Quebranto.

91 Cântico Letífero.


Notas iniciais
Um capítulo vermelho...

Manuela.

A respiração de Guilherme era firme, mas o ritmo marcante emitia uma falha conhecida. Certa exaustão reprimida, que os homens buscavam ocultar das mulheres em momentos como aquele. Sentada sobre ele, senti seus braços firmes ao redor da minha cintura, e meus cabelos desordenados caindo sobre meu ombro úmido com o suor, que se tornava cada vez mais frio em contato com o vento do ar condicionado. Ele beijou-me novamente, a ponta de seu nariz tocando levemente a parte inferior do meu queixo. Meu sobressalto rompeu a preguiça característica do ato, e finalmente separei nossos corpos, levantando-me da cadeira e arrumando meu vestido com as cores da Organização, abraçando-me enquanto esperava até que Guilherme estivesse recomposto. Todos estavam fora, para o pronunciamento de Silvia. Nós dois, ao contrário, havíamos encontrado coisa melhor para fazer. Mas eu temia que tivesse ido longe, e rápido demais. Fazer sexo com ele sempre fizera parte dos meus planos, mas era um movimento arriscado. Ele poderia dar-se por satisfeito, e não mais render sua atenção a mim. Ignorar-me completamente, como apenas mais uma das suas conquistas. Assim como Ricardo fizera, em tese.

– Manuela... Você está bem? Parece arrependida. — Bem observado. Embora não pelos motivos certos. Ele não tinha ideia do quão indiferente era para mim.

– Não costumo fazer isso com quem acabo de conhecer. — Não antes que me paguem, eu devia ter dito. Reservei este detalhe para mim. — Mesmo assim, não estou arrependida. Você é incrível, Guilherme. — Aquilo pareceu alegrá-lo, já que sorriu e aproximou-se. Suas mãos tocaram as minhas, e senti-me estranhamente desconfortável, como se aquilo fosse errado de alguma forma.

– Obrigado. Você é maravilhosa, também. Acredite, não sou o tipo de homem que engana as mulheres. Espero conhecê-la melhor, e que possamos aprofundar nossa... Relação. — Ele parecia envergonhado. Minha perspectiva mudou na hora. Ele era tímido, e estava sentindo-se de alguma forma, comprometido. O último romântico do mundo, e uma ex-prostituta. Pobre Guilherme. — Por favor, permita que eu passe o resto da noite com você. Podemos conversar no topo dos Muros, e olhar o mar. Podemos comer juntos. Eu gostaria muito.

– Eu ficaria muito feliz, Guilherme. — Toquei seu rosto com uma das mãos, respirando profundamente o ar pesado da sala de Arquivos encerrados. Abaixei-me, e peguei o volume de Orlando, que eu não conseguira guardar apropriadamente, mais cedo. — Só preciso arrumar a sala, ou Renée vai me expulsar das funções.

– Tudo bem. Espero do lado de fora. — Ele deteve-se por um momento, na porta. — Não me lembro de termos derrubado um dos arquivos. — Confuso, ele apontou para a pasta na minha mão. Sorri.

– Suponho que isso seja um bom sinal. Outro indício de que somos bons, juntos. — Dessa vez, os dois riram ao mesmo tempo.

Com o coração acelerado e a mente agitada, abri o arquivo de Orlando sobre a escrivaninha apertada contra a parede, e retirei as três últimas folhas. Enfiei todas no decote do vestido, e rapidamente devolvi o documento ao seu lugar, saindo do ar abafado e cheirando a sexo, desejando que ninguém mais resolvesse usar o cômodo até o dia seguinte. Em silêncio, nos dirigimos até a aglomeração no pátio central, onde avistamos o palanque de Silvia, que ela utilizava para comunicar-se com os moradores da Fortaleza. Meu olhar cruzou com o de Vicky por um breve instante, e não consegui definir muito bem o que pudesse estar passando pela sua cabeça, mas tive certeza de que aquelas palavras vindas da presidente, eram algo grande. As pessoas tendiam a ouvir seus líderes, naquele novo mundo. Mesmo as que nunca tinham visto como era de verdade, o novo mundo que a ambição delas havia criado. Para mim, a maior parte daqueles tolos jamais saberiam como sobreviver sem o auxílio dos Muros e dos sentinelas. Não demorou muito até que Hugo viesse na minha direção, acompanhado de perto por Dante e Cecília. Os três pareciam nervosos por algum motivo, que eu desconhecia. Puxando Guilherme pela mão, não me importei em incluí-lo no assunto. Seria apenas mais um teste de suas reações.

