Quebranto.
61 Déja Vu.
Notas iniciais
Topázio.
O Chefe estava gargalhando. Ele ria, tirava algumas lágrimas dos olhos perturbadores, e então recomeçava a rir. Seu riso estava me dando nojo. De mãos dadas com Jeff, eu senti que o deboche o estava incomodando, e também à Samantha. Totalmente alheio, Gárgula brincava com uma vespa que encontrara voando perdida do enxame. Ele a despedaçava, aos poucos, como um bebê faria sentado ao chão, com blocos que se encaixam. Sorrrindo para Jeff, o pedi que ficasse calmo. Ele sorriu timidamente, e pousou a mão sobre minha coxa, atrevido. Ignorei o gesto, sabendo que apesar de me desejar, ele passara a me ver como sua única salvação, como sua fortaleza. Samantha demonstrara certos ciúmes ao nos ver juntos, mas Chefe... Ele havia começado a rir. E ainda o fazia, enquanto mastigava de maneira obscena, um pedaço de carne meio assada. Eu preferia nem pensar em que parte humana ele estaria comendo.
– Isso só pode ser brincadeira... — ele gemeu, suspirou, e riu. — Jeff esquisitão com a Madame? É, esse mundo de merda é doido mesmo. Não se ofenda meu bem, mas a Madame é muito melhor que você. — ele disparou frígido, contra Peçonha. Ela se retesou, como uma cobra ameaçada. Ofendida. Ultrajada. Aquilo não podia ser melhor. Chefe estava fazendo todo o meu trabalho por mim. — Eu achei que ela ia ser minha putinha, quando eu me cansasse de você, mas o retardado do seu irmão chegou antes. Isso é que é hilário... — ele riu de novo, e não percebeu que os lábios de Samantha haviam se curvado sobre os dentes superiores, num rosnado. Revolta pura. — Quem sabe você não me deixe usar ela depois, hein Ninja?
– Topázio é minha. — rebateu meu pequeno Jeff. Ele apertou minha mão, e abaixei a cabeça, numa falsa fragilidade. Delicadamente, esfreguei meu polegar sobre as costas da mão dele, e o senti tremer. Medo de me perder para o homem que ele sempre temera, desde que haviam se conhecido. Como um rato encurralado, eu sabia que era apenas questão de tempo até que ele atacasse. — Só minha.
– Ah é? — observou Chefe, em silêncio logo depois. Ele riu, e então seus olhos tornarem-se tão precisos quanto lupas, sobre o casal de irmãos à sua frente. — E você vai fazer o quê se eu disser que vou foder ela, Jeff Esquisito? Ahn? — ele riu, levantando-se do jipe e se aproximando de nós, que estávamos sentados em caixotes de madeira, no asfalto. — Vai me matar, Jeffinho? — provocou, dando uma bofetada tão forte no rosto do Ninja, que o fez se encolher inteiro.
– Não bata no meu irmão! — chocou-se Samantha, com a mão sobre o coração. Ela abraçou Jeff febrilmente. — Ele é tudo que eu tenho! — havia fúria e insanidade em sua voz. Chefe embruteceu sua expressão. Ela nunca antes se erguera contra ele.
– Acho que vocês esqueceram quem manda por aqui... — ele resmungou mais para si mesmo, que para nós. Então agarrou a maltratada Peçonha pelos cabelos, e a jogou no chão com um único e violento movimento. Ela chorou quando o impacto a desnorteou. Com os lábios sangrando, Jeff ainda estava paralisado de terror. — Se me desafiar novamente, vadia, eu corto fora sua cabeça e depois faço teu irmão foder a sua boca. Ouviu, Jeffinho?! Se eu disser que vou tomar a Topázio pra mim, o que você vai fazer?
– Ela é minha. — ele respondeu. Notei a diferença em sua expressão. O mesmo olhar louco da noite anterior. O sorriso insano lutando para se formar. O Chefe pisara em território minado.
