Quebranto.
29 Juntos em Espírito.
Notas iniciais
Obs: Quem quiser recomendar também, me faria um autor muito feliz, hahaha. :B
Boa leitura para todos, e vamos à fanfic! O capítulo está pegando fogo! rsrs...
Carolina.
Minha cabeça estava ardendo, como se houvesse se transformado em uma esponja gigante no interior de meu crânio. Na minha boca, o gosto amargo como o presente na casca dos limões, incomodava profundamente o meu paladar. Não reconhecendo o quarto ao redor, acabei acelerando minha respiração, ansiosa. Sobre-ergui o corpo, e tentei absorver a parca luz no ambiente. Percebi então que, apesar de não ser meu, o quarto pertencia ao Trocado. Era o quarto de Madeline. O perfume doce da idosa espalhava-se como uma presença acolhedora, maternal. Temi que algo de muito grave houvesse ocorrido, para que tivessem me transferido para aquele local. Localizei uma penteadeira à um canto, com o conhecido conjunto de joias verdadeiras que a membro mais velha de nosso grupo costumava utilizar. O colar de pérolas recebia um pouco da luz matinal, que se esgueirava por uma pequena fresta na cortina grená. Era possível identificar pequenas partículas de poeira que espiralavam sobre si mesmas, indo calmas repousar no solo, ou ganhar altitude indefinidamente.
Tentei levantar do leito, e meus pés tocaram o chão frio. Apesar da claridade que aparentava um clima diferente, tive certeza de que teríamos ventos gélidos durante boa parte do dia. Um presságio não muito bom, admiti encolhendo-me. Com um súbito sobressalto, notei que ainda não tinha certeza sobre a conclusão do embate no dia anterior. Meus amigos estavam vivos? Arlindo havia sido finalmente preso, ou morto? Quem havia conseguido derrotar aquele monstro? Ou, então, eu estaria sendo tratada apenas para ser obrigada a trabalhar para ele depois? Onde estariam os outros? Sem aguentar esperar mais, empurrei a porta do quarto, saindo para o estreito corredor escuro que levava até a sala da casa. Minha camisola havia sido trocada durante a noite, pelo que pude perceber ao reconhecer uma calça de moletom cor de rosa e uma camiseta branca que não eram minhas. Meus cabelos negros roçaram no meu cotovelo quando ergui o braço para apoiar-me em uma pilastra pintada de vermelho.
Senti certo alívio ao ver Fernanda sentada no sofá, acompanhada de Dino e Vilma. Ela parecia estar obrigando os dois a comerem algo considerado por ambos, ruim, já que estavam com uma cara no mínimo, feia. Os olhos cansados da jovem ruiva, contudo, não refletiam impaciência. Mas sim um prazer tranquilo por ter de lidar com algo tão corriqueiro, quanto às birras de criança. Imaginei que ela parecia bem melhor, desde o ocorrido. Fernanda parecia mais forte do que eu, embora eu não tivesse as mesmas capacidades analíticas de Otávio. Ainda sentia vergonha de meu lapso suicida, embora já fizesse muito tempo desde que eu me deixara abater pela última vez. Era mesmo desconcertante que eu ainda estivesse aqui, quando tantos outros que desejavam a vida ardentemente, haviam caído pela sobrevivência do grupo. Engoli em seco ao lembrar Rafael, que morrera bravamente, mas de maneira estúpida. Arrepios correram meu corpo, quando entrei na cozinha e fitei o olhar de Madeline e Eloá. Elas pareciam extremamente cansadas. Cheguei a sentir vontade de abraçá-las, para compensar a quantidade de trabalho que haviam tido.
– Olá, Carolina. Bom dia. – disse Eloá, bem baixinho. Ela parecia feliz, apesar de tudo. – Espero que esteja bem. Ontem foi um dia longo.
– Foi mesmo. – concordei receosa. Eu temia descobrir algo que me fizesse desejar não ter acordado. – Estão todos bem? – por alguma razão, tive um pressentimento extremamente ruim, ao focalizar as expressões em seus rostos. – Meninas... – incentivei, mordendo os lábios num impulso. Havia me esquecido que eles estavam arrebentados pelos socos de Arlindo, e me arrependi na mesma hora.
– Querida, você precisa ser forte... – Madeline disse, aproximando-se com um gesto acolhedor, e indicando-me uma cadeira à mesa. – Sente-se. Vou pegar uma xícara de café fraco. É o melhor que temos em dias...
– Por favor, digam logo. O que houve com o Luca? – afinal, ele seria a única pessoa capaz de tirar o meu chão. Tive consciência de meu egoísmo com certo pesar. Pois se eu sabia, todos também podiam percebê-lo.
– Luca foi baleado, querida. – contou-me Eloá, emocionada. – Por sorte, Tânia conseguiu socorrê-lo a tempo, mas ele está em estado grave. Duas transfusões com o sangue de Victoria já foram feitas, mas ele ainda não apresentou uma melhora significativa. Tânia e Ricardo passaram a madrugada em uma cirurgia. Ainda está em andamento. Esperamos que ele se recupere, mas sempre há risco...
– Ele vai conseguir. – falei mais para convencer a mim mesma, do que por qualquer outro motivo. Eu não era uma grande entendedora de medicina, mas sabia que a palavra “hemorragia”, não costumava vir acompanhada de boas notícias. E isso, quando tínhamos hospitais para tratá-las. Ainda que muitos, destinados aos mais pobres, parecessem mais açougues...
– Todos desejam que sim. – Madie me estudou por algum tempo, e pareceu considerar algo interiormente. – Arlindo foi capturado. Ricardo realizou um julgamento, e ele foi condenado à morte pelo que fez a todos nós. Não consultamos os feridos, pois queríamos apressar uma solução para o problema. Mas acredito que a opinião de vocês seria a mesma.
– Pode apostar nisso. – concordei. – Quem fez? – eu não precisava dizer que estava falando da execução. Não havia espaço para muito mais coisa naquela conversa.
