Quebranto.
93 Como seguir em frente?
Notas iniciais
Nanda.
Os olhos de Tânia eram sempre gentis. Ainda me surpreendia como alguém que passara por tantas coisas, conseguia manter sua humanidade intocada pelas circunstâncias. Aquela nunca fora uma questão minha, antes. As escolhas difíceis haviam sido deixadas para Vicky, Rico, Carol, Diogo... Nunca para mim. Por isso, a imagem de Irma, caída e sem vida, mexia comigo. Não era nada como enfrentar aquelas criaturas no Porto da Barra. Não era limpo, não era certo. Aquela mulher enlouquecera de forma inexplicável durante o julgamento, mas nada parecia justificar tamanha violência. Dentre todos os mercenários, ela era a mais centrada, segundo Diogo. A líder. Aquilo era extremamente perturbador, e difícil de engolir. Ninguém mudava completamente, a menos que fosse submetido a profundo estresse. Mas nem mesmo a prisão deixaria Irma tão descontrolada. Tinha que existir algo mais. E agora nunca saberíamos, porque eu simplesmente não era controlada o bastante para desacordá-la com minhas malditas unhas de enguia elétrica. Santa Maria! Como eu pegaria meus bebês no colo, depois daquilo? Rejeitá-los ao nascer não havia sido o bastante? Não fora visita-los um dia sequer, na maternidade. Meus trigêmeos deviam estar completamente abandonados, sem a mãe. Sentindo-se, ainda que de forma inocente, deixados de lado. E os gêmeos? Eu podia sentir a mágoa de Dino, pelo meu afastamento. Vilma ainda era doce comigo, mas uma espécie de barreira havia se formado entre mim e todos os outros. Eu não me encaixava mais. Era uma aberração volúvel, caminhando à sombra de Victoria, mas sem de fato pertencer à família. Não depois de me tornar uma criatura assassina.
– Eles sentem sua falta, sabe? Os bebês. Os vejo todos os dias, e precisa ver o quanto se parecem com a mãe. É verdade que Apolo tem traços de Arlindo, mas repletos de luz. De inocência. São todos lindos, filha. — Como ela conseguia fazer isso? — Sei que está pensando neles, porque vejo a ruga de preocupação na sua testa. Não se preocupe, Nanda. Não vai machuca-los. Não importa quantas pedras atirem, nem quão terríveis sejam. As pessoas daqui não a conhecem. Nós sim. Lembre-se de quem é, garota.
– E se tiverem razão, no fim? Eu não seria a primeira inumana a ficar doida de qualquer maneira. Lembra da Topázio? Do que ela fez com Diana, e com Gabriel? A loucura dela me transformou nisso — murmurei. Meus dedos enrolaram-se nos lençóis de Tânia, limpos e gelados com a temperatura do ar condicionado.
– Foi o sangue Vicky que te trouxe de volta. Você foi infectada por ela. E se isso conta em alguma coisa, você vai ficar bem. Só me avise se descobrir uma segunda personalidade, ou algo do tipo. — Rimos juntas, até que a expressão de minha amiga tornou-se mais grave. Esquecia-me de como ela era frágil, em ocasiões como aquela. Os hematomas e os pontos em seu rosto estavam praticamente curados, mas ainda devia ser difícil esforçar-se. — Às vezes arrependo-me de algumas coisas, filha. De não ter dito aos meus filhos que os amava naquele último dia. De não ter beijado meu marido mais vezes. Perdi tudo, Fernanda. E não existe um dia em que eu não me pergunte: Como seguir em frente? Como continuar lutando, quando perdemos aqueles que são mais caros? Vale à pena viver? — Tânia recostou-se de forma mais confortável. — Sim. Porque faz parte de nossa natureza seguir em frente. A humanidade cobre buracos e arestas desde o início dos tempos. Netos homenageiam seus avós falecidos, nomeando os filhos. Mães engolem o choro, e trabalham. Alguns adotam outras crianças. Eu adotei todos vocês. O ponto onde quero chegar é: Não desperdice seu tempo com medo. Ame suas crianças. Chore pela Fernanda que morreu, mas conviva com a nova. Só quando você abraçar quem é, e esquecer quem deveria ser, vai ser feliz de novo.
– Você é a melhor mãe do mundo. Eu não suportaria estar aqui, se algo te acontecesse. — Confessei, abraçando-a com força. Tânia riu, e secou as lágrimas dos meus olhos. Só então percebi que minhas mãos estavam firmes nas suas, e nada acontecera. Emocionada, senti-me envergonhada por ter sido tão infantil. Afastar as pessoas que amamos nunca é a solução em situações como essa. Deus, eu devia saber. — É como Maria, após a paixão de Cristo. Ela encontrou forças em si mesma para seguir em frente e suportar a perda de seu filho. Devo me espelhar no exemplo dela. Ainda que eu não seja digna de alguém tão glorificada.
