Notas iniciais
Boa leitura, e espero que gostem desse tanto quanto eu gostei.

Otto.

Enquanto tentava limpar meu ferimento no braço, senti os olhos de Helena sobre mim. Certamente eu devia estar fazendo algo muito errado com o pano sujo que segurava entre os dedos, porque ela parecia prestes a sorrir a qualquer momento. Mirando-a, senti certo desafio de sua parte. Bem, eu poderia me virar sozinho. Só nunca havia parado para aprender sobre curativos com Tânia ou Ricardo. Isso não fazia de mim um inútil completo. Apenas não estava na minha zona de conforto. Sem dizer nada, ela amarrou os cabelos espessos num rabo de cavalo desajeitado, e sentou-se ao meu lado na mesa cheia de frutas roubadas da Fortaleza. Tirou o pano das minhas mãos, e começou a trabalhar no machucado, desinfetando-o com a ajuda de um remédio incolor que tirou de um dos bolsos. Mordi os lábios esperando pela dor, mas seu toque era gentil e foi como o espanar de uma pluma. Depois, Helena segurou firme em meu pulso machucado, e o enfaixou novamente. Desta vez com uma atadura limpa, para minha sorte.

– Um pouco melhor, não? — ela sorriu, admirando o próprio trabalho.

– Você sabe, eu poderia ter feito isso bem — defendi-me, mas ela apenas dispensou minha mentira, com um gesto.

– Aham. Escuta, não precisa se fazer de forte. Não vou contar pra ninguém que você estava chorando por causa de um machucadinho desses... — provocou-me, com um olhar malicioso.

– Mentirosa! Eu não estava chorando! Quase. Mas não cheguei a chorar! — Rindo, Helena sacudiu a cabeça com autêntica animação. — Ok, vai... Mas deixa isso quieto.

– Sem problemas, Otto — ela continuou sorrindo, enquanto pensava em algo. — Gosto de ouvir como seu nome soa assim. Deve estar me achando meio doida, né?

– Já que tocou no assunto... — ri.

– Ora, que maldade! Não sou tão maluquinha. Só queria distrair você um pouco. Deve ser difícil se perder dos amigos, dos familiares... Muito preocupado? — indagou-me.

– Bastante. Minha namorada, sabe. Ela é cega — contei, desabafando. — Não que seja frágil. Cecília é bem forte, mas não poderia se cuidar sozinha, não sem os dons inumanos dela. Esse mundo não é muito gentil com pessoas que necessitam de cuidados especiais.

– Nosso novo mundo não é gentil com ninguém, Otto. Sabe, minha ex-namorada costumava dizer que quanto mais lutamos pra vencer um obstáculo, mais ele parece maior. Até que o ultrapassamos. — Mal registrei o choque por Helena ter revelado sua sexualidade de modo tão casual. As palavras dela faziam sentido, e suplantaram minha surpresa. — Isso é só um obstáculo. Logo vocês estarão juntos de novo.

Eu esperava que sim. Conversando e mordendo uma banana, observei enquanto Faye caminhava pelo esconderijo, com Dino em seu encalço. Aqueles dois estavam se dando muito bem. Era curioso ver o quão fã de crianças aquela cientista era, e o modo como Dino parecia ainda mais jovial e inocente ao lado dela. Quase como se uma autoridade invisível estivesse convergindo para que ambos se dessem bem. Analisando-a com minha curiosidade indomável pude perceber as razões que me levariam naturalmente, a escolher a área da Comunicação Social, na faculdade que nunca farei. Deduzi com quase absoluta certeza, que Faye já tivera um filho. Agora, perdido para a doença. Somente isso explicaria a forma gentil e habilidosa com que ela conquistara a lealdade do garoto. Sem truques, ou lavagens cerebrais como as de Topázio. Apenas pura e simples amizade. O som de objetos sendo arrastados inundou a casa, enquanto o estágior magricela de Faye verificava os compartimentos de segurança, responsáveis por transportar as amostras da doutora. Arantes, Hugo e Dante, estavam ajudando com a arrumação para a viagem que nos levaria até o Porto da Barra e o Odisseu, barco da equipe de fugitivos. A única forma de terminar com aquilo tudo, era mesmo retornando ao local que queria vê-los mortos. Tínhamos de convencê-los que Faye conseguira produzir uma cura parcial, ao menos capaz de reabilitar inumanos. Essa era a missão da minha vida. Ao menos um norte a seguir, para manter-me raciocinando. Não podia ser morto até vê-la cumprida.

