Quebranto.

64 Amor & Fraqueza.


Notas iniciais
Ok pessoal, sei que todos devem estar ansiosos para acompanhar os próximos acontecimentos. Só posso dizer que este é um capítulo muito importante. E especial. Espero que todos o sintam no coração, assim como eu. Obrigado aos reviews lindos, e por me darem tanto apoio. Vocês são os melhores leitores que alguém pode ter. Boa leitura, morceguinhos.

Victoria.

Como uma nuvem que se dispersa em meio ao vento, as vespas se separaram em dezenas de direções possíveis, voltando aos buracos escuros ou charcos lamacentos de onde deviam ter saído. Por instantes, o céu da tarde ficou tomado por pequenos pontos negros, enquanto elas se dirigiam ao horizonte. Devo admitir que, fosse lá o que tivesse ocorrido com Lívia no interior da pousada, havia sido ótimo. Eu provavelmente não teria fôlego, nem rapidez o bastante para me livrar dos animais que estavam me atacando. Não sem conseguir pensar direito. Por sorte, alguém havia resolvido a questão por mim, o que me permitiu apoiar-me ao ônibus de turismo do grupo, e respirar fundo. Ouvi ao longe a voz de Diogo elevar-se à dos demais, num gemido de dor que me fez sentir uma descarga elétrica intensa atravessar o meu corpo. Eu não aceitaria perder mais ninguém. Como se outro dos instintos humanos mais básicos (este bem mais sombrio que aqueles com que eu estava habituada) houvesse sido somado àqueles que já ferviam a minha cabeça, soltei um urro de ódio contra meus inimigos, e corri na direção do homem com o sorriso enorme e uma velocidade que eu nunca tinha visto na vida. Ele estava mostrando à Diogo como levar uma surra de verdade, quando engatilhei minha arma e disparei contra sua panturrilha, pelas costas. Ele gritou alto, e Diogo caiu sentado, zonzo se sujo de sangue após largá-lo e afastar-se. Sem raciocinar direito, me joguei no chão e agarrei aquele garoto esquisito, com cabelo bagunçado. Tirei a faca de minha cintura com tanta força, que os nós de meus dedos estalaram, e puxei seus longos cabelos. Ele tentou desvencilhar-se e agarro minha mão que o puxava, começando a contorcer-se. Mas minha força era tão inumana quanto o seu sorriso, e o bastante para contê-lo. Apenas o mantive preso em meu aperto, e passei a lâmina na minha mão direita contra sua garganta, sentindo como nunca a resistência das camadas de pele e da carne contra minha investida mortal.
O rapaz agarrou o próprio pescoço, e começou a sufocar. Pensei em terminar com seu sofrimento, mas não achei razões em meu coração para ser compassiva. Aquela fase havia passado. Num canto remoto de minha mente, senti que em definitivo, eu compreendera os motivos de Nora. Sua razão de existir. A morte de Jonas talvez fosse o empurrão de que eu precisava para perceber que, num mundo onde somos nós ou eles, é necessário ser violento. É necessário ter a certeza de que se quer viver, custe o que custar. E mesmo que partes de você fiquem pelo caminho, com as pessoas amadas que perdemos. Quando predadores são presas, e os mortos-vivos são o seu menor problema, amor é também fraqueza. Algo que eu devia admitir com um sabor amargo, que aprendera com Topázio. Mas ao que parecia, eu não era a única ali a perder um ente querido. Enquanto Diogo aproximava-se de Otávio para acordá-lo, e Dimitri tentava socorrer um inconsciente Ricardo, Dante fugia dos ataques constantes da mulher com aspecto de serpente, que parecia possessa após a morte do homem horroroso do qual eu me livrara. Já Sabrina, tentava de todas as formas possíveis escapar do grandalhão careca, que simplesmente parecia ter prazer em ferir pessoas. De todos os aliados de nossa antiga inimiga, aquele parecia ser o mais cruel, e ao mesmo tempo, mais inocente. Com um último olhar para o corpo do contorcionista, que executava seus últimos espasmos antes de fitar o céu sem nada ver, ergui-me e corri até Dimitri.

– Jeff! NÃO! — gemeu a mulher pálida, contorcendo-se e avançando contra Dante de modo agressivo.

