Quebranto.
44 Insetos no Âmbar.
Notas iniciais
Victoria.
Chegamos à boate quando a noite encerrou o seu percurso através do céu nublado. Parecia que uma forte chuva se aproximava. Se ela cairia naquele dia ou no seguinte, era difícil dizer. Totalmente incomodada com o silêncio de Diogo, encostei minha testa no vidro gelado. Com alívio, senti a forte enxaqueca produzida por Nora sendo afugentada mais para o interior do meu cérebro, como se uma guerra entre ela e minhas correntes mentais estivesse sendo travada. Tensa, notei o estado da rua em que a boate se localizava. Completamente além de tudo que eu imaginara, todas as lojas restaurantes daquele quarteirão pareciam intactos. Mordi o lábio de nervosismo quando avistei o ônibus de turismo, todo limpo e em estado bem melhor que os nossos veículos. Estacionamos depois, e custei a acreditar que desceríamos ali, naquele mar de calma. Nem preciso dizer o tamanho do meu alívio, ou da minha alegria ao constatar que não haviam monstros. Nem mesmo no céu. Os siris zumbificados, que pareciam bem mais nojentos do que costumavam ser antes, ainda ecoavam na minha mente. Uma morte horrível. Mas, afinal havia algum tipo de morte boa?
– Finalmente chegamos. — bufou Diogo, aparentemente cansado. Ele fitou a boate através do pára-brisas, em silêncio.
– Ok. O que está rolando? — indaguei, olhando-o com minha típica expressão impassível. — Por que o gelo?
– Nada está rolando. — ele se defendeu, sacudindo a cabeça. — Só tava pensando no tipo de gente com quem você convivia antes. Seus amigos também, todos bem educados, requintados. Até a Carol. — Diogo riu, ao mencioná-la. — Eu era só um policialzinho. Nunca teria chance com você se o mundo não tivesse acabado. Eu nem teria te conhecido?
– É isso? Ciúmes do meu passado? — eu precisava dizer em voz alta. Era tão inacreditável! — Sei que parece óbvio, mas o mundo acabou! O passado não interessa mais. Achei que você já tivesse entendido isso, Diogo. É mesmo tão importante assim o que ficou para trás?
– Você não entende. — Diogo passou a mão no rosto. — Eu vi quando o tal Dimitri te mostrou o convite que guarda na carteira. Até pra mim isso foi surpreendente, inferno! Esse tipo de coisa bagunça a sua cabeça, eu vi a sua expressão. Sem falar no Jonas. Até hoje você fica mexida por ele. E não adianta dizer que não. A Nora já contou tudo.
– Diogo, mesmo que isso seja verdade, com quem eu estou agora? Quem está do meu lado? — tomei impulso e o beijei levemente. — Quem acabou de ser beijado? Eu te escolhi, e já te disse isso antes. Por favor, vamos ficar bem? — implorei. Eu odiava o silêncio de Diogo, seu olhar sem afeto.
– Eu preciso pensar. — foi tudo o que me disse, antes de sair da camionete e me deixar ali, sozinha. Reprimi o impulso de soltar um gritinho histérico, como a patricinha que eu já fora, mas era tão revoltado aquilo. Eu não tinha feito nada! Sai em seguida batendo a porta, totalmente chateada. De longe, vi meus amigos já entrando no local, com a ajuda de Marcílio. Dimitri vinha correndo na direção de onde Thaís estava. Ele parecia muito mal por ela.
– Como ela está? — perguntou à Diogo, que com um gesto, respondeu "mais ou menos". Os dois a pegaram no colo, e pude ver que sua pele bronzeada começava a empalidecer, e em volta de seus olhos, manchas negras estavam se formando. Não parecia que Thaís sobreviveria. Não era uma situação na qual eu arriscaria um palpite.
Os segui, e logo estávamos entrando naquele novo ambiente. Confesso que senti-me retornando ao ano anterior, quando Carol falsificara para nós duas identidades, e havíamos ido à uma boate na Lapa. Mas, Deus, aquela boate devia ter sido linda no seu auge. Apesar de intacta, parecia agora mais um galpão, ou um centro de refugiados do que qualquer outra coisa. Triste, eu sei. Mas muitas coisas eram assim, ultimamente. Enquanto todos espalhavam-se pelo amplo salão, de onde todas as mesas e cadeiras haviam sido retiradas, sorri na direção de Ana, que estava de braços dados com Sabrina. Perto dali, Carol acenou na minha direção, ao lado de Jonas. Mesmo assim, o clima de urgência no ar fez-se presente, quando uma linda mulher surgiu, com uma expressão de terror em seu rosto. Mirei-a bem e me surpreendi. Ela tinha olhos como os meus. Mas era infinitamente mais bela, apesar de mais velha também.
– Oh céus, o que houve com Thaís? — ela esganiçou-se, com a mão sobre o peito. — E Paulino, onde se meteu?
– Topázio, houve um ataque. Uns bichos devoraram o Paulino, e Thaís foi mordida por um dos zumbis. — ele contou-lhe. Fitando Dimitri, a mulher comprimiu a mão ainda mais contra si mesma. Lágrimas encheram-lhe os olhos, e ela aproximou-se da surfista.
