Quebranto.
65 A Encruzilhada de Hécate.
Notas iniciais
Victoria.
Ao ver os mortos que avançavam de encontro à pousada, como um maremoto de fúria e apetite incontroláveis, simplesmente desliguei-me de tudo o que havia acontecido, u estava acontecendo ao redor. Confiei, apesar daquela encruzilhada bifurcada e de destino incerto, que tudo ficaria bem. Tinha de ficar. Gritos de Fernanda chegaram, como pequenas frações de um úncio eco, cansado e perdido no meio da bruma. Tensa, lutei para relaxar a musculatura dos meus ombros, apertando com força a faca em minha mão direita. Olhei em volta, e meus amigos também pareciam perdidos, ainda que todos estivessem tentando o seu melhor. Cada um deles, um mar infinito de vivências e esperanças. Cada um, uma parte de mim. Fernanda gritou novamente, e Otávio acordou.
– Cecília... O que aconteceu com você? — ele perguntou, assustado ao ver o estado de sua amada. Senti um toque de calor no coração, ao vê-la abraçando-o sem forças para responder claramente, apenas dando vasão aos seus sentimentos, em detrimento das palavras. — Calma, vai ficar tudo bem... — ele então notou os zumbis enquanto sua namorado o mapeava com as mãos. — Eu acho.
– Vicky, não acha melhor nos escondermos? — Lavínia indagou, nervosa. Apontei para a direção em que Ricardo correra, ao despertar e não encontrar Hugo por perto. Lavínia puxou Manuela consigo, nervosa.
– Diogo, vai com elas. As doidas esqueceram que Topázio pode estar viva. — ele apenas acenou e seguiu em frente, embora seu olhar de cão abandonado indicasse que não estava okay com nossa separação. — Otto, preciso de você comigo. — ele me olhou, confuso. — Me ajude a distrair os zumbis enquanto Diogo dá um jeito de resolver o inferno que está rolando com Fernanda. — ele concordou.
Juntos, nos mantivemos firmes enquanto os mortos começavam a avançar. Sabrina percebeu minha intenção, e postou-se ao lado de Otto, dividindo a atenção dos mortos em três direções diferentes. Dante a seguiu em seguida, ainda segurando a ferida à ácido em seu braço direito. Rapidamente Dimitri postou-se ao meu lado, tocando meu braço com um apoio mudo. Ele segurou minha mão num aperto firme, e mirei seus olhos por um breve momento. Cheios de afeição. Cecília moveu-se para mais perto de Otávio, alarmada ainda que para ela, a ameaça dos mortos fosse nula. Ela sempre teria seu próprio escudo, sua essência repelente aos mortos. Uma passagem livre em meio às hordas. Apesar de sua crise de abstinência, ninguém poderia tirar-lhe algo que invariavelmente, era parte de si agora. Os gritos de Nanda cessaram no momento em que eu cravei minha lâmina no olho apodrecido do primeiro cadáver, que caiu aos meus pés com um baque molhado. Seu rosto, uma poça de sangue onde amassara ao impactar contra o solo. Pulei sobre ele, enquanto Dimitri descarregava seu revólver, derrubando três criaturas. Uma delas agarrou seu pulso, e ele o afastou com uma cotovelada, perdendo entretanto o artefato bélico, no processo. Juntos, abrimos passagem em meio às criaturas até estarmos próximos do ônibus de turismo, ainda que cercados. Um simples vacilo, e eu poderia perder Dimitri para aquelas criaturas. Eu não queria testar sua capacidade para se tornar inumano. Eu não queria as dúvidas. Ele poderia se tornar um vagante, um inumano insano, e em última instância, alguém como eu. Ainda assim, com aquela quantidade de criaturas, acabaria sendo devorado até a morte. Mas dúvidas, ainda eram piores que isso.
