Quebranto.
45 Mãe Antiga.
Notas iniciais
Victoria.
Dormir com Diogo numa cama macia e confortável, sentindo seu corpo colado ao meu e protegendo-me do frio, era uma experiência que eu nunca esqueceria. Acredito que dentre todos os meus amigos, era eu quem mais me apegava ao passado. Afinal, eu sentia-me ainda ancorada a ele, principalmente por não saber o que havia ocorrido à minha família. Em sua maioria, meus colegas haviam perdido seus parentes, e até mesmo presenciado a morte dos entes queridos. Eu não. Apenas minha madrinha, mãe de Otávio, e Silvia eram baixas certas em minha família. Qualquer outro parente ou amigo de papai ainda podia estar vivo, como Dimitri provara. Além de tudo isso, também havia o fato de que, mesmo limitada por minhas inaptidões psicológicas, eu sentia-me totalmente segura e protegida o tempo inteiro, em minha vida pregressa. E sentia falta da segurança nevoenta que o nosso antigo mundo consumista e conformado trazia, para aqueles como eu, que podiam comprar casas com muros altos, e carros blindados. Nada daquilo existia mais. Toda a hipocrisia coletiva, morrera com uma sociedade já decadente. No ano de dois mil e vinte, o mundo havia finalmente, sido liberto da ameaça humana.
Pena que agora, estava totalmente equipado para nos matar. Incomodada com meus próprios pensamentos, acabei despertando com o rosto afundado no travesseiro enorme que eu abraçara assim que havia encontrado o colchão onde decidira ficar com Diogo. Totalmente desperta, praguejei com o destino por não poder ter uma única noite digna de sono. Mas o costume de estar sempre do lado de fora, dormindo pouquíssimo ou ficando em claro, parecia abalar meus sentidos mesmo ali, naquela pequena ilha de paz no meio do limbo. Como num Purgatório entre o céu e o inferno, aquela boate era território neutro, devido aos dons de Topázio. E, mesmo que eu tivesse achado aquela mulher meio esquisita, devia ser grata a ela por ter nos acolhido. Sem o menor esforço, havia salvo a minha vida, e a de todos os meus amigos. Minha família. E, se isso não era algo, então não sabia o que mais poderia ser valorizado.
"Bruxa. Isso é o que ela é. E nem é considerado ofensa, já que com essa coisa de Deusa, ela é mesmo bruxa. Mas pra mim, um Inumano que se preze deve ter poderes físicos. Essa lenga-lenga bioquímica de feromônios, é uma grande bola de ultraje. Um recurso pra covardes. Mas também, com quem estou falando, não é Vicky? Covardia é com seu grupo de bobalhões mesmo..."
Esfreguei minhas têmporas. Fazia tanto tempo que Nora se desativara, que tê-la de novo em minha cabeça tornava toda a minha felicidade, mero papel de parede para a irritação e frustração por não tê-la vencido para sempre. Da última vez, aquela maluca quase matara Carolina. E agora, parecia ter decidido implicar com o único motivo para todos estarmos seguros. Parabéns, Nora, lembro-me de ter pensado. Só resta agora matar Topázio à sangue frio, assim como fez com Dimas na estrada. Aí você vai conseguir todos os pontos de popularidade que precisa, comigo e meus amigos. Em algum canto escuro da minha mente, aquela cachorra riu. Era frustrante saber que Nora era um aspecto meu, mas sobre o qual eu não possuía qualquer vantagem. Só pude perceber que, no fundo, eu estava com um pouco de inveja de Topázio. Ela possuía um dom abençoado. E eu, a maldição de carregar uma versão cruel de mim mesma. Apesar de todos os dons físicos de Nora, acessar suas habilidades para nos tirar do perigo vinha com um preço muito caro. Ela levava minha autonomia. Minha confiança em minhas próprias ações.
Tensa e desconfortável, acabei caminhando levemente pelo andar superior. Em uma espécie de fileira, todos os pequenos espaços dos camarotes haviam sido transformados em dormitórios. Num deles, pude ver as gêmeas Manuela e Mirla dormindo juntas. Noutro, Vilma e Dino faziam companhia à Hugo, o que estranhei. Não vi Ricardo em parte alguma, mas resolvi não pensar naquilo ainda. Passando pela divisória de Ana e Sabrina, achei ter visto movimentos sob as cobertas que as aqueciam. Ok. Sacudi a cabeça e passei direto, na direção das escadas. No escuro da noite, guiei-me apenas pelo tato, agarrando com força o corrimão que ligava o andar de baixo ao de cima. Chegando na parte inferior, avistei a luz do bar que nutria a pista de dança. Apesar de muitas coisas terem mudado, aquele ainda parecia o lugar certo para se conseguir uma bebida. E haviam tantas por lá... Com certeza Dimitri e seus colegas haviam reunido um bom estoque, com os poderes de Topázio dando suporte para que pudessem vasculhar tudo sem contratempos. É claro que inumanos não pareciam ser bloqueados por aquele escudo invisível, já que eu e Jonas havíamos entrado ali sem qualquer problema. Mas aqueles de nós que perdiam a cabeça, eram um pouco diferentes. Como predadores, tornavam-se de certa forma bestiais. Guiavam-se pelo faro. E eu podia imaginar, sem fazer força, que os feromônios de Topázio também confundiam o cheiro. Totalmente impressionante.