Hugo.

As caixas que Faye desejava empacotar estavam pesadas. Eu perguntava-me as razões para que alguém passasse tento tempo instalando tantos equipamentos, apenas para guardá-los todos de novo. Talvez eu estivesse pensando naquelas coisas da forma errada. A verdade, era que Helena havia salvado a todos quando nos encontrou naquela estrada bloqueada. E se uma forma simples de mostrar gratidão era carregando coisas, não devia haver problema algum nisso. Mas a inquietude e a incerteza eram o que mais me incomodava. Todos sabíamos que era questão de tempo até as pessoas que desejavam a morte de Keiko, nos encontrassem. Segundo Arantes, a melhor forma de prever um ataque, era nos preparando para ele ainda que não existisse sinal algum de uma invasão ou atentado. Com o suor acumulando-se em minha blusa tornava-se cada vez mais pegajoso, enquanto o calor e a fadiga faziam seu caminho para fora do meu peito, como inquilinos indesejáveis e malignos. Um hóspede maldito. Pensar na referência à Resident Evil, fez com que eu sentisse vontade de sorrir, lembrando das minhas noites em claro em frente ao vídeo game. Era aterrorizante, lidar com jogos de terror. Se eu soubesse quão próximo da realidade eles seriam um dia, talvez pudesse ter prestado mais atenção. Arfando e já duvidando da minha coerência, coloquei a caixa de papelão que carregava sobre a mesa de frutas, e olhei para Otávio e Helena, de relance. Os dois sorriram diante do meu sofrimento, mas não emiti palavra alguma. Na verdade, a única coisa que me incomodava mais do que meu próprio cansaço, eram os olhares de Dante.
Ele achava que me evitar faria com que suas palavras fossem menos revoltantes. Quem ele pensava que era, para me dizer que Ricardo não me amava? O pior de tudo, era que eu sequer podia confrontá-lo. Não com Arantes e o filho nos ajudando a carregar as coisas. Tenso, esfreguei as costas de minha mão direita no rosto, e tentei convencer meu corpo a abandonar a preguiça quase crônica, que era alimentada por meu estado letárgico e melancólico natural. Foi quando notei que Arantes estava me olhando, e fiz cara feia achando que ele me mandaria continuar o trabalho, como um maldito escravo. Mas para minha surpresa, seu filho Ruan aproximou-se de mim, e entregou uma garrafa d'água, com olhar solidário.

– Hum... Descanse, Hugo. Meu pai disse pra você beber um pouco de água, e tentar comer uma fruta. Ele acha que você está verde. — Será que eu estava? Certamente eu não me sentia muito corado.

– Obrigado, Ruan. Bem legal da parte dele — sorri, e o rapaz pareceu aliviado. Imaginei que ele devia ser apenas um pouco mais novo do que Otto, Viky e os outros. — Por que não costuma falar com a gente? Está sempre olhando pra esses contêiners de hidrogênio, sem parar...

– Eu não sou bom com pessoas, acho — coçou a cabeça. — Mas gosto de gente. Só sou tímido, mas acho que não seria tanto se não tivesse passado mais da metade da vida estudando. Entrei na faculdade com treze anos, e Faye me descobriu quando apresentei a tese do meu mestrado em biologia. Ela tem sido muito gentil, me permitindo trabalhar com ela desde então. Me ensinou muita coisa, é.

