Quebranto.

90 Estratégias e Reações.


Notas iniciais
Mais um capítulo, galera! Saudades de alguns morceguinhos. Vocês andam tão sumidos... :( Para aqueles que ainda não me abandonaram, uma ótima leitura!

Manuela.

O simples ato de digitar parecia incerto, perdido em meio aos momentos passados, e deslocado no tempo. Um ato comum durante boa parte dos anos de minha vida, que agora se provava completamente desconexo de quem eu me tornara. Jamais pensei em operar um computador que estivesse funcionando. A internet era um sonho distante, sim. Mas os arquivos digitais eram formalmente utilizados na Fortaleza, e no centro dos Organizadores, não poderia ser diferente. Curiosa, notei que Renée possuía um registro completo com os perfis dos moradores na ilha, incluindo um arquivo de nove páginas sobre mim. Jamais pensei que resumir minha vida renderia nove páginas inteiras. Mas poderia dizer que fiquei curiosa. Não me lembrava de ter conversado formalmente com outras pessoas, muito menos de ter disponibilizado nove páginas inteiras sobre minha vida. Folheando o papel brilhante e de aspecto límpido, percebi que minha história em si, não estava ali. Mas sim anotações, como as de um diário, sobre minha aparência e estado de espírito durante os poucos dias ali. Até mesmo a forma como todos os meus amigos pareciam interligados, como se fôssemos parentes, era mencionada. O arquivo não traía minhas verdades. Dante e Hugo eram informados como pontos de importância para mim, enquanto Ricardo era apontado como meu atrito mais forte. Era impressionante que Renée soubesse tanto sobre nós, sobre mim. Principalmente, porque ele não me conhecia nem um pouco. Sozinha, numa salinha escura e empoeirada (onde eu me escondera para ler), acabei apanhando uma pasta um pouco mais antiga. Ela tinha uma fita vermelha colada na contracapa, e parecia assustadoramente interessante. Uma olhada breve no nome de seu dono esclareceu minha dúvida. Orlando de Albuquerque, o antigo presidente da Fortaleza. O que poderia ser descoberto? Tentada a roubar aquelas páginas, distraí-me. A porta do cubículo repleto de arquivos abriu-se, e assustada, deixei o documento de Orlando cair no chão. Na pressa, chutei o arquivo para baixo da escrivaninha onde estava apoiando minha própria pasta, para ler.

– Com licença, Manuela. Você demorou, então pensei que pudesse estar com problemas. Sabe alguns dos nossos iniciantes já derrubaram prateleiras, se perderam nas salinhas, essas coisas. Como sua supervisora, minha situação não seria nada boa se te perdesse no primeiro dia. — Agnes estava rindo. Ela era uma gentil e bela mulher negra. Com cabelos cheios e cachos fartos e bem desenvoltos, ostentava sua silhueta magra e bem delineada como uma deusa africana de cintura fina e quadris largos. Seu olhar gentil lembrava o de Silvia, a presidente da ilha. Deviam ser parentes.

– Ok, já estou voltando. — Levantei-me, e a segui para os corredores. Ao contrário dos advogados, médicos, fazendeiros e outros funcionários, os Organizadores não tinham um prédio próprio. Os Arquivos e as instalações funcionavam no Grande Salão que intermediava os Alojamentos, os níveis superiores e a Prisão. Como definíamos as trocas de roupas, ordens de limpeza, e as enviávamos para os Zeladores, não precisávamos de muito espaço. — Pode deixar Agnes. Prometo esperar até o fim da primeira semana, para me perder.

– Isso não foi muito engraçado, Manuela. — Mesmo assim, ela estava rindo. Deus, o sorriso daquela mulher era mesmo contagiante. — Não se preocupe, vou protegê-la dos muitos perigos e emoções de se trabalhar nos Arquivos.

– Ah sim, imagino que devam existir muitos. — Ri, não pela piada em si. Mas porque considerando aquilo que eu estava fazendo, estaria realmente em perigo, caso Renée tivesse algo a ver com a morte de Valentina.

