Notas iniciais
Boa leituras, morceguinhos meus...

Sabrina.

Tudo no que eu podia pensar, era no rosto de Ana. A forma com que ela se despedira de mim, ainda que em silêncio. Com um disparo, ela salvara minha vida, revogando o ataque certamente mortal de um dos insetos que haviam sido convocados por Lívia. Ela me perdoara, afinal. E tudo havia sido tarde demais. Naquela confusão, foi como estar imersa num dos meus piores pesadelos. Haviam mortos demais para que eu pudesse seguir Otávio, ou esperar pelo ônibus. Acelerando o máximo que pude, segui em frente sem olhar para trás, imaginando que indo reto até as redondezas da boate, talvez eu conseguisse reencontrar parte dos meus amigos que já estavam desgarrados. Alguns urubus rodeavam a região, em busca de alimento entre os vivos, ou os recentemente mortos. Apavorada, senti correr em minhas veias tanta adrenalina quanto no dia em que eu fora violentada por Mozart. Reviver todo o terror ao qual Arlindo me submetera no início do Apocalipse era a pior parte naquilo tudo, no que Topázio me fizera. De maneira intensa e realmente assustadora, Ana se tornara rapidamente minha tábua de salvação naquele desespero contínuo. Minha única esperança de afeto, de ter uma vida normal. Eu quis estar com ela desde o primeiro momento em que a vira, mais de um ano atrás. Eu queria protegê-la também, e de muitas maneiras eu me provara um total fracasso nesta função. Ainda que ambas estivéssemos vivas, tudo havia sido em vão. Não pude manter-me ao lado dela. Na verdade, eu tinha que admitir que utimamente ela sequer aceitaria que eu estivesse sempre em seu encalço. Mesmo rejeitada, tive que lutar contra mim mesma para não insistir em acompanhá-la como uma sombra. Fui estúpida. Nossa intuição, vez ou outra, nos fornece dados concretos do que pode acontecer. Eu devia ter ouvido a minha. Principalmente depois de ter certeza de que a mente humana é capaz de milagres. Basta olhar a luz sobre Cecília e a escuridão de Lívia. Eu perdera quem me era mais cara, apenas por um estúpido orgulho ferido pela rejeição. Um joguete das circunstâncias.
Confusa, perdi a noção de por quanto tempo pilotei. As imagens de Topázio invadindo nosso quase lar com inumanos psicopatas ficavam se repetindo o tempo inteiro. Cada ferida, cada pancada, de novo. E de novo. O rosto de Ana, Jonas sendo devorado. Meus amigos desesperados, e paralizados pelo medo. Os gritos de Lavínia ao ser dilacerada pelos mortos. Tudo um pesadelo sem fim. E do qual eu estava exausta, em muitos níveis. Talvez pela forma como eu costumava me portar, uma lutadora, muitos não pudessem sequer imaginar o que estava ocorrendo no campo de batalha do espírito, na minha mente. Eu me sentia como se a carregar um peso nos ombros, trouxas cheias de frangalhos de um mundo que não existia mais. E, usando uma péssima alegoria, Ana era meu maior fardo, minha maior trouxa. E ao mesmo, o que me fazia forte para carregar todas as outras. Ela representava todas as expectativas que eu tinha de pertencer à uma família, de felicidade. Eu sabia que com Vicky, ela estaria segura por quanto tempo fosse possível, mas considerando todos aqueles monstros e a quantidade de lugares onde eles poderiam estar escondidos, dificilmente eu a acharia em breve. Tinha de me preparar não só para suportar seu sumiço, mas para manter clara na minha mente que a ideia de encontrar alguém intacto após o que nos ocorrera, chegava a ser infantil, fantasiosa. Guiando-me por instinto, acabei percebendo que me aproximava cada vez mais da Praia da Tartaruga, onde nos refugiáramos antes de ir à boate. Aquela praia estava cheia de caranguejos mutantes, mas era o único lugar no qual eu podia pensar. Entre virar na estradinha de terra até a praia e seguir em frente até a boate mais ao centro, virei na curva. Minha mente ainda estava turva demais para sustentar uma viagem mais longa. Com sorte, o quiosque que havíamos usado como refúgio ainda estaria inteiro, e eu poderia arranjar um lugar onde dormir.
No escuro, apenas liguei o farol da motocicleta e acelerei, mantendo-me no caminho ainda que alerta à qualquer mudança de ambiente. O matagal ao redor não me enganava. Minha esperança era de que com toda a locomoção até a boate e depois à pousada, muitos dos mortos não tivessem conseguido voltar à praia. Minha teoria provou-se parcialmente correta, quando divisei meu destino. Àquela altura já era noite, e nenhum elemento da paisagem era amistoso. Parei a moto e desci, deixando-a virada no sentido oposto, pronta para uma fuga caso eu precisasse subir nela bem rápido, afim de sair dali. Apenas com a faca que eu ganhara de Saulo muito tempo atrás, segui em frente subindo os morrinhos de areia que dividiam a praia do estacionamento aterrado. Quando cheguei ao outro lado, vi um verdadeiro purgatório de almas. Dezenas de corpos com marcas de tiro ou lacerações na cabeça, além de praticamente o dobro disso em caranquejos e pássaros mortos. Aproximei-me de alguns, e vi um pingente no pescoço de uma garota morta, um pentagrama de aço, que logo arranquei em seguida, vestindo-o. Um súbito cheiro de fumaça me chamou a atenção, e olhei para cima na direção dos quiosques. O som de uma espingarda destravando fez-se ouvir, e então notei que lá do alto, um dos vigias estava mirando em mim ameaçadoramente.