– Eu. – Nanda respondeu, sentando-se à mesa com um prato vazio. – Finalmente fiz as crianças comerem. Eles reclamaram que os mamões trazidos do Depósito estavam podres. Estavam bem perto disso, mas os convenci mesmo assim. A comida está ficando escassa de novo. – alertou. Comida era sempre um problema naquele mundo. Nanda me fitou novamente, e sorriu. – Não se preocupe, estou bem. Não fiquei louca, nem nada. Foi só um acesso de fúria. Por sorte, direcionado à pessoa certa.
– Sim... – anuí incerta. Eloá me ofereceu um pão duro, mas neguei com a cabeça. – Não consigo comer. Acho que vou caminhar por aí até ter notícias do Luca.
– Acho que não vai ser necessário... – disse Madeline, inclinando a cabeça na direção da porta. Através dela, Ricardo vinha com uma expressão austera. Ele havia recebido algumas olheiras desde a última vez que eu o tinha visto. Parecia bem, porém exausto. – Como está o garoto, filho? Vai ficar bem? – acrescentou ela, quando Rico se aproximou mais.
– Oi, mãe. – volveu sorrindo. – Sempre direto ao ponto, hein... Bom, Luca está melhor do que esteve desde que foi baleado. – então Ricardo olhou em minha direção, e tive certeza de que meu horror era palpável na neblina imaginária que se formava ao meu redor. Minhas mãos estavam suando frio, enquanto os músculos de minha panturrilha tremiam. – Eu e Tânia contivemos a hemorragia, cauterizamos e suturamos o ferimento. Ele reagiu bem ao processo, mas ainda não terminamos. Vai levar muito tempo até vermos como ele vai reagir às transfusões, e até sabermos se o corpo dele vai se recuperar de um ferimento tão... Incisivo.
– Ricardo, as chances de ele escapar... São boas? – indaguei, com um bolo se formando em minha garganta.
Ao invés de me responder verbalmente, Ricardo me passou o que estava em seu coração da pior maneira possível. Seus olhos encheram-se de lágrimas, e antes que eu pudesse dar por conta do que estava fazendo, vi-me correndo para o lado de fora. Quando finalmente retirei-me da casa, enruguei a testa contra o sol forte que fustigava minha visão. A despeito dele, brisas frígidas e sinuosas se esgueiravam pelas beiradas da rua, como travessuras de um Saci-Pererê aguardando a oportunidade de ludibriar algum incauto transeunte. Mirei a Enfermaria com uma determinação ferrenha nos olhos. Eu sabia que a cura de Luca não estava em minhas mãos, mas eu precisava fazer algo por ele. Contra os opostos que envolviam meu coração, desde o fato de sentir frio e calor ao mesmo tempo, até o medo e a ansiedade sobre meu reencontro com Victoria, encontrei-me acelerando meus passos em direção à perdição, ou à redenção...
Victoria.
Levei um susto durante a madrugada, quando me movi na cama, e senti outro corpo de encontro ao meu. Diogo. Agitada, me remexi na cama até lembrar o dia anterior. Eu havia sido resgatada a menos de vinte e cinco horas, havia reencontrado meus amigos, e perdido um deles. E agora, como um peso em meu coração, sentia a possibilidade de perder aquele que, durante muito tempo, havia sido uma das pessoas mais importantes da minha vida. E talvez ele ainda fosse. Mas de uma forma totalmente diferente.
Não estou pronta para acordar. Diabos, você tem noção de que horas são?!
E diante da reclamação nada gentil de Nora, percebi que eu também me conservava exausta. Considerei fechar os olhos por alguns minutos, mas só despertei quando a alvorada já havia se passado há algumas horas. Na verdade, só o que me despertou de fato, foi a leve sensação de estar sendo observada. A princípio, algo apenas intrigante. Mas depois, perturbador.
Abri os olhos, e deparei-me com os de Diogo. O verde frio e forte intimidava até o último fio dos meus cabelos. Mas de uma maneira boa. Eu gostava do modo como ele assumia o controle. Sentia-me dominada em vários aspectos, mas nenhum deles negativos. Tratava-se de segurança, confiança muda, e mesmo uma compreensão quase total. Seus dedos estavam deslizando por uma das minhas pernas, e apenas quando tive noção disso, ela arrepiou-se inteira. Diogo sorriu não da forma sacana como eu teria esperado. Ele parecia apenas admirado. Sorri também, e segurei sua mão com um afago, afastando-a discretamente em seguida. Ao meu lado na cama, notei uma garrafa de água mineral, e duas barrinhas de cereais. Acomodei-me na cama, puxando o lençol fino sobre minhas pernas, e peguei o cereal, mordendo-o com fervor. Estava mais faminta do que podia me lembrar, e podia ouvir o coro de aleluias em meu estômago. Abri a garrafa d’água, e me detive no meio do caminho, notando que Diogo ainda estava olhando pra mim, com o mesmo sorriso bobo na cara. Acabei rindo também, mas de choque.
– Isso é desconcertante, sabe? — ponderei, prendendo o cabelo num coque improvisado.
– Deixa solto. Eu prefiro. – fiz uma cara de “O quê?”, mas acabei soltando o cabelo mesmo assim, bufando.
– Você ainda não parou de me encarar. – cobrei emburrada.
– Só estou me convencendo de que você tá mesmo aqui. Não me leve à mal loira, mas não estou exatamente compartilhando o clima de tristeza que tá rolando por aqui. – cuspiu Diogo, com sua franqueza irritante. Ele era honesto demais para o próprio bem. – E além do mais, o que é bom, é pra se admirar...
– Cantada de caminhoneiro... – reclamei. – E por falar nisso: O que você fazia? Antes de o mundo virar bosta? Nunca me contou sua história...
– Prefiro não falar sobre isso. – a negativa me intrigou. E só atiçou ainda mais minha curiosidade. Uma parte de meu cabelo se soltou do coque, caindo sobre minha testa. Comecei a brincar com aquela mecha, refletindo.
