Quebranto.
62 Ecos.
Notas iniciais
Tânia.
Ana não parecia tão triste quanto antes. De certo modo, ficava mais fácil ver a maneira com que ela se parecia, com o passar dos tempos. Toda a história com a Privilège, havia modificado nosso modo de ver as coisas. Reconhecemos que, de maneira meteórica, nosso mundo submergiu no que pudemos finalmente reconhecer como o fim. Nunca poderíamos voltar. Nada seria como antes, nunca. Sem novos arranha-céus, matas devastadas e espécies em extinção, além da nossa. Sem mais oceanos repletos de óleo e calotas polares derretendo. O mundo nunca mais seria o mesmo. Nós, não éramos os mesmos. De muitas formas, tomar ciência disso tornava o fardo menos pesado. Fazia com que um futuro sem esperança, pudesse ser menos devastador. Ainda assim, eu recusava-me a acreditar na mera rendição, no simples viver. Eu tinha um propósito, uma motivação. A esperança final, que me mantinha firme, ao invés de prostrada diante da incerteza. Fernanda, e seus bebês. Desde que eu perdera meus filhos, nunca antes havia me aproximado tanto de alguém, quanto das pessoas que por sorte, eu conhecera através de Saulo. Muitos amigos haviam deixado-nos, pelo caminho. Pessoas importantes, e que a cada dia faziam mais falta. Madeline. Diana. Minhas amigas, irmãs de alma. Conversas e momentos de sorrisos sinceros e lágrimas amigas. Havíamos transmitido forças, umas às outras. Aquele não era um mundo para velhos. E eu me sentia a cada dia, dez anos mais velha.
Sentei ao lado de Ana, na sala vazia. Todos pareciam nervosos desde que o pequeno grupo retornara do exterior. Eu não tinha ciência total das razões, mas sabia que nunca era bom presságio. Fitando minhas próprias unhas, quebradas e mais irreconhecíveis que o normal, notei o olhar simpático de minha aprendiz sobre mim. Desde que havíamos nos conhecido, era natural passarmos alguns minutos trocando experiências. Aquela menina era diferente, como se de uma forma toda especial, tivesse nascido para aprender. E antes daquilo, queria ser médica. Me entristecia o fato de que ela não poderia estudar numa universidade. De que nenhum deles poderia. Não poderiam se decepcionar, se alegrar, casar, divorciar, nem ter filhos como as pessoas normais. Era como se aos poucos, uma nova Terra estivesse substituindo a antiga. O mundo ultrapassado do qual eu era uma parte. Deslocada. Era como uma velha devia se sentir num mundo de vidas curtas e mortes precoces. Cansada. Cada vez mais. Passei a mão em meus cabelos, sempre amarrados num pequeno rabo de cavalo. Senti minhas próprias rugas enquanto meus dedos ásperos massageavama pele exausta. Suspirei, e então, fitei o teto sombrio à luz de velas.
– Está tudo bem, Tânia? — Ana indagou, a voz baixa e respeitosa. Suspirei novamente. Lágrimas me vieram aos olhos ao lembrar de Fernanda. Não estava tudo bem.
– É como se o mundo não quisesse o nascimento dessas crianças. Como se de alguma forma, essa dimensão distorcida na qual estamos presos, estivesse tramando para matar a vida nova. Não posso fazer muito por Nanda. Não sou médica. E nunca fui a melhor das enfermeiras. — confessei, sentindo um soluço contido gritar em meu peito. — Eu queria poder fazer mais, querida. Sequer posso responder às cobranças de Ricardo, sobre o estado dela. Assim como ele, estou de mãos atadas.
– Não se sinta assim. — para minha surpresa, ela sorriu. — Nanda já sabia que seria difícil. Ela está lutando também. Você manteve Manuela viva, quando mutilou a mão dela. Tentou salvar Luca. Curou Hugo quando ele levou um tiro. Já remendou Vicky e Diogo centenas de vezes. Tânia, nós não estaríamos aqui sem você. — Ana acariciu minhas mãos, entre as dela. — Estamos juntas nisso. Você vem me ensinando muito bem, e prometo dar o meu melhor para ajudá-la. Tudo o que Madeline e Diana representavam, agora reside em você. Precisamos da sua força pra termos esperança.
– Tem razão, Ana. — admiti, sorrindo e chocada, pois tudo o que ela me dissera fazia sentido. — Cada um deve fazer a sua parte. Temos que dar o nosso melhor. Fernanda está pronta para lutar, bem mais do que nós.
