Quebranto.
10 Fumaça Ébria.
Notas iniciais
A noite no morro parecia um véu de piche sobre as frontes cansadas de seus moradores. Caminhando pelas poucas ruas barricadas, me senti como se estivesse em algum filme de guerra de época, onde sangue e poeira poderiam ser vistos em qualquer lugar. Ansiosa por conhecer mais sobreviventes, permiti que Fernanda e Diogo nos guiassem através do lugar, nos apresentando aos moradores pelos quais íamos passando. A menina negra que eu avistara antes se chamava Kamila, e acabei descobrindo nomes e histórias de outros sobreviventes, algumas bem piores que a minha. Havia uma avó e sua neta, resgatadas por Armando e Ulisses quando tentavam fugir de uma horda de errantes, que invadira a igreja onde estavam refugiadas. De um grupo de quinze pessoas, tinham sido as únicas a escapar, junto com o pai da menina, que morrera pouco depois, por ter sido mordido. Soube que Eloá tinha um namorado chamado Rafael, que supervisionava a proteção do acampamento. Ele era negro, com olhos negros e um corpo de assustar, de tão definido. Notei também que um casal de gêmeos, com mais ou menos a idade de meu irmão, andavam em companhia constante do irmão mais velho. Fernanda sorriu ao vê-los, e me disse que as crianças se chamavam Dino e Vilma, e que o mais velho assistira o próprio pai devorando a mãe, durante sua fuga. Seu nome era Tiago, e não se separava dos outros dois por nada, sendo até hostil com algumas pessoas.
Eram muitos relatos e tragédias, e a cada rosto visto, uma nova chama se apagava em meu coração. Sem coragem de emitir uma única palavra, eu apenas assentia e sorria vez ou outra, esperando que aquilo acabasse logo. Não passávamos de vinte e cinco, mas a carga emocional de conhecer cada uma daquelas vidas fazia com que a experiência parecesse a de ler os obituários de um exército. Voltei-me na direção de Luca, e peguei sua mão, reconfortando-me naquele contato. Ele estava trêmulo e gélido ao meu toque, completamente suado. Um grupo de pessoas se reunia em volta de uma fogueira camuflada com pneus. A fumaça ébria enrolava-se sobre si mesma, indo unir-se ao breu da noite. Um leve arrepio se ergueu e percorreu minha espinha, enquanto o cheiro ardido enchia meus pulmões e cabelos. Ana fez uma careta ao passar pela cortina negra, e avistei Otto cumprimentando Armando, Ulisses e Eloá com um aceno. Vi-me fazendo o mesmo, até que nos dirigimos para uma casa branca não muito distante da Associação de Moradores. Era uma propriedade destinada a cultos africanos do candomblé, quando em uso. Agora, devido aos seus muitos quartos e espaço de sobre, era a enfermaria do grupo, onde o Dr. Shepard examinava e cuidava da maneira que podia dos feridos e doentes. Nós também seríamos examinados, antes que pudéssemos nos unir ao restante das pessoas para o jantar.
— Ainda falta muito? Esse lugar está me dando medo... – indagou Carolina, abraçando-se. Ela olhava desconfiada para uma estátua em tamanho real, de Iemanjá.
— Ela é a rainha do mar. Protege-nos, e guarda os mais belos mistérios existentes. Fornece alimento, e imobiliza os monstros que surgiram nos últimos tempos. – afirmou uma voz robusta como um trovão. Uma mulher em trajes africanos se aproximou de nós, com um sorriso. Ao contrário do que eu esperava, sua pele era branca, assim como seus cabelos. Suas rugas de expressão evidenciavam a idade avançada, mas nem por isso ela parecia menos ativa.
— Perdão. Não quis ofender. – desculpou-se Carol, insegura.
— E não ofende criança. Quando estiver no mar, e em desespero, chame a sereia. Ela lhe dará auxílio. É a mãe de todos nós. Até dos orixás. – afirmou a religiosa, enchendo-me de desejo de que, ao menos no mar, estivéssemos seguros.