– Dimi, ajude Sabrina! Vai! — pedi e ele apenas obedeceu-me, enquanto eu checava o pulso de Rico. Estava compassado, e respirando. Repleta de alívio, o larguei e fitei Diogo. — Dante! Ajude-o! — ele assentiu depressa, e correu na direção oposta à de Dimitri. Arrastando com dificuldade o corpo de Ricardo para que ficasse próximo ao de Otávio, eu ainda estava no chão empoeirado quando Carolina surgiu pela lateral da pousada, toda machucada e liderando as meninas para o meio do confronto.

– Otto! — sufocou-se Cecília, que parecia num estado deplorável, em muitos sentidos diferentes. Como uma insana, ela jogou-se por cima do corpo dele, sentindo-o antes mesmo de se aproximar do local onde o deitáramos. — Oh, meu bem... Se ao menos eu pudesse ver algo sobre sua recuperação...

– Onde está Jonas? — minha amiga exigiu, já nervosa por não vê-lo de pé, lutando. Mordi meu lábio inferior e ao invés de encará-lo, mergulhei o rosto no peito do Ricardo adormecido. Eu não suportaria vê-la. Não sabendo que todos já haviam deduzido o que havia rolado. — Não. NÃO! — pelo som produzido, ela deixou a arma que estava segurando cair no chão. — Como? — seu rosto estava rígido, numa máscara de terror e gélida como uma tempestade de inverno na América do Norte.

– Lívia. — falei, engolindo um pedaço do meu coração, no processo. — Ele morreu nos protegendo.

– Então, pelo menos matei a desgraçada. Mas não foi o suficiente. — ela fungou. — Não consigo lidar com tudo isso de novo... — seus olhos se arregalaram e ela colocou a mão na boca do estômago, como que contendo forte dor. — Não dá tempo. Não agora. — Carolina estava se levantando. — Como essa merda toda começou? Achei que só ela estava vindo. Topázio está viva! Onde ela está?

– Ela está com Hugo. Foi atrás de Fernanda. — contei. — Temos que fazer algo.

– Concordo. Cuide dessas três. E ajude aos outros. Vou chegar na vadia... — antes que eu pudesse pedir que ela tivesse calma, Carol virou-se e saiu correndo. Rezei para que ela não estivesse tentando se matar de novo, embora eu soubesse com toda a tranquilidade que ela jamais tiraria a própria vida. Não depois de Jonas ter passado por ela. Não depois dele tê-la mudado.

Diogo resolveu o problema com a loira pálida em poucos minutos. Ele sabia lutar sujo quando necessário, e isso compensava sua diferença de força e destreza comparadas à dos inumanos. Apenas descarregou a arma em suas costas, enquanto ela atingia parcialmente Dante com um de seus jatos. O braço do garoto estava com uma laceração do tamanho de uma manga, sangrando muito, mas bem de modo geral. Sua expressão era dolorida, mas aliviada ao ver o corpo da loira contra o chão, vazio como um recipiente quebrado. Com a ajuda do nosso amigo, ele levantou-se e os dois se afastaram do cadáver ensanguentado. Tensa, busquei Dimitri com o olhar, e ele não parecia estar muito pior. Havia usado uma corrente de bicicleta da pousada para agarrar o gigante pelo pescoço, e enquanto o cara se debatia com ele nas costas, pendurado como um boneco, Sabrina atirou na cabeça do sujeito. Fora as escoriações e hematomas que ambos tinham, também pareciam que iam ficar bem. O que melhorava em muito toda aquela confusão na qual havíamos nos metido. Só ela restava. Topázio.

– Manuela, fique de olho no Otto e no Rico. — ela apenas concordou. — Vou tentar ajudar a Carolina.

– Victoria, espera! — gritou Diogo, que estava sendo apoiado por Sabrina. — Olha.

Segui seu indicador, que apontava para a porta arrombada da pousada. Através dos altos portões de madeira, uma das maiores hordas de zumbis que eu já vira, estava espremendo-se contra os pórticos e começando a invadir o local com dificuldade. Eu não os via em tão grande número desde que a boate havia sido tomada. E eu desconfiava a razão para tanto. Com o medo, a angústia, e a depressão provocados em Cecília não só pela abstinência, mas também devido às circunstâncias do mundo em geral, haviam provocado a anulação química total do feromônio responsável por afastar os monstros dos lugares onde ela estava. O que sempre acontecia nas piores horas possíveis. Quando um grito alto de Fernanda elevou-se, torci para que meus amigos pudessem lidar com Topázio. Eu mesma estava tendo o meu próprio e gigantesco problema particular. Podia apenas rezar par que não fosse o último, também...