– Mãos ao alto! — ele avisou-me, pronto a ir até as últimas consequências para manter-me na linha. — Venha até a luz e deixe eu olhar pra você! — caminhei como me fora pedido. Meu rosto foi iluminado pela luz de uma tocha que fora acesa acima de minha cabeça. Mesmo de longe, certamente ele conseguiria divisar minha silhueta. Aquilo pareceu aplacar o homem estranho, que logo começou a descer as escadas de madeira em péssimo estado, em direção à mim. — Olá. Meu nome é Herbert. Eu e dois parceiros estamos acampando nessa região à cerca de dez dias. Não tínhamos tido sinal de vida por aqui, até hoje. Ouvimos tiros vindos daqui de perto, e fiquei curioso pra saber o quê diabos seria tudo isso. Ainda bem que você não é um desses monstros, nem nada.

– Não sou. Eu juro. — garanti, num fio de voz. Pela primeira vez notei que estava exausta, e completamente abalada, talvez mesmo em choque. Dócil, permiti que o cara me apoiasse por um braço, mas então meus instintos se alarmaram. Eu não poderia confiar em ninguém. Poderia?

– Sei o que está pensando. Já lidei com outros sobreviventes. Vocês acham que o mundo quer ferrar vocês, e estão certos. Mas não é nosso caso. Não tente me ferir, pois vou reagir. Se quer ajuda, então venha comer alguma coisa e descansar. — fiquei extremamente surpresa com a percepção e o tato daquele homem. — Não é a primeira que aparece por aqui. — Não era?

– Não sou? — repeti, em voz alta.

– Não, não é. — estávamos quase no interior do restaurante à beira-mar, com traços naturais a um quiosque, mas bem mais elaborado que o que fora utilizado pelos meus amigos, antes. — Veja, encontramos mais gente hoje, só que um deles não foi tão compreensivo. Então o amarramos para a própria segurança. As outras estão com Irma. Parecem melhor que antes, mas temo que tenhamos muito pouco a oferecer.

Quando entrei no quiosque, tive um tremendo susto. Cecília estava encolhida à um canto, com uma manta cor de rosa sobre os ombros e uma xícara com um conteúdo negro em seu interior. A caixinha laranja de Matte Leão sanou minhas dúvidas à respeito da bebida, enquanto eu praticamente me atirava para abraçá-la. Mesmo não sendo unha e carne, foi realmente especial vê-la viva, ainda mais conhecendo seus dons. Com ela, certamente teríamos mais chances de encontrar meus amigos o quanto antes. Com mãos frias, mas um aperto sincero, ela me retribuiu o afago. Olhei ao redor, e notei Carolina e Manuela aproximando-se ao lado de uma mulher mais velha, careca. Ela trajava calças militares, coturnos, camiseta branca e um lenço roxo de cetim na cabeça. Parecia amigável e principalmente, confiável. Mas até então, Topázio também parecera exatamente o mesmo, durante muito tempo. Diogo estava com as mãos amarradas, sentado à um canto. Sua boca estava cortada, mas ele não parecia mais irritado. Também bebia uma xícara de Matte, sorrindo ao me ver. Ao lado dele, um menino mais novo estava lendo um livro, com seus óculos de fundo de garrafa refletindo a luz das pequenas velas espalhadas pelo local. Carol me abraçou, junto com Manuela, e nos fitamos durante alguns minutos, como que bebendo do fato de que estávamos juntos. Nossos três anfitriões pareciam um tanto envergonhados por testemunharem o momento, mas estavam fitando-nos com interesse e simpatia.