Chutei um monstro cujo paletó fora reduzido à trapos, muito tempo antes de nosso encontro. Ele não possuía mais um rosto, além de pedaços de carne disformes e enegrecidos. A cada mês, aqueles zumbis se tornavam mais nojentos, e mais pegajosos. Enojada, observei sua queda ao ter uma das pernas praticamente destruída pelo meu chute, e continuei seguindo em frente, cobrindo Dimitri enquanto ele corria para o ônibus, puxando a chave do veículo que estava agora, no mesmo chaveiro que a chave de barco, nossa última esperança para escapar de Búzios. Embora naquele momento, eu temesse que metade de nós não pudesse escapar sequer da pousada. Uma mulher sem metade da cabeça arremeteu contra as costas de Dimitri, e coloquei meu braço em sua boca, afastando-a dele enquanto minha própria pele se rasgava sob a fúria dos famintos. Meu grito foi gutural, e creio que mesmo os resquícios de Nora agitaram-se em desconforto, no meu interior. Embora ela não estivesse temerosa, mas exultante. Embevecida de força e ódio quase que animalescos, o puro instinto de sobrevivência tingiu minha visão de vermelho, como um touro enraivecido ao limite. Grunhindo e rosnando como um animal, perdi a noção de meus movimentos. Sequer podia sentir minhas extremidades. Meu corpo se movia numa sequência de reações automáticas aos toques e movimentos dos mortos. Na minha visão periférica, pude ver claramente Sabrina e Dante dando o melhor de si para atrairem os mortos para dentro da pousada. Eles inclusive cortaram a si mesmos, deixando um rastro de sangue brilhante no chão, que os mortos agachavam-se para lamber.
Cecília fora deixada por Otávio, em meio aos monstros que a ignoravam como se nada fosse. Ela chorava e se esquivava deles, sentindo-os embora fitasse o vazio da cegueira. Totalmente desesperada por Otto, o encontrei correndo em direção ao jardim de grama alta, sendo seguido por parte das criaturas. Ele parecia encurralado, e então não pude mais vê-lo ao saltar sobre o peito de um menino vestido com a blusa do Flamengo, que pareceu tornar-se tão vermelho quanto sua camisa, quando o sangue escorreu sobre suas roupas. Dois deles agarraram meu cabelo e outro tentou morder meu tornozelo, não conseguindo rasgar o couro rígido de minha bota. Pisei na cabeça do zumbi sem perna, esmagando-a enquanto Dimitri ligava o ônibus. Totalmente coberta de sangue e arfando como um lobo sedento, busquei Otávio novamente. Ele corria com a mão no pulso, sangue escorrendo entre seus dedos enquanto ele ocultava um ferimento terrível. Recusei-me a pensar no que aquilo poderia significar, porque no instante seguinte meu amigo estava entrando na van azul escura, e trancando-se ali. Ele assumiu o volante. E era aquilo. Teríamos que outra vez, fugir. Dirigindo com as mãos ensanguentadas, Otto atropelou boa parte do bando, ao tentar chegar em Cecília. Notei que a quantidade de mortos diminuía gradativamente, mas não pude mais enxergar Sabrina, que se perdera no interior da pousada, agora abarrotada daqueles seres. Um foco de incêndio começou no segundo andar, no quarto de Ricardo e Hugo. Logo, vi Sabrina saindo pela janela, caminhando sobre as telhas de barro vermelho, enquanto zumbis chamuscados escorriam pelo teto até o solo, tentando alcançá-la.
Eles continuaram andando, seus olhares presos ao meu enquanto tentavam situarem-se numa queda tranquila. Um barulho interrompeu minha concentração quando a porta do esconderijo de Nanda abriu-se, e meus amigos saíram todos para o meio do caos, apesar de estarem bem mais distantes dos invasores, do que qualquer um de nós. De fato, nenhum deles fora notado (ainda que fossem a maioria), devido ao nosso esforço em manter longe os mortos-vivos. Fazendo sinal para Dimitri, joguei-me no chão enquanto ele passava com o ônibus por cima de mim, em linha reta. Pelo menos meia dúzia de zumbis desfaleceram-se, ao terem seus tecidos pútridos atingidos por tal impacto. O ônibus passou direto, e rolei para o lado antes que ele desse marcha a ré. O veículo contudo continuou indo, e atingiu uma das pilastras que mantinham a cobertura da pequena varandinha acima do pórtico central. As telhas vermelhas despencaram onde foram atingidas, e o tremor derrubou Sabrina, que rolou para o solo maltratado, onde ficou. Ela ganiu de dor, produzindo um som agoniado e ao mesmo tempo assustado. Ela não podia ficar parada por tanto tempo. Dimitri retirou o ônibus de perto da pousada, enquanto eu lutava para chegar até ela. Os zumbis que estavam na pousada saíram, bloqueando meu caminho. Àquela altura, todos haviam notado meus problemas. O ônibus foi virado na direção do quarto que começava a pegar fogo, e meus amigos adiantaram-se até ele. Não vi Gabriel em lugar algum, e compreendendo o pior, apenas engoli o aperto em minha garganta. Não haviamos terminado ainda. Otávio abriu as portas da van para Cecília, mas então cerca de quatro ou cinco zumbis tentaram subir no veículo, derrubando a menina enquanto apressavam-se em direção à comida. Caindo de joelhos pelo empurrão recebido, ela tateava o chão à procura de uma saída daquele tumulto, antes que os zumbis pisoteassem-na até a morte.
