Quebranto.

46 O Primeiro Elemento é o Ar.


Notas iniciais
Mais um capítulo, gente! E para aqueles que me perguntaram, a resposta é sim. Teremos mais uma temporada de Quebranto! Mas não se preocupem, ainda falta um bocado para Falsos Profetas acabar, então fiquem sossegados. Ah, só para avisar, provavelmente a segunda temporada terá vinte cinco capítulos, e não trinta como a primeira. Apesar da diferença, a segunda temporada teve capítulos maiores, então acho que no tamanho, está igual. Boa leitura, morceguinhos! Preparem-se que esse está cheio de emoções!

Topázio.

Dois meses. Tanto tempo havia passado, bem mais rápido do que mesmo eu esperava. Naquela noite em especial, eu estava particularmente contente enquanto descia as escadas na direção do cativeiro de Cecília. Fitando-a de longe, notei que ela parecia um pouco mais pálida que o normal. Estaria doente? Eu não podia correr tal risco. Com os cabelos castanhos, claros e sem vida cobrindo-a, a ceguinha escava curvada sobre o prato de comida que eu lhe dera. Pobrezinha. Precisa comer bastante para suportar as doses cavalares de alucinógenos que eu a obrigava a tomar dia sim, dia não. A porta atrás de mim abriu e fechou-se novamente, e mirei Mozart enquanto ele descia até estar sob a luz fraca da lâmpada de néon branca. Ao lado dele, Thaís parecia solícita, quase animada.

– Alexandre chegou? — perguntei, notando que o sorriso de minha amiga só poderia significar isso.

– Sim. Com o grupo de busca inteiro. Parece que ele não conseguiu se livrar do Jonas. Ele é duro na queda. — respondeu-me, agitando os cabelos. — Por um lado, isso é até bom. Assim conseguimos suprimentos. O quarteirão que Cecília abrange já está esgotado.

– Eu avisei que ele era útil. — acrescentou Mozart, rindo. — Não precisamos tanto do Diogo com o fortão por perto. Acho que logo vou poder dar um sumiço nele, né?

– Veremos. — respondi. — Primeiro, quero saber se Alexandre conseguiu me trazer a encomenda especial que fiz. Diana está me dando nos nervos. Não aguento mais vê-la espionando por aí.

– Pelo menos o tal do Hugo se acalmou. Eu sabia que se eu fizesse ele fazer as pazes com Ricardo, íamos tirar ele do nosso caminho. — Thaís mexeu nas próprias unhas, mirando-as sob a luz. — Nanda e Gabriel também pararam de investigar. Parece que estão ficando mais próximos, e esquecendo de ter dúvidas sobre nossas intenções. Vamos dobrá-los aos poucos.

– Sim, mas concordo em matarmos a coroa. — Mozart parecia entediado. — Ela dá nos nervos com o papo de Jesus.

Ignorando-nos, Cecília terminou sua refeição. Mirando o ambiente ao redor com seus olhos cobertos por uma fina membrana cinzenta, aconchegou-se contra a parede, ficando o mais longe possível de nós. Mesmo naquelas condições, ela poderia ser considerada bela. Tinha as unhas um pouco amareladas pelas substâncias que eu a obrigara a tomar, e bem grandes também. Mas além disso, não estava tão suja quanto antes. Eu havia dado-lhe um banho não faziam nem três dias. Divertindo-me um pouco, devo admitir, puxei-a pelos cabelos, sob os olhares humorados de Mozart e Thaís. Era como exibir-me para uma platéia fervorosa. Tirei uma cartela de comprimidos de dentro do meu decote, e meu vestido branco acabou sendo manchado de poeira quando ela tocou-me com sua mão suja. Apertei um pouco mais, e puxei-a para longe, fazendo a garota gemer e lacrimejar. Mas ela estava muda. Como uma ovelha para o abate, parecia pura e inocente diante das minhas agressões. E não me dava o prazer de ouvir nem o menor ruído de sua boca. Fiz um sinal com a mão, para que Thaís se aproximasse. Minha cadela de estimação segurou as bochechas de Cecília com sua unha, e sentou sobre ela quando a cega começou a se debater. Rindo, Mozart cruzou os braços analisando a cena. Abrindo uma garrafinha que havíamos enchido com água do filtro, entregou-a para Thaís. Eu retirei os comprimidos de rivotril da cartela (eles deviam estar vencidos àquela altura, mas quem se importa?), e enfiei na boca daquela sem sal irritante. Thaís virou a água, obrigando-a engolir. Ela tentou cuspir o conteúdo, mas minha fiel companheira a manteve de boca fechada, suas unhas inumanas mais resistentes arranhando-lhe o rosto. Largamos a imbecil depois que ela finalmente havia dado-se por vencida. Ofegantes, nos afastamos enquanto Cecília se contorcia sobre o colchão onde permanecia com o passar dos dias. El estava chorando baixinho, arfando com a invasão em seu corpo.