– Um pouco de Matte, querida? — ofereceu-me Irma, a mulher com o lenço roxo. Neguei com a cabeça, e ela sorriu. — Temos pouca água, mas posso pegar um pouco. O que acha?

– Obrigada. — disse, enquanto ela já me servia, delicadamente. Suas mãos aparentavam firmeza, mas era possível identificar algumas rugas em determinadas regiões. — O que você fez pra ir parar aí, Diogo?

– Tentei matar o Herbert. — ele disse, com um olhar pesado. — Desculpe por isso, cara. — o outro acenou com um gesto, rindo de leve. — Eu tava meio surtado por causa da Victoria. Mas o irmão aí me deu uma surra e me amarrou. Por falar nisso...

– Sim. Solte-o, William. — pediu Irma, sorrindo para o nerd magricela, que apressou-se com um canivete, para libertar meu amigo. — Seu amigo teve um ataque de nervos, por assim dizer. Eu não entendi bem se ele pretendia ferir Herbert, ou se estava apenas tendo uma convulsão. Não levamos isso à mal, considerando tudo o que nos relataram. É bem triste que tenham se separado de seus amigos.

– É, sim. Principalmente porque não consigo ver ninguém. — cuspiu Cecília, toda chorosa. — Sou completamente inútil. E sem o Otto... — ela roeu uma unha, mirando-me em desespero. — Estou despedaçando, Sabrina. Sinto sua presença, porque está próxima de mim, mas meu escudo e minha visão... Se foram...

– Como isso é possível? — sussurrou Manuela, em pânico. Carolina acenou negativamente, consternada.

– Não sabemos de onde vêm os poderes dos inumanos. Mas os seus, criança, parecem ter sido abalados por um trauma. Isso acontece frequentemente. — disse Irma. — Vocês devem estar se perguntando quem somos, não é? O que viemos fazer aqui, por vontade própria?

– Certamente. Não é minha prioridade, mas está na lista. — respondeu Diogo, rabugento. — Não é por nada, dona, mas gente legal leva o dobro de suspeita, de minha parte.

– Compreensível. Mas direi a vocês o possível para fazer com que entendam a importância de estarmos todos aqui, agora. — ela bebericou sua própria xícara, e sorriu-me com naturalidade. — Estamos em uma missão. Somos refugiados como vocês, sobrevivemos em São Paulo desde o início de toda essa tragédia. Nosso trio, é tudo o que restou de um grupo com quinze pessoas, que se escondeu num shopping de Osasco. Fomos resgatados por um helicóptero da Polícia Federal, num dos portos. E então, conhecemos a Fortaleza. Um refúgio para pessoas como nós, sobreviventes. Eram tantos, dezenas de pessoas... — contou-nos, sonhadora. — Mas eles não deixam qualquer um entrar. Os recursos são limitados, e temos que provar que somos úteis.

– É por isso que recebemos uma missão. Se a cumprirmos, os Nove vão nos deixar entrar na Fortaleza. — explicou William. — Os Nove, como o povo de lá chamam, são o Conselho responsável por controlar a ilha. Ela fica perto daqui, inclusive. São como os cavaleiros da Távola Redonda.

– Távola o quê? — resmungou Diogo, ignorante. Ri, pedindo que Irma prosseguisse, com um gesto.

– Temos que eliminar um alvo indicado pelos Nove. Uma mulher, cientista, uma das responsáveis pela proliferação do vírus do urso, aqui no Brasil. O líder dos Noves quer essa mulher morta, pois ela está foragida da Fortaleza sob denúncia de conduzir experiências ilegais com inumanos na ilha. E veio para Búzios, em busca de amostras genéticas necessárias para prosseguir sua busca por uma cura. — contou Irma. — Estamos aqui para matar essa doutora, seu nome é Faye Keiko. Sua família era dona de uma empresa farmacêutica, de descendência japonesa.