Eu sabia que não poderia salvar Sabrina, Dante e Cecília ao mesmo tempo. Antes que eu tivesse que escolher, três coisas ocorreram. Primeiro, Otávio acelerou o veículo tentando tirar os mortos de perto de Cecília. Segundo, os zumbis notaram meus amigos, e enquanto Diogo corria até o ônibus com uma Nanda enrolada em lençóis, um Ricardo carregando dois bebês e um Hugo carregando outro, Lavínia gritou de desespero e correu na direção oposta, totalmente descontrolada. Carol tentou impedi-la, mas contornando o jardim retornava o grupo de zumbis que Otávio levara para o local. Os gritos que se seguiram revelaram mais uma perda. Por último, Carolina ficou ilhada pelos mortos ao tentar salvar Lavínia, e correu para junto de Cecília, erguendo-a do chão. Naquela confusão acabei distraindo-me da minha preocupação inicial, mas fui lembrada do perigo que meus amigos corriam, quando Sabrina e Dante gritaram de medo ao serem encurralados por um grupo que os rodeava. Por sorte, uma boa quantidade estava devorando Lavínia, enquanto Nanda era depositada no interior do ônibus, com a ajuda de Ricardo. Logo, os bebês a seguiram no colo de Tânia e Hugo, que virou-se para descer do veículo e vir nos ajudar. Manuela estava para subir quando um dos mortos que fora parcialmente esmagado pelo veículo agarrou o seu pé, derrubando-a. A garota esperneou, já chorando de pavor e pesar por sua amiga. Pude ver Ricardo seguindo Hugo para fora do ônibus em meio ao pesadelo, mas Diogo o deteve e desceu em seu lugar. Preguejei mentalmente. Alguém parecia ter sido contaminado pelo meu heroísmo.
Diogo livrou Manuela de seu atacante, enquanto Hugo atirava com a arma de Ricardo, derrubando com cada tiro, um zumbi. Quando ele ficara com uma mira tão certeira? Eu não sabia, mas estava grata e surpresa. Talvez Deus não houvesse esquecido de nós. Uma comoção de gritos veio do ônibus, quando Dino pulou, deixando Vilma para trás. Certamente o menino queria provar aos adultos que era capaz de defender a todos, embora tivesse um hematoma enorme no rosto. Ele afastou zumbis de Dante e Sabrina, enquanto eu finalmente conseguia aproximar-me deles. Otávio manobrou a van e veio nos apanhar, enquanto Diogo e Manuela aproximavam-se de Cecília e Carolina. Pensei que seria salva, quando Sabrina gritou e caiu, o tornozelo machucado. Cansado ao extremo, Dante não conseguiu suportar sozinho o seu peso, e a perdera.
– VÃO! Eu vou buscar ela! — gritei, com uma voz bem mais parecida com a de Nora, do que com a minha. Totalmente apavorada, percebi que havíamos esquecido quem eram os inimigos mais implacáveis daquele mundo. Os números. A quantidade massacrante de criaturas reanimadas, com a única meta de roubar a vida daqueles que ainda respiravam. De longe, aquela era a pior invasão de vagantes pela qual eu passava, incluindo as do Trocado. Nunca antes eu estivera tão apavorada.
A mordida no pulso de Otávio não saía da minha mente. Eu não podia acreditar naquilo. Tantas perdas... Por quê? Puxei o braço de Sabrina sobre meu ombro, mas quase atravessei meus lábios com meus próprios dentes, ao ser lançada ao solo por um zumbi particularmente forte, que parecia também maior e mais ágil que os outros. De onde aquela coisa havia surgido. Sabrina rolou para o lado, mas eu não estava indo para deixá-la como alvo. Lancei minha faca contra o monstro, mas minha mira péssima acabou soltando-a em seu peito. Ele virou-se contra mim, enfurecido. Perplexa, notei que aquela criatura não era um zumbi de fato, mas sim o enorme brutamontes de Topázio, coberto do sangue de errantes que ele próprio esmagara com as mãos. Ele não estava morto, como eu supunha. Apesar da marca de bala em sua cabeça, quando o enorme inumano virou-se, percebi que fora um tiro de raspão, e nada mais que isso.