– Ok, vamos educá-lo... — Chefe estava rindo. Ele parecia o tipo de cara mais ridículo do mundo. O mesmo tipo que abusava de garotos como Jeff, e de mulheres como eu antes do mundo virar merda, como ele mesmo dizia. Ele era um babaca antes, e o seria depois. O tipo que mais me fazia gostar de matar. — Vem cá, cadela. — eu sabia que era comigo. Levantei docilmente, e caminhei em sua direção. O olhar de Jeff era louco, desvairado e dolorido, ao ver-me afastando dele. — Me chupa. — sério? Agora Peçonha e Ninja nos olhavam, estarrecidos. Horrorizados. Consegui forçar até sentir uma única lágrima correr no meu rosto. Mas a verdade, é que se o Chefe não fosse um desgraçado, eu até apreciaria sua beleza rústica. É claro que enquanto me ajoelhava aos pés dele, tudo o que eu queria era matá-lo. — Sem dente, vagabunda. Ou corto fora sua língua.
– Eu entendi, Chefe. — respondi. Então abri seu zíper, e o engoli de uma só vez. Pelo canto dos olhos, vi Jeff sentado. Ele estava tendo espasmos, tremendo de ódio. Chefe ria, e segurava-me pelos cabelos. Eu jamais havia permitido que homem nenhum me puxasse pelos cabelos. Com o instinto assassino que eu aprendera a alimentar rugindo em minha garganta, mordi com força. Chefe gritou e me empurrou para trás, caindo de joelhos. Ele gritava, enquanto eu sentia o gosto de sangue na língua. Cuspi, sorrindo. Ele me xingava e me amaldiçoava, mas eu não voltaria atrás. Já havia planejado isso, de qualquer forma. — Gárgula, levante. — o irmão do Chefe me obedeceu. Estava há dias sob minha hipnose. Nosso líder percebeu tarde demais, que eu era muito mais esperta do que ele se julgava ser. — Mate.
Eu gostaria de dizer que ele sofreu. Mas um único golpe do Gárgula, que pisou em sua garganta, pôde rapidamente tirar todo o sofrimento do assassinato. Chefe nem sentiu a própria morte. Uma pena. O grandalhão o silenciou, e apenas ficou parado ao seu lado, esperando meu próximo comando. Olhei para trás, e Jeff estava de pé, perto de mim. Ele me abraçou e estava chorando. Um bebê indefeso nas minhas mãos. Um assassino frio para meus inimigos. Samantha chorava pelo homem cuja morte eu provocara, mas não parecia hostil comigo. Ela me olhou com outro sentimento... gratidão? Talvez. A ajudei a se levantar, e logo limpei-a da poeira do chão. A típica mulher abusada. Jeff tirou o sangue seco da boca, e nós três ainda ficamos algum tempo sem dizer nada, nos olhando e respirando com dificuldade após o que ocorrera. Até que Lívia chegou.
– O que houve aqui?! — ela estava assustada. Passou direto por nós, e se ajoelhou ao lado do Chefe. — Papai... — ela não chorou. Eu sabia que não choraria. Mas queria encontrar um culpado.
– Chefe estava espancando o Gárgula. Ele se descontrolou, e revidou. Matou seu pai. Eu o controlei, e impedi que se voltasse contra nós. — menti. Imbui minha voz de poder, mas senti resistência naquela criança diabólica.
– O Gárgula também mordeu o pau do Chefe? — ela me desafiou. Senti um arrepio diante da sua expressão mortal. Uma lacraia desceu de seus cabelos e perdeu-se sob suas roupas, certamente fascinada por sua mestra. Eu podia entender o poder de Lívia. Mas meu domínio era humano, enquanto o dela animal.
– Eu o matei. Eu domino o Gárgula. Protegi Jeff e Samantha de um imbecil. — eu disse, sorrindo. — Sua nova líder está aqui. Você quer morrer também, menininha? — ela sorriu de volta.
– Encontrei o cheiro que o Chefe estava procurando. A garota. Victoria. — como ela sabia o nome? — Eu também quero achar ela. Ela tem muitos amigos, muita comida. E não me importa quem vai me levar. Mas por matar meu pai adotivo, você me deve uma. A loira é minha agora.
–Eu tenho contas a acertar com alguns deles. Principalmente ela. — acrescentei, avisando que o bando de imbecis era meu. — E não vamos mais comer gente. É nojento. Até pra mim. — virei-me para Jeff, que parecia ligeiramente incomodado com minha decisão. Por fim ele assentiu, e com ele Samantha. Lívia deu de ombros.