– A mulher é uma Dra.Frankenstein moderna. — riu-se William, parecendo se divertir com aquilo tudo. — Ela mapeou e dividiu o Rio de Janeiro em áreas baseando-se nos níveis de infecção. A região dos lagos inteira é o lugar menos perigoso. É por isso que ela se enfiou aqui. Esperta.

– Mas não tanto. Vamos pegar a vadia. — rebateu Herbert. — E já que tivemos a sorte de encontrá-los, vocês que conhecem essa região melhor do que nós, poderiam nos ajudar nas buscas. Em troca, levaremos todos conosco para a Fortaleza, quando isso acabar.

– Esperem. Não acham que essa mulher pesquisar uma cura é algo bom? — reclamou Carolina, desconfiança tingindo sua voz.

– Seria ótimo se ela conseguisse algum resultado. — afirmou Irma. — No entanto, tudo o que conseguiu até agora foi criar mais problemas. Entre eles, uma maldita variante do vírus que começou a infectar animais. Inicialmente, toda essa merda se restringiria aos humanos, mas pelo visto, não era o suficiente para Keiko.

– Os Nove, que representam o atual Governo Brasileiro, cansaram dela. Outros países também estão pesquisando a cura, e provavelmente não têm suas esperanças na mão de uma maluca. — Herbert riu. — Vamos passar a piranha. Vão ajudar ou não?

Aquela pergunta instaurou um silêncio profundo, entre nós. Olhei para Diogo, e antes que ele abrisse a boca, eu sabia dizer exatamente o que estaria pensando. Eu sentia o mesmo em meu coração. Já Carolina e Manuela, pareciam totalmente convencidas do contrário. A expressão plácida de Cecília era a única incógnita na equação, enquanto ela fitava sem ver as próprias mãos, e fechava os olhos concentrando-se em fronteiras além da minha visão. Devia ser frustrante para ela ter uma percepção tão grandiosa apesar de sua cegueira, e não poder detectar aquilo que justamente lhe era mais precioso. Por outro lado, eu não tinha dúvidas de que aquelas três pessoas, tinham absoluta convicção no que estavam fazendo. Aquele tipo de certeza só podia ser vista entre os militares, que sabiam a sua função no mundo. E, pela primeira vez desde que a cortina de fumaça fora lançada sobre nossas cabeças, eu encontrara resquícios de alguma organização, de alguma ordem. Nosso Governo não fora totalmente derrubado. Nem o de outros países. Havia um lugar seguro, uma esperança. A Fortaleza. Aquilo tinha de significar algo. E mais do que nunca, era imperativo descobrir exatamente o quê.

– Cecília, Victoria está viva? — perguntou Diogo, tenso. — É sua última chance de ser útil, e me responder.

– Diogo! Não fale assim com ela! — ralhou Carolina, apontando o dedo na direção dele. — Eu realmente não acredito que você está querendo ir com eles! Nem conhecemos essas pessoas de verdade! E nossos amigos?

– Podem estar todos mortos. — afirmei, mais para mim mesma do que para eles. — E nós? Vamos pelo mesmo caminho? Eu estou exausta. Ao extremo. Se há uma chance de encontrar Ana, não duvide de que estaria atenta à sinais dela por toda a parte. Mas não vou perder o rumo. Preciso sobreviver. É tudo o que sempre fiz, e Diogo entende isso. Temos que entrar na Fortaleza.

– Só pode ser brincadeira. Temos que ficar juntos. Somos uma família, não é? — Manuela estava estupefata.

– Éramos, Manu. Agora somos sobreviventes. — eu estava chorando. — Nossa família foi morta, e todos que a mantinham unida, se foram. Fernanda, Ricardo, Victoria, Otávio, Hugo... Todos eles morreram.

– Não temos como saber se é isso mesmo. — Cecília também estava chorando. — Não os vejo, mas é algo comigo. Precisamos ficar juntos.

– Sinto muito, Cecília. Sem Vicky, eu não me importo com mais nada. — Diogo recusou-se a continuar olhando para nós, e virou-se para dormir em seu canto. Senti o olhar de minhas amigas pesar sobre mim, e foi como estar diante de Anúbis no Salão de Osíris. Sob o peso da Pena da Verdade.