E por falar na nossa anfitriã, foi totalmente inusitado encontrá-la sentada no bar, impecável num robe de cetim branco, que fluía pelo seu corpo perfeito. Os cabelos loiros, claros como sua pele, combinavam perfeitamente com as vestes, contrastando com o forte batom vermelho que ela usava. Uma deusa maquiada. Sentada sobre um banquinho de mogno entalhado, ela havia cruzado as pernas sensualmente, enquanto o cetim revelava generosamente uma de suas coxas, lisa e torneada. Suas unhas do pé brilhavam, com o esmalte rubro estranhamente parecendo sangue sob a luz fraca. Ela segurava uma taça de vinho tinto enorme na mão esquerda, e sorria de algo que um homem dissera. Lutei para reconhecer o dono da voz. Ricardo parecia distraído ao lado da loira, mas não estava sozinho. Com ele, Mozart e Dimitri tinham copos largos de uísque em suas mãos. Rico acompanhava Topázio no vinho, enquanto um Alexandre sorridente servia Dimitri com mais uma dose.
– Noite difícil? — eu não ouvia a voz rouca de Mozart à tanto tempo, que mal acreditei que ele estava mesmo falando. E havia denunciado minha presença, ao mesmo tempo. De todo modo, eu não podia entender porquê estava dando ouvidos aos estúpidos impulsos de Nora. Ela era tão fanática.
– Não consigo dormir. Reflexos do mundo exterior. — brinquei. Sorri para todos os presentes, e Dimitri pareceu-me interessado na camisola que eu estava usando. Um empréstimo de Lavínia, que tinha exatamente o mesmo tamanho que eu para qualquer roupa. O pano cobria-me bem menos do que parecera antes de vesti-lo, parando um pouco acima de meus joelhos. Meus cabelos enormes como os da Merida da Disney, cobriam boa parte das minhas costas, ocultando o decote que estaria ali, embaixo do mar dourado. Mas não na frente. Meus seios poderiam dizer um olá através do tecido azul caneta, se eu tivesse cuidado. E eu odiava que, de todas as pessoas, justamente Dimitri estivesse ali.
– Isso é normal, querida. Recomendo que tome um pouco de leite, e tente dormir. Conforme os dias forem passando, essa sensação vai melhorar. Você vai ver. Eu ofereceria uma bebida conosco, mas devo admitir que para alguém que deseja voltar a dormir, acompanhar-nos não é uma boa opção. — sugeriu Topázio, e tive a ligeira impressão de que ela estava me expulsando daquela reuniãozinha. Ultrajada, considerei que podia ser puro preconceito, por eu ser a mais nova presente. Já Nora, quis socar nossa anfitriã. O pior, é que Ricardo riu do que Topázio dissera. Eles se olharam, e pareciam melhores amigos. Oi? É, isso mesmo. Melhores amigos!
Em transe, por assim dizer, afastei-me na direção da cozinha, sem saber o motivo real de estar seguindo exatamente o que Topázio sugerira. Decidi que não havia nada demais rolando, e que ela fora totalmente simpática e cuidadosa. Afinal, só queria meu bem, que eu descansasse. E um copo de leite, depois de tanto tempo sem qualquer derivado de vaca, não faria nenhum mal. Mesmo que fosse em pó. Já na cozinha, vasculhei a lata amarela do leite. A validade ainda duraria por mais um ano. Devia ter sido uma das últimas remessas da empresa, antes de ter sido fechada por motivos óbvios. Entediada, adicionei um pouco de água no copo, e comecei a misturá-la com uma colher, quando ouvi um gemido. Não um gemido humano, não parecia algo tão nítido. Mas era algo. A audição aguçada de Nora ainda permanecia comigo, desde seu último comentário tendencioso em minha mente. Saí da cozinha e olhei ao redor. O pequeno ruído repetiu-se, tão fraco quanto antes. Parecia um sussurro, ou um suspiro. Ou talvez um gato não monstruoso tivesse entrado na boate, procurando abrigo. Era difícil dizer. Suave, o barulho tênue repetiu-se duas vezes, e caminhando ao redor, notei que a origem mais provável daquele som, devia ser a sala de orações de Topázio. E, vejam bem, eu não era tão curiosa a ponto de pôr em risco a segurança do meu grupo. Não ia entrar sem ser convidada.