– Se lembra da primeira noite em que eu e meus amigos jantamos com o pessoal? – ele assentiu com a cabeça, confirmando. – Pois bem. Naquela noite, você me fez um desafio. Lembra-se? – outra confirmação. – Ótimo. Porque eu venci. E você me prometeu que um dia, faria qualquer coisa que eu pedisse.
– Memória boa, loira. Mesmo assim, prefiro não falar disso. O que não significa que eu não vou falar se for o que você realmente quer. – ele me encarou por mais algum tempo, e sua expressão se abrandou. – Eu só esperava que você fosse usar seu pedido pra me obrigar a fazer um sexo selvagem... Tristeza viu?
– Aff, só conte logo a história! – pedi, revirando os olhos.
– Certo. Quando as coisas eram mais calmas, eu era policial. Trabalhava pra Polícia Militar, em uma delegacia em Duque de Caxias. Quando as coisas apertaram, roubei algumas armas e matei alguns colegas que haviam sido infectados. Peguei a rodovia para a Região dos Lagos, e no caminho encontrei com a família da Fernanda, que estava vindo de Petrópolis. Acabei salvando a garota, e caímos na estrada até sermos encontrados por Armando, que nos convenceu a ficar no Trocado. – ele percebeu que não era só isso que eu desejava saber, porque ameaçou xingar um palavrão, mas se arrependeu no caminho. – Quando eu servi na Corporação, não era muito honesto. Miliciano, se preferir. Nunca matei ninguém, mas aceitava propina e fazia vista grossa pra bandido. Agora me arrependo, mas meu consolo é que os vagabundos devem estar todos mortos, ou quase. Pra falar a verdade, era muito foda ver os safados se dando bem, e quem tentava ser honesto batalhando com um salário de merda. Roubei sim, e não me orgulho. Mas também não vou dizer que tive pena de ganhar o dinheiro extra. Sacou? Espero que não seja problema entre a gente. Mas se você for puritana demais pra isso, é só falar... – havia deboche e desprezo em sua voz, mas era tudo uma armadura.
– Entendi. E você achou que ser corrupto seria um motivo pra eu não querer mais ouvir falar em você? – indaguei, tentando segurar o riso. Era muito fofo da parte de Diogo levar sua história e seus erros tão a sério, mas não conseguia entender como aquilo podia fazer alguma diferença naquele novo mundo. – Te amo ainda mais por te conhecer. – confessei. – Ninguém é perfeito. São nossos erros que nos tornam mais atraentes, humanos. – Diogo, por impulso, tentou me beijar. O repeli por instinto, a imagem de Luca em minha mente. – Não. Ainda não, Diogo... Estou com medo por Luca, e não consigo pensar em outras coisas agora... Você me entende?
– Entendo que você deseja a melhora dele. Mas ele seguia com a vida quando achamos que você estava morta, e agora você deu seu próprio sangue pelo cara que te traiu. Não deve mais nada a ele. E com certeza, não deve satisfação a ninguém, por ser feliz... – Diogo se aproximou de mim sobre a cama, e suas mãos pousaram em minhas coxas.
– Eu sei. – concordei. Lágrimas subiram aos meus olhos, sem que eu pudesse contê-las. – Mas eu não posso evitar. Enquanto isso não se resolver, vou estar ligada ao Luca. Além do mais, eu ainda o amo como um amigo. Vivemos coisas demais, e por muito tempo para que seja diferente agora.
– Mesmo assim, eu acho... – a frase de Diogo foi interrompida. Nunca soube o que ele diria para mim. Batidas na porta chamaram sua atenção, a quantidade e a urgência do som distraindo-o. Levantando-se, ele rumou na direção do ruído, e pude ouvi-lo cumprimentando alguém.
Pouco depois, ele retornou com Tânia. O rosto da enfermeira estava grave, e ela parecia ser a portadora de uma péssima notícia. Meu coração acelerou, e senti-me estranhamente familiarizada com essa sensação. Meus dias eram tão agitados e aterrorizantes, que estar alarmada parecia meu novo estado natural. O que era doloroso e desgastante. Ouvi minha própria voz perguntando sobre o estado de Luca, mesmo que eu estivesse abalada demais para dizer algo. Nora estava me dando uma força, e me senti realmente grata pelo auxílio. Tânia pareceu aguardar que ela terminasse de falar, enquanto a expressão de Diogo tornava-se mais séria. Ele sabia que não era eu.
– Ele está acordado, Victoria. Por enquanto, está estável. Eu preferiria que ele não recebesse visitas agora, mas o garoto insistiu em vê-la, e por isso aqui estou eu para avisá-la. Considerando todo o, ér, histórico de vocês, acho que você gostaria de saber. – disse a mulher, o sono exalando de seu corpo. Aproximei-me e afaguei-lhe as mãos que se mantinham cruzadas sobre o estômago, sorrindo.
– Muito obrigada, Tânia. Por tudo. Você se tornou alguém essencial para o nosso grupo. – ela assentiu em resposta, ruborizando. – Agora, acho que deveria dormir. Foi um dia muito longo e difícil, e você precisa estar bem caso surja necessidade de socorrer mais alguém.
– Está certo. Eu vou indo mesmo. – Tânia retirou-se do quarto de Diogo, deixando-nos a sós. Eu estava deitada sobre a cama, e ele me observava de pé, bem próximo. Antes que eu decidisse voltar a dormir por pura preguiça, pulei para fora do colchão macio, e corri para o banheiro.