– É por isso que você nunca conseguiu se tornar nosso líder. — alfinetou Carolina, mordaz. — Você jamais deixou de ser o homem que foge dos problemas, que abandona o grupo por não fazermos exatamente o que você quer. Posso ser uma vadia de coração frio, Diogo, mas pelo menos nunca fingi que havia mudado. Já você, Sabrina, não me surpreende em nada. Se há alguém condizendo com a fama aqui, é você. Pelo que eu soube, sempre foi do seu feitio abandonar os amigos quando precisam, não é? Não se preocupem. Nós três vamso ficar bem. E quando encontrarmos nossos amigos, eles vão saber a verdade.

– Não briguem, por favor. — pediu Irma, penalizada. — Não foi minha intenção separar o grupo. Só ofereci uma oportunidade. Pensem todos com calma, esta noite. Amanhã bem cedo estarei partindo com os meninos. Se decidirem mesmo ficar, deixaremos metade de nossas provisões aqui. Descansem, todos perderam muito por um dia. Tornaremos a falar amanhã.

Apesar do pedido de Irma, eu não consegui dormir. E tenho certeza de que ninguém mais. Como podia a realidade mudar tão repentinamente. Como era fácil ceder à exaustão naquele ambiente desgastante. E, após sucumbir à tal entidade aniquiladora, era um bálsamo irresistível a esperança de um destino mais brando. Eu precisava da Fortaleza. Já havia sofrido demais, como todos ali. Se nós éramos os únicos sobreviventes da tragédia pela qual havíamos passado, porque elas não podiam compreender que não havia mais nada para nós em Búzios? Nossas melhores chances estavam com os mercenários. Eles poderiam nos proteger e, de quebra, nos garantir abrigo no lugar mais seguro do país. Não era possível que alguém preferisse morrer em buscas mórbidas por amigos perdidos, quando já era possível imaginar o que ocorrera com eles. Como alguém podia escolher uma morte dolorosa, ao invés de uma oportunidade de lutar por um lar verdadeiro, do qual nunca precisaríamos fugir?
Quando amanheceu no dia seguinte, Irma, Herbert e William tinham nova companhia. Deixando as meninas para trás, eu e Diogo subimos na traseira da picape branca que os mercenários haviam roubado em suas excursões por Armação de Búzios. Eu sabia que para Carolina, estávamos traindo-nas. Mas na verdade, com as três no quiosque estariam mais seguras que em trânsito, conosco. E assim eu poderia saber a localização exata delas, e buscá-las quando tivéssemos eliminado a cientista. É claro que na prática, recebemos apenas silêncio e olhares reprovadores de desprezo. Talvez estivessem todas muito mais decepcionadas com Diogo, do que comigo. Era meio estranho perceber que ninguém depositava fé em você, mas concluí que eu também sempre deixara claro a qualquer um que tudo o que importava, além de minha própria segurança, era a de Ana. E como não podia garanti-la agora, faria ao menos o melhor por mim.

– Espero não me arrepender disso... — confessei a Diogo, enquanto nos afastávamos da praia.

– Eu também Sabrina. Eu também... — ele concordou, segurando minha mão num gesto de amizade que eu jamais esperaria, considerando que nunca fóramos realmente próximos. Mas o tempo nos tornara cúmplices, com nossas constantes viagens em busca de suprimentos e situações de quase morte. Éramos pareceiros de luta, e no momento, justamente Diogo era o que de mais próximo no mundo eu tinha de família. E a pessoa que melhor me conhecia.

Uma grande ironia, é claro...

Notas finais
Gente, não se preocupem. Capítulo que vem, veremos o que ocorreu com o grupo de Otávio. (E com o próprio, também. Aposto que muita gente quer saber se ele escapa da última.) Depois, grupo da Vicky. Essa separação já trouxe algumas polêmicas novas também. Como explicar a atitude de Diogo e Sabrina? Alguém se atreve? Teve também o primeiro POV da Sá, que foi pra mim enquanto escritor, interessante. Por favor, comentem este bolo de polêmicas que também revelou indícios dos enredos futuros, e digam o que estão achando. Menção honrosa à linda de Livery, que começou a ler a fic e deixou nada menos que 65 comentárioooosss! Um em cada capítulo! Pra ti esse, sua linda! :D Kisses by DroppingPieces!