Quebranto.
74 À flor da pele.
Notas iniciais
Victoria.
Dimitri era ainda mais bonito em seu sono. O modo como me acolhera durante toda a noite inquieta fizera com que eu percebesse mais nele, do que todo o nosso tempo de convivência permitira-me, até então. Acariciei seus cabelos castanhos, admirando o modo como o sol parecia acentuar as cores dos fios, e aumentar o contraste com o rosto pálido dele. Era muito estranho pensar em Dimitri daquele modo, mas percebi que não tratava-se apenas de negar uma verdade, mas era quase como se fingir não sentir nada por ele também fosse uma agressão à minha própria natureza. Aceitar que Nora era uma parte de mim, competia em compreender meus instintos mais básicos e primitivos. Eu me sentia diariamente atraída pelo homem em meus braços. Era possível captar as vibrações que partiam de sua pele suada, para minhas unhas e então para meus braços. Uma coisa era lutar contra este sentimento, e não permitir que ele nublasse minha índole, meus sentimentos por Diogo. Outra bem diferente, era ignorar a voz em minha cabeça. Talvez Nora fosse meu maior dom. Como se os pêndulos morais capazes de limitar a ação de outros, não me afetassem. Uma espécie de alívio, destrancou as comportas que mantinham-me em catatonia quase que voluntária. Com um timing perfeito, Dimi esfregou os olhos cansados e remexeu no meu colo como um menino de doze anos, cansado após uma noite em claro. Parecendo surpreso ao notar meu olhar fixo sobre si, vi algo mais tomar seu rosto. Tornando-se um pouco menos inocente, Dimitri vinha de encontro ao meu próprio estado de espírito. Deus, eu sequer pensava em algo além do meu próprio calor pessoal, naquele momento. Clamando por vivacidade, recebi com alegria a investida de Dimitri, que puxou-me pela blusa de encontro aos seus lábios. Então, percebi o quão longe da realidade estava. Era como beijar Jonas de novo. Afastei Dimitri com um leve toque enquanto ele observava-me, provavelmente achando-me tão louca quanto eu mesma.
– Dimi, eu amo o Diogo... — ofeguei, arfando contra sua boca.
– Vicky, e eu amo você. Será que não dá pra gente usar meu amor pros dois? — Ele estava rindo, sentando-se de frente para mim com uma expressão cômica. — Eu me perguntei se conseguiria fazer isso... — ele parecia pensativo. — Só estamos os dois aqui. Sei que Nora me aprova, e sei que podemos não sobreviver o suficiente para encontrar os outros. Mesmo você tendo uma força sobrenatural, e reflexos aprimorados. Sabe, se eu soubesse que iria morrer amanhã, teria valido à pena porque te beijei hoje. Mas e você? Pode dizer o mesmo? Está satisfeita com tudo o que vivenciou?
"Ele sabe que não estamos nada felizes. Qual é, Vicky! Não me obriga a voltar agora! Qualquer coisa, é só dizer que te obriguei..."
– Calem a boca, os dois! — ele sobressaltou-se, parecendo realmente surpreso com meu ataque. — Desculpa. Nora falando merda. Inferno... O que faço com você, garoto?
– Me beije ou me abandone — ele disse, simplesmente. Aquilo de alguma forma, fez todo o sentido. E, súbito medo invadiu-me ao perceber que não queria abandoná-lo. E doía admitir que eu era tão horrível, a ponto de enfrentar mais uma vez o mesmo clichê eterno. O mesmo que me perseguia desde sempre. Triângulos amorosos. Ao passo em que admiti a mim mesma que não havia mais o que fazer, conformei-me em agir da forma errada. E então, nada pareceu mais certo.