Só notei Alexandre ali perto, sentado ao lado da porta da salinha, quando já estava quase voltando para o segundo andar. O cumprimentei com um aceno, e ele respondeu-me movendo o boné do Flamengo que estava usando, para cobrir os olhos enquanto cochilava. Ver a pequena peça de roupa me fez lembrar do futebol. Eu nunca fora muito fã do esporte, e considerava-me neutra. Otávio torcia para o Flamengo. Luca e Ana eram loucos pelo Fluminense. Como eu, Carolina dizia não ter torcida, mas tornara-se vascaína desde que conhecera um menino gato em um jogo. Havia ido acompanhar um primo, e tivera uma experiência inesquecível com um garoto desconhecido chamado Iago. Louca. Rindo sozinha como uma maluca, pulei ao notar Diana debruçada na escada. Ela parecia incomodada.
– Problemas para dormir? — indaguei, sorrindo. Eu simpatizara por ela desde a primeira vez em que havíamos nos conhecido. E Diana progredira tanto. Era uma das que mais havia perdido, e aprendido, entre nós.
– Não, na verdade não... Só não sei se devo. — ela confessou. — Há algo estranho, Vicky. Não consigo confiar nessa mulher, nem nessa gente.
"Até que enfim alguém com miolos..."
– Não é por causa da religião de Topázio? — indaguei, ignorando totalmente a palhaçada de Nora. Ela adorava se meter nas minhas conversas. — Sei que você não lida bem com esses papos pagãos, Diana. O fato dela acreditar na tal Deusa, não influenciou em nada na sua suspeita?
– Será que é isso, Victoria? — ela mesma parecia em dúvida. — Tudo parece certo aqui, mas algo me incomoda. Se for isso, então deve ser só uma reação involuntária minha, e talvez eu esteja exagerando. Mas se for um instinto de preservação, então prefiro não abrir mão dessa suspeita até ter certeza de que não há perigo. — ela refletiu, confusa.
– Então, vou ajudá-la como puder a ficar em paz consigo mesma. — prometi, em voz muito baixa. — Mas não dá pra ficar sem dormir. Você precisa. Ou então o estresse só vai deixar tudo pior. — ela concordou, mas não parecia muito certa.
No dia seguinte, era noite quando a vida pareceu mais uma vez, digna de sorrisos. Apesar de toda a confusão do dia anterior (é, Otto havia me informado tudo à respeito da briga com Ricardo), e de todas as suspeitas que Diana tivesse, uma coisa não poderia ser negada. Strippers sabiam como dançar. Num evento totalmente improvisado e muito engraçado, Topázio havia ligado o som da boate. Numa frequência bem menor que a normal, é claro, mas o suficiente para que suas meninas pudessem dançar. E, sem qualquer percentual de orgulho feminino, eu podia admitir. Elas eram boas. Sentados em mesas organizadas de frente para onde ficava o palco principal da boate, batíamos palmas e sorríamos com as coreografias de Manuela, Mirla e Thaís. As três eram ótimas. Pole dance era uma arte, eu precisava admitir. E ver a cara dos rapazes fitando-as, não tinha preço. É claro que fiquei de olho em Diogo, mas ele parecia estar lidando bem com a situação. Como se já fosse acostumado com tudo aquilo, antes de nos conhecermos. Certo, pensar em Diogo vendo mulher seminuas dançando, não foi legal. O pior, é que considerar que Dimitri também já devia ter visto muito daquilo, também não foi. Profundamente perturbada com meus pensamentos, nem notei que Thaís havia começado a cantar. De verdade, sem playback. Com um microfone em suas mãos, ela parecia ainda mais linda do que antes. Era revoltante, e ao mesmo tempo, hipnotizador.
– Eu não sabia que ela cantava. — observei, chiando com Otávio, que havia se sentado ao meu lado, entre mim e Diogo. Ele estava sendo protegido por nós, pro caso do Rico querer brincar de aquecer a mão dele no rosto de Otto.
– Segundo Dimitri, Thaís era cantora amadora, antes de virar prostituta. Ela é da Bahia. Veio pro Rio se tornar atriz e cantora, mas não deu certo. Acabou vindo passar um fim de semana em Búzios, como acompanhante de luxo. Parece que a viagem foi mais longa que o esperado. — ele observou, discreto. Era genial como Otávio sempre descobria o necessário, sobre todos. Ele era o mestre em descobrir histórias. Nosso pesquisador.