– O que houve com vocês, galera? Cecília está pálida — apontei nervosa. Procurei ao redor, tentando encontrar alguma figura suspeita nos arredores. Nada.

– Estou me sentindo muito mal, Manuela — confessou-me Cecília, com uma mão sobre o peito. — Uma sensação estranha e realmente difícil de interpretar, desde que me tornei humana outra vez. Se eu soubesse que nosso inimigo seria invisível, não teria aceitado uma cura.

– Não se culpe querida. Vamos cuidar de você. — Apesar de garantir que cuidaria de Cecília, eu não sabia bem se realmente era ela quem precisava de proteção.

– Silvia está fazendo um ótimo trabalho. — Guilherme parecia aprovar, enquanto observava seus colegas que escoltavam a presidente, Nanda e Vicky. — Hugo, está tudo bem? Você parece confuso.

– É impressão minha, ou já vi o mesmo garoto passando por mim por três vezes? Acho que estou sendo seguido. — Mesmo com urgência, a voz de meu colega parecia um mar sereno, um lago profundo e escuro. — Não reparem, mas acho que não estamos exatamente seguros na multidão. Vamos nos separar.

– Guilherme, leve Cecília para um lugar seguro. Por favor. — Pedi. — Vou com os meninos até os dormitórios. Parece mais seguro se ficarmos lá até o pronunciamento acabar.

– Por alguma razão, quem não conseguiu me matar antes está tentando de novo. — Hugo trocou um olhar de entendimento com Dante. — Vamos sair daqui.

Foi quando uma pedra de procedência desconhecida acertou o rosto de Nanda. As coisas saíram do controle enquanto todos começavam a empurrar uns aos outros nos mais variados destinos. Dezenas de corpos moviam-se como um único corpo pulsante, que se contorcia e espalhava-se como formigas em pânico. Perdi Guilherme e Cecília de vista, mas vi Otávio passando ao lado de Faye, com Helena e Martha. Mantive-me próxima de Hugo, sabendo que ele avistara novamente seu perseguidor, já que aumentara o seu ritmo. Ao contrário do que eu poderia esperar, no entanto, ele não seguiu direto para os Alojamentos, mas para o Quartel, nos Muros. O lugar estava deserto sem os sentinelas, o que me permitiu elucidar as razões de meu amigo. Ele e Dante estavam atraindo nossos agressores. E eu, sem saber de qualquer parte do plano, estava perdida no meio daquilo. O pátio central e o barulho do burburinho ficaram para trás rapidamente, enquanto um silêncio oco incentivado pela noite cheia de neblina mantinha-se, independente e pouco humilde. Demorou um pouco até que eu percebesse que não fugia de um fruto da imaginação dos meus amigos. Quando notei um homem com touca de ninja vindo em nossa direção de maneira despreocupada, entendi a gravidade daquele momento. Por que Hugo, outra vez? Apertei a mão de Dante, atraindo seu olhar. Ele identificou o homem e apressou os passos. Minha boca estava seca apesar do frio, e meu peito ardia com a urgência da caminhada. Hugo seguia em frente, sem interromper sua marcha. Entramos na estrutura interna dos Muros, passando direto pela recepção deserta. Quem seria louco o bastante para matar alguém ali, por Deus?

– Temos que ser rápidos, e chegar ao topo dessa coisa. Lá em cima, com certeza vamos descobrir quem esses caras... — Hugo perdeu-se no fim da frase. Com os rostos próximos e as bochechas vermelhas, Ricardo e João Pedro pareciam afoitos. Até mesmo, envergonhados. Ótimo. Estavam escondidos ali, enquanto deveriam cuidar dos pacientes no Hospital. Emburrei a cara para Rico, mas fiquei feliz que ele estivesse agarrando outra pessoa. Hugo cobriu a boca com uma das mãos, ocultando uma risada que não veio. Aquilo era mesmo muito inusitado. — Ricardo?

– Hugo. — Ele rebateu, com os olhos arregalados. — Isso, nós dois...

– Ricardo, me escuta. Isso não é importante. Aquelas caras com máscaras de ninja estão vindo e estão atrás de mim. Vocês dois não deviam estar aqui. Agora precisam vir conosco. — Olhei para trás enquanto Hugo falava, divisando não um, mas três assassinos, todos vestidos de preto.