— Mãe Jeanette me concedeu o espaço, para cuidar do pessoal. Ela tem me ajudado muito, e seu conhecimento sobre as ervas medicinais, além de sua pequena horta no quintal, já salvou uma ou duas vidas neste acampamento. – o homem que entrou em meu campo de visão, era indescritível. Seus braços fortes eram quase completamente ocultos pelo blusão dobrado até os cotovelos, e seu cabelo grisalho em corte militar era liso e sedoso ao mesmo tempo. Seus olhos eram muito azuis, como vidro, e sua pele era branca, porém curtida de sol, como a de um surfista aposentado. – Olá, eu sou Ricardo Shepard. É um prazer, e um alívio imenso conhece-los. Fico feliz que tenham conseguido.
— Bem doutor, agora que trouxe o pessoal, vou deixa-los a seus cuidados. – afirmou Nanda, com um sorriso Colgate, que me pareceu um pouco exagerado. Ali tinha coisa. – Jeanette, quer me fazer companhia no jantar? – ela indagou à mãe-de-santo.
— Claro, minha filha. – as duas saíram em dupla, com Jeanette conversando sobre orixás, enquanto Nanda defendia sua fé cristã. Era bom ver que, apesar de tudo, alguém ainda conseguia crer numa religião. Eu queria poder compartilhar de tal segurança.
— Bem, vocês não devem ficar preocupados. Sou só um dentista, mas também fiz um curso de enfermagem, então não sou totalmente inútil. Só vou medir o tempo de coagulação de vocês, para o caso de precisarmos cuidar de algum ferimento. Também preciso do tipo sanguíneo de vocês, os que souberem. De resto, só preciso que me digam se um de vocês tem alguma necessidade especial, algum tipo de remédio que precise tomar, ou algo do tipo. – contou-nos, e vi os olhares se voltarem para mim. Com uma negativa quase imperceptível, incentivei meus amigos a mentirem. Eu não declararia minha condição a ninguém. Nossos anfitriões poderiam me considerar perigosa para o grupo, e eu não poderia me perdoar se nos expulsassem por isso.
Pelo visto, todos haviam compreendido o recado. Sem palavra, seguimos Ricardo para seu consultório, e ele nos fez sentar sobre um banquinho acolchoado de couro marrom. Erguemos todos, as mãos, e ele nos perfurou com um tipo de agulha de plástico. Eu odiava agulhas, mas ninguém superava Otávio. Éramos todos capazes de jurar que ele estava verde, bem diante de nossos olhos. Ser amiga do Incrível Hulk seria legal, não fosse a circunstância. Em seguida, o doutor nos checou com seu estetoscópio, e depois mediu nossas pressões. A minha, obviamente, estava bem baixa, já que eu não tinha comido nos últimos dias. Fomos dispensados, e Ricardo ficou para trás anotando em fichas com nossos nomes. Além de toda a beleza dele, parecia ser uma pessoa muito boa. Mas até quando? Eu rezava para que não precisasse descobrir.
Sentei-me entre Luca e Carol, e mordi um pedaço de pão recheado com linguiça e presunto com tanto apetite, que quase me engasguei. Segundo Armando, todos estavam consumindo os perecíveis depressa, para poupar o resto dos alimentos, e para evitar que houvessem desperdícios de alimentos estragados. Ninguém se importou, e todos estavam enchendo a pança, no mais bruto modo da palavra. Otto estava virando uma lata de cerveja, e Ana devorava um pedaço de carne como um dos zumbis deixados na base do morro. Carolina era a única que parecia hesitante, e uma expressão enjoada dominava seu rosto. Seria duro para minha amiga de alimentação controladíssima e hábitos veganos adaptar sua vontade, à nova realidade. Além disso, ela era insuportável no que dizia respeito à sua comida, que devia ser praticamente esterilizada antes de chegar ao seu prato. Dificilmente veríamos algo assim outra vez, e ela parecia perceber o fato, com desgosto. Luca também comia muito, e Armando gargalhava com nosso desespero. Todos pareceram contagiados com nosso entusiasmo, e logo conversas se proliferaram ao redor. As três crianças riam, enquanto Jeanette, a avó da garotinha e Fernanda fofocavam num canto. O irmão punk dos gêmeos estava junto com Ulisses, Rafael, Eloá e a garota negra de antes. Armando e Ricardo juntaram-se a nós, ambos sorrindo e incentivando Otávio a beber até cair. O resultado não podia ser outro. Quando estávamos todos satisfeitos, e a maioria das pessoas havia se recolhido, Otto parecia um gambá. Carolina me disse ao ouvido que estava com dor de cabeça, e se recolheu com Ana. Luca amparou Otto para a casa onde estávamos hospedados, e eu me despedi, preferindo conhecer o pessoal um pouco melhor. Jeanette e a outra idosa levaram as crianças embora, e logo me vi sentada com Fernanda e Eloá. Eu ainda não tinha visto Diogo, o que por algum motivo obscuro, me incomodou. Acabei me forçando a mudar de ideia. Por que diabos eu deveria me preocupar com o paradeiro daquele metido?