Tânia.

Quando vimos o que havia sido feito de Jonas, creio que todos em nosso esconderijo prenderam a respiração no mesmo instante. Nossos corações e mentes, já apavorados por este incidente, ainda tiveram de lidar com o fato de que Topázio estava viva. Ela era uma das mulheres que eu mais odiara na vida, e sem dúvida, a que eu mais havia odiado desde o Apocalipse. Ainda assim, sua resiliência era invejável. Insistente, Nanda fez com que Gabriel a amparasse enquanto ela espiava na janela, com Ana e os gêmeos. Já eu, tinha minha própria janela, da poltrona que usava para dormir. Dali podia ver claramente o quão aterrorizante os inumanos poderiam ser. Até que notei que já fazia certo tempo com Nanda na posição vertical, e recomendei que sentasse na cama. Ela sorriu e concordou com um aceno, desculpando-se com o olhar enquanto Biel insistia em mirar o lado de fora, apreensivo. Os gêmeos não ficavam atrás, ansiosos e ao mesmo tempo amedrontados quando viram Lívia entrar na pousada.

– Francamente Tânia, não sei... — ela parou de falar, pois tropeçou nos pés de Gabriel pouco antes de alcançar o colchão. Sua expressão maior foi a de pura surpresa, devido ao fato de que ela sequer percebera que estava se acidentando, até cair de joelhos no chão, e mãos espalmadas para baixo. Felizmente, a queda não foi pior. Mas foi suficientemente ruim.

– Nanda! — alarmou-se Gabriel. — Dino, fica de olho no lado de fora! — o menino com cabelos lisos segurou Fê pelos ombros, com olhar vidrado.

– Não dá pra ver nada direito, eles estão se movendo bem rápido. — respondeu o menino. — A Topázio desapareceu.

– Argh! Que dor na minha barriga, Deus... — gemeu Nanda, começando a chorar. — Não deixa acontecer nada com meus filhos, Tânia...

Nervosa, praticamente arremeti contra o chão, puxando a cabeça de Nanda para o meu colo. Segurando meu nervosismo, apenas amparei-a enquanto a menina deitava-se, com auxílio de Gabriel. Troquei um olhar com ele, e o rapaz apanhou um dos travesseiros que haviam sido depositados sobre a cama. Vilma se abaixou perto da amiga e mãe, pegando sua mão como um anjinho a guardá-la. De algum modo, aquela imagem me comoveu bastante. Os cabelos da jovem estavam compridos, e num tom lindo de castanho. Seus seios começavam a emergir, como um botão de rosa que desabrocha. Ela estava se tornando uma moça, e uma das mais maduras que eu já havia conhecido. Dino, bem, ele também era especial. Ainda mais feliz sem o peso do amadurecimento, por enquanto. Eu podia identificar em sua irmã, o fardo da responsabilidade que aquele momento exigia. Ela entendia os riscos. Já o pequeno rapaz, parecia simplesmente concentrado no que lhe fora ordenado, embora eu desconfiasse que ele apenas não desejava ver Fernanda daquele jeito. Resmungando e soluçando de dor, minha pequena companheira estava agoniada. Parada de frente para a pequena cômoda ao lado da porta, Ana estava colocando água numa xícara de porcelana negra. Ela voltou em nossa direção com o comprimido nas mãos, aparentemente controlando as próprias reações secundárias. Eu sabia da história não resolvida entre ela e Sabrina, e ainda que eu achasse que as coisas estavam melhores naquele momento, eu também compreendia a importância do passado, e das palavras não ditas.

– Isso pode ser desconfortável, querida. — avisei, tateando entre as pernas de Nanda, após subir seu vestido. Fechei os olhos de medo quando minha mão encontrou uma substância líquida. Pela textura, não era sangue. O que nem de perto, era um alívio. Ela já vinha tendo dilatação gradativa há alguns dias, mas eu não esperava que o canal estivesse tão livre quanto o sentir, ao apalpar a região. — Ok, parece que chegou a hora.

– Tá de sacanagem, né? Ela não pode ter os bebês agora! — gritou Gabriel, desesperado.