– E existem. Mas como eu disse, fique calma. Não vou nem dizer ao Renée que você estava escondida lendo seus próprios arquivos. — Ela piscou, e meu sangue gelou. — Relaxe. É proibido, mas todos fazem isso vez ou outra. Nossa função nos Arquivos é ter um diário sobre as atividades e relações entre os moradores. Assim, poderemos evitar o surgimento de outro Orlando. Isso ficou decidido por Silvia, depois do banimento dos rebeldes. Todos os dias, passamos os relatórios de nossos colegas para as pastas digitais, e anexamos novas páginas aos arquivos. Quando um morador da ilha morre ou é banido, sua pasta recebe uma fita vermelha. Significa que ela foi fechada, e não pode ser alterada. Essas são mandadas para a sala onde você estava se escondendo. Todos os arquivos de lá, pertencem aos mortos durante a rebelião. Renée fez questão de reunir material sobre todos, como forma de homenagem. Até para aqueles que não mereciam. Ele é um bom homem, embora pouco compreendido.

Por alguma razão, eu duvidava muito que Renée fosse tão virtuoso assim. Para mim, havia mais interesse em deter o conhecimento, do que em homenagear alguém, por trás de suas ações. Com um calafrio inoportuno, percebi que diante de meu trajeto até a recepção no centro dos Alojamentos, nenhum dos funcionários olhou diretamente em meu rosto. Inclusive, um ou outro dirigiram a mim olhares raivosos, como se eu fosse uma intrusa, alguém infectado, ou uma leprosa. Agnes não pareceu notar o movimento ao nosso redor. E se notou, foi respeitosamente discreta. Juntas, nos sentamos calmamente em nossos lugares, voltando ao trabalho. Do lado de fora, uma movimentação maior envia seus ruídos até nós. O enterro de Valentina. E Irma, embora no caso da mercenária, não houvesse nenhum tipo de expectativa real. No entanto, perceber aquele momento que se desenrolava, tornou mais fácil entender os motivos dos olhares de censura. Os boatos de que Victoria assumira o lugar da antiga Secretária de Defesa estavam se espalhando, e muitos associavam sua morte com nossa chegada. Uma tragédia, para nossa popularidade inicial. Senti-me triste pela garota. A irmã de Mathias parecia ser alguém legal, com uma personalidade forte. Agora, eu jamais saberia mais sobre ela. Agnes notou minha introspecção, e apertou meu ombro, com simpatia. Gostei muito dela. Seu olhar ergueu-se brevemente, e ela sorriu de forma mais acolhedora. Acompanhei seus gestos até um rapaz forte, de corpo largo e pele branca. Ele parecia britânico, e sua barba por fazer era loura como seus cabelos raspados em estilo militar. Era bonito. E de sorriso fácil. Suas orelhas eram engraçadas, o faziam lembrar um elfo, ou criatura feérica do tipo.

– Manuela, esse é o Guilherme. Ele é um dos sargentos dos sentinelas. — Agnes explicou-me, enquanto o loiro grandão continuava me olhando. — Não sei por que ele está aqui, mas é bom que vocês se conheçam melhor. O Gui geralmente protege os Arquivos e os dormitórios, então está sempre por aqui.

– Prazer em conhecê-lo, Guilherme. — Estendi a mão, e ele a tomou. Surpreendendo-me, Guilherme levou minha mão até seus lábios, e a beijou. Quem ainda fazia isso? Fiquei vermelha, cheia de vergonha.

– O prazer é todo meu, Manuela. É bom ver um rosto novo por aqui. — Agnes revirou os olhos, e contive o impulso de rir. — Ora, não seja ciumenta Agnes! Você sabe que meu coração é todo seu!

– Não sabia nem que você tinha um. — Dando língua para Guilherme, Agnes apanhou algumas pastas em sua mesa. — Cuidado com esse aí, Manu. Mulherengo de primeira.