Não estava prestando muita atenção na música que Thaís estava cantando, até reconhecer a letra. Na sua Estante, da Pitty. De um jeito mórbido e engraçado, a letra combinava com nossa vida. A única diferença, é que em nosso mundo, teríamos que aproveitar cada segundo antes que a tragédia acabasse. Porque ela já havia começado. Mas, algo além do belo parecia fluir com as notas alcançadas por Thaís. Ao começar a cantar, as gêmeas cessaram a dança sensual e o clima mudou. Ficou mais solene. Ela sentou-se numa cadeira no meio do palco, enquanto todos prestávamos atenção em sua voz, e em Dante, que tocava um violão preto maravilhosamente, acompanhando a letra da música com o som do instrumento. A primeira cessou, e logo Thaís emendara uma letra em inglês. Parecia-se bem mais com uma oração do que com uma música, e pelo visto, ela e Dante haviam treinado aquilo durante algum tempo.
– Que música é essa? Nunca ouvi antes. — comentou Diogo, confuso.
– Não é conhecida, provavelmente. É uma canção Wicca. Mãe Antiga. Só que em inglês. Faz tanto tempo que não uso o idioma, que demorei a assimilar a letra. — respondi, olhando para Otto. Havíamos estudado a língua inglesa juntos, desde bem novos. Descreverei o que pudemos entender, através da voz de sinos de Thaís. Tenham em mente que ela cantava intercalando uma estrofe em inglês, e a seguinte em português.
"Mãe Antiga, ouço teu chamado,
Mãe Antiga, ouço tua canção.
Mãe Antiga, ouço teu riso,
Mãe Antiga, provo tuas lágrimas...
Ísis, Astarte, Diana,
Hécate, Deméter, Khali,
Innana.
Mãe Atinga, ouço teu chamado.
Mãe Antiga, ouço tua canção
Mãe Antiga, ouço teu riso
Mãe Antiga, provo tuas lágrimas...
Ísis, Astarte, Diana,
Hécate, Deméter, Khali,
Innana..."
Quando Thaís encerrou sua canção, não havia ninguém capaz de emitir reação à sua voz. O primeiro aplauso partiu de Topázio, que tinha o rosto coberto de lágrimas, embora não houvesse calor em seus olhos. Lavínia por outro lado, havia debulhado-se, e estava soluçando abraçada com Tânia, que parecia constrangida com uma reação tão forte. Então notei. Aquilo era mais que uma religião para aquelas pessoas. O papo de Deusa, proteção mágica, dons divinos. Não era só papo. Talvez nem todos, mas a maioria realmente acreditava que Topázio fora escolhida como Profeta, como líder. E aquilo dava um tipo de poder à alguém. O poder de decidir como os outros lidarão com o mundo espiritual. Eu esperava não ter problemas ali, pois, mesmo que fosse algo bonito ter tamanha fé, eu tinha dificuldade em crer em qualquer coisa. Fosse no cristianismo católico de Nanda, no protestantismo de Diana, ou no Candomblé de Jeanette, uma amiga querida que se fora há muito tempo. Não era diferente com a Wicca.
Mas para alguns de nós, aquilo parecia ter sido mais que uma canção. Chorando como criança, Ana parecia inconsolável. Sabrina a amparava, mas também parecia comovida. Eu não podia entender todo aquele estardalhaço, mas calei-me. Senti-me subitamente sobrando naquela reunião, mesmo que todo mundo estivesse presente. Sem que percebêssemos, Topázio havia nos envolvido num culto à deusa. Era como não perceber que fora convidado para a igreja, até notar que estava dentro dela. Foi como me senti. Mas aquilo era mais do que fé. Os olhos de Thaís haviam brilhando quando ela cantara, e sua voz parecia literalmente, fazer uma massagem no cérebro. Cordas vocais mutantes? Talvez. Mas era bem estranho. E Ana não era a única, para minha surpresa. Mozart tinha um olhar fixo em Thaís, e os olhos vermelhos de lágrimas contidas. Diogo parecia fascinado por Thaís, mas para meu alívio, não num sentido espiritual. É claro que isso me deixou louca, vê-lo babando por uma garota que ele nem notara antes, na praia. Mas era melhor que vê-lo convertido. Ricardo sorria como um bobo para Topázio, que não parava de trocar olhares com ele. Notei que Hugo percebera aquilo tudo, e estava se retirando ao lado de Diana. Topázio seguiu meu amigo com o olhar, e não gostei do que vi ali. Ela estava satisfeita. Notou que eu a havia pego olhando, e então virou o rosto, construindo a imagem comovida outra vez. Falsa. Pela primeira vez, eu tinha que dar o braço À torcer. Nora havia julgado alguém melhor do que eu.
"Existe alguma chance de eu te ouvir repetindo isso? Não? Pena."