– Uau. Isso faz com que eu me sinta um completo inútil. Você já realizou mais do que eu jamais poderei. Seu pai deve estar orgulhoso — elogiei, realmente impressionado com aquele rapaz, que à primeira vista, seria o mais comum entre todos.

– Espero que sim — ele parecia inseguro. Percebi que devia haver uma história mais espinhosa entre eles. Uma relação sempre complicada, embora eu não soubesse dizer com certeza. Não havia conhecido meus pais, afinal.

Pousei a mão no ombro de Ruan, garantindo-lhe que qualquer pai ou mão ficaria honrado pela chance de ter um filho super dotado. Ele pareceu surpreso com o fato de que eu visse tal característica com admiração. Mas parecia ser este uma das sinas dos seres humanos mais iluminados. Nunca perceberem de fato, o quanto são valiosos para o propósito ao qual se dedicam. Só pude pensar em quão triste que uma menino como ele e Faye estivesse aqui fora, e que as pessoas responsáveis por caçá-los injustamente estivesse livre numa espécie de fortaleza contra zumbis e monstros. Sem querer, desviei meu olhar de Ruan cedo demais, e percebi Dante fitando-me por cima do ombro dele. Seus cabelos compridos estavam molhados de suor, quase brancos e mais amarelados pelos raios de sol. Sua pele bronzeada parecia brilhar com aquele suor todo, e a blusa de botões aberta fazia com que ele parecesse ainda mais desleixado. Por algum motivo, todo o charme que ele estava fazendo teve o efeito oposto sobre mim. Aquilo me irritou profundamente. Cumprimentei Ruan com um olhar, e saí do esconderijo, indo direto para a varanda frontal da loja de artesanato. Eu sabia que Dante me seguiria. Não virei para olhá-lo enquanto apoiava os cotovelos sobre o corrimão de madeira da varanda. Ele suspirou, mas estava relutante quanto ao que devia dizer. Ele sabia o que eu desejava que fizesse.

– O que você quer de mim, Hugo? — ele perguntou, e parecia bastante cansado. Quase mais velho.

– A verdade, Dante. Porque você não disse aquilo como uma simples suposição. Você não tentou me deixar em dúvida, não disse aquilo por nada. Sei que você não é um desequilibrado também, então deve haver alguma explicação para o que me disse. Qual é? O que te faz achar que Ricardo não me ama? Por que a certeza? — Eu não percebi, mas meu tom de voz estava em marcha progressiva. Me recompus ao fim da frase.

– Entenda. Essas são memórias que eu não queria compartilhar com você. Eu não queria usar isso a meu favor, e sinto muito que você tenha ficado sabendo desse modo. Sabe o que sinto por você, e espero que não interprete isso como jogo sujo da minha parte. Não quis te causar dor, e me odeio por não ter forças pra esconder isso de você. Não quando você me exije a verdade. Eu nunca vou mentir pra você, Hugo — quis dizer pra que ele falasse logo, mas subitamente, percebi que talvez eu devesse mandá-lo calar-se. Eu comecei a temer a verdade, e de forma triste, isso fez com que eu quisesse mais ainda ouví-la. — Ricardo te traiu, Hugo. Lembra-se de quando você ficou convencido a conseguir travesseiros confortáveis para os gêmeos, e obrigou Diogo a levá-lo com o grupo de busca? — apenas confirmei, apático. Não estava registrando mais nada depois da palavra "traiu". — Ricardo e Manuela ficaram bebendo até tarde. Ele ficou bêbado, e não quis tomar conta das crianças. Eu dormi com eles pra você, mas Vilma resolveu beber água de madrugada, e quando descemos para pegá-la encontramos os dois juntos.
"Ricardo ficou furioso. Ele achava que eu usaria aquilo contra ele, para separar vocês dois. Vilma ficou com raiva, mas eu pedi a ela que nunca contasse nada a ninguém sobre aquilo, e prometi a mim mesmo que nunca o afastaria de Ricardo contando essa história. Só não posso suportar ver você sofrendo e perguntando-se sobre o que teria acontecido com seu primo, pensando nele como um tipo de herói, e dedicando-se a procurá-lo. Fui egoísta ao jogar isso na sua cara. Poderia me perdoar? Se não quiser falar comigo, vou entender, é claro. Mas queria que me entendesse."

