Quebranto.

18 Estilhaçados.


Notas iniciais
Espero que gostem do novo capítulo!!!

:3

Otávio.

Por incrível que fosse, conseguimos fugir. Eu ainda estava um tanto surpreso por não ter sido morto, por ter encontrado a família de Ricardo, e por termos conseguido escapar da mansão Shepard. Era tanta surpresa, que quase não registrei quando vi Eloá, com os olhos cheios de lágrimas, abrindo o pequeno portão de madeira improvisado no meio da nossa barricada. Havia apenas dois zumbis ali em cima. A maioria ficara para trás, em meio à subida, os becos e as vielas do morro. Pela primeira vez na vida, considerei-me sortudo por morar em uma favela. Imaginei que em lugares como a Rocinha, o Morro do Alemão, ou até mesmo o Dona Marta, a coisa não estivesse tão ruim. Traficantes, policiais, moradores, outros grupos de sobreviventes poderiam ter resistido, e assim como nós aguardavam por uma chance. Por esperança. Minhas reflexões foram interrompidas quando o Meriva parou com um solavanco. Ao meu redor, senti que todos respiravam fundo, antes de descer. Principalmente Luca. Ele, mais do que todos, parecia conscientizar a si mesmo, de que perdêramos Victoria. Pessoalmente, eu me sentia infinitamente pior com a morte dela, do que com a de qualquer outro. Mesmo que todos nós estivéssemos unidos, como uma família, o sentimento por aqueles que haviam vivido os últimos três anos diariamente comigo, era incomparável. Quando pisei no asfalto maltratado e poeirento, meus pés vacilaram. Cansados e adormecidos pela tensão da viagem entre os mortos, me obrigaram a apoiar na lataria do veículo, para não cair. Ao meu lado, Madeline desceu do carro e me fitou com um sorriso fraco, colocando a mão em meu ombro. Ela provavelmente julgara que minha expressão dolorida se devia à morte de minha amiga, e não à dormência em meus pés.

Caminhamos até o centro do refeitório, local que ficava no centro do acampamento. Lá, Eloá e Rafael nos esperavam, junto com Vilma e Dino. Os gêmeos pareciam felizes por nos ver, mas estavam um pouco bagunçados, como se tivessem chorado recentemente. Eloá estava evidentemente emocionada. Seus cabelos curtos e disformes espetando para todos os lados. Lembrei-me de quando ela os cortara com uma faca, ao ser agarrada por um errante. Era nossa melhor lutadora. Ao nos aproximarmos, corri para abraçá-la, sendo apertado com força, em resposta. Rafael também me abraçou, comprimindo meus ossos. Vilma me deu um beijo na bochecha, e Dino agarrou-me pelo pescoço, rindo. Mais atrás, os outros chegaram logo depois, cumprimentando os quatro. Rafael estacou ao se deparar com nossos novos moradores, e ao notar a ausência de Vicky. Com certeza El devia estar naqueles dias, pois sua sensibilidade (sempre tão camuflada) estava aflorada in extremis. Sem precisar de qualquer palavra nossa, ela já estava chorando bem antes que Luca contasse o que havia acontecido.

— Vicky não conseguiu. – falou Ana, respirando fundo em seguida. – Ela tropeçou enquanto corríamos de uma horda. – Rafael fechou os olhos, compreendendo o cenário. Vilma começava a lacrimejar ao meu lado, e me senti corar quando ela escondeu o rostinho na minha barriga, soluçando. Dino ficou rígido, com uma expressão vazia. Estava bloqueando os sentimentos. Só podia ser um péssimo sinal. Primeiro havia perdido o irmão, agora teríamos que impedir que ele perdesse sua humanidade. Mas não naquele momento. Mesmo eu tinha dificuldades em achar a minha.

— Nos encontramos quando seus amigos invadiram minha casa. – contou Hugo. – Eu sou primo do Ricardo, e esta é a mãe dele. – ele apontou Madeline, que acenou para Eloá. – Trouxemos as bombinhas de oxigênio que a amiga de vocês precisa. Como nosso esconderijo estava comprometido, eles nos trouxeram junto. Acabamos reencontrando meu primo, apesar da tragédia da perda de vocês. Eu e minha tia sentimos muito.