–Que seja. Mas quero escolher um pet novo. O Mordida morreu. — ela rebateu. Eu ri. Uma versão minha, em miniatura. Samantha e Jeff estavam em silêncio, mas já interessados nos nossos planos. Lívia ergueu um braço no alto, e um pombo veio voando até pousar em sua mão. — Eles não viram meu bebê no teto da van, antes de irem embora. Mandei alguns bichinhos voando pra enganá-los, enquanto tinha um o tempo todo em cima deles. — ela se divertiu, travessa. Adorei que estivesse ao meu lado. — Me conte tudo agora, lindinho... — ela colocou o pombo diante de seus olhos, e o cheirou. — Ah sim. Achei eles. — então ela quebrou o pescoço da ave, e a largou no chão, a criatura estremecendo enquanto o que a mantinha de certo modo viva, ia embora.
– Então Princesa, parece que temos uma visita a fazer. — eu ri, trocando um olhar sedutor com Jeff, e afagando o braço de Samantha num gesto de amizade tão verdadeiro quanto meus cabelos loiros. — Quando pegamos o jipe?
– Mordida? — chamou Gárgula, me fazendo rir.
Victoria.
Eu quase gritei de alegria, quando vi todos bem. Haviam penas, sangue e muitos arranhões na van, mas ao menos todos estavam inteiros. Eu teria tempo para perguntar os detalhes depois. Com o coração acelerado, corri na direção de Diogo, e o abracei apertado. Com um som ofegante e supreso, ele amparou-me no peito, rindo. O desequilibrei de leve, e ele riu mais abertamente, enquanto suas mãos firmes envolviam minha cintura. Eu não era a única esperando. Ao lado da entrada principal da pousada, os gêmeos, Otto e Cecília sorriam, para nosso pequeno grupo de busca. Ana ajudou Sabrina a descer do veículo, e notei que ela parecia um pouco abalada. Aquilo me provocou certo estranhamento. Ana não costumava ficar esquisita daquela forma há semanas. Rico também não parecia de todo bem, ainda que sorrisse ao nos encontrar. Ele se aproximou de mim com um sorriso tímido, e acenou com a cabeça na direção dos outros.
– Viu o Hugo por aí, Vicky? — indagou-me, com o sorriso um pouco cansado.
– Estava agora mesmo com a Carolina e a Lavínia, preparando o jantar... — contei, apontando para dentro. — Ainda tem um pouco do almoço, se tiverem fome...
– Vai ser difícil pra gente comer agora, acredite. — riu Diogo. Então ele olhou para os gêmeos. — Por que não vão dar uma volta? — eles bufaram, mas foram atrás de Ricardo, que por sua vez ia atrás de Hugo. Eu acabei rindo, compadecendo-me das crianças. Era um saco querer saber as coisas e não poder. — Encontramos algo muito louco. Melhor você se preparar, Vicky. Pelo que Ana falou, o assunto te interessa...
E então, Diogo me contou basicamente tudo o que ocorrera no encontro deles com Lívia. Uma sensação de peso na boca de meu estômago se instalou, como se algo muito estragado estivesse protestando ali, de modo tóxico e agourento. Cecília me olhou penetrantemente, e eu sabia que era sobre aquilo de que se tratava o seu alerta. Otávio estava disfarçando bem seu próprio nervosismo, mas eu sabia que não podia mais ignorar o que estava havendo. Se não fosse Lívia o motivo para termos de sair daquele lugar, então eu não sabia o que era. O que também, me fazia refletir... As visões sobre Fernanda estavam ligadas ao perigo eminente. Certamente, os bebês estavam pra chegar! Junto com o que quer que a doce garotinha que eu conhecera, houvesse se tornado. Ali, do lado de fora da pousada e à céu aberto, fitei o rosto das cinco pessoas próximas a mim. Eu não arriscava adivinhar o que meus amigos estavam pensando, mas sabia que ninguém deixara escapar que eu estava escondendo algo. Nervosa, fitei minhas próprias mãos entrelaçadas, com medo de deixar transparecer mais do que eu devia. Sabrina, por exemplo, dificilmente aceitaria permanecer ali, sabendo que em breve os bebês nasceriam, e uma criança psicótica estaria à nossa porta. Eu tomara a decisão de evitar o pânico, a dispersão. E faria o possível para garantir que nada prejudicasse a vida dos filhos de Nanda. Ela mesma havia feito um sacrifício muito grande, trazendo-os até aqui, abrindo mão da própria vida. Mesmo com todos os problemas que ela contraíra no trajeto, ainda era na pousada onde residiam suas melhores chances. Eu não tiraria isso dela.