Rindo, ela deixou-nos a sós, e pensei que poderia simplesmente ignorar Guilherme, para que ele fosse embora. Não adiantou muito. Em silêncio, ele permaneceu ali, observando-me enquanto eu escrevia e lia relatórios. Uma chatice sem fim, e sem expectativas de melhora. Mas sua paz era imperturbável. Depois de algum tempo, sua presença não me incomodou mais. Notei que ele mantinha um olhar preciso e constante não só sobre meus gestos, mas sobre os de todos os funcionários. Ele estava protegendo os Alojamentos. É claro. A maioria das outras pessoas estaria fora, para o funeral. Estaríamos desprotegidos ali. Guilherme era nossa única proteção contra um possível novo ataque. Como eu não notara isso antes? Escorregando de minha mão que fora ferida, minha caneta caiu no chão pela terceira vez. Era estranho segurar algumas depois da mordida que eu levara em meus dedos. Guilherme abaixou-se e entregou-me o objeto, olhando-me com uma gentileza quase sem sentido. Ele não me conhecia, de jeito nenhum.

– Você escapou de uma mordida dos mortos vivos? — Fiz que sim, sacudindo a cabeça em silêncio. — Uau. Tânia foi quem decepou as áreas infectadas? Ela parece durona.

– Ela é sim. Devo minha vida àquela mulher incrível. — Amarrei meus cabelos num rabo de cavalo, usando um dos elásticos sobre a mesa de escritório. — E você, tem alguma cicatriz tão legal quanto a minha?

– Ah, tenho. Mas não posso mostrar aqui — Guilherme piscou, e começamos a rir. — Brincadeira. Levei uma facada no começo de tudo. Tenho uma cicatriz dos pontos que levei no peito. Por sorte, o maluco que me acertou atingiu o lado direito. Se o ataque fosse ao esquerdo, teria sido direto no coração.

– Isso ainda é menos legal que os meus dedos — insisti.

– Realmente. Eu não chego nem aos seus pés, nesse quesito. Você é mesmo mais legal do que eu. — Algo em seu rosto mudou, e senti vibrações novas em seu olhar. Sentindo-me uma vidente poderosa como Cecília, tinha certeza de que algo estava rolando ali. A habilidade de detectar as intenções dos homens havia sido o meu trabalho durante muitos anos. Era bem difícil me surpreender, quando se tratava deste tipo de conversa.

Olhando mais uma vez para o lado de fora, imaginei como estariam os outros. Eu não era a única com atividades perigosas a realizar. Mas no meu caso, fortes indícios se erguiam contra o investigado. E eu não era exatamente profissional neste campo de atuação, então, poderia cometer erros decisivos. Nesse caso, não poderia estar mais grata pela atração de Guilherme. Se eu pudesse torná-lo leal a mim e aos meus amigos, então teríamos alguém de dentro, com acesso aos Arquivos e dormitórios de todos os residentes da Fortaleza. Primeiro, eu devia ter certeza de que podia confiar naquele sentinela. E então, seria fácil conquistá-lo. De forma curiosa, percebi que pela primeira vez meus dons peculiares teriam utilidade para outras pessoas além de mim. E, se voltar às origens era a solução para os meus problemas atuais, então orgulhosamente agiria como a mulher mais sedutora que aquele cara já tinha visto na vida dele.

– Então, Guilherme, tem algum plano para hoje à noite? — Indaguei com meu sorriso alargando-se tal qual serpente pronta a dar o bote.

Victoria.

