro que separava a varanda do exterior com um pouco mais de força. — Sério Manu. Eu quem errei esse tempo todo. Será que não podemos superar isso tudo? Hugo e Dante estão fazendo um ótimo trabalho.

– Por que está dizendo isso? Pensei que você quisesse lutar pelo Hugo. Não tem como saber quem ele vai escolher. — Eu não devia estar tendo aquela conversa, e sabia disso. Não devia me interessar pelo que pudesse acontecer com Ricardo.

– Aí é que você se engana. Sei exatamente quem o Hugo vai escolher. E não vou ser eu. Mas eu não pretendo tornar a vida do Dante mais fácil, então também não vou abrir mão dele. Se o Hugo me quiser de fora, ele vai ter que tomar a atitude dando de ombros, Ricardo me analisou por mais alguns instantes. — Quando te vejo assim, sozinha, me pergunto por que abri mão de tudo por sua causa. Acho que estou começando a entender. — Seu rosto se tornou afetuoso, mas por algum motivo não me convenceu.

– Pois eu acho que você devia ter vergonha. Pensei que o Hugo significasse muito mais pra você, e não que fosse um brinquedo que você não quer largar. E não tente vir com esse papo de consolação pra cima de mim. Não vai existir nada entre nós, entendeu? Não só por tudo o que aconteceu em Búzios, mas porque eu jamais aceitaria ser conivente com o que você está fazendo. Você sabe que o Hugo não vai ser forte o bastante pra lutar por quem ele ama, e que vai ficar preso a você. Não é? — Eu estava debruçada de frente para ele, e nem havia percebido como chegar até a mesa. Ricardo me irritava demais quando era um idiota, e segundo o que o pessoal dizia, não era a primeira vez que ele agia de modo ridículo quando se tratava de Hugo.

– Pode ser que você tenha razão. Mas você me entendeu mal. Não quero você como um "plano B" fez uma careta, traçando as aspas com os dedos, no ar. — Eu quero que você saiba que não foi só um erro. Eu realmente quis fazer o que eu fiz.

– Uma pena que você seja o único. Depois daquela noite, tudo o que eu mais queria é que ela nunca tivesse acontecido. — Cheia de uma fúria inexplicável, apontei meu dedo indicador para ele. — Não sou mais aquela menina assustada que sobreviveu nas saias da Topázio. De um jeito ou de outro, fui testada e sobrevivi exatamente como você. Não me subestime. E nunca mais me trate como se eu fosse lixo, que você pode usar quando quiser. Boa noite.

Pasmo, Ricardo ficou para trás, enquanto eu retornava para o interior do Hospital. Caminhei pelos corredores com um misto de frustração e alívio crescendo no meu âmago, como se algo em meu interior inflamasse de orgulho e vergonha ao mesmo tempo, pelo meu descontrole com Rico. Num reflexo, apertei meus dedos amputados. Lembrei-me da noite em que Tânia salvara minha vida. Ela não hesitara por um segundo. Mesmo depois sabendo que eu fazia parte do grupo que a maltratara. Agora, eu queria que houvesse algo que eu pudesse fazer por ela em retorno. A enfermaria onde o ataque ocorrera estava interditada, mas já não tinham pinturas na parede, nem sangue no chão. Os corpos todos haviam sido levados, e o vidro varrido e recolhido. Ainda assim, era um cenário sombrio com todas as luzes apagadas, as portas destruídas e uma janelas faltando. Um arrepio cheio de presságios ruins subiu pela minha coluna, instalando-se em meu pescoço como uma mão pegajosa. Livrei-me daquela sensação gélida e hostil, correndo na direção do quarto onde Tânia havia sido instalada. Respirei fundo antes de girar a maçaneta. A maioria dos nossos amigos já estava dormindo nos Alojamentos. Apenas alguns de nós permanecemos ali, tomando conta dos feridos. Quando pude ver Tânia por inteira, notei que Fernanda estava dormindo na poltrona ao lado de sua cama. Com marcas arroxeadas ao redor de alguns cortes, a enfermeira permanecia inconsciente. Não devia estar sentindo dor devido aos medicamentos, contudo. Tudo que pude fazer foi deixá-las em paz. Retirei-me em silêncio, caminhando com delicadeza, trocando um aceno amistoso com uma das enfermeiras de azul claro, que iam passando. Passei pelo quarto de Hugo, e quase engasguei de susto quando Dante abriu a porta, pegando-me desprevenida.