– Eu não acredito em você. Isso é mentira — Conversa. Eu sabia que era verdade. Aquilo era a cara do Ricardo. Só não imaginei que ainda pudesse doer tanto. Eu tentava não revisitar as lembranças do tempo em que nossa relação ainda era nebulosa, bem antes de toda a merda explodir no ventilador, e o mundo ir pelos ares. Rico não aceita ser quem ele era. Sempre bebia até tarde, e apesar de ser possessivo comigo, dormia com mulheres cujos nomes nem sabia, apenas para desviar-se do que de fato, sentia. Aquele mundo sem regras havia permitido que estarmos juntos fosse tolerável não para os outros, mas para Ricardo em primeiro lugar. Tia Madeline sabia o quanto tudo isso me fazia sofrer, e sempre tentou fazer com que eu encontrasse alguém, e esquecesse aquela loucura. O que eu não percebia na época, mas podia enxergar agora, era que não o fato de seu filho ser gay que a incomodava e sim seu estilo de vida desregrado. — Dante, por que você fez isso? — perguntei, com lágrimas ardendo apesar do meu esforço em não deixar passar emoção alguma. — Eu não sofri o bastante? Ricardo já pode estar morto. Você só teria que esperar um tempo, e talvez pudéssemos ficar juntos. Mas você estragou tudo! Não fale comigo nunca mais! — Recusei-me a pensar no quão infantil estava sendo. Apenas corri para dentro e passei direto pelos nossos colegas, que estavam pasmos pela gritaria que eu havia provocado. Realmente haviam problemas envolvendo meu tom de voz. Tranquei-me no quarto desejando não ser mais incomodado naquele dia.

Quem dera algo do tipo pudesse ocorrer num mundo como o meu.

Otto.
Eu nunca ouvira Hugo falar com tamanho desespero, antes. Quando gritou pela primeira vez, cheguei a pensar que Dante pudesse estar fazendo algo com ele. Mas aí notei quão improvável isso era, e Helena cochichou que talvez fosse melhor deixá-los a sós. De fato, eu realmente não gostaria nada de estar no meio de toda aquela explosão emocional quando meu amigo chegou ao seu limite. O que me surpreendeu de verdade, foi o fato de que ouvi no tom de Dante que ele dissera a verdade. Ricardo traíra Hugo, e ninguém ficara sabendo. Deus, imaginei quão difícil deve ter sido para ele guardar o segredo de um rival, quando a pessoa de quem ele gostava permanecia no escuro. Ele o fizera apenas para não acabar com a visão idealizada que Hugo tinha de Ricardo. Não havia pensando em Dante como alguém altruísta, até então. Mas foi fácil compreender quando imaginei Cecília em tal situação. Eu faria o mesmo por ela. O silêncio mortal jogou seu véu sobre nós, quando Dante entrou, de cara vermelha e totalmente envergonhado. Ele percebera que estávamos ouvindo tudo. E estávamos todos desconfortáveis. Faye veio dos fundos com Dino, sorrindo com algo que o menino dissera. Sua expressão feliz morreu ao notar nossos rostos.

– O que houve, gente? Ouvi gritos, mas achei que fosse só Arantes alardeando sobre algo. — Ela gesticulou com a mão na direção do militar, que a encarou de olhos cerrados. — O que te mordeu, Dante?

– Ele meio que se declarou pro Hugo e contou que o namorado atual dele o traiu. Ao mesmo tempo — resumi, deixando o coitado ainda mais embaraçado. Ele me olhou de olhos arregalados como se quisesse me matar, e Helena abafou uma risada. Minha especialidade era fazer as pessoas se sentirem como se quisessem sumir. Mas daquela vez, havia saído sem querer. — Bem, é mais complicado que isso. Mas é isso.