O funeral de Valentina fora deprimente em muitos aspectos, mas principalmente devido ao estado em que deixara Mathias. Inconsolável, ele se mantivera em silêncio, ouvindo como que ausente enquanto Silvia e meu pai a homenageavam. Era impressionante como Valentina era querida entre as pessoas da Fortaleza. Ela parecia o tipo de mulher capaz de agir com compaixão, e firmeza ao mesmo tempo. Tornara-se rapidamente Secretária de Defesa, quando meu pai notou seu comprometimento e sua habilidade em gerenciar conflitos diários que acometiam o local. Segundo os relatos dele e de Silvia, nem sempre aquele lugar tivera a paz conhecida por nós. Otávio mencionara algo a respeito, mas ouvir era uma experiência totalmente nova. No prédio da Mediação (ou Diretório), o clima era muito mais formal do que eu esperaria. Não havia muitos funcionários por ali, então a quantidade de salas e lâmpadas acesas parecia um desperdício de espaço e recursos, considerando a aparência requintada do local. A sala de Silvia, em contraste, não era lá muito requintada. Mas eu tinha certeza de que seu peso de papel no formato de um pinguim de vidro, não era tão interessante. Mesmo assim, o estava encarando há vários minutos, num devaneio vertiginoso. Era como estar desconectada do meu corpo, absorvendo o estresse dos últimos acontecimentos, e tendo sérios problemas em lidar com aquilo. O pior durante aquele momento era admitir que eu parecesse afastada de mim mesma, daquela nova Victoria que eu havia me tornado. Ela sim poderia ajudar a solucionar aqueles problemas, ela poderia fazer algo sobre o clima de hostilidade e desconfiança que ameaçavam nossa convivência com aquele povo. Todos os meus amigos concordaram em tentar de verdade, fazer parte daquele povo. E isso incluía mudanças. Mas eu jamais poderia voltar a ser a antiga Vicky, com TOC e problemas de confiança. Aquela adolescente delicada e cheia de frustrações amorosas não saberia lidar com o mundo como eu o conhecia, agora. Eu não podia voltar atrás. Regredir seria entregar-me ao erro, e à morte. Ana cometera este erro. As atitudes necessárias neste mundo a destroçaram, a fizeram ruir em dúvida. Isso não podia acontecer de novo. Em nome dela, eu devia ser melhor.

– Victoria? Está me ouvindo? — Papai chamou-me, outra vez. Sentada de frente para Silvia, ergui a cabeça em sua direção. Ele estava de pé, atrás da cadeira dela. Diogo o imitava, mas atrás de mim. Ao meu lado, Nanda sentara-se de maneira pouco confortável, torcendo as mãos de nervoso. Ela estava com medo do que iríamos ouvir. — Silvia disse que precisa da sua ajuda.

– Perdão, é que acabei distraída pelo seu pinguim. É lindo. — Apontei para a ave de vidro e Silvia concordou, com uma risada curta deixando seus lábios.

– Pode levá-lo para o seu dormitório. Eu tenho muitos. Os colecionava antes de vir para cá, e os trouxe comigo. Certas coisas ficam conosco, e não podemos simplesmente desapegar. Acho até que, mesmo que não os tivesse me lembraria deles todos os dias. É assim com as pessoas também. Quando nos deixam, não vão realmente embora. As partes de que não desapegamos se prendem aos nossos pensamentos. — Suspirando, ela relaxou em sua cadeira, apoiando o queixo em uma das mãos. — As coisas estão estranhas, desde o ataque no hospital. As pessoas andam nervosas, pensando sobre quem será a próxima vítima. Um dos soldados abriu a boca, e agora todos temem que Fernanda tenha assassinado nossa prisioneira a sangue frio, com a intenção de ocultar alguma coisa. — Ela ergueu a mão, quando minha amiga empertigou-se para falar. — Sei que não foi o caso, minha querida. Allan foi enfático em seu relatório, e eu confio no julgamento dele. A natureza dos poderes transgênicos é desconhecida, são águas não navegadas. Isto é o que torna vocês duas tão especiais.

– Se você acredita que não somos responsáveis por esses crimes, e que não desejamos tomar a Fortaleza ou algo do tipo, então porque não diz isso a eles? — Fernanda manteve seu tom de voz baixo, mas sua dúvida era justificada.

– É o que pretendo fazer agora, e desejo que me acompanhem. Neste momento os Zeladores estão organizando um pequeno tablado no Pátio Central, e todos os moradores estão sendo liberados de suas funções para ouvirem minha declaração. Vou esclarecer o que houve no Hospital, e na Prisão. Não devem existir dúvidas perigosas entre nós. Com vocês duas ao meu lado, eles verão que não devem se preocupar com os boatos falsos que cochicham por aí. Vamos combater o terror psicológico destes criminosos com inteligência. Cedo ou tarde eles serão forçados a agir, se nos virem fortalecidos. E então, Allan poderá pegá-los. — Compreendi o plano. Fazia sentido, mas eu temia que se forçasse a mão de pessoas inescrupulosas, poderia descobrir que não é essa a melhor forma de lidar com aquela situação. Contudo, não podíamos recusar. Seria suspeito, e contraproducente. Se Silvia tinha mesmo a intenção de amenizar aquilo tudo, o mínimo que eu podia fazer era ajudar. Senti a mão de Diogo sobre o meu ombro, e percebi que ele também havia decidido. Concordei com a presidente, apenas para encontrar Nanda sorrindo em minha direção, acanhada com a expectativa.