– Manuela! O Hugo estava mesmo perguntando de você. Ele dormiu agora, então acho que não tem problema pegar um café na recepção, ou algo do tipo. Quer entrar? — Neguei com a cabeça, enxergando-o melhor. Claramente ansioso, ele devia estar se controlando para não surtar com o que havia acontecido. Ao invés de entrar no quarto de Hugo, agarrei o braço de Dante, e sorri com todo o calor adormecido de nossa amizade.

– Prefiro passar um tempo com você. Faz um bom tempo, não acha? Amanhã converso com o Hugo, quando ele acordar. Você precisa mais da minha companhia. Como está? — Puxando-o na direção da recepção, não deixei que ele protestasse.

– Estou uma droga. Mas Hugo está bem, então acho que posso dizer que estou cinquenta por cento puto da vida, e cinquenta por cento agradecido. — Dante riu, sacudindo os cabelos loiros, que já estavam bem grandes a ponto de cobrirem seus olhos. — Ele pediu que eu dormisse com ele, acredita? Na frente do Ricardo.

– Suponho que agora sei a origem do discurso que ele me fez, há pouco. — Vi a dúvida em seu olhar. — Nada demais, deixa pra lá. Realmente espero que Hugo perceba o que é melhor pra ele. Você é simplesmente irresistível, Dante! E nem falo só de beleza. O modo como você realmente se importa, faz toda a diferença. O amor não é algo que deva nos satisfazer. Nós quem devemos achar a satisfação, na felicidade de outra pessoa. — O modo como ele me olhou, tornou-se cômico. — Eu sou romântica, tá? Já ouviu falar de putas com o coração de ouro? Eu era uma.

– Adoraria ter te conhecido melhor, antes de tudo isso. — Ele estava rindo, apertando-me num gesto carinhoso.

– Não adoraria, não. Acredite. — Dessa vez nós dois rimos, mas então ouvimos vozes no corredor seguinte. Vozes que pareciam nervosas. Dante puxou-me para trás da parede, e cobriu minha boca com uma das mãos. Mantivemo-nos quietos, enquanto a conversa próxima se tornava mais clara.

Tudo o que pudemos perceber, era que Renée estava falando João Pedro, o médico chefe e Conselheiro da Saúde. Ao que parecia, Renée o estava pressionando por algum motivo. O cara parecia estar se borrando de medo. Eu e Dante trocamos um olhar, curiosos. Se tentássemos ouvir melhor, poderíamos acabar sendo descobertos, e aí não valeria à pena levantar suspeitas sobre nós, por algo que nem tínhamos certeza de que era importante ou não. Decidimos aguardar e torcer para que um dos dois levantasse a voz. Alguns segundos se passaram. Percebi que se queria mesmo ajudar Tânia, devia começar o quanto antes. Algo que dois membros dos Nove estivessem falando em segredo, certamente valeria o risco. Ser cautelosa e de certa forma, covarde, funcionara até aqui. Mas se eu queria uma mudança real, então tinha que começar a me mexer. Afastei a mão de Dante levemente, e ele entendeu minha intenção. Moveu-se, ficando atrás de mim, enquanto eu espiava através da curva, deixando metade do rosto para fora. Os lábios de Renée se moveram e tudo o que pude captar da frase, foi um nome. Um nome que eu conhecia bem, e que estava profundamente ligado a tudo aquilo. Faye. O que estariam falando sobre ela? Os dois acenaram, e caminharam juntos na direção oposta, dando-me as costas. Inspirei, aliviada. Apertei a mão de Dante, e nós dois recomeçamos a caminhar até nosso destino inicial.

– Estavam falando sobre a Faye. Querem fazer alguma coisa. Posso sentir — murmurei, olhando para frente enquanto caminhava. Não queria que pensassem que estávamos conspirando. Embora estivéssemos.

– Então vamos ficar de olho nos dois. Principalmente no Renée. Esse cara não me desce. E se estivermos certos, então existe uma chance real de termos encontrado o responsável por tudo isso. — Dante pescara a ideia, e também falava impassivelmente, caminhando ao meu lado como se comentasse o tempo. — Não vai ser fácil. As pessoas daqui idolatram os Nove. Mexer com um deles vai dar problema.

– Sempre dá problema, onde estamos. Além do mais, aposto que você quer cinco minutos numa sala, com esse cara. Se ele for o responsável pelo que aconteceu. — De braços dados, chegamos à recepção, e cumprimentamos a recepcionista enquanto nos aproximávamos da máquina de café. Dante estava se servindo, quando levantou o olhar na minha direção, rindo.