– Não adianta lutar. Você sabe que vai acabar obedecendo. É melhor simplesmente beber logo os remédios. — resmungou Thaís, sacudindo a água que havia espirrado em sua blusa de mangas compridas.

– Eu não aguento mais... — ela gemeu. Finalmente uma resposta. — Tantas drogas, estão me matando. Se vocês não pararem, logo não vou suportar.

– Então temos um impasse. — eu disse. — Porque se você não se droga, seu campo de força diminui. E não podemos ficar sem proteção.

– Eu não sou uma máquina. Se eu não puder descansar, não vou durar muito tempo. Vocês precisam saber disso. — garantiu-me, e senti um estranho arrepio na espinha. Maldita.

– Sabia que você era capaz de ver o futuro, ou partes dele. — troquei um olhar com Mozart. — Segure ela. — ele a segurou pelos ombros, erguendo-a. — Diga-me, quanto tempo ainda temos? Quem ainda resiste a mim? Como posso me livrar deles?

– Não tenho todas as respostas. As coisas simplesmente veem na minha cabeça. — ela ofegou, com dor nos braços que Mozart mantinha presos. — Topázio, eu sinto muito por você. De verdade. Deve ser horrível carregar uma dor tão profunda, tão grande...

– Do que ela está falando? — inquiriu-me Thaís, confusa.

– Falo de tudo o que seu motorista fazia, quando seus pais não estavam em casa. — sussurrou Cecília, fitando-me com seus olhos cegos. Ardendo de ódio, senti minha boca escancarar, sozinha. — Falo de todas as vezes em que você chorou e gritou por atenção, e bateu na porta trancada de sua mãe depressiva. De todas as vezes em que viu seu pai com a empregada, e apanhou até perder os sentidos. Falo da dor que sentiu, quando ficou grávida e perdeu o neném do unico homem que já amou. E falo da dor que sente agora, e da inveja. Porque nenhum Inumano, pode procriar. — suas palavras foram como navalhas em meu ego. Desgraçada.

O mundo ficou vermelho. Antes que eu pudesse me controlar, estava gritando e correndo para cima de Cecília, batendo e espancando-a desesperadamente. Mozart se assustou com meu surto, e com cada músculo do meu corpo vibrando, senti que nem se eu quisesse poderia me segurar. Thaís correu e me segurou por trás, tampando minha boca e contendo meus espasmos. Uma crise de nervos? Acho que foi mais um ataque psicótico. Cecília suspirava e chorava, pedindo desculpas, mas eu queria ver sangue. Pouco me importava que ela fosse um escudo. Não fosse pela aparição súbita de Alexandre, que pegou-me no colo à força e me afastou da cega, acho que eu poderia tê-la matado. Aquela garota não era normal. E eu a odiava com todo meu ser. Mas uma coisa era certa. Se eu não poderia jamais ter um filho, então Fernanda não poderia ter surgido em hora melhor. Tudo o que me preocupava de verdade, era como fazer tudo o que eu desejava, o mais depressa possível.

– Trouxe o que te pedi?! — quase gritei, arfando no colo de Alexandre. Ele colocou-me no chão outra vez, e recompus-me com dificuldade.

