Quebranto.
11 Legião: Porque Somos Muitos.
Notas iniciais
A sala tinha cheiro de lavanda, e mofo. Como uma sinfonia nefasta, os dois aromas pareciam digladiarem-se num eterno conflito, um baile atemporal. Havia muita gente no pequeno espaço, todos espremidos contra a parede, enquanto Ricardo examinava uma Jeanette pálida e cadavérica. A ferida na mão esquerda da mulher era como a ferroada necrosada de um inseto venenoso e sua pele assemelhava a um pergaminho antigo, num tom amarelado. Também suava de maneira doentia, muito além do que eu consideraria normal. Preocupados com a segurança do resto do pessoal, Ulisses, Rafael e Diogo estavam do lado de fora, impedindo qualquer um de entrar no lugar, e checando as barricadas. Apenas os líderes de cada subgrupo haviam sido convidados a decidir o que faríamos com a pobre convalescente. Estávamos ali Luca, Tiago, Ricardo, Armando, Lucíola, Kamila e eu. Lucíola, como logo fiquei sabendo, era a idosa que salvara a neta de uma Igreja infestada de errantes, junto com seu filho, que morrera em seguida. Apesar da idade, trazia em sua fronte uma determinação ferrenha, uma provável força vinda do desejo de manter a pequena Daniela segura. Passei a respeitar muito aquela mulher, apesar de nunca haver trocado uma palavra sequer, com ela. Kamila também tinha parentes no acampamento, embora fossem nossos membros menos sociáveis. Eram antigos moradores do morro, e sentiam-se inseguros com a presença de tantas pessoas estranhas em seu convívio. Conversavam pouco com qualquer um, e eram até mesmo hostis, em alguns momentos.
Fitando os olhos fundos de Jeanette, senti em meu íntimo que ela não sobreviveria. Desesperado, Ricardo a fazia engolir Paracetamol e anti-inflamatórios, na tentativa nula de salvá-la. Da cama onde ela permanecia deitada, um cheiro fétido desprendia-se, e lembrava a sangue e pus. Todos ainda estávamos em polvorosa, na expectativa de um confronto direto com os mortos. Eu não entendia como ela podia ter sido mordida, mas segundo Diogo, Rafael a havia encontrado no lago atrás do morro, desmaiada na parte mais rasa, sem forças. A ferida estava em seu braço, mas não havia sinal de qualquer errante. Pétalas de rosa branca estavam espalhadas ao redor da mulher, e era como se ela estivesse oferecendo sua vida aos orixás. Eu não sabia se concordava com tal hipótese, que sinceramente me parecia absurda, mas ainda assim não entendia a mordida. Era algo muito estarrecedor, e a insegurança que instaurava ao nosso acampamento, poderia ser fatal. Se todos começassem a pensar que nenhum lugar era seguro, teríamos uma onda de pânico e brutalidade ímpar. Era imperativo descobrir a causa do mal que se abatera sobre Jeanette, não só para que pudéssemos ajuda-la de alguma forma, mas também para que pudéssemos nos proteger de uma nova ocorrência.
— Jeanette, querida, consegue falar? o tom de voz de Ricardo era baixo e reconfortante. Eu quase me senti mais calma, ouvindo-o falar. Quase.
— S-Sim... gorgolejou Jeanette. Ela praticamente não mexera os lábios.
— Diga-me, querida, o que a feriu? Foi algum tipo de animal, ou um errante? nosso médico passou a mão no rosto da mulher, enxugando lhe o suor.
— Não sei Ricardo... Eu preparava um banho de rosas no lago, pedindo as bênçãos de Mãe Oxum para que os rapazes conseguissem pescar bastante alimento na água doce. Concentrei todo o meu ser na tarefa, e então senti uma queimação enorme em meu braço. Quando me virei, não havia nada no local. Mas eu trazia este ferimento que estão vendo, e meu relógio de pulso havia sido levado. Então perdi as forças, e tudo ficou negro... E agora acordei, aqui. ela parecia desesperada por expor tudo o que lhe acontecera, antes que não tivesse mais forças para tanto.
— Tem certeza de que não há nada que tenha visto... tentou Ricardo.