— Não precisa falar por mim, querido. – declarou Madeline, caminhando até Rafael. – Sou Madeline Shepard. Um dos jovens poderia me acompanhar até meu filho, e a menina doente? Esta velha precisa descansar as pernas. Fiquei tensa o caminho inteiro, vendo o cenário caótico em que minha querida cidade mergulhou. Foi um tanto chocante, se me permitem.

— A primeira vez sempre é. – disse Rafael, suas feições se suavizando. – Venha, senhora. Vou levá-la até seu filho.

— Eu vou junto. — falei. Na verdade, eu precisava ir, uma vez que a bolsa com as bombinhas e os suprimentos médicos estava comigo, atravessada em meu peito.

— Vamos os três. Estou morrendo de saudades do Rick. – anunciou Hugo, sorrindo.

Seguindo Madeline e Rafa, que caminhavam de braços dados, permiti-me sorrir comigo mesmo, imaginando que onde quer que esteja minha irmã ficaria feliz em ver Nanda bem. Hugo, que estava ao meu lado, parecia admirado com nosso acampamento. Entrar no terreiro depois dos últimos dias, foi reconfortante. Os sentimentos de dever cumprido e de alívio por estar seguro, se inflaram em meu peito. Mesmo o cheiro de defumador, ainda persistente mesmo após a morte de Jeanette, me confortou. A sala dos leitos estava fechada, e quando Rafael a abriu com cuidado, encontramos Ricardo medindo a pressão arterial de Fernanda, os olhos vermelhos pelas noites em claro. Seus cabelos levemente grisalhos estavam bagunçados, bem maiores do que o corte militar de quando nos conhecêramos. Seus músculos também pareciam ainda maiores, pelos exercícios que matar zumbis e correr deles, proporcionavam. Até eu havia emagrecido. Meus quilinhos a mais de antes do Apocalipse, me davam saudade, de tanta fome que eu havia passado nos últimos meses. Nosso líder desviou o olhar de Nanda com o movimento ao redor, e me focalizou. Seu rosto instantaneamente se transfigurou em um sorriso profundo, e ele se levantou de um salto. Enquanto vinha na minha direção, paralisou no meio do caminho. Madeline entrava na sala, acompanhada de Hugo. Ao ver o filho, ela também ficou parada, observando. Ao ver o primo, Hugo segurou a mão da tia, os olhos marejados. A idosa já chorava, aliviada por encontrar seu rebento. Nosso médico-dentista correu para abraçá-la, em um aperto sofrido e libertador. Ele beijou os cabelos de Madeline, e ela o deu pequenas tapinhas na bochecha. Ricardo secou os olhos. Logo fitou o resto dos presentes, e reconheceu Hugo. Levei um esbarrão do gótico, quando ele correu para abraçar o primo. O que me deixou mais chocado, não foi o excesso de carinho entre eles. Foi o beijo que trocaram. O corpo evidentemente maior de Rico, pareceu se encaixar no abraço de Hugo. Eles se beijaram, e notei que Madeline desviou o olhar, constrangida. Eu não podia culpá-la, e nem a eles. Provavelmente, aquela polêmica já devia ter sido debatida em família, e não seria eu quem me intrometeria. É claro que tive que me segurar para não rir, ao ver o choque estampado na cara de Rafael, que estava literalmente de boca aberta.

Com uma mão na cintura de Hugo e outra no braço de Madeline, Ricardo me fitou com um sorriso esbaforido. Tirei a mochila com as bombinhas e entreguei a ele, recebendo um abraço em resposta. Sorri timidamente e o correspondi, me afastando um pouco enquanto ele mexia no conteúdo da bolsa. Aproximei-me da cama onde Fernanda estava deitada, e a encontrei suando frio, lutando para respirar de maneira suficiente. Toquei sua testa com certo receio, tentando passar algum tipo de tranquilidade. Fiquei mais calmo quando Ricardo se aproximou com uma das bombinhas, e colocou-a perto dos lábios de Nanda.

— Fernanda, querida. Acorde. – pediu, e a ruiva abriu os olhos. Ao ver-me, sorriu levemente, sem conseguir falar, no entanto. – Respire devagar, e puxe o oxigênio aos poucos. – ela o obedeceu, puxando o oxigênio levemente no início, mas ao notar o alívio de seus temores, passou a sugá-lo mais e mais fortemente. – Calma, meu doce. Você pode engasgar. – Ricardo largou a bombinha, e Nanda a segurou rente aos lábios. – Logo ela via ficar bem. – disse-me, com a felicidade estampada em seu olhar. – Quando a Vicky me pediu o endereço de casa, não acreditei que fosse dar certo. Mas vocês voltaram, minha família está aqui, e a Nanda vai ficar bem! As coisas estão mesmo melhorando. – o breve momento de ilusão de Rico, despediu-se quando ele notou nossas expressões. – O quê vocês não estão me contando?