– Eu sei que é difícil, mas não podemos fazer nada... — explicou Ana. — A bolsa estourou. Logo as crianças podem ficar sem oxigênio. O corpo dela está a ponto de liberar os bebês sozinho. Sei que não é como planejamos, mas Nanda, você entende o que digo? — ela dirigiu-se à amiga, acariciando o seu rosto. Com o suor começando a acumular em sua testa, e a molhar os cabelos ruivos, nossa pequena lutadora apenas sorriu.

– É só me dizerem o que fazer. Vamos ajudar a Mãe Natureza. — ela respondeu, embora estivesse claramente morrendo de dor. — Sabe, eu não queria trazer meus filhos ao mundo com esses monstros por perto... Prometem que vão cuidar deles? Eles são gêmeos que nem você e o Dino, Vilma. Cuida dos seus irmãos?

– Pra sempre, Nanda. — a pequena Vilma descontrolou-se, chorando enfim. Eu sabia que uma criança não poderia suportar as cargas de um adulto, ainda que fosse uma criança especial e inteligente quanto aquela. Mas eu teria de exigir mais do que seu limite. Eu não tinha escolha.

– Vilma, quero que você leve sua faca até a vela na cômoda. Deixa a lâmina inteira no fogo, até eu dizer pra tirá-la. — ela concordou. — Ana, pega a bacia com a garrafa de vodka do Gabriel, e traz aqui. — pedi, já que era tudo o que tínhamos para desinfetar minhas mãos. — Fique calma querida, e deite na posição fetal. — pedi à Nanda, que virou-se de lado e abraçou a própria barriga. Gabriel usou a faca dele para rasgar o vestido de sua namorada, livrando-se também de suas roupas íntimas. Ela estava bem À vontade com a situação, e com uma tranquilidade quase que preocupante. Mas eu já vira mães totalmente calmas durante o parto antes. Só não esperava que alguém com os problemas de Fernanda, fosse reagir assim.

Talvez se devesse ao fato de que ela fora preparada para o pior, por Cecília. Com uma expressão de dor, ela começou a massagear ao redor dos bebês, como eu a ensinara. Desejei um pouco de vodka na bacia branca onde eu havia comido (nojento, mas a única opção) e esfreguei minhas mãos por inteiro, livrando-me de qualquer bactéria que poderia ser prejudicial naquela situação. Apoiando a coluna de Nanda, a virei de barriga para cima, e ergui suas pernas, dobrando-as nos joelhos. Afastei-as uma da outra, expondo sua genitália. Era possível ver a cabeça de um dos nenéns, de modo parcial. Chorei de emoção, mas contive-a. Estava tão perto... E então a nossa porta foi aberta. Hugo entrou no quarto, com ninguém menos que Topázio atrás de si. Minha mente entrou em parafuso, e eu virei-me em direção à mulher horrenda, escondendo Nanda com o meu corpo.

– Oh! Mas que coisa linda! — ela colocou uma das mãos sobre o peito, mirando-nos com um misto de cobiça e adoração. — Por favor, enfermeira... Continue. Não sei como sobreviveu até hoje, mas agradeço por trazer minhas crianças ao mundo...

– Gabriel... — chorou Fernanda, tremendo. — Tira essa mulher daqui... Tira... — ela estava desesperada. — Ah! Deus! — ela contorceu-se, contraindo todo o corpo. Vilma reclamou do aperto em sua mão, mas manteve-se firme.

– Afaste-se da gente. — Gabriel estava armado. Eu não sabia que Ricardo lhe dera um últimos revólveres. Eu devia ter esperado que nosso líder não deixaria uma amiga tão querida desprotegida. — E deixe o Hugo em paz.

– Eu vou sair quando eu quiser. — ela riu, debochando. — E você, vai se ajoelhar na minha frente. — a expressão no rosto dele modificou-se. Seu olhar tornou-se vago, perdido.

– Deixa. A gente. Em paz. — Dino, que se abaixara, enfiou sua faca através do pé de Topázio, sem pensar duas vezes. A mulher (se é que aquilo ainda era uma), gritou e debateu-se, acertando o menino com um soco tão forte, que lhe tomou os sentidos. Vilma correu na direção do irmão, enquanto Hugo caía retornando a si, e Gabriel avançava contra a invasora. Paralisada, Ana estava encolhida ao meu lado, abraçada comigo enquanto ambas protegíamos Fernanda. Ela estava chorando.

