Quebranto.

63 Guarde suas flores.


Notas iniciais
Pessoal, boa leitura. Não falarei nada aqui, hoje. Vou deixar o capítulo falar por si.

Victoria.

– Olá, Vicky. Surpresa? Eu aposto que sim. Felizmente você pode guardar suas flores e luto. Não estou morta. — eu não podia acreditar. Mil vezes pensei que talvez uma facada não houvesse sido o suficiente para livrar o mundo daquela mulher horrível, mas vê-la novamente não era um dos meus planos. Deus, eu achava que ela seria devorada pelos zumbis. Eu esperava que sim. Agora, ela não só continuava viva, como parecia ter encontrado seres tão terríveis quanto ela. E um deles, era uma garotinha. — Eu esperava uma recepção mais calorosa. Pelo menos, uma que fosse digna da que eu dei a vocês, quando vieram perdidos até mim.

– Tudo pra depois você transformar nossas vidas num inferno. Vá embora agora e não vamos atirar em você. — rebateu Ricardo. — Se afaste de Victoria, e de Hugo.

– Oh, mas eu acabei de chegar! — ela pareceu ultrajada, e então sorriu. Não havia o mais ínfimo sinal da pompa e circunstância com a qual ela fora habituada. Ao redor dela, seus amigos inumanos sorriam, assustadores. — Você é o Hugo, não é? — ela mirou meu amigo, e empostei-me ainda mais, para defendê-lo. Nora deu-me forças, mas não a senti de fato. Eu apenas sabia que minha coragem vinha do lugar em minha mente onde ela costumava ficar. Talvez, eu finalmente estivesse começando a compreender quem eu era. — Hugo, meu bem, por que não se livra da Victoria e vem ficar pertinho de mim? — eu fiquei atônita. Não pude acompanhar o absurdo do que Topázio estava dizendo. Até que levei um chute muito forte na canela, e cai de bruços no chão. De olhos arregalados, olhei em volta enquanto Hugo corria na direção de nossa inimiga mais cruel. — Ótimo, querido. Sempre te achei um doce. — rindo, ela piscou para um de seus companheiros, o de sorriso assustador. Ele riu alto em resposta. — Por que não me tira uma dúvida? Fernanda sobreviveu?

– Sim. Ela está viva. — confirmou Hugo.

– Não, Hugo! Não a obedeça! — gritou Ricardo, desesperado. — Fique longe dele. — foi prontamente ignorado. — Ninguém atira! Diogo, entendeu o que eu disse? — meu namorado xingou e abaixou sua arma.

– É muito bom saber. E os bebês? Nasceram? — ele fez que não. — Humm, melhor ainda. Onde ela está escondida?

– NÃO, HUGO! — lamentou Sabrina, chocada. Nosso amigo meramente apontou na direção onde estava o esconderijo de Nanda. O sorriso alargou-se no rosto de Topázio, que acariciou o rosto de Hugo com suas unhas enormes.

– Gárgula, Samantha, Jeff. Deem um jeito nesses aí. A Victoria eu quero presa, mas uma surra não faria mal. Princesa, você não queria pets novos? — a garotinha riu, dando pulinhos de alegria, e expectativa. — Dentro dessa pousada deve ter mais gente, não é Hugo? — ele assentiu. — Então... Boa caçada, Liv.

