Quebranto.

92 Eu posso vê-lo.


Notas iniciais
Depois de séculos distante dos meus morceguinhos, imagino que minha caverna esteja desabitada. O.o. Não tem problema, qualquer dia vocês voltam. Só queria explicar que sumi, principalmente devido aos novos (e extensos) compromissos com a faculdade. Não é moleza. Mas estudar Letras está sendo revigorante, e uma fonte maciça de experiências e bagagem, que espero utilizar cada vez mais daqui pra frente. Amo muito vocês, meus leitores e amigos. Senti saudades.

Victoria.

Apesar de tudo parecer um pesadelo, a imagem de Manuela sentada à minha frente tornava aquela esquete doentia extremamente real. De modo perturbador, soube que independente de quaisquer erros cometidos por Ricardo, ele salvara a vida de todos, no Trocado. Sua generosidade o impulsionara a cuidar de pessoas mais pobres que não poderiam pagar pelo seu trabalho. Sua bondade era a única razão para que ele estivesse na favela, no momento em que o GM se espalhou pelo Rio de Janeiro. Quando nos encontramos em Cabo Frio, ele acolheu a mim e meus amigos. Salvou nossas vidas quando não nos expulsou. Revelou a localização de sua casa, e só assim pudemos salvar Hugo e Nanda. Não. Ele não era um vilão, nem má pessoa. Era humano. E este mundo, claramente, não era um lugar fácil para a maioria dos verdadeiramente humanos. Nem todos conseguiam conviver com as escolhas necessárias, e com aquilo que se era preciso fazer para seguir em frente. A maioria perdia algo no caminho, e Rico também perdeu. Principalmente depois da morte de Madeline. Ele caminhou lentamente, entrando num caminho sem volta que o levou à morte. Mas era uma jornada compreensível. No fim, tudo não passou de azar e acaso. Quando não se é morto pelos zumbis ou mutações terríveis que habitam nosso mundo, você deve temer às outras pessoas. Nelas reside o verdadeiro perigo. E isso era uma regra clara, em nosso jogo. Quando isolamos o Quartel e uma equipe do Hospital veio para recolher o corpo de Rico, finalmente os tumultos cessaram. Cecília surgira com um arranhão no braço, feito durante uma tentativa de ataque por parte de um homem encapuzado. Francine e Guilherme salvaram-na, mas não puderam identificar o agressor. Otávio estava muito preocupado com sua namorada, mas mesmo eles não souberam como reagir, ao verem a maca sendo levada pelos enfermeiros. Logo Silvia pediu que todos retornassem aos dormitórios, exceto as testemunhas das ações criminosas daquela noite. Ela e Martha rapidamente incentivaram os cidadãos da Fortaleza a circularem, dispersando a baderna. Sem sinais dos culpados por aquele assassinato, eu e meu pai nada tínhamos, senão um beco sem saída.

– Juro Vicky, eu não vi os rostos deles. Mas João Pedro fingiu que estava desacordado. Logo que os criminosos foram embora, ele levantou-se normalmente. Pode ter tido algo a ver com isso, atraindo o Rico até o Quartel. Todos sabem que os dois estavam ficando. — De fato, sabíamos. Mas aquilo era ainda pior. Se João Pedro tivera tempo de atrair Rico, então outra pessoa estava orquestrando os ataques. E se a conversa que Dante e Manu presenciaram era mesmo sobre matar Faye, então eu tinha meus culpados. Mas nenhuma prova. A pressão em minha testa aumentou, e senti a enxaqueca se formando sob a superfície. Carol e Diogo olhavam de longe, sentados numa das poltronas do Diretório, enquanto eu e papai tentávamos encaixar algumas peças. Graças a Deus, Arantes estava com Otávio e os gêmeos nos dormitórios, ou eu não teria nenhuma paz.