Nem preciso dizer que fingi não ouvir nada. Depois que eu descobrira que o silêncio irritava Nora bem mais do que minha raiva, ela nunca mais fora irritante o bastante para me fazer falar. E, por mais que eu tivesse que admitir que a música fora bonita, e que Thaís era desejável, ainda não podia deixar de relevar o fato de que Topázio fizera tudo de caso pensado. E ninguém parecia estar se importando. Até Otávio, apesar de parecer normal, parecia ter ficado levemente perturbado. Mas eu sabia que não se tratava da música. Era a mutação de Thaís. Ela era uma sereia. Com pernas. Mas uma sereia. E parecia obedecer sua Sacerdotisa cegamente. Inferno. De todo modo, ninguém havia se revelado perigoso, por enquanto. Mas parecia haver uma certa ambição e compulsão por controle, ali na boate. Se isso traria problemas à longo prazo? Lógico. Éramos uma sociedade, e pelo menos eu, não estava me apressando para lamber os pés de Topázio. A voz de Carolina soou um pouco mais alto que o normal, e então virei o rosto na sua direção. Jonas parecia estar comentando algo sobre maluquice, provavelmente com relação à música. Carol parecia defendê-la ardorosamente. Súbito como um tornado, o humor leve de todos dissipou-se. Quem não havia gostado do canto da sereia, acabou saindo de perto do palco. Preciso mencionar qual grupo segui?
Nos camarotes, fitei alguns de meus amigos. Nanda, Gabriel, Diana, Hugo, Jonas. Eu e Diogo. O resto de nós, estava ouvindo uma introdução maravilhosa de Topázio, aos mitos da Wicca. A única coisa que distingui por alto fora que, livres, os seguidores de tal religião tinham permissão para cultuar qualquer panteão de deuses já reverenciado pela humanidade. Pelo visto, todas as deusas já criadas eram representações da Deusa principal, a Mãe Terra. E todos os deuses, faces do Deus, O Galhudo. Interessante. É. E bem legal, até. Mas tudo de bom e bonito no discurso de Topázio foi abafado pelo modo como todos nos sentíamos, ali em cima. Totalmente excluídos. Como se fôssemos irrelevantes, até para nossos amigos. E não era algo fácil de lidar. Não depois de tudo pelo que havíamos passado juntos. Para completar, não havia um meio de simplesmente acusarmos nossa anfitriã, que protegia a todos com seus dons, de estar forçando nossos amigos a acreditarem em nada. Eles eram livres. E ela só estava recebendo a todos de braços abertos. Perdidos por tanto tempo no desespero e na incerteza, ao encontrarem um lugar seguro e uma mensagem de que tudo ficaria bem, e de que poderiam seguir outra pessoa sem dúvidas, nossos amigos provavelmente haviam considerado fácil largar todo o peso que vínhamos trazendo. O ser humano sempre gostou de depositar tudo no sobrenatural, esquecendo de pensar no material. Mesmo antes do mundo ir pro beleléu, todos deixavam suas vidas nas mãos de magos, pastores, cartomantes, pais-de-santo, acreditando serem esses líderes os responsáveis por sua felicidade, e não eles mesmos. Uma saída fácil e tentadora para os problemas. Mas não havia ilusão pior.
– Eu estava totalmente desprevenido. — observou Hugo, tristonho. — Nem tive tempo de me reconciliar com Rico. Ele estava péssimo ontem. Hoje, nem parece lembrar da briga com Otto. Nem olhou na minha cara.
– Ontem, de madrugada. O encontrei conversando com Topázio. — contei. Eu e minha boca grande. Agora Hugo pensaria que os dois tinham um caso! — Dimitri, Mozart e Alexandre também estavam com eles, e pareciam estar se divertindo. Acho que ele se consolou com Topázio, Hugo. Por causa do beijo. Deve ser só por isso que os dois se olharam, lá embaixo. Estão amigos.
– Pois pra mim aquela mulher terrível está manipulando Ricardo. — resmungou Diana, com os braços arrepiados. — Tenho calafrios quando ouço a voz dela!
– Diana, não podemos acusar ninguém sem provas. — lembrou Nanda. — Para todos os efeitos, ela nos acolheu. Temos que mostrar gratidão.
– Então eu acho que estamos fazendo tudo errado. — cuspiu Gabriel, com um sorrisinho.
– O que você disse? — perguntou Otávio, parecendo despertar de um sonho. Diogo riu para Gabriel, e então todos voltaram-se para o garoto. Pouco acostumado a ser o centro das atenções, o menino encolheu-se. — Repita.
– Não é nada. Só acho que se queremos demonstrar gratidão, devíamos pelo menos fingir que estamos felizes. — ele refletiu. — A Topázio não vai se magoar se fingirmos. E se ela for mesmo alguma coisa ruim, como Diana falou, ficarmos todos aqui de cara feia não é uma boa. Ela pode ver fácil que são os alvos dela, desse jeito.
– Genial. — surpreendeu-se Nanda, ficando com a boca escancarada.
– Concordo. — assenti. — Não temos provas de que Topázio seja alguém má, ou com qualquer outra intenção além de pregar sua religião. Se ela for só uma bruxa fanática, tudo bem. Podemos lidar com isso pelo escudo que ela produz. Mas se ela pretende fazer mal à um do nós, e está nos manipulando pra isso, então temos que detê-la.