– DESGRAÇADO! — o olhar doentio de Topázio alcançou Dino. — Vou esquartejar esse veadinho...

– Só se o inferno congelar. — surpreendendo-a, Gabriel encostou o cano da arma contra o estômago da mulher, disparando. Topázio praticamente o abraçou, apoiando-se devido ao impacto. Mensurando o que de fato ele fizera, o pobre rapaz parecia apavorado. — Eu não podia deixar você fazer mal aos meus filhos. — justificou-se, de olhos arregalados. Todos nós fitávamos a cena, certos de que aqueles eram os minutos finais de uma das pessoas mais infelizes que já haviam pisado sobre a Terra.

– São MEUS filhos! — tomando a arma do garoto, ela o esbofeteou com o objeto, arremessando-o ao chão. — Só pra garantir. Um tiro por outro. — e disparou contra a testa do menino.

Desconheço as palavras necessárias para descrever o que senti naquele momento. Tudo ali era uma ausência. Como se meu espírito ascendesse aos céus, deixando apenas um receptáculo de sofrimento e pesar. Fernanda gritou, e seu grito foi de cortar o coração de uma mãe. Seu sofrimento, foi agravado por outra contração, quando a menina jogou-se contra o travesseiro no chão. Vilma estava chorando, apertando firme o irmão, escondendo o rosto em seu peito. Apática, arregalei os olhos quando aquela criatura chutou o rosto de Hugo, antes mesmo que ele tentasse levantar. Mesmo ferida, fora de si e cambaleante, ela avançou, apoiando-se na cama. Seus trapos estavam tingidos de vermelho, e mesmo que ela não soubesse disso, eu tinha a certeza de que Topázio jamais deixaria aquele quarto com vida.

– Por favor... Não faça mal às crianças... — pedi, enquanto Nanda apenas chorava, totalmente além do nosso alcance. Ela apenas alisava sua barriga, se contorcia e revirava os olhos.

– Faça seu trabalho! — cuspiu a mulher, literalmente expelindo uma mistura de saliva e sangue. Hemorragia. Minha tese estava confirmada. Voltei a debruçar-me sobre minha paciente, e parecia que Nanda já tivera filhos outras vezes. Geralmente, o tempo de contração de mães de primeira viagem, era maior do que o dela. Contei silenciosamente os segundos, e antes de chegar ao cento e vinte, ela sentia nova urgência. Estava perto.

– Tânia... Acho que vou fazer cocô... Eu tô com vergonha... — delirou Nanda, chorando de medo. Minhas mãos também estavam tremendo. Ana me passou o lençol da cama, chorando.

– Fico feliz que tenha conseguido... — resmungou Topázio, rindo em meio à sua loucura. Ela apontou para Ana, e lambeu o lábio inferior. — Eu realmente gostei de você. Prefiro homens, mas você é ótima... Acho que vamos poder ficar juntas de novo, com os bebês. Han?

– O que te faz continuar? — Ana desistiu de temer, e levantou-se. Tentei agarrar o seu braço, mas ela desvencilhou-se. Topázio pareceu divertir-se com aquilo. — Você não tem o direito de profanar esse momento. Você destruiu nossa família. Ninguém vai se importar quando você morrer.

– E o que te faz achar que é importante? Qualquer um estaria bem sem uma inútil. Eu sempre te vi como um elo fraco. Uma hipócrita, que sempre teve medo de ter opinião própria. E disfarça isso com palavras bonitas e cara de santa. A verdade é que você é tediosa. E eu cansei. — ela ergueu a mão para atirar em Ana. Paralisada, ela pareceu totalmente apavorada. Não conseguiria mover-se a tempo. Tensa, senti as batidas do meu coração ecoarem nas minhas orelhas, e agarrei as pernas da inumana, puxando-a para o chão comigo.

Eu não tinha a mesma disposição de uns quinze anos antes, mas nunca havia fugido de uma briga na juventude. Principalmente quando meu marido tentava fazer hora extra com outras mulheres. Algo pareceu renascer dentro de mim, um ímpeto que eu não sentia desde que toda a minha força havia partido, com os meus filhos. Mas eu tinha outros, agora. Muitos. E todos estavam em risco com aquela mulher respirando. Que Deus me perdoasse, mas eu não era tão religiosa quanto Diana. Eu apenas havia esquecido que podia fazer a diferença. Derrubei a mulher, e ela começou a se debater, e puxou meus cabelos. Enfiei a unha dentro de um dos seus olhos, e meus dedos molhados de sangue e vodka pareceram cegá-la por alguns momentos. Ana agarrou a arma de Topázio, e empurrou-a na minha direção. O objeto veio deslizando, e o peguei com a mão livre, enquanto a outra segurava os braços da loira.