Ainda sorrindo, Dimitri recebeu-me em um abraço caloroso, e atirei-me sobre ele. Atacando sua boca com a minha, vi toda a poderosa energia acumulada em meu interior vir como num vulcão, derramando-se sobre ele. Sobre seu colo, pude sentir cada centímetro de seu corpo forte, e ainda assim suave. Seu toque era uma carícia de fogo, um rastro de chamas a devorar minhas roupas, enquanto eram retiradas de maneira habilidosa. Mal pude acompanhá-lo, enquanto despia a si próprio e prostrava-me sobre o chão, de modo que traguei sua cintura entre minhas pernas, incapaz de abandonar seu toque. Ele provou meus lábios mais uma vez, plantando oportunas vibrações atrás de minhas orelhas, que excitavam-se a enviar sinapses elétricas por todo o meu corpo. Quase como se eu própria fosse o centro de um sistema solar, um vórtice de estrelas a colidirem-se eternamente. Dimitri era bom no que fazia, quase bom demais para que eu pudesse me controlar. Ao senti-lo abrir passagem através do meu corpo, convulsionei-me inteira, agarrando com força seus cabelos quando seus lábios tocaram-me no ponto mais imperativo. Tudo o que eu era, tudo o que sentia naquele momento, estava em Dimitri e seu beijo. Gritei como num grito de triunfo. Uma amazona de Hipólita a galopar seu mais rebelde garrano. Nora exultou, e então de maneira pegajosa escorreu pelas bordas de minha mente, entregando-me por completo uma onda de prazer inenarrável. Apenas para que, logo em seguida, eu fosse acometida por nova explosão atômica. Dimitri não estava parando, e eu não tinha forças ou desejo suficientes para pedi-lo que parasse. Estava de fato, entregue e rendida. Totalmente voltada ao seu poder de condução. E que condução...
– Você fica linda em êxtase. Poderia te ver assim pra sempre... — ele tocou minha face com carinho, voltando a aproximar seu rosto do meu, próximo o bastante para que eu sentisse seu fôlego tocar o meu. Seus cabelos úmidos pelo ar abafado na cabine, tocava minha testa e fazia cócegas, e devido à minha languidez pude senti-la de maneira muito mais potente.
– E eu poderia ficar assim pra sempre, também. Mas realmente, não creio que duraria muito — ri, provocando o riso em Dimitri também. — Minha vez? — indaguei. Ele sorriu, e deu de ombros, mas eu podia sentir sua necessidade.
Tomei-o entre meus lábios, surpresa com a limpidez de seu gosto, e toda a entrega de Dimitri. Ele não tentava domar-me. Não tocara em meus cabelos, nem tentara conduzir a velocidade de minha carícia. Aquilo me fez sentir de fato, dona da situação. Querendo prolongar o momento, afastei-me diante de um esgar de protesto, enrolando meu corpo ao dele. Dimitri me beijou profundamente, esfregando seu rosto em meu pescoço. Suas unhas rasparam de leve em minha coxa, apertando uma de minhas nádegas com possessividade. Tragando-o para mim, o surpreendi totalmente ao chocar-me contra seu corpo, conectando-me a ele com minha força inumana. Dimitri estava agora sob o meu corpo e ao tentar puxar-me para si com mãos desejosas, detive-o com uma única mão sorrindo ao mover-me cada vez mais rítmica e lentamente, apreciando cada segundo daquela doce agonia. Além dos meus limites, senti os espamos finais puxando tudo de mim para o suspiro definitivo, enquanto Dimitri erguia-se puxando-me pela cintura com reverente devoção. Em total silêncio, permitimos que nossos hálitos e pulmões cansados preenchessem toda a cabine de polícia de vapor e densidade. Unidos, começamos a rir quase ao mesmo tempo. Depois, veio a culpa. Quase uma entidade encapuzada, irônica e delatora a nos espionar.
– Ninguém precisa saber de nada do que aconteceu no nosso mini mundo — Dimitri estava sussurrando. — Juro a você que não vou cobrar nada depois disso, mas realmente desejo que você me escolha, que fique comigo. Se não for essa a sua escolha, vou entender, e peço que você não se sinta culpada. Sou um garoto crescido. — Pude jurar que ele tinha a fala um tanto embargada, mas não tive certeza por estar ocupada demais sentindo o cheiro de seu peito nu. — Vou entender. Prometo.
– Obrigada — murmurei, beijando-o levemente. — Precisamos voltar para os outros. Não quero estragar tudo, mas tem zumbis batendo do lado de fora. Acho que fizemos muito barulho — comentei, o que provocou-lhe nova risada. De fato, era possível ver a sombra de alguns mortos-vivos contra a luz do sol, arranhando e batendo.
Tânia.