Menos de dez minutos depois eu saía para a claridade matinal que incidia sobre o acampamento como uma presença calorosa. Diogo me acompanhava de perto, mas vacilou quando nos aproximamos mais da Enfermaria e do Refeitório. Com um sorriso torto, ele apontou na direção de Ricardo e Hugo, que estavam comendo à mesa, ao lado de Fernanda, Julia e Saulo, que pareciam um pouco mais alegres, para variar. Com um sorriso igualmente inseguro, indiquei com um gesto que ele fosse até eles, e continuei andando. Simples assim, havíamos combinado de nos vermos depois, quando eu tivesse dado a atenção que Luca precisava, e tivesse o meu momento. Diogo não era sufocante, e talvez por isso nos déssemos tão bem. Eu não precisava explicar que queria espaço, porque ele também era alguém que respeitava a si mesmo, e entendia a necessidade que todos os seres humanos possuem de resolver algumas coisas sozinhos. Com o coração acelerado, empurrei o portão do antigo terreiro de candomblé de Jeanette. Aquele lugar me lembrava os primeiros momentos no Trocado, e da presença acolhedora da Mãe de Santo, que mantinha a tranquilidade e a paz entre todos. Será que ela teria percebido as reais intenções de Arlindo, se o tivesse conhecido? Talvez sim, mas nada poderia mudar o passado. Agora, estavam ambos mortos, assim como tantos outros que haviam feito parte de minha vida nos últimos meses, e que haviam partido no caminho. Enquanto meus pés vacilavam nos degraus cheios de limo da Enfermaria, encontrei forças para forçar um sorriso em meus lábios, certa de que de alguma forma, eu precisaria suportar as seguintes horas, apoiando Luca. O maior problema era o seguinte: Como apoiar alguém, quando você não se sente forte o bastante nem para si mesmo?
Hugo.
Os olhos de Ricardo estavam cansados. Sua beleza, geralmente opressora, agora parecia afetada pelos reveses dos últimos dias. Ainda assim, uma chama ardia em seu interior, dando-lhe forças para suportar suas próprias aflições, e as dos outros também. Todos o viam como o líder que havia aprendido a ser destemido, e que com suas palavras calmas e coerentes, conseguia manter todo o acampamento unido. Ainda assim, apesar de todo o personagem criado para transmitir segurança a todos, eu podia ver suas outras facetas. Mais do que por qualquer sentimento ou atração carnal, estávamos ligados em espírito, de uma maneira especial demais para descrever em palavras. Desde muito cedo, eu havia aceitado que nossa relação seria diferente. Tia Madeline e tio Élcio haviam me criado depois da morte dos meus pais, quase como irmão de Ricardo. Quando ele começara a faculdade no Rio, eu havia ficado os últimos anos do Ensino Médio sentindo-me sozinho, abandonado. Tinha amigos, mas nenhum deles próximo o bastante para que eu pudesse me abrir sobre os sentimentos que me consumiam. Acho que de certa forma, tia Madie sempre soubera de tudo, mas se negara a lidar com o que havia entre eu e meu primo. Quando Ricardo finalmente terminou os estudos, e seu pai passou-lhe o consultório que mantinham na capital do estado, fui aceito para cursar Geologia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e me mudei para o mesmo apartamento em que ele vivia...
Isso havia acontecido há muito tempo. Nos primeiros meses de convivência, tudo havia sido extremamente fraternal, e eu fui imensamente feliz. Meus amigos da faculdade adoravam o meu “irmão bacana”, que permitia grupos de estudo até tarde, e festas nos finais de semana. Eu era constantemente assediado por meninas, e até por alguns meninos também, talvez principalmente pelo fato de ter uma aparência bem mais jovem do que eu realmente tinha. Agora com vinte e três anos, eu ainda aparentava os meus dezesseis, a ponto de Luca e seus amigos acharem que eu era mais novo do que eles, quando me conheceram. Curiosamente, Ricardo mudou comigo depois da morte de tio Élcio. Quando o pai dele havia morrido, ele tentou convencer-me a me mudar para Cabo Frio, com o motivo de não deixar tia Madeline sozinha. Eu me neguei, e ele pareceu frustrado durante muito tempo. Pelo menos até uma festa de aniversário surpresa organizada para mim, quando ele acabou bebendo demais e confessando que me amava de uma forma que ia além do saudável, ou do normal. Ele confessou ter tentado afastar-me do seu convívio, com medo do que sua mãe, ou toda a sociedade iria pensar. Ele se tornava um dos dentistas mais conhecidos entre o ramo das cirurgias maxilares, e era respeitado por todos que o conheciam. Em outras palavras, ele tinha medo de que ser gay pudesse tirar-lhe tudo o que havia conquistado.
Entendendo o recado, eu havia me mudado pouco depois, para a casa de uma das minhas amigas mais próximas, que passou a morar sozinha quando os pais decidiram se mudar para São Paulo. Ricardo acabou indo atrás de mim na casa dela, mas eu não retornei para viver com ele. Intervindo para tentar uma reconciliação, Madeline nos contou que já sabia sobre tudo, e aceitou que fôssemos como éramos. Mas eu estava irredutível. Continuei vivendo minha vida estudando como um louco, até que minha tia ficou doente. Ela havia desenvolvido uma pneumonia, devido a um resfriado mal curado. Morando sozinha em sua enorme mansão, ela não conseguia ter as condições psicológicas ideais para uma boa recuperação. Então, vieram as férias de fim de ano. Imaginem qual não foi a minha surpresa, ao ver Ricardo estacionando do lado de fora da casa de Paula, aguardando-me para viajarmos juntos. Ele queria que passássemos as férias com tia Madie, para ajudá-la no que fosse preciso, e para que Ricardo pudesse trabalhar como voluntário, na Associação de Moradores do Trocado. Ele passou a trabalhar na favela durante o dia, enquanto eu ficava com tia Madeline estudando e pondo a casa em ordem. Quando os surtos da gripe do urso começaram, eu e tia Madie dispensamos os empregados da casa, e ficamos sozinhos esperando que Rico voltasse para decidirmos o que fazer. Quando encontramos Luca e os outros, não me lembro de ter me sentido melhor desde que todo o horror começara. Afinal, Ricardo estava vivo, e eu teria a chance de dizer-lhe tudo o que sempre havia mantido em segredo até de mim mesmo.