– Besteira. Todas nós somos dignas de Maria. Ela nunca diferenciou o tratamento de um filho, para outro. — Concordei, e olhamos pela janela, para a escuridão noturna. — Pobre Rico. Eu não devia ter sido tão dura com ele.
– Ele te amava, Tânia. Desde que Madeline se foi, era a você quem ele melhor ouvia, mesmo durante a história com Hugo. Ele não se importou em correr riscos quando estávamos separados. E tudo porque você estava pedindo. Ricardo era um homem bom, que cometeu erros como nós. Hugo deve estar devastado. Mas ainda que os dois não tivessem terminado um relacionamento pouco saudável recentemente, as coisas não seriam mais fáceis. Não existe um momento certo de partir. É a vida. Como você mesma disse. — Mordi meus lábios, segurando um soluço de dor. Os anos anteriores pareciam tão distantes, e ainda assim... Eram tão recentes.
Levei um susto quando ouvimos uma batida na porta de vidro. Virei o pescoço na direção do barulho, e um homem bonito estava parado ali, sorrindo de forma pouco confortável. Renée. Um dos Nove. Ao lado dele estava uma garota bonita, e jovem. Ela não me era estranha, mas tampouco familiar o suficiente para que eu conectasse o nome, ao rosto. No entanto, levantei-me e fiz um gesto para que os dois entrassem. Minha blusa justa de mangas compridas escorregando pelo meu corpo enquanto eu caminhava pelo espaço limitado. Apresentando-se como Beatriz, a jovem revelou ser a irmã caçula de Renée, e uma auxiliar de Francine, Conselheira da Cultura. Os dois estavam por ali para visitar Tânia, de quem haviam se aproximado nos últimos dias. O que achei estranho, até que explicassem que a situação envolvendo seu ataque os sensibilizara, e que fora por intermédio de Renée que Tânia pôde caminhar todos os dias até o berçário, para passar algum tempo com meus filhos. Ainda que desconfiada, tinha que admitir que aquilo era legal. E eles não tinham obrigação alguma de fazer aquilo por ela. Ou por mim.
– Nanda, lamento muito pelo que houve com seu amigo. Sinceramente. E o que houve com você, também. Esses extremistas são uns animais. Nunca fiquei tão assustado quanto hoje. — Renée sorriu ao fim da frase, maneando a cabeça de modo que seu cabelo liso caiu levemente sobre o rosto. — Que ótimo, você deve estar me achando um covarde, como a maioria das pessoas aqui. Não era essa a primeira impressão que eu planejava deixar, mas... Ok. Vejo você depois. Só passei para desejar uma boa noite para Tânia, e para você. Vamos, Bia?
– Claro, Ren. A Fernanda nem vai desconfiar que você veio só para vê-la. — Revirando os olhos, Beatriz seguiu o irmão através do corredor, e os dois sumiram das minhas vistas.
– O que foi isso? — Rindo, cruzei os braços na direção de Tânia.
– Ora, ele é charmoso. Tente não ser tão exigente. Me pareceu um bom rapaz. — Tânia deixa escapar um pequeno sorriso. — E não me engano sobre essas coisas.
– Ah, eu concordo — admiti. — Mas espero que não se engane sobre outras coisas. Por exemplo, ele pode ser responsável pela morte do Rico. Como outra Topázio.
– Querida, existem muitas Topázios por aí. Pessoas que vão te apunhalar pelas costas. Mas esse rapaz não é um deles. Não entendo porque Faye não confia nele. Não me parece partidário de Orlando.