Nanda estava pálida. Curvada sobre si mesma, vomitou numa pequena vasilha que Ana mantinha próxima à sua boca. Ela limpou a boca com uma das mãos, encostando-se ao banco no qual se sentara, a pele brilhando de suor e a respiração entrecortada. Totalmente comovida pela situação da minha menina, mantive Artémis longe do barulho, enquanto Vilma auxiliava com Apolo e Luca. Tensa, observei as mãos de Fernanda, sobre as quais ela se queixava com extrema frequência. Queimação, dor extrema, unhas ardendo... Muito estranho. Nada parecido com qualquer coisa que eu já tivesse visto antes. Assustador. Claramente uma evidência de que não tratava-se de um problema de saúde, mas sim de um efeito colateral da mutação inumana de Fernanda. No caso de Victoria, não houveram sintomas físicos, mas em consequência disso é que Nora surgiu. Se Nanda pudesse lidar com as mudanças gradativas que o vírus do urso estava causando ao seu organismo, talvez então não tivesse nenhum outro problema ao fazer uso de seus dons. Intensamente, quis livrá-la de toda a dor daquele momento. Mas era uma luta pela qual ela deveria passar sozinha. Não havia nada que eu pudesse fazer, ainda que fosse apenas nisto que eu pudesse pensar.
– Ela está muito pálida. E o Rico ainda não voltou. — Vilma mordeu os lábios, ela embalava os dois bebês em seu colo de forma automática. Parecia aflita e assustada. — Nanda não pode morrer, Tânia. Os outros precisam voltar logo...
– Fique calma, querida. Seja forte. Todos irão chegar assim que tiverem cumprido as tarefas necessárias. Não é a hora de fraquejar. Vamos fazer o que der, com o que temos — quis muito transmitir-lhe confiança, e também, a mim mesma.
– Você tá sempre certa, Tânia. Devia ser a nossa líder! — Rimos juntas diante da ideia. Eu não tinha o estômago necessário para algumas das coisas que outros membros do nosso grupo fariam tranquilamente. Ainda assim, eu matara Topázio. Talvez eu é quem não me visse da maneira adequada.
Nanda parecia cada vez mais pálida e menos dona de si, a cada vez que Ana limpava seu rosto com uma das toalhas de banho estocadas no ônibus. Aproximei-me lentamente, tocando seu ombro, enquanto tomava a frente nos cuidados a Nanda. Entreguei Artémis para minha aprendiz, e debrucei-me sobre o corpo frágil à minha frente. Ela fitou-me sem que de fato pudesse me ver, e seus cabelos pareceram mais escuros com toda a umidade acumulada. Lentamente, ergui os braços dela, observando cuidadosamente. Surpresa, notei que as veias que iam de seu antebraço até os pulsos, estavam muito mais escuras e aparentes que o normal. Suas unhas, haviam sido modificadas. Estavam mais rígidas e enegrecidas. Totalmente escuras, quase como se houvessem sido pintadas. As veias escuras também eram visíveis na palma de sua mão, o que era de fato, um contraste impressionante. Nervosa, deslizei meu dedo lentamente por um dos canais, e pressionei levemente. Nanda reclamou, mas ao meu toque percebi que não havia qualquer surpefície rígida sob a pele. Além disso, seu corpo respondeu naturalmente, com o sangue sumindo e reaparecendo logo em seguida. Muito estranho. Curiosa, apalpei seus pulsos pouco antes de tocar meu indicador em uma de suas unhas. O efeito foi imediato. Arfando, afastei-me de Nanda e apoiei-me contra um dos assentos. Meu coração estava disparado e ressonante, enquanto um poderoso golpe reverberava através do meu corpo. Tremores percorreram minha espinha, enquanto eu lutava com o embrulho no estômago. Uma sensação terrível. Nada menos que um choque elétrico. Por instantes, só no que pude pensar foi em criaturas marinhas capazes de emitir quantidades incômodas de eletricidade daquela forma. Enguias. Totalmente ignorante pelo que me causara, Fernanda tentou me acalmar, e para tanto quis tocar-me. Quase caí no chão, desviando-me de suas unhas.
– Tânia, por Deus! O que houve? — ela indagou, parecendo extremamente magoada com minha rejeição. — Está com medo de mim? Ou se sentindo mal?
– Nanda... Por favor, não toque em ninguém. Principalmente nos bebês. — Seu olhar era confuso, ferido mesmo. — Calma... Eu explico. Você acaba de me dar um choque. Toquei suas unhas e uma discarga atingiu meu corpo, e não foi no sentido figurado. Acho até que tensionei uma das minhas pernas.