— Perdemos a Victoria. – falei. – Ela caiu, e não conseguiu levantar. – olhei para Nanda, que havia parado de puxar o ar. Ela estava chorando, angustiada. – Não se culpe querida. Ela te amava como a uma irmã. Quando soubemos do que estava acontecendo, ela não pensou duas vezes. Não se sinta triste por estar viva, porque essa era a vontade dela. – tranquilizei-a, reconhecendo em Nanda um brilho semelhante ao de minha irmã de criação. Ela também se martirizaria, se alguém a salvasse pagando o preço da vida. – Prometa. – pedi, e ela simplesmente aderiu.

— Vamos fazer algo pra ela. – decidiu Nanda. – Todos os nossos ganham um funeral. Com corpo, ou sem corpo.

— Está certo. Só vamos esperar você se estabilizar um pouco. Depois vou instalar minha família, e amanhã homenagearemos Victoria. Ela merece. Só não vamos deixar que o sacrifício dela seja desperdiçado. – pediu Rico, pesaroso.

Luca.

Naquela noite não dormi muito bem. Eu sabia o quanto o dia anterior seria difícil, e não queria vivê-lo, não queria aceitá-lo. Ficar acordado olhando para o teto, no quarto que eu dividira com ela, me fez sentir velho, um ancião viúvo. Devia ser daquela forma como se sentiam os idosos, quando seu parceiro de tantos anos e tantos momentos, ia embora. Vazios. Perdidos. Estilhaçados. Era como eu me sentia, e como eu sabia que todos se sentiam. Em maior, ou menor grau. Ao menos saber da recuperação lacônica de Fernanda, melhorou meu humor. Deu sentido a todo o sofrimento. Logo ela estaria recuperada, e poderia sair do terreiro. Otávio me contara que ela ficara abalada com a morte de Vicky, mas que ambos haviam conversado. Eu só esperava que ela não se sentisse culpada. Aquilo não seria bom pra ninguém. Também fiquei sabendo, durante o jantar, que Hugo e Ricardo eram um casal. Não que eu tivesse problemas com isso, mas não pude vê-los da mesma maneira. Pelo menos, Madeline não parecia ver problemas no relacionamento do filho. E mesmo que visse, estávamos no Apocalipse, não estávamos? Quem se importava com a opção sexual? Éramos todos carne fresca. Sem distinção. Tive um sono interrompido, perturbado por um filme em flash, que se repetia várias vezes em minha mente. Lembranças da época de escola, dos primeiros dias de infecção, dos meses que se seguiram. E do dia fatídico. Sempre ele...

Eu sabia que não poderia viver lamentando. Por mais que doesse, em algum momento os cacos teriam de ser colados. Sem vontade alguma de acelerar todo o processo, me convenci a sair de casa, quando o sol raiou. Foi mais difícil do que pensei, e quando a luz do sol atingiu meu rosto, sacudindo meus cabelos e o vento marítimo invadiu minhas narinas com seu cheiro de sal, me perguntei como o fim de tudo, podia ser belo. Com passos arrastados e sem um pingo de vontade, caminhei na direção do refeitório, mesmo sabendo que não teria ninguém por lá. Sentei à mesa, e peguei uma garrafa de água mineral exposta em um dos caixotes que deixávamos por ali. Bebi a água morna, apático, sentindo meus rins regozijarem com a vinda do líquido universal. Despertei um pouco mais, quando um ruído estranho se fez ouvi, e dei de cara com Carol. Ele tinha prendido os cabelos, mas a cascata negra ainda brilhava sob o sol. Seu rosto lavado parecia cansada, mas no geral, ela era quem melhor estava lidando com a situação. Talvez fosse aquela entre nós, que mais entendera o mundo em que vivíamos, se desapegando de todos. Por algum motivo imperceptível, me senti levemente desconfortável em sua presença.

— Oi, Luca. – ela estava usando uma camiseta preta, e um short jeans. Despojada, mas bem chamativa. Carolina sempre chamava atenção.