– Com licença. — cortou-me Gabriel, descendo as escadas. Fiquei curiosa, pois achara que não o veria até o dia seguinte. — Não é nada com ela, não se preocupem. Mas tenho uma coisa ruim pra dizer. Um pombo bateu na nossa janela. Temos que avisar aos outros.
Imediatamente, Ana ergueu-se de sua cadeira, olhando ao redor com uma nova perspectiva, bem como eu. Juntos, nós três nos dirigimos ao lado de fora, onde encontramos nossos amigos. Eles estavam cercados de pombos mortos. Não muitos, apenas o suficiente para significar um bando menor. Pelo visto, ninguém havia se ferido também. Hugo sorriu na minha direção, enquanto ajudava Ricardo a recolher os animais para dentro de uma sacola de plástico negro. Em pequenos trios ou duplas, todos estavam espalhados no lado de fora, ajudando a arrumar a bagunça. Certamente que ninguém queria sentir aquele cheiro de podre por muito mais tempo. Victoria aproximou-se de mim com um olhar indagativo. Apenas sorri e movimentei meus lábios para formar um "ela está bem". Depois de mais uma meia hora de trabalho duro, conseguimos deixar tudo em ordem novamente. Mas era como se uma presença inexplicável se mantivesse fixa ao nosso redor. Como se olhos invisíveis e presentes estivessem atentos a nos espiar. Como uma maré inconstante, inconsciente. Mas devastadora. Como o mais sórdido segredo, que espera o momento certo para nos denunciar. E eu sabia que, com a experiência que todos já tínhamos com aquelas criaturas, os outros deviam estar tão certos quanto eu de que aqueles ataques eram apenas o começo de um novo ciclo. Mobilidade. Cecília nos alertara antes de que nenhum abrigo poderia durar muito. Era a regra. Correr, mudar. Recomeçar. Um nômade eterno. Era no que aquele mundo, transformara o ser humano. A lua cheia nos brindava com sua excelência, quando Victoria tomou a palavra.
– Pessoal, é bom ver que estamos todos bem. Mas precisamos tomar uma atitude. Sabemos o que tudo isso significa. Hoje mais cedo o grupo de busca encontrou uma Inumana. Uma inumana capaz de dominar animais. E ela está vindo para cá, para nos atacar. É bem óbvio. Principalmente depois dessa revoada de pombos. Que por coincidência ou não, foram os animais que ela enviou para seguir a nossa van. — Vicky procurou o olhar de Diogo e Ricardo. Os dois confirmaram o fato, com um gesto. — É só uma questão de tempo. Temos que nos preparar para ela. Nanda não pode deixar o acampamento tão perto de ganhar os bebês.
– Eu diria que falta pouco menos de um mês, ainda. — interceptei o assunto. — Mas não creio que ela possa esperar tanto. Fernanda está doente. — aquele fato abateu-se sobre nós como um véu negro. Mas eu não queria mais esconder nada. — Não é só uma hipertensão natural, de gestante. Ela tem alguns sintomas específicos, e eu apostaria as minhas fichas numa febre amarela. O que é muito grave, considerando os recursos nulos que temos. Os bebês nascerão antes do tempo. E existem chances grandes de não sobreviverem, se estivermos em fuga quando a mãe deles estiver dando a luz.
– Isso torna tudo muito mais sério. — declarou-se Otávio. — Temos que combinar uma estratégia. Para proteger a Nanda, e lutar pelo nosso abrigo. Ao mesmo tempo.
– Eu vejo morte, mas também vida. — Cecília nos fitou, abraçada com Otto. — Sempre existem sombras nas minhas visões. Mas nesta, também há luz.
– Não me interessa se fugir é pior. Precisamos mesmo ficar aqui se já sabemos que um monstro está vindo? — objetou Carol, de cara feia.
– O monstro é Lívia. — contou Ana, e o rosto da menina enrugou. — A filha da Diana. A menininha ruiva que gostou da Vicky, lembra? Diana pensou que havia matado a própria filha, deixando-a para trás com cães do inferno em seu encalço. Mas ela os domou. E ela é nosso alvo.
– Não podemos deixar uma criança caminhar por aí, na forma de um demônio. — Ricardo sussurrou. — Eu pensei que ela fosse uma criança comum. Tentei ajudá-la. E agora que sei que é filha de Diana, farei o possível para matá-la, e cumprir o que a mãe dela desejava.