– E pra isso. — disse Diogo. — Vamos fingir que não achamos nada estranho hoje. O que acham de todo mundo tirar um cochilo? Assim temos desculpa se ela perguntar por que sumimos? Melhor do que dizer a verdade, onde estamos tramando e espionando de longe.
Fernanda.
Ninguém discordou de Diogo. Todo mundo pareceu particularmente entusiasmado em seguir seu conselho. Tanto que, poucos minutos depois, havíamos todos pego no sono. Quando despertei, notei que a noite ia alta, e que alguns dos nossos colegas que haviam estado lá embaixo, já haviam se recolhido para dormir. Ainda haviam pessoas lá embaixo, mas nenhuma voz chegava até o andar de cima. Um pouco desnorteada, afastei-me de Gabriel, que estava dormindo comigo desde que havíamos chego na boate. E não, não estávamos namorando. Pelo menos, não totalmente. Eu não havia sequer beijado-o ainda. Mas ele parecia sentir-se bem ao meu lado, e nunca me cobrara nem pedira nada. Além do direito de estar por perto. Eu me sentia protegida com ele, então não via mal algum naquilo. E, mesmo tendo medo de sentir exatamente o mesmo que senti antes, quando Arlindo me tocou, acho que em alguns momentos eu até desejava que Gabriel me beijasse. Mas eu ainda não estava pronta. Primeiro, tinha que ter certeza de que ele poderia lidar com o fato de eu estar grávida. Porque, pelo que parecia, meu bebê não estava indo à lugar algum.
Caminhando próxima às camas do resto do pessoal, decidi me afastar para não despertar ninguém com meu barulho. Desci até a pista de dança, e vi Diogo deitado em um dos sofás negros que haviam sido arrumados no salão enorme, olhando pro teto. Dimitri nos contara algo sobre o gerador próprio que a boate possuía, em seu porão. Alexandre era o responsável por mantê-lo funcionando bem, para que tivéssemos energia para coisas como luz, e o ar-condicionado que ainda inundava a boate. É claro que, com tão poucas pessoas, e com todas as janelas e saídas de ar fechadas, o lugar havia se tornado realmente frio. O que não era problema, considerando que Búzios sabia como ser quente. Aproximando-se de meu grande e forte amigo moreno, chamei-lhe com um sonoro: psiiuu. Diogo fitou-me sem ver, e levou um susto ao acordar comigo encarando-o. Sentando-se com os cabelos lisos amassado e espetados para o alto, ele parecia bem engraçado. E até fofo. Todo brutamontes, mas com um bom coração. O mesmo que me salvara da morte, no início de tudo. Só que agora, muito mais forte.
– Quer matar alguém ruiva? Me dá um tiro logo. — vociferou.
– E o velho animal mostra as garras. Bom saber que longe da Vicky, cê ainda é o brucutu de sempre. — eu ri, realmente contente de estar conversando com ele. Diogo já fora um tremendo convencido, e prepotente. O típico cara que se achava o dono do mundo. Victoria o havia ensinado que nunca sabemos o suficiente. E que não precisamos manter os outros afastados com nosso jeito fortaleza de ser. Às vezes, é a força da união que melhora tudo. E não deixar de se apegar, para não sofrer.
– Eu tento. — ele respondeu, num tom bem mais brando. — Então... Que coisa hein, ruiva? Sinto muito pelo que aconteceu... — eu sabia como era difícil para ele.
– Eu sei. De verdade. Mas não posso deixar que outro ser pague por um erro que não cometeu. Não é justo. E minha vida não está em risco, não se tivermos esse lugar. As mulheres faziam isso milênios antes de existirem hospitais. Eu consigo. — sorri, apesar do medo tamanho família que se dilatava em meu peito.
– Sei que você consegue ruiva. Torço pra isso. — ele riu de leve. — E você fez certo. Proteja seu filho. Ele não tem culpa. — solene, ele franziu o cenho. — Podemos proteger a criança. Além do mais, cê já matou o desgraçado né? Estão quites.
– Acho que sim. E obrigada pelo apoio. — concordei, rindo. — Sou patética. Já matei um ser humano, mas nenhum monstro.
– Bobagem. Arlindo não era humano há bem mais tempo do que podemos imaginar. — ele rebateu. — Vi muitos caras como ele quando era policial. Quando você se quebra por dentro, ultrapasse as piores barreiras... É como se a humanidade deixasse o corpo. Como os zumbis, que vemos todo dia.
– Faz sentido, de um jeito macabro. — admiti, mas sem entrar em detalhes, ou pedir por eles. — Mas já que estamos sendo honestos aqui, admita: Por que veio para cá? Victoria te pôs pra fora por secar a Thaís?