– Entendo — ela olhou para Dante, calorosa. — Memórias são como fantasmas. E algumas delas, nos assombram para sempre se não as deixamos sair. Eu tenho memórias de uma amiga, que perdi há tempos. Ela era a esposa do meu atual marido. Eu poderia ser considerada uma má pessoa, por estar com ele após a morte de alguém que também era cara para mim? Não creio. Não se sinta mal por amar, Dante. É tudo o que sobrou de bom e normal nesse mundo.

– Sobre a história da amiga que fica com o marido da falecida, já passamos por isso. Não rolou muito bem — lembrei. Nenhum deles além de Hugo sabiam do que houvera no drama de Victoria, Carolina e Luca. — No fim, percebemos que tudo isso é besteira, desde que o amor seja de verdade. Faye, acha que temos alguma chance de sobreviver, caso cheguemos à Fortaleza? Porque, não sei se minha coragem é tão inabalável assim. Não com minha namorada longe, e todos que amo separados.

– Não posso garantir o que os Nove farão, Otto — ela admitiu. — Mas garanto que a maioria não é como aqueles que forçaram meu exílio. Duvido mesmo que saibam que um dos conselheiros mandou mercenários para me matarem. Grande parte dos membros queriam que eu ficasse, e garanto que não saí sem deixar aquilo lá uma bagunça. Talvez seja essa a razão para a pressa em me matar. Os sobreviventes, em sua maioria, querem minha ajuda. E isso cria inimigos. Recusei um lugar entre os Nove, e agora acho que isso só fez com que aqueles que desejam deixar as coisas como são, me vissem como uma ameaça ainda maior.

– Faye não pode garantir o que eles farão, e nem eu. Mas prometo a vocês que não vou deixar ninguém machucá-los enquanto estiver vivo — riu Arantes. — E se precisar, levamos o máximo que pudermos com a gente.

– Isso soa bem pra mim. — gemeu Dante.

– Hey, se anima garoto! Eu e meu filhão aqui podemos dar conta de quantos idiotas armados eles puderem arranjar, na Fortaleza! — Arantes agarrou Ruan pelos ombros, apertando-o junto a si. — Né não, filhão?

Ruan sorriu, mas nunca respondeu. Porque um disparo atingiu-o diretamente na testa, derrubando seu corpo sobre o de Arantes, que em choque parecia totalmente estarrecido ao segurar o corpo sem vida do filho. Sangue cobria-lhe o rosto, as roupas, e continuava sangrando. Outro disparo atingiu um dos galões de água, que começou a inundar o chão. Faye estava chorando ao abraçar Dino junto a si, protegendo o corpo dele com o seu. Aquilo me tocou profundamente, principalmente porque ela o conhecia há quase dois dias. Uma mulher tão importante, capaz de dar sua vida por um menino estranho e sem qualquer importância para ela, não podia ser alguém mau. Eu julgara corretamente. Estava do lado certo. Arantes urrou de ódio e raiva, agarrando sua arma gigantesca caída sobre o sofá. Ele começou a disparar através da janela estilhaçada pelos invasores, e quando dei-me conta, percebi que Helena havia desaparecido. Ela estava vasculhando as caixas que Hugo estava transportando com Dante, e começou a enfiar os pequenos contêiners de hidrogênio em sua mochila, com a ajuda do surfista. A porta do quarto de Hugo recebeu alguns disparos quando ele a empurrou para fora, arrastando-se pelo chão até estar próximo de nós.

– Que merda é essa? — ele gritou, totalmente apavorado.

– Nos encontrarão, e mataram Ruan! — Faye estava chorando, mas também já alcançava um dos seus reatores de hidrogênio amarelos, enlaçando-o no ombro. — Temos que sair daqui!

– Se eles estiverem lá fora, e formos pela frente, vamos dar de cara com eles! — gritou Helena.