— Oi Carol. – era engraçado pronunciar Querol, ao invés de Carol. Mas ela detestava quando não a chamávamos à moda americana, então aquilo havia meio que virado um consenso. Eu sempre achara uma babaquice, mas o nome era dela... – Está bonita. – falei, sem pensar. Então lembrei que ela era minha ex-namorada, e vi que havia falado merda. Nervoso, preferi desconversar se ela viesse com algum papo estranho.

— Obrigada. Pena que não posso dizer o mesmo. – Uia. Essa havia doído, mesmo sabendo que ela queria meu bem. – Você precisa descansar. Se continuar nesse ritmo, logo perderemos você também. Não esqueça que temos ameaças maiores do que a fome e a tristeza. Mortos reanimados e animais mutantes, esses sim são problemas sérios. Viver vem antes de sofrer, esqueceu?

— Não, não esqueci. Mas obrigado por me lembrar. – aceitei, mexendo nos meus cabelos. Eles estavam quase chegando ao meu ombro. E era Vicky, quem os cortava. Cacete. – Eu preciso dizer que você me surpreendeu. Desde que matou Daniela, nem parece a mesma pessoa. Nem parece que sua melhor amiga morreu...

— Eu sei. Acha que não percebi como Ana e Otto estão me olhando, desde ontem? Aposto que eles ficaram chocados porque não derramei uma lágrima desde que chegamos aqui. Mas sabe, eu realmente prestei atenção no que Madeline disse. Não podemos nos dar ao luxo de sofrer. E eu quero viver Luca. – Carolina estava com os olhos repletos de lágrimas, mas elas não caíram. – Eu matei Daniela, porque ela já estava morta. Não me culpo por isso, por que agi pelo bem de todos. Não tente usar isso contra mim, porque você também deixou Victoria para trás, quando a viu sendo mordida. Sei que é cruel, mas é isso que está te tirando o sono. Não é a dor. É a culpa. – se antes eu estava péssimo, agora queria definitivamente sumir. As palavras de Carol aceleraram meu coração, e me senti tonto. Uma crise nervosa? Talvez. A verdade é que eu não sabia o que estava sentindo. Mas não estava bem. – A culpa está te estilhaçando, mas não devia. Você sobreviveu. Otto, que foi criado com ela, sobreviveu. Ela teria feito o mesmo. Quando você me agarrou pelo pescoço, eu estava tão abalada quanto todo mundo. Depois da noite na mansão dos Shepard, compreendi melhor a mim mesma. Cansei de chorar. Cansei de ser um peso. Se eu não puder ajudar, então prefiro morrer o quanto antes.

— Carol, isso é... Incrível. – eu disse, emocionado. A verdade era que eu precisava lutar com as palavras, para que elas saíssem. – Fico feliz que você tenha se sentido mais forte depois do que passamos. Só que eu ainda não cheguei nessa fase, e nem o pessoal. É pra isso que serve o luto, e acho que você está pulando ele. Não faça isso, você pode sofrer depois... Mas, mesmo que você considere o que estou dizendo besteira, respeite. Eu amava Victoria. Ainda amo. E quero sofrer a perda dela. Madeline não a conheceu. Eu sim. E você, também... Lembre-se disso. – levantei-me, e deixei-a sozinha. Carolina não me seguiu. Ela sentou-se à mesa de madeira, e ficou fitando o vazio, tal qual esfinge.

Otávio.

Quando o fogo se tornou mais forte, posso jurar que senti o calor de suas chamas tocando meu corpo, de modo suave, mas presente. Uma foto de Victoria com sua família, guardada desde o início de tudo, estava na minha mão. Uma pilha de destroços, madeira e lixo estava queimando, erguendo fumaça e mau cheiro contra o céu da tarde. Ninguém falara nada durante o almoço improvisado por Eloá. Fernanda era nossa melhor cozinheira, mas ainda não estava em condições de trabalhar. Sendo assim, comemos biscoitos e frutas secas, algo muito bom, comparado ao que já havíamos comido. Ricardo tomou as rédeas da situação, ao perceber que ninguém estava conseguindo dizer nada. Falou de Victoria como alguém altruísta, que pensava em todos, antes de em si própria. Como uma menina sonhadora, que buscava manter intacta a parte de nós que ainda era a mesma. Alguém que buscava unir o grupo, e ser útil. Uma amiga sincera, que o apoiara quando nem mesmo ele acreditava que podia ser um bom líder. Alguém que deixaria saudades.