Nosso beijo no momento em que o reencontrei fora o primeiro. Para todos os outros, já éramos um casal antes do Apocalipse. Apenas tia Madeline sabia a verdade. De uma maneira sombria e assustadora, o mesmo evento que significara o fim da civilização, havia se tornado a minha liberdade. Apenas com o fim das regras de uma sociedade hipócrita e autodestrutiva, eu fora capaz de ser feliz com a pessoa que amava. Para Ricardo, o sentimento era o mesmo, eu tinha certeza. E, enquanto a aceitação e a amizade de todas as pessoas maravilhosas que nos cercavam ganhava uma importância cada vez maior em minha vida, os insultos e agressões que eu sofrera nas mãos de Arlindo não haviam tido a menor relevância. Eu havia nascido com um dom natural para ignorar tudo aquilo que me fizesse mal, e agradecia por essa capacidade cada vez mais, naquele novo e estranho mundo. Agora, após tantos acontecimentos, me sentia vivo como nunca antes. Eu tinha certeza, de um jeito triste e alegre ao mesmo tempo, de que aquele era o mundo para o qual eu fora destinado. Os horrores e os mortos andantes, dificilmente me abalavam. E mesmo os aspectos mais vis da humanidade, podiam provocar-me medo ou desânimo. Nunca havia sido um grande lutador, mas se havia algo com o qual eu podia contar, era com meu senso de dever. E a facilidade com a qual eu quebraria qualquer um dos meus limites, por amor à família.
– Hei, tudo bem? – Ricardo estava sorrindo, apertando minha mão por baixo da mesa do refeitório. – Está calado desde que acordamos. – notei que Nanda, Julia e Saulo também estavam me olhando, e sorri despreocupadamente.
– Não é nada. – respondi, sacudindo um pouco os cabelos para longe dos meus olhos. Eles eram lisos e extremamente finos, o que significava que nunca paravam quietos no lugar. – Só estou pensando sobre o modo como estamos vivendo. Sei que em tese, estamos seguros aqui, mas ainda acho que ficarmos parados em um lugar por muito tempo, pode ser uma má ideia.
– Ainda precisamos resolver a questão dos amigos de Saulo, que ficaram para trás na praia do Peró. – ajuntou Nanda, sagaz.
– Bem, por mim podemos unir o útil ao agradável. – manifestou-se Saulo. – Podemos preparar uma caravana, e seguir até a praia onde o pessoal ficou. De lá, podemos tentar ir à Búzios. Ouvi dizer que lá tem um grupo de refugiados mais organizado, com proteção militar.
– Pra mim é balela. – negou Julia. – Temos algo bom aqui, devíamos ficar. Os centros de sobreviventes anunciados pelo rádio com certeza foram atingidos pela infecção. Já fazem meses que estamos na estrada, e não tivemos a menor notícia de nenhum deles.
– Em minha opinião, ficar parado ainda é pior. – defendi minha ideia, sob o olhar atento de Ricardo. Eu sabia que ele ouvia o que eu tinha a dizer. Até demais, para o nosso próprio bem. Talvez Luca tivesse mesmo razão, e eu houvesse assumido uma posição no grupo que não condizia com o tempo em que eu estava lá. Ainda assim, eu sabia que minha opinião, ou voto, teria sempre peso dobrado nas decisões de Rico. Eu só não sabia se isso era bom ou ruim. E rezava para nunca ter de descobrir. – Podemos estar perdendo a chance de encontrar outros que ainda estejam resistindo, como nós. Além do mais, pelo que eu soube esse lugar já foi atacado diversas vezes por criaturas mutantes, que invadiram os limites das barricadas. Há muito tempo que os zumbis não são os piores monstros por aí. Ficar esperando por eles em um lugar fixo, me faz sentir igual à zebra, que continua pastando do lado dos leões!
– O que o Hugo disse faz todo o sentido, Ricardo. – concordou Saulo, para desgosto de Julia, que emburrou a cara. – Temos que nos arriscar, em busca de algo melhor. Não dá pra ficar aqui por muito mais tempo. Hora ou outra vamos ser encontrados por animais, ou por inumanos iguais ou piores à mulher que encontramos na Secretaria de Obras. Sei que a estrada vai ser muito mais dura para alguns, e que estaremos mais expostos. Mas pelo menos estaremos lutando pelo futuro, e fazendo alguma coisa. Não sei se me considera um membro de seu grupo, mas não vou passar por cima da sua autoridade. Só que eu vou voltar para a praia onde deixei meus amigos, eles precisam de mim. Aqueles dos meus que quiserem ficar, caso você se negue a me acompanhar, poderão permanecer aqui. – Saulo olhou de esguelha para a irmã, que parecia chocada por ele insinuar algo do tipo. – Mas estou partindo em dois dias.
– Entendo. É algo muito delicado para resolver às pressas, e preciso consultar todo o grupo. Mas me entenda também, Saulo. Um dos nossos está gravemente ferido, e pelo que parece não poderemos levá-lo conosco caso fique convalescente. Então, peço que aguardemos a conclusão de seu estado, para que eu volte a pensar sobre isso. – ele então olhou para mim. – Amor, eu entendo seu ponto de vista e concordo. Só que eu não posso decidir isso sozinho. Vamos votar.
Confesso que me senti aliviado com a perspectiva do voto. Seria muito ruim ter o peso da responsabilidade, caso algo desse errado durante a caravana. Do modo como Ricardo sugerira ao menos eu poderia me tranquilizar caso fosse decidido não viajar, e parar de pensar sobre isso. Mas era inquietante permanecer calmo, quando a imaginação insistia em imaginar os mais macabros ataques e dificuldades. A comida já estava novamente no fim, e caso quiséssemos permanecer no Trocado, teríamos que ampliar em muito nossas áreas de busca. Afinal, a maioria das lojas em torno da região estava ficando vazia. Ao longe, distingui Diogo e Victoria seguindo na direção da Enfermaria. Tânia provavelmente os havia convidado a ver Luca. Apertando a mão de Ricardo contra a minha, acompanhei com o olhar os passos da jovem loira em direção ao terreiro. Ricardo captou meu raciocínio, e afagou minhas mãos também, enquanto Diogo se aproximava mais. Peguei-me rezando por Luca, pois eu sentia que algo realmente definitivo, estava para acontecer. Meu olhar cruzou com o de Saulo, e eu não poderia dizer exatamente o quê ele gostaria de me dizer. Eu só sabia que fosse o que fosse, poderia esperar...