Aquilo encerrou a questão. Era mais que óbvio que alguns de nós estavam mais entusiasmados com aquele plano que outros, mas todos ajudavam da melhor forma possível. Começamos a limpar um dos quartos mais afastados, para ocultar Fernanda enquanto os outros tivessem de lidar com a pequena inumana. Não me parecia um mar de rosas, mas era tudo o que tínhamos num momento de desespero. Acompanhando-me, Victoria e Ricardo seguiram por perto durante todo o caminho para o quarto de Nanda. Ana e Gabriel estavam ao lado dela quando chegamos. Sorrindo com ar exausto, ela esforçou-se para sentar enquanto era examinada. Ana alisou seus cabelos e afastou-se abrindo espaço para que eu pudesse vê-la melhor. Com um sorriso abatido quase que petrificado no rosto, Nanda segurou minha mão apertado. Sentir sua pele tão frio quase me fez perder as forças, mas resignei-me a auxiliá-la naquele momento, esquecendo as implicações futuras que as próximas horas teriam. Haviam coisas piores com as quais eu tinha de lidar bem na minha frente. Gabriel sustentou-a por um dos braços, e eu mesma agarrei-a por outro. Juntos, caminhamos lentamente até deixar o cômodo. Cada passo era como caminhar sobre brasas para Fernanda. Ela gemia e resmungava, mas sequer parecia fragilizada. Uma menina de seda, mas resistente como cabos de aço. Enquanto descíamos as escadas, senti o peso de seu corpo magro concentrar-se na base de minha coluna. Certamente aquilo me custaria algumas horas de dor e incômodo, mas era Gabriel quem carregava de fato a namorada. Ele parecia preocupado e fora de seu estado normal em tantos níveis, que temi ter de medicá-lo, cas passasse mal de estresse e nervosismo. A ansiedade era um sentimento mútuo nos últimos minutos, mas precisávamos manter a calma, ou tudo seria uma bagunça. Ainda que cada um de nós estivesse em conflito, por dentro. Passamos entre todos os membros de nossa estranha família durante nosso trajeto. Todos desejaram sorte pra nós, principalmnete considerando que eu tentaria induzir o parto das crianças de Nanda, antes da hora correta.
Ela suspirou de alívio quando alcançamos o lado de fora. Estava começando a esfriar, e à despeito disso, não haviam nuvens no céu. O tapete estrelado que forrava a abóbada celeste, era como um mar de explosões e cores luminosas. Como ecos de um passado distante, de eras de civilização e falsa segurança. Um eco de sombras perdidas, de luz inimaginável. De repente, senti inveja de Cecília. Eu gostaria de ver o futuro como ela. Era provavelmente mais fácil se conformar com as perdas, quando já se tinha certeza do caminho que elas tomariam. O quarto de Fernanda ficava num dos quartos de hóspedes separados do prédio principal da pousada. Em alguns daqueles quartos, ninguém havia mexido até o presente momento. Eu temia que tipo de coisa encontraríamos ali, caso vasculhássemos demais. Em nossos primeiros dias, apenas retiramos alguns objetos úteis que pudemos encontrar, e algumas roupas e alimentos abandonados que sugeriam (e não pela primeira vez) que anteriormente, um outro grupo já se hospedara naquele lugar. O que os teria feito fugir, afinal? Eu não sabia, e rezava para que não precisasse descobrir. Ricardo abriu a porta de madeira do quarto, girando a maçaneta de inox. Apoiando o braço frágil, levei Nanda para dentro. Ali, naquele novo local, ela estaria mais próxima da saída caso alguém tivesse que resgatá-la rapidamente, mas ainda suficientemente escondida para não ser um alvo principal de Lívia. Dentro do cômodo, Carolina, Lavínia e Manuela nos aguardavam, sorrindo. Elas haviam limpado e posto todo o local em ordem para receber-nos, e haviam feito um ótimo trabalho. Nem era possível ver a marca de sangue no piso de madeira, que notara mais cedo.
– Vocês fizeram um ótimo trabalho, Carol. Obrigada. — eu disse, sorrindo. Eu sequer havia assimilado que Carolina nos salvara a todos, semanas atrás. Sempre imaginei que ela escolheria o caminho mais fácil. A subestimei, como todos os outros. Mas pensando bem, às vezes o cmainho mais fácil se torna o mais difícil, se não temos com quem partilhá-lo. Tenho certeza de que as motivações que a moveram não passaram exatamente por esta linha de raciocínio, mas em suma, eram as mesmas que eu supunha. Na prática, serviam ao seu propósito. Muito embora velhos hábitos, nunca morressem.