– Pobrezinha, pobrezinha. A Deusa não lhe faltará agora. — Topázio olhou ao redor, e então mordeu seu lábio inferior. — Minha amiga mais próxima, mais fiel... Alexandre! — gritou em desespero. — Alexandre, venha cá agora! — o homem que havia levado Ana e Jonas para boate surgiu, com sua cara de mau. Mesmo assim, ele pareceu preocupado ao fitar Thaís. Preocupado demais. Será que eles tinham algo?
– Maldição... Como foi isso? — ele virou-se na minha direção. Eu ia começar a falar, quando fui cortada pela mulher que, evidentemente, era a manda-chuva do lugar.
– Não precisa, querida. Isso não importa agora. Alexandre, os sintomas são claros. Thaís não sobreviverá. Precisamos de auxílio superior. Leve-a para minha câmara de orações. Entrarei em contato com a Deusa. Como sua Profetisa, intercederei por Thaís imediatamente. Agora! — gritou a mulher. — Vá e espere por mim!
– Querem ajuda? — ofereceu-se Diogo, fazendo menção de pegar Thaís no colo.
– Só os nomes escolhidos pela Deusa podem entrar na minha câmara. Essa é uma das poucas regras que deverão aprender, aqui no nosso refúgio. Nada de brigas, nada de armas dentro da boate, e nada de entrar na câmara sagrada. É através de mim que mantemos nosso lar seguro, mas meus poderes só serão mantidos, se obedecermos à Deusa. Podem fazer isso? — a tal Topázio segurou o meu pulso, com gentileza. Havia seriedade e urgência em sua voz. Ela estava desesperada por Thaís, mas acreditava ferrenhamente no que dizia.
"Doida de pedra. Aposto que não vale nada."
Diabos. Nora de novo. Sem querer dar-lhe ênfase, acenei positivamente para Topázio, e ela correu para longe, na direção de Alexandre, que descia por uma pequena escada anexada ao bar, não muito distante do resto de nós. Um pouco incertos a respeito do que ocorreria ali dentro, fomos tranquilizados por Dimitri, que garantiu que Thaís não seria a primeira infectada a descer na câmara. Vez ou outra, alguém era resgatado, e quando os sintomas iam mal, Topázio tentava intervir. De todos, apenas um homem havia sido salvo. Os outros, morriam. Mas curiosamente, nenhum dos mortos havia retornado como zumbi. Perguntei mais sobre o Inumano que Topázio havia salvo. Dimitri então nos explicou que o homem fora morto por um cão de rua, ao ir buscar suprimentos com Alexandre. E, em muito tempo, éramos as primeiras pessoas que eles encontravam. Conhecemos também o restante do grupo. O lindo rapaz musculoso chamado Dante, com cabelos longos e loiro escuros. Ele parecia-se bastante com Thaís. Descobri através de Carol que eram primos. As gêmeas pálidas Manuela e Mirla, lindas com seus cabelos lisos e olhos negros. A professora Lavínia, que havia adorado Dino e Vilma. Eles também pareciam gostar dela.
Logo, todos foram tomar banho, e trocar de roupas. Jonas, Ana, Carol e Sabrina, já estavam maravilhosos. Tenho certeza de que, num mundo comum, eles pareceriam simplesmente pessoas normais, que haviam acabado de tomar banho. Num mundo onde ter paz o suficiente para usar um chuveiro era artigo de luxo, eles pareciam estar indo para o tapete vermelho, na cerimônia do Oscar. Quando minha vez chegou, senti Diogo colocar a mão na base de minhas costas, guiando-me até o local indicado por Dante, que segurava duas toalhas enormes e pretas em seu braço. Ele sorriu amistosamente quando nos aproximamos, e trocou um olhar divertido com Dimitri, que estava olhando fixamente pra mim. Senti o clima pesar, enquanto todos que não nos conheciam notavam o fato evidente de eu e Diogo estarmos juntos, e enquanto meus amigos percebiam a cara de pau de Dimi. Ele nem estava disfarçando. Quando Diogo notou a situação, vi sua mandíbula travar, contra a própria vontade. Deus. Eu estava tão ferrada...
Quando a água brotou, limpa e fria, não pude segurar o riso. Agarrei Diogo pela cintura, rindo de prazer e alegria. Totalmente sozinhos, estávamos nus e juntos pela primeira vez em muito tempo. Ele sorriu, e toda a carga que parecera dominar seus pensamentos subitamente evaporou-se, trazendo a mim o homem por quem eu me apaixonara de novo. Beijei seu peito (era onde minha cabeça batia), e ele me envolveu em seus braços, beijando meu pescoço. Suspirei. Diogo me puxou para perto, e senti sua excitação. Reprimi minha própria vergonha, e lutei com o calor em minhas bochechas. Ele era inacreditável. Com uma das esponjas disponíveis, ele começou a esfregar minhas costas, e vi a sujeira indo embora. Mexi em meus cabelos, sentindo o grosso da poeira ir embora. Não vou entrar em detalhes sobre como Diogo me lavou inteira, mas ele o fez. Sentindo-me impelida, logo comecei a esfregá-lo também, vendo sua pele ficar dois tons mais clara, conforme a água retirava-lhe o excesso de pó. Rindo, fiz com que ele abaixasse a cabeça, e esfreguei seus fios negros, que caíam sobre os olhos. Ele gargalhou quando deixei cair shampoo em seus olhos. Então, notando que eu fizera tudo de propósito, Diogo me agarrou por trás. Ele me puxou para debaixo d'água, e ali me manteve, enquanto limpava os meus cabelos. Finalmente os vi loiros de novo, como há muito não o notava. Parecia que finalmente, estávamos num lar.