– Manuela, pense no que está dizendo. Acusar um dos Nove é algo muito grave. No entanto, se o que você diz estiver certo, estamos em risco de sofrer com um novo confronto civil nestas ruas. A sobrevivência da Ilha é nossa maior prioridade. Não podemos simplesmente matar um Conselheiro, ou prendê-lo, sem provas. — Avisou papai, parecendo tenso. Por que estava tão nervoso? — Não sabemos quem será a próxima vítima, então precisamos de mais do que suposições. Se você não viu nada com certeza, seu testemunho é impreciso e não deve ser considerado.

– Uma ova que não! — Rebateu Manuela, apontando o dedo indicador para papai. — Se você quer proteger seus amiguinhos criminosos com medo da reação deles, então não serve pra defender ninguém. A Vicky pode ser sua filha, mas se ela fosse a Conselheira, jamais permitiria que um assassinato ocorresse durante um pronunciamento da presidente! Sinto muito por ser sincera, mas parece que estamos na merda, dependendo do senhor!

– Manuela! — A repreendi, chocada com tamanha reação. Papai recostou-se contra sua cadeira, afastando-se dela. Os olhos arregalados. Minha amiga respirava com dificuldades, e aprecia abalada. Virei para trás, encontrando os olhares de Carol e Diogo. Ambos pareciam surpresos. Mas não era como se estivessem discordando dela. — Sei que o que aconteceu hoje foi muito difícil pra você. Se nós, que não presenciamos, estamos extremamente abalados, só posso imaginar como deve estar se sentindo. Mas Rico era amigo de todos. E amamos Hugo, também. Sabemos o que isso fará com ele, por isso precisamos encontrar esses assassinos que parecem persegui-lo onde quer que esteja! Mas não vamos conseguir nada, brigando uns com os outros. Então, não entre no plano deles.

– Sim, vocês estão certos. Sinto muito, eu... Só estou cansada. Acho que poderia dormir agora. — Concordei, acenando positivamente e pedindo para Abel abrir a porta. O grandalhão sentinela deixou que Dante e Hugo entrassem, enquanto Manuela retirava-se.

– Vou acompanhá-la até o quarto. — Avisou Carol, bocejando. — E aproveitar para esquecer que esse dia existiu.

Quando todos se retiraram, tentei perscrutar a expressão de Hugo, mas não havia qualquer traço de dor, ou de alívio. Era apenas um estado catatônico terrivelmente difícil de presenciar, no qual lágrimas sem nome escorriam por suas feições, e seu olhar parecia perdido para sempre. Era de dar pena, e Dante simplesmente estava ali, tentando lidar com aquela situação. Apesar da competição entre ele e o falecido, parecia sofrer tanto quanto o resto de nós. Provavelmente mais, por Hugo. Ele era muito bondoso também, jamais ficaria feliz pela morte de outra pessoa. A forma como ele sentara-se ao lado do mais novo, sem saber como consolá-lo, lembrou-me muito de quando Julia morrera, e eu vira Otávio sofrendo. Também lembrei quando Jonas morrera, e eu sentira quase tanta dor quanto Carolina. Era difícil, naquelas circunstâncias, imaginar um momento em que estaríamos sorrindo de novo. Era sempre o mesmo ciclo. Períodos de alegria manchados por constantes mortes e sofrimento. Então, quando estamos a ponto de voltar à normalidade, uma nova loucura entra em cena, para lembrar-nos de que jamais seremos normais outra vez. Nenhum de nós.

– Não, não vimos os agressores. — Repetiu Dante, quando papai o interrogou pela segunda vez. — Desculpe senhor, mas será que não podemos ir embora? Hugo não está em condições de prestar depoimento.