– Bem, sou ou não uma fada madrinha? — ela riu, e fitou Nanda. — Descanse.
– Vamos te trazer comida logo. Dante ficou de olho nas panelas por nós. Acredita que o fogão da pousada ainda está funcionando? — riu-se Lavínia, com uma alegria que quase me fez duvidar sobre sua profissão anterior ao desastre. Ela era, ao menos aparentemente, uma cozinheira. E não professora.
– Sem eletricidade, usamos palitos de fósforo pra ligar aquela coisa. Nem acredito que vamos comer algo realmente cozido. Batatas fervidas e amassadas já estavam me enervando. — Manuela usou a mão ferida para arrumar os cabelos, e sorriu. Ela notou que meu olhar fora totalmente preso pelo curativo e sua expressão suavizou. — Tânia, já te agradeci muitas vezes. Você me salvou. Não deve se sentir mal.
– Eu sei. — era fácil ter em mente uma coisa. Realmente acreditar nela, era complicado quando não se tinha um parâmetro adequado. E se Manuela não morresse, apenas mudasse? Eu podia muito bem tê-la mutilado por nada.
– Vamos deixar vocês se instalarem. — Ricardo saiu com Victoria, seguido pelas meninas.
– Obrigada, gente. — murmurou Nanda, segurando de leve em seu crucifixo enquanto os outros já não podiam ouvi-la. — Estou tão pesada...
Quando eles nos deixaram, Fernanda afundou-se na cama, suspirando profundamente. Ela não tivera uma crise em mais de um ano, desde que Victoria sacrificara-se para trazer-lhe algumas bombinhas de oxigênio. Nos meses entre esta ocorrência e o estupro do qual era fora vítima, não passara mal nenhuma vez. Nem mesmo durante a gravidez, em que estivemos na estrada, cercados de perigos e logo em seguida atolados nas teias de Topázio. Ela vinha reagindo bem àquilo. Era como um mantra em minha mente, fortificar a admiração pelo seu sacrifício. Era o pior momento para ser uma gestante. E eu odiava dizer, mas se Cecília não tivesse previsto a morte de Fernanda, eu o faria agora. Fitando seu estado pálido, fraco e imerso numa espiral decadente que parecia puxá-la para o Hades. Assustador. Gabriel afofou os travesseiros da namorada, e aconchegou-se na cama ao lado dela, por cima do edredon que a cobria. Ele a abraçou por sobre os ombros, e Nanda posicinou a cabeça sobre o seu braço. Caminhei lentamente até a poltrona de um lugar próxima da janela que Carolina pregara com tábuas de madeira, e sentei-me. Não havia muito a fazer, além de rezar para que tudo o que tivesse de acontecer, não nos tocasse. Para que o horror que estivesse reservado para nós, por apenas um momento, esquecesse de voltar seus olhos para aquela jovem e pobre menina.
Hugo.
Sabrina estava limpando sua arma, quando aproximei-me sem ser notado. Ela pulou levemente ao sentir-me sentando ao lado dela no pequeno banquinho escondido em meio ao matagal onde conversáramos antes. Aquele de alguma forma tornara-se um lugar compartilhado apenas pelo nosso silêncio. Uma área de meditação, num modo mais claro. Um oásis onde nenhum problema era urgente o bastante. Considerando que nenhum de nós dois era uma peça essencial no grupo (e já estávamos conformados com isso), ninguém parecia se importar com nossas escapadas. Ninguém parecia se incomodar em não nos ver mais por perto. Haviam problemas maiores a serem resolvidos. E enquanto a parte de Sabrina era atirar no alvo e proteger os mais fracos, ela parecia bem confortável em estar ali comigo, se escondendo. O mais peculiar, era que eu tinha absoluta certeza de que ela não estava escondendo-se do mundo, como eu. Tudo se resumia à Ana. Ela sorriu pra mim de maneira simpática, e continuou esfregando o pequeno lenço verde em suas mãos contra as peças de uma pistola calibre quarenta e cinco desmontada. Eu não gostava de armas, nem sabia usá-las corretamente. Isso havia funcionado nos últimos anos, mas por quanto tempo mais? Eu era razoável com facas, mas ainda assim muito melhor em correr.