— Duvido que você consiga virar tudo de uma vez. – como que invocado das trevas, meu demônio particular surgiu, com seus músculos saltitantes e cara de mau. Se não bastasse ser um grosso, agora queria me deixar com vergonha, na frente de todo mundo?! O copo de vodca à minha frente cintilava puro como água. – Eu sabia que você era uma daquelas patricinhas que bebem drinks com mais açúcar e xarope, do que álcool. – quem era ele, pra dizer que sabia algo sobre mim? Meu sorriso mascarou meu ódio. Até Armando estava olhando para mim, divertindo-se com minha vermelhidão. Fernanda revirava os olhos para Diogo, e tive a impressão de que ele fizera exatamente aquilo com ela. Eloá me encorajava com o olhar, e as expressões de Rafael e Ricardo eram imparciais, mas curiosas.
— Bem, lamento por desapontá-lo. – eu disse, virando o copo de um gole só. – Mas não sou tão princesinha assim. – afirmei, piscando para Eloá, que fez um “chifre rock and roll” com a mão direita. Ignorei a ardência em minha garganta, e sorri para Fernanda. – Ele fez isso com você?
— Não, mas ficou me irritando uma semana quando descobriu que o motivo pra eu recusar a bebida, era minha fé. Um chato, esse garoto... – afirmou ela, mas com um sorriso. – Parece que tem cinco anos, mas de vez em quando ajuda a esquecermos do que tá rolando fora daqui.
— Isso porque eu nasci com um dom, baby. Espairecer a galera! – gabou-se Diogo, arrotando em seguida. Achei aquilo o cúmulo da nojentisse. – Mas seu desafio não acabou, novata! Agora vai ser um lance tipo trote de faculdade, tá ligada? – esfregando os olhos vermelhos, ele bateu com a garrafa na mesa. – Bebe tudo! Esse é o lance!
— Ora, não pode achar que eu vou... – comecei. Mas só comecei, mesmo.
— Bebe! Bebe! Bebe! Bebe! Bebe! – a gritaria era geral. Somente Nanda parecia solidária, com sua cabeleira ruiva brilhando na tonalidade do fogo.
— Ok! A voz do povo é a voz de Deus! – interrompeu Armando, se aproximando de mim. – Querida, não se sinta obrigada. Esse palhaço não vai te importunar, se não quiser brincar. Eu garanto isso.
— Garante nada. É tudo balela. – provocou Diogo, sorrindo pra mim. Curiosamente, só vi uma promessa de amizade naquele gesto. Ele não parecia maldoso, nem sádico. Estava apenas se divertindo. E não seria eu a dar o braço a torcer.
— Fechado. Fiquem olhando. – mandei. Depois do segundo copo, os cantos da minha visão ficaram borrados. Parei de sentir o impacto da bebida, o que não podia ser coisa boa. Nanda me fitava com expressão solidária e preocupada, enquanto Ricardo fazia caretas, provavelmente prevendo meu estado no dia seguinte.
— Prove que consegue agir normalmente. – exigiu Diogo, e me levantei rápido demais. Troquei os pés, e o namorado de Eloá me amparou. Ela me deu um copo d’água, que mais derrubei do que bebi. Armando pareceu perguntar em voz alta quem merecia a vitória do desafio, e a maioria me escolheu, com apenas o voto de Nanda de diferença. Diogo bufou, e alegou que eu poderia pedir o que quisesse a ele, pela vitória.