— Nada. Agora, devo dormir, sinto que não vou mais acordar... gemendo, Jeanette fechou os olhos. Sua expressão dolorida logo desanuviou. Ela estava dormindo. Apenas os movimentos de sua respiração atestavam sua sobrevivência.
O olhar com o qual Ricardo se voltou para nós era piedoso, e devastado. Armando pousou a mão em seu ombro, reconfortando-o. Minha opinião, era de que quem precisava de conforto era Jeanette, então me direcionei até estar ao seu lado, e ignorando o cheiro pútrido, apertei sua mão suada. Não havia nada que eu pudesse fazer para aliviar ou extinguir sua dor, mas encontrei-me rezando para que Deus a levasse logo.
— É melhor matarmos ela agora. disse Luca. Antes que se torne um monstro.
— Apoiado. concordou Kamila. Lucíola pegou a outra mão de Jeanette, e chorando, assentiu diante da afirmação do meu namorado.
Sem dizer nada, Ricardo pediu a Luca que me tirasse do quarto. Antes que a porta se fechasse às minhas costas, vi que ele estava injetando alguma coisa em Jeanette. Provavelmente não iriam esperar que ela se transformasse, para então atirar ou perfurar sua cabeça. Kamila tinha um revólver na mão, e Armando uma faca de caça. Lágrimas ardiam em meus olhos, e em poucos minutos me vi do lado de fora do terreiro. Algumas pessoas se reuniam em expectativa do lado de fora, mas eu não estava em condições de dizer nada. Luca pareceu captar meu estado de espírito, e se manteve em silêncio, enquanto caminhávamos para o local onde meus amigos estavam reunidos. Fernanda e Eloá também estavam ali, e pareciam arrasadas. Uma espingarda pendia do ombro esquerdo de Eloá, e Nanda segurava seu crucifixo, em oração. Carolina trazia o rosto sujo de maquiagem derretida, enquanto Ana e Otto visualizavam outro dos vídeos do Profeta. Sentei-me em um pneu, ao lado de Ana, e encostei a cabeça em seu braço. Ela me abraçou, e manteve os olhos em seu tablet. Todos faziam silêncio no acampamento, e quando o som de um tiro encheu o ar, ninguém tinha dúvidas sobre o que acontecera.
O que se seguiu foi estranho. Grande parte das pessoas já esperava por algo do tipo, e não se espantou. Já outras, que depositavam na mãe-de-santo suas esperanças e fé, estavam em desespero. Choros contidos e outros mais acalorados eram entoados como um canto fúnebre. Fernanda me abraçou chorando, e a consolei como pude. Depois de cerca de vinte minutos, Armando, Tiago e Ricardo vieram trazendo nos braços o corpo da mulher enrolado em um lençol. Lucíola e Kamila acompanhavam tudo de perto, indo em seguida ficar com seus parentes. Em minha mente, tentei lembrar algo perdido no tempo, uma frase que me fora dita há muitos anos, pelo meu falecido avô, a quem eu tanto amara. Sua frase constante dizia: Não importa o que lhe seja tirado, pois sempre haverá algo bom a ser lembrado. Naquele dia negro, eu queria encontrar algo bom que me incentivasse a continuar tentando. Não consegui. Abraçando-me, observei enquanto Armando e Tiago desciam com o corpo de Jeanette, e o jogavam para fora da barricada. A mancha de sangue na região da cabeça parecia um eco de um momento obscuro. Logo que a multidão se dispersou, caminhei com meu pessoal na direção da casa que nos recebera, e lá chegando, fui direto para o quarto que dividia com Luca. Afundando a cabeça no travesseiro, deixei o cansaço me tomar por completo. Ainda sentia certa dor onde havia me ferido, e parte da minha ressaca estava voltando, com uma dor de cabeça realmente insuportável. Consciente apenas em parte, senti o abraço caloroso de meu namorado. Os episódios do dia decorrido me pareciam irreais, e vaporosos. Meu maior desejo era esquecer tudo.