– É só puxar o gatilho. Está destravada! — gritou Vilma abraçando-se ainda mais ao irmão.

Com a coragem dos afogados que agarram a última bóia, puxei a alavanca. Um estampido fez-se ouvir e um solavanco fez com que eu soltasse a arma, que joguei longe. Um orifício de entrada surgiu abaixo do peito de Topázio, um pouco acima daquele que Gabriel executara. Olhando para o teto, ela deixou os braços caírem ao lado, apenas engasgando e respirando com dificuldade. Ela estava subitamente mais calma, e aos poucos, sua expressão alterou-se. Lágrimas começaram a escorrer, e elas eram rubras como sangue, embora transparentes. Ana e eu trocamos um olhar, e fitamos nosso bicho-papão. Uma vítima daquele mundo como nós, mas ainda assim, uma perversão da natureza. Nanda gritou outra vez, mas ao fim seu esgar tornou-se uma risada, quase que totalmente desvairada.

– Eu só queria ser feliz... Queria estar... No controle... — ela engasgou novamente, e virou o rosto na direção de Ana.

– Você nunca soube o que é felicidade. Espero que sofra menos no lugar para onde vai. Mas acho que não. — respondeu-a, virando o rosto. Carolina chegou ao quarto, observando a bagunça com uma expressão devastada. Ela se abaixou ao lado de Gabriel, e fechou os olhos do rapaz, que já não respirava. Chegou perto de mim, e massageou meus ombros, virando-me na direção de Nanda. Prendendo um soluço, acariciei as pernas da menina, que ainda chorava as dores do parto. Topázio puxou o ar com força, e então seu olhar morreu.

– Só pra garantir... — Carolina disparou contra sua têmpora, e sangue salpicou Ana. Por incrível que pareça, ela sequer abalou-se.

Ergui as mãos para Vilma, e indiquei a garrafa de vodka com a cabeça. Enquanto Nanda gritava e se contorcia, a menina molhou minhas mãos e braços com o líquido, e voltei ao trabalho. Nosso luto teria de esperar. Havia mais a fazer. Ana puxou o edredon da cama e forrou o chaõ ao lado de Nanda, próximo a mim. De maneira tranquila e calma, pedi que nossa pequena guerreira esquecesse o mundo lá fora. Esquecesse tudo, até de si mesma, e pensasse naqueles bebês, que estavam nascendo. Ela concordou, e começou a empurrar, fazendo força sobre toda a sujeira que começava a se espalhar. O cheiro forte de sangue, e das substâncias que envolvem a criança no útero subiu, e torci o nariz enquanto soprava o pequeno tufo de cabelo que escapara de minha presilha. Minha coluna ardeu quando a cabeça da primeira criança saiu. Rindo, puxei-o para fora. Um pequeno menino. Cortei seu cordão e Ana o enrolou numa toalha de banho da pousada, e como eu ensinara, o fez chorar. Ele abriu os olhos, e tinha mares verdes a inundarem seus olhos. Tinha um tom de pele próximo ao do pai, mas não o lembrava em nada. Nanda suspirou e continuou a empurrar, enquanto Carolina segurava a primeira criança. Logo, outra cabecinha surgiu, e mais água veio para fora. Puxei com delicadeza, ajudando a segunda criança a passar pelo canal abençoadamente já expandido de Fernanda. Ela era feita para o parto. Apesar de todas as dificuldades. Logo, uma menina veio ao mundo. E era a cópia da mãe, em todos os sentidos. Seus olhinhos negros abriram-se, e entreguei-a para Ana após cortar-lhe o cordão umbilical. Ela estava respirando, mas não havia chorado. Certamente, era tão resistente à dor de respirar, quanto a mãe o era de modo geral. Amparando Fernanda após aquela maratona, acariciei sua cabeça. Ela sorriu em meio à algum sonho etéreo, e uma de suas mãos se levantou.