– Ela nem mencionou isso ainda. Graças à Deusa. — ele riu, após usar a expressão de Topázio. — Na verdade, aquele Dimitri tá me enchendo o saco. Só não soquei o desgraçado porque estamos sob o teto dele. Se abrigássemos alguém, eu não ia gostar que essa pessoa causasse confusão com um dos nossos. Então, em sacrifício pra podermos ficar, ainda não espanquei o safado. Mas ele tá cercando a Victoria por todos os lados. Não vou conseguir me segurar por muito tempo...
– Entendo. E obrigada pelo apoio. — respondi. Reprimindo um sorriso. Diogo era muito otário. — Sabe, bobo, Victoria não dá a mínima pra ele. Tá na cara. Talvez ele a faça lembrar do passado, ok, mas isso não é o mais importante! É como você, e só você, a faz se sentir. Ao invés de tratar ela estranho, fique mais próximo. É o único jeito de você evitar o Dimi. — comentei, instantaneamente.
– Dimi?! — horrorizou-se Diogo — Até você, Nanda?
– Hahá, tá vendo? Totalmente sugestionável. — curti com a cara dele, e Diogo ficou vermelho. — Tá, parei.
– Vai lá contar pro Gabriel que tá afim dele antes, que é melhor. Depois cê pode me dar conselhos. — debochou, revirando-se no sofá. Antes de se erguer. — Agora vou voltar a dormir. Com a Victoria. E você vai subir comigo.
Juntos, voltamos na direção das camas, convencidos de que nenhum membro do nosso Clube Desconfiado acordaria tardiamente. Normal e quieta, a noite parecia calma e agradável. Exceto por um pequeno barulho contínuo, como um gemido, que mais parecia ser um cano rangendo ou um gato miando em algum lugar. Mas como em toda noite tranquila, sempre criávamos sons projetados por nós mesmos para nos assustar. Não devia haver mesmo alguém chorando. Quem viveria atrás das paredes, afinal?
Topázio.
Quando Thaís terminou de cantar, notei que finalmente havíamos descoberto quais eram os seus poderes. Uma voz encantadora. Contagiante. Seus sentimentos foram implantados nos mais influenciáveis, e foi quase divertido esconder minha diversão com todo aquele drama. Só queria ver a cara de Cecília, se pudesse ver o quão boa eu era. Além do mais, era quase fácil demais lidar com nossos novos hóspedes. A maioria era jovem, e ingênua demais, apesar do que supostamente haviam passado no mundo exterior. A verdade, era que muitos ali estavam contentes em entregar seus problemas nas minhas mãos. E eu, mais que feliz em tirar a carga de seus ombros. Quem diria que eu, a jovem abusada pelos pais e pelos tios, um dia seria uma deusa? Nunca alguém ousaria me tocar ou ferir de novo. Como a única esperança de proteção daquelas pessoas, eu era tão valiosa quanto a própria vida. E sabia que seria fácil convencê-los de qualquer coisa que eu pedisse.
Mas é claro que como em qualquer colheita, algumas maçãs do meu jardim estavam bichadas. Podres. Mas alguns adolescentes, um cara marrento e uma velha ridícula não seriam problema. Eu simplesmente teria de lidar com aqueles inumanos em breve. Os outros, depois, seriam facilmente disciplinados. Repeti algumas histórias que Cecília havia me contado, falando as mesmas baboseiras que ela usara para me confortar e para passarmos o tempo no porão, antes que eu finalmente conseguisse voltar à superfície. Emocionados, tanto aqueles que já viviam sob meu comando, quanto os que haviam chegado no dia anterior, pareciam beber minhas palavras. Carregando-as com meu poder, fui firme em minha intenção. Mesmo sem verbalizar meus comandos, seria fácil canalizar meu dom. Minha voz por si só já era capaz de derrubar as defesas mentais dos mais resistentes. Quanto mais tempo vivessem comigo, mas frágeis os teimosos se tornariam. Eu tivera mais de um ano para praticar meus poderes, e para ampliá-los. Não os temia como evidentemente fazia a garota loira, que viera com o novo grupo. Eles eram fáceis de ler como um livro aberto. Idiotas. Ao terminar as explicações básicas sobre a religião que eu fingia professar, notei o olhar de um dos membros do grupo de Ricardo. O cara parrudo, grande como um ogro, com músculos sólidos e largos. Ele parecia fascinado por mim. Quase tanto quanto Alexandre.
Quando todos se dispersaram, notei que ele havia permanecido no mesmo lugar. Sorrindo, apalpei meus cabelos, arrumando os cachos firmados pelo laquê. Aproximei-me dele, e sorri, colocando a mão em seu ombro direito. Com a cabeça, fiz um gesto em direção ao balcão do bar. Sem esperar que me seguisse (não havia chance de que não o fizesse), sentei-me ao lado de uma garrafa de uísque, e servi uma generosa dose. Entreguei-a para o rapaz, que pareceu surpreso por ver-me servindo-o. Depois, pus um pouco de vinho em uma das taças sobre o balcão, e sorri para o rapaz, dando um gole.