Foi então que um portal direto com o inferno abriu-se, nítido e tão presente quanto os inimigos que batiam à nossa porta. Topázio caminhou paralelamente a nós, como se fôssemos insetos. Hugo a seguia como um pequeno cão de raça, um mascote de madames. Levantei-me pronta a segui-los, focando apenas o meu alvo, enquanto começava a correr na direção do esconderijo de Fernanda. Alguém agarrou meus cabelos e puxou-me para trás, enquanto o som de tiros começavam a ecoar pelo jardim abandonado da pousada. Aquele lugar seria pacífico e cheio de paz, se não fosse a nossa presença. Pensando no grupo que havia vivido ali, imaginei pela primeira vez que poderíamos estar vivendo num cemitério. Seria aquela uma punição pela nossa invasão? Com a mente girando devido à dor da pancada que eu levara ao bater com a testa no solo, tentei me erguer apenas para ver um pé bem firme vindo de encontro ao meu rosto. Rolei zonza, lutando para puxar o ar. Repleto de neblina, meu campo de visão distinguiu Diogo abaixando-se para escapar de um banquinho que fora arremessado pelo grandalhão comparsa de Topázio.
Ricardo atirou contra o gigante, mas o que aconteceu foi o oposto do que eu esperava. Não só as balas não penetraram na pele do monstro, como também foram expelidas, caindo inúteis ao seu redor. O homem estranho, de alguma forma conseguia se esquivar de todos os disparos realizados por Sabrina. Já a mulher loira (que me lembrava muito da noiva serpente que eu encontrara antes), estava bem perto de Otávio. Ela parecia se mover como se deslizasse. Ela cuspiu uma substância verde sobre meu amigo, mas ele defendeu-se pondo a arma entre o muco e seu rosto. Uma fumaça estranha começou a desprender-se, enquanto ele soltava o objeto sacudindo a mão e gritando de dor. Samantha o chutou no estômago, e arremeteu-se em sua direção. Gritei, esquecendo do meu próprio oponente. Uma sombra esguia cobriu minha visão, e deparei-me com Lívia, mirando-me com uma expressão de felicidade, quase comovente. Se não fosse falsa.

– Eu lembro de você. A menina de cabelos bonitos. Agora eles estão feios. Mas você continua bonita. — ela olhou para Otávio, que tentava desesperadamente livrar-se de Samantha. — Peçonha! Esse não. Escolhi ele pra mim!

– Princesa mimada... — gemeu a tal loira, e então agarrou Otto pelos cabelos, batendo sua cabeça contra o chão. Meu amigo desmaiou. — À vontade.

– Depois eu volto pra buscar o bonitinho. Vou te deixar aí pra Topázio. Melhor não levantar. Ela vai ficar irritada se você morrer antes dela chegar. — contente, ela foi saltitando em direção da pousada. Eu senti meu peito apertar pensando em todos que estavam lá dentro. Alguém tinha que impedi-la. Mas por que o mundo estava girando tão rápido? Quando achei que não havia mais esperança, Jonas bloqueou o caminho da menina. Ela pareceu assustada, pois deu dois passos pra trás.

Eu tinha certeza de que ele estava tentando proteger Carolina. Eles realmente haviam consertado os corações, um do outro. Tinha certeza de que minha amiga nunca teria mudado tanto, nunca teria encontrado a si mesma, sem a ajuda daquele homem, que também salvar a minha vida. Um sobrevivente. E um inumano poderoso. Por infortúnio, Lívia também o era. Ela olhou para cima enquanto Jonas caminhava em sua direção. Ele tinha uma faca de caça tão asustadora em sua mão direita, que imaginei que ele conseguiria atravessar o corpo frágil da menina, se a empalasse. Sentindo o sangue pingar de minha boca cortada para o solo, segui a direção para onde Lívia estava olhando. Minha boca abriu-se em pânico. Todo o ar estava distante dos meus pulmões. Por um segundo, sequer era capaz de lembrar de como era respirar. No teto da pousada, haviam várias vespas mutantes, caminhando por cima de si mesmas, como se nosso acampamento fosse um tipo de colméia horripilante. A pequena Lívia ergueu uma das mãos. Os insetos ergueram-se como se respondendo ao chamado de uma rainha, e não princesa. Desceram do telhado numa torrente única, envolvendo Jonas num véu da morte do qual eu sabia, ele não poderia escapar.
Meu grito foi estridente. Todos pararam de lutar. Meus amigos estavam chorando? Aqueles que eu podia enxergar, sim. Diogo lutava com o homem esquisito, trocando socos e apanhando bem mais, numa clara desvantagem. Ele não reparara no que estava ocorrendo. Já o gigante perseguia Ricardo e Sabrina, que tentavam sem sucesso abatê-lo. Peçonha estava encurralando Dante, que usava as colunas da pousada para se proteger de seus jatos ácidos. Mas eu estava ali, vendo o homem que salvara a minha vida morrer, sem fazer nada. A dor, o desespero e o ódio estavam fazendo com que eu perdesse totalmente a cabeça. Eu estava ficando paralisada, louca. Com uma dor insistente nas têmporas, sentei-me enquanto Jonas gritava de dor, devido às picadas dos insetos. Destravando minha pistola, ergui minha mão mirando e rezando para acertar de primeira. O homem que me salvara não merecia aquilo. Eu iria salvá-lo também. Com um disparo, acertei a cabeça de Jonas, que desabou inerte. As vespas ergueram-se ao céu, rondando a pousada num círculo obscuro, que parecia aguardar por ordens de Lívia. Ela olhou na minha direção, e fez cara feia. Eu estragara sua diversão. Seu olhar alcançou os insetos, e uma pequena quantidade começou a descer em minha direção. Ainda chorando, apenas desejei ter tempo de matá-la também, mas então, ela entrou na pousada.
Engoli o choro e fugi, tentando entender o porquê de tanta perda e dor. Eu não sabia quanto mais poderia aguentar. Quer dizer, eu já era bem grandinha e já passara por poucas e boas para entender que naquele mundo, pessoas morriam de maneira bem mais comum que o normal. Eu entendia. Mas viver naquela roleta russa, sem saber quais das pessoas que eu amava sobreviveriam a mais um dia, era muito cruel. Era cansativo. Eu devia saber, àquela altura, que a paz nunca havia sido uma opção real. Que eu nunca mais deveria ignorar os avisos de Cecília. Encarar as palavras de uma mulher capaz de ver o futuro, fora o fator causador da morte de Jonas. Como eu iria encarar Carolina?