– Vicky... Temos que matar a Lívia, pela Diana. — lembrou-me Ana, e fiquei feliz que ela ainda estivesse pensando nisso. Concordei, assim como Otto. Os outros permaneceram em silêncio, mas sabia que estavam de acordo. — Vou levar os remédios que trouxe para Tânia. Ela vai verificar as validades e medicar a Nanda... — ela começou a retirar-se logo em seguida, parecendo nervosa e aérea. Deteve-se apenas para olhar na direção de Sabrina, que sentara em um banquinho de ferro. — Seu pé já está bom o bastante?
– Sim. Não dói ao caminhar. Foi só o impacto, na hora em que tropecei. — a loira pareceu refletir por um momento, pesando as próprias palavras. — Desculpe por ter sido irresponsável te seguindo sem pensar. — ela mordeu os lábios, nervosa. Ana sorriu de leve, e acenou positivamente, antes de sair sem qualquer outra palavra para nós. Diogo deu de ombros, encabulado com a eletricidade que passara entre ela e Sabrina. Todos nós ficávamos desconfortáveis ultimamente, próximos às duas. Elas estavam piores do que nunca, numa repulsão ou atração oscilantes. Eu não sabia o que pensar sobre isso, mas parecia divertir à maioria do grupo, que não era tão paranóico quanto eu. Sabrina começou a se afastar de nós também, quando Cecília a segurou pelo pulso.
– Vocês foram seguidos? — ela perguntou, assustada. Sá sacudiu a cabeça em negativa, mas os olhos de Cecília apenas se estreitaram, fitando o nada. — Tem certeza?
– Eu não sei. — admitiu Sabrina.
– Tudo vai mudar. Temos que estar preparados para sair daqui em breve. Não se trata mais apenas de Fernanda. — avisou-me Cecília, começando a puxar Otto pela mão, em direção à pousada. Ele também me olhou com intensidade, antes de seguir a namorada a passos firmes. Pelo visto, meus amigos não tinham retornado ilesos sem consequências.
– Tem algo que não estou sabendo? — quase não consegui reprimir a risada amarga que veio à minha garganta, enquanto me encontrava surpresa com o quão pouco Diogo poderia deduzir, sobre o que viria. O que eu não sabia na época, era que mesmo eu sequer imaginava o tamanho do horror que em breve, nos encontraria...
Fernanda.
As mãos de Tânia eram frias, mas delicadas e maternais. Ela rapidamente tirou o termômetro da minha boca, e fitou com interesse a temperatura. Uma expressão agradável perpassou seu rosto, ao constatar que eu não estava com febre, ou coisa parecida. Isso também pareceu relaxar Gabriel, que estava um tanto nervoso ao meu lado. Ele sempre ficava daquela forma, quando nossa amiga vinha checar meu estado. Ou seja, ele ficava uma pilha de nervos, todos os dias, durante as três visitas diárias de vinte minutos cada. Quando Tânia não acabava ficando muito mais tempo, conversando. Com sua expressão constantemente calma e pacífica, a enfermeira colocou uma caneca enorme diante do meu rosto. Torci o nariz. O cheiro não era ruim, mas eu não sabia que líquido verde era aquele. Reconhecendo que eu não beberia a mistura sem saber o que era, minha amiga sorriu.Eu sabia que meu comportamento poderia ser interpratado como infantil, mas eu apenas não queria correr o risco de vomitar tudo o que mantinha no estômago até aquele instante.
– É chá. Capim limão. Achei um pouco nos jardins, aqui mesmo. Tome, vai te acalmar... — ela ofereceu novamente, e comecei a bebericar o chá. Não tinha um gosto forte, mas também não era lá agradável. O mais curioso era que de fato, o sabor lembrava o de limão, de uma forma intrigante. Fiz uma careta. — Nem pense em recusar. Você tem asma, e a erva cidreira pode ajudar a relaxar, assim como a bebida quente. Lembre que não é só por você que precisa deixar esses pulmões bem relaxados, ok? Então, beba... — com apenas mais uma olhadela em sua direção, comecei a beber o resto do copo. — E você, Gabriel? Como está?