— Quando eu não estiver bêbada, eu digo. – foi minha resposta. Dando de ombros, ele sentou-se à mesa, agora com uma lata de cerveja na mão.
— Melhor eu te levar pra casa. – decidiu Nanda, me tirando do local com uma delicadeza impressionante. Era como se o toque da pele dela fizesse carícias na minha pele. Ou eu só estava tão bêbada, que havia ficado dormente.
Alcançamos a casa que nos fora destinada um pouco depois, pois o caminho até ela se revelara muito mais difícil para mim, do que quando eu o percorrera horas antes. Nanda me deixou escorada no muro, e abriu a porta, me puxando em seguida. Tropecei num vaso de planta, e derrubei a pobrezinha. Fernanda colocou tudo no lugar, e me impediu de cair de cara numa roseira. Os espinhos agradeceram por não se sujarem comigo, provavelmente. Tentamos abrir a porta da sala, mas ela estava trancada por dentro. Acabamos tendo que caminhar até a parte dos fundos, e em meu ímpeto alcoolizado, nem percebi a mudança repentina. Passamos pelo segundo portal, num silêncio que me surpreendeu. As sapatilhas vermelhas que eu havia ganhado pareciam reluzir sob a luz fluorescente, branca como o paraíso. Caminhamos pela pequena lavanderia abarrotada de calçados e quinquilharias dos antigos donos. O que eu vi ao entrarmos na cozinha fez todo o álcool em meu corpo evaporar numa velocidade-luz.
Acontece que Luca estava contra a parede, de braços abertos. Agarrada a ele, Carolina o beijava como se o mundo fosse acabar. O que mais me decepcionou, foi que apesar de não corresponder, ele não estava a impedindo. E quem poderia saber se sua língua estava parada dentro da boca? Os olhos dele estavam tão fechados quanto os dela, mas a fluidez daquele momento era tão latente, que quase tive dificuldades em acreditar. Apenas a expressão surpresa e confusa de Nanda me manteve com os pés no chão. Ela pigarreou, e os dois se separaram. Luca parecia estar vendo o próprio Anjo da Morte. Carolina, por sua vez, tinha os olhos do tamanho de maçãs, e levou as mãos aos lábios num gesto de choque, afastando-se do meu namorado. Ao longe, pude ouvir os urros de Otto, enquanto vomitava. O que ele diria disso? E Ana, que sempre me disse que Carolina ainda amava Luca, e que havia hesitado tanto em criar um laço de amizade com nossa antiga rival de escola? Sem saber o que fazer me aproximei deles. Fernanda, ao contrário do que eu imaginei que faria, não se afastou. Manteve-se ao meu lado, para o caso de que precisasse me segurar, imagino.
— Vicky, me perdoa! Eu fiquei tão desesperada, que só quis sentir algo de novo! Luca não teve culpa, eu o beijei, e... – ergui a mão, pedindo que Carol calasse a boca.
— Eu sei. Eu vi. Sabe, Carol, a única culpada disso tudo, sou eu. Por não ter visto que você ainda amava o Lu, e por não ter percebido que desde que você soube que eu gostava dele, sempre pensou em como tirá-lo de mim, caso o perdesse. Afinal, eu sou só a maluquinha que sempre deixa tudo como está, e que nunca reage. Obviamente, eu só ignoraria sua existência, e terminaria com ele. – acredito que, não fosse o álcool, eu não teria coragem de dizer todas aquelas coisas. De fato, simplesmente acabaria me desmanchando em lágrimas num canto, como uma emo bem angust. Não foi o que eu fiz.
— Vicky, eu realmente sinto muito... – Carol não terminou de falar. A bofetada que dei nela quebrou uma das minhas unhas. O mais engraçado, é que ela realmente não esperava o golpe, e caiu sentada na minha frente, horrorizada. Luca me olhava, boquiaberto, e parecia tentado a ajuda-la a se levantar.