O plano era que em seguida, eu queimasse a foto de Vicky, representando seu corpo. Mas no último segundo, meu olhar cruzou com o de Ana, e eu não consegui. Saí correndo do refeitório, na direção da Associação de Moradores. O ex-Centro Comunitário do Trocado era onde Victoria passava a maior parte dos seus dias, e também era isolado da agitação do acampamento, e das barricadas. Entrei na sala que Armando usava quando vivo, como sala pessoal. Ricardo preferia ficar na enfermaria, então o lugar havia meio que sido abandonado. Nunca encontramos outra função específica para ele. Sentei na cadeira giratória do escritório, e enterrei a cabeça entre as mãos. Não me lembro de ter chorado tanto outra vez na vida. Bom, talvez no dia em que eu perdera um trabalho de História de trinta páginas manuscritas, antes de mostrar ao professor. Tirando isso, eu nunca me sentira tão revoltado. Tão derrotado. A mão em meu ombro, e o cheiro de laranja no ar, me fez reconhecer Ana antes que ela se sentasse ao meu lado. Minha melhor amiga estava com um vestido jeans escuro preso por alças finas nos ombros. Parecia bem bonita, embora tristonha. Um lenço de cetim amarelo estava preso em seu pescoço, e percebi que ela se apegara a ele. O estava usando desde a noite na casa de Madeline, onde ela o havia encontrado.

— Sei que não está tudo bem, mas preciso saber: Eu devo me preocupar com você? – indagou-me Ana, um sorriso fraco e incerto brincando em seus lábios carnudos.

— Não amiga. A não ser que eu ache alguma garrafa de bebida. Ai você se preocupa, porque eu posso acabar me afogando... – dramatizei, nervoso.

— Você já tá bêbado antes de beber, palhaço. – caçoou. – É melhor vir comigo, até os outros. A fogueira já está acabando. Todos entenderam que você queria guardar a foto de lembrança, e está certo. Sempre a teremos conosco.

— Eu sei, foi exatamente essa a minha atenção. Nunca vou esquecer o rosto dela, mas na dúvida... – não completei a frase.

— Tudo bem. Quando eu não te apoiei em algo? – Ana me puxou pela mão, me pondo em pé.

— Quando eu quis ficar com a Jaqueline Corrêa no segundo ano, você disse que ela era uma piranha, e que ia me matar se eu ficasse com ela. – disparei, lembrando-a do fato. O meu humor estava infinitamente melhor.

— Ela era mesmo uma piranha. Antes de te dar mole, ela ficou comigo. – com uma piscadela, Ana passou na minha frente, me deixando boquiaberto, para trás.

Passamos por Rafael e Eloá, que ainda contemplavam as cinzas da fogueira. Os dois estavam de mãos dadas, em um clima romântico que dava pena de atrapalhar. Com simples acenos, eu e Ana nos afastamos em direção à nossa casa, vendo Madeline e as crianças no caminho, indo em direção à enfermaria. Quando chegamos a nossa casa, empurrei a porta sem qualquer tipo de entusiasmo. Ana apertava minha mão na dela, em confortando. Caí sobre o sofá, e ela foi buscar uma garrafa de vinho na cozinha. Depois sentou ao meu lado, e bebeu um gole. Eu tirei o vinho da mão dela, e bebi em seguida. Começamos a contar piadas estúpidas sobre o colégio, e a rir sem nenhum motivo aparente. Eu havia bebido mais da metade da garrafa sozinho, e quase não percebi os barulhos no andar de cima. Só os notei de fato, porque Ana se assustou com um que foi particularmente alto. Entreolhamos-nos, sem muita convicção, e levantamos do assento. Subir as escadas pé ante pé, foi mais fácil do que controlar minha vontade embriagada de rir. Ana se apoiou em mim ao tropeçar em seus próprios passos, e abriu a porta do quarto de Nanda. Depois fomos abrindo porta por porta, até nos darmos conta de que o barulho só podia vir do quarto de Luca. E de que ele não estava sozinho. Àquela altura, o álcool em meu sangue já tinha evaporado. Uma súbita raiva me tomou, porque eu reconhecia gemidos de prazer em qualquer lugar. Ana abriu a porta com um único solavanco, e surpreendemos ninguém menos que Luca e Carolina. Na cama. Transando, se o leitor ainda não me compreendeu.