Luca acariciou meus cabelos rebeldes com insistência e paciência titânicas. Fechando os olhos com força, acabei relaxando músculo a músculo. Aos poucos, meu corpo se perdeu de minha mente, e adormeci. Quando acordei outra vez, já era noite, e havia um terço em minha mão. A imagem de Jesus em seu martírio foi como um atestado da minha própria condição. A morte de Jeanette abalara profundamente qualquer esperança de segurança em meu coração. Na minha cabeça, estava apenas esperando a hora de morrer, bem como todos aqueles que eu amava, e aquelas pessoas que haviam me recebido de forma tão solidária. Aquele dia terminou sem maiores mudanças. Fiquei com Luca no quarto até que Otto nos fez companhia, com seu humor inabalável. Admirei sua coragem e ânimo, considerando que ele perdera toda sua família e mantinha-se firme com seu desejo de viver e ser feliz, apesar das circunstâncias. No jantar, Armando pediu que nos galardoássemos como uma família, pois somente a união poderia nos proteger dos monstros lá fora. A dor, por mais dura que parecesse, deveria ser sustento de nossa força. Jeanette era mais que uma conhecida, uma mãe-de-santo. Ela era uma das pessoas com a mente mais aberta do grupo, senão a mais compreensiva dentre todos nós. Perdê-la, era como perder uma parte de nosso passado. Que não voltaria. Assim como o mundo que havíamos perdido.
Depois, pouca coisa mudou no acampamento do Morro do Trocado. Alguns ajustes foram feitos, e Ricardo tomou posse do terreiro de Jeanette, passando a maior parte de seus dias cuidando de um ou outro sobrevivente com problemas no estômago, ou resfriado. Eu mesma o procurei, confessando meus problemas de ansiedade. Ele sorrira, e me dera uma caixinha de calmantes florais. Arrependi-me de não ter contado meu drama desde o princípio. Meu afastamento de Carolina não passou despercebido a Otto, que dedicou seu tempo a perguntas irritantes e insinuações a respeito de minha relação com ela. Meu silêncio elucidou o problema entre nós melhor do que uma descrição completa. Sua lealdade a mim acabou afastando-o dela também. Apenas Ana e Fernanda conversavam com Carolina, uma vez que eu ainda não conseguira perdoá-la, e Luca não arriscaria me contrariar dando-lhe atenção. Minha antiga melhor amiga tinha dificuldade em socializar com estranhos, então sua vida no acampamento não estava sendo fácil. Em contraponto, a convivência com Fernanda se tornou muito mais profunda, e era como se uma conexão entre nós houvesse sido forjada. Lavávamos roupas juntas, cozinhávamos com Lucíola e Eloá, limpávamos o terreiro com Ricardo, e às vezes até mesmo fazíamos rondas tranquilas nas barricadas, com Diogo. Era uma das funções que eu menos gostava. Tanto pelo perigo próximo, quanto pelo assédio de nosso tutor. Sem paciência para pensar sobre os olhares de Diogo, me vi imersa em uma nova tarefa. Em poucos dias, percebi o quanto nossa situação era precária. Naquele ritmo de consumo, precisaríamos de gasolina e alguma comida em menos de um mês. As roupas de reserva eram muito limitadas, e nosso estoque não reclamaria com a aquisição de novas peças. Eu passava parte de meus dias atrás de uma mesa na Associação de Moradores, anotando em um caderno cada item estocado. Aquilo me acalmava de maneira surpreendente, de modo que era fácil esquecer o drama que nos cercava. Fernanda me fazia companhia com uma calma e delicadeza incomparáveis. Apesar de seus frágeis quinze anos, ela era a minha força naquele mundo devastado. No dia sobre o qual voz falo estava revisando o estoque de pilhas e baterias, além de eletrônicos eventualmente encontrados, como celulares, câmeras e notebooks. Por sorte ou azar, as torres de telefonia e a internet ainda estavam funcionando, mas com quase dois meses desde o início do Apocalipse, era estranho conservar ainda tamanha tecnologia. Não era algo esperado por mim, pelo menos.
— Sabe Nanda, desde que nos conhecemos estou curiosa sobre sua história. Eu já te contei a minha e do pessoal, e como não temos muito assunto por aqui, bem que você podia me contar alguma coisa... papeei, tentando descontrair nossa tarefa monótona. Fazia quase uma semana desde a morte de Jeanette, e minha nova amiga ainda parecia abalada.