– Eu? — ele se surpreendeu, rindo. Tão bobinho. Se preocupava tanto comigo, que constantemente esquecia do próprio bem estar. E Tânia sabia disso.
– Sim, você. Precisa de algo? Sabe, em alguns casos, o pai da criança também enjoa. — ela riu, divertindo-se. Me encheu de ternura ver a expressão no rosto de Gabriel, diante de como nossa amiga o chamara. Ele realmene assumira para si mesmo, que meus bebês lhe pertenciam. Isso me fez sentir muito amada, mas também estranhamente triste por não poder vê-lo como o bom pai que ele se tornaria. Sem mim.
– Eu estou ótimo Tânia. — ele colocou uma das mãos sobre a dela. — E gostaria de te agradecer, do fundo do meu coração. Você está cuidando de nós de um jeito maravilhoso. Não sei nem por onde começar...
– Ora, meu filho! Somos uma família. E eu preciso ser útil em alguma coisa, não? — ela riu. — Vivi tantos anos dando plantões em hospitais realmente precários... Estou acostumada a lidar com todo tipo de situação. Estou resistindo todos os dias, da maneira que posso, e me afeiçoei demais a todos, mas principalmente à vocês dois. Vou fazer o possível para trazer essas crianças ao mundo, em segurança. — ela estava prometendo a mim, também. — Pela memória dos meus filhos. — nos fitamos com uma cumplicidade total. Eu a entendia agora, mais do que nunca. Éramos mãe, e mãe. Amigas, sim, mas também de uma forma ligadas, como nunca antes havíamos estado. Eu podia compreender agora as razões da amizade tão forte que fora estabelecida entre Tânia, Madeline e Diana, desde que as três haviam se encontrado. O sentimento, o amor de mãe, é uma coisa poderosa. Une e identifica como nada mais. Tânia agora era a última entre as três, que continuava viva. E continuaria a ser a última mãe, depois que eu me fosse. Ana entrou no quarto sem fazer muito barulho, depois de alguns minutos. Todos sorrimos ao encontrá-la na soleira da porta.
– Todos estão bem. — ela avisou, adivinhando minha pergunta. — Tânia, encontrei o que precisávamos. Menos bombinhas de ar. — ela desculpou-se comigo, um tanto tristonha. — Não creio que algum dia aquela pequena farmácia já tenha vendido remédios que antes eram mais caros...
– Mas mesmo assim, foi um ótimo achado, Ana! — riu Tânia. — Estão todos na validade. Faltam alguns meses ainda, para que estraguem. São um pouco mais fortes que o ideal, mas posso retirar um pequeno pedacinho, das doses que você vai começar a tomar hoje, mocinha... — ela fitou-me, e acabei relaxando ainda mais. Sem a dor de cabeça e a tontura que me fazia ter de ficar deitada todo o tempo, talvez eu pudesse estar mais forte para o nascimento dos meus filhos. Eu nunca havia sido hipertensa. Mas era algo comum à muitas mulheres, durante uma gravidez repleta de estresse e emoções fortes. Já tão inchada e entregue ao meu estado, nem me queixei. Eu só queria que acabasse logo, de um jeito ou de outro. Mas ao mesmo tempo, não queria deixar a Terra tão cedo. Um paradoxo, como raras vezes costuma ocorrer na vida de alguém tão sem graça e monótona quanto eu. Ou pelo meno, eu ainda me via como a mesma garota de antes. Eu não me tornara algo diferente, nem melhor. Tentei me levantar e uma dor chata nas juntas das minhas pernas me fez revirar os olhos. Aquilo já estava acontecendo há algum tempo. E era insuportável. — Com dor? — Tânia colocou a mão em minha testa, atenciosa. — Um pouco quente. Melhor ficar deitada aqui, bem agasalhada.
– Ok, Tânia. Ela não vai a lugar algum. — garantiu-a Gabriel, fitando-me carinhoso. — Dor nas articulações. — confirmei. — Ela anda com isso há alguns dias. — ele disse à ela.