– Olá, querido. Não tivemos a chance de nos conhecermos bem, imagino. Qual o seu nome? — indaguei, piscando meus cílios enormes.
– É verdade. — ele estava vermelho. — Meu nome é Mozart. E você é Topázio.
– Sim, eu sou. — sorri, pousando a mão em seu antebraço. — Sabe, Mozart, eu estava reparando em você. É muito bonito, e tem uma voz boa. Era cantor, antes disso tudo?
– Minha mãe era pianista. — ele acenou em concordância. — Ela me influenciou um pouco. Eu tentei ser profissional, mas não deu muito certo. Mas pra todos os efeitos, eu era cantor, sim.
– Como Thaís. — observei. — É impressionante como existiam pessoas talentosas no mundo. Tantas que era raro que alguma tivesse a oportunidade de que precisava. Hoje, vocês artistas são tão raros. — sorri, escondendo meu olhar ao incliná-lo levemente para baixo. Em suma, eu estava fingindo-me de encabulada.
– Obrigado. É difícil que alguém repare em mim. Ainda mais que me elogie dessa forma. — ele olhou para baixo, parecia um pouco triste.
– É porque não o valorizam muito, não é Mozart? — perguntei, cruzando as pernas e revelando um pouco mais do que deveria. Ele pareceu engolir à seco. — Sinto que você não é tão próximo do grupo com que veio para cá. Posso perguntar o que ocorreu? — o acariciei levemente, e minhas unhas rasparam em sua pele. Ele arrepiou-se por completo.
– Pra ser sincero, odeio essa gente. Quero me vingar desde que os conheço. São os responsáveis por matar todos que eu conheci. Meus amigos, todos mortos. E tudo começou quando o tal Diogo matou três dos nossos, no ano passado. Sei que parece loucura, mas não consigo esquecer. — ele confessou, com os olhos vidrados. Não podia ser melhor.
– Bem, e se eu te prometer que posso dar-lhe a vingança que tanto deseja? — ele pareceu assustado, sem saber porquê havia me confessado seus segredos mais profundos. Pobrezinho. Mas apesar disso, estava curioso à respeito do que eu dissera. — É simples. Te entregarei este Diogo, mas no momento certo. Bem como outros, todos que causarem problemas. Você só precisará me servir, me proteger, me obedecer. Sem questionar.
– Combinado. — ele parecia um cãozinho com um osso grande demais em sua boca. — Faço o que precisar. Vou te ajudar a manter esse grupo em segurança, Topázio. Você me compreende como ninguém jamais faria. Obrigado. De verdade. E não só aceito ajudar, como também quero ser parte do culto. A Deusa é mesmo incrível. — ele estava mesmo emocionado? Que fofo. Levantei-me e beijei sua bochecha. Mais um pet pra coleção.
– Tenho certeza de que vamos ser uma grande equipe. — sorri, acariciando-o gentilmente. — Considere-se um membro precioso, importante, do meu Coven.
– Importante? Eu? — ele repetiu, lisonjeado.
– Essencial. — ri, apertando sua bochecha. — Nos vemos amanhã. Tenho algumas coisas para lhe contar, e algumas a pedir.
Concordando com um gesto, Mozart ficou olhando-me enquanto afastei-me na direção de Alexandre e Thaís, que conversavam com Dante. Troquei um simples olhar com os dois, e eles sorriram maliciosamente, mirando Mozart, que sorriu-lhes de volta. O loiro burrinho pareceu perder algo, e de fato havia perdido, mas não ficou curioso depois que seu olhar cruzou o meu. Com o cérebro afetado pela água do mar, Dante parecia ser, como estrategista, um excelente surfista. Ingênuo como uma criança, havia sido um dos mais fáceis de dominar. Assim como Mirla e Manuela, as gêmeas com muito silicone, e pouca personalidade. Era interessante perceber que meu jogo de poder evoluía à medida em que meus alvos representavam um desafio maior. Eu tinha alguns aborrecimentos com que lidar no futuro, mas com certeza, seria interessante. E não importava quem eu tivesse que eliminar, ou quem eu precisasse seduzir. Ninguém escapava dos olhos de Topázio. Dirigindo um sorriso na direção de Ana e Sabrina, notei que a garota negra parecia especialmente encantada por mim. E já fazia algum tempo que eu não me aventurava em um relacionamento, digamos, diferente. E brincar com as duas seria um renovo para meu vigor. Carolina já havia se provado útil com suas informações sobre Fernanda, e em breve, meu lindo bebê nasceria. Sim, meu. É óbvio que sem hospitais e recursos, um parto seria arriscado. Quem melhor do que eu para cuidar da criança, depois que a pobre ruivinha morrer, durante o nascimento?
As opções eram vastas. E minha criatividade, infinita...
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