– Com certeza, madame. — ele sorriu. — Aqui está. — ele tirou um pequeno frasco de vidro do bolso de trás da calça. No potinho lacrado de vidro, uma barata maior que o normal debatia-se, circulando o interior do recipiente com movimentos incansáveis. Uma mutação pequena e discreta. Jeito fácil de me livrar de alguém. — Foi difícil pegar essa belezinha sem que ninguém descobrisse. Mas a coroa nem vai saber o que a atingiu.

– Ótimo, querido. — sorri, encantadora.

Aquilo, sem sombra de dúvidas, deixava o meu humor muito melhor.

Fernanda.

– Esse vestido está lindo. — sorriu Diana, fitando-me com um afeto materno que antes eu só sentira, nos braços de Madeline. Ela parecia feliz por mim. Somente alguém muito atento poderia notar alguma diferença em minha aparência. Além de um pouco mais de peso, e uma leve ondulação no estômago, não havia nada que indicasse uma possível gravidez. Afinal, eu só estava com três meses de gestação. Pelo menos, a fase pior dos enjôos constantes, havia passado.

– É, foi meio complicado de pegar esse. — Carol comentou, com um sorriso. Fatalmente, havíamos feito as pazes pouco depois do incidente no qual ela contara meu segredo para todos. Pra ser sincera, com o afastamento de Ana e Sabrina (as duas só andavam com Thaís e Topázio para cima e para baixo), eu havia encontrado nela uma amiga sincera. Assim como Vicky, Hugo ou Diana. — Mas pelo visto, valeu à pena. Você vai poder usar por muito tempo, mesmo nos meses que virão.

– Essa última expedição foi complicada mesmo. — concordou Jonas. — Só Carol pra conseguir correr no meio de uma loja cheia de zumbis, e ainda escolher as roupas do tamanho certo. Ela era corredora na escola, Vicky?

– Da equipe de atletismo. — concordou Victoria, mais bela que nunca. Termos um pouco de civilidade havia feito bem a todos. A limpeza nos deixava mais belos, e isso era um fator raro no Apocalipse. Sentamos num círculo sobre os colchões dos camarotes, estávamos acostumados a passar ali nossas tardes, depois do almoço. Era um momento onde cada um buscava fazer o que mais relaxava. Lavínia geralmente levava os gêmeos para a cozinha, para preparar o jantar. Hugo e Ricardo iam jogar xadrez no bar, enquanto Topázio se recolhia com o grupinho favorito na sala de orações misteriosa.

Eu sinceramente já havia desistido de descobrir o que havia lá embaixo. Nada saíra dali para nos surpreender durante dois meses. Certamente não devia ser nada demais. Apenas um espaço considerado sagrado para a religião da Topázio. Gabriel me olhou com admiração enquanto eu girava lentamente, com o vestido longo cor de creme que Carol trouxera. Um modelo típico para grávidas, mas muito bonito com os pequenos detalhes metalizados em dourado espalhados pelo tecido. Sentir seu olhar sobre mim me fez sentir ardor nas bochechas. Num reflexo involuntário, toquei meu crucifixo de prata, percebendo que eu não fazia aquilo há muito tempo. Muito tempo mesmo. De alguma forma, era como se apesar de todas as tragédias e perdas, minha fé estivesse se renovando como as estações. Como a chuva, e o sol. Morte e vida. Eu me sentira morta quando Arlindo destruíra minha pureza, já abalada pelo fim do mundo. Mas de uma maneira libertadora, não doía mais lembrar daquilo. Eu decidira, inclusive, nunca mais mencionar o nome daquele homem. Nem em pensamento. Meu filho seria lindo, e seria bom. Porque eu era boa o bastante para cuidar dele. Tudo daria certo. E, mesmo que não desse, eu tinha uma família. Pessoas dispostas a proteger minha criança, e a cuidarem dele como se fossem os pais. Eu era amada. E no fim, essa pequena e sublime verdade era tudo o que importava. O amor, é capaz de envolver em si, tudo o que há de sujo e imperfeito. Ele transforma o mau em bom. E com certeza, transformaria qualquer gene que pudesse passar a maldade de Arlindo para minha criança, em algo positivo. E, apesar da doença que ele tinha, provavelmente aquele homem devia ter algo de bom. Nem que fosse uma carcterística física, ou uma habilidade. Só era preciso ter fé. E isso, nunca foi algo de que senti falta, na vida. Me aproximei de Gabriel, e peguei sua mão. Abraçando-me por trás, ele virou na direção dos meus amigos. Era a hora da verdade.