Eu realmente esperava que ele não fosse. Não sabia mais o quanto de jogo duplo poderia suportar naquele lugar. Já era difícil conviver com a pressão de estar rodeada por pessoas desconhecidas, e por gente maluca que te considera um Show de Horrores. Gente que poderia matar outro dos meus amigos sem aviso. Percebi que aquela era uma oportunidade única, e que não iria desperdiça-la. Levantei-me rapidamente, e beijei a testa de Tânia, para sair correndo do quarto de hospital, deixando a pergunta em sua face. Eu voltaria logo para dormir com minha amiga. Mas precisava saber para onde aquele Conselheiro estava indo. Tudo correria bem se eu simplesmente agisse antes de pensar, pela primeira vez. E não fosse vista por nenhum funcionário, obviamente. Não foi difícil encontrar os corredores por onde haviam passado. O caminho era um só, até a recepção do local. O infortúnio, foi infelizmente não conseguir chegar até lá. Pois quando dobrei um dos corredores, quase fui atirada para trás pelo susto. Um homem usando máscara de ninja estava armado com uma faca de caça, e não hesitara em brandi-la contra mim, sem aviso. Esquivei-me somente devido à reação de repulsa do meu corpo. Não sabia exatamente o que fazer, mas aquele cara continuava vindo, tentando me acertar. Ele lutava comigo numa velocidade impressionante, de modo que se tornou fácil notar a diferente postura em seus movimentos. Aquele homem não é era um morador comum. Era sentinela. E tinha braços fortes. Avançando para mim como um touro, perdeu o fôlego quando o chutei no joelho, e caiu. De quatro sobre o piso polido do Hospital, ofegou. Encostei uma única unha em sua nuca, e ele gritou antes de desabar. Pensei em correr para chamar alguém, mas senti um braço firme envolver meu pescoço, puxando-me para longe de meu adversário. O solavanco me atirou de costas sobre o chão, e senti meu mundo girar em cento e oitenta graus. O segundo agressor chutou meu estômago, enquanto o primeiro começava a se levantar. Ele ainda chutou mais algumas vezes, antes que eu ignorasse o gosto de sangue na minha boca, e agarrasse seu tornozelo. Minhas unhas facilmente penetraram o coturno, e senti que ele não esperava por isso. Com um grito, meu agressor caiu de costas, ao meu lado. O outro virou o corredor numa fuga desenfreada, deixando meu campo de visão. Lentamente, debrucei-me sobre o homem, e percebi que ele estava morto. Mais uma vez, eu exagerara na dose. Cobrindo os lábios com uma das mãos, chorei de desespero e devido ao meu sistema nervoso abalado.
Num impulso violento, puxei a máscara de tecido sobre seu rosto, e reconheci um rosto familiar. Bruno. Um sentinela artesão que esculpia os nomes no Memorial. Se aquilo não era alarmante, não sabia mais o que poderia ser. Porque mesmo pessoas sorridentes e gentis pareciam dispostas a nos matar. E se não fosse por mim, então planejavam terminar com Tânia ainda hoje, enquanto ninguém estivesse ali. Depois da confusão. O problema, era que se Renée estava envolvido naquilo e vira uma transgênica protegendo seu alvo, então deveria ter avisado aos seus capangas. O que parecia provar que ele não fizera nada. A menos que o ataque fosse armado. De todo modo, meu agressor estava morto, e graças a mim nunca saberíamos em quais atividades do grupo ele estivera diretamente envolvido. Valentina, Ricardo, Hugo e Tânia? Graças a mim, nunca saberíamos. Eu era simplesmente a pior sentinela do mundo. Uma mão levemente se fecha sobre meu ombro direito, e senti o impulso de agarrá-la com minhas unhas. Controlei minha raiva quando reconheci Guilherme, o quase namoradinho de Manuela, todo preocupado e confuso. Com aquela cara de britânico, todo cuidadoso e firme. Ele acabou ajudando-me a levantar, e senti que era a primeira vez em que o olhava de verdade. Ele estava suado, as bochechas muito brancas, totalmente enrubescidas. Ele parecia pegar fogo, respirando com força, como se tivesse acabado do correr duzentos metros. Seus olhos não desgrudaram do menino morto, e ele parecia chocado.
– Bruno... Eu nunca imaginaria. Ele era bem novo no começo de tudo. Sinto muito por isso ter acontecido com você. — Acrescentou, sendo um cavalheiro.
– Bom, pelo menos posso me defender. Acho que ele queria a Tânia, mas eu estava de guarda. É a única razão para pensar que me atacariam aqui. Mesmo com a maior parte da equipe médica dormindo a essas horas, não é difícil que alguém veja. — Apoiando-me nele, deixo que Guilherme me leve até o corredor dos quartos, e mal escuto enquanto ele pede que uma enfermeira vá checar os corredores. Ele apenas me solta na porta de Tânia, e se despede, sorrindo. — Não se preocupe. A enfermeira vai chamar outros sentinelas. Vamos remover o corpo, e vigiar os quartos e o berçário. Sabe, ouvi dizer que sua amiga vai poder voltar ao trabalho logo. O que acha de celebrarmos? Vou falar com a Manuela. Temos pouquíssimos momentos felizes para viver. Não podemos recusar nenhum.
– Bem, isso soa como uma ideia. Me avise. — Acenando um adeus, deixo que Gui se vá, com uma pontada de preocupação em meu coração. Olho para Tânia, e ela está fingindo que dorme. — Não adianta tentar. Nem você mesma consegue reproduzir seu ronco, a menos que esteja dormindo de verdade. — Para minha surpresa, minha amiga sorri e levanta o polegar.
– Não é aquele que você foi buscar, mas é bonito também. — Deixando-me totalmente espantada com tanta naturalidade, por fim Tânia simplesmente dormiu.
Como aquele tipo de momento era bom! Estar tão próxima de alguém depois de escalar meu muro pessoal de afastamento e tristeza, foi incrível. Mas eu ainda tinha muito trabalho a fazer. E aquilo só acabaria quando houvesse algum tipo de paz naquele lugar. E esse parecia tragicamente, um destino duro de se alcançar.
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