Victoria.
O quarto onde Luca estava deitado tinha cheiro de antisséptico bucal e álcool, além do leve aroma de gaze e esparadrapo. Com os olhos fundos, meu ex-namorado tinha pequenas mechas de seu cabelo cor de cobre, grudadas sobre a testa, e sua pele estava amarelada como a de um portador de hepatite. Aproximei-me de sua cama, recebendo um olhar neutro de Carol, que segurava a mão dele no lado direito da cama. Ela parecia arrasada, e mais velha do que eu já a conhecera. Não havia espaço para hostilidades naquela hora, ou naquele lugar. Mesmo Nora estava quieta. De pé, ao lado da porta, Otávio se mantinha em silêncio, fitando o chão cinza. Ana, por sua vez, fingia ler um livro sobre a vida de Cláudia Prócula. Luca sorriu quando minha mão tocou o seu rosto, e pude ver os músculos magros e rígidos de seu peito contraindo-se com o toque. Ele estava com frio, e seus lábios tinham um tom arroxeado terrível.
– Oi, Vicky. – riu Luca, fraco.
– Oi querido. – devolvi, contendo as lágrimas. – Que bom que acordou.
– Soube do que você fez por mim. – ele murmurou. – Eu não merecia. Obrigado. Você já sabe de tudo?
– De cada detalhe. – respondi, curiosamente sorrindo. Troquei um olhar com Ana e Otto, que sorriram de volta, embargados. – Você sempre foi um pulador de cercas. – brinquei. Carol riu.
– É verdade, sempre fui um canalha mesmo... Desculpa. – pediu Luca, com os olhos cheios de lágrimas. Não me contive, e derramei uma das minhas sobre seu peito, apenas assentindo diante de seu pedido. – Acho que no final, eu não mereço nenhuma de vocês duas. Mas amo vocês. De verdade.
– Não diz besteira, seu cosplay de Rony Weasley! – chorou Carol. – Você está acordado, falando. Vai ficar bem. É só parar de tagarelar, e voltar a dormir.
– É, acho que vou fazer isso. Tem uma dormência espalhando pelo meu corpo... – minhas pernas tremeram. Eu também sentira essa dormência espaçosa, e da última vez, havia sido péssimo. Eu me tornara Inumana. Mas de uma forma cruel e devastadora, eu sabia que aquele não seria o caso de Luca.
Ele deitou a cabeça no travesseiro, e seus olhos fitaram vagamente o vazio. Seu peito subia e lentamente esvaziava, revelando-nos sua condição de ser vivente. Mesmo assim, o modo como ele se mantinha silencioso e estático, era uma das piores coisas que eu já vira até então. Contudo, logo as coisas ficaram ainda piores. Com um solavanco, o pescoço de Luca esticou-se para trás e imediatamente assumiu uma coloração avermelhada e assustadora. Suas veias saltavam vorazmente, e logo seu corpo inteiro começou a seguir o efeito dominó, convulsionando e sacudindo-se em cinco direções diferentes. Apática e amedrontada, Carolina começou a chorar num canto, em desespero. Ana e Otto correram para me ajudar a contê-lo, e mantivemos sua cabeça numa posição segura. Depois de alguns minutos, que me pareceram eternos, ele parou. Mas haviam manchas arroxeadas por toda sua pele, onde todos haviam feito força, para impedi-lo de ferir a si mesmo. O fitei incrédula, no momento em que suas veias em torno do ferimento à bala, começaram a adquirir uma coloração enegrecida, quase totalmente obscura. Lentamente, e em uma região cada vez maior, as veias de Luca iam tornando-se escuras e exageradamente visíveis a olho nu. Aterrorizada, soltei um esgar de horror, enquanto o corpo dele era acometido por uma série de solavancos, e ia esfriando cada vez mais. Gritando, Carolina chamou por Tânia, que por sorte já vinha na direção da Enfermaria, atrás de nós. A mulher tomou a liderança na mesma hora, e expulsou-nos do quarto, com o terror em seus olhos.
– O que está havendo? – gemeu Ana, nervosa.
– Eu não sei! – arfou Otto em resposta, elétrico. – Ele parece que está tendo um ataque epilético!
– Calem a boca! Tânia está voltando... – alertei, roendo uma unha. – E então?
– Cometemos um erro terrível. – a simples frase foi o suficiente para tirar o meu chão. Carolina desabou em lágrimas, agarrando Ana como se ela fosse um copo d’água no deserto. Minha expressão, com certeza era mais do que um pouco incrédula naquele momento. Luca havia sobrevivido à pior parte de todo o tratamento. O que mais poderia ter dado errado? – No desespero por não haver mais ninguém com o mesmo tipo sanguíneo de Luca, transferimos o seu para ele, Victoria! O problema, é que você é uma Inumana! Como eu não pensei nisso? Seu sangue carrega o vírus da gripe do urso, e agora Luca está sendo infectado!