– VICTORIA! — Diogo gritou, enquanto recuava com Manuela, Carolina e Cecília, para o lado de fora da pousada. A entrada àquela altura estava totalmente livre da horda, que se concentrava nas dependências de nosso antigo esconderijo. Eu via clara em seu rosto a marca da loucura, enquanto ele preservava a própria vida e a das pessoas que dependiam dele, mas desejava estar próximo a mim. A van de Otávio tentou vir em nossa direção, mas um grupo enorme ameaçava virá-la. Otto e eu nos olhamos, e haviam lágrimas no rosto de meu irmão. Sorri em resposta, antes de virar as costas para ele.
O veículo deixou para trás a pousada. Ainda tentaram resgatar Diogo e as meninas, mas eles já estavam enfiando-se num enorme carro de passeio preto, cujo modelo não pude distinguir devido ao estado de sua lataria acidentada, e à ausência de placa. Os dois veículos partiram em direções opostas, impossibilitados de permanecerem unidos pela quantidade de mortos no chão, e de pombos e urubus que surgiam em toda a parte, prontos a reinvidicarem os espólios daquela guerra sem vencedores. O grandalhão atingiu-me com um soco na barriga, quando tentei segurar seu braço. Seguindo o movimento de seu membro, fui erguida do solo, e meu corpo lançado à metros de distância. Notei que Dimitri havia conseguido livrar-se dos monstros que atolavam os pneus do ônibus, e vinha em nossa direção. Sendo cortejada por zumbis na minha ausência, Sabrina estava mancando na direção de uma moto velha que Jonas encontrara duas semanas antes, e que ficara jogada sem sua atenção. Engasgando com algo que devia ser meu sangue, fui puxada pelo monstrengo cheio de músculos até que segurando meus cabelos, ele me colocou cara a cara com ele.
– Gárgula vai torcer você. — ele riu, e não me parecia que soubesse o que estava dizendo. Ainda assim, projetei nele todo o meu ódio por aquele mundo de merda. Puxei minha faca em seu peito, e cravei-a em seu olho esquerdo, torcendo o objeto após senti-lo atravessando a estrutura aquosa do globo ocular.
– É assim que se torce alguém. Você só torce, sem ficar falando. — ele caiu de costas à minha frente, e tirei minha arma mais preciosa de seu corpo imundo. Dimitri parou o ônibus com um solavanco, espatifando o corpo do pobre monstro. Vísceras e sangue voaram na minha direção, mas apenas cuspi para limpar a boca, e corri na direção do ônibus, onde Tânia mantinha a porta aberta para puxar-me para dentro. Subi, e mirei Sabrina enquanto ela ligava o motor e dava partida na motocicleta. Um urubu enorme surpreendeu-a, a agarrou seus cabelos. Ela gritou, e um estrondo vindo do ônibus abateu o animal.
Ela olhou em nossa direção, e vi Ana com a arma de Gabriel erguida, mirando Sabrina com uma expressão carinhosa. A loira sorriu em sua direção. Um misto de tristeza e desespero. Logo, acelerou a moto e perdeu a rua, enquanto um enorme bando de aves a seguia. Eu senti-me uma intrusa naquela despedida muda, mesmo após ter tido a minha própria. Calada, apenas sentei-me no chão do ônibus, entre os assentos. Dirigindo, Dimitri mantinha um silêncio fúnebre enquanto deixávamos mais aquele lugar com nada além de nossas vidas. Era difícil compreender tudo de ruim que ocorrera só naquela noite. Onde estavam todos? Não havia como sabermos em que direção estavam indo. Otto sobreviveria à sua mordida? Sabrina escaparia daquelas criaturas? Diogo iria longe com um veículo tão danificado? O que nós iríamos fazer. Rapidamente, dei-me conta de que Tânia chorava, e me levantei. Vilma estava abraçada com Ana, ambas na mesma poltrona fitando a janela enquanto a noite parecia cada vez mais escura. Zumbis saíam de toda a parte, enquanto o ritmo de Dimitri não reduzia. Ele estava indo em frente, apenas. Chacoalhando com o movimento do ônibus, aproximei-me de onde Diogo depositara Nanda. Ela estava deitada totalmente nua e suja de sangue, sobre um edredon branco encardido. Pálida como uma vela branca, parecia serena apesar de distante. Ricardo segurava dois bebês em seu colo, lindos bebês. Tânia, mantinha um terceiro seguro em seus braços, enquanto ela própria chorava por minha mais doce e bondosa amiga.