– Estressada? — inquiri, com um toque de humor na voz.
– Na verdade, não. Estou ótima. — ela me olhou, e seus cabelos loiros caíram onde estavam maiores. Apesar dos lados desiguais, ela continuava bonita. O corte raspado anterior, fora há semanas esquecido. — Ana finalmente me fez entender que tenho que esperar o tempo dela. Logo ela vai saber se ainda tem alguma chance pra gente. Então, o que tiver de ser vai ser. Além do mais... Essa ansiedade toda me dá no que pensar. Você precisava ter visto essa garotinha, Hugo. Ela era assustadora.
– Otto me disse que ele, Vicky, Carol e Ana a conheceram. Quando ainda era uma criança normal. Deus sabe que tipo de sujeira deve ter acontecido com ela, desde que Diana a abandonou. — imaginei, já quase angustiado mesmo sem imaginar a face de Lívia. — Ricrdo me disse que ela é tão bonitinha que você pensa em ajudá-la. Se eu estivesse lá, teria aberto a porta da van pra ela.
– Não por isso. Eu mesma demorei a entender o que Ana estava dizendo. Achei que ela estava ficando doida. — rindo, Sabrina voltou a limpar sua arma, e eu distraí-me estalando os dedos das mãos.
Ouvimos a grama alta e o capim movendo-se ao nosso redor, e nos levantamos alarmados e aterrorizados. Talvez nossas reações houvessem sido exageradas sobre aquilo, já que tudo o que encontramos foi um Dante confuso e embaraçado. Ele ergueu as mãos em rendição de paz, sorrindo de maneira tola. Eu mesmo acabei rindo quando ele se aproximou. Qual era o problema dos loiros? Por que ficavam deixando os cabelos crescerem? Os de Dante quase cobriam-lhe os olhos, deixando-o com a aparência híbrida de um surfista ou viciado em heroína. A piada me fez pensar em Cecília, e senti-me subitamente mal por isso. Ele sentou-se entre mim e Sabrina, e a menina o fitou com curiosidade. Não que eu estivesse menos curioso. Não só ele sabia exatamente onde me encontrar, como também não estava disfarçando a maneira desconcertante com que frequentemente eu o pegava me encarando. Aquilo pareceu divertir a loira, que de maneira perversa levantou-se, espreguiçou-se, e começou a lindamente deixar nosso esconderijo, entregando-me aos lobos. Ao lobo.
– Tenho que ver o Diogo antes que seja tarde. Preciso combinar com ele onde devo me posicionar. Vejo vocês logo. Não fiquem aqui fora por mais tempo que o necessário. — ela nos avisou, piscando odiosamente na minha direção. Revirei os olhos. Sua sombra a seguiu, e logo não havia sinal de Sabrina.
– Hugo, eu precisava falar com você. — merda, essas palavras não! — Não sabia como fazer isso com todos ao nosso redor o tempo inteiro, mas finalmente te encontrei sozinho. — graças à Sabrina, aquela vaca. — Preciso falar sobre como me sinto à seu respeito. Creio que você já sabe, eu já sei, e metade das pessoas sabe. E, eu simplesmente precisava deixar claro que estou aqui, por você. Não sou bom em jogos de interesse, e não gosto de arrastar as coisas. Então é isso. Não estou te pedindo nada, nem espero que retribua. Só queria que soubesse. — Deus, por favor não o deixe me beijar como fiz com Otávio. Era tudo o que eu podia pensar, principalmente por causa do clima estranho que fica depois. — Você pensa que o que há entre você e o Ricardo é amor, mas não é. Amor é diferente. E você sabe que sim. — o quê? Não tinha certeza de como ele havia alcançado tamanho diagnóstico.
– Olha Dante, eu realmente te acho incrível, você é uma pessoa maravilhosa. Mas simplesmente não posso trair Rico. Eu o amo, e estamos muito bem. Fico honrado que me veja de um modo tão bonito, mas não consigo dar falsas esperanças a ninguém. Você não merece a bagunça que eu sou. Acredite. Só vou atrasar o seu lado. — avisei, brincando. Mas nem com mil demônios o que eu dissera era mentira.
– Eu duvido muito disso. — então ele se aproximou e colocou uma das mãos no meu pescoço. Num movimento instintivo me esquivei para trás e escorreguei do banco, caindo de traseiro no chão verdejante. Inclinado na minha direção, Dante fitava-me com um olhar incrédulo e divertido, ao mesmo tempo.