Quando eu me lembro desta cena lamentável, sinto vontade de rir. Assustados por serem vistos, Luca e Carolina puxaram os lençóis sobre si, encolhidos na cama. Minha reação foi tão pífia, que me mantive estagnado, tal qual coágulo sanguíneo. Já Ana, parecia tomada por algum tipo de fúria titânica. Invadindo o quarto como um demônio dos ventos, agarrou Carolina pelos cabelos, a puxando para fora do cômodo. Os cabelos compridos de Carol esvoaçavam na mão de Ana, que a deixou cair sobre o lugar comum entre os quartos. Luca se levantou da cama nu em pelo, e vestiu sua calça jeans. Correndo, me agarrou pelos ombros, desesperado.

— Otto, elas vão se matar, cara! Faz alguma coisa! Me ajuda! – pediu, enquanto Carolina e Ana desciam as escadas em uma briga corporal tão mal executada, que dava pena.

— Vou ajudar. – eu disse, reencontrando minha voz. Eu detestava violência, mas estava bêbado como um porco, e queria descontar a morte de Vicky em alguém. Juntei toda a força e peso do meu corpo no punho, e soquei o rosto de Luca. A força do golpe foi tanta, que um pequeno corte de abriu no lábio inferior do meu amigo. Ele estava chocado com minha atitude. Mas como todos aqueles que sabem estar errados, se ateve a me observar, assustado. – Não me dirija a palavra, seu merda. Três dias, e você já foi comer a Carolina. Você não merecia minha irmã. – saí pisando forte enquanto descia as escadas, e fui correndo para o exterior, ver em que pé Ana e Carolina estavam.

Todo mundo estava olhando. Ana estava com uma alça de seu vestido rasgada, e sem uma de suas sandálias. Carolina estava chorando, enrolada em um lençol e amparada por Rafael, que impedira que ela caísse no chão sujo. Havia muitos arranhões em seus braços nus, e uma fúria vingativa em seu olhar. Um pouco de sangue sujava o pano branco, vindo diretamente do nariz de Carol. Ana era contida por Ricardo, que parecia completamente confuso. Quando eu cheguei, acompanhado por Luca e seus lábios sangrentos, ninguém entendeu nada.

— Ma que porra é essa? – Eloá se manifestou. – O que tá pegando, galera? Fomos dormir na paz, e eu acordo com esse inferno no acampamento! Achei que algum zumbi tinha entrado, ou coisa do tipo! – exasperou-se.

— Expliquem. – pediu Ricardo, pura e simplesmente. Tomei a palavra. Quando terminei de dizer tudo o que havia ocorrido, Ana já estava bebendo água, com Hugo. Ricardo estava limpando os machucados de Carolina, e Madeline já havia colocado as crianças para dormir novamente, com Fernanda.

— Eu não quero me meter no que há entre vocês quatro, mas acho que não deviam colocar o grupo todo em polvorosa, dessa maneira. – opinou Rafael. – Somos todos uma família. As mortes de Tiago e Victoria deixaram isso claro. Não estraguem tudo.

— Se estão tendo problemas, redistribuímos os alojamentos. Eloá pode mudar de lugar com uma das meninas, e Rafael com um dos meninos. Eu só não quero mais espancamentos, ou desordem por aqui. – pediu Ricardo. – A gritaria atrai errantes e animais, principalmente à noite. Por isso, é melhor mantermos o mais pacato e neutro silên... – Rico foi interrompido por uma buzina ensurdecedora. Todos levaram o maior susto de suas vidas.

Eloá pegou um dos revólveres, e correu na direção do portão. Ana apanhou outra das armas, e a seguiu. As duas tentavam enxergar quem poderia estar no volante, e pela reação que tiveram, realmente ficaram pasmas. Abriram o portão, deixando todos nós confusos e ansiosos. Uma Kombi branca entrou no acampamento, acelerando e derrapando num semicírculo, estacionando a poucos metros de onde nós estávamos parados. Os faróis ligados no máximo foram desativados. Coturnos masculinos pisaram forte na terra, e quando a porta do motorista se fechou, levei um susto. Porque eu já conhecia nosso “visitante”.

Diogo voltara para casa.

Notas finais
Bem, vou postar mais um capítulo hoje. Aguardo a opinião de vocês por MP e reviews! Beijos e Abraços!!!

Dropping.