– Se o Renée for o responsável, pretendo passar bem mais do que cinco minutos com ele. Só então vou decidir se entrego pra Victoria, ou não. — Soprando a fumaça de nossos copos descartáveis, não demorou muito até que ambos ingerissem cafeína o suficiente para o resto da noite. Em silêncio, admiti para mim mesma que não apostaria contra Dante. Rezei para que não fosse ele a descobrir o culpado pela morte de Valentina e pelo atentado contra Hugo e Tânia. Não duvidava de que ele cumprisse sua promessa, de maneira extremamente brutal.

Carolina.

Helena parecia estar dois tons mais pálida, deitada em sua cama. Longe de estar dormindo, permanecia abraçada aos próprios joelhos, encarando o teto, suspirando alto. Algumas lágrimas insistiam em escapar entre os soluços contidos. Acho que ela estava apenas fazendo um bom trabalho em disfarçar sua perda, na minha frente. Não podia culpá-la, de todo modo. Eu não contaria minha mágoas para alguém que mal conhecia. Ainda que fosse de confiança. Senti-me mal por ela, principalmente por não saber como ajudar. Nem se eu seria capaz de tanto. De certa forma, ninguém poderia me consolar pela morte de Luca, além de mim mesma. E eu entendia o luto muito bem, agora. Certas coisas ficam melhores, quando as deixamos em paz. Arantes fez barulho na pequena salinha que antecedia os quartos. Ele estava ajeitando as coisas para adormecer na sala. Não queria incomodar Matias. Dar a ele privacidade. Uma atitude muito tocante, para alguém capaz de tanta brutalidade. Mas eu devia mesmo julgar? Acho que sem toda a imagem que eu formara dele, Arantes seria um cara legal. Se eu perdesse meu único filho como ele, talvez fosse ainda mais brutal. Inclusive, eu precisara ser brutal antes. Com Topázio e Lívia. Estava quilômetros distante de qualquer moralidade, em comparação com outras pessoas que não viam problema algum no que ele fizera. Eu não tinha o direito de me sentir superior, nem de supor que aquela era sua verdadeira natureza. Cansada de fingir que conseguiria dormir, afastei os lençóis, não me importando que o pijama fosse curto demais. Com certeza Matias na repararia naquele tipo de coisa, em sua situação. Eu já estava de preto, como os sentinelas. Não era minha melhor cor, mas eu me acostumaria. Quer dizer, não era tão estranho quanto um bando e prostitutas e homens armados até os dentes, numa boate. Eu já vira coisa pior do que organização ao extremo. Com empatia, acariciei um dos ombros de Helena, e ela conseguiu sorrir. Sentei-me ao seu lado, e peguei suas mãos, frias e suadas. Ela estava tendo uma crise de nervos, ou havia gelo em suas veias.

– Isso nunca passa. Mas fica mais fácil. Isso eu posso te prometer, está bem? Apesar de qualquer coisa que você possa pensar ninguém vai te julgar por sofrer. E eu te entendo. — Forçando um sorriso, apertei um pouco mais forte, e tomei meu caminho em direção à porta.

– Melhora mesmo? — Sua voz era fraca, mas clara. Apenas assenti, sorrindo em seguida. Deus me ajude, eu não queria que ela soubesse do buraco que existiria para sempre no meu coração.

Na sala, a expressão de Arantes era preocupada. Ele observava impotente, enquanto um Matias muito transtornado arrumava lençóis sobre o sofá, e encaixava seu travesseiro num dos braços do mesmo. Os cabelos normalmente úmidos estavam desalinhados e sem vida. Em seu rosto, uma expressão beirava o amargo. Vermelhos, seus olhos pareciam mais irritados por não chorarem, do que pela vontade que certamente se instalara ali. Era como encarar uma pessoa completamente diferente de quem eu já conhecera. Mesmo a sombra de um sorriso parecia surreal, num rosto como aquele. Deprimente. E ao mesmo tempo, assustador. Com os olhos, atraí a atenção de Arantes. Meu gesto para que ele fosse até o quarto, não poderia ser mais discreto. Concordando, coube a ele apenas sair do caminho, enquanto eu preparava-me para lidar com a tempestade de dor que certamente viria.

– Não vou perguntar como você está. Isso é ridículo. Porque eu sei, Matias. Eu entendo mantendo a voz baixa, toquei o seu braço. Os músculos firmes retesaram. Ele moveu-se para longe de mim.