– Isso é que é jogo duro. — ele se levantou e me estendeu a mão. A segurei e ele me pôs de pé. Bati a calça expulsando a umidade que ali se acumulara, e percebi tarde demais que ainda estava segurando a mão de Dante. Minha bochecha ardeu e o soltei. — Melhor irmos, não? — confirmei. Viramo-nos para voltar, e demos de cara com Lavínia. Parecia que meu esconderijo só era secreto na minha própria mente. Maldição.
– É verdade, então? — ela perguntou, num tom de voz um pouco mais alto que o normal. Eu não entendi a quê ela se referia, então devo ter feito uma careta bem autoexplicativa. Pois ela logo corrigiu-se. — Você é gay, Dante?!
– Hãn, sim? — ele disse. — Não ando com uma placa de néon pendurada no pescoço, mas está meio que implícito. Nos conhecemos há tanto tempo que achei que não era necessário explicar.
– Não achou necessário? Eu estava louca por você! — ela gritou, e meus olhos se arregalaram de pavor. — Sempre fiquei próxima de você, e você nem mesmo me via! Agora, fica pelos cantos com ele, traindo e mentindo pros outros!
– Não tem ninguém cometendo traição aqui, pelo amor de Deus! — me defendi, de modo pouco mais esganiçado do que pretendia. — Dante e eu estávamos conversando. Francamente Lavínia, eu nunca a vi desse modo. Seja razoável.
– Não fale comigo, Hugo! É tudo culpa sua! — ela rebateu, correndo de volta pra pousada como se o mundo fosse acabar, e... Piada ruim. Apenas dei-me ao trabalho de encarar Dante, que parecia total e plenamente atemorizado com aquela situação.
– Melhor irmos pra dentro. — ele acenou em concordância, mudo.
Uma vez já no interior da pousada, sai em busca dos gêmeos. Eles estavam sentados no quarto em que dormiam nas últimas semanas, e pareciam realmente interessados no cubo mágico que Otávio conseguira. O presente cumprirar bem o seu papel e ao menos por enquanto, a mobília parecia segura. Vilma estava sentada no chão ao lado da cama do irmão, enquanto Dino mexia no brinquedo de maneira agressiva e desesperada. Era óbvio que eles estavam com dificuldades. Meu coração pela milésima vez se encheu de amor por aquelas crianças. Eles eram minha família, talvez até mais que o resto do grupo. Eles eram especiais. Como os filhos de Nanda, que iriam nascer. Estavam crescendo em uma outra realidade, e precisavam ser protegidos.
– Oi, pessoal. — chamei, e eles fitaram-me, com uma alegria que era quase um presente. Não éramos tão próximos, antes. — Preciso que venham comigo. Podem trazer o cubo. — eles se olharam, mas então se levantaram para me seguir.
– Estamos indo nos esconder, não é? — perguntou Dino, mau humorado.
– É claro. Mas eu preferiria usar outra palavra. Vocês vão ajudar o Gabriel a proteger a Fernanda. Melhorou? — sorri, e ele emburrou a cara. Vilma o cutucou, e ele acabou rindo também. Puxei as duas facas que eu enfiara no cós da calça, e as estendi na direção dos gêmeos. — Uma para cada um. Os adultos vão precisar de todas as armas. Não é porque não confiamos em você. — já fui explicando, antes que Dino reclamasse. — Todos precisamos fazer a nossa parte, cada um com seu trabalho. Lembram? — eles concordaram. — Perfeito. Agora, vamos ver nossa barriguda favorita...