– Ela morreu? — perguntei, já esperando a resposta.
– Ainda não. Mas não deve demorar. — advertiu-me Ricardo, tristonho. — Perdeu muito sangue. E não vamos poder concluir o plano de Tânia. Não temos uma seringa, nem o sangue de Cecília.
– Eu pretendia transformá-la em inumana. — contou-me Tânia, desolada. — Agora, não sei o que fazer.
– Não precisa do sangue de Cecília para contaminá-la. — lembrei. — Todos estão infectados. É por isso que quem morre, retorna independente de como se foi. Ela está infectada, temos uma chance.
– Não se ela morrer. A mordida acelera o vírus latente, assim como a morte. Mas no segundo caso, eles sempre voltam como monstros. — refutou-me a enfermeira, mirando o teto do ônibus para conter as lágrimas. — Melhor deixarmos que ela vá. Não vou suportar vê-la como uma daquelas... coisas.
– Não, esperem. — Ricardo ganhou voz. — Ana, lembra do que a Thaís disse pra gente na Privilège? — minha amiga que mantinha-se calada, nos fitou por cima de sua poltrona, ficando de joelhos sobre a mesma.
– É verdade. O coração dela parou. Ela morreu. Por menos de um minuto, e então voltou. Ela já estava morta pela mordida, quando o sangue de Cecília a trouxe de volta. — ela então olhou pra mim. — Victoria...
– Eu já sei. — falei, correndo até ficar próxima de Nanda. — Não vou perder você. Não vou aguentar perder mais ninguém... — sussurrei, enquanto Tânia recusava-se a olhar, e Ricardo trocava um olhar nervoso com Ana. Ela então levantou-se e veio me ajudar, agachando-se ao meu lado. Coloquei meus dedos em seu pulso, medindo a frequência de seus batimentos cardíacos. Apurei meu tato com meus sentidos acentuados, e esperei. Até que fatalmente, ele cessou. Um suspiro escapou dos lábios de Nanda, com sua respiração final. Então eu comecei.
Com Ana ao meu lado, comecei uma respiração boca a boca com minha amiga, fechando suas narinas com meus dedos ao soprar o meu ar para ela. Ana bombeava o coração de Fernanda, mantendo um RCP constante, frenético até. Juntas, mantivemos aquilo por um tempo que pareceu interminável, enquanto eu esperava que o vírus do urso fizesse seu trabalho. Um estalo de consciência me atingiu, e abri a boca de Nanda com meus dedos. Colocando meus cabelos na direção dela, puxei o excesso de sangue inumano que espirrara do corpo do grandalhão, pingando o líquido viscoso garganta abaixo. Em seguida, voltei a forçar o ar para ela, até que o primeiro espasmo surgiu. Um dos braços de Nanda sacudiu, e parou. Depois, de novo. Logo, seu dois braços e pernas estavam movendo-se numa agonia quase que assustadora. Após um solavanco, seu peito inclinou-se para cima e seu pulso retornou, fraco mas insistente. Sua respiração ainda era fraca, mas foi se tornando mais urgente à medida que Nanda tremia mais e mais. Tânia fitava a cena de boca escancarada, enquanto eu mesma parecia perplexa demais para comemorar. Eu não esperava que desse certo. Era um último ato de desespero. Graças à Deus, porque eu era a filha da mãe mais desesperada do mundo. Logo, Os lábios de Nanda ganharam a cor normal, e ela parou de se mover. Até uma nova onda de tremores surgiu e ela esticou o corpo como se estivesse espreguiçando-se. Então, serena, voltou ao seu estado anterior. Nenhum de nós ousava respirar. De fato, a profecia de Cecília se cumprira. Ela havia morrido. Mas até quando? Até que suas pálpebras moveram-se.
Sob a luz fraca das pequenas lâmpadas elétricas acesas no ônibus, um olho negro e outro branco abriram-se para uma nova vida.
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