– Victoria, cuidado! — gritou Diogo, enquanto eu me enfiava cada vez mais no gramado alto, tentando pensar num modo de matar aqueles insetos, e acudir Fernanda...

Carol.

As coisas estavam muito ruins lá fora. Eu não precisava ser uma nerd como a Ana, pra deduzir isso. Os tiros, a gritaria e a fodida imagem da Topázio de pé, eram um recado suficientemente claro. Deus, nós estávamso tão ferrados... Cinco inumanos doentes na nossa porta. Subitamente, senti saudades das hordas de zumbis. Aqueles monstros estúpidos eram simples, fáceis de lidar. Cansei de espiar o lado de fora pela janela, quando a garotinha derrubou Victoria no chão. Eu simplesmente não era capaz de ver mais nada. Não queria me sentir tentada a sair, deixando as outras desprotegidas. Um tiro atingiu a parede acima da minha cabeça, e agachei-me depressa, os joelhos doendo com o impacto. Sem resistir, olhei mais um pouquinho a tempo e ver Dimitri levando uma pedrada no rosto, e desmaiando, bem como Otto, que foi atingido por uma loira horrenda. O que não entrava na minha cabeça de jeito nenhum, era que eu fora escolhida pra defender Lavínia, Manuela e Cecília. Como se eu fosse ótima lutadora, pra constar. Até mesmo Dante estava do lado de fora.

– Carolina, precisamos fazer alguma coisa. — pediu Manuela, embora eu não fizesse ideia do que ela estava esperando que eu fizesse. — Onde as meninas foram?

– Eu não sei. A Cecília não estava aqui perto? — gemi, nervosa.

– Ela estava suando muito, foi lá pra cima. A Lavínia eu não vi desde que passou por mim chorando, mais cedo. Temos que achar as duas e dar um jeito de cair fora daqui. Não acha? — ela parecia muito amedrontada, mas nem de perto lembrava a louca depressiva que eu conhecera. De repente senti-me mais próxima dela. Duas mulheres que haviam tentado abrir mão da própria vida naquele mundo louco, e que agora tentavam defendê-la. Quase uma maldita música country.

– Vamos pegar a Cecília. — falei, sorrindo.

De mãos dadas, subimos as escadas até o segundo andar, e começamos a bater na porta do quarto de Otávio e Cecília. Eu preferia não pensar no meu amigos desmaiado do lado de fora. Eu não sabia quão grave fora seu ferimento na cabeça, e sinceramente nem queria saber. Ou então eu não conseguiria me mover, continuar. Droga, eu estava me cagando de medo. Bati com mais força na porta de Cecília, já irritada por ela estar nos ignorando. Manuela enfiou o olho na fechadura, e não conseguiu ver nada. Voltamos a bater na porta até que enchi o saco e comecei a chutá-la.

– Abre, Cecília! Abre! — chutando, e chutando. Um pequeno clic fez-se ouvir, e uma Cecília completamente coberta de suor surgiu, nos fitando com olhos mortos e expressão vazia. Ela praticamente caiu nos meus braços, e a equilibrei melhor. Ela mirou Manuela sem vê-la, mas então começou a sacudir-se violentamente, numa convulsão assustadora. — Puta que pariu... O que é isso?!