– Como isso é possível? — Ela parecia totalmente perdida, esfregando as mãos no rosto. — Não sinto nada. Por que eu?
– Porque sim. Você não escolheu esse dom, mas ele veio. Ao menos agora sabemos de onde saem as febres. Devem haver novas glândulas, vasos sanguíneos, secreções e funções em seus braços. Era seu período de mutação. Você precisa adaptar-se à essa nova realidade. Talvez seja melhor que não mais amamente as crianças, já que além de deixá-la cansada, esse processo pode transmitir alguma mutação ou mesmo o vírus do urso. Embora eu ache pouco provável, considerando que até agora, nenhum deles sofreu coisa alguma. Mas é melhor não arriscarmos. Tudo bem? — Era preciso pensar rápido. Como alimentaríamos os bebês, sem o leite de Nanda? — Quando os outros chegarem falaremos sobre isso, e então...
– Na verdade, quero falar sobre isso agora — pediu, fitando-me como se pela primeira vez estivesse agindo de maneira verdadeira. Pude ver então, no rosto de Nanda, algo que eu recusara-me a enxergar até então. Uma espécie de sombra, algo como um abatimento constante em suas feições. Cansaço. Dor. E principalmente, mágoa. — Tânia, meninas, peço que não me julguem. Só que eu preciso dizer isso, senão vou explodir. Eu não amo esses bebês.
– Fernanda! Que coisa horrível de se dizer! — repreedeu-a Ana, horrorizada. Eu, por minha vez, mantive-me em silêncio. Sabia que algo estava errado. Depressão pós parto não era um dos meus palpites, mas me parecia muito evidente agora.
– Eu também acho, Ana. Como pensa que estou me sentindo? Sinto um alívio enorme por não ter esses bebês dentro de mim. Toda vez que eles tocam meus seios, sinto o corpo de Arlindo em cima de mim outra vez. Vejo os traços dele nos meus filhos, saber que Gabriel morreu protegendo-os, torna tudo muito pior... Já tive vontade de me matar. De matá-los... Não sei o que está acontecendo comigo. É como se desde que me tornei inumana, todas as minhas emoções estivessem bem mais poderosas, radicais. É muito doloroso... — consternada, não pude fazer nada além de abraçá-la, tomando o cuidado de não tocar as mãos de Fernanda. Aquilo seria um problema se ela não pudesse conter a própria mutação, mas teríamos de dar um jeito.
Surpresa, ouvi Dimitri e Victoria retornando, e com isso a escuridão daquele momento à flor da pele ficou esquecida. Seus calçados faziam barulho ao pisarem sobre cacos de vidro no asfalto, e notei que não só estavam a pé, como pareciam cansados e ofegantes além da conta. O rubor nas bochechas de Vicky ao olhar na minha direção, e o jeito propositalmente indiferente de Dimi, tornaram muito óbvia a minha investigação. O que somente fazia meu coração apertar ainda mais. O que eles estavam fazendo? Não era o melhor momento para aquele tipo de situação. Pelas suas expressões, era evidente que não haviam encontrado nada de especial no lugar de onde vinham. O que era uma pena, pois uma descoberta nula nos impulsionaria ainda mais. Pressionaria nosso caminho até o Porto, o único lugar onde não havíamos estado. E, dessa forma, seria ainda mais difícil que os outros aceitassem esperar pelo retorno de Ricardo por muito mais tempo. Eles dois pareciam bem, no entanto, e isso me acalmou o suficiente para que pudesse me alegrar pela volta deles. Restavam muito poucos motivos para alegria, naquele tempo. Eu devia aproveitar os poucos que ainda tinha.
– Que bom ver vocês — suspirei, aliviada. Vicky sorriu, e discretamente afastou-se um pouco de Dimitri, que praticamente estava colado a ela. — Busca difícil? Acho que não sobrou muito onde procurar...
– É verdade. Está cada vez pior. — Alisando seus enormes cachos dourados, minha amiga ansiosa parecia cada vez mais desconfortável. — Estão todos bem?
– Enviei Ricardo para buscar gasolina — notei a expressão em suas faces. — Me desculpem! Me arrependi assim que o convenci a fazer isso. Agora, precisamos esperar por ele. Nanda está se sentindo mal, e acho que estamos perto de ter certeza sobre a mutação dela.