— Se você se mexer, vai virar ração de zumbi! – ameacei, e ele paralisou. Aproximei-me de Carol, sentindo as lágrimas molhando meu rosto, embora eu não me sentisse como se estivesse chorando. – O seu azar, é que o mundo acabou. E eu estou muito, muito bêbada. Não espere que eu haja como se ainda estivéssemos na escola. Aquilo acabou. Tudo acabou. O quanto antes perceber isso, melhor.
Tentando imitar um daqueles filmes, onde a mocinha traída se retira da cena com suprema dignidade, tomei o caminho das escadas, praticamente correndo. Só intui a presença de Luca atrás de mim, e quando fui me virar para manda-lo ao inferno, escorreguei e caí. Meu rosto foi direto num dos degraus, mas por algum motivo, (cachaça) não senti nada. Luca me pegou no colo, desesperado. Ouvi meu nome várias vezes, enquanto ele batia no meu rosto, pra que eu não dormisse. Devo ter mandado ele à merda mil vezes, pois é a última coisa da qual me lembro, antes de apagar.
Quando acordei no dia seguinte, ele estava sentado numa cadeira, ao lado da cama. Dava ares de alguém bem acabado, com olheiras profundas e sinistras. Num primeiro momento, não me lembrei de nada da noite anterior, até que tudo veio como um míssil, à minha mente. Carol, Nanda, ele. Considerei fingir que estava dormindo, mas ele percebeu meu despertar. Esfregou os olhos, e logo os vi vermelhos e envergonhados. Ele estava arrependido. Ou parecia estar. No meio daquela loucura toda, eu estava tão carente, que talvez só aquilo bastasse. Talvez.
— Você podia ter avisado que ainda gostava dela. Eu não teria sido impedimento. – afirmei, magoada.
— Amor, por Deus! Ela me beijou! Eu nem me mexi, nem abri a boca. Por favor, me perdoa. Sei que você deve estar muito magoada. Será que eu posso fazer alguma coisa pra compensar tudo isso? – ele parecia um filhotinho de cachorro perdido. MUITO fofo. – Nossa mãe, você até se machucou ontem, caiu da escada! Eu sou um otário, mesmo...
— Ai. – reclamei, tocando o galo em minha testa. Eu não havia recordado o ferimento até ele mencionar aquilo. Agora, a dor era tudo no que eu podia pensar. – Lu, eu te desculpo. Mas se ficar de gracinha com a Carol outra vez, não tem volta. Você sabe que quando eu falo serenamente, é pior do que quando grito. Porque eu não volto atrás.
— Obrigado, Vicky... – ele me beijou, distribuindo o calor de seus lábios pelo meu machucado, bem levemente. Deu a volta na cama, e deitou-se ao meu lado, me abraçando. Deixei-me ser envolvida por todo aquele calor e proteção, e peguei-me pensando em Carolina. Não queria ficar brigada com ela, mas não conseguia simplesmente esquecer aquela traição.
— O que acha da Carol? Devo perdoar? – era idiota perguntar aquilo justamente pro Luca, eu sei. Mas com quem eu falaria? Ana estava obcecada pelo tablet, vasculhando o site do Profeta, e procurando sua irmã desesperadamente. Otto parecia um trapo humano, e nem fazia ideia do que estava rolando comigo, no meio de sua ressaca.
— Depende. Ela é sua melhor amiga. Tem certeza de que vai conseguir viver brigada com ela, numa situação dessas? Qualquer um de nós pode morrer a qualquer momento. E se o Apocalipse não for suficiente para que você sinta urgência em se reconciliar com ela, então creio que talvez não deva mesmo. – ele estava sendo franco. Sem rodeios. Gostava de quando Luca agia daquela forma, sem tentar me proteger, ou quase isso. Ele queria evitar que eu sentisse remorso, caso Carol morresse, e eu não a tivesse perdoado.
— Quando essa dor passar eu procuro ela. Agora estou precisando mesmo dormir. Essa dor de cabeça me deixa tonta. Não sei como não tive um coágulo no cérebro, ou algo assim. – dramatizei, com voz de choro.