— Se quer mesmo saber, vou contar. sorriu Fernanda, prendendo os cabelos ruivos num coque. Apesar do sorriso, seus olhos denunciavam profunda tristeza. Eu sou, quer dizer, era a filha mais nova de quatro, e a única menina. Minha família era dona de um mercadinho em Petrópolis, e quando tudo começou, acabamos fugindo com uma quantidade enorme de comida, mas fomos parados no caminho para a região dos lagos. Um grupo enorme de pessoas nos atacou para roubar os suprimentos, e meu pai foi esfaqueado. Meus irmãos tinham uma arma escondida, e atiraram. Nenhum deles sobreviveu quando os mortos começaram a se levantar. No meio daquele caos todo, Diogo me achou. Ele estava de moto, e me botou na garupa. A última coisa que vi foi meu irmão mais novo sendo mordido por um errante. Sinceramente, às vezes ainda acordo na expectativa de encontra-lo, e também aos outros, percebendo que tudo isso foi um sonho.
— É tudo muito triste. Sinto muito por fazê-la reviver essas sensações. desculpei-me, comovida.
— Não sinta amiga. É bom desabafar com alguém. Fernanda fechou o pequeno caderno em suas mãos. Sabe, tem uma coisa que está me angustiando. Ricardo retirou a secreção da ferida de Jeanette, e disse que ia analisar aquela coisa para saber o que era. Até agora, não recebemos nenhuma explicação. Apenas Armando sabe de algo, e está esquisito. Não fala nada.
— É verdade. As pessoas andam perguntando sobre isso, nas ruas. Eu ia até comentar algo, porque o achei bem estranho ontem, no jantar. Comeu longe de todos, e saiu bem cedo. Luca também acha que tem algo errado, assim como a maior parte do acampamento, creio. depositei meu material sobre a mesa, e escovei os cabelos com as unhas. Um movimento na maçaneta da porta me sobressaltou, e nós duas garotas volvemos os corpos na direção do som. Acompanhado de Ricardo, Armando entrava na sala. Seu semblante estava abatido, e havia algo de errado no modo como ele estava suando.
O líder escolhido pelo nosso grupo se apoiava em uma cadeira, e parecia acometido por um enjoo temerário. Girando os olhos em suas órbitas, lançou um jato de vômito que se espatifou no chão, respingando meus pés com seu odor azedo e ardido. Controlei-me para não esboçar minha repulsa, enquanto Fernanda corria atrás de um pano. Ricardo amparava o amigo de forma gentil e afetuosa, transmitindo paz àquele homem atormentado. Não saber os motivos para tamanho desespero, me deixava ainda mais nervosa. O que diabo estava acontecendo? De olhos arregalados, Armando lutava para dominar os próprios pulmões, forçando-os a se acalmarem. Junto com um lenço, Fernanda lhe entregou um chiclete de menta, que ele começou a mascar. Ricardo nos fitou, e se sentou em outra cadeira, com uma seriedade alarmante.
— Meninas, este foi o lugar menos movimentado que encontrei para trazê-lo. Mais uma coisa terrível acaba de acontecer. eu estava esperando o anúncio, mas antevia a morte. Ulisses se afogou no lago enquanto pescava com Eloá e Rafael. Parece que enquanto tentava puxar um peixe, ele se desequilibrou e caiu na água. Algo o puxou para o fundo, e o manteve lá. Eloá e Rafael pularam para salvá-lo, mas não conseguiram abrir os olhos por causa da água turva, o perdendo de vista. Poucos minutos depois, o corpo boiou. Havia uma perfuração dilacerante em seu abdômen, que o transpassava em sua totalidade. Algo terrível e perturbador. As pessoas estão gritando que querem ir embora pelas ruas, e a maioria está revoltada por não saber o que matou Ulisses e Jeanette. Querem respostas que não podemos dar. Eu não faço ideia do que está acontecendo. confessou o dentista, me encarando com total emoção. Cheguei perto dos dois, e pus minha mão sobre o ombro de Armando. Com um sorriso leve, nos consolamos.