– Pessoal, eu e Gabriel queremos contar algo. — comecei, rindo como uma criança. As meninas já haviam percebido tudo, mas logo Diogo subiu as escadas, juntando-se a nós com Dante, o surfista bonitão, ao seu lado.

– Que foi, ruiva? Vai dizer que conseguiu o milagre de ficar grávida de novo? Tá gerando dois bebês ao mesmo tempo? — caçoou, recebendo um soco de Victoria, quando aproximou-se dela. — Au! Foi mal!

– Idiota... — resmungou Vicky, enquanto Carolina ria da situação.

– Estamos namorando. — completou Gabriel, querendo impedir outra briga. Todos comemoraram, até que Otávio aproximou-se, com as gêmeas Mirla e Manuela ao seu lado. Ele parecia um pouco incomodado, apesar de tentar disfarçar bem.

– Vocês precisam ver isso. — ele chamou, sério.

Descemos para o andar inferior, e tudo o que vimos, foi um cenário de guerra. Uma mesa com quatro cadeiras tinha sido virada, e um jarro de suco havia se espatifado no chão. Os copos que haviam sido postos ali, também espalhavam-se, em cacos de vidro. Flanqueada pelos gêmeos, Lavínia chorava com a cena que se desenrolava à sua frente. Tensos, Marcílio e Dimitri tentavam conter os avanços de Sabrina, que parecia transtornada. Ela gritava ofensas para Ana, e a xingava de nomes horríveis, enquanto minha amiga era amparada por Tânia. Eu nunca entendera bem a relação daquelas duas. Longe de condenar o lesbianismo, eu somente não conseguia aceitar como alguém de personalidade tão forte quanto Ana, havia aceitado ser guiada por Sabrina como um fantoche. Mas, pelo que eu pude notar, aquilo estava prestes a terminar. Próxima de Ana, Topázio parecia desolada. Tinha uma expressão culpada no olhar, e olhava para o chão. Por algum motivo, não me convenceu. Abraçada com Alexandre, Thaís olhava o barraco como se estivesse cansando de um programa chato na televisão.

– Sua traidora! Logo com a Topázio! Como pôde fazer isso? — esganiçava-se Sabrina, enquanto todos se olhavam, horrorizados. Chocada, olhei para Otto. Ele deu de ombros, indicando que também não sabia de nada entre Ana e nossa líder. Ah, sim, Ricardo cedera a liderança para Topázio nos últimos dois meses. Ele estava tão ocupado numa lua de mel sem fim com Hugo, que parecia contente com os desmandos da loira. Como ela me tratava bem e não havia rolado nada de errado, todos concordamos. Mas naquele momento, percebi que estava explicado o motivo para Ana ter se afastado tanto de todos nós. — É inacreditável! Como ela pode ter preferido você, e não a mim?! — esbravejou Sabrina, e então Ana arregalou os olhos. Deus. Ela estav com ciúmes de quem, afinal? De Ana, ou de Topázio?

– Sabrina, chega. — pediu a própria, aproximando-se de Ana com mais um de seus inúmeros vestidos brancos. Ela nunca havia vestido outra cor, desde que eu me lembrava. — Eu e Ana não planejamos nada. Só aconteceu. Íamos contar, mas nenhuma de nós queria te ferir. Por favor, me perdoe...

– Eu sinto muito. Por tudo. — Ana estava chorando. — Mas nós não estávamos bem. Há muito tempo. Você não me ouve. Não me vê. E eu não podia mais. Só lamento que tenha descoberto assim.

– Então é isso? E tudo acabou? Estou jogada fora? — ela perguntou, libertando-se de Dimitri, aparentemente mais calma. — Só quero que saibam que pra mim, as duas morreram. E nem fodendo vou embora da boate. Tenho o direito de estar aqui, seja minha presença agradável ou não. E você... Agora vejo quem você é. — ela voltou-se contra Topázio. — Falsa, traiçoeira. Uma tremenda filha da puta! — Thaís ameaçou avançar na direção da briga, mas com um olhar, Victoria a deteve. — Se aproximou de nós duas, conquistou nossa confiança! E agora, só provou que é uma grande mentirosa. Mas sua máscara vai cair, vadia. — ela olhou para Ana. — Não vou desistir de você.