– Não. Você não entende nada, Carol. Tudo que você sempre entendeu, foi como tirar o melhor das pessoas. Como tirar vantagem. E no momento em que puder você vai se livrar de qualquer um pra se salvar. Essa é quem você é, mesmo que finja. — Ódio. Nada mais explicaria a expressão naquele rosto já tão dolorido. Era terrível. Tudo o que ele me dizia, por outro lado, seria verdade um ano atrás. Mas agora, ouvir aquilo me deixava irritada pra caramba.

– Não me interessa quem morreu seu idiota! Não se atreva a falar comigo desse jeito! — Agarrei um dos seus braços, e ele tentou me afastar com violência. No susto, me movi como Diogo ensinara meses antes. Usei o peso de Matias contra ele, e o derrubei sobre o sofá, de olhos arregalados. — Escuta. Não quero que você tenha raiva de mim. Por favor. Tudo o que eu queria, era dizer que sei o que está passando. Lembra-se do Luca? Você sabe exatamente o que eu sentia por ele. Quando ele se foi, eu quis morrer ou ferir o mundo. Culpei a todos, até impliquei com a Fernanda sobre ela estar viva, e ele não. Não faça isso, Matias. Não por mim, mas por você. Por favor.

– Quando o seu pessoal chegou, com a Keiko, tudo começou de novo. Como quer que eu me sinta? Minha irmã está morta. Diretamente ou não, a culpa é de vocês. E nada vai mudar isso. Não ouse comparar o amor pela minha irmã, com o seu por aquele cara. Ela não é o Luca, Carol. E eu com certeza não sou uma vagabunda. — O estalo da minha mão no seu rosto, foi bem mais alto do que eu esperava. Ele estava surpreso, mas depois furioso. — Só saia daqui. Amanhã mesmo peço pra me mudarem de quarto. Não aguento mais ver a cara de vocês por tanto tempo. Por mim, a Faye pode cair morta a qualquer hora. Só quero que isso acabe.

– Não precisa pedir de novo, seu imbecil. Já vi todo o tipo de merda que esse mundo pode fazer com as pessoas. Coisas que o "Profeta" nunca sonhou, na sua ilha mágica. Mas nunca imaginei que pudessem transformar você num babaca. Nunca. — Saí sem rumo, batendo a porta do dormitório com força o bastante para provocar um eco no corredor. Eu nunca havia chorado tanto, de modo tão súbito. Acho que boa parte daquilo devia-se ao fato de eu dar-lhe certa razão, no fim das contas. Valentina não estaria morta se não tivessem tentado matar os meus amigos. Se Faye nunca tivesse retornado à ilha.

– Carolina? O que aconteceu? — Diogo puxei-me pelos braços, e me deu um abraço. O apertei com bastante força, e meu rosto tornou-se uma cascata. — Calma. Vamos entrar.

O quarto que ele dividia com a Victoria, era exatamente como o meu. Os gêmeos estavam dormindo, e ainda não sabiam do que ocorrera no hospital. Vicky contaria no dia seguinte, que não estava muito distante também. Quando me sentei na cama deles, notei que tanto ela quanto Diogo também estavam de pijamas negros. Estavam de cabelos amassados e caras inchadas. Pelo visto, a locomotiva do amor havia passado longe daquele quarto, na última noite. O quase assassinato de dois amigos tinha esse tipo de poder. Afastar o sono parecia além dos limites, o que me fez sentir mal por estar ali, incomodando. Expliquei a eles tudo o que tinha acontecido enfatizando a forma como Matias parecia desesperado, e descontrolado. Acho que dali para uma burrice seria bem rápido. Se ele não estivesse focando nas pessoas erradas, isso não seria tão ruim. Mas com ódio de nós?

– Tô me segurando pra não quebrar a cara do idiota. Se ele fizer alguma coisa, eu juro... — Diogo interrompeu sua frase no meio do caminho. Victoria tinha aquele olhar cético de quem sabia que ele não faria nada. Pelo simples motivo de que ela não iria permitir que fizesse.

– Pelo que ouvimos Carol já mostrou a ele que não deve tratá-la desse modo. Além disso, não podemos piorar a situação. Se as pessoas ficarem sabendo que Matias e nós brigamos, vão ter mais motivos para dar ouvidos às pessoas que mataram Valentina. E isso pode terminar com todos nós, mortos. — Vicky amarrou aquele monte de cabelos dela, num coque. Odiava quando ela fazia isso. Geralmente, as coisas sempre estavam ou iam ficar uma merda. — Escutem. Temos que observá-lo de perto, mas sem dar bandeira. Se ele estiver com ódio de nós, talvez encontre as pessoas que começaram isso, ou tente fazer algo contra alguém. Ele está aqui por muito mais tempo do que nós. O que significa que se agirmos primeiro, vão ficar do lado dele. Meu pai pode ajudar. Vai saber o que fazer.