Deixá-los com Nanda foi fácil. Agarram-se à sua barriga, como se esperassem por um irmão. É claro que provavelmente era exatamente esse o sentimento que eles tinham pela criança, a julgar pelo modo como eram apegados à ruivinha. De acordo com a intuição de Cecília, nasceriam gêmeos. Será que havia alguma ligação com as crianças? Talvez, fosse só o instinto coletivo da raça humana, lutando para restaurar o mais depressa possível a população, fertilizando ainda mais as mulheres numa tentativa de partos mais produtivos. Uma norma evolutiva interessante. Seria possível supor que em algumas décadas, as mulheres que apresentassem tal mutação poderiam ter cinco ou seis bebês num único parto, regularmente. Tudo para dar continuidade à espécie. Rindo de mim mesmo e minha total falta de noção ao divagar em momentos impróprios, acenei para Tânia e deixei o quarto, fechando a porta assim que saí. Caminhei até a entrada da pousada, e encontrei Victoria apoiada ao muro, os longos cabelos loiros caídos ao redor do rosto enquanto ela parecia meditar sobre algo importante. Estava novamente vestida para o combate. Calças jeans pretas e justas. Botas sem salto de cano alto, luvas de motoqueira, sua jaqueta roubada, e uma blusa justa e simples, totalmente cor de rosa. Havia um soco inglês preso ao seu cinto, bem como uma faca de caça da loja de acampamento que havíamos saqueado, e uma trinta e oito. Não me parecia que Nora a deixaria indefesa mesmo sem tudo aquilo, mas me deixava bem mais confortável saber que tanto a parte boa quanto má da Vicky, estavam ao meu lado.
– Nervoso, Hugo? — ela perguntou, delicadamente. Então notei que eu havia ficado parado à sua frente, por tempo demais. Eu estava apavorado. — É melhor você ir pra dentro, querido. Ricardo vai surtar quando souber que você estava andando por aí. Ele está te procurando feito louco.
– Eu estava escondendo as crianças. Acha que vai demorar muito, até que... — e foui interrompido. O som alto de um motor encheu a rua e todos paralisamos. Esperamos, na esperança de que os ruídos seguissem adiante, mas não foi o que aconteceu. Em menos de cinco minutos, um jipe maior que a nossa van quebrou o já prejudicado portão da pousada, derrapando desastradamente no meio do pátio gramado, quase batendo de frente com a fonte ornamentada no meio da propriedade.
Do lado de dentro, uma movimentação intensa se seguiu. Logo, Dimitri, Jonas, Diogo, Sabrina e Ricardo estavam correndo para o lado de fora, armados e com todos os intintos defensivos ligados em alerta máximo. Otto foi o último a sair, e levou um susto quando me viu. Logo depois dele, Ricardo notou-me e sua expressão foi puro pânico. Tenso e totalmente ciente de que estava no meio da linha de fogo com Victoria (com a pequena diferença de que eu não era inumano e não sabia lutar), procurei imediatamente uma arma em minha cintura, como todos havíamos sido ensinados. Sempre levar algo letal consigo, para defesas emergenciais. Contudo, eu nada tinha para me proteger. Lembrei-me tarde demais que tudo o que eu tinha, fora passado para Dino e Vilma. Vilma aliás, sabia lidar com facas melhor do que eu. Meu coração começou a acelerar com todo aquele pânico. Havia uma boa distância entre o local onde eu e Victoria estávamos, e nossos amigos. Por infortúnio, não estávamos tão distantes do jipe invasor. Mas julgando que não haviam chegado atirando, talvez não fossem realmente inimigos, certo? Errado. Quando a porta do motorista abriu-se, a pessoa que desceu de lá descalça e com um vestido que um dia fora branco, trouxe-me as piores recordações da minha vida. Topázio. Viva. Pareceu que por um momento, todos nós prendemos a respiração. Atrás de mim, todos destravaram suas armas. Como se nossa recepção realmente a surpreendesse, Topázio ergueu uma sobrancelha e uma expressão quase tristonha despontou em seu rosto. Atrás dela, um brutamontes gigantescos desceu do jipe, seguido de perto por uma mulher pálida e asquerosa. Um cara assustador veio depois, com olhos fundos e loucos e um sorriso quase que pregado no rosto. Deixaria o Coringa apavorado. Por último, uma garotinha. O medo me dominou quando notei que todos os invasores, eram inumanos. E, como se as Parcas estivessem rindo de nós, tremi ao notar que nossos piores pesadelos haviam tornado-se verdadeiros. Não havíamos nos preparado para tantos. O olhar de Topázio rapidamente alcançou Victoria. Qualquer ensaio de emoção que havia ali, se foi. Minha amiga tomou minha mão na dela, e puxou-me para que eu me posicionasse atrás do seu corpo, protetora. A loira desgrenhada (nem se parecia mais com a cruel perua que eu conhecera) riu alto com a tentativa que Vicky fizera para me defender. Ouvi o som da porta principal da boate batendo, e virei-me a tempo de ver Dante saindo com uma barra de ferro na mão. Ele estava arfando e seu olhar foi desolado ao ver onde eu estava.
Não pela primeira vez, desejei ser qualquer outra pessoa, menos eu.
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