– Abstinência. — respondeu Manuela, abaixando-se ao lado dela e tocando sua testa. — Mirla já foi viciada em ecstasy. Foi um inferno quando ela estava largando a droga. Provavelmente o organismo da Cecília é mais forte, sendo inumana, mas mesmo assim ela usou heroína por tempo demais. Só Deus sabe como não teve uma overdose, por culpa da Topázio...

– Temos que tirar ela daqui. — resolvi, embora minha resolução só trouxesse mais desespero. — Onde no quinto dos infernos, se meteu a Lavínia?

– Banheiro. Ela deve estar chorando no banheiro. — murmurou Manuela, quase que tensa demais. Ela estava tão apavorada quanto eu, agora tinha certeza.

– Aquela doida. Isso não é hora... — apoiando um braço de Cecília por cima do meu ombro, comecei a descer as escadas. — Juro por Deus que vou enfiar minha mão no meio da...

Lívia estava parada na recepção da pousada. Seus dois olhos estavam totalmente brancos, como se ela estivesse usando em excesso o seu poder. Das pequenas fissuras e das extremidades mais improváveis, baratas e formigas começaram a brotar, como se a casa inteira estivesse sendo devorada pelos insetos. As criaturas rastejaram para a menina, ficando ao seu redor como um cobertor vivo, pulsante. O som estalado e o zumbido dos insetos tornou-se mais odioso ainda aos meus ouvidos, sabendo que eles estavam ali por nós. Apavorada, apenas ouvi o grito estridente de Lavínia, enquanto ela vinha correndo do banheiro, seguida de perto por uma quantidade constrangedora de insetos. Puxei a arma que Ricardo deixara comigo por emergência, sabendo que precisaria dela mais do que nunca. Três balas, era tudo o que eu tinha. Tinha que bastar. Manuela apoiou Cecília no meu lugar, e me fitou apreensiva.

– Volte com ela e tente pular pro lado de fora. É só um andar, bem baixo. Vocês conseguem. Vou resolver isso aqui... — nem com reza forte eu estava acreditando no que dizia. Mas tinha de servir. — Rápido. — confirmei, e Manuela deu meia volta com Cecília, que respirava com dificuldade. — Lavínia, corre pra porta lateral! Continue correndo até não ver mais esses bichos! A Manuela vai te encontrar do outro lado!

– Eu não gostei de nenhuma de vocês. — decidiu-se Lívia. — Eu lembro de você, também. Não era legal como a Victoria. Vai morrer.

– Vou, sim. Mas não vou ser a única. — rebati. — Já te falei que odeio crianças? Principalmente as que não são da família.

Correndo, desci as escadas pulando de três em três degraus, escapando do local no exato momento em que um enxame de baratas voadoras alcançou o lugar onde eu estivera. Elas fixaram-se na parede e começaram a andar na minha direção, enquanto formigas e baratas normais começavam a subir as escadas à minha frente. Eu estava totalmente cercada. Com um embrulho de nojo no estômago, agarrei o corrimão da escada e me joguei por cima dele, caindo no térreo com uma pancada que me levou o fôlego. Chorei de dor, sentindo as lágrimas escorrerem enquanto eu lutava para me levantar e correr, ignorando a dor do impacto em meus seios. Tentei tomar a mesma rota que Lavínia utilizara, mas o corredor já estava coberto de insetos que haviam corrido em seu encalço. Dessa forma, tive de evitar também o corredor do banheiro, indo direto na direção da cozinha. Pela primeira vez então notei o cheiro forte que exalava de Lívia. Talvez houvesse algo ali que eu ainda não considerara. Entrei na cozinha e fechei a porta atrás de mim, vasculhando os objetos e empurrando a mesa grande de madeira para bloquear o caminho. Não demorou muito até alguns insetos começaram a penetrar no cômodo por baixo da porta fechada. Grunhi de desespero, considerando que não havia porta para o lado de fora na cozinha. A única, que fora arrombada pelo grupo anterior, havia sido consertada e pregada à pregos por Ricardo, o que resultava num túmulo onde eu me enfiara, cega de medo. Pensei em Jonas, certa de que ele sofreria muito ao me ver morta. Eu não queria que ele sofresse por mim, mas parecia ser só o que eu era capaz de fazer às pessoas que amo. Meus amigos, também. Imaginei que se eu tivesse um escudo transmitido por feromônios que nem a Cecília, tudo seria bem mais simples...
Feromônios. Aquilo me deu algo em que pensar, enquanto pisoteava baratas feito louca, quase vomitando o que eu não tinha no estômago. Olhei para o fogão e vi as batatas (sempre as malditas batatas), cozinhando na água fervente. Algo que Ana dissera sobre os poderes de Cecília não saía da minha cabeça. Ela comparou Cecília à uma abelha-rainha, capaz de emitir um odor com uma mensagem a outras criaturas. Só que o odor de Cecília era repulsivo aos animais e zumbis, enquanto que o de Lívia parecia dominá-los. Odor. Ela não devia tomar muitos banhos também, a julgar pelo cheiro. Odor. Um sorriso se formou em meus lábios no exato momento em que percebi o que devia fazer. Com sua força inumana, Lívia arrombou a porta da cozinha, totalmente cercada dos insetos mais asquerosos que eu já tinha visto, andando sobre seu corpo, cercando seus pés e começando a espalharem-se pela cozinha.