Sem mais, Sabrina passou por todos nós como um foguete. Ela saiu da boate rapidamente. Os poderes de Topázio nos garantiam um quarteirão inteiro livre de monstros. Ela poderia sem a menor dificuldade, esconder-se numa das lojas mais próximas, até esfriar a cabeça. Mas ruim mesmo, foi o clima que ficou quando ela foi embora. Todos olhavam uns para os outros, sem saber o que dizer, ou fazer. Ninguém estava realmente acreditando. Para mim, Ana e Sabrina simplesmente haviam se tornado um pacote completo. Era estranho vê-las novamente de modo separado. Para ser honesta, eu nunca gostara muito de Sabrina. Além de não fazer muito esforço para se enturmar, sempre comportou-se como se tivesse algum tipo de autoridade sobre Ana, e como se nós os amigos, fossêmos apenas um passatempo para sua namorada não reclamar. Sei que é um lixo de analogia, mas foi o melhor que consegui. Tenho certeza de que, naquele momento, Otávio tinha muito a dizer sobre aquela situação. E eu, estava louca para ouvir. Sem querer, esbarrei em Ricardo quando fui virar-me para voltar para perto de Gabriel. E então, notei que ele e Hugo continuavam jogando numa mesa próxima, sentados como se nada houvesse ocorrido ao redor. Não fui a única a notar aquilo, mas ninguém disse nada, então calei.
Mais tarde, sentada no bar ao lado de Gabriel, com Diana, Victoria, Diogo e Otávio à minha frente, notei que nem todos nós estávamos conformados com a situação.

– Parece que Sabrina pegou as duas se beijando, na sala do gerador. — comentou Otávio, com seu jeito rápido de nos informar sobre o essencial. — Lavínia ouviu sons estranhos vindos de lá, e pediu ajuda pra Sabrina. Quando a confusão estourou, a pobre coitada se sentiu culpada por tudo, por isso tava chorando.

– E como! Aquela ali sabe como se sentir triste! — brincou Gabriel, e eu ri, dando-lhe um tapa em seguida. — Foi mal. — ele retratou-se, aquietando de novo.

– Marcílio me falou que Sabrina já tinha conseguido dar uns tapas na Topázio, antes que ele e o Dimitri separassem as duas. Ela nem reagiu. Nem pareceu sentir dor... — sussurrou Diogo.

– Isso é muito creepy. — falou Vicky, com uma expressão de nojo no rosto. — Eu também sou inumana, mas sinto dor.

– Vai ver como sempre, ela estava fingindo. Não seria a primeira vez. — sentenciou Diana. — Tenho quase certeza de que há algo realmente importante na sala de orações de Topázio. Temos que arrumar um jeito de entrar lá, nem que seja à força. Algo me diz que a fonte do poder dela, vem de lá. Não da mutação. Temos que tomar cuidado, e talvez, até mesmo tentar chegar no porto, e encontrar aquele barco. Victoria ainda tem as chaves guardadas, não tem? — Vicky assentiu. — Então. Podemos pegar bastante gasolina, e ir para o mar aberto. O que acham?

– Que viagem Di. — Gabriel riu. — Todo mundo já desencanou da sala de orações. Deixa a mulher fazer a bruxaria dela, coitada. Além disso, estamos melhores nos últimos meses, do que em mais de um ano. Cês nem imaginam o que foi ficar semanas trancado num quiosque, no meio do nada. Enlouquecedor. Não quero ficar trancado num barco, no meio do mar. Se caranguejos podem ser mortais, imaginem os tubarões!