– Ele está demorando demais — interferiu Ana, alarmada. — Acho que não vai voltar. — Haviam lágrimas em seus olhos, apesar das palavras duras que ouvira de Rico.
– Seja lá quanto tempo demore, temos que dar a ele a melhor chance possível. — Dimitri sorriu para Nanda, que parecia bastante abatida. — Hey, não se preocupe. Ele vai ficar bem, e nós vamos sair desse lugar com sucesso. Deve haver alguma ilha onde possamos ficar por um tempo.
– Sim, é verdade — ela forçou um sorriso, lutando para que nenhum de nossos dois amigos ingênuos soubessem os reais motivos para sua aflição. Não fiquei certa e que Vicky estivesse totalmente convencida à respeito de Nanda, mas ela parecia muito preocupada com Ricardo e suas próprias questões naquele momento para notar a tempestade que envolvia nossa pequena ruivinha. Tempestade com a qual eu teria de lidar mais cedo, ou mais tarde.
Victoria.
Ana sabia que eu não estava bem. Ela esperou que todos estivessem dormindo, e aproximou-se de mim, sentando-se ao meu lado no banco inclinado. Dimitri estava do lado de fora, de guarda, e logo seria a minha vez. De maneira desconfortável, eu temia encontrá-lo, então estava tentando adiar o momento. O que tudo aquilo na cabine de polícia realmente havia significado? Por que eu não parava de pensar naqueles momentos escondidos, tentando pensar numa forma de justificá-los para mim mesma? Dimitri tornara aquilo tudo muito pior, dizendo que se contentaria com o pouco que eu pudesse dar-lhe. No fundo, eu deseja que ele lutasse por mim, mas realmente, que bem isso faria? Era muito narcisista de minha parte desejar que ele se apaixonasse profundamente, apenas para que eu escolhesse Diogo no fim, como eu sabia que faria se estivesse naquela posição. Mas eu amava Dimitri. Não era algo de que eu me orgulhasse, mas tampouco era mentira. Ele era perfeito, justamente por ser fora dos padrões que a maioria das pessoas considerariam perfeitos. Ele era bonito, mas também convencido, irritante, debochado e extremamente provocativo. O tipo de pessoa capaz de tirar Carolina do sério. Assim como Diogo, quando queria. Eles eram muito parecidos, e só pude chegar à uma conclusão aparente. Eu era uma vadia muito louca, e tinha sério problemas com garotos maus, que sempre me atraíam.
– Vai me dizer os detalhes do que rolou entre vocês? — Ana sorriu ao deitar a cabeça em meu ombro. Chocada, acabei apenas sorrindo ao lembrar-me de com quem estava falando.
– Digamos que foi algo muito além dos limites adequados — arqueei minha sobrancelha, e Ana cobriu a boca com uma das mãos. Sua surpresa logo se transformou numm riso que ela abafou rapidamente. Revoltada, dei-lhe uma espécie de cotovelada, enquanto ela se recompunha.
– Deus,você é muito vadia, amiga! — ela tremeu ao tentar conter as próprias risadas. — Diogo vai matar o Dimitri se souber. Nem pense em contar pra ele numa crise de culpa! Isso agora é segredo eterno!
– Você não tem como saber disso. É mais fácil ele acabar me matando. — Apesar de estar rindo, eu realmente temia a fúria de Diogo.
– O importante é seguir seu coração. Parece clichê barato pra uma melhor amiga dizer nesse tipo de situação, mas é a verdade. Não se negue a liberdade de ser quem você realmente é, Vicky. Você nao é como nós, humanos. Não vê mais as coisas do mesmo jeito. Algo se quebrou e foi reconstruído dentro de você, uma nova Victoria. Mais do que ninguém, você sabe o que uma natureza reprimida é capaz de fazer. Não queira provocar o surgimento de outra face sua, forçando-se a agir como esperam. — Aquilo fez total sentido para mim, justamente por ser algo no que eu vinha pensando há muito tempo.
Eu estava grata por ter Ana comigo, desde o início de tudo aquilo. Quem sabe para onde eu teria ido se meus amigos estivessem mortos? Por sorte, eu não precisava descobrir. Não deixaria nada de ruim acontecer a nenhum deles. E, embora eu não soubesse na época, estaríamos todos juntos novamente mais cedo do que eu esperava...
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