Deixamos o prédio menos de sete minutos depois, apenas respirando por tempo suficiente para combinarmos nossas posições. Ficaríamos as duas meramente paradas atrás de Silvia, enquanto ela se comunicaria com o povo por nós. Eu falaria apenas se fosse solicitada a tal, e devíamos permanecer sorridentes e educadas. Diogo não subiria no palanque conosco (ele não era muito carismático, ou visualmente acolhedor), e devo dizer que isso o deixou aliviado. Mais até do que eu esperava. Prometendo que permaneceria de olho em nós, nos deixou com meu pai e Silvia, enquanto as pessoas começavam a circundar o local, junto da noite que já descia sobre o dia fúnebre. Simplesmente rezei para que aquela estratégia funcionasse, e um estranho ímpeto rugiu no fundo do meu peito, tornando o gesto de me manter de pé muito mais fácil. Cruzei os braços com firmeza, reconhecendo rostos familiares na multidão. Carol, Cecília, Dante com os gêmeos... Até Hugo estava por ali, usando terno e gravata. Faye também surgiu com uma expressão confusa, acompanhada de Helena e um novo estagiário. Outros Conselheiros espalhavam-se pelo local, todos muito surpresos com o comunicado surpresa. Silvia ergueu um dos braços, e os burburinhos cessaram. Ninguém parecia sequer suspirar, enquanto sua líder se pronunciava.

– Boa noite a todos. Creio ser necessária uma pequena conversa, com o objetivo simples de esclarecer alguns fatos ainda obscuros, por enquanto. Sei que todos devem estar cansados de seus afazeres, e que desejam uma refeição maravilhosa preparada pela equipe de Tássio para nós. Mas antes, e registro aqui que serei breve, ouçam-me por gentileza. — Ela uniu suas mãos atrás das costas, numa postura humilde e ereta, muito bem pensada. — Primeiramente, digo a vocês com toda a certeza, que o atentado que ceifou a vida de Valentina Cortes, não teve qualquer ligação com o grupo de recém-chegados. Essas pessoas tiveram uma trajetória difícil, e já passaram por coisas que sequer imaginamos. Dois deles foram seriamente feridos, sendo os alvos iniciais do ataque. A Secretária de Defesa morreu, cumprindo o seu dever e protegendo a vida de dois cidadãos da Fortaleza. Nossos irmãos e iguais. Se tivermos que culpar alguém pelo que houve, esse é Orlando e sua filosofia deturpada de que transgênicos devem ser exterminados, e de que não podemos compartilhar o que temos com outras pessoas. Foi sob o comando dele que vivemos um pesadelo do qual todo morador desta ilha deve recordar-se bem. Ele deixou dezenas de embarcações morrerem em nossa costa. E traiu nossa confiança e a da Doutora Keiko, que muito o admirava. Essas pessoas não têm nada a ver com isso. — Seu olhar na direção da multidão, tornou-se mais leve. — Tendo isso em mente, convido todos à reflexão. Pensem bem sobre o que escutam. E fiquem vigilantes. Reportem qualquer atividade suspeita, e não saiam juntos depois do anoitecer. Permaneçam alertas, e...