— Respira fundo. aconselhei como se fosse necessário. Vamos dar um jeito. Precisamos conversar com o pessoal. Se todos saírem do acampamento de uma única vez, vamos nos desestabilizar. Não podemos correr o risco de uma invasão.
— Eu sei. Diogo já deu um tiro pro alto lá fora. Kamila está tentando convencer a família a aplacar-se. Só espero que o Luca e a Eloá consigam cuidar do corpo de Ulisses da maneira adequada... lamentou-se Ricardo, os olhos vermelhos. Duas pessoas em menos de um mês. E pior, duas mortes sem ataques de zumbis.
— Ele era um menino meigo. declarou Fernanda, como se aquilo resolvesse qualquer questão. Ela segurava seu crucifixo de aço, com uma determinação ferrenha.
Como um único organismo, deixamos a Associação de Moradores. Enquanto eu seguia Ricardo pelo corredor estreito que ligava o local à rua, notei que Fernanda ficara para trás, trancando os portões. Armando apoiava-se nela, ainda meio abalado. Respirando fundo, finalmente nos vimos no meio da rua principal. O lugar estava caótico. Havia cerca de seis carros enviesados pelo caminho, com pessoas correndo. Éramos agora vinte e três, mas o espaço limitado pelas barricadas e veículos a esmo, tornavam nosso grupo visualmente muito maior. Havia pilhas de pneus com fogueiras, e muita fumaça no ar ao redor. Sem iluminação pública, estávamos em um ambiente muito pouco iluminado, e angustiante. Pessoas iam de um lado para o outro, com trouxas de roupas e bolsas com comida. Lembro-me de sentir meus batimentos cardíacos acelerando, como as asas de um beija-flor. Otto veio correndo na minha direção, os cabelos negros para o alto, como se houvesse levado um choque. Ele parou ao meu lado, junto de Fernanda. Armando puxou seu revólver calibre trinta e oito, e deu um sinal para Diogo, do outro lado da rua. O rapaz subiu em cima de um carro, e disparou para o alto outra vez. Todos estacaram assustados. Ele parecia furioso. Armando subiu no veículo ao seu lado, e esperou até que todos os murmúrios e conversas cessassem. Um pouco ao longe, notei Carolina de braços dados com Ana, além de Eloá, Rafael e Luca, muito suados e usando luvas sujas de lama. Deviam estar enterrando o corpo de Ulisses em algum lugar, ou o haviam jogado para fora da barricada. Notei também que Ana estava chorando. Estaria ela sentindo-se atraída por Ulisses, ou havia algo mais que escapava à minha compreensão? Trocando um olhar assustado com Nanda, senti minha jovem e recente amiga apertar minha mão entre as suas.
— Meus caros amigos, por favor, mantenham a calma! gritou Armando, de modo pacífico. Entendam que eu me encontro tão apavorado quanto todos vocês, mas não é dessa maneira que encontraremos um jeito de consertar as coisas!
— E como vai ser? Quando os zumbis estiverem comendo nossos olhos?! desafiou Tiago, o mais velho de três irmãos. Os gêmeos Dino e Vilma estavam encolhidos ao seu lado.
— Tiago, você estava lá quando Jeanette morreu. Você viu que nem mesmo ela soube o que a havia atingido. Infelizmente, não temos nenhum cientista, médico ou farmacêutico entre nós. Ricardo faz o que pode com o conhecimento que adquiriu. Se ele soubesse de algo, teríamos contado. Agora, não acha que estaremos muito mais seguros se enfrentarmos o desconhecido juntos? Saindo agora, com todo o barulho que fizemos e os tiros que demos, vamos convidar qualquer criatura que estiver à espreita. Eles estão se acumulando na barricada, e vocês querem ir embora? agora eu entendia o porquê de Armando ser o líder. Ele dominara a plateia. Quem o vira vomitando em estado de nervos, jamais o imaginaria como alguém destemido e seguro. Meus queridos, nossa melhor chance é unidos. Somos vinte e três vidas. Tiago pense em seus irmãos. Lucíola pense em sua neta. Não privem aqueles que amam de sua melhor chance. É tudo o que eu peço. Se ainda quiserem ir depois disso, não vou falar mais nada. Mas convido qualquer um a falar, se assim desejar... Alguém? puro silêncio. Então, em meio à multidão, notei uma mão que se ergueu. Ana. Minha amiga tinha os olhos cintilando em lágrimas cristalinas. Com uma dignidade ímpar, tomou o vestido longo e estampado de folhas que vestia entre as mãos, e caminhou até estar ao lado de Armando. Diogo a ajudou a subir no celta branco. Secando suas lágrimas, a jovem negra engoliu em seco, e encarou os demais sobreviventes. Em uma de suas mãos, trazia seu inseparável tablet, agora com a tela rachada e inutilizada.