– Te peguei. — ela riu, como se tudo aquilo fosse uma grande brincadeira. Senti, por alguns momentos, piedade por ela. Crianças não deviam ser transformadas em criaturas tão vis.

– É, pegou mesmo. — ri de volta, agarrando a panela de água fervente sobre o fogão, e arremessando seu conteúdo contra a menina. A água chiou e emitiu fumaça em contado com seu corpo pequeno, e os animais que a cercavam. Sua pele tornou-se vermelha e começou a criar bolhas, enquanto ela gritava em agonia total.

Com o corpo dolorido, apoiei-me contra o balcão da pia, observando o espetáculo horrendo à minha frente. O cheiro que se desprendeu da menina foi nojento, e uma espécie de água escura escorreu de seu corpo. Alguns insetos começaram a se afastar, voltando aos seus buracos escuros e solitários. Outros, não. Sem o cheiro que os mantinha sob controle, os animais imundos começaram a devorar sua própria princesa. Gritando em agonia, Lívia caiu por cima de seus próprios insetos, queimada e devorada. Chorei de horror e pena, cobrindo a boca com as mãos que seguravam a arma. Atirei contra a cabeça da menina, esperando que seu sofrimento a deixasse, enfim. Um último vislumbre de paz e descanso inundou sua face, antes de perder-se em meio às criaturas que continuavam a devorá-la a despeito de sua morte. Isso, fatalmente, me daria mais tempo. Corri para a janela da cozinha, e subi na pia, ficando de pé sobre a estrutura delicada. Enrolei um pano de chão na mão direita, e soquei o vidro, estilhaçando-o. Continuei, destruindo todo o vidro. Um dos cacos rasgou o pano velho, e consequentemente minha mão. Felizmente, eu estava tão louca de medo da morte, que nem notei isso no momento em que me feri. Apenas apoiei as mãos nas laterais da janela, e forcei-me para a frente, passando pela abertura estreira. Pedacinhos de vidro cortaram minha barriga e minhas coxas, mas eu estava tão aliviada por escapar da morte que apenas caí na grama, olhando pro céu enquanto respirava com o maior prazer que eu já havia sentido em meses.

– Carolina?! — a voz esganiçada chamou-me.

– Lavínia? Você escapou mesmo! Garota esperta! — sorri, surpresa por vê-la.

– Meninas! — gritou Manuela, com uma Cecília um pouco menos debilitada ao seu lado. Nossa vidente tinha um ferimento de corte no braço esquerdo, e segurava dois dedos com insistência suficiente para me dizer que havia deslocado algo. — Que bom que conseguiram!

– Temos que sair daqui. — sussurrou Cecília. — Eles estão vindo.

– Eles quem?! — indaguei, assustada.

– Os mortos. — Cecília tirou seus óculos escuros, me olhando com profundo significado. — Durante minhas crises meu escudo cai. Eu avisei que não duraria muito. Temos que fugir.

Notas finais
Ok. O que dizer depois disso? Apenas que o próximo capítulo estará ainda mais tenso. Por favor, comentem. As opiniões de vocês me deixam muito feliz, e me faz sentir que todo o esforço vale à pena. Além disso tudo o que vocês me dizem, é o combustível que move essa história. Até a próxima, meus morceguinhos. Kisses by DroppingPieces!