E foi simples assim, que deixei de sentir as minhas pernas. Com toda a certeza de meu coração, eu sabia que teria me estatelado no chão, não fosse por Otto parado bem atrás de mim. Ele amparou-me pelos braços, erguendo o meu peso com certa dificuldade. Carol já parecia em luto, sendo acolhida pelos braços calorosos de Ana. Tânia deixava que suas lágrimas sinceras ganhassem forma, porém de forma silenciosa. Como um súbito clarão de consciência, talvez até mesmo como uma benção inesperada, percebi que talvez Luca escapasse daquela situação. Afinal, meu sangue fora capaz de se adaptar ao vírus, e talvez o dele também fosse. Só o que me assustava, era que diferentemente de mim e Jonas, Luca era uma pessoa perfeitamente normal, psiquicamente. Se somente os loucos fossem capazes de tornarem-se inumanos controláveis, e as pessoas comuns que sofressem mutação se convertessem em monstros como Lupa, logo aconteceria o mesmo com Luca. Isso, se ele não se tornasse um morto vivo. Um zumbi. Dentre todas as possibilidades, aquela era a única que eu tinha certeza que não permitiria que se tornasse realidade. Mesmo que Luca viesse a se tornar um monstro psicótico, eu não sabia se poderia matá-lo. Agora, jamais poderia deixá-lo solto como um errante. Ele nunca me perdoaria.
– Ele ainda pode reagir bem ao vírus... Já vimos isso antes. – sussurrou Tânia, talvez tentando consolar a si mesma.
– Agora entendo porque Ricardo estava tão triste quando falou comigo. – cochichou Carolina. – Ele sabia o que vocês tinham feito. Ele sabia que o sangue da Victoria era sujo, e mesmo assim deu ao Luca. – ok, tirando a parte em que ela me chamava de sujo, fazia todo o sentido que Ricardo realmente tivesse escolhido seguir com o tratamento, apostando na chance de que Luca se tornasse um inumano. Resolvi ignorar a frase infeliz de Carol, apesar de Nora haver fechado uma de minhas mãos em punho.
– Escolhemos o menor dos males. – defendeu-se Tânia. – Eu faria o mesmo por um de meus filhos, se houvesse essa possibilidade.
– Não se preocupe, Tânia. Ninguém está duvidando de que vocês só tentaram fazer o melhor. Perdoe a Carolina. Ela está meio... Desequilibrada. – Otávio fulminava Carol com o olhar, ao tranquilizar Tânia. Ela, por sua vez, o olhou fazendo biquinho para conter as lágrimas. Fui lembrada com prazer sobre as razões para que eu me irritasse com ela diversas vezes no passado. Mas aconteciam coisas muito mais importantes para resolvermos, naquela hora.
– Acredito que a transformação esteja chegando ao meio. – afirmei. Eu não era nenhuma expert por ter sobrevivido à infecção, mas o tempo de transformação variava muito dependendo dos casos. Em pessoas vivas, durava quase um dia inteiro. Em pessoas que já haviam sido mortas pelos zumbis, ou por alguma causa natural, era muito mais rápida. Considerando que o meu sangue estava circulando nas veias de Luca desde a madrugada, àquela hora ele já devia estar sob infecção a mais ou menos dez horas. – Ele está lúcido? – indaguei ansiosa. Tânia apenas confirmou, com um gesto positivo. – Então precisamos entrar. Os próximos minutos podem ser os últimos de Luca em seu perfeito estado. Ele deve querer nos dizer algo. – sem olhar para trás, girei a maçaneta do quarto de Luca, sendo seguida por Otto, que ainda mantinha uma de suas mãos no meu braço direito, para o caso de qualquer eventualidade. Mais atrás, notei a movimentação lenta de Carolina e Ana, e sorri internamente.
Luca havia parado de se sacudir. Com um olhar vidrado, ele fitava o teto com uma determinação homérica. Seus braços estavam caídos ao lado do tórax enfaixado, e veias negras corriam por baixo de sua pele nas mais variadas direções. Gemi de susto ao aproximar-me dele, e notar que um de seus olhos verdes, havia tornado-se negro. O outro estava começando a empalidecer, a cor esvaindo aos poucos. Era quase sobrenatural, e ao mesmo tempo, belo de um jeito horrível. Devagar, ele pareceu notar a nossa presença no quarto. Seu olhar modificado encontrou-nos, e um sorriso fraco pareceu abrir caminho entre a neblina de doença e medo que o cobriam. Odiei aquele vírus mais do que tudo em minha vida. Acima de mim mesma, e de toda a minha capacidade para o ódio. Também odiei Arlindo, um homem que eu sequer conhecera, por feri-lo daquela forma. E de um jeito mesquinho e doloroso, odiei a mim mesma por não estar por perto nos últimos momentos de Luca. Eu poderia tê-lo protegido, no final. Também senti revolta e ciúmes, por saber que ele fora gravemente ferido tentando proteger Carolina, e não a mim. Sentindo-me a mais vil e baixa das mulheres, sorri ao notar o quê Luca estava tentando fazer.
Ele tinha erguido uma das mãos, olhando para Otávio com o mesmo sorriso fraco de antes. Meu amigo, com lágrimas teimosas nos olhos, tomou a mão cor de papel com uma das suas. Gesticulando para mim, Luca conseguiu fazê-lo entender que ele desejava que todos nos déssemos as mãos. Tomei a mão livre de Otto com a minha esquerda, enquanto Ana segurava minha mão direita. Carol por sua vez, segurava a outra mão de Ana, e a mão livre de Luca. Como uma corrente de luz em meio à escuridão, lembramos a união com a qual havíamos sido lançados naquele novo e triste mundo. Que agora, não era mais tão novo assim. Nós cinco nos olhamos, e sorrimos apesar de tudo. Um ciclo se fechava de diversos modos. De uma maneira mais dolorosa do que eu julgara ser possível. Não éramos mais apenas nós cinco contra o mundo. Não éramos mais um dia de aula cabulado para irmos à praia, ou compras no shopping perto de casa. Não éramos mais sorrisos furtivos e carregados de significados, ou comentários ácidos e irônicos sobre as meninas metidas e chatas do colégio. Agora, não éramos mais um grupo, mas cinco almas distintas, que seguiriam caminhos diferentes. E por muitas vezes, agora eu tinha certeza. Uns, iriam para lugares mais distantes que outros. Mas sempre estaríamos juntos, no final.
– Estamos sempre juntos de quem amamos... – murmurou Luca, como se estivesse lendo os meus pensamentos. – Lembra-se de quando eu te disse isso, Vicky?