— Não brinque com isso. Ricardo esteve aqui, e disse que foi só uma concussão. Nem sei o que eu faria sem você, e espero nunca descobrir. – Luca estava com o rosto a centímetros do meu, e mesmo cansado, ainda era lindo. Antes que eu pudesse responder alguma coisa, Ana invadiu o quarto como um furacão. Ela sacudia o tablet em sua mão, e estacou quando percebeu que estava interrompendo algo. Eu fiz um gesto com a cabeça, e a convidei a sentar ao meu lado.
— Vocês não vão acreditar nesse vídeo. O Profeta mostrou acara dele. Prestem atenção. – minha amiga rolou a página enfeitada com corujas e pergaminhos até o link de um vídeo do YouTube, onde um garoto de óculos e cabelos cor de areia sorria em um lugar ensolarado, aparentemente um clube, cheio de palmeiras e com uma piscina às costas. Alguns homens armados passavam para lá e para cá atrás dele, enquanto o adolescente fitava a câmera. Meu coração falhou por um milésimo de segundo, porque reconheci o nerd.
— É o Matias. Não acredito. – balbuciei.
— O Matias Cortes? De quem a gente ficava rindo? O maluquinho que passou anos correndo atrás da Carolina?! Não sacaneia! – indignou-se Luca, abismado.
— Ele está numa ilha em Angra, a ilha do pai dele. Ele era tão certo de que a gripe do urso ia dar merda, que convenceu o pai dele a levar a família toda pra lá. Os seguranças também foram, e quando todo mundo começou a morrer, logo depois da nossa formatura, um helicóptero buscou o Matias, e ele saiu do Leblon, enquanto a gente viajava. Imagina se a Carolina passa a noite com ele! Podíamos estar a salvo agora! – chocou-se Ana.
— Ou não, era bem capaz dele levar só ela. – resmungou Otto, que adentrava o quarto com uma bolsa de gelo na cabeça. – Sinceramente, depois dessa, a depressão tá batendo na minha porta.
— Jura? Ela está jantando comigo. – Carolina olhava pra mim, da porta. Nossos amigos não sabiam do ocorrido, mas fiquei satisfeita em ver o arranhão vermelho em seu rosto. Ela aproximou-se, me pedindo permissão com os olhos. Assenti, quase imperceptivelmente. Ela se sentou na beirada da cama. – Não consigo deixar de estar feliz por ele, embora tenha certeza de que minha família morreu. Muita gente morava em regiões da Baixada Fluminense. Duque de Caxias, Nova Iguaçu... Meus pais tinham ido visitar minha avó, que mora por lá. Com certeza, não vou vê-los nunca mais... – e ela estava chorando. Involuntariamente, peguei sua mão, e a apertei entre as minhas. Era horrível ver alguém sofrendo daquele modo, quando tínhamos todos os mesmos medos. Otto já perdera todos, a irmã de Ana era uma incógnita, e os pais de Luca também. Minha família estava em algum lugar aparentemente seguro, mas tão frágil quanto nosso acampamento. Não havia nada a dizer num momento como aquele.
— Mas é legal ver que o Matias conseguiu. Ele era um menino bom, e todos implicavam tanto com ele... – admirou-se Ana, sonhadora.
— É verdade, e querendo ou não, as dicas dele mantiveram a gente a salvo. Ele foi o primeiro a postar sobre danificar o cérebro, e sobre as mordidas. – reconheci. O silêncio reinou por alguns instantes, até que ouvimos Nanda batendo à porta.
— O que houve Nanda? – Luca franziu o cenho, pois a expressão de nossa nova amiga era temerosa, e profundamente triste.
— É Jeanette. Ela foi mordida. – as palavras ganharam vida própria naquele momento. Em menos de um minuto, todos estávamos descendo as escadas, seguidos pela ruiva.
Se a pobre Jeanette havia sido atacada, então algum errante havia conseguido chegar ao topo do morro. E se isso acontecera durante nossa pequena festinha, outros poderiam fazer o mesmo em breve. Seria esse nosso refúgio tão seguro, ou ele era como a fumaça que emanava dos pneus na noite anterior? Ébrio, e fluído, como nossa esperança?
Notas finais
Kisses by Dropping.
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