– A gente vai mesmo fazer isso aqui?! — um arrepio subiu pela minha espinha. Alguém podia entrar a qualquer momento! Diogo era louco?
– Qual é a pior coisa que pode acontecer? Sermos pegos no flagra que nem o Hugo e o Rico? — a expressão de Diogo estava anuviada de luxúria. Maluco. — É só tomarmos cuidado. E você não fazer tanto barulho. Não muito.
– Convencido. — rebati, sem querer dar o braço a torcer. — Como o senhor pretende fazer isso?
– Quieta. Vai ser a melhor reconciliação da sua vida. — Diogo me pegou no colo. Envolvendo minhas pernas ao redor de sua cintura, senti o mundo girar quando ele apoiou-me contra a parede molhada. Meu coração acelerou no ritmo do meu corpo, conforme ele invadia-me por completo. Arfando de surpresa e prazer, permiti que meu corpo agisse independente do meu cérebro. Apoiando-me em seus ombros, movimentei-me como louca, enquanto era ele quem fazia barulho. Adorei perceber que era eu quem estava proporcionando a quem eu amava, tamanho prazer. Me descontrolei.
Quando o mundo voltou a girar num ritmo aceitável, e todo o fogo se dissipou, Diogo estava tremendo. Ele parecia um garotinho outra vez, tão frágil e tão meu. Nos separamos por um momento, e então abri o chuveiro novamente. Eu precisava me livrar de todo o suor. Surpresa, senti Diogo me esmagar no seu aperto, chorando. Sim, pasmem. Ele me apertava contra o peito, com os olhos vermelhos. Do jeito dele, estava me pedindo desculpas. Eu sabia que precisa me aproximar dele de alguma forma, mas já o sentia próximo do meu coração. Como nunca outra pessoa havia estado. Eu o compreendi, simplesmente.
– Não posso pensar em perder você. — confessou-me, entre suspiros. — Desculpa.
– Sempre. — sorri. — Se bem que é bom brigar, se depois o resultado é esse. — ele me olhou, com malícia. — Sabia que você é fofinho, chorando?
– Ok. Agora chega. — ele riu, disfarçando. — Vamos nos secar. Com certeza já perceberam o que estávamos fazendo aqui embaixo.
– Claro, com seu escândalo... — provoquei. Diogo tentou me beliscar, mas fugi dos seus braços.
Se aquele lugar podia nos proporcionar momentos como aquele, então eu já estava começando a me sentir em casa.
Topázio.
O quarto onde Cecília ficava, estava começando a cheirar mal. Em breve, eu teria que mandar Alexandre limpar aquela zona, antes que algum intrometido resolvesse se meter ali embaixo. Thaís estava deitada bem perto, sobre um lençol lilás forrado ao lado do colchão onde minha ceguinha de estimação dormia. Apesar de acorrentá-la à parede pelos tornozelos e pulsos, eu não era tão má assim. Até porque, precisávamos dos poderes da garota. Se ela morresse, então ninguém mais acreditaria em mim. E isso, eu não permitiria. Alexandre passou uma toalha úmida pelo rosto de Thaís. Eu sabia que ela acabaria causando problemas, quando resolveu ir até a praia com os outros. Havíamos discutido sobre a capacidade dela, e estupidamente, quisera mostra serviço. Principalmente porque eu lhe dissera que para dizer-lhe o que de fato havia na câmara de orações, precisaria de uma prova de fidelidade. E, ironicamente, ali estávamos. E ela, a única que importava para mim, descobriria o mistério da maneira mais dolorosa possível. Minha única amiga. Como um gato de raça, ao qual nos apegamos imensamente. Eu não queria perder o meu bichinho mais fiel.
– Ela está muito mal, Topázio. Acho que não vai aguentar por muito tempo. — resmungou Alexandre, como se eu não soubesse disso. Mexi no interior do meu sutiã, tirando uma pequena chave de metal. Joguei para ele.
– Abra o cofre. Me traz uma seringa. Rápido! — ordenei, e o idiota ainda ficou olhando na minha cara uns três segundos, antes de obedecer. Abriu o cofre rápido, revelando o pequeno estoque de seringas, cocaína e heroína que havíamos escondido ali.
Havia sido difícil encontrar tantas drogas através do tempo, mas nosso antigo hóspede, tinha uma boa quantidade com ele. Era um traficante do Rio, que havia ido até Búzios vender uma pequena encomenda, quando tudo começara. Havia se tornado um Inumano depois de infectado, mas logo dei um jeito nele. Alexandre o matara pouco depois, quando saíram sozinhos. Meus poderes de persuasão não pareciam funcionar bem em outros Inumanos, e eu não queria correr o risco. De fato, eu teria que tomar cuidado com o grandalhão e a loirinha. O pessoal novo ainda precisava ser amansado, doutrinado de acordo com o que eu precisava que acreditassem. Identificar aqueles que mais resistissem, e eliminar um por um. Colher as ervas daninhas pela raiz. Alexandre retornou com a seringa (finalmente!), e me entregou o pequeno objeto. Sorri, fitando-o. Uma agulha e um pedacinho de plástico poderiam decidir o destino de Thaís. Me aproximei de Cecília, que parecia totalmente imersa no sono.