– Sem ofensa, mas seu pai não é um de nós. E faz parte dos Nove. E se estiver envolvido nisso? — Diogo jogou a bomba de uma vez só. Acho que Victoria levou algum tempo para assimilar o que tinha ouvido.

– É sério, isso? — Seu olhar buscou o meu, querendo aprovação. Para ser sincera, eu não havia pensado naquela possibilidade, mas depois de ouvir Diogo, tinha que admitir que fazia sentido. Dei de ombros. — Carol! Não acredito que vocês dois estão mesmo considerando isso!

– Escuta, tá legal? Tio Allan pode ser seu pai, e nós o amamos. Mas não sabemos o que aconteceu com ele nesse tempo, Vicky. E se ele mudou? Muita gente mudou. E se ele estiver envolvido? Diogo era policial, ele está acostumado a desconfiar de todos. Era o trabalho dele. — A dúvida ganhou algum espaço. Ela não era irracional. Ricardo jamais aceitaria o que estávamos dizendo, como líder. Ele já era ingênuo demais, para certos assuntos. Ao menos entregara o comando para Victoria. Uma das poucas decisões acertadas que tivera.

– Vicky, não estou acusando seu pai de nada. Mas ele é o Conselheiro da Defesa. Alguém que facilmente poderia fornecer os uniformes dos sentinelas para os invasores. Alguém que poderia deixar o Hospital quase desprotegido, sem causar suspeitas. O Memorial distraiu a todos. Não foi questão de habilidade ou talento, conseguirem invadir e causar aquela confusão. Tem muito mais envolvido. Alguém grande. — Tive que concordar. Cara... Que pesadelo.

– Um dos Nove. Ou mais. — Vicky admitiu, suspirando. — Se meu pai estiver envolvido nisso, o que eu vou fazer? O que a Faye vai fazer? — Droga. Ela estava chorando.

– Amiga, não sofra de véspera. Não sabemos de nada ainda. Aproveite seu cargo como Secretária de Defesa, e nos ajude a investigá-lo. Sobre o Matias, eu e Diogo podemos ficar de olho nele, entre os sentinelas. Ninguém vai perceber. Só não podemos fingir que está tudo bem, e deixar as coisas rolarem. Da última vez, acabamos todos separados e quase mortos. Temos que ter aprendido algo com isso. — Vicky me abraçou. Nós duas acabamos rindo. Fazia tempo que não fazíamos isso. — Diogo, você vai dormir no chão.

– Sonhe alto, Carol. — Debochando, Diogo levantou-se. Ele agarrou um travesseiro, puxou o edredom da cama, e forrou no chão, grosseiramente. — Essa é sua cama.

– Amor. Eu quero dormir com a Carol. — Victoria pediu toda delicada com o tom de voz meloso. O olhar de Diogo tornou-se furioso. Permaneci cínica, fingindo que nem estava vendo.

– Da próxima vez te deixo no corredor resmungou, batendo a porta ao ir para a sala.

Sozinhas, eu e Victoria rimos ainda mais, completamente felizes por aquela gota de normalidade num mar de agitação constante. Não sei dizer quando conseguir dormir. Acho que Vicky já havia feito uma trança horrorosa no meu cabelo, que eu não mostraria nem para a minha mãe, sabendo que ela acharia feia. Acordei com a luz artificial acesa, avisando que era hora de levantar. O pé de Victoria estava no meu pescoço, e seu dedão quase tocando a minha boca. Como ela havia ido parar do outro lado da cama, jamais fiquei sabendo. Rindo, a empurrei para fora da cama, ouvindo-a xingar quando caiu no chão. Como se fosse parte do meu uniforme, vesti o cansaço e a ciência do que deveria fazer. A manhã ganhou novas cores, então. Essas, bem mais sombrias, ainda que no horizonte. Como se meu coração estivesse assombrado por outra pessoa, e não batendo. A verdade era bem menos complicada, então. Eu só não queria saber onde aquilo iria parar. Não outra vez.

Notas finais
Como merecem, ganharam cap. carnavalesco. Amo vocês. Kisses by DroppingPieces.