– Não precisa falar duas vezes! Para o topo dos Muros! — Puxando a marcha, João Pedro seguiu em frente, livre de qualquer embaraço anterior. A sobrevivência dispensava formalidades. Ele subiu as escadas na frente, liderando o caminho em espiral para o topo da estrutura gigantesca, após passarmos direto pelas áreas de treinamento e pela sala de vidro de Allan.

– Então nós dois estamos bem? Você já me perdoou pelo que eu disse? — Ricardo estava arfando, enquanto interrogava seu primo. Eu e Dante nos olhamos, e percebi que ele não gostava nada daquilo.

– É claro, Rico. Eu nunca vou ficar com raiva de você por muito tempo. Agora, por favor, continua correndo! — Os dois primos riram, e senti-me uma intrusa naquele momento. A química entre os dois era inegável, principalmente quando livre do peso que a relação deles trazia ao campo. Eram agora só dois amigos, só duas pessoas que se conheciam como nenhuma outra poderia. Eu quase senti pena de Dante, por ter de lidar com um término tão complicado.

– Estamos encurralando nossos agressores, ou a nós mesmos? — Não resisti, e perguntei.

– Tem armas lá em cima. Vamos ver os rostos dos desgraçados. — Dante confidenciou-me, num sussurro.

Chegamos ao topo dos Muros, realmente. Ali, o ar era muito mais gélido do que embaixo, entre os prédios e a proteção de sua envergadura. O ar marítimo chicoteava as pedras lisas, em rajadas fortes que pareciam capazes de nos derrubar com seu poder e determinação. Esquivando-me das mãos invisíveis que governavam o alto dos Muros, apoiei-me contra uma das paredes, enquanto os rapazes armavam-se de materiais de treino dos sentinelas. Dois tacos de beisebol, uma pistola e um porrete de madeira. João Pedro chegou perto de mim, e nós dois recuamos, enquanto Dante e Ricardo montavam guarda ao lado da passagem pela escadaria que havíamos utilizado. Foi quando senti o chute na minha canela, e desmontei para frente, desequilibrada pelo golpe surpresa. Atrás de mim, um dos homens não perdeu tempo e chutou uma das minhas costelas. Outro deles agarrou João Pedro, e o arremessou contra a parede. O médico bateu o rosto contra a pedra, e desmontou de forma mais inútil do que eu. Gritei enquanto me virava para cima, tentando segurar os braços firmes do homem sobre mim. O cheiro de tabaco forte inundou minhas narinas, enquanto a criatura de corpo magro fazia pressão para render-me. Outro deles lutava com Dante, tentando esfaqueá-lo enquanto meu amigo desviava das ofensivas e tentava desarmá-lo com um porrete de madeira. Hugo apontava uma arma contra o único deles que viera pela escada. O que lutava comigo ergueu-me, pondo uma lâmina curta contra o meu pescoço. Meu amigo imediatamente abaixou o braço, e foi recompensado com um chute perverso que lhe acertou o estômago em cheio. Hugo rolou para trás, mas percebi que Ricardo estava recuperando-se de um golpe, a boca sangrando enquanto levantava-se. Seu olhar encontrou o meu, e soube que ele defenderia Hugo independente das consequências sobre minha vida. Consenti, concentrando-me em agir na hora certa. E eu soube quando ela veio.

Ricardo pulou contra o homem que se curvava sobre Hugo, e eu pisei firme no pé do homem que me detinha, rolando com ele para o chão. Seu braço falhou bons centímetros em acertar o meu pescoço, mas um corte profundo abriu-se em meu vestido, rasgando minha pele de modo superficial, ainda que profundo como a unha de um gato de rua. Sem escolha a não ser tentar matá-lo, agarrei sua mão e a mordi com força, até sentir meus dentes afundarem na pele e o gosto do ferro na boca. Um punho fechado acertou o meu rosto, e rolei para o outro lado. Com seu porrete, Dante acertara a cintura do seu adversário, mas o mascarado o havia dominado quando ele se distraíra com a queda de Hugo. Agora, Ricardo e um dos assassinos lutavam pela arma do rapaz, que por sua vez fazia o possível apenas para respirar, recuperando-se do chute terrível que levara. É estranho como as situações de perigo soam rápidas, ágeis. Como cenas num filme de ação, ou horror. Mas quando se tem o pânico e a adrenalina dançando uma valsa nas veias, tudo é lento demais. Como um ensaio de balé clássico, corpos se movem numa sinfonia inexistente, infértil. Sem esperar qualquer retorno. E num simples segundo, um fio de seda se quebra, partindo para sempre. Um fio de teia que segura nossas vidas, e por vezes favorecendo com que percebamos a alusão extremamente fiel, no que diz respeito à facilidade com que é rompido o pulsar em nossas veias. Os batimentos em nosso coração. Como um cântico letífero que se encerra, marcando um momento de júbilo ou pesar. Quando vi a mão que se fechava sobre a pistola de Hugo, soube. Aquele dia seria uma daquelas ocasiões. Ricardo e o bandido brigaram por mais alguns momentos, e então o som de disparos gêmeos encheu a noite. Levado pelo topo da Fortaleza com o vento, ele desceu sobre a multidão lá embaixo como um véu. Gritos vieram debaixo, o medo e a dúvida crescentes turvando minha visão.