— Sei que muitos de vocês não me conhecem. A maioria, só me viu no dia em que cheguei, ou durante as refeições. Mesmo assim, sei que todos compartilham de um mesmo sentimento. Ou melhor, dois. Medo e desespero. Medo, não só por nossas vidas, mas pelo mundo que perdemos. E desespero, por não termos mais o luxo de dar tempo ao tempo. Não podemos simplesmente esperar que ele nos cure. Não dá mais. suspirando, percebi o quanto devia estar sendo difícil para minha amiga. Algo havia acontecido. Nesta tarde, pouco antes de saber da morte de Ulisses, consegui finalmente entrar em contato com minha irmã, Antônia. Ela estava em um hospital de Copacabana, junto com dois amigos que haviam ido visitar seus avós, ambos internados por lá. Acabaram ilhados quando tudo começou, e estavam se mantendo vivos, até hoje. Durante nossa conferência de vídeo, algo atacou o lugar em que ela estava escondida com eles. Toda a tela ficou negra, e um zumbido indescritível começou a impedir nosso áudio. Só o que vi depois que o negrume se afastou, foi o corpo de minha irmã caído sobre a mesa de um computador, com cortes e picadas horríveis. Assustada, eu não consegui acreditar, e só uma coisa passava pela minha cabeça. Eu tinha que ver o blog do Profeta. Sei que a maioria de vocês não gosta dele, mas ele nos tem sido útil, bem como a maior parte de seus posts. E lá, como eu esperava, achei uma notícia terrível. Os animais, também estão infectados. Os predadores, após se alimentarem de animais contaminados pela gripe do urso, estão morrendo e se transformando em algo diferente. Seres mutantes, como os insetos que eu vi. Como os insetos ou animais que mataram Jeanette e Ulisses. Eles eram apenas o aviso de uma infestação que está vindo. Ana então ergueu sua mão, mostrando seu tablet quebrado. Sabem por que fiz isso? Eu mesma destruí meu aparelho, porque o que atrai as vespas mutantes é a tecnologia. Ondas eletromagnéticas. Nossos eletrônicos são uma isca para nossos novos predadores. Sinto muito em ser a portadora desta notícia. Mas o mundo como o conhecemos realmente acabou.
Mesmo Armando estava boquiaberto. Tardiamente, notei que estava chorando a morte de Antônia. Eu vira a irmã de Ana apenas três vezes em sua casa, mas o ferimento emocional de minha amiga era tamanho, que me tomara de assalto. Ansiosa, notei que Luca estava tentando chegar perto de mim. Ele sentia meu desespero. As pessoas estavam surtando, procurando por seus familiares e empurrando uns aos outros para alcançarem a segurança de suas casas. Armando ajudava Ana a descer do veículo, com Carolina e Diogo bem próximos ao lugar onde estavam. Com Ricardo, Otto e Nanda, corri na direção de Luca, no momento em que algo fez o coração de todos congelarem. Ao longe como uma sinfonia demoníaca, o zumbido de milhares de asas enchia o ar noturno. Como um único e temível ser, um enxame de vespas cobriu a luz da lua, cercando o acampamento. Antes que eu pudesse entender o que estava havendo, ouvi o primeiro disparo. Diogo não poderia ter cometido erro pior. O estampido pareceu atiçar as criaturas, que se lançaram contra nós em fúria inabalável. Eram como o própria Legião. Muitos, e cruéis...
Notas finais
Dropping.
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