– É tudo culpa minha. Eu tive a ideia de atrair os assassinos até o Quartel. Achei que os enganaria. Mas eles arrombaram uma das portas que eu e Dante havíamos sabotado. E nos surpreenderam. Rico estava apenas no lugar errado. Os tiros que o mataram eram pra mim. Eu merecia ter morrido. Outra vez. O olhar torturado e sombrio de Hugo era assustador. Eu nunca vira tanta escuridão nele, antes. Agora, minha única família foi morta. Quando vocês descobrirem quem foi, quero ele ou ela morto. Se vocês não fizerem, eu vou fazer. — Meu amigo levantou-se, mesmo sem autorização. Meu pai não quis contrariá-lo.

Decidido em seu luto, Hugo saiu pela porta da sala de interrogatório com Dante em seu encalço. Quando ele passou pelo pórtico, bateu a porta grossa de madeira com força. No mesmo instante, toda a vidraçaria da sala rachou de cima para baixo, quase de forma sincronizada. O caminho de cada rachadura era idêntico, formando uma espécie de obra de arte surreal e opulenta. Levei um susto, e troquei olhares de espanto com Diogo e papai. Que diabos era aquilo? Não. Hugo não poderia ter feito algo, se nem estava mais na sala. Muito menos seria capaz de fazer aquilo de forma consciente. O impacto da porta devia ter sido simplesmente demais para a vidraçaria frágil. Um simples acidente, agora muito mais escandaloso devido aos nossos nervos em frangalhos. Eu mesma sabia como era quebrar coisas por acidente, desde minha transformação. Não devia ter ficado tão surpresa por coisas tão simples. Era apenas a adrenalina falando, mais uma vez. Tensa, por todo aquele show de horrores me dei por vencida naquela noite. Abracei papai e despedi-me com um olhar significativo. Ele devia estar ansioso para rever meu irmão, depois de todo aquele tumulto. Faye devia estar com Carlos esperando-o, naquele momento. Senti a mão de Diogo envolver a minha, enquanto ele guiava-me para fora do Diretório em direção à Praça Central. O local estava uma bagunça, com o palanque montado para Silvia deslocado do cenário como um grande elefante branco. Em algumas partes do pátio, a grama havia sido tão violentamente pisoteada, que estava em frangalhos. Num dos muros mais próximos do Quartel, uma grande frase escrita com tinta branca parecia tão potente quanto uma das antigas placas de néon. Não há cura, a escritura dizia. A mesma frase do assassinato de Valentina. A mesma mente por trás daquela tentativa de anarquia.

Descemos em silêncio até os dormitórios. De seus quartos, as pessoas não emitiam sequer um ruído. Era estranho observar aquele lugar tão silencioso, quando não deviam ser nem dez da noite. Na Fortaleza o tempo parecia importar outra vez, mas naquela noite confusa, senti que mesmo sua relevância estava sendo ameaçada. Quanto tempo ainda teríamos, antes de uma nova guerra civil? Para ser franca, estava tão cansada que não me importava. Não enquanto não pudesse ter uma boa noite de sono, livre de qualquer problema e repleta da paz restauradora dos sonhos. Para minha surpresa, Helena e Arantes estavam parados do lado de fora do meu quarto, conversando em tom de voz muito baixo. Quando me aproximei, os dois esforçaram-se para sorrir, mas percebi que falavam de Ricardo. Helena arrumou o cabelo, tentando prendê-lo num rabo de cavalo. Arantes meramente cruzou seus braços musculosos, suspirando fundo. Com uma expressão consternada, acenou para Diogo e pousou uma das mãos sobre o meu ombro direito. Sorri diante da sua expressão consoladora, que mesmo em momentos como aquele, transmitiam grande confiança.