Uma pedra de tamanho considerável passou zunindo pelo meu rosto, atingindo o de Nanda com cruel impacto. Minha amiga desequilibrou-se e caiu de joelhos, desnorteada pela agressão inesperada. Silvia virou-se em sua direção, os lábios abertos num terror mudo. Meu pai estava gritando ordens para os sentinelas, enquanto eu aproximava-me correndo de Fernanda. Amparei-a pelos ombros rapidamente, tentando fazer com que focasse sua visão em mim. Apesar de sangrando, o ferimento em sua têmpora era pequeno, e minha amiga não parecia exatamente aflita. Apenas surpresa. Seus olhos estavam marejados, enquanto ela tentava levantar o corpo. Sem pedir permissão puxei minha amiga para longe do palco, quando senti um segundo movimento vindo em minha direção, de um ponto totalmente diferente do anterior. Nervosa, agarrei a pedra jogada em minha direção, com uma fúria inesperada. Todo o tumulto paralisou, quando viram o que eu havia feito. O pedregulho era um pouco maior que a palma de minha mão, mas não precisei de muito esforço para esmigalhá-lo como se fosse um pedaço de pão duro.

– Talvez o recado da presidente Silvia não tenha sido claro. Ela pode ser gentil demais para dizer isso, mas vocês têm razão em nos temer. Se alguns de vocês ainda pensam que os transgênicos não são dignos de confiança e merecem morrer, adivinhem: Não vamos morrer sem lutar. E para a pessoa doentia que nos atacou, e que matou Valentina, meu aviso é mais direto. Vou te achar. E então, não vai ter um desgraçado nessa ilha que consiga te salvar de mim! — Eu estava gritando, mas não queria parar. Era bom finalmente ver o terror e o respeito nos olhos de todos. Até dos meus amigos.

– Vicky? — Nanda chamou, desconfiada.

– Quem? — A palavra saiu antes que eu pudesse detê-la. — Ah! É claro que sou eu, Nanda. — Em pânico, percebi que não tinha certeza absoluta, segundos atrás. Por sorte, meu pai e Diogo estavam logo ali antes que eu pudesse formular uma teoria adequada ao meu problema, e os sentinelas já dispersavam a multidão apavorada. O jantar seria mesmo interessante.

– Isso é uma droga de desastre. — Resmungou Silvia, caminhando ao meu lado com urgência. — Malditos radicais. Será que não se contentam em ter comida e um teto?

– Acho que eles não ligam de verdade para o que defendem. Só querem o poder, e usam essa balela como desculpa. — Rebati, cheia daquele assunto. — Agora, alguém realmente agiu sem pensar. Como alguém na multidão não viu o agressor?

– É possível que ele tenha sido visto e protegido. — Lembrou-me papai, entrando no Diretório com Diogo e Nanda. Do lado de fora, as pessoas começavam a caminhar na direção dos Alojamentos e Refeitório.

Foi quando o primeiro grito encheu a noite. Uma mulher, cuja voz eu não reconhecia, exclamou em agonia. Logo em seguida, dois disparos secos foram ouvidos ao longe, e meus sentidos encheram-se de terror. Concentrando-me, debrucei sobre a mesa de Silvia, apoiando as mãos contra a superfície metálica do móvel. Meus braços tremiam com a energia vibrando ao redor do meu corpo. Nora queria voltar. Ela temia por minha segurança, apenas porque eu estava morrendo de medo. Subconsciente ou não, aquele suspense eterno e as jogadas no escuro estavam acabando comigo. E, independente do que estivesse acontecendo, eu não estava preparada para perder mais ninguém. Mas a verdadeira e cruel questão era que eu tinha a certeza de que minha opinião não tinha importância alguma, àquela altura. Preparada ou não, minha única escolha era seguir em frente. Sem vacilar, sem esmorecer. Sem respirar. Pois, diante de cada gesto mal sucedido, uma nova e terrível reação se apresentava. Sobreviver a elas ou não, dependeria do quanto eu estaria disposta a sacrificar. E para esse questionamento, eu não tinha qualquer resposta.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Parece que as coisas definitivamente não estão tão bem quanto antes. Alguém arrisca adivinhar o que vai acontecer? Alguém possui uma sugestão? Aproveitando que a Fortaleza tem dezenas de cidadãos dos quais não falei nada, se alguém quiser criar um personagem e me enviar, fique à vontade. É só criar um nome, uma história prévia básica de acordo com a história, e descrever a aparência. Prometo cuidar bem de suas criações. Mesmo no caso de adaptar alguma coisa. Bem, é isso. Até a próxima, galera! Kisses by DroppingPieces!