– Gabriel... — ela estava fitando o espaço vazio ao seu lado. Todas nos entreolhamos com lágrimas nos olhos, e se alguém pudesse adivinhar, diria que ele estava despedindo-se. — Você vai estar sempre vivo em mim. É hora de ser livre. Voa... — Nanda disse, e então gritou de dor novamente. Eu estanquei o movimento de começar a limpeza. O que estava havendo? Então lembrei da profecia de Cecília, e minha tensão voltou com força total.

As pernas dela abriram-se novamente, e logo uma terceira cabeça surgiu no canal vaginal. Vilma evidenciou a vinda de uma terceira criança, e tanto Ana quanto Carolina pareciam próximas de um ataque de nervos. Elas se aproximaram, cada uma com um dos bebês no colo, e observaram enquanto eu trazia mais um menino ao mundo. Lindos, todos os três. Mas aquele menino... Era estranhamente familiar. Carolina sufocou o choro, e cobriu a mão com a boca. Percebi que todos tínhamos chegado à mesma conclusão.

– É a cara do Luca. — riu Fernanda, quando aproximei seu terceiro filho dela. — Já escolhi os nomes. Artémis, Apolo e Luca.

– Tadinho, o último é o único que não tem o nome de um deus. — riu Carolina.

– Agora, vamos terminar isso, meu anjo... — eu disse, aproximando-me e começando a massagear a barriga de Nanda. — É hora de expelir a placenta...

Fomos interrompidas novamente quando Ricardo, Manuela e Sabrina chegaram. Elas estavam totalmente apavoradas. E isso me dizia muitas coisas sobre as quais eu não queria ouvir naquele momento específico. Diogo foi o último a surgir, atrás dela. Ele estava todo suado, com muitos ferimentos, mas parecia aliviado ao ver Fernanda se mexendo. Então os olhares de todos alcançaram os bebês, Topázio, Gabriel, e eles entenderam tudo. Sabrina e Manuela estavam chorando, enquanto Diogo aproximou-se de mim, evitando olhar na direção de Fernanda naquele estado.

– Temos que enrolar ela num edredon. O parto vai ter que continuar no ônibus. — eu não precisava perguntar exatamente o quê tinha acontecido. — Tire esses bebês daqui, Ana. Agora! — adiantei-me e peguei Artémis no colo, enquanto Ana segurava Apolo e Luca ao mesmo tempo. Juntas, nos erguemos enquanto Diogo pegava uma incosciente Fernanda no colo, envolta no edredon depositado ao chão. Vilma recebeu a ajuda de Manuela para manter Dino em pé, Ricardo despertou Hugo, Sabrina apanhou Artémis de meus braços e todos começaram a sair do quarto.

Levantei-me e dei uma última olhada no aposento, despedindo-me de Gabriel. Nunca imaginei que ele morreria antes de Nanda, mas sabia que ela também teria pouco tempo. Fitei a chama da vela na cômoda ao lado da porta, e percebi que a faca de Vilma ainda estava na minha mão direita. Fitando a lâmina suja de sangue, percebi que Nanda escolhera a vida dos filhos em benefício da própria, mas isso não significava que tudo estava acabado. Pensativa, tive uma ideia que era na verdade, uma faísca de esperança. Eu já tentara isso antes, e tudo saíra mal. Mas eu sabia mais sobre o que fazer agora. E tinha Cecília. Fernanda teria mesmo de morrer? Não se eu pudesse fazer algo a respeito. Apressando-me, quebrei a garrafa de vodka batendo-a no chão. Antes de ir embora, encostei a ponta da vela na poça alcoólica, e deixei que o fogo se espalhasse pelo lugar. Pelo menos assim, Gabriel não retornaria como um zumbi. Foi tudo o que pude fazer, antes de trancar a porta com a chave de Hugo, e correr para acompanhar os outros...

Notas finais
Nossa. Quanta emoção. Nova vida, é sempre emocionante. E neste caso, triste também. Estou muito ansioso para saber o que vocês sentiram e acharam de tudo isso. Comentem, e desabafem com alguém que vai entendê-los totalmente. Rs. Se eu pudesse comparar um capítulo de carga emocinal tão forte para Nanda, seria aquele em que Arlindo a agride. Por coincidência, dois momentos marcantes e ruins. :/ Acho que os fãs da ruiva vão começar a procurar meu endereço... XD Kisses by DroppingPieces. (Estes com um pouquinho menos de felicidade).