– Eu me lembro Luca. Nunca vou esquecer do enterro do meu avô. – respondi ciente de que, por mais que eu quisesse chorar, não poderia mais. Luca estava em paz. Ele sabia o que aconteceria, e havia aceitado seu destino.
– Vocês me perdoam? Por tudo? – ele implorou, apertando a mão de Otávio até os nós de seus dedos ficarem brancos.
– Sim, irmão. Vai em paz. Deus está esperando por você. Vou sentir sua falta... – Otto estava chorando muito. Foi difícil compreender suas palavras. O rosto de Carolina olhando para os dois meninos, era uma máscara mortuária. Ela estava entrando em choque, sem dúvidas.
– E você, Ana? Me perdoa também? – minha amiga soluçou. Ela sempre fora aquela de nós que mais interiorizava os sentimentos. Ao invés de realizar alguma declaração prodigiosa, ela agiu mais uma vez, repleta de sabedoria. Com um gesto delicado, ela afagou os cabelos de Luca, e rompendo a corrente, beijou sua testa. Ele sorriu com o carinho. Então seus olhos encontraram os meus, e depois os de Carolina. – Ninguém nunca amou alguém, como eu amei vocês duas. Apesar de esse ter sido meu maior erro, é a parte da minha vida da qual eu tenho mais orgulho. Por favor, não se esqueçam de mim... – Luca estava chorando. Ele voltou a tremer, e seus olhos reviraram nas órbitas. – Está tão frio...
Não demorou muito até ele começar a se debater novamente. Mas desta vez, não havia o mesmo ímpeto de antes. Com a cabeça doendo de tanto chorar, deixei que meus amigos o segurassem, e surpresa, recebi o abraço dolorido de Carol, que chorava copiosamente. Eu não sabia como ela lidaria com o resto do grupo dali para frente, mas temia que ela se tornasse reclusa e depressiva. Logo, Ana e Otávio largaram Luca. Meu amigo caminhou até a parede mais próxima, e se sentou no chão, apoiando as costas contra o concreto pintado de azul-celeste. Ana escondeu o rosto com as mãos, tentando conter a tristeza. Entreguei Carolina aos seus cuidados, e me aproximei de Luca, esbarrando no tripé com materiais cirúrgicos ao lado da cama. Sentei na beirada do colchão fino, colocando a mão em seu pescoço, tentando sentir os pulsos vitais. Estavam fracos, mas presentes. Ajeitei seus cabelos pela enésima vez, e deitei a cabeça em seu peito, aflita. Eu podia ouvir as batidas lentas e preguiçosas, como o início de uma balada fortuita. Tum. Tum. Tum. E então o silêncio. Apertei os olhos, sentindo um pedaço de meu coração, morrer com ele...
Mas ainda não havíamos chego ao final. Logo, um som mais rígido e enérgico assumiu posição. Tum, Tum. Tum, Tum. Afastei a cabeça de seu peito bem a tempo de ver sua respiração retomar os impulsos anteriores. Carolina afastou o rosto do ombro de Ana, para ver melhor. A esperança iluminava os seus olhos, e também os meus. Até que Luca finalmente abriu os deles. Dilatados e sem pupilas aparentes, deparei-me com um mar negro, e outro branco. Um sorriso cruel, diferente de qualquer lembrança ligada a Luca em minha psique, se formou no rosto dele. Uma mão forte agarrou o meu pescoço, e puxou-me para perto do rosto dele. Havia uma determinação homicida em seu aperto, e minha impotência total se devia ao fato de não esperar nada daquilo em milhares de anos.
Isso porque você é trouxa demais para pensar sempre na pior das hipóteses. Alguém precisa apresentar o bom senso a vocês. Todos tão tristes chorando pela morte do menino, sem nem perceber que ele simplesmente não tinha morrido! Mais uma vez, vou ter que livrar essa sua bunda magra...
Mais uma vez, agradeci pelos insights de Nora serem sempre perfeitos. Usando o peso de meu próprio corpo, ela puxou Luca para o chão, e ele caiu ao meu lado próximo de Otto. Depois daquele ponto, ela assumiu totalmente o controle. Dando uma joelhada na barriga de meu ex-namorado-agora-um-inumano-psicopata, Nora conseguiu liberar-se de seu aperto apenas a tempo dos outros virem em meu socorro. Luca, contudo, derrubou Otávio puxando-o pelo pé, e meu amigo bateu com a testa no tripé de alumínio, derrubando os instrumentos cirúrgicos ao nosso redor, no chão. Carolina começou a gritar e se agachou ao lado da porta, pedindo socorro, e Ana pisou em uma tesoura de mau jeito, deslizando e tropeçando sobre Otto, até que acabou caindo sobre minhas pernas. Luca riu da minha vulnerabilidade naquele momento, e por motivos inexplicáveis, agarrou o meu pescoço com suas duas mãos, ficando sobre mim e erguendo-se sobre os joelhos. Eu estava considerando-me perdida, até que algo em seu olhar, mudou. Um resquício de humanidade talvez. Havia pânico e dor na expressão ferida que se formou em sua face. Num gesto louco, ou desesperado, ele agarrou um bisturi que havia rolado pelo chão e parado à centímetros da minha cabeça. Achei que ele fosse me matar, mas Luca empalou a si mesmo com o objeto, enfiando-o no próprio pescoço, na direção da artéria. Imediatamente, ele desmontou sobre mim, seu sangue ensopando minha roupa. O grito de Carolina em seguida, foi estridente o suficiente para acordar Tânia, que havia desmaiado de exaustão sentada à sua mesa, na sala ao lado. Logo, Ricardo também estava ali com Hugo e Saulo, tirando o corpo pesado de Luca de cima de mim. O cheiro de ferrugem e morte pareceu inundar minhas narinas, e tudo ficou embaçado. Nora também parecia estarrecida em meu interior, e logo adormeceu. O rosto de Diogo entrou em foco diante do mim, e então tudo ficou calmo demais...
Notas finais
Kisses By DroppingPieces!
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