– Nessas horas me lembro do Rhuan. Quando isso vai acabar? — Tristonho, ele coçou os cabelos da nuca, piscando os olhos com força. — Falo sério, ver outras pessoas morrendo me faz lembrar de que apesar de ter vingado meu filho matando Herbert, não achei o verdadeiro culpado. Com a morte de Irma, nunca saberemos quem contratou os mercenários. Mas aposto que está ligado aos "Anti-Cura". — Bufando, Arantes pareceu concentrar-se no problema mais urgente, deixando de lado sua expressão profissional e fitando-me com maior atenção e sensibilidade. — Conseguiu algo sobre a identidade dos desgraçados? — Neguei, exausta. — Merda. Os gêmeos estão dormindo. Helena misturou um remédio no suco deles. Coisa fraca. — Nem tive forças para protestar. Sendo franca, eu estava quase pedindo uma dose de calmantes para mim mesma.

– Tudo bem. Vai ser melhor se eles descansarem. Devíamos estar fazendo o mesmo. Se importam de me dar licença? Como Carolina disse, quero esquecer que esse dia existiu. — Trazendo Diogo comigo, desejei boa noite aos dois, fechando a porta de nosso alojamento atrás de mim. Antes que eu pudesse tirar a jaqueta e sentar num dos sofás pequenos, senti os braços de Diogo se fechando ao meu redor como o corpo de uma serpente constritora, esmagando-me. O que mais me surpreendeu, no entanto, foi ouvi-lo chorando. Céus. Eu acho que nunca ouvira Diogo chorar daquele jeito. Ele parecia extremamente abalado. — Hey... Sinto muito. — E certamente eu sentia, mas não estava entendendo.

– Nunca pensei que o mauricinho fosse morrer. No fim dessa merda toda, achei que ele estaria vivo e todo engomadinho, dando ordens. Não sei se tô mais puto por terem matado meu amigo, ou porque o filho da mãe morreu sem que pudéssemos nos despedir. — Diogo secou as lágrimas com uma das mãos em punho. — Não aguento mais perder gente. Achei que isso ia parar, aqui.

– E devia ter parado. Mas se quisermos paz, vamos ter que lutar por ela. Não sobrou nada além dessa ilha, Di. A Fortaleza é tudo o que temos. Nossa única chance. — Pousei uma das minhas mãos em seu rosto, e senti a umidade recente, a trilha de lágrimas fria contra as pontas dos meus dedos. — Agora não é o momento de desanimar. Chore pelo Rico. Seja você mesmo, assim, cheio de amor pela nossa família. — Eu também estava chorando, mas isso não era novidade alguma. De repente ficou muito fácil lembrar de toda a jornada até aquele ponto. Desde o desafio da bebedeira que Diogo me fizera em nosso primeiro encontro, até o adeus de Ana. — Se eu posso vê-lo por quem você realmente é, tenho certeza de que você também pode me ver. Então, amanhã seremos fortes, pelos nossos amigos. Mas aqui dentro, não.

Sei que não é nada romântico dizer isso, mas naquela noite acabamos deitando na cama do jeito que estávamos. Sem trocar de roupa, sem tomar banho. Sem nenhum tipo de conforto além dos braços um do outro. Embalando meu sono com um aperto olímpico, Diogo chorou por mais algum tempo, até que adormecesse. Sua respiração ainda era apressada e apertada em meio à inconsciência, mas senti as batidas do seu coração cada vez menos esquisitas. Virando-me de frente para ele, escondi o rosto na curva de seu pescoço, adormecendo com o cheiro de suor e perfume misturados em sua camisa. E não, eu não me importei. Detalhes como aquele pareciam nada, perto do que poderia acontecer a qualquer momento. E este tipo de urgência crua e cínica, tem o poder de simplificar qualquer situação. Só pode ser realmente compreendida, por quem já a viveu. Quando algo extremamente sério muda o balanço das coisas e te faz questionar cada decisão, ter certeza de algo é o melhor que se pode esperar. E eu tinha certeza de Diogo. Tinha certeza dos meus amigos. E tinha certeza de que cedo ou tarde, me vingaria por eles.

Notas finais
Okay... Vou ser bonzinho e compensar postando o próximo mais tarde! É só o tempo de revisar os erros e editar algumas coisas. Espero que gostem.