– Oh, por que não me disse nada? — minha amiga parecia preocupada, e trocou um olhar de que não gostei nada com Ana. — E você também anda tendo dores de cabeça, e tonturas? — confirmei novamente. Já estava me sentindo uma idiota. — Certo. Me deixe te ver sem blusa. — estranhei o pedido, mas considerando que todo mundo naquele quarto já tinha me visto nua, tirei minha blusa, revelando a pele pálida e normalmente cheia de sardas. Mas naquele momento, havia algo mais. Pequenas manchas vermelhas que se espalhavam num padrão desconhecido, mas assustador. Eu não havia notado nada daquilo. — Desde quando sente-se mal, querida?
–Uns três dias. Não quis preocupá-la, Tânia. Por isso não disse nada. Achei que era só minha pressão. — expliquei-me, notando as expressões tensas no rosto de Ana. Elas sabiam de algo que não estavam me contando. — Meus filhos estão bem?
– Vão ficar melhores ainda. — ela respondeu-me. -Eu queria ter como fazer um exame de sangue em você, agora. Poderia rapidamente verificar seu número de plaquetas... — ela olhou para Gabriel. — Ela pode estar com dengue. Não temos notícias desta doença há mais de dez anos, mas com tudo o que aconteceu, não me admira se tiver voltado. Febre Amarela também é uma opção. Nanda, é muito importante que você não faça qualquer esforço, ok? — concordei. — Ótimo. Nossos problemas só começaram na hipertensão. Que Deus nos ajude... Vou descer e ajudar a preparar seu jantar. — ela acariciou meu rosto, e levantou-se, o enorme xale negro que usava evoaçando ao redor dos braços, realcendo a pele negra.
– Eu também vou indo, pessoal. Descanse, amiga. — Ana acenou, e seguiu atrás de Tânia. No silêncio que se seguiu, mirei Gabriel por alguns instantes. Meus olhos arderam, e nossas mãos se entrelaçaram num gesto puramente instintivo.
– Eu não sei se sou forte o bastante. — sussurrei, com medo de dizer a verdade mais absoluta da minha vida, em tom de voz muito alto. Eu estava mais uma vez, hesitando. Mesmo se tratando da vida dos meus bebês, ainda que eu não tivesse pedido por aquela gravidez. Eu temia menos a morte, do que descobrir que tudo no que eu acreditava, era ilusão. Meu Deus, o paraíso... A vida após a morte. Eu nunca antes hava precisado tanto de fé.
– Eu sei que você é. — Gabriel me respondeu. — Posso não ser o mais esperto, o mais forte, nem o mais atraente... — ele riu. — Tudo o que eu faço, alguém faz melhor. Mas ninguém é melhor que eu em te conhecer. Eu nem sei como consegui que você me amasse, você é boa demais pra mim... É por isso que sei que você consegue. Você já se feriu tantas vezes, e continua indo em frente. Seu maior poder, é a perseverança. Já a usou para proteger a todos, use-a para resguardar a si mesma.
Mais aquecida e tranquila do que eu imaginei que poderia ficar naquele momento, recostei-me contra o dossel da cama, abrindo espaço para que ele pudesse se deitar ao meu lado. Eu não conseguia acreditar que possuia todas as qualidades que Gabriel afirmava ver em mim, mas ao menos, por aquela noite eu figira conhecê-las. Conformada com a simples alegria de estar em seus braços, sobressaltei-me quando um pássaro se chocou contra nossa janela. O pombo mutante caiu no chão da varanda, e através das portas de vidro do quarto, o vi permanecer inerte. Gabriel levantou-se e o examinou, atenciosa e respeitosamente.
– Está morto de verdade. Quebrou o pescoço. — contou-me.
– Eu achei que os pombos não voassem sozinhos. Não os mutantes. Eles parecem estar sempre em grupo. — apontei, confusa.
– Bem, esse estava sozinho. Não se comportava como os outros. Mas podem haver outros. — ele concluiu, fechando a janela. — Vou avisar a todos.
Ele desceu as escadas e eu permaneci sobre a cama, me sentindo não pela primeira vez nos últimos dias, uma completa inútil...
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