Aí Hugo gritou. Piscando com o choque, Ricardo abriu os braços sobre o solo frio, dois pontos vermelhos em ascensão, manchando sua blusa e seu jaleco com a essência rubra de seu clamor. Os sons dos passos de nossos agressores ecoaram para longe, enquanto eles fugiam satisfeitos. Graças a eles, mais nenhum de nós morreria naquela noite. Não depois dos tiros. Zonza, reconheci a sombra de João Pedro, que se erguia após ter fingido a própria inconsciência para defender-se. Se aquele covarde estivesse no meio daquilo, então era um ótimo ator. Dante correu para Hugo, abraçando-o contra a incoerência que se expandia através dos gritos e convulsões do menino. Ricardo tossiu e sangue escapou pela sua bochecha. Olhando de longe, não me atrevi a uma aproximação. Não depois de tudo o que acontecera. Mas ele era um de nós, independente dos seus defeitos. E aquilo não ficaria impune. Não podia ficar. Hugo abraçou seu primo, as mãos, os braços e o rosto sujos de sangue. Traumatizado, ele beijou os lábios pálidos de Ricardo pelo que seria a última vez, e deslizou os dedos pelos cabelos loiros. Daquela vez, mais escuros do que eu jamais vira. Os olhos verdes perderam a pouca luz que retinham, e a luz nos olhos de Hugo apagou-se também. Ele rendeu-se ao abraço de Dante, apático e completamente fora de si. Fitando o corpo à sua frente, parecia alguém totalmente incapaz de acreditar no que via. Alcancei-o pouco depois. De pé, coloquei a mão em seu ombro, apertando de leve. Não obtive qualquer movimento como resposta. Sons vieram das diversas escadarias que levavam ao Quartel, e sentinelas tomaram a cena rapidamente. Entre eles, Guilherme. Ele abraçou-me e chocado, chamou por Victoria. Minha amiga já estava chorando de longe, quando viu o estado de Hugo. Sem acreditar, encontrei lágrimas até mesmo nos olhos de Carolina, que pegou minha mão e abraçou-me. Aliviada por me ver bem, ao que parecia. Allan estava transtornado, a gravata quase solta em seu pescoço. João Pedro e Dante começaram a retirar Hugo do local, e eu fiquei para trás. Provavelmente era a única em condições de esclarecer o que tinha ocorrido. Embora eu não me visse exatamente propensa a ser de grande utilidade naquele instante. Mas um amigo (se eu podia chamar Ricardo daquela forma) estava morto. Valesse ele à pena ou não, aquilo era uma questão de justiça. E, quando puséssemos as mãos naquele inimigo invisível, tinha a certeza de que Victoria o faria amaldiçoar o dia em que decidira fazer mal a um de nós. E, apesar da tentativa frustrada e de mais uma derrota, sabia que estávamos cada vez mais perto de achá-lo. Toquei o papel escondido em meus seios através do pano, o corte em meu busto quase esquecido. Antes de deixar que alguém costurasse aquilo, precisava esconder aqueles papéis. Se a pessoa responsável por coordenar aqueles ataques descobrisse meu envolvimento com os arquivos de Orlando, então a morte de Ricardo seria apenas a primeira.

– Você consegue conversar com a gente? — Vicky indagou, com os olhos inchados depois de chorar.

– Quero esses desgraçados mortos. Então sim, eu consigo — rebati. E soube que era a mais simples verdade.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Quer dizer... Que não tenham, hehe. Até a próxima, morceguinhos. Alguém com raiva do vilão misterioso? kkk