– Também deve ter alguém na saída de trás, para nos impedir de fugir — contestei.

– Eles não sabem que existe outra saída. — Arantes estava sério, como se uma máscara de indiferença o tivesse possuído por completo. — Eu vou matar o miserável. Vou matar todos eles. O tiro que matou meu filho veio da parte da frente, então pelo menos sei a quem perseguir.

Rapidamente, Arantes desviou-se dos disparos cada vez menos frequentes, e arrombou a porta dos fundos, chegando ao exterior mais rápido do que pude acompanhar. Puxei Faye para junto de mim, e enquanto a amparava com Dino, acompanhei Helena e os outros com olhares sobre o ombro. Juntos, chegamos ao lado de fora, totalmente tomado por vegetação. No meio do mato, Arantes lutava contra um dos mercenários, que trajava uma máscara de ninja. Com a adrenalina correndo solta pelo meu corpo, vi novamente a imagem de Ruan morto ainda com o olhar de admiração por seu pai no rosto. Arremeti contra o invasor, para ajudar Arantes. Ele ainda não podia me ver, ocupado demais em desviar-se dos chutes e socos violentos e vorazes do militar. O agarrei pela cintura, puxando comigo para o chão. Arantes o chutou no estômago, e o bandido ofegou. Ele puxou uma faca da roupa, e me imobilizou com facilidade ao acertar o cotovelo em minhas costelas. Vi-me então preso por seu corpo pesado, com uma faca a centímetros do meu rosto. Pela primeira vez o mercenário pareceu realmente enxergar-me, e então, estava saindo. Pasmos, meus amigos e Arantes o encaravam. Ao longe, pude ouvir o som de pneus arrastando no asfalto, com a fuga das pessoas que quase haviam nos matado. Eles haviam deixado-no para trás. E, quase como se aquilo não pudesse mais me surpreender, o homem puxou a máscara do rosto. Diogo parecia assustado, alarmado e acima de tudo, realmente devastado por ter estado tão perto de me matar. Ele me fitava com olhar vidrado. Algo como culpa brilhava em seu olhar sombrio. Perdido na confusão de também me dominava, perdi o fôlego quando Helena gritou e Arantes acertou Diogo com um chute no rosto, desmaiando-o. Toda a barulheira do tiroteio deixou lugar para uma situação carregada de significado e dor. Arantes ajoelhou-se ao meu lado, e começou a chorar pelo filho. Esfregando as mãos na cabeça, seu olhar era esquizofrêncio ao avançar sobre meu amigo, tentando esganá-lo.

– Arantes, não! Não podemos matá-lo. Foi um engano! — Gritei, segurando-o pelos ombros. Ele tentou me acertar uma cabeçada, mas eu já esperava algo do tipo, de modo que mantive uma distância segura. O imobilizei com facilidade, já que ele parecia bem mais fraco por causa de todo o desespero.

– Por que eu deveria poupá-lo? Ele estava junto com os assassinos do meu filho! — Esbravejando e chorando, ele não parecia um sargento, um militar. Era um pai destroçado, ferido muito além do que alguém poderia entender.

– Por favor, ele é da minha família — pedi, e não estava mentindo. — É o namorado da minha irmã, e muito bom em sobreviver. Pode me ajudar a encontrar ela de novo. Pode nos ajudar a matar os assassinos do seu filho. Ele não sabia que eu estava aqui. Hugo e Dante o conhecem também.

– Vamos esperar ele acordar. E então decidiremos — a palavra de Faye era a final. E eu sabia que apesar do rancor de Arantes e das minhas tentativas para salvá-lo, no fim a vida de Diogo estaria pura e verdadeiramente, nas mãos dela.

Notas finais
Obrigado por acompanharem, galera! Capítulo dedicado à minha fada madrinha Marri, que me faz gargalhar com os reviews loucos, ao meu anjo da guarda Azoo, e à minha florzinha Tay. Beijos, povo! :3 Kisses by DroppingPieces!