E no clima de brincadeira, logo mudamos o assunto para questões mais suaves. Ninguém queria pensar no fato de que tudo sobre Topázio, era suspeito. Ela era a única que não contara mais sobre sua vida, em todo esse tempo de convivência. Todos já conhecíamos Dante o suficiente para saber que ele tem dislexia, e que é amigo de Dimitri desde antes do Dia Z (forma divertida como Lavínia chamava o dia em que tudo havia começado. Ela dizia ter ouvido esse termo num blog antes da internet mundial cair.). Marcílio era um dos seguranças da boate, o único que sobrevivera o suficiente para ajudar a reunir um grupo de sobreviventes ali. As gêmeas estavam acompanhando Topázio (que havia sido contratada por Dimitri para Dante), e acabaram se perdendo dela quando tudo começou a desmoronar. Lavínia fora convencida a ir para a boate comemorar sua despedida de solteira com a mãe, a irmã, duas primas e uma tia. Todas haviam sido mortas. Quem olhasse para a gentil professora, jamais imaginaria que ela passara por tanto sofrimento. Na cara dura, Alexandre havia admitido ser um traficante que vendia drogas por debaixo dos panos para clientes ricos. Ele havia contratado Thaís pela internet, o que era engraçado considerando que naquele momento, ambos eram inseparáveis. Nenhuma palavra sobre Topázio havia sido proferida, no entanto. E tirando algumas (pouquíssimas) pessoas, ninguém parecia curioso sobre isso.
Quando tudo se acalmou e Lavínia anunciou que logo o jantar seria servido, todos começamos a nos preparar para comer. Foi uma refeição tensa, considerando que tanto Topázio quanto Ana permaneceram mudas e retiraram-se juntas para o andar de cima sem falar nada com ninguém. Sabrina ainda estava desaparecida, e a pobre Lavínia saiu da boate atrás dela com um prato de comida na mão. Os gêmeos foram os únicos que realmente pareciam animados, insistindo para que todos comecem o purê de abóbora que haviam feito. Eu preciso admitir que estava melhor do que parecia. Depois de comer, fui seguida por Gabriel até o exterior, e Sabrina passou por mim direto, entrando na boate. Ela não parecia nada contente. Lavínia por outro lado, estava sentada numa poltrona próxima à porta, com um livro que eu nunca vira antes na mão. Toquei seu ombro quando passei por ela, e nós duas trocamos um sorriso afetuoso. Eu esperava que com esse gesto, ela soubesse que ninguém a culpava pela confusão mais cedo. Fitando o céu cheio de estrelas, senti o vento forte de março chicotear o meu vestido, fazendo com que meu corpo ficasse marcado por baixo dele. Andando ao meu lado, Gabriel permanecia calado, embora eu soubesse que ele estava curioso para saber o quê eu pretendia. Olhando para a rua limpa e intocada pelos monstros, suspirei pensando que era quase como no passado. Uma noite tranquila com meu namorado, numa rua deserta após um jantar. Mas eu sabia que se virasse a esquina e continuasse seguindo em frente, poderia não voltar mais para a boate. Então, parei em frente à um estabelecimento que assemelhava-se muito com uma lanchonete. Há muito tempo a placa com o nome do lugar havia caído e seus restos, tornado-se ilegíveis. Mesmo assim, acenei na direção do lugar, e Gabriel não perdeu tempo. Segurou minha mão e guiou-me através do portãozinho de ferro, já arrombado por Dimitri e seus rapazes, quando haviam vasculhado o lugar mês passado.
Entramos na lanchonete, e logo sorri, ao notar nosso pequeno cantinho intacto. Um colchão fino havia sido arrumado ali, com cobertores macios e travesseiros fofos. Nunca havíamos dormido naquele lugar, mas era um esconderijo interessante para quando Diana desejava conversar ser que pudéssemos ser ouvidos. Só o grupo de excluídos por Topázio usavam o lugar, onde podíamos conspirar à vontade, sem medo de sermos pegos. Naquele dia, eu havia planejado algo diferente. Em cólicas, eu estava nervosíssima, mas Victoria garantira que tudo sairia bem. Carol então, estava louca para saber os detalhes no dia seguinte. Eu, estava apavorada.

– Então, qual o mistério? — indagou Gabriel, rindo.

– Nenhum! Nenhum. É. — ri, vermelha. — Bem, eu queria te dizer que pensei bastante, e decidi que estou pronta pra tentar... aquilo.

– Sério?! Hoje?! — ele parecia pálido, o que era engraçado de alguma forma.

– É. Por que? Tem que marcar hora? — debochei, puxando a veia cômica de Diogo. — Olha, eu estou uma pilha de nervos. Cê sabe que minha experiência anterior foi o pior possível, e foi a única. Eu nunca antes havia estado com um garoto. Então, se você não quiser esse tipo de coisa comigo, com o bebê e tudo o mais, vou entender...

– Não é nada disso. — ele fez carinho no meu rosto. Sua cara de criança era mais que fofa, ele parecia um exemplar daqueles adolescentes de filmes românticos teens. Nem podia acreditar que estava ali comigo. — Eu amo você, Nanda. E, sabe, os bebês sentem o amor, quando os pais ficam juntos. E é óbvio que vou ser o pai do seu neném, então não tem problema ficarmos juntos...

– Então o que tá te deixando incomodado? — perguntei, abraçando-o gentilmente.

– Bem, é melhor eu dizer de uma vez. Você vai me achar um idiota quando eu disser... — ele parecia nervoso. Fiquei assustada.

– Fala logo! — bati o pé como uma criança fazendo pirraça, em seus braços.

– Sou virgem. — o silêncio inundou a Terra. — Pronto, falei. É minha primeira vez, e não sei o que fazer.

– Era isso? — perguntei, rindo. Ele fez cara feia. Então o beijei. — Acha que eu aprendi alguma coisa sendo estuprada? — ok, brincar com isso era pesado, mas eu queria mesmo quebrar o gelo. — Também não sei nada. Vamos descobrir o amor de verdade juntos. Só estou aqui, porque confio minha vida à você. É o único meio de eu aceitar que me toquem de novo. Confiando. Então, confia em mim também, tá?

– Ok. Cê tá certa, como sempre. — ele riu. Um sorriso de verdade, que inundou o nosso cantinho de felicidade.

Meu vestido caiu como se fosse vivo, deslizando pelo meu corpo quando desamarrei a alça presa atrás do meu pescoço. Desfiz o laço, e observei o rosto de Gabriel enquanto eu me desnudava. Eu não estava usando nada por baixo. Por isso, não contive o reflexo de tentar me esconder, me proteger. Ele segurou minha mão, suavemente. Beijou meu ombro, e nossas respirações conversaram, enquanto ele despia a blusa cinza de mangas, e abria o cinto de seu jeans negro. Os coturnos militares já haviam sido retirados, e estavam largados ao lado do colchão, com minhas sandálias baixas. Abraçando-me e permitindo que nossos corpos se tocassem sem barreiras, Gabriel deslizou uma das mãos pelos meus cabelos, que pareciam quase negros na penumbra. Mirando seus olhos profundamente escuros, sorri. Ele também.
Deitamo-nos, e por um momento, antecipei a mesma dor que eu sentira antes, mas ela não veio. Pingando suor e tremendo levemente, Gabriel estava paralisado sobre mim. Tentando facilitar as coisas, aconcheguei-me ao seu peito, e ele se sentou no colchão, puxando-me para cima. Deitada sobre ele, estabeleci o oposto do que eu vivenciara antes. Subjugada, eu fora forçada a participar de um ato que eu julgaria para sempre, abominável. Mas naquele momento, enquanto empurrava meu próprio corpo contra o de Gabriel, eu sabia que era eu quem estava no controle. Era era tão meu, quanto eu era dele. E estávamos verdadeiramente juntos. De corpo e alma. Saber de todas essas coisas, elevou meu espírito, me permitiu aproveitar cada toque, cada rajada elétrica que atravessava meu corpo. Eu estava tão feliz! Sem sentir, percebi que estava me movendo cada vez mais rápido, enquanto Gabriel parecia maravilhado em observar o meu corpo. Ele tomou meus seios doloridos em suas mãos, e os apertou. Uma descarga de adrenalina inundou meu corpo, e senti algo se rompendo como numa cascata dentro de mim. Desfaleci em seus braços, no exato instante em que ele exclamou sem nada dizer, e abraçou-me. Rolamos pelo colchão, e permanecemos unidos por muito tempo. Antes mesmo que qualquer um de nós dissesse algo, eu sabia que não dormiríamos na boate, naquele dia.

Topázio.

Silêncio. Quando a noite caiu e Ana finalmente dormiu ao meu lado, tive passagem livre para executar um dos meus mais bem elaborados planos. Ok, nem tão elaborado assim. Era até simples demais. Mas quanto mais simples, mais eficaz. As estratégias mais elementares, eram sempre as melhores, como dizia meu querido e odiado papai. Rindo em silêncio, beijei a testa de Ana. Não era nenhum sacrifício para mim fingir afeição por outra mulher. Deus, eu já havia feito isso milhares de vezes, todos os dias! Fingir era minha profissão, antes do Dia Z. E continuaria sendo, para sempre. Fingir prazer, fingir afeto, fingir amor, fingir amizade. Tudo o que eu alguma vez conquistara na vida, fora fingindo. E fora fingindo, que eu me tornara uma Profetisa. Ninguém acreditaria numa garota perturbada, que foi abusada por toda a vida, e subjugada durante anos por um empregado. Esse tipo de história clichê não seria a minha sina. Eu era poderosa, muito mais do que qualquer outra mulher naquele mundo. Por mim, haviam pessoas dispostas a morrer. E mesmo descobrindo sobre quem de fato protegia a boate, nenhum dos meus escolhidos vacilara. Todos entendiam que uma boa farsa, era melhor que uma verdade ruim. Cecília, como ela mesma dissera, não duraria para sempre. Quando a proteção acabasse, eu queria ter certeza de estar protegida de rebeliões. E com meus poderes de domínio e controle (duas coisas que eu nunca tivera na vida, antes), eu podia garantir isso e muito mais.
Descalça para não ser notada, caminhei entre meus colegas, todos dormindo. Eu sabia que Fernanda não estaria ali naquela noite. Carol havia me dito que ela pretendia surpreender Gabriel com uma noite de amor. Tanto melhor. Eu não queria correr o risco de ferir o meu bebê. Esperando-me ao lado da escada, Alexandre parecia concentrado na tarefa que eu encomendara. Lá embaixo, pude ver Thaís e Mozart, distraindo Dante e Lavínia, que por algum motivo, ainda estavam acordados. Contando as camas e as posições onde todos costumavam dormir, gravei na memória o lugar de Diana. Estendi a mão para Alexandre, e ele entregou-me o frasco com a barata. Lenta, mas determinada, aproximei-me de minha inimiga, notando os cabelos que apareciam por baixo do cobertor. Estava escuro e difícil de reconhecer cada um, mas eu sabia que não podia ser outra pessoa. Diana dormira naquela cama todo santo dia desde que chegara. Não tinha erro. Destampando o frasco de vidro (que havia sido um pote de maquiagem), sacudi a barata sobre a cama de Diana, deixando-a cair em cima dos cabelos de minha vítima. Sem esperar para ver o resultado do meu experimento, fiz sinal para que Alexandre me seguisse, e me afastei de Diana no exato momento em que a barata entrou sob as cobertas, com ela. Sem fazer qualquer barulho, deitei-me de novo ao lado de Ana, e aconcheguei-me a ela, serena.
Até que os gritos começaram. Alguém estava sentindo muita dor. Como se uma bomba houvesse sido detonada, todos começaram a acordar e a se surpreender com o que viam. Sonolenta, Carolina ligou a luz do andar de cima, e ao ver a pessoa que se debatia e corria de um lado para o outro como louca, gritou. Todos estavam horrorizados, enquanto minha vítima expelia sangue pela boca, e pelos ouvidos. As baratas sempre devoravam de dentro, para fora. Eu preparei-me para comemorar em silêncio minha vitória. Mas o problema, é que não era Diana, quem estava morrendo...

Notas finais
Alguma ideia para um shipper legal de Fernanda com Gabriel? Eles são tããããão cutes! XD E Topázio, hein? Será que o tiro saiu pela culatra? Ou alguém que amamos mais está perdendo a vida? Alguém curioso? Deixem suas opiniões e sugestões, vou amar lê-las! Kisses by DroppingPieces, e até o próximo!