– Só faça isso logo, Topázio. — ela sussurrou. — Sei o que quer. Salve-a. — consentiu, como se eu precisasse de sua permissão!
– Bem, parece que alguém não está dormindo, como eu pensei. — provoquei, agarrando-a pelas bochechas. Larguei-a com força depois, e minhas unhas marcaram seu rosto, que ficou um pouco vermelho. Naquele escuro, Cecília havia se tornado ainda mais pálida e branca do que já era quando nos escondemos por lá. Ainda era divertido lembrar do início, quando ela tentara pedir ajuda, gritando. Como se alguém pudesse ouvi-la, dali. — Por gentileza... — agarrei seu braço. — Alexandre, traz o elástico. — ele me entregou a pequena borracha amarela. Finalmente achei utilidade para o cursinho técnico de enfermagem que eu fizera, em minha outra vida. É claro que eu havia encontrado formas melhores de ganhar a vida. Eu encontrara uma delas, há muito tempo.
Puxei o sangue de Cecília assim que encontrei a veia certa. Era muito injusto que alguém tão sem graça quanto ela, houvesse recebido tantos poderes. Maldita. Ri, com o pensamento de que era eu, quem recebera todo o crédito por tudo que ela era capaz de fazer. Com a seringa cheia, a empurrei de volta para o colchão, e equilibrei-me sobre meu scarpin vermelho, enquanto caminhei até minha gatinha, quer dizer, Thaís. Ajoelhei-me ao seu lado, alisando seus cabelos, e sua pele, tão fria. Olhei rapidamente para Alexandre, e ele virou o braço de Thaís na minha direção. Notei a pequena cicatriz formada por todas as vacinas do governo que ela tomara anteriormente, e injetei o sangue de Cecília. Minhas "orações", fariam efeito em breve. Era revoltante, mas o sangue da cega de alguma forma, ou anulava os efeitos do vírus, deixando que a pessoa morresse em paz, ou então a tornava um Inumano completo, como o bandidinho do Ezequiel. Aguardei pelos próximos acontecimentos, fitando o corpo de Thaís enquanto ele reagia à injeção. Suas veias, tornaram-se extremamente escuras onde o sangue de Cecília havia sido injetado, e ao redor, para logo depois desaparecerem sob sua pele, novamente.
Tensa, prestei atenção a cada reflexo de seu corpo, que parecia vibrar diante do vírus embebido pelo sangue inumano de Cecília. Não sei ao certo quanto tempo se passou, e eu mantive meu olhar fixo sobre ela. Alexandre estava em cólicas, à beira de uma crise de nervos. Idiota. Então, Thaís se moveu. Sua mão fechou-se, e suas unhas praticamente cortaram a carne da palma. Afastando-me levemente, notei o quão tensos seus músculos estavam. Seu corpo sacudiu, enquanto vibrava no mesmo lugar sem parar. Então, por alguns instantes, ela morreu. Exatamente como eu, quando havia sobrevivido ao vírus. Sorrindo, espantei-me quando ela abriu os olhos. Suas órbitas pareciam totalmente vermelhas, enquanto a cor esvaía de um lado das vistas, e escurecia noutro. As manchas escuras ao redor de seus olhos desapareceram totalmente, enquanto sua pele retornava à cor de antes. Novamente apresentável. Alexandre mirou-a com alegria. Eu sabia que eles dois andavam transando, mas isso era só porque eu permitia. Meus pets podiam brincar quando eu não estava por perto. Desde que continuassem me obedecendo.
– Não, não toque. — pedi, segurando a mão de Alexandre, quando tentou mexer nela. — Ela pode ser uma Inumana monstruosa, sem emoções, lembra? Além disso, se a mutação dela for correspondente à força, você pode quebrar um osso por assustá-la. Melhor se acalmar.
– Ok, Topázio. Vamos esperar. Ainda assim, acho que com o sangue da Cecília, Thaís vai ficar bem. Mesmo não tendo nenhum problema psíquico. O sangue da ceguinha é diferente. Vai ver, é até a cura pra esse negócio todo. — ele brincou, como o palhaço que era.
– Mesmo que exista uma cura no sangue dessa garota, o Brasil é o pior lugar onde ela podia ter surgido. Ainda mais aqui, longe de qualquer metrópole ou laboratório do mundo. Mas isso não importa agora. Thaís está recobrando o juízo. — chiei, nervosa. Minha amiga então ergueu-se pelos braços, olhando ao redor, confusa.
– Onde estou? — com um sorriso, apresentei-lhe à sua nova vida. Logo, teríamos mais uma Inumana entre nós. E, melhor ainda, uma Inumana totalmente fiel a mim.
Era chegado o momento de contar-lhe tudo sobre Cecília. E eu sabia que, então, Thaís se tornaria uma grande aliada, para que eu pudesse manter intacto, o meu controle sobre a boate. Seria bom que os novos hóspedes dançassem conforme a minha música. Em breve, seria impossível que alguém resistisse aos meus comandos, e saísse vivo daquele lugar. Do meu lugar...
Hugo.
Quando Thaís retornou da sala de Topázio, parecia-se com Lázaro renascendo depois dos quatro dias morto. Exceto por sua aparência, que provavelmente estava bem melhor. No tempo em que eu havia estado ali na boate, tinha tido chance de conhecer um pouco sobre as pessoas que viviam por lá. Lavínia era a responsável pelo jantar delicioso que estávamos comendo. A comida praticamente cobria o balcão do bar de bebidas, que usávamos como mesa, sentando-nos ao redor. Ela alegara que não estava habituada a cozinhar para tantos, e por isso excedera-se na quantidade de alimentos. Apesar do jeito meio tímido e risonho, era uma mulher atraente, e muito delicada. Uma dama, numa descrição simples. As gêmeas eram um pouco diferentes. Bem mais espaçosas, amavam a atenção que estávamos dedicando a elas. Eram mesmo assustadoramente belas, e quase surtaram quando viram que Ricardo era gay. Quando souberam de mim também, o que devo admitir, inflou meu ego meio esquecido. Auto-estima não era algo muito produtivo, no meu departamento.
A verdade, era que eu estava me sentindo realmente mal nas últimas horas. Ter beijado Otávio, mesmo que num momento de dificuldade, havia sido um grande erro. Uma traição. E, por mais que ninguém pudesse, ou quisesse me julgar por aquilo, eu sabia que era errado. Era errado antes, e era errado agora. Eu, durante tanto tempo, lutara contra todas as barreiras por amar alguém que a sociedade julgava fora do meu alcance. Sofrera terrivelmente por minhas escolhas, e havia sido julgado por pessoas que eu sequer conhecia. Havia sido ferido por querer ser feliz, até que o mundo acabou. Não que eu o preferisse daquela forma horrível e monstruosa, mas tudo ao redor, parecia refletir apenas o interior do ser humano. A consciência coletiva cruel dos seres dominadores e egoístas que éramos. Agora, o mundo era tão mau quanto nós, sua espécie dominante. E, pelo menos naquele mundo, as pessoas tinham muito menos formas de esconder o que realmente eram. Ninguém podia manter máscaras no Apocalipse. Eu sabia que, aqueles de nós que não fossem honestos, logo seriam punidos. Não por Deus, ou por alguma lei divina irredutível, mas elas circunstâncias. Aqueles que só fingem, nunca formam laços de afeto ou lealdade reais. E solitário, nenhum ser humano poderia viver. Num mundo apocalíptico ou não.
Enquanto comíamos notei que Victoria e Diogo pareciam bem mais próximos do que quando tínhamos deixado a praia para trás. Otávio parecia bem cansado do dia de cão que tivéramos, e ainda assim feliz por estar em segurança. Os gêmeos estavam comendo como pequenos leitões, enquanto Tânia e Diana conversavam animadamente com Dimitri. Elas pareciam encantadas pelo charme boêmio dele, que não me enganava nem um pouco. Apesar de todo o estilo e beleza, parecia ser um cara simples e até mesmo inseguro, de alguma forma. Eu só não entendia como podia ter certeza sobre isso. A verdade, era que ninguém na boate me parecia realmente seguro de si. Não digo fisicamente, mas no emocional. Pareciam todos pessoas treinadas, com um discurso padrão de felicidade e gratidão à Topázio, a líder da comunidade. E sim, eu podia compreender que surgir um respeito e afeto por quem nos lidera numa situação como o fim do mundo, é natural. Mas mesmo assim, aquilo parecia um pouco exagerado. Acho que até mesmo, forçado. Mas não de um jeito ruim, sei lá...
– Olá a todos. — cumprimentou-nos Topázio. — Sinto muito por não ter lhes dado a devida atenção, mas uma amiga querida precisava de minha ajuda. — ela apertou a mão de Thaís, que sorriu para nós. De fato, parecia um milagre que ela tivesse escapado da infecção. — De todo modo, pedi que Lavínia preparasse esta incrível refeição para nós, para comemorar a união dos nossos grupos. Graças à Deusa, mãe de todos, estamos a salvo. Mesmo que ela tenha clamado por Paulino, de volta para si. Tão cedo... Mas ele viverá em nossas lembranças, bem como todos aqueles que amamos, e que se vão...
– Também gostaria de acrescentar um brinde à Thaís, por ter renascido! — comemorou Dimitri, erguendo seu como. Todos nos juntamos a ele. Ao meu lado, Ricardo sorriu, apertando minha coxa levemente. Mas seus olhos, não estavam em mim. Estavam na comida. Era como se eu nem estivesse ali. Como se estar ao meu lado, fosse um hábito. Um pouco contrariado por meus próprios sentimentos, comi meus ovos mexidos com macarrão como se não houvesse amanhã. Estavam maravilhosos, e haviam tanto mais para comer. Frutas frescas, verduras! Tão raros no último ano! Nem podia acreditar no que eu estava vendo.
– Vocês possuem uma horta por aqui, ou pomar? — indagou Tânia, saboreando a salada. — Isto aqui tem um gosto orgânico, dá pra saber.
– Temos os dois. — contou Lavínia, sorrindo. — Topázio planejou tudo com Dimitri, e eles me deixam cuidar dos vegetais. É bom ter uma ocupação. Dante também me ajuda, não é querido?
– É divertido. — respondeu o grandalhão loiro. Ele parecia bem lentinho, pobrezinho. Mas sua esperteza quase nula era compensada por sua aparência estonteante. Ri com sua resposta, e ele encarou-me, sério. Pensei ter feito besteira, e já ia me desculpar quando ele sorriu levemente, e voltou sua atenção para o prato. Notei que Ricardo estava falando com Jonas sobre o que acontecera na praia, e nem notara coisa alguma.
– Então, você é a doce Fernanda? — indagou Topázio, olhando com admiração para minha jovem amiga ruiva, que estava comendo ao lado de Gabriel. Eles pareciam bem absortos nos próprios assuntos.
– Sim, sou eu. Obrigada por nos aceitar em seu esconderijo. Acredito que falo por todos quando digo que as coisas não iam nada bem lá fora. — agradeceu Nanda, sendo a fofa de sempre. Notei que todos havíamos parado para olhá-la. Não haviam conversas paralelas diante do som de sua voz. Ela era nossa caçula, o xodó do grupo. Principalmente com tudo pelo que passara.
– Oh, por nada querida. Não podemos deixar uma delicada gestante no meio da estrada, com tantos perigos! — Topázio parecia horrorizada. Assim como eu. Gestante? Como assim? Notei as expressões de choque e surpresa em nosso grupo, e foi fácil reconhecer aqueles de nós que já sabiam daquilo. Ana, Sabrina. Diana, Tânia, e até Carol e Gabriel! Era um pouco chato descobrir que Nanda não confiara em mim o bastante para contar algo tão importante, mas ainda assim, eu compreendia. Estivera tão imerso nos meus próprios problemas, que eu não poderia tê-la dado a atenção necessária. As reações eram diversas na mesa. O grupo da boate, parecia comovido com a situação de Fernanda. Entre nós, aquilo levanta questões mais tensas. Não só pela gravidez em si, mas também por todos sabermos de quem era o bebê. Aquilo devia ser tão difícil para Nanda! Um fardo pesadíssimo para carregar tão jovem.
– Eu não... Entendo! Como você sabe sobre isso?! — Nanda parecia chocada, e assustada. Fitava a todos nós, em desespero. — Eu não havia me decidido sobre isso! — ela quase gritou, levantando-se da mesa. Gabriel, ao seu lado, também parecia assustado. Mas de alguma forma, ele se comportava como se já soubesse ou desconfiasse daquele fato. Revoltada, Nanda finalmente olhou para Carolina. Todos seguimos o seu olhar. Encarando-a, Carol parecia inabalavelmente cínica, tirando sujeira de uma de suas enormes unhas. — Foi você! Você contou pra ela! Não tinha o direito.
– Eu contei pra Topázio o motivo de termos encontrado o grupo dela. Estávamos procurando remédios de aborto pra você. — disse Carol, na frente de todos. Bem desse jeito particular dela. O modo vadia de ser. — E quase morremos no processo. Se o grupo de Dimitri fosse um bando de loucos estupradores, eu teria morrido por sua causa, ruivinha. Exatamente do mesmo modo que Victoria tornou-se Inumana ao tentar te ajudar, e Rafael foi morto por Arlindo, junto com Luca. Preciso continuar? Oh sim, eu continuo. Também sei que você só quis tirar o bebê por desespero, e por influência da Sabrina, aqui. — Carol apontou para onde Sabrina se encontrava, com Ana. — E mesmo não concordando, tentei ajudar em amizade à você. Mas pensei melhor e acho que você não tem o direito de matar a criança, principalmente agora que temos um lugar para ficar. E como somos em tese, uma família, achei que tinha o direito de achar um modo de te impedir de fazer uma burrice. E fiz. Aposto que Diana concorda comigo. Se quiser ficar sentindo pena de si mesma pelo resto da vida, lamentando o que aconteceu, vá em frente. Mas não mate um inocente. Tente seguir com sua vida, se abra pra felicidade. — Carolina olhou para Gabriel, que estava sorrindo. — Você pode levar a gravidez à diante, não vai morrer. Vamos todos te ajudar, como pudermos. Só não estrague tudo. Outra vez...
E retirando-se de maneira triunfal, a vadia-mor de nosso grupo levantou-se, indo em direção às escadas, com Jonas sendo praticamente puxado pelo braço. Carolina podia ter muitos defeitos, mas considerando suas palavras, percebi que ela de fato, tinha um pouco de razão. Bufando e com os olhos marejados, Nanda afastou-se de nós, correndo na direção dos banheiros. Gabriel tentou segui-la, mas Diana o impediu, com um olhar de simpatia. Ela sabia como era difícil ser mulher. Era evidentemente, a mais experiente do grupo, junto com Tânia. Agora que titia morrera, eram elas nossa bússola moral, nossa sabedoria emocional. Victoria parecia chocada com a revelação, e provavelmente perdera o apetite, como eu. Descobrir que Nanda estava grávida trazia de volta tudo o que havíamos passado no último ano, principalmente ao ver algo tão íntimo e significativo sendo contado por Topázio, que mal conhecíamos. Carolina não devia ter envolvido o novo grupo naquilo. Mesmo que o risco de ter um bebê também afetasse a eles. Não deveriam saber primeiro que nós.
– Eu sinto muito. — disse a loira Topázio, com seus cabelos curtos em cachos tão perfeitos e lisos, que dariam inveja em Marilyn, se a Diva ainda fosse viva. — Carolina não me disse que era um segredo. Realmente, estou embaraçada com essa situação. — se ela soubesse como Carol podia embaraçar alguém, ficaria surpresa. Compadeci-me da mulher, coitada. Parecia tão ingênua. — Espero que estejam sentindo-se em casa. — desejou. — Preciso me recolher agora. Vou deitar-me no andar de cima. Temos colchões e almofadas para todos. Aproveitem e encontrem seu cantinho. — deixando-nos, ela logo se foi.
Depois do jantar, todos nos separamos em pequenos grupos. Os moradores da boate recolheram-se depressa, dando-nos espaço para conhecer melhor o lugar. Intimamente, tive a estranha sensação de que na verdade, todos estavam se recolhendo porque Topázio o fizera, como se a hora de dormir também fosse ditada por ela. O único que ficou conosco por mais tempo fora Dimitri, com suas bobagens. Ele conseguira fazer com que mesmo Nanda sorrisse. Ela estava furiosa com Carol. As duas viviam brigando, nos últimos tempos. Em breve reatariam de novo. É claro que Fernanda sabia que por mais odiosa que fosse, Carol estava certa. Mesmo que o metódo tivesse sido absurdo, o fim era nobre. Enquanto Rico conversava com Victoria e Diogo, sentei-me sobre um sofá negro maliciosamente macio, ao lado de Otto. Ele simplesmente mirava o teto, apreciando o ambiente ao redor. Fácil de compreender aquilo. Alívio e paz puros.
– Oi, moço. — chamei-o. Ao ver-me, Otávio riu. Gostei de como as coisas haviam ficado. Sem clima ruim entre nós. A verdade, é que ele estava certo. Um jamais poderia ser para o outro, tudo o que era necessário. Nada além de amizade seria saudável, entre nós. E de uma forma engraçada, eu estava aliviado. Com um soco de brincadeira, empurrei Otto no ombro esquerdo. — Desculpe pelo que rolou na praia. Não ficou nada estranho entre nós, não é?
– É claro que não. — respondeu Otávio. — Mesmo que seja difícil pra alguém que se considerou hétero a vida toda admitir, eu também te beijei. E vimos que não tem nada a ver. Estamos bem. — ele riu. — Podemos seguir em frente. Sei que você quer falar sobre outra coisa, tá na cara.
– É verdade. Acha que devo contar ao Rico? Não consigo ficar em paz com isso! — esganicei-me, desesperado. Notei o olhar de Otto direcionando-se para acima da minha cabeça, e então ele revirou os olhos.
– Não precisa contar nada. Ele acabo de ouvir nossa conversa. — Otávio levantou-se no exato momento em que Ricardo o agarrou pela camisa, empurrando-o na direção do chão. Eu não conseguia acreditar nos meus olhos, enquanto meu amigo tentava explicar que nosso beijo não significara nada, sem sucesso. Procurei por Vicky ou Diogo, mas eles também já tinham ido se deitar, e ninguém ali embaixo estava fazendo barulho. Mesmo que fosse bom evitar um escândalo, seria uma pena que ninguém fosse acordar e apartar aquela briga.
Acertando Otto no estômago, Ricardo o fez cair sentado. Meu namorado tentou outra investida contra ele, mas Otávio o chutou no joelho com força, do chão. Desequilibrado, Rico tombou, seu traseiro provocando um baque surdo ao atingir o chão. Como dois gatos de rua, os dois engalfinharam-se no chão, rolando como moleques. Eu pedia e pedia para que parassem, mas nada resolvia aquele inferno na Terra. Até que Diana veio da cozinha, ao lado de uma Fernanda bem mais calma e paciente. Gabriel estava logo atrás. Sabrina e Ana também estavam por ali. Tinham acabado de sair do banheiro feminino, juntas. Só Santa Bárbara sabia o que deviam estar fazendo por lá, sozinhas. Como um foguete baixinho, Gabriel enfiou-se entre os dois lutadores greco-romanos, tentando separá-los como podia. Ricardo finalmente largou Otto, que tinha a gola da camisa meio rasgada, e os lábios sangrando. Rico estava com uma enorme mancha escura pouco acima da bochecha, perto do olho. Ambos ficariam deploráveis, em breve. E tudo por minha culpa. Maldição.
– Chega! Acabamos de chegar aqui! Vão fazer com que a Topázio expulse a gente! — surtou Nanda, com razão. — Não sei como isso tá acontecendo, mas chega.
– Otávio beijou o Hugo. — disse Ricardo, como se isso justificasse tudo. Ele estava quase babando de ódio, fitando Otávio com uma fúria perto de homicida.
– Eu beijei o Otto. — defendi o garoto, afinal, eu não era conhecido por mentir. — E não foi nada para nós, Rico. Eu ia te contar. Me arrependo muito de ter sido impulsivo, e sei que errei. Mas sua razão não lhe dá o direito de agredir ninguém. Otávio não merece isso. Eu sim.
– Não interessa quem beijou quem. — disse Otto, todo vermelho por causa da briga. — Mas ambos pedimos desculpas a você, Rico. Só entenda: Eu nunca quis tirar o Hugo de você. Foi um incidente espontâneo, depois de termos ficado realmente perto da morte. Você nem faz ideia do quanto. Só estávamos desesperados, e aconteceu. Somos apenas amigos. E só.
– Não importa. Cansei disso. Cansei de vocês. — soltando-se de Nanda, Rico saiu ligeiro na direção do andar de cima, onde ficavam os camarotes. Movi meus lábios num pedido mudo de desculpas, a todos.
– Eu concordo com o Ricardo. Vocês foram muito desleais com ele. — Sabrina disparou, de braços cruzados. — Ele fez pouco. Eu teria quebrado sua cara, Otávio.
– Eu não duvido nada disso, Sabrina. — Otto respondeu, com um sorriso cínico. — Mas você não corre esse risco, né? Leva a Ana na rédea curta. Se bobear, manda até no que ela come. Mas deixa eu te contar uma novidade: Acho que você entende bastante de deslealdade por aqui. Ou pensa que vou esquecer do dia em que você largou todo mundo pra trás e foi se esconder, quando resgatamos a Vicky, o Jonas e a Diana? Isso foi desleal. E ninguém que você abandonou, te julgou. Incluindo a mim. Talvez isso diga um pouco do seu caráter, ou da falta dele.
– Chega, Otto. Pegou pesado agora. — cortou Ana, de olhos arregalados. Todos havíamos nos agrupado, e nos fitávamos como que numa reunião na qual todos temiam ser o próximo assunto em pauta. — Hugo anda tendo problemas com Rico faz tempo. Devia ter no mínimo respeitado ele, ao invés de querer complicar mais as coisas.
– Cada um na sua, Ana. Não me meti no seu relacionamento com a Maria Machadão até agora. — rebati, nervoso. — A pessoa que deixa a namorada ir sozinha buscar remédio de aborto numa farmácia no meio do nada, não tem moral pra falar de mim.
– Por que diabos tudo volta pra minha gravidez? Chega! Será que vocês não tem outro assunto não? Hugo, não tente cobrir seu erro por ter traído o Rico, colocando o meu na reta! Tudo bem que a Sabrina tentou me influenciar, mas eu já caí em mim, ok? — Nanda manifestou-se, irritada. Aquilo estava virando uma confusão.
– Pelo menos alguém caiu em si! — resmungou Sabrina. — O banana do Gabriel por outro lado, vai morrer sem te falar o que sente.
– Epa, já vão me colocar no meio dessa cachorrada? — revoltou-se o rapaz, surpreso.
– CACHORRADA? Cê tá me chamando de cachorra? — com as mãos na cintura, Ana virou-se para Gabriel, em ultraje.
– Sapatão é muito ofensivo. Ele foi gentil. — alfinetou Otto, com veneno escorrendo pelos cantos da boca.
– Seu desgraçado! — guinchou Ana, e vi-me tentando esconder um sorriso. A coisa entre ela e Otto sempre ficava num nível diferente. Ninguém se metia.
– Chega. Chega! — gritou Diana, que todo mundo esquecera que estava ali. Ela só observava a tudo, chocada com nossa briga. — Isso é um absurdo. Uma baderna sem sentido! Nenhum de vocês percebeu que desde o jantar, as coisas ficaram tensas? Não quero mais ouvir nenhum comentário maldoso entre nós. Esse espetáculo deplorável chegou ao fim agora. Chega de apontar erros. Não temos santos aqui. Vamos focar no que realmente importa. Estamos num lugar novo, e não podemos baixar a guarda até termos certeza de que realmente podemos confiar. A partir de hoje, vamos ficar de olho nesse povo daqui. Especialmente nessa tal Topázio. Há algo errado no modo como ela falou da gravidez de Nanda. Não foi sem querer. E todo aquela conversa pagã terrível, não me convenceu. Ela sequer parece crer de verdade no que diz. Todos concordam comigo?
– Eu também acho que temos que parar de brigar. — concordou Ana. — Mas não vou espionar ou desconfiar da mulher que nos salvou a todos. Ela não tinha a obrigação de fazer nada disso. Diferente de vocês, vou ser grata. Não contem comigo.
– Nem comigo. — assinou embaixo Sabrina. — Topázio é uma mulher de bem.
– Veremos. — eu disse. — Conte comigo, Diana. — afirmei.
Com um acordo firmado, finalmente procuramos o rumo de nossas camas. Ninguém aguentava mais manter-se desperto. As últimas emoções haviam sido intensas. Até demais, por sinal. Eu não sabia identificar ao certo o que ocorrera ali na boate, mas não parecia que toda aquela briga fora simplesmente ocasional. Era como se todo o nosso ressentimento e julgamento estivesse sendo exposto ali dentro. Imaginando que deviam ser apenas ideias sem fundamento algum forçando a barra na minha mente, resolvi dormir antes que pirasse. Como insetos no âmbar, parecíamos fossilizados nos nossos próprios receios. Cegos demais com a raiva e o medo, para vermos o que de fato, se agitava abaixo da superfície calma do lago